O crime do padre Amaro, scenas da vida devota
Chapter 36
--Então vossê quando chegou, padre-mestre?
Tinha chegado na vespera. Trazia uma demanda com os Pimentas da Pojeira por causa d'uma servidão na quinta, tinha appellado para a Relação, e vinha seguir de perto a questão na capital.
--E vossê, Amaro? Na ultima carta dizia-me que tinha vontade de sahir de Santo Thyrso.
Era verdade. A parochia tinha vantagens; mas vagára Villa-Franca, e elle, para estar mais perto da capital, viera fallar com o senhor conde de Ribamar, o seu conde, que lá andava obtendo a transferencia. Devia-lhe tudo, sobretudo á senhora condessa!
--E de Leiria? A S. Joanneira, vai melhor?
--Não, coitada... Vossê sabe, ao principio tivemos um susto dos diabos... Pensavamos que lhe ia succeder como á Amelia. Mas não, era hydropesia... E alli o que ha é anasarca...
--Coitada, santa senhora! E o Natario?
--Avelhado. Tem tido seus desgostos. Muita lingua.
--E diga lá, padre-mestre, o Libaninho?
--Eu escrevi-lhe a esse respeito, disse o conego rindo.
O padre Amaro riu tambem: e durante um momento os dois sacerdotes pararam, apertando as ilhargas.
--Pois é verdade, disse emfim o conego. A coisa tinha sido realmente escandalosa... Porque emfim, repare o amigo que o pilharam com o sargento, de tal modo que não havia a duvidar... E ás dez horas da noite, na alameda! Já é imprudencia... Mas emfim a coisa esqueceu, e quando o Mathias morreu, lá lhe demos o logar de sacristão, que é bem boa posta... Muito melhor que o que elle tinha no cartorio... E ha de cumprir com zelo!
--Ha de cumprir com zelo, concordou muito sério o padre Amaro. E a proposito, a D. Maria da Assumpção?
--Homem, rosnam-se coisas... Criado novo... Um carpinteiro que morava defronte... O rapaz anda no trinque.
--Palavra?
--No trinque. Charuto, relogio, luva! Tem pilheria, hein?
--É divino!
--As Gansosos na mesma, continuou o conego. Têm agora a sua criada, a Escolastica.
--E da besta do João Eduardo?
--Eu mandei-lhe dizer, não? Lá está ainda nos Poyaes. O Morgado está mal do figado. E o João Eduardo diz que está tisico... que eu não sei, nunca mais o vi... Quem m'o disse foi o Ferrão.
--Como vai elle, o Ferrão?
--Bem. Sabe quem eu vi ha dias? A Dionysia.
--E então?
O conego disse uma palavra baixo ao ouvido do padre Amaro.
--Deveras, padre-mestre?
--Na rua das Sousas, a dois passos da sua antiga casa. O D. Luiz da Barrosa é que lhe deu o dinheiro para montar o estabelecimento. Pois aqui estão as novidades. E vossê está mais forte, homem! Fez-lhe bem a mudança...
E pondo-se diante, galhofando:
--Ó Amaro, e vossê a escrever-me que queria retirar-se para a serra, ir para um convento, passar a vida em penitencia...
O padre Amaro encolheu os hombros:
--Que quer vossê, padre-mestre?... N'aquelles primeiros momentos... Olhe que me custou! Mas tudo passa...
--Tudo passa, disse o conego. E depois d'uma pausa:--Ah! Mas Leiria já não é Leiria!
Passearam então um momento em silencio, n'uma recordação que lhes vinha do passado, os quinos divertidos da S. Joanneira, as palestras ao chá, as passeatas ao Morenal, o _Adeus_ e o _Descrido_ cantados pelo Arthur Couceiro e acompanhados pela pobre Amelia, que agora lá dormia, no cemiterio dos Poyaes, sob as flôres silvestres...
--E que me diz vossê a estas coisas de França, Amaro? exclamou de repente o conego.
--Um horror, padre-mestre... O arcebispo, uma sucia de padres fuzilados!... Que brincadeira!
--Má brincadeira, rosnou o conego.
E o padre Amaro:
--E cá pelo nosso canto parece que começam tambem essas idéas...
O conego assim o ouvira. Então indignaram-se contra essa turba de maçons, de republicanos, de socialistas, gente que quer a destruição de tudo o que é respeitavel--o clero, a instrucção religiosa, a familia, o exercito e a riqueza... Ah! a sociedade estava ameaçada por monstros desencadeados! Eram necessarias as antigas repressões, a masmorra e a forca. Sobretudo inspirar aos homens a fé e o respeito pelo sacerdote.
