O crime do padre Amaro, scenas da vida devota
Chapter 30
E apenas a Gertrudes d'ahi a pouco entrou a trazer-lhe a botija para os pés, D. Josepha exclamou, toda indignada, quasi choramingando:
--Ai, não presta p'ra nada, não presta p'ra nada!... Não me percebeu... É um tapado... É um pedreiro-livre, Gertrudes! Que vergonha n'um sacerdote do Senhor...
Desde esse dia não tornou a revelar ao abbade os peccados medonhos que continuava a commetter; e quando elle, por dever, quiz recomeçar a educação da sua alma, a velha declarou-lhe sem rodeios que, como se confessava com o senhor padre Gusmão, não sabia se seria delicado receber d'outro a direcção moral...
O abbade fez-se vermelho, respondeu:
--Tem razão, minha senhora, tem razão, deve-se ter muita delicadeza n'essas coisas...
Sahiu. E d'ahi por diante, depois de ter entrado no quarto a saber-lhe da saude, de ter fallado do tempo, da estação, das doenças que iam, d'alguma festa na igreja,--apressava-se em se despedir e ir para o terraço conversar com Amelia.
Vendo-a sempre tão tristonha, interessára-se por ella; para Amelia, as visitas do abbade eram uma distracção, n'aquella solidão da Ricoça; e assim se iam familiarisando, a ponto que nos dias em que elle regularmente vinha, Amelia punha um mantelete e ia pelo caminho dos Poyaes esperal-o até junto á casa do ferrador. As conversas do abbade, fallador incansavel, entretinham-na, tão differentes dos mexericos da rua da Misericordia,--como o espectaculo d'um largo valle com arvores, plantações, aguas, pomares e rumor de lavouras, recreia os olhos habituados ás quatro paredes caiadas d'uma trapeira da cidade. Tinha com effeito uma d'estas conversações semelhantes aos _jornaes semanaes de recreio_, o Thesouro das familias ou as Leituras para serões, em que de ha tudo--doutrina moral, historias de viagens, anecdotas dos grandes homens, dissertações sobre a lavoura, citação d'uma boa chalaça, traços sublimes da vida d'um santo, um verso aqui e além, e até receitas, como uma muito util que deu a Amelia para lavar as flanellas sem encolherem. Só era monotono quando fallava da sua familia parochiana, dos casamentos, baptisados, doenças, questões, ou quando começava as suas historias de caça.
--Uma vez, minha rica senhora, ia eu pelo Corrego das Tristes, quando uma revoada de perdizes...
Amelia sabia que, pelo menos uma hora, tudo seriam façanhas da _Janota_, pontarias fabulosas contadas em mimica, com imitações de vozes de passaros, e _pum, pum_ de fusilaria. Ou então eram descripções das caçadas selvagens que elle lêra com gula--a caça ao tigre do Nepal, ao leão d'Argelia e ao elephante, historias ferozes que arrastavam a imaginação da rapariga para longe, para os paizes exoticos onde a herva é alta como os pinheiros, o sol queima como um ferro em braza, e entre cada ramagem reluzem os olhos d'uma fera... E depois, a proposito de tigres e de malaios, lembrava-lhe uma historia curiosa de S. Francisco Xavier, e eil-o lançado, o terrivel palrador, na descripção dos feitos da Asia, das armadas da India e das estocadas famosas do cerco de Diu!
Foi mesmo um d'esses dias, no pomar, em que o abbade, tendo começado por enumerar as vantagens que o conego tiraria de transformar o pomar em terra de lavoura, acabára por contar perigos e valores dos missionarios da India e do Japão--que Amelia, então em toda a intensidade dos seus terrores nocturnos, fallou dos ruidos que ouvia na casa e dos sobresaltos que lhe davam.
--Oh, que vergonha! disse o abbade rindo; uma senhora da sua idade ter medo de papões...
Ella então, attrahida por aquella bondade do senhor abbade, contou-lhe as vozes que ouvia de noite por detraz da barra da cama.
O abbade pôz-se sério:
--Minha senhora, isso são imaginações que deve a todo o custo dominar... Decerto tem havido prodigios no mundo, mas Deus não se põe assim a fallar a qualquer, por detraz das barras das camas, nem permitte ao demonio que o faça... Essas vozes, se as ouve, e se os seus peccados são grandes, não vêm de detraz da cama, vêm-lhe de si mesmas, da sua consciencia... E póde então fazer dormir ao pé de si a Gertrudes, e cem Gertrudes, e todo o batalhão de infanteria, que as ha de continuar a ouvir... Havia de as ouvir, mesmo que fosse surda. O que é necessario é calmar a consciencia que reclama penitencia e purificação...
