O crime do padre Amaro, scenas da vida devota

Chapter 32

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Amelia, com a costura cahida nos joelhos, sentindo os seus dois amigos ao pé, aquelles dois colossos de sciencia e de santidade, abandonava-se ao encanto da hora suave, olhando a quinta onde as arvores já empallideciam. Pensava no futuro; elle apparecia-lhe agora facil e seguro; era forte, e o parto, com a presença do doutor, seria apenas uma hora de dôres; depois, livre d'aquella complicação, voltaria para a cidade e para a mamã... E então uma outra esperança, que nascera das conversas constantes do abbade sobre João Eduardo, vinha bailar-lhe na imaginação. Porque não?... Se o pobre rapaz a amasse ainda, e perdoasse!... Elle nunca lhe repugnára como homem, e seria um casamento esplendido agora que elle tinha a amizade do Morgado. Dizia-se que João Eduardo ia ser o administrador da casa... E entrevia-se vivendo nos Poyaes, passeando na caleche do Morgado, chamada para jantar por uma campainha, servida por um escudeiro de libré... Ficava muito tempo immovel, banhada na doçura d'esta perspectiva, emquanto o abbade e o doutor ao fundo do terraço pelejavam sobre a doutrina da Graça e da Consciencia, e monotonamente a agua das regas murmurava no pomar.

Foi por este tempo que D. Josepha, inquieta de não vêr apparecer o senhor parocho, mandára expressamente o caseiro a Leiria, pedir a sua senhoria a esmola d'uma visita. O homem voltára com a espantosa noticia de que o senhor parocho partira para a Vieira, e não viria senão d'ahi a duas semanas. A velha choramingou de desgosto. E Amelia, n'essa noite, no seu quarto, não pôde adormecer--na irritação que lhe dava aquella idéa do senhor parocho a divertir-se na Vieira, sem pensar n'ella decerto, chalaceando com as senhoras na praia, e andando de serão em serão...

Com a primeira semana de novembro vieram as chuvas. A Ricoça parecia agora mais lugubre n'aquelles dias curtos, banhados d'agua, sob um céo de tempestade. O abbade Ferrão, tolhido de rheumatismo, já não apparecia na quinta. O doutor Gouvêa, depois da visita de meia hora, abalava no seu velho _cabriolet_. A unica distracção de Amelia era estar á janella por dentro dos vidros: tres vezes vira passar João Eduardo na estrada; mas elle ao avistal-a baixava os olhos ou refugiava-se mais sob o guardachuva.

A Dionysia vinha tambem frequentemente: devia ser a parteira, apesar do doutor Gouvêa ter aconselhado a Michaela, matrona d'uma experiencia de trinta annos. Mas Amelia «não queria mais gente no segredo», e além d'isso Dionysia trazia-lhe as noticias d'Amaro, que ella sabia pela cozinheira. O senhor parocho tinha-se achado tão bem na Vieira que se ia demorar até dezembro. Aquelle «procedimento infame» indignava-a: não duvidava que o parocho queria estar longe quando chegassem os transes, os perigos do parto. Além d'isso era decidido d'ha muito que a criança havia de ser entregue a uma ama de ao pé de Ourem, que a criaria na aldeia: e agora o tempo chegava, e a ama não estava fallada, e o senhor parocho apanhava conchinhas á beira-mar!...

--É indecente, Dionysia, exclamava Amelia furiosa.

--Ah! não me parece bem, não. Que eu podia fallar á ama... Mas bem vê, são coisas muito sérias... O senhor parocho é que se encarregou de tudo...

--É infame!

Além d'isso ella descuidára-se do enxoval--e alli estava na vespera de ter a criança, sem um trapo para a cobrir, sem dinheiro para lh'o comprar! A Dionysia tinha-lhe mesmo offerecido algumas peças de enxoval, que uma mulher que ella tivera em casa lhe deixára empenhadas. Mas Amelia recusára-se a que o seu filho usasse cueiros alheios, trazendo-lhe talvez um contagio de doença ou uma sorte infeliz.

