O crime do padre Amaro, scenas da vida devota

Chapter 33

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Ah, então tinham-n'o informado mal... Sentia; mas o que o parente queria era uma ama para casa.

Veio dirigindo-se para a egoa, devagar; parou, e abotoando o casacão:

--Mas em casa recebem crianças para criação?...--perguntou ainda.

--Convindo o ajuste, disse o anão que o seguia.

Amaro arranjou a espora no pé, deu um puxão ao estribo, demorando-se, rondando em torno da cavalgadura:

--É necessario trazer-lh'a cá, já se sabe.

O anão voltou-se, trocou um olhar com a mulher que ficára á porta da cozinha.

--Tambem se lhe vai buscar, disse.

Amaro batia palmadas no pescoço da egoa.

--Mas sendo a coisa de noite, agora com este frio, é matar a criança...

Então os dois, fallando ao mesmo tempo, affirmaram que não lhe fazia mal. Havendo, já se sabe, carinho e agasalho...

Amaro cavalgou vivamente a egoa, deu as boas tardes, e trotou pelo corrego.

Amelia agora começava a andar assustada. De dia e de noite só pensava n'aquellas horas, que se avisinhavam, em que devia sentir chegarem as dôres. Soffria mais que durante os primeiros mezes; tinha tonturas, perversões de gosto--que o doutor Gouvêa observava, franzindo a testa descontente. As noites eram más, n'uma turbação de pesadêlos. Já não eram as allucinações religiosas: isso cessára n'uma subita aplacação de todo o terror devoto: não sentiria menos temor de Deus, se já fosse uma santa canonisada. Eram outros medos, sonhos em que o parto se lhe representava de modos monstruosos: ora era um sêr medonho que lhe saltava das entranhas, metade mulher e metade cabra; ora era uma cobra infindavel que lhe sahia de dentro, durante horas, como uma fita de leguas, enrolando-se no quarto em roscas successivas que ganhavam a altura do tecto: e acordava em tremuras nervosas que a deixavam prostrada.

Mas anciava por ter a criança. Estremecia á idéa de vêr um dia inesperadamente a mãi apparecer na Ricoça. Ella escrevera-lhe, queixando-se do senhor conego que a retinha na Vieira, dos temporaes que já reinavam, da solidão que se ia fazendo na praia. Além d'isso D. Maria da Assumpção voltára; felizmente, uma noite providencialmente gelada dera-lhe durante a jornada uma inflammação dos bronchios--e estava de cama para semanas, segundo dizia o doutor Gouvêa. O Libaninho, esse, tambem viera á Ricoça; e sahira lastimando-se de não ter visto a Amelinha «que tinha n'esse dia enxaqueca».

--Se isto se demora mais quinze dias, vem-se a descobrir tudo, dizia ella, choramigando, a Amaro.

--Paciencia, filha. Não se póde forçar a natureza...

--O que tu me tens feito soffrer! suspirava ella, o que tu me tens feito soffrer!

Elle calava-se resignado--muito bom, muito terno agora com ella. Vinha-a vêr quasi todas as manhãs, porque não queria pelas tardes encontrar o abbade Ferrão.

Tranquillisára-a a respeito da ama, dizendo-lhe que fallára á mulher da Ricoça inculcada pela Dionysia. Era uma escolha rica a snr.^a Joanna Carreira! Mulher forte como um carvalho, com barricas de leite, e dentes de marfim...

--Fica-me tão longe para vir vêr depois a criança...--suspirava ella.

Tomavam-n'a agora pela primeira vez enthusiasmos de mãi. Desesperava-se em não poder ella mesma costurar o resto do enxoval. Queria que o rapaz--porque havia de ser um rapaz!--se chamasse Carlos. Scismava-o já homem, e official de cavallaria. Enternecia-se com a esperança de o vêr gatinhar...

--Ai, eu é que o queria criar, se não fosse a vergonha!...