Tinham subido ao terraço, fallando assim: e Amelia sentára-se fatigada n'um dos bancos de pedra que alli havia, e ficára a olhar a quinta ao longe, os tectos dos curraes, a longa rua de loureiros, a eira, e a distancia os campos que se succediam planos e avivados do tom humido que lhes dera a chuva ligeira da manhã: agora a tarde estava d'uma placidez clara, sem vento, com grandes nuvens paradas que o sol do poente tocava de vivos côr de rosa tenro... Pensava n'aquellas palavras tão sensatas do abbade, no descanso que gozaria se cada peccado que lhe pesava na alma como um penedo se tornasse ligeiro e se dissipasse sob a acção da penitencia. E vinham-lhe desejos de paz, d'um repouso igual á quietação dos campos que se estendiam diante d'ella.
Um passaro cantou, depois calou-se; e recomeçou d'ahi a um momento com um trinado tão vibrante, tão alegre, que Amelia sorria, escutando-o.
--É um rouxinol...
--Os rouxinoes não cantam a esta hora, disse o abbade. É um melro... Ahi está um que não tem medo de phantasmas, nem ouve vozes... Olha que enthusiasmo, o maganão!
Era com effeito um gorgear triumphante, um delírio de melro feliz, que dera de repente a todo o pomar uma sonoridade festiva.
E Amelia, diante d'aquelle chilrear glorioso d'um passaro contente, subitamente, sem razão, n'um d'estes abalos nervosos que vem às mulheres hystericas, rompeu a chorar.
--Então, que é isso, que é isso? fez o abbade muito surprehendido.
Tomou-lhe a mão, com uma familiaridade de velho e d'amigo, calmando-a.
--Que infeliz que sou!... murmurou ella aos soluços.
Elle então muito paternal:
--Não tem razão para o ser... Sejam quaes forem as afflicções, as inquietações, uma alma christã tem sempre a consolação á mão... Não ha peccado que Deus não perdôe, nem dôr que não calme, lembre-se d'isso... O que não deve é guardar em si o seu desgosto... É isso que a suffoca, que a faz chorar... Se eu lhe posso valer, socegal-a, é procurar-me...
--Quando? disse ella toda desejosa já de se refugiar na protecção d'aquelle santo homem.
--Quando quizer, disse elle rindo. Eu não tenho horas para consolar... A igreja está sempre aberta, Deus está sempre presente...
Ao outro dia cedo, antes da hora em que a velha se erguia, Amelia foi á residencia; e durante duas horas esteve prostrada diante do pequeno confessionario de pinho--que o bom abbade por suas mãos pintára d'azul escuro, com extraordinarias cabecinhas d'anjos que em logar d'orelhas tinham azas, uma obra d'alta arte de que elle fallava com uma secreta vaidade.
XXIII
O padre Amaro acabára de jantar, e fumava, com os olhos no tecto, para não vêr o carão chupado do coadjutor que havia meia hora alli estava, immovel e espectral, fazendo cada dez minutos uma pergunta que cahia no silencio da sala como os quartos melancolicos que dá de noite um relogio de cathedral.
--O senhor parocho já não é assignante da _Nação_?
--Não senhor, leio o _Popular_.
O coadjutor recahiu no silencio, começando logo a colligir laboriosamente as palavras para uma nova pergunta. Soltou-a emfim, com lentidão:
--Não se tornou a saber d'aquelle infame que escreveu o _Communicado_?
--Não senhor, foi para o Brazil.
A criada entrou, n'este momento, dizendo que «estava alli uma pessoa que queria fallar ao senhor parocho». Era a sua maneira d'annunciar a presença de Dionysia na cozinha.
Havia semanas que ella não apparecia--e Amaro, curioso, sahiu logo da sala fechando a porta sobre si, e chamou a matrona ao patamar.
--Grande novidade, senhor parocho! E vim a correr, que é sério. Está cá o João Eduardo!
--Ora essa! exclamou o parocho. E eu justamente a fallar d'elle! É extraordinario! Olha que coincidencia...
--É verdade, vi-o hoje. Fiquei banzada... E já estou informada de tudo. O homem está mestre dos filhos do Morgadinho.