E por orgulho não queria escrever a Amaro.

Além d'isso as impertinencias da velha tornavam-se odiosas. A pobre D. Josepha, privada dos auxilios devotos d'um padre, um verdadeiro padre (não um abbade Ferrão), sentia a sua velha alma indefesa exposta a todas as audacias de Satanaz: a visão singular que tivera de S. Francisco Xavier nú, repetia-se agora com uma insistencia pavorosa a respeito de todos os santos: era toda uma côrte do céo, arrojando tunicas e habitos, e bailando-lhe na imaginação sarabandas em pêllo: e a velha estava morrendo da perseguição d'estes espectaculos dispostos pelo demonio. Reclamára o padre Silverio, mas parecia que um rheumatismo geral tolhia todo o clero diocesano: desde o principio do inverno o Silverio estava tambem de cama. O abbade da Cortegassa, chamado urgentemente, veio--mas para lhe communicar a receita nova que descobrira de fazer bacalhau à biscainha... Esta falta d'um padre virtuoso dava-lhe um humor feroz, que recahia sobre Amelia n'uma chuva de impertinencias.

E a boa senhora estava pensando sériamente em mandar a Amor pelo padre Brito--quando uma tarde, ao fim do jantar, inesperadamente, o senhor parocho appareceu!

Vinha magnifico, trigueiro do sol e do ar do mar, de casaco novo e botins de verniz. E palrando longamente ácerca da Vieira, dos conhecidos que estavam, da pesca que fizera, dos soberbos quinos fazia passar n'aquelle triste quarto de doente velha todo um sopro vivificante da vida divertida á beira-mar. D. Josepha tinha duas lagrimas nas palpebras do gozo de vêr o senhor parocho, de o ouvir.

--E a mamã passa bem, disse elle a Amelia. Já tem os seus trinta banhos. Ganhou outro dia quinze tostões a uma batotinha que se arranjou... E por cá que têm feito?

Então a velha rompeu em queixumes amargos: Uma solidão! Um tempo de chuva! Uma falta de amizades! Ai! ella estava alli a perder a sua alma n'aquella quinta fatal...

--Pois eu, disse o padre Amaro traçando a perna, dei-me tão bem que estou com idéas de voltar para a semana.

Amelia, sem se conter, exclamou:

--Ora essa! outra vez!

--Sim, disse elle. Se o senhor chantre me der uma licença d'um mez, vou lá passal-o... Fazem-me uma cama na sala de jantar do padre-mestre, e tomo um par de banhos... Estava farto de Leiria, e d'aquelle aborrecimento...

A velha parecia desolada. O quê, voltar! Deixal-as alli a estarrecer de tristeza!

Elle galhofou:

--Ora, as senhoras não precisam cá de mim. Estão bem acompanhadas...

--Eu não sei, disse a velha com azedume, se os _outros_--e accentuou com rancor a palavra--se os _outros_ não precisam do senhor parocho... Eu é que não estou _bem acompanhada_, estou aqui a perder a minha alma... Que as companhias que ahi vêm não dão honra nem proveito.

Mas Amelia acudiu para contrariar a velha:

--E de mais a mais o senhor abbade Ferrão tem estado doente... Está com rheumatismo. Sem elle a casa parece uma prisão.

D. Josepha deu um risinho d'escarneo. E o padre Amaro, erguendo-se para sahir, lamentou o bom abbade:

--Coitado! Santo homem... Hei de ir vêl-o em tendo vagar. Pois ámanhã cá appareço, D. Josepha, e havemos de pôr essa alma em paz... Não se incommode, snr.^a D. Amelia, eu sei agora o caminho.

Mas ella insistiu em o acompanhar. Atravessaram o salão sem uma palavra. Amaro calçava as suas luvas novas de pellica preta. E no alto da escada, muito ceremoniosamente, tirando o chapéo:

--Minha senhora...