--Vai muito bem para onde vai, dizia Amaro.

Mas o que a torturava, a fazia chorar todos os dias era a idéa de elle ser um engeitadinho!

Um dia veio ao abbade com um plano extraordinario «que lhe inspirára Nossa Senhora»: ella casaria já com João Eduardo, mas o rapaz devia por uma escriptura adoptar o Carlinhos! Que para que o anjinho não fosse um engeitado, casava até com um calceteiro da estrada! E apertava as mãos do abbade, n'uma supplicação loquaz. Que convencesse João Eduardo, que désse um papá ao Carlinhos! Queria ajoelhar aos pés d'elle, do senhor abbade, que era o seu pai e o seu protector.

--Oh, minha senhora, socegue, socegue. Esse é tambem o meu desejo, como lhe disse. E ha de arranjar-se, mas mais tarde, disse o bom velho, atarantado d'aquella excitação.

Depois, d'ahi a dias, foi outra exaltação; descobrira de repente, uma manhã, que não devia trahir Amaro, «porque era o papá do seu Carlinhos». E disse-o ao abbade; fez córar os sessenta annos do bom velho, palrando muito convencidamente dos seus deveres d'esposa para com o parocho.

O abbade, que ignorava as visitas do parocho todas as manhãs, assombrou-se.

--Minha senhora, que está a dizer? que está a dizer? Caia em si... Que vergonha!... Imaginei que lhe tinham passado essas loucuras.

--Mas é o pai do meu filho, senhor abbade, disse ella, olhando-o muito séria.

Fatigou então Amaro toda uma semana com uma ternura pueril. Lembrava-lhe cada meia hora que era o «papá do seu Carlinhos».

--Bem sei, filha, bem sei, dizia elle impaciente. Obrigado. Não me gabo da honra...

Ella chorava, então, aninhada no sofá. Era necessaria toda uma complicação de caricias para a calmar. Fazia-o sentar n'um banquinho junto d'ella; tinha-o alli como um boneco, contemplando-o, coçando-lhe devagarinho a corôa; queria que se tirasse a photographia ao Carlinhos para a trazerem ambos n'uma medalha ao pescoço; e se ella morresse, elle havia de levar o Carlinhos á sepultura, ajoelhal-o, pôr-lhe as mãosinhas, fazel-o rezar pela mamã. Atirava-se então para a almofada, tapando o rosto com as mãos:

--Ai, pobre de mim, meu querido filho, pobre de mim!

--Cala-te, que vem gente! dizia-lhe Amaro furioso.

Ah, aquellas manhãs na Ricoça! Eram para elle como uma penalidade injusta. Ao entrar tinha de ir á velha escutar-lhe as lamurias. Depois, era aquella hora com Amelia, que o torturava com as pieguices d'um sentimentalismo hysterico,--estirada no sofá, grossa como um tonel, com a face entumecida, os olhos papudos...

N'uma d'essas manhãs, Amelia, que se queixava de caimbras, quiz dar um passeio pelo quarto apoiada a Amaro: e ia-se arrastando, enorme no seu velho robe-de-chambre, quando se sentiram, em baixo no caminho, passos de cavallos: chegaram á janella--mas Amaro recuou vivamente, deixando Amelia que embasbacára com a face contra a vidraça. Na estrada, galhardamente montado n'uma egoa baia, passava João Eduardo de paletot branco e chapéo alto; ao lado trotavam os dois Morgaditos, um n'um poney, outro acorreado n'um burro; e atraz, a distancia, n'um passo de respeito e de cortejo, um criado de farda, de bota de cano e esporões enormes, com uma libré muito larga que lhe fazia na ilharga rugas grotescas, e no chapéo a roseta escarlate. Ella ficára assombrada, seguindo-os até que as costas do lacaio desappareceram à esquina da casa. Sem uma palavra, veio sentar-se no sofá. Amaro, que continuava passeando pelo quarto, teve então um risinho sarcastico:

--O idiota, de lacaio á retaguarda!

