O crime do padre Amaro, scenas da vida devota
Chapter 31
Mandou-a ao outro dia cedo, pela Dionysia. A resposta veio só á noite, por um rapazito da quinta. Com que sofreguidão rasgou o sobrescripto! Eram apenas estas palavras: «Peço-lhe que me deixe em paz com os meus peccados.»
Não desistiu: ao outro dia lá estava na Ricoça a visitar a velha. Amelia achava-se no quarto de D. Josepha, quando elle appareceu. Fez-se muito pallida; mas os seus olhos não deixaram a costura--durante a meia hora que elle alli ficou, ora n'um silencio sombrio acabrunhado para o fundo da poltrona, ora respondendo distrahidamente á tagarellice da velha, muito falladora essa manhã.
E na semana seguinte foi o mesmo: se o ouvia entrar fechava-se rapidamente no quarto: só vinha, se a velha mandava a Gertrudes dizer-lhe «que estava alli o senhor o parocho que a queria vêr». Ia então, estendia-lhe a mão, que elle achava sempre a escaldar--e tomando a sua eterna costura, junto da janella, ia picando o posponto com uma taciturnidade que desesperava o padre.
Tinha-lhe escripto outra carta. Ella não respondera.
Então jurava não voltar á Ricoça, desprezal-a,--mas depois de ter passado a noite, rolando-se pela cama sem poder dormir, com a mesma visão da nudez d'ella cravada intoleravelmente no cerebro, lá partia de manhã para a Ricoça, córando quando o apontador das obras na estrada, que o via passar todos os dias, lhe tirava o seu boné d'oleado.
N'uma tarde que choviscava, ao entrar no casarão, dera com o abbade Ferrão que á porta abria o seu guardachuva.
--Olá, por aqui, senhor abbade! disse elle.
O abbade respondeu naturalmente:
--Em vossa senhoria é que não ha que estranhar, que vem por aqui todos os dias...
Amaro não se conteve; e tremendo de cólera:
--E que lhe importa ao senhor abbade se eu venho ou não? A casa é sua?
Aquella brutalidade tão injustificavel offendeu o abbade:
--Pois era melhor para todos que não viesse...
--E porque, senhor abbade? e porque?--gritou Amaro, perdido.
Então o bom homem estremeceu. Commettera, alli, a culpa mais grave do sacerdote catholico: o que sabia d'Amaro, dos seus amores, era em segredo de confissão; e era trahir o mysterio do sacramento, mostrar que desapprovava aquella insistencia no peccado. Tirou muito baixo o seu chapéo e disse humildemente:
--Tem vossa senhoria razão. Peço perdão do que disse, sem reflectir. Muito boas tardes, senhor parocho.
--Muito boas tardes, senhor abbade.
Amaro não entrou na Ricoça. Voltou para a cidade sob a chuva que batia forte agora. E, apenas em casa, escreveu uma longa carta a Amelia, em que lhe contava a scena com o abbade, acabrunhando-o d'accusações--sobretudo de lhe trahir indirectamente o segredo da confissão. Como das outras, d'esta carta não veio resposta da Ricoça.
Então Amaro começou a acreditar que tanta resistencia não podia vir só do arrependimento e do terror do inferno... «Alli ha homem», pensou. E devorado d'um ciume negro principiou a rondar de noite a Ricoça; mas não viu nada; o casarão permanecia adormecido e apagado. Uma occasião, porém, ao aproximar-se do muro do pomar, sentiu adiante no caminho que desce dos Poyaes uma voz cantarolar sentimentalmente a valsa dos _Dois mundos_, e um ponto brilhante de charuto accêso adiantar-se na escuridão. Assustado, refugiou-se n'um casebre que desmantelava em ruinas do outro lado da estrada. A voz calou-se; e Amaro, espreitando, viu então um vulto que parecia embrulhado n'um chalemanta claro, parado, contemplando as janellas da Ricoça. Um furor de ciume apossou-se d'elle, e ia saltar e atacar o homem--quando o viu seguir tranquillamente ao comprido da estrada, de charuto alto, trauteando:
Ouves ao longe retumbar na serra O som do bronze que nos causa horror...