E Amelia ficou petrificada vendo-o descer muito tranquillo--como se ella lhe fosse mais indifferente que os dois leões de pedra, que em baixo dormiam com o focinho nas patas.

Foi para o quarto chorar de bruços sobre a cama, de raiva e de humilhação. O infame! E nem uma palavra sobre o filho, sobre a ama, sobre o enxoval! Nem um olhar d'interesse para o seu corpo desfigurado por aquella prenhez que elle lhe dera! Nem uma queixa irritada por todos os desprezos que ella lhe mostrára!... Nada! Calçava as luvas, com o chapéo ao lado. Que indigno!

Ao outro dia o padre voltou mais cedo. Esteve muito tempo fechado no quarto com a velha.

Amelia, impaciente, rondava no salão com os olhos como carvões. Elle appareceu emfim, como na vespera, calçando as suas luvas com um ar prospero.

--Então já? disse ella n'uma voz que tremia.

-Já, sim, minha senhora. Estive n'uma praticasinha com a D. Josepha.

Tirou o chapéo, comprimentando muito profundamente:

--Minha senhora...

Amelia, livida, murmurou:

--Infame!

Elle olhou-a, como assombrado:

--Minha senhora...--repetiu.

E, como na vespera, desceu vagarosamente a larga escadaria de pedra.

O primeiro pensamento d'Amelia foi denuncial-o ao vigario geral. Depois passou a noite escrevendo-lhe uma carta--tres paginas de accusações e de lastimas. Mas toda a resposta d'Amaro, ao outro dia, mandada verbalmente pelo Joãosito da quinta, foi «que talvez apparecesse por lá na quinta-feira».

Teve outra noite de lagrimas--emquanto na rua das Sousas o padre Amaro esfregava as mãos, no regosijo do seu «famoso estratagema». E todavia não o concebera elle mesmo; tinha-lhe sido suggerido na Vieira, onde fôra para desabafar com o padre-mestre e espalhar a mágoa nos ares da praia; fôra lá que elle o aprendera, o «famoso estratagema», n'uma _soirée_, ouvindo dissertar sobre o amor o brilhante Pinheiro, premiado em direito e gloria d'Alcobaça.

--Eu n'isso, minhas senhoras--dizia o Pinheiro, passando a mão pela cabelleira de poeta, ao semi-círculo de damas que pendiam dos seus labios d'ouro--eu n'isso sou da opinião de Lamartine (era alternadamente da opinião de Lamartine ou de Pelletan). Digo como Lamartine: a mulher é igual á sombra; se correis atraz d'_ella_, foge-vos; se fugis d'_ella_, corre atraz de vós!

Houve um _muito bem_, exclamado com convicção: mas uma senhora de grandes proporções, mãi de quatro deliciosos anjos todos Marias (como dizia o Pinheiro), quiz explicações, porque nunca tinha visto fugir uma sombra.

O Pinheiro deu-as, scientificamente:

--É muito facil d'observar, snr.^a D. Catharina. Colloque-se vossa excellencia na praia, quando o sol começa a declinar, com as costas para o astro. Se vossa excellencia caminha em frente, perseguindo a sombra, ella vai-lhe adiante, fugindo...

--Physica recreativa, muito interessante! murmurou o escrivão de direito ao ouvido d'Amaro.

Mas o parocho não o escutava; bailava-lhe já na imaginação «o famoso estratagema». Ah! mal voltasse a Leiria, havia de tratar Amelia como uma sombra e fugir-lhe para ser seguido...--E o resultado delicioso alli estava--tres paginas de paixão, com manchas de lagrimas no papel.

Na quinta-feira appareceu, com effeito. Amelia esperava-o no terraço, d'onde estivera desde manhã vigiando a estrada com um binoculo de theatro. Correu a abrir-lhe o portãosinho verde no muro do pomar.