Ella não respondeu, muito escarlate. E Amaro, chocado, sahiu atirando com a porta, foi para o quarto de D. Josepha contar-lhe a cavalgada, e vituperar o Morgado.

--Um excommungado de criado de farda! exclamava a boa senhora, com as mãos apertadas na cabeça. Que vergonha, senhor parocho, que vergonha para a nobreza d'estes reinos!

Desde esse dia Amelia não tornou a choramigar, se pela manhã o senhor parocho não vinha. Quem esperava agora com impaciencia era o senhor abbade Ferrão, pela tarde. Apoderava-se d'elle, queria-o n'uma cadeira junto ao canapé: e depois de rodeios demorados d'ave que tenteia a presa, cahia sobre a pergunta fatal--se tinha visto o senhor João Eduardo?

Queria saber o que elle dissera, se fallára n'ella, se a avistára á janella. Torturava-o com curiosidades sobre a casa do Morgado, a mobilia da sala, o numero de lacaios e de cavallos, se o criado de farda servia á mesa...

E o bom abbade respondia com paciencia--contente de a vêr esquecida do parocho, occupada de João Eduardo: tinha agora a certeza que aquelle casamento se faria: ella evitava, de resto, pronunciar sequer o nome d'Amaro, e uma vez mesmo respondeu ao abbade que lhe perguntava se o senhor parocho voltára á Ricoça:

--Ai, vem pela manhã vêr a madrinha... Mas eu não lhe appareço, que nem estou decente...

Todo o tempo que podia estar de pé, passava-o agora á janella, muito arranjada da cinta para cima que era o que se podia vêr da estrada--enxovalhada das saias para baixo. Estava esperando João Eduardo, os Morgados e o lacaio; e tinha de vez em quando, com effeito, o gozo de os vêr passar, n'aquelle passo bem lançado de cavallos de preço, sobretudo o da egoa baia de João Eduardo, que elle defronte da Ricoça fazia sempre ladear, de chicote atravessado e perna á Marialva, como lhe ensinára o Morgado. Mas era o lacaio, sobretudo, que a encantava: e com o nariz nos vidros seguia-o n'um olhar guloso, até que á volta da estrada via desapparecer o pobre velho, de dorso corcovado, com a gola da farda até á nuca e as pernas bamboleantes.

E para João Eduardo que delicia aquelles passeios com os Morgaditos, na egoa baia! Nunca deixava de ir á cidade: fazia-lhe bater o coração o som das ferraduras sobre o lagedo: ia passar diante da Amparo da botica, diante do cartorio do Nunes que tinha a sua banca ao pé da janella, diante da Arcada, diante do senhor administrador que lá estava na varanda de binoculo para a Telles--e o seu desgosto era não poder entrar com a egoa, os Morgaditos e o lacaio pelo escriptorio do doutor Godinho que era no interior da casa.

Foi um dia, depois d'um d'esses passeios triumphaes, que voltando ás duas horas da Barrosa, ao chegar ao Poço das Bentas e ao subir para o caminho de carros, viu de repente o senhor padre Amaro que descia montado n'um garrano. Immediatamente João Eduardo fez caracolar a egoa. O caminho era tão estreito, que apesar de se chegarem às sebes quasi roçaram os joelhos--e João Eduardo pôde então, do alto da sua egoa de cincoenta moedas, agitando ameaçadoramente o chicote, esmagar com um olhar o padre Amaro que se encolhia muito pallido, com a barba por fazer, a face biliosa, esporeando ferozmente o garrano ronceiro. No alto do caminho João Eduardo ainda parou, voltou-se sobre a sella, e viu o parocho que apeava á porta do casebre isolado onde ha pouco, ao passar, os Morgaditos tinham rido «do anão».

--Quem vive alli? perguntou João Eduardo ao lacaio.