--Ahi ó que está o mal, disse Amaro, é que nos não respeitam! Não fazem senão desacreditar-nos... Destroem no povo a veneração pelo sacerdocio...
--Calumniam-nos infamamente, disse n'um tom profundo o conego.
Então junto d'elles passaram duas senhoras, uma já de cabellos brancos, o ar muito nobre; a outra, uma creaturinha delgada e pallida, d'olheiras batidas, os cotovêlos agudos collados a uma cinta d'esterilidade, _pouff_ enorme no vestido, cuia forte, tacões de palmo.
--Caspitè! disse o conego baixo, tocando o cotovêlo do collega. Hein, seu padre Amaro?... Aquillo é que vossê queria confessar.
--Já lá vai o tempo, padre-mestre, disse o parocho rindo, já as não confesso senão casadas!
O conego abandonou-se um momento a uma grande hilaridade; mas retomou o seu ar ponderoso de padre obeso, vendo Amaro tirar profundamente o chapéo a um cavalheiro de bigode grisalho e oculos d'ouro, que entrava na praça, do lado do Loreto, com o charuto cravado nos dentes e o guardasol debaixo do braço.
Era o senhor conde de Ribamar. Adiantou-se com bonhomia para os dois sacerdotes; e Amaro, descoberto e perfilado, apresentou «o seu amigo, o senhor conego Dias, da Sé de Leiria». Conversaram um momento da estação, que já ia quente. Depois o padre Amaro fallou dos ultimos telegrammas.
--Que diz vossa excellencia a estas coisas de França, senhor conde?
O estadista agitou as mãos, n'uma desolação que lhe assombreava a face:
--Nem me falle n'isso, senhor padre Amaro, nem me falle n'isso... Vêr meia duzia de bandidos destruir Paris... O meu Paris!... Creiam vossas senhorias que tenho estado doente.
Os dois sacerdotes, com uma expressão consternada, uniram-se á dôr do estadista.
E então o conego:
--E qual pensa vossa excellencia que será o resultado?
O senhor conde de Ribamar, com pausa, em palavras que sabiam devagar, sobrecarregadas do peso das idéas, disse:
--O resultado?... Não é difficil prevel-o. Quando se tem alguma experiencia da Historia e da Politica, o resultado de tudo isto vê-se distinctamente. Tão distinctamente como os vejo a vossas senhorias.
Os dois sacerdotes pendiam dos labios propheticos do homem de governo.
--Suffocada a insurreição--continuou o senhor conde olhando a direito diante de si com o dedo no ar, como seguindo, apontando os futuros historicos que a sua pupilla, ajudada pelos oculos d'ouro, penetrava--suffocada a insurreição, dentro de tres mezes temos de novo o imperio... Se vossas senhorias tivessem visto como eu uma recepção nas Tulherias ou no Hotel de Ville, nos tempos do imperio, haviam de dizer, como eu, que a França é profundamente imperialista e só imperialista... Temos pois Napoleão III: ou talvez elle abdique, e a imperatriz tome a regencia na menoridade do principe imperial... Eu aconselharia antes, e já o fiz saber, que era esta talvez a solução mais prudente. Como consequencia immediata temos o Papa em Roma outra vez senhor do poder temporal... Eu, a fallar a verdade, e já o fiz saber, não approvo uma restauração papal. Mas eu não lhes estou aqui a dizer o que approvo, ou o que reprovo. Felizmente não sou o dono da Europa... Seria um encargo superior á minha idade e ás minhas enfermidades. Estou a dizer o que a minha experiencia da Politica e da Historia me aponta como certo... Dizia eu...? Ah! a imperatriz no throno de França, Pio Nono no throno de Roma, ahi temos a democracia esmagada entre estas duas forças sublimes, e creiam vossas senhorias um homem que conhece a sua Europa e os elementos de que se compõe a sociedade moderna, creiam que depois d'este exemplo da Communa não se torna a ouvir fallar de republica, nem de questão social, nem de povo, n'estes cem annos mais chegados!...
--Deus Nosso Senhor o ouça, senhor conde, fez com unção o conego.
Mas Amaro, radiante de se achar alli, n'uma praça de Lisboa, em conversação intima com um estadista illustre, perguntou ainda, pondo nas palavras uma anciedade de conservador assustado:
--E crê vossa excellencia que essas idéas de republica, de materialismo, se possam espalhar entre nós?