--Então, por aqui! disse-lhe o parocho, subindo atraz d'ella ao terraço.

--É verdade, como estou sósinha...

--Sósinha?

--A madrinha está a dormir e a Gertrudes foi á cidade... Tenho estado toda a manhã aqui ao sol.

Amaro ía penetrando pela casa, sem responder; diante d'uma porta aberta parou, vendo um grande leito de docel, e em redor cadeiras de couro de convento.

--É o seu quarto aqui, hein?

--É.

Elle entrou familiarmente, com o chapéo na cabeça.

--Muito melhor que o da rua da Misericordia. E boas vistas... São as terras do Morgado, além...

Amelia cerrára a porta, e indo direita a elle, com os olhos chammejantes:

--Porque não respondeste á minha carta?

Elle riu:

--É boa! E porque não respondeste tu ás minhas? Quem começou? Foste tu. Dizes que não queres peccar mais. Tambem eu não quero peccar mais. Acabou-se...

--Mas não é isso! exclamou ella pallida d'indignação. É que ha a pensar na criança, na ama, no enxoval... Não é abandonar-me p'r'áqui!...

Elle poz-se sério, e com um tom resentido:

--Peço perdão... Eu prezo-me de ser um cavalheiro. Tudo isso ha de ficar arranjado antes de voltar p'r'á Vieira...

--Tu não voltas p'r'á Vieira!

--Quem é que diz isso?

--Eu, que não quero que vás!

Puzera-lhe fortemente as mãos nos hombros, retendo-o, apoderando-se d'elle: e alli mesmo, sem reparar na porta apenas cerrada, abandonou-se-lhe como outr'ora.

D'ahi a dois dias o abbade Ferrão appareceu restabelecido do seu ataque de rheumatismo. Contou a Amelia a bondade do Morgado, que chegára a mandar-lhe todas as tardes, n'um apparelho de lata com agua quente, uma gallinha cozida em arroz. Mas era sobretudo a João Eduardo que devia a caridade melhor; todas as suas horas vagas as passava ao pé da cama, lendo-lhe alto, ajudando-o a voltar, ficando com elle até á uma hora da noite n'um zelo de enfermeiro. Que rapaz! que rapaz!

E de repente, tomando as mãos ambas d'Amelia, exclamou:

--Diga-me, dá licença que eu lhe conte tudo, que lhe explique?... Que arranje que elle perdôe. e esqueça... E que se faça este casamento, se faça esta felicidade?

Ella balbuciou espantada, toda escarlate:

--Assim de repente... Não sei... Hei de pensar...

--Pense. E Deus a alumie! disse o velho com fervor.

Era n'essa noite que Amaro devia entrar pelo portalzinho do pomar de que Amelia lhe dera a chave. Infelizmente tinham esquecido a matilha do caseiro. E apenas Amaro pôz o pé dentro do pomar, rompeu pelo silencio da noite escura um tão desabrido ladrar de cães--que o senhor parocho abalou pela estrada, batendo o queixo de terror.

XXIV

Amaro n'essa manhã mandou á pressa chamar a Dionysia, apenas recebeu o seu correio. Mas a matrona que estava no mercado veio tarde, quando elle á volta da missa acabava d'almoçar.

Amaro queria saber _ao certo e immediatamente_ para quando estava a _coisa_...

--O bom successo da pequena?... Entre quinze a vinte dias... Porquê, ha novidade?

Havia; e o parocho leu-lhe então em confidencia uma carta que tinha ao lado.

Era do conego, que escrevia da Vieira, dizendo «que a S. Joanneira tinha já trinta banhos e queria voltar! Eu, (acrescentava), perco quasi todas as semanas tres, quatro banhos, de proposito para os espaçar e dar tempo, porque cá a minha mulher já sabe que eu sem os meus cincoenta não vai. Ora já tenho quarenta, veja lá vossê. Demais por aqui começa a fazer frio devéras. Já se tem retirado muita gente. Mande-me pois dizer pela volta do correio em que estado estão as coisas.» E n'um _post-scriptum_ dizia: «Tem vossê pensado que destino se ha de dar ao _fructo_?»