--Uma Carlota... Má gente, snr. Joãosinho!

Ao passar na Ricoça, João Eduardo, como sempre, poz a passo a egoa baia. Mas não viu por traz dos vidros a costumada face pallida sob o lenço escarlate. As portadas da janella estavam meio cerradas; e ao portão, desatrellado com os varões em terra, o _cabriolet_ do doutor Gouvêa.

É que tinha chegado emfim o dia! N'essa manhã viera da Ricoça um moço da quinta com um bilhete de Amelia quasi inintelligivel--_Dionysia depressa, a coisa chegou!_ Trazia ordem tambem de ir chamar o senhor doutor Gouvêa. Amaro foi elle mesmo avisar a Dionysia.

Dias antes, tinha-lhe dito que D. Josepha, a propria D. Josepha, lhe inculcára uma ama--que elle já ajustára, grande mulher, rija como um castanheiro. E agora combinaram rapidamente que n'essa noite Amaro se postaria com a ama á portinha do pomar, e Dionysia viria dar-lhe a criança bem atabafada.

--Ás nove da noite, Dionysia. E não nos faça esperar!--recommendou-lhe ainda Amaro vendo-a abalar n'um espalhafato.

Depois voltou a casa e fechou-se no quarto, face a face com aquella difficuldade que elle sentia como uma coisa viva fixal-o e interrogal-o:--Que havia de fazer á criança? Tinha ainda tempo d'ir aos Poyaes ajustar a outra ama, a boa ama que a Dionysia conhecia; ou podia montar a cavallo e ir á Barrosa fallar á Carlota... E alli estava, diante d'aquelles dois caminhos, hesitando n'uma agonia. Queria serenar, discutir aquelle caso como se fosse um ponto de theologia, pesando-lhe os _prós_ e os _contras_: mas tinha temerariamente diante de si, em logar de dois argumentos, duas visões:--a criança a crescer e a viver nos Poyaes, ou a criança esganada pela Carlota a um canto da estrada da Barrosa...--E, passeando pelo quarto, suava d'angustia, quando no patamar a voz inesperada do Libaninho gritou:

--Abre, parochosinho, que sei que estás em casa!

Foi necessario abrir ao Libaninho, apertar-lhe a mão, offerecer-lhe uma cadeira. Mas o Libaninho felizmente não se podia demorar. Passára na rua, e subira a saber se o amigo parocho tinha noticias d'aquellas santinhas da Ricoça.

--Vão bem, vão bem, disse Amaro que obrigava a face a sorrir, a prazentear.

--Eu não tenho podido ir lá, que tenho andado mais occupado!... Estou de serviço no quartel... Não te rias, parochosinho, que estou lá fazendo muita virtude... Metto-me com os soldadinhos, fallo-lhes das chagas de Christo...

--Andas a converter o regimento, disse Amaro que mexia nos papeis da mesa, passeava, n'uma inquietação d'animal preso.

--Não é para as minhas forças, parocho, que se eu pudesse!... Olha, agora vou eu levar a um sargento uns bentinhos... Foram benzidos pelo Saldanhinha, vão cheios de virtude. Hontem dei outros iguaes a um anspeçada, perfeito rapaz, um amor de rapaz... Puz-lh'os eu mesmo por baixo da camisola... Perfeito rapaz!...

--Devias deixar esses cuidados pelo regimento ao coronel, disse Amaro abrindo a janella, abafando d'impaciencia.

--Credo, olha o impio! Se o deixassem desbaptisava o regimento. Pois adeus, parochosinho. Estás amarellinho, filho... Precisas purga, eu sei o que isso é.

Ia a sahir, mas á porta, parando:

--Ai, dize cá, parochosinho, dize cá: tu ouviste alguma coisa?

--De quê?