Pela voz, pelo chale-manta, pelo andar tinha reconhecido João Eduardo. Mas teve a certeza que se um homem fallava de noite a Amelia ou entrava na quinta--não era decerto o escrevente. Todavia, receoso de ser descoberto, não tornou a rondar o casarão.
Era com effeito João Eduardo, que sempre que passava pela Ricoça, de dia ou de noite, parava um momento a olhar melancolicamente as paredes que _ella_ habitava. Porque apesar de tantas desillusões, Amelia permanecera para o pobre rapaz a _ella_, a bem amada, a coisa mais preciosa da terra. Nem em Ourem, nem em Alcobaça, nem pelas estalagens onde errára, nem em Lisboa onde chegára como vem á praia uma quilha de barco naufragado, deixára um momento de a ter presente na alma e de se enternecer com as saudades d'ella. Durante esses dias tão amargos de Lisboa, os peores da sua vida, em que fôra fiel de feitos d'um cartorio obscuro, perdido n'aquella cidade que lhe parecia ter a vastidão d'uma Roma ou d'uma Babylonia e em que sentia o duro egoismo das multidões azafamadas, esforçava-se mesmo por desenvolver mais esse amor que lhe dava como a doçura d'uma companhia. Achava-se menos isolado, tendo sempre no espirito aquella imagem com quem travava dialogos imaginados, nos seus infindaveis passeios ao longo do Caes do Sodré, accusando-a das tristezas que o envelheciam.
E esta paixão, sendo para elle como a indefinida justificação das suas miserias, tornava-o aos seus proprios olhos interessante. Era «um martyr de amor»; isto consolava-o, como o consolára nas suas primeiras desesperações considerar-se «uma victima das perseguições religiosas». Não era um pobre diabo banal a quem o acaso, a preguiça, a falta d'amigos, a sorte e os remendos do casaco mantêm fatalmente nas privações da dependencia: era um homem de grande coração, a quem uma catastrophe em parte amorosa e em parte politica, um drama domestico e social, forçára assim, depois de luctas heroicas, a viajar d'um a outro cartorio com um sacco de lustrina cheio d'autos. O destino tornára-o igual a tantos heroes que lera nas novellas sentimentaes... E o seu paletot coçado, os seus jantares a quatro vintens, os dias em que não tinha dinheiro para tabaco, tudo attribuia ao amor fatal d'Amelia e á perseguição d'uma classe poderosa, dando assim, por um instincto muito humano, uma origem grandiosa ás suas miserias triviaes... Quando via passar os que elle chamava os _felizes_--individuos batendo tipoia, rapazes que encontrava com uma linda mulher pelo braço, gente bem atabafada que se dirigia aos theatros, sentia-se menos desgraçado pensando que tambem elle possuia um grande luxo interior que era aquelle amor infeliz. E quando emfim por um acaso obteve a certeza d'um emprego no Brazil, o dinheiro da passagem, idealisava a sua aventura banal d'emigrante, repetindo-se durante todo o dia que ia passar os mares, exilado do seu paiz por uma tyrannia combinada de padres e auctoridades e por ter amado uma mulher!
Quem lhe diria então, ao emmalar o seu fato no bahú de lata, que d'ahi a semanas estaria outra vez a meia legua d'esses padres e d'essas auctoridades, contemplando d'olho terno a janella d'Amelia! Fôra aquelle singular Morgadinho de Poyaes,--que não era nem Morgadinho nem de Poyaes, e apenas um ricaço excentrico de ao pé d'Alcobaça que comprára aquella velha propriedade dos fidalgos de Poyaes, e que com a posse da terra recebia do povo da freguezia a honra do titulo: fôra esse santo cavalheiro que o livrára dos enjôos no paquete e dos acasos da emigração. Encontrára-o casualmente no cartorio onde elle ainda trabalhava nas vesperas da viagem. O Morgadinho, cliente do velho Nunes, conhecia-lhe a historia, a façanha do _Communicado_, o escandalo no largo da Sé; e já de ha muito concebera por elle uma sympathia ardente.