--Que Morgadinho?
--O Morgadinho dos Poyaes... Se vive lá, ou se vai pela manhã e vem á noite, isso não sei. O que sei é que voltou... E janota, fato novo... Eu entendi que devia avisar, porque póde estar certo que elle, mais dia menos dia, dá pela Ameliasinha lá na Ricoça... É no caminho p'ra casa do Morgado... Que lhe parece?...
--Forte besta! rosnou Amaro com rancor. Quando não serve é que apparece. Então por fim não foi para o Brazil?
--Pelos modos, não... Que a sombra d'elle não era, era elle mesmo em carne e osso... A sahir da loja do Fernandes por signal, e todo peralta... Sempre é bom avisar a rapariga, senhor parocho, que se não vá ella plantar de janella...
Amaro deu-lhe as duas placas que ella esperava--e d'ahi a um quarto d'hora, desembaraçado do coadjutor, ia no caminho da Ricoça.
Batia-lhe forte o coração quando avistou o casarão amarello, pintado de novo, o largo terraço lateral em linha com o muro do pomar, ornado d'espaço a espaço no parapeito de vasos nobres de pedra. Ia emfim, depois de tão longas semanas, vêr a sua Ameliasinha! E já se alvoroçava á idéa das exclamações apaixonadas com que ella lhe cahiria nos braços.
Ao rez do chão eram as cavallariças, do tempo da familia morgada que outr'ora alli habitára, agora abandonadas ás ratazanas e aos tortulhos, recebendo a luz por estreitas janellas gradeadas que quasi desappareciam sob camadas de teias de aranha; entrava-se por um immenso pateo escuro, onde havia longos annos se acastellava a um canto toda uma montanha de pipas vazias; e o lance d'escadaria nobre, que levava aos aposentos, era á direita, flanqueado de dois leõesinhos de pedra, benignos e somnolentos.
Amaro subiu até um sotão de tecto de carvalho apainelado, sem mobilia, com a metade do soalho coberta de feijão sêcco.
E, embaraçado, bateu as palmas.
Uma porta abriu-se. Amelia appareceu um instante, toda despenteada e em saia branca; deu um gritinho, bateu com a porta--e o parocho sentiu-a fugir para o interior do casarão. Ficou muito desconsolado no meio do salão, com o seu guardasol debaixo do braço, pensando na boa familiaridade com que entrava na rua da Misericordia--que até pareciam as portas abrir-se de si mesmo e o papel das paredes clarear-se d'alegria.
Ia bater as palmas outra vez, já quesilado, quando a Gertrudes **appareceu**.
--Oh, senhor parocho! Entre, senhor parocho! Ora até que emfim! Minha senhora, é o senhor parocho!--gritava, na alegria de vêr emfim uma visita querida, um amigo da cidade, n'aquelle desterro da Ricoça.
Levou-o logo para o quarto de D. Josepha, ao fundo da casa, um quarto enorme, onde, n'um pequeno canapé perdido a um canto, a velha passava os dias encolhida no seu chale, com os pés embrulhados n'um cobertor.
--Oh, D. Josepha! Como está? Como está?
Ella não pôde responder, tomada d'um accesso de tosse que lhe dera a commoção da visita.
--Como vê, senhor parocho, murmurou emfim muito fraca. Para aqui vou, arrastando esta velhice. E vossa senhoria? Porque não tem apparecido?
Amaro desculpou-se vagamente com os afazeres da Sé. E comprehendia agora, ao vêr aquella face amarella e cavada, com uma medonha touca de rendas negras, que tristes horas Amelia alli devia passar. Perguntou por ella; avistára-a de longe, mas ella deitára a fugir...
--É que não estava decente para apparecer, disse a velha. Hoje foi dia de barrela.
Amaro quiz então saber em que se entretinham, como passavam os dias n'aquella solidão...
--Eu para aqui estou. A pequena para ahi anda.
Depois de cada palavra, parecia abater-se n'uma fadiga e a sua ronqueira crescia.
--Então não se tem dado bem com a mudança, minha senhora?
Ella disse que não, n'um movimento de cabeça.
--Deixe fallar, senhor parocho, acudiu a Gertrudes que ficára de pé, ao lado do canapé, gozando a presença do senhor parocho.--Deixe fallar... É que a senhora exagera tambem... Levanta-se todos os dias, dá o seu passeinho até á sala, come a sua azita de frango... Temol-a aqui, temol-a arribada... É o que diz o senhor abbade Ferrão, a saude foge a toda a brida e para voltar vem a passo...
