O crime do padre Amaro, scenas da vida devota

Chapter 26

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E ao sahir, batendo nas costas de Amaro, fazendo luzir um olho d'entendedor:

--Pois seu velhaco, tem dedo!

--Que quer vossê? Que diabo... Começa-se por brincadeira...

--Homem! disse o conego sentenciosamente, é o que a gente leva de melhor d'este mundo.

--É verdade, padre-mestre, é verdade! É o que a gente leva de melhor d'este mundo.

Desde esse dia Amaro gozou uma completa tranquillidade d'alma. Até ahi incommodava-o, por vezes, a idéa de que correspondera ingratamente á confiança, aos carinhos que lhe tinham prodigalisado na rua da Misericordia. Mas a tacita approvação do conego viera tirar-lhe, como elle dizia, aquelle espinho da consciencia. Porque emfim, o chefe de familia, o cavalheiro respeitavel, o cabeça--era o conego. A S. Joanneira era apenas uma concubina... E Amaro mesmo, às vezes agora, em tom de galhofa, tratava o Dias de _seu caro sogro_.

Outra circumstancia viera alegral-o: a Tótó adoecera de repente: o dia seguinte ao da visita do conego, passára-o soltando golfadas de sangue: o doutor Cardoso, chamado á pressa, fallára de tisica galopante, questão de semanas, caso decidido...

--É d'estas, meu amigo, tinha elle dito, que é trás... trás...--Era a sua maneira de pintar a morte, que, quando tem pressa, conclue o seu trabalho com uma fouçada aqui, outra além.

As manhãs na casa do tio Esguelhas eram agora tranquillas. Amelia e o parocho já não entravam em pontas de pés, tentando esgueirar-se para o prazer, despercebidos da Tótó. Batiam com as portas, palravam forte, certos que a Tótó estava bem prostrada de febre, sob os lençoes humidos dos suores constantes. Mas Amelia, por escrupulo, não deixava de rezar todas as noites uma salve-rainha pelas melhoras da Tótó. Ás vezes mesmo ao despir-se, no quarto do sineiro, parava de repente, e fazendo um rostinho triste:

--Ai, filho! até me parece peccado, nós aqui a gozarmos, e a pobre pequena lá em baixo a luctar com a morte...

Amaro encolhia os hombros. Que lhe haviam elles de fazer, se era a vontade de Deus?...

E Amelia, resignando-se á vontade de Deus em tudo, ia deixando cahir as sáias.

Tinha agora d'aquellas pieguices frequentes que impacientavam o padre Amaro. Em certos dias apparecia muito murcha; trazia sempre algum sonho lugubre a contar, que a torturára toda a noite, e em que ella pretendia descobrir avisos de desgraças...

Perguntava-lhe ás vezes:

--Se eu morresse, tinhas muita pena?

Amaro enfurecia-se. Realmente era estupido! Tinham apenas uma hora para se verem, e haviam d'estar a estragal-a com lamurias?

--É que não imaginas, dizia ella, trago o coração negro como a noite.

Com effeito as amigas da mãi estranhavam-na. Ás vezes durante serões inteiros não descerrava os labios, pendida sobre a sua costura, picando mollemente a agulha; ou então, muito cansada mesmo para trabalhar, ficava junto da mesa fazendo girar devagar o _abat-jour_ verde do candieiro, com o olhar vazio e a alma muito longe.

--Ó rapariga, deixa esse _abat-jour_ em paz! diziam-lhe as senhoras nervosas.

Ella sorria, dava um suspiro fatigado, e retomava muito lentamente a sáia branca que havia semanas andava abainhando. A mãi, vendo-a sempre tão pallida, pensára em chamar o doutor Gouveia.

--Não é nada, minha mãi, é nervoso, passa...

O que provava a todos que era nervoso eram os sustos subitos que a tomavam--a ponto de dar um grilo, quasi desmaiar, se de repente uma porta batia. Certas noites mesmo, exigia que a mãi viesse dormir ao pé d'ella, com medo de pesadêlos e de visões.

--É o que diz sempre o senhor doutor Gouveia, observava a mãi ao conego, é uma rapariga que necessita casar...

O conego pigarreava grosso.

--Não lhe falta nada, resmungava. Tem tudo o que precisa. Tem de mais, ao que parece...

Era com effeito a idéa do conego, que a rapariga (como elle dizia só comsigo) «andava-se a arrasar de felicidade». Nos dias em que sabia que ella fôra vêr a Tótó, não se fartava de a estudar, cocando-a do fundo da poltrona com um olho pesado e lubrico. Prodigalisava-lhe agora as familiaridades paternaes. Nunca a encontrava na escada sem a deter, com coceguinhas aqui e alli, palmadinhas na face muito prolongadas. Queria-a em casa repetidas vezes pela manhã; e emquanto Amelia palrava com D. Josepha, o conego não cessava de rondar em torno d'ella, arrastando as chinelas com um ar de velho gallo. E eram entre Amelia e a mãi conversas sem fim sobre esta amizade do senhor conego, que decerto lhe deixaria um bom dote.