O Morgadinho tinha com effeito por padres um odio maniaco, a ponto de não lêr no jornal a noticia d'um crime, sem decidir (ainda mesmo quando o culpado estava já sentenciado) que «no fundo devia d'haver na historia um sotaina». Dizia-se que este rancor provinha dos desgostos que lhe dera sua primeira mulher, devota celebre d'Alcobaça. Apenas viu João Eduardo em Lisboa e soube da viagem proxima, teve immediatamente a idéa de o trazer para Leiria, installal-o nos Poyaes, e entregar-lhe a educação das primeiras letras dos seus dois pequenos como um insulto estridente feito a todo o clero diocesano. Imaginava de resto João Eduardo um impio; e isto convinha ao seu plano philosophico d'educar os rapazitos n'um «atheismo desbragado». João Eduardo aceitou, com as lagrimas nos olhos: era um salario magnifico que lhe vinha, uma posição, uma familia, uma rehabilitação estrondosa...
--Oh, senhor Morgado, nunca hei de esquecer o que faz por mim!...
--É p'ra meu gosto proprio!... É p'ra arreliar a canalha! E partimos ámanhã!
Em Chão de Maçãs, apenas desceu do wagon, exclamou logo para o chefe da estação que não conhecia João Eduardo, nem a sua historia:
--Cá o trago, cá o trago em triumpho! Vem p'ra quebrar a cara a toda a padraria... E se houver custas a pagar, sou eu que as pago!
O chefe da estação não estranhou--porque o Morgadinho passava no districto por maluco.
Foi ahi, nos Poyaes, logo ao outro dia da sua chegada, que João Eduardo soube que Amelia e D. Josepha estavam na Ricoça. Soube-o pelo bom abbade Ferrão, o unico sacerdote a quem o Morgado fallava, e que recebia em casa, não como padre, mas como cavalheiro.
--Eu como cavalheiro estimo-o, snr. Ferrão, costumava elle dizer, mas como padre abomino-o!
E o bom Ferrão sorria, sabendo que, sob aquella ferocidade d'impio obtuso, havia um santo coração, um pai-de-pobres na freguezia...
O Morgado era tambem grande amador de alfarrabios, questionador incansavel; ás vezes os dois tinham pelejas tremendas sobre historia, botanica, systemas de caça... Quando o abbade, no fogo da controversia, punha d'alto alguma opinião contraria:
--O senhor apresenta-me isso como padre ou como cavalheiro? exclamava, empinando-se, o Morgado.
--Como cavalheiro, senhor Morgado.
--Então aceito a objecção. É sensata. Mas se fosse como padre, quebrava-lhe os ossos.
Ás vezes, pensando irritar o abbade, mostrava-lhe João Eduardo, batendo d'alto no hombro do rapaz, n'uma caricia de amador, como um cavallo favorito:
--Veja-me isto! Já ia dando cabo d'um. E ainda ha de matar dois ou tres... E se o prenderem hei de eu livral-o da forca!
--Isso não é difficil, senhor Morgado, dizia o abbade tomando tranquillamente a sua pitada. Que já não ha forcas em Portugal...
Então era uma indignação do Morgado. Não havia forcas? E porque não? Porque tinhamos um governo livre e um rei constitucional! Que se se seguisse a vontade dos padres, havia uma forca em cada praça e uma fogueira em cada esquina!
--Diga-me uma coisa, snr. Ferrão, o senhor vem defender aqui em minha casa a inquisição?
--Oh, senhor Morgado, eu nem sequer fallei da inquisição...
--Não fallou por medo! Porque sabe perfeitamente que lhe enterrava uma faca no estomago!
E tudo isto aos gritos e aos pulos pela sala, fazendo um vendaval com as abas prodigiosas do seu robe-de-chambre amarello.
--No fundo um anjo, diria o abbade a João Eduardo. Capaz de dar a camisa mesmo a um padre, se o soubesse em necessidade... E vossê aqui está bem, João Eduardo... É não lhe reparar nas manias...