A porta abriu-se. Amelia appareceu, muito escarlate, com o seu antigo robe-de-chambre de merino rôxo, o cabello arranjado á pressa.
--Desculpe, senhor parocho, balbuciou, mas hoje tem sido um dia de balburdia...
Elle apertou-lhe a mão gravemente: e ficaram calados, como se estivessem separados pela distancia d'um deserto. Ella não tirava os olhos do chão, enrolando com a mão tremula uma ponta da manta de lã que trazia solta pelos hombros. Amaro achava-a mudada, um pouco inchada das faces, com uma ruga de velhice aos cantos da bôca. Para romper aquelle silencio estranho, perguntou-lhe tambem se se dava bem...
--Para aqui vou indo... É um pouco triste isto. É como diz o senhor abbade Ferrão, é muito grande para a gente se sentir em familia.
--Ninguem veio para aqui para se divertir, disse a velha sem descerrar as palpebras, com uma voz sêcca que perdera toda a fadiga.
Amelia baixou a cabeça, fazendo-se pallida.
Amaro então, comprehendendo n'um relance que a velha torturava Amelia, disse com muita severidade:
--É verdade, não foi para se divertirem... Mas tambem não foi para se entristecerem de proposito... Pôr-se uma pessoa de mau humor e fazer aos outros a vida negra, é uma falta horrivel de caridade; não ha peccado peor aos olhos do Senhor... É indigno da graça de Deus quem tal pratica...
A velha rompeu a choramingar, muito excitada:
--Ai, o que Deus me guardou para os ultimos annos da vida...
Gertrudes amimou-a. Então, senhora, que até lhe fazia peor estar a affligir-se assim... Ora o disparate! Tudo se havia de remediar com a ajuda de Deus. Saude não havia de faltar, nem alegria...
Amelia chegára-se á janella, decerto para esconder tambem as lagrimas que lhe saltavam dos olhos. E o parocho, consternado com a scena, começou a dizer que D. Josepha não estava supportando com a verdadeira resignação d'uma christã aquelles dias de doença... Nada escandalisava mais Nosso Senhor que vêr as creaturas revoltarem-se contra as dôres ou os encargos que elle mandava... Era insultar a justiça dos seus decretos...
--Tem razão, senhor parocho, tem razão, murmurou a velha muito contrita. Eu ás vezes nem sei o que digo... São coisas da doença.
--Bem, bem, minha senhora, é resignar-se e tratar de vêr tudo côr de rosa. É o sentimento que Deus mais aprecia. Eu comprehendo que é duro, estar para aqui enterrada...
--É o que diz o senhor abbade Ferrão, acudiu Amelia voltando da janella, a madrinha estranha... Assim arrancada aos habitos de tantos annos...
Notando então a citação repetida das palavras do abbade Ferrão, Amaro perguntou se elle costumava vir vêl-as...
--Ai, tem-nos feito muita companhia, disse Amelia. Vem quasi todos os dias.
--É um santo! exclamou a Gertrudes.
--Decerto, decerto, murmurou Amaro descontente d'um enthusiasmo tão vivo. Pessoa de muita virtude...
--De muita virtude, suspirou a velha. Mas...--Calou-se, não ousando decerto exprimir as suas reservas de devota.--E exclamou n'uma supplica:--Ai, o senhor parocho é que devia vir por aqui, ajudar-me a levar esta cruz da doença...
--Hei de vir, minha senhora, hei de vir. É bom para a distrahir, para lhe dar as noticias... E a proposito, tive hontem carta do nosso conego.
Rebuscou na algibeira, leu alguns periodos da carta. O padre-mestre já tinha quinze banhos. A praia estava cheia de gente. A D. Maria passára doente com um furunculo. O tempo famoso. Todas as tardes grandes passeatas a vêr recolher as rêdes. A S. Joanneira, boa, mas fallando sempre na filha...
--Pobre mamã... choramingou Amelia.
Mas a velha não se interessava com as novidades, gemendo a sua ronqueira. Foi Amelia que perguntou pelos amigos de Leiria, pelo senhor padre Natario, pelo senhor padre Silverio...
Ia escurecendo já: a Gertrudes fôra preparar o candieiro. Amaro emfim ergueu-se:
--Pois, minha senhora, até outro dia. Esteja certa que hei de apparecer de vez em quando. E nada d'affligir... Agasalho, boa dieta, e a misericordia de Deus não a ha de abandonar...