--Foi o padre Saldanha que m'o disse. Diz que o nosso chantre declarára (palavras do Saldanhinha) que lhe constava que ia na cidade um escandalo com um senhor ecclesiastico... Mas não disse _quem_ nem o _quê_... O Saldanha quil-o sondar, mas o chantre diz que recebera só uma denuncia vaga, sem nome... Tenho estado a pensar: quem será?

--Pataratas do Saldanha...

--Ai, filho! Deus queira que sejam. Que quem folga são os impios... Quando fôres pela Ricoça dá recados áquellas santinhas...

E pulou pelos degraus a ir levar «a virtude» ao batalhão.

Amaro ficára aterrado. Era elle decerto, eram os seus amores com Amelia que já iam chegando ao vigario geral em denuncias tortuosas! E alli vinha agora aquelle filho, criado a meia legua da cidade, ficar como uma prova viva!... Parecia-lhe extraordinario, quasi sobrenatural, ter o Libaninho, que em dois annos não lhe viera a casa duas vezes, ter o Libaninho entrado com aquella nova terrivel, quando elle estava alli n'uma batalha com a consciencia. Era como a Providencia, que sob a fórma grotesca do Libaninho, vinha trazer-lhe o seu aviso, murmurar-lhe: «Não deixes viver quem te póde trazer o escandalo! Olha que já se suspeita de ti!»

Era decerto Deus apiedado que não queria que houvesse na terra mais um engeitado, mais um miseravel,--e que _reclamava o seu anjo_!...

Não hesitou: partiu para a estalagem do Cruz, e d'ahi a cavallo para a casa de Carlota.

Demorou-se lá até ás quatro horas.

De volta a casa atirou o chapéo para cima da cama, e sentiu emfim um allivio de todo o seu sêr. Estava acabado! Lá fallára á Carlota e ao anão; lá lhe pagára um anno adiantado; agora era esperar pela noite!...

Mas na solidão do quarto toda a sorte de imaginações morbidas o assaltavam: via a Carlota a esganar a criancinha rôxa; via os cabos de policia mais tarde a desenterrar o cadaver, o Domingos da administração redigindo sobre um joelho o auto de corpo de delicto, e elle, de batina, arrastado para a cadeia de S. Francisco, em ferros, ao lado do anão! Tinha quasi vontade de montar a cavallo, voltar á Barrosa desfazer o ajuste. Mas uma inercia retinha-o. Depois, nada o forçava á noite a entregar a criança á Carlota... Podia leval-a bem agasalhada á Joanna Carreira, a boa ama dos Poyaes...

Para escapar áquellas idéas que lhe faziam sob o craneo um ruido de tormenta, sahiu, foi vêr Natario que já se erguia--e que lhe gritou immediatamente do fundo da poltrona:

--Então vossê viu, Amaro! O idiota, de lacaio atraz!

João Eduardo passára-lhe na rua, na egoa baia, com os Morgadinhos; e Natario desde então rugia de impaciencia de estár alli amarrado á cadeira e não poder recomeçar a campanha, expulsal-o por uma boa intriga da casa do Morgado, arrancar-lhe a egoa e o lacaio.

--Mas não as perde, em Deus me dando pernas...

--Deixe lá o homem, Natario, disse Amaro.

Deixal-o! quando tinha uma idéa prodigiosa--que era provar ao Morgado, com documentos, que o João Eduardo era um beato! Que lhe parecia, ao amigo Amaro?

Era engraçado, com effeito. O homem não deixava de o merecer, só pela maneira como olhava para a gente de bem, do alto da egoa...--E Amaro fazia-se vermelho, ainda indignado do encontro, de manhã, no caminho de carros da Barrosa.

--Está claro! exclamou Natario. Para que somos nós sacerdotes de Christo? Para exaltar os humildes e derrubar os soberbos.