Tinha tomado affeição a João Eduardo, o abbade Ferrão: e sabendo por Amelia a famosa legenda do _Communicado_ quizera, segundo a sua expressão querida, «folhear o homem aqui e além». Conversára com elle tardes inteiras na rua de loureiros da quinta, na residencia onde João Eduardo se ia fornecer de livros; e sob o «exterminador de padres», como dizia o Morgado, encontrára um pobre moço sensivel, com uma religião sentimental, ambições de paz domestica, e prezando muito o trabalho. Então viera-lhe uma idéa que, sobretudo por lhe ter acudido um dia que sahia das suas devoções ao Santissimo, lhe pareceu descida de cima, da vontade do Senhor: era o casal-o com Amelia. Não seria difficil levar aquelle coração fraco e terno a perdoar o erro d'ella; e a pobre rapariga, depois de tantos transes, extincta aquella paixão que lhe entrára na alma como um sôpro do Demonio, levando-lhe a vontade, a paz e o pudor d'empurrão para o abysmo, encontraria na companhia de João Eduardo todo um resto de vida calmo, e contente, um canto suave d'interior, refugio dôce e purificação do passado. Não fallou nem a um, nem a outro, n'esta idéa que o enternecia. Não era o momento agora, que ella trazia nas entranhas o filho do _outro_. Mas ia preparando com amor aquelle resultado,--sobretudo quando estava com Amelia, contando-lhe as suas conversas com João Eduardo, algum dito muito sensato que elle tivera, os bons cuidados de preceptor que estava desenvolvendo na educação dos Morgaditos.
--É um bom rapaz, dizia. Homem de familia... D'estes a quem uma mulher póde realmente confiar a sua vida e a sua felicidade. Se eu pertencesse ao mundo, se tivesse uma filha, dava-lh'a...
Amelia não respondia, córando.
Já não podia objectar áquelles elogios persuasivos a antiga, a grande objecção--o _Communicado_, a impiedade! O abbade Ferrão destruira-lh'a um dia, com uma palavra:
--Eu li o artigo, minha senhora. O rapaz não escreveu contra os sacerdotes, escreveu contra os phariseus!
E para attenuar este julgamento severo, o menos caridoso que tivera havia muitos annos, acrescentou:
--Emfim, foi uma falta grave... Mas está muito arrependido. Pagou-o com lagrimas, e com fome.
E isto enternecia Amelia.
Fôra tambem por esse tempo que o doutor Gouvéa começára a vir á Ricoça, porque D. Josepha tinha peorado com os dias mais frios do outono. Amelia, ao principio, á hora da visita, fechava-se no seu quarto, tremendo á idéa de vêr o seu estado descoberto pelo velho doutor Gouvêa, o medico da casa, aquelle homem d'uma severidade legendaria. Mas emfim fôra necessario apparecer no quarto da velha, para receber as suas instrucções de enfermeira sobre as horas dos remedios e as dietas. E um dia que acompanhára o doutor até á porta, ficou gelada, vendo-o parar, voltar-se para ella cofiando a sua grande barba branca que lhe cahia sobre o jaquetão de velludo, e dizer-lhe sorrindo:
--Eu bem tinha dito a tua mãi que te casasse!
Duas lagrimas saltaram-lhe dos olhos.
--Bem, bem, pequena, não te quero mal por isso. Estás na verdade. A natureza manda conceber, não manda casar. O casamento é uma fórmula administrativa...
Amelia olhava-o, sem o comprehender, com as duas lagrimas muito redondinhas a correrem-lhe devagar pela face. Elle bateu-lhe com os dedos no queixo, muito paternal:
--Quero dizer que, como naturalista, regosijo-me. Acho que te tornaste util á ordem geral das coisas. Vamos ao que importa...
Deu-lhe então conselhos sobre a hygiene que devia ter.
--E quando chegar a occasião, se te vires atrapalhada, manda-me chamar...
Ia descer; Amelia deteve-o, e com uma supplicação assustada:
--Mas o senhor doutor não vai dizer nada na cidade...
O doutor Gouvéa parou:
--Então não é estupida?... Está bom, tambem t'o perdôo. Está na logica do teu temperamento. Não, não digo nada, rapariga. Mas p'ra que diabo, então, não casaste tu com esse pobre João Eduardo? Fazia-te tão feliz como o outro, e já não tinhas de pedir segredo... Emfim, isso para mim é um detalhe secundario... O essencial é o que te disse... Manda-me chamar. Não te fies muito nos teus santos... Eu entendo mais d'isso que Santa Brigida ou lá quem é. Que tu és forte, e has de dar um bom mocetão ao Estado.
Todas estas palavras que em parte não comprehendera bem, mas em que sentia uma vaga justificação e uma bondade d'avô indulgente, sobretudo aquella sciencia que lhe promettia a saude e a que as barbas grisalhas do doutor, umas barbas de Padre Eterno, davam um ar d'infallibilidade, reconfortaram-na, augmentaram a serenidade que havia semanas gozava, desde a sua confissão desesperada na capella dos Poyaes.