--Não nos falte, senhor parocho, não nos falte!...
Amelia estendera-lhe a mão, para se despedir alli no quarto; mas Amaro gracejando:
--Se não lhe causa incommodo, menina Amelia, sempre é bom vir mostrar-me o caminho, que eu perco-me n'este casarão.
Sahiram ambos. E apenas no salão, a que as tres largas vidraças davam ainda uma claridade:
--A velha faz-te a vida negra, filha, disse Amaro parando.
--Que mereço eu mais? respondeu ella baixando os olhos.
--Desavergonhada, eu lh'as cantarei!... Minha Ameliasinha, se soubesses o que me tem custado...
E fallando, ia abraçal-a pelo pescoço.
Mas ella recuou, toda perturbada.
--Que é isso? fez Amaro assombrado.
--O quê?
--Esse modo! Tu não me queres dar um beijo, Amelia? Tu estás doida?
Ella ergueu as mãos para elle, n'uma supplicação anciosa, fallando toda tremula:
--Não, senhor parocho, deixe-me! Isso acabou. Bem basta o que peccamos... Quero morrer na graça de Deus... Que nunca mais se falle em semelhante coisa!... Foi uma desgraça... Acabou-se... Agora o que quero é o socego de minha alma...
--Tu estás tola! Quem te metteu isso na cabeça? Ouve cá...
Foi para ella outra vez, com os braços abertos.
--Não me toque, pelo amor de Deus,--e vivamente recuou até á porta.
Elle olhou-a um momento, n'uma cólera muda.
--Bem, como queira, disse por fim. Em todo o caso, quero prevenil-a que o João Eduardo voltou, que passa aqui todos os dias, e que é bom não se pôr de janella.
--Que me importa a mim o João Eduardo e os outros e tudo o que passou?...
Elle acudiu, trasbordando d'um sarcasmo amargo:
--Está claro, agora o grande homem é o senhor abbade Ferrão!
--Devo-lhe muito, é o que sei...
A Gertrudes n'este momento entrava com o candieiro accêso. E Amaro, sem se despedir d'Amelia, abalou, de guardachuva em riste, rilhando os dentes de raiva.
Mas a longa caminhada até á cidade calmou-o. Aquillo na rapariga por fim era apenas um accesso de virtude e d'escrupulos! Vira-se alli só n'aquelle casarão, amargurada pela velha, impressionada pelos palavrões do moralista Ferrão, longe d'elle, e tinha-lhe vindo aquella reacção de devota com os seus terrores do outro-mundo e appetites de innocencia... Chalaça! Se elle começasse a ir á Ricoça, n'uma semana reganhava todo o seu dominio... Ah, conhecia-a bem! Era só tocar-lhe, piscar-lhe o olho... Estava logo rendida.
Passou porém uma noite inquieta, desejando-a mais que nunca. E ao outro dia á uma hora marchou para a Ricoça, levando-lhe um ramo de rosas.
A velha ficou toda contente ao vêl-o. É que lhe dava saude a presença do senhor parocho! E se não fosse a distancia havia de lhe pedir a esmola de vir todas as manhãs. Até depois d'aquella visitinha rezava com mais fervor...
Amaro sorria, distrahido, com os olhos cravados na porta.
--E a menina Amelia? perguntou por fim.
--Sahiu... Isso agora todas as manhãs é a passeata, disse a velha com azedume. Vai á residencia, é tôda do abbade...
--Ah! fez Amaro com um sorriso livido. Nova devoção, hein?... é pessoa de muitos meritos, o abbade.
--Ai, não presta, não presta! exclamou D. Josepha. Não me percebe. Tem idéas muito exquisitas. Não dá virtude...
--Homem de livros... disse Amaro.
Mas a velha erguera-se sobre o cotovêlo, e baixando a voz, com o magro carão accêso em odio:
--E aqui p'ra nós, a Amelia tem-se portado muito mal! Nunca lh'o hei de perdoar... Confessou-se ao abbade... É uma indelicadeza, sendo a confessada do senhor parocho, não tendo recebido de vossa senhoria senão favores... É uma ingrata, é uma traiçoeira!...
Amaro fizera-se pallido.
--Que me diz a senhora?
--A verdade! Que ella não o nega. Até se orgulha! É uma perdida, é uma perdida! Depois do favor que lhe estamos a fazer...