D'alli Amaro foi vêr D. Maria da Assumpção--que já se erguera tambem--que lhe fez a historia da sua bronchite e a enumeração dos ultimos peccados: o peor era que, para se distrahir um bocado na convalescença, recostava-se por traz da vidraça, e um carpinteiro que mórava defronte embasbacava para ella; e por influencia do maligno, não tinha forças para se retirar para dentro, e vinham-lhe pensamentos maus...

--Mas vossa senhoria não está com attenção, senhor parocho.

--Ora essa, minha senhora!

E apressou-se a pacificar-lhe os escrupulos--porque a salvação d'aquella velha alma idiota era para elle um emprego melhor que a mesma parochia.

Já escurecia quando entrou em casa. A Escolastica queixou-se da demora que lhe esturrára o jantar. Mas Amaro tomou apenas um copo de vinho e uma garfada d'arroz, que enguliu de pé, olhando com terror pela janella a noite que impassivelmente cahia.

Entrava no quarto a vêr se os candieiros já estavam accêsos, quando o coadjutor appareceu. Vinha fallar-lhe sobre o baptisado do filho do Guedes, que estava marcado para o dia seguinte ás nove horas.

--Trago luz?--disse de dentro a criada sentindo a visita.

--Não! gritou logo Amaro.

Temia que o coadjutor visse a alteração que sentia nas faces, ou que se installasse para toda a noite.

--Diz que vem na _Nação_ d'antes d'hontem um artigo muito bom, observou o coadjutor, grave.

--Ah! fez Amaro.

Passeava no seu trilho costumado, do lavatorio para a janella; parava ás vezes a rufar nos vidros; já se tinham accendido os candieiros.

Então o coadjutor, chocado com aquella treva do quarto e aquelle passear de fera n'uma jaula, ergueu-se, e com dignidade:

--Estou a incommodar talvez...

--Não!

E o coadjutor satisfeito sentou-se, com o seu guardachuva entre os joelhos.

--Agora anoitece mais cedo, disse.

--Anoitece...

Emfim Amaro desesperado declarou-lhe que tinha uma enxaqueca odiosa, que se ia encostar: e o homem sahiu, depois de lhe lembrar ainda o baptisado do menino do seu amigo Guedes.

Amaro partiu logo para a Ricoça. Felizmente a noite estava tenebrosa e quente, annunciando chuva. Ia agora tomado d'uma esperança que lhe fazia bater o coração: era que a criança nascesse morta! E era bem possivel. A S. Joanneira em nova tivera duas crianças mortas; a anciedade em que vivera Amelia devia ter perturbado a gestação. E se ella morresse tambem? Então a esta idéa, que nunca lhe acudira, invadiu-o bruscamente uma piedade, uma ternura por aquella boa rapariga que o amava tanto, e que agora, por obra d'elle, gritava dilacerada de dôres. E todavia, se ambos morressem, ella e a criança, era o seu peccado e o seu erro que cahiam para sempre nos escuros abysmos da eternidade... Elle ficava, como antes da sua vinda a Leiria, um homem tranquillo, occupado da sua igreja, d'uma vida limpa e lavada como uma pagina branca!

Parou junto ao casebre em ruinas á beira da estrada, onde devia estar a pessoa que da Barrosa vinha buscar a criança: não se tinha decidido se seria o homem ou a Carlota: e Amaro receava encontrar o anão, para lhe levar o filho, com aquelles olhos raiados d'um sangue mau. Fallou para dentro, para as trevas do casebre:

--Olá!

Foi um allivio quando a clara voz da Carlota disse da negrura:

--Cá está!

--Bem, é esperar, snr.^a Carlota.

Estava contente: parecia-lhe que não tinha nada a temer, se o filho partisse aninhado contra aquelle robusto seio de quarentona fecunda, tão fresca e tão lavada.

Foi então rondar a casa. Estava apagada e muda, como um empastamento mais denso de sombra n'aquella lugubre noite de dezembro. Nem uma fenda de luz sahia das janellas do quarto d'Amelia. No ar muito pesado nenhuma folhagem ramalhava. E a Dionysia não apparecia.