--Mais vinte dias, menos vinte dias, repetiu a Dionysia.

E Amaro alli mesmo escreveu a resposta ao conego, que a Dionysia devia levar ao correio: «A coisa póde estar prompta d'aqui a vinte dias. Suspenda por todo o modo a volta da mãi! Isso de modo nenhum! Diga-lhe que a pequena não escreve nem vai, porque a excellentissima mana passa sempre adoentada.»

E traçando a perna:

--E agora, Dionysia, como diz o nosso conego, que destino se ha de dar ao _fructo_?

A matrona arregalou os olhos de surpreza:

--Eu pensei que o senhor parocho tinha arranjado tudo... Que se ia dar a criança a criar fóra da terra...

--Está claro, está claro, interrompeu o parocho com impaciencia. Se a criança nascer viva é evidente que se ha de dar a criar, e que ha de ser fóra da terra... Mas ahi é que está! Quem ha de ser a ama? É isso que eu quero que vossê me arranje. Vai sendo tempo...

A Dionysia pareceu muito embaraçada. Nunca gostára de inculcar amas. Ella conhecia uma boa, mulher forte e de muito leite, pessoa de confiança; mas infelizmente entrára no hospital, doente... Sabia d'outra tambem, até tivera negocios com ella. Era uma Joanna Carreira. Mas não convinha porque vivia justamente nos Poyaes, ao pé da Ricoça.

--Qual não convém! exclamou o parocho. Que tem que viva na Ricoça?... Em a rapariga convalescendo as senhoras vêm p'r'á cidade, e não se falla mais na Ricoça.

Mas a Dionysia procurava ainda, arranhando devagar o queixo. Tambem sabia d'outra. Essa morava para o lado da Barrosa, a boa distancia... Criava em casa, era o seu officio... Mas n'essa nem fallar!

--Mulher fraca, doente?

A Dionysia chegou-se ao parocho, e baixando a voz:

--Ai, menino, eu não gosto d'accusar ninguem. Mas, está provado, é uma tecedeira d'anjos!

--Uma quê?

--_Uma tecedeira d'anjos!_

--O que é isso? Que significa isso? perguntou o parocho.

A Dionysia gaguejou-lhe uma explicação. Eram mulheres que recebiam crianças a criar em casa. E sem excepção as crianças morriam... Como tinha havido uma muito conhecida que era tecedeira, e as criancinhas iam para o céo... D'ahi é que vinha o nome.

--Então as crianças morrem sempre?

--Sem falhar.

O parocho passeava devagar pelo quarto, enrolando o seu cigarro.

--Diga lá tudo, Dionysia. As mulheres matam-n'as?

Então a excellente matrona declarou que não queria accusar ninguem! Ella não fôra espreitar. Não sabia o que se passava nas casas alheias. Mas as crianças morriam todas...

--Mas quem vai então entregar uma criança a uma mulher d'essas?

A Dionysia sorriu, apiedada d'aquella innocencia d'homem.

--Entregam, sim senhor, ás duzias!

Houve um silencio. O parocho continuava o seu passeio do lavatorio para a janella, de cabeça baixa.

--Mas que proveito tira a mulher, se as crianças morrem? perguntou de repente. Perde as soldadas...

--É que se lhe paga um anno de criação adiantado, senhor parocho. A dez tostões ao mez, ou quartinho, segundo as posses...

O parocho agora, encostado á janella, rufava devagar nos vidros.

--Mas que fazem as auctoridades, Dionysia?

A boa Dionysia encolheu silenciosamente os hombros.