Ah, fôra decerto Nossa Senhora, compadecida emfim dos seus tormentos, que lhe mandára do céo aquella inspiração de se ir entregar toda dorida aos cuidados do abbade Ferrão! Parecia-lhe que deixára lá, no seu confessionario azul-ferrete, todas as amarguras, os terrores, a negra farrapagem de remorso que lhe abafava a alma. A cada uma das suas consolações tão persuasivas sentira desapparecer o negrume que lhe tapava o céo: agora via tudo azul; e quando rezava, já Nossa Senhora não desviava o rosto indignado. É que era tão differente aquella maneira de confessar do abbade! Os seus modos não eram os do representante rigido d'um Deus carrancudo; havia n'elle alguma coisa de feminino e de maternal que passava na alma como uma caricia; em logar de lhe erguer diante dos olhos o sinistro scenario das chammas do Inferno, mostrára-lhe um vasto céo misericordioso com as portas largamente abertas, e os caminhos multiplicados que lá conduzem, tão faceis e tão dôces de trilhar que só a obstinação dos rebeldes se recusa a tental-os. Deus apparecia, n'aquella suave interpretação da outra vida, como um bom bisavô risonho; Nossa Senhora era uma irmã de caridade; os santos, camaradas hospitaleiros! Era uma religião amavel, toda banhada de graça, em que uma lagrima pura basta para remir uma existencia de peccado. Que differente da soturna doutrina que desde pequena a trazia aterrada e tremula! Tão differente--como aquella pequena capella d'aldeia da vasta massa de cantaria da Sé. Lá, na velha Sé, muralhas da espessura de covados separavam da vida humana e natural: tudo era escuridão, melancolia, penitencia, faces severas d'imagens; nada do que faz a alegria do mundo alli entrava, nem o alto azul, nem os passaros, nem o ar largo dos prados, nem os risos dos labios vivos; alguma flôr que havia era artificial; o enxota-cães lá se postava ao portal para não deixar passar as criancinhas; até o sol estava exilado, e toda a luz que havia vinha dos lampadarios funebres. E alli, na capellita dos Poyaes, que familiaridade da natureza com o bom Deus! Pelas portas abertas penetrava a aragem perfumada das madresilvas; pequerruchos brincando faziam sonoras as paredes caiadas; o altar era como um jardinete e um pomar; pardaes atrevidos vinham chilrear até junto aos pedestaes das cruzes; ás vezes um boi grave mettia o focinho pela porta com a antiga familiaridade do curral de Belem, ou uma ovelha tresmalhada vinha regosijar-se de vêr um da sua raça, o Cordeiro Paschal, dormir regaladamente ao fundo do altar com a santa cruz entre as patas.
Além d'isso o bom abbade, como elle lhe dissera, «não queria impossiveis». Sabia bem que ella não podia arrancar n'um momento aquelle amor culpado, que ganhára raizes até ás profundezas do seu sêr. Queria apenas que quando a assaltasse a idéa de Amaro se abrigasse logo na idéa de Jesus. Com a força colossal de Satanaz, que tem o poder d'um Hercules, uma pobre rapariga não póde luctar braço a braço: póde sómente refugiar-se na oração quando o sente, e deixal-o fatigar-se de rugir e espumar em torno d'esse asylo impenetravel. Elle mesmo cada dia a ia ajudando n'aquella repurificação da alma, com uma solicitude de enfermeiro: fôra elle que lhe marcára, como um ensaiador n'um theatro, a attitude que devia ter na primeira visita de Amaro á Ricoça; era elle que chegava, com alguma breve palavra reconfortante como um cordial, se a via vacillar n'aquella lenta reconquista da virtude; se a noite fôra agitada das lembranças calidas dos prazeres passados, era durante toda a manhã uma boa palestra, sem tom pedagogico, em que lhe mostrava familiarmente que o céo lhe daria alegrias maiores que o quarto enxovalhado do sineiro. Chegára, com uma subtileza de theologo, a demonstrar-lhe que no amor do parocho não havia senão brutalidade e furor bestial; que, dôce como era o amor do homem, o amor do padre só podia ser uma explosão momentanea do desejo comprimido; quando tinham começado as cartas do parocho, analysára-lh'as phrase a phrase, revelando-lhe o que ellas continham de hypocrisia, de egoismo, de rhetorica, e de desejo torpe...