Amaro disfarçou a indignação que o revolvia. Riu até. Era necessario não exagerar... Não havia ingratidão. Era uma questão de fé. Se a rapariga pensava que o abbade a podia dirigir melhor, tinha razão em se abrir com elle... O que todos queriam é que ella salvasse a sua alma... Que fosse pela direcção de fulano ou sicrano, isso não importava... E nas mãos do abbade estava bem.
E chegando vivamente a cadeira para o leito da velha:
--E então agora, todas as manhãs vai à residencia?
--Quasi todas... Que ella não ha de tardar, vai depois d'almoço, volta sempre a esta hora... Ai, tem-me causado isto um desgosto!...
Amaro deu um passeiosinho nervoso pelo quarto, e estendendo a mão á velha:
--Pois minha senhora, eu não me posso demorar, que vim de fugida... Até um dia cedo.
E sem escutar a velha, que lhe pedia com anciedade que ficasse para jantar---desceu os degraus como uma pedra que rola, metteu furioso pelo caminho da residencia, ainda com o seu ramo na mão.
Esperava encontrar Amelia na estrada; e não tardou em a avistar quasi ao pé da casa do ferreiro, agachada ao pé do vallado, apanhando sentimentalmente florinhas silvestres.
--Que fazes tu aqui? exclamou, chegando junto d'ella.
Ella ergueu-se, com um gritinho.
--Que fazes tu aqui!? repetiu.
Áquelle _tu_, e áquella voz colerica, ella poz rapidamente um dedo na bôca, assustada. O senhor abbade estava dentro da casa com o ferreiro...
--Ouve lá, disse Amaro com os olhos chammejantes, agarrando-lhe o braço--tu confessaste-te ao abbade?...
--P'ra que quer saber? Confessei... Não é vergonha nenhuma...
--Mas confessaste _tudo, tudo_? perguntou elle com os dentes cerrados de raiva.
Ella perturbou-se, e tratando-o ainda por _tu_:
--Foste tu que me disseste muitas vezes... Que era o maior peccado n'este mundo, esconder alguma coisa ao confessor!
--Bebeda! rugiu Amaro.
Os seus olhos devoravam-na. E, através da nevoa de cólera que lhe enchia o cerebro e lhe fazia latejar as veias na fronte, achava-a mais bonita, com umas redondezas em todo o corpo que ardia por abraçar, com uns labios vermelhos avivados pelo largo ar do campo que elle queria morder até ao sangue.
--Ouve, disse-lhe cedendo a uma invasão brutal do desejo. Ouve... Acabou-se, não me importa. Confessa-te ao diabo se te agrada... Mas has de ser a mesma para mim!
--Não, não! disse ella com força, desprendendo-se, prompta a fugir para casa do ferreiro.
--Tu m'as pagarás, maldita!--rosnou o padre por entre dentes, voltando as costas, descendo o caminho com passadas de desesperado.
E não abrandou o passo até á cidade, levado de um impulso d'indignação que, sob aquella dôce paz d'um meio d'outono, lhe suggeria planos de vinganças ferozes. Chegou a casa esfalfado, ainda com o ramo na mão. Mas ahi, na solidão do quarto, veio-lhe pouco a pouco o sentimento da sua impotencia. Que lhe podia fazer por fim? Ir pela cidade dizer que ella estava gravida? Seria denunciar-se a si. Espalhar que estava amigada com o abbade Ferrão? Era absurdo: um velho de quasi setenta annos, d'uma fealdade de caricatura, com todo um passado de virtude santa... Mas perdel-a, não tornar a ter nos braços aquelle corpo de neve, não ouvir mais aquellas ternuras balbuciadas que lhe arrebatavam a alma para alguma coisa de melhor que o céo... Isso não!
E era possivel que ella, em seis ou sete semanas, tivesse assim esquecido tudo? N'aquellas longas noites na Ricoça, só na cama, não lhe viria uma recordação das manhãs no quarto do tio Esguelhas?... Decerto: elle sabia-o da experiencia de tantas confessadas que lhe tinham revelado afflictas a tentação muda e teimosa que não deixa a carne que uma vez peccou...
Não: devia perseguil-a, e por todos os modos soprar-lhe aquelle desejo que agora ardia n'elle mais alto e mais ruidoso.
Passou a noite a escrever-lhe uma carta de seis paginas, absurda, cheia d'implorações apaixonadas, de argucias mysticas, de pontos d'exclamação e de ameaças de suicidio...