O parocho então sentou-se, bocejou, e estirando as pernas disse:

--Bem, Dionysia, vejo que a unica coisa a fazer é fallar á tal ama que vive ao pé da Ricoça, á Joanna Carreira. Eu arranjarei isso...

A Dionysia fallou ainda das peças d'enxoval que já tinha comprado por conta do parocho, d'um berço muito barato em segunda mão que vira no Zé Carpinteiro--e ia sahir com a carta para o correio, quando o parocho erguendo-se e galhofando:

--Ó tia Dionysia, essa coisa da _tecedeira d'anjos_ é uma historia, hein?

Então a Dionysia escandalisou-se. O senhor parocho sabia que ella não era mulher d'intrigas. Conhecia a tecedeira d'anjos ha mais d'oito annos, de lhe fallar e de a vêr na cidade quasi todas as semanas. Ainda no sabbado passado a vira sahir da taberna do Grego... O senhor parocho já tinha ido á Barrosa?

Esperou a resposta do parocho, e continuou:

--Pois bem, sabe o começo da freguezia. Ha um muro cahido. Depois é um caminho que desce. Ao fundo d'esse corregosito encontra um poço atulhado. Adiante, retirada, ha uma casita que tem um alpendre. É lá que ella vive... Chama-se Carlota... Isto é p'ra lhe mostrar que sei, amiguinho!

O parocho ficou toda a manhã em casa, passeando pelo quarto, alastrando o chão de pontas de cigarros. Alli estava agora diante d'aquelle episodio fatal que até ahi fôra apenas um cuidado distante--dispôr do filho!

Era bem grave entregal-o assim a uma ama desconhecida, na aldeia. A mãi, naturalmente, havia de querer ir a todo o momento vêl-o, a ama poderia fallar aos visinhos. O rapaz viria a ser, na freguezia, o _filho do parocho_... Algum invejoso, que lhe cubiçasse a parochia, poderia denuncial-o ao senhor vigario geral. Escandalo, sermão, devassa: e, se não fosse suspenso, poderia como o pobre Brito ser mandado para longe, para a serra, outra vez para os pastores... Ah! se o _fructo_ nascesse morto! Que solução natural e perpetua! E para a criança, uma felicidade! Que destino podia elle ter n'este duro mundo? Era o _engeitado_, era o _filho do padre_. Elle era pobre, a mãi pobre... O rapaz cresceria na miseria, vadiando, apanhando o estrume das bestas, ramelloso e tosco... De necessidade em necessidade iria conhecendo todas as fórmas do inferno humano: os dias sem pão, as noites regeladas, a brutalidade da taberna, a cadeia por fim. Uma enxerga na vida, a valla na morte... E se morresse--era um anjinho que Deus recolhia ao paraiso...

E continuava passeando tristemente pelo quarto. Realmente o nome era bem posto, _tecedeira d'anjos_... Com razão, quem prepara uma criança para a vida com o leite do seu peito, prepara-a para os trabalhos e para as lagrimas... Mais vale torcer-lhe o pescoço, e mandal-a direita para a eternidade bemaventurada! Olha elle! Que vida a sua, n'esses trinta annos atraz! Uma infancia melancolica, com aquella pêga da marqueza d'Alegros; depois a casa na Estrella, com o alarve do tio toucinheiro; e d'ahi as clausuras do seminario, a neve constante de Feirão, e alli em Leiria tantos transes, tanta amargura... Se lhe tivessem esmagado o craneo ao nascer, estava agora com duas azas brancas, cantando nos córos eternos.

Mas emfim não havia que philosophar: era partir para Poyaes e fallar á ama, á snr.^a Joanna Carreira.

Sahiu, dirigindo-se para a estrada, sem pressa. Ao pé da ponte veio-lhe porém de repente a idéa, a curiosidade de ir á Barrosa vêr a _tecedeira_... Não lhe fallaria: examinaria apenas a casa, a figura da mulher, os aspectos sinistros do sitio... Demais como parocho, como auctoridade ecclesiastica, devia observar aquelle peccado organisado n'um recanto d'estrada, impune e rendoso. Podia mesmo denuncial-o ao senhor vigario geral ou ao secretario do governo civil...