Ia-a assim lentamente desgostando do parocho. Mas não a desgostava do amor legitimo, purificado pelo sacramento; conhecia bem que ella era toda de carne e de desejos, e que lançal-a violentamente no mysticismo seria apenas torcer-lhe um momento o instincto natural e não crear-lhe uma paz duradoura. Não tentava arrancal-a bruscamente á realidade humana; elle não a queria para freira; só desejava que aquella força amante que sentia n'ella servisse á alegria d'um esposo e á util harmonia d'uma familia, e não se gastasse erradamente em concubinagens casuaes... No fundo, o bom Ferrão preferiria decerto na sua alma de sacerdote que a rapariga se separasse absolutamente de todos os interesses egoistas do amor individual, e se désse, como irmã da caridade, como enfermeira d'um recolhimento, ao amor mais largo de toda a humanidade. Mas a pobre Ameliasita tinha a carne muito bonita e muito fraca; não seria prudente assustal-a com sacrificios tão altos; era toda mulher--toda mulher devia ficar; limitar-lhe a acção era estragar-lhe a utilidade. Christo não lhe bastava com os seus membros ídeaes pregados na cruz: era-lhe necessario um homem como todos, de bigode e chapéo alto. Paciencia! Que ao menos elle fosse um esposo sob a legitimação sacramental...
Assim a ia curando d'aquella paixão morbida com uma direcção de todos os dias, uma d'estas persistencias de missionario que só dá a fé sincera, pondo a subtileza d'um casuista ao serviço da moralidade d'um philosopho, paternal e habil--uma cura maravilhosa de que o bom abbade em segredo tirava alguma vaidade.
E foi grande a sua alegria quando lhe pareceu que emfim a paixão por Amaro já não era na alma d'ella um sentimento vivo; mas estava morto, embalsamado, arrumado no fundo da sua memoria como n'um jazigo, escondido já sob a delicada florescencia d'uma virtude nova. Assim julgava pelo menos o bom Ferrão--vendo-a agora alludir ao passado com o olhar tranquillo, sem aquelles rubores que outr'ora lhe escaldavam a face ao simples nome de Amaro.
Ella, com effeito, já não pensava no senhor parocho com a commoção d'outr'ora: o terror do peccado, a influencia penetrante do abbade, aquella brusca separação do meio devoto em que o seu amor se desenvolvera, o gozo que sentia n'uma serenidade maior, sem sustos nocturnos e sem a inimizade de Nossa Senhora, tudo concorrêra para que o fogo ruidoso d'aquelle sentimento se fosse reduzindo a alguma braza que rebrilhava surdamente. O parocho estivera ao principio na sua alma com o prestigio d'um idolo coberto d'oiro; mas tantas vezes, desde a sua gravidez, sacudira, nas horas de terror religioso ou de arrependimento hysterico, aquelle idolo, que todo o dourado lhe ficára nas mãos, e a fórma trivial e escura que apparecia por baixo já não a deslumbrava; viu por isso o abbade derrubar-lh'o inteiramente, sem chorar e sem luctar. Se ainda pensava em Amaro, é porque não podia deixar de pensar na casa do sineiro; mas o que a tentava ainda era o prazer e não o parocho.
E com a sua natureza de boa rapariga tinha um reconhecimento sincero pelo abbade. Como dissera a Amaro n'aquella tarde, «devia-lhe tudo». Era o que sentia agora tambem pelo doutor Gouvêa, que vinha regularmente vêr a velha de dois em dois dias. Eram os seus bons amigos, como dois papás que o céo lhe mandava--um que lhe promettia a saude, outro a graça.
Refugiada n'aquellas duas protecções, gozou uma paz adoravel nas ultimas semanas de outubro. Os dias iam muito serenos e muito tepidos. Era bom estar no terraço, pelas tardes, n'aquella serenidade outonal dos campos. O doutor Gouvêa ás vezes encontrava-se com o abbade Ferrão; ambos se estimavam; depois da visita á velha, iam para o terraço, e começavam logo as suas eternas questões sobre Religião e sobre Moral.