O conde riu: e dizia, caminhando entre os dois padres, até quasi junto das grades que cercam a estatua de Luiz de Camões:
--Não lhes dê isso cuidado, meus senhores, não lhes dê isso cuidado! É possivel que haja ahi um ou dois esturrados que se queixem, digam tolices sobre a decadencia de Portugal, e que estamos n'um marasmo, e que vamos cahindo no embrutecimento, e que isto assim não póde durar dez annos. etc. etc. Babuseiras!...
Tinha-se encostado quasi ás grades da estatua, e tomando uma attitude de confiança:
--A verdade, meus senhores, é que os estrangeiros invejam-nos... E o que vou a dizer não é para lisonjear a vossas senhorias: mas emquanto n'este paiz houver sacerdotes respeitaveis como vossas senhorias, Portugal ha de manter com dignidade o seu logar na Europa! Porque a fé, meus senhores, é a base da ordem!
--Sem duvida, senhor conde, sem duvida, disseram com força os dois sacerdotes.
--Senão, vejam vossas senhorias isto! Que paz, que animação, que prosperidade!
E com um grande gesto mostrava-lhes o largo do Loreto, que áquella hora, n'um fim de tarde serena concentrava a vida da cidade. Tipoias vazias rodavam devagar; pares de senhoras passavam, de cuia cheia e tacão alto, com os movimentos derreados, a pallidez chlorotica d'uma degeneração de raça; n'alguma magra pileca, ia trotando algum moço de nome historico, com a face ainda esverdeada da noitada de vinho; pelos bancos da praça gente estirava-se n'um torpôr de vadiagem; um carro de bois, aos solavancos sobre as suas altas rodas, era como o symbolo de agriculturas atrazadas de seculos; fadistas gingavam, de cigarro nos dentes; algum burguez enfastiado lia nos cartazes o annuncio d'operetas obsoletas; nas faces enfezadas de operarios havia como a personificação das industrias moribundas... E todo este mundo decrepito se movia lentamente, sob um céo lustroso de clima rico, entre garotos apregoando a loteria e a batota publica, e rapazitos de voz plangente offerecendo o _Jornal das pequenas novidades_: e iam, n'um vagar madraço, entre o largo onde se erguiam duas fachadas tristes de igreja, e o renque comprido das casarias da praça onde brilhavam tres taboletas de casas de penhores, negrejavam quatro entradas de taberna, e desembocavam, com um tom sujo d'esgoto aberto, as viellas de todo um bairro de prostituição e de crime.
--Vejam, ia dizendo o conde: vejam toda esta paz, esta prosperidade, este contentamento... Meus senhores, não admira realmente que sejamos a inveja da Europa!
E o homem d'estado, os dois homens de religião, todos tres em linha, junto ás grades do monumento, gozavam de cabeça alta esta certeza gloriosa da grandeza do seu paiz,--alli ao pé d'aquelle pedestal, sob o frio olhar de bronze do velho poeta, erecto e nobre, com os seus largos hombros de cavalleiro forte, a epopeia sobre o coração, a espada firme, cercado dos chronistas e dos poetas heroicos da antiga patria--patria para sempre passada, memoria quasi perdida!
Outubro 1878--Outubro 1879.
Lista de erros corrigidos
Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+----------+---------------------+----------------------+ | | Original | Correcção | +----------+---------------------+----------------------+ |#pág. 81| ?uz | luz | |#pág. 88| arcepispo | arcebispo | |#pág. 95| branços | braços | |#pág. 152| elle | ella | |#pág. 344| demolissse | demolisse | |#pág. 357| religão | religião | |#pág. 357| Infelimente | Infelizmente | |#pág. 357| podia ter ter | podia ter | |#pág. 360| tataruga | tartaruga | |#pág. 372| patite | patife | |#pág. 396| exemplicar | exemplificar | |#pág. 397| cebeça | cabeça | |#pág. 425| installado-se | installando-se | |#pág. 428| encondo | encontrado | |#pág. 430| iria em em | iria em | |#pág. 436| enconder | esconder | |#pág. 460| atravessassse | atravessasse | |#pág. 463| malacia | malicia | |#pág. 478| grades | grandes | |#pág. 489| necesario | necessario | |#pág. 489| viessa | viesse | |#pág. 492| entercimento | enternecimento | |#pág. 558| appareeeu | appareceu | |#pág. 634| cruxifico | crucifixo | +----------+---------------------+----------------------+
O original não tem capítulo XI, no entanto, a numeração das páginas não apresenta quebra na narração. Optámos por não corrigir a numeração dos capítulos.