--Seu maganão, tem dedo!--dizia sempre o conego quando estava só com Amaro, arregalando os olhos redondos. Aquillo é um bocado de rei!

Amaro entufava-se:

--Não é mau bocado, padre-mestre, é um bom bocado.

Era este um dos **grandes** gozos d'Amaro--ouvir gabar aos collegas a belleza d'Amelia, que era chamada entre o clero «a flôr das devotas». Todos lhe invejavam aquella confessada. Por isso insistia muito com ella em que se ajanotasse nos domingos, á missa; zangára-se mesmo ultimamente de a vêr quasi sempre entrouxada n'um vestido de merino escuro, que lhe dava um ar de velha penitente.

Mas Amelia, agora, já não tinha aquella necessidade amorosa de contentar em tudo o senhor parocho. Acordára quasi inteiramente d'aquelle adormecimento estupido d'alma e do corpo, em que a lançára o primeiro abraço de Amaro. Vinha-lhe apparecendo distinctamente a consciencia pungente da sua culpa. N'aquelles negrumes d'um espirito beato e escravo, fazia-se um amanhecimento de razão.--O que era ella no fim? A concubina do senhor parocho. E esta idéa, posta assim descarnadamente, parecia-lhe terrivel. Não que lamentasse a sua virgindade, a sua honra, o seu bom nome perdido. Sacrificaria mais ainda por elle, pelos delirios que elle lhe dava. Mas havia alguma coisa peor a temer que as reprovações do mundo: eram as vinganças de Nosso Senhor. Era da perda possivel do paraiso que ella gemia baixo; ou de mais medonho ainda, d'algum castigo de Deus, não das punições transcendentes que acabrunham a alma além da tumba, mas dos tormentos que vêm durante a vida, que a feririam na sua saude, no seu bem-estar e no seu corpo. Eram vagos medos de doenças, de lepras, de paralysias ou de pobrezas, de dias de fome--de todas essas penalidades de que ella suppunha prodigo o Deus do seu catecismo. Como em pequena, nos dias em que se esquecia de pagar á Virgem o seu tributo regular de salve-rainhas, temia que ella a fizesse cahir na escada ou levar palmatoadas na mestra, arrefecia de medo agora, á idéa de que Deus, em castigo d'ella se deitar na cama com um padre, lhe mandasse um mal que a desfigurasse ou a reduzisse a pedir esmola pelas viellas. Estas idéas não a deixavam, desde o dia em que na sacristia peccára de concupiscencia dentro do manto de Nossa Senhora. Tinha a certeza que a Santa Virgem a odiava, e que não cessava de reclamar contra ella; debalde procurava abrandal-a, com um fluxo incessante de orações humilhadas; sentia bem Nossa Senhora, inaccessivel e desdenhosa, de costas voltadas. Nunca mais aquelle divino rosto lhe sorrira; nunca mais aquellas mãos se tinham aberto para receber com agrado as suas orações, como ramos congratulatorios. Era um silencio sêcco, uma hostilidade gelada de divindade offendida. Ella conhecia o credito que Nossa Senhora tem nos concilios do céo; desde pequena lh'o tinham ensinado; tudo o que ella deseja o obtem, como uma recompensa devida aos seus prantos no Calvario; seu Filho sorri-lhe á sua direita, o Deus-Padre falla-lhe á esquerda... E comprehendia bem que para ella não havia esperança--e que alguma coisa medonha se preparava lá era cima, no paraiso, que lhe cahiria um dia sobre o corpo e sobre a alma, esmagando-a com um desabamento de catastrophe. Que seria?

Cessaria as suas relações com Amaro, se o ousasse: mas receava quasi tanto a sua cólera como a de Deus. Que seria d'ella, se tivesse contra si Nossa Senhora e o senhor parocho? Além d'isso, amava-o. Nos seus braços, todo o terror do céo, a mesma idéa do céo desapparecia; refugiada alli, contra o seu peito, não tinha medo das iras divinas: o desejo, o furor da carne, como um vinho muito alcoolico, davam-lhe uma coragem colerica; era com um brutal desafio ao céo que se enroscava furiosamente ao seu corpo.--Os terrores vinham depois, só no seu quarto. Era esta lucta que a empallidecia, lhe punha pregas d'envelhecimento ao canto dos labios seccos e ardidos, lhe dava aquelle ar murcho de fadiga que irritava o padre Amaro.