Tinha ainda tempo, eram apenas quatro horas. Por aquella tarde suave e lustrosa fazia-lhe bem um passeio a cavallo. Não hesitou, então; foi alugar uma egoa á estalagem do Cruz; e d'ahi a pouco, d'espora no pé esquerdo, choutava a direito pelo caminho da Barrosa.

Ao chegar ao corrego, de que lhe fallára a Dionysia, apeou, foi andando com a egoa pela arreata. A tarde estava admiravel; muito alto no azul, uma grande ave fazia semi-circulos vagarosos.

Encontrou emfim o poço atulhado ao pé de dois castanheiros onde passaros ainda chilreavam; adiante n'um terreno plano, muito isolada, lá estava a casa com o seu alpendre: o sol declinando batia-lhe na unica janella do lado, accendendo-a n'um resplendor d'ouro e braza; e, muito delgado, elevava-se da chaminé um fumo claro no ar sereno.

Uma grande paz estendia-se em redor; no monte, escuro da rama dos pinheiros baixos, a capellinha da Barrosa punha a alvura alegre da sua parede muito caiada.

Amaro ia imaginando então a figura da _tecedeira_; sem saber porque, suppunha-a muito alta, com um carão trigueiro onde dois olhos de bruxa refulgiam.

Defronte da casa prendeu a egoa á cancella, e olhou pela porta aberta: era uma cozinha terrea, de grande lareira, com sahida para o pateo estradado de matto onde dois bacorinhos foçavam. Na prateleira da chaminé rebrilhava a louça branca. Dos lados pendiam grandes cassarolas de cobre, d'um lustro de casa rica. N'um velho armario meio aberto branquejavam pilhas de roupa: e havia tanta ordem que uma claridade parecia sahir do aceio e do arranjo das coisas.

Amaro então bateu forte as palmas. Uma rôla pulou assustada, dentro da sua gaiola de vime pendurada da parede. Depois chamou alto:

--Senhora Carlota!

Immediatamente do lado do pateo uma mulher appareceu, com um crivo na mão. E Amaro, surprehendido, viu uma agradavel creatura de quasi quarenta annos, forte de peitos, ampla de encontros, muito branca no pescoço, com duas ricas arrecadas, e uns olhos negros que lhe lembraram os d'Amelia ou antes o brilho mais repousado dos da S. Joanneira.

Assombrado, balbuciou:

--Creio que me enganei... Aqui é que mora a senhora Carlota?

Não se enganára, era ella; mas com a idéa que a figura medonha «que tecia os anjos» devia estar algures, agachada n'um vão tenebroso da casa, perguntou ainda:

--Vossemecê vive aqui só?

A mulher olhou-o desconfiada:

--Não senhor, disse por fim, vivo com o meu marido...

Justamente o marido sahia do pateo,--medonho, esse, quasi anão, com a cabeça embrulhada n'um lenço e muito enterrada nos hombros, a face d'uma amarellidão de cera oleosa e lustrosa; no queixo annelavam-se os pêllos raros d'uma barba negra; e sob as arcadas fundas sem sobrancelhas, vermelhejavam dois olhos raiados de sangue, olhos d'insomnia e de bebedeira.

--Para o seu serviço, vossa senhoria quer alguma coisa? disse, muito collado á saia da mulher.

Amaro foi entrando pela cozinha, e tartamudeando uma historia que ia forjando laboriosamente. Era uma parente que ia ter o seu bom successo. O marido não pudéra vir fallar-lhes porque estava doente... Queriam uma ama para lhes ir para casa, e tinham-lhe dito...

--Não, fóra de casa, não. Cá em casa--disse o anão que não se despegava das saias da mulher, mirando o parocho de lado com o seu medonho olho injectado.