Aquella demora torturava-o. Podia passar gente e vél-o rondar na estrada. Mas repugnava-lhe ir occultar-se no casebre em ruinas ao pé de Carlota. Foi andando ao comprido do muro do pomar, voltou,--e viu então na porta envidraçada do terraço uma claridade de luz apparecer.

Correu para a portinha verde do pomar que quasi immediatamente se abriu; e a Dionysia, sem uma palavra, poz-lhe nos braços um embrulho.

--Morta? perguntou elle.

--Qual! Vivo! Um rapagão!

E fechou a porta devagarinho, quando os cães, farejando rumor, começavam a ladrar.

Então o contacto do seu filho, contra o seu peito, desmanchou como um vendaval todas as idéas d'Amaro. O quê! ir dal-o áquella mulher, á tecedeira d'anjos, que na estrada o atiraria a algum vallado, ou em casa o arremessaria á latrina? Ah! não, era o seu filho!

Mas que fazer, então? Não tinha tempo de correr aos Poyaes e acordar a outra ama... A Dionysia não tinha leite... Não o podia levar para a cidade... Oh! que desejo furioso de bater áquella porta da quinta, precipitar-se para o quarto d'Amelia, metter-lhe o pequerruchinho na cama, muito agasalhado, e todos tres ficarem alli como no conchego d'um céo! Mas quê, era padre! Maldita fosse a religião que assim o esmagava!

De dentro do embrulho sahiu um gemido. Correu então para o casebre--quasi esbarrou com a Carlota, que se apoderou logo da criança.

--Ahi está, disse elle. Mas ouça lá. Isto agora é sério. Agora é outra coisa. Olhe que o não quero morto... É para o tratar. O que se passou não vale... É para o criar! é para viver. Vossê tem a sua fortuna... Trate d'elle!...

--Não tem duvida, não tem duvida, dizia a mulher apressada.

--Escute... A criança não vai bem agasalhada. Ponha-lhe o meu capote.

--Vai bem, senhor, vai bem.

--Não vai, com mil diabos! É o meu filho! Ha de levar o capote! Não quero que morra de frio!

Atirou-lh'o aos hombros com força, traçando-lh'o sobre o peito, agasalhando a criança;--e a mulher já enfastiada metteu rapidamente pela estrada.

Amaro ficou alli plantado no meio do caminho, vendo o vulto perder-se na negrura. Então todos os seus nervos, depois d'aquelle choque, se relaxaram n'uma fraqueza de mulher sensivel--e rompeu a chorar.

Muito tempo rondou a casa. Mas ella permanecia na mesma escuridão, n'aquelle silencio que o aterrava. Depois, triste e fatigado, veio voltando para a cidade, quando batiam as dez badaladas na Sé.

A essa hora, na sala de jantar da Ricoça, o doutor Gouvêa ceava tranquillamente o frango assado que lhe preparára a Gertrudes, para depois das canceiras do dia. O abbade Ferrão, sentado junto da mesa, assistia-lhe á ceia; viera munido dos sacramentos para o caso de haver perigo. Mas o doutor estava satisfeito; durante as oito horas de dôres a rapariga mostrára-se corajosa; o parto fôra feliz, de resto, e sahira um rapagão que fazia muita honra ao papá.

O bom abbade Ferrão baixava castamente os olhos áquelles detalhes, no seu pudor de sacerdote.

--E agora, dizia o doutor trinchando o peito do frango, agora que eu introduzi a criança no mundo, os senhores (e quando digo os senhores, quero dizer a Igreja) apoderam-se d'elle e não o largam até á morte. Por outro lado, ainda que menos sôfregamente, o Estado não o perde de vista... E ahi começa o desgraçado a sua jornada do berço á sepultura, entre um padre e um cabo de policia!

O abbade curvou-se, e tomou uma estrondosa pitada preparando-se para a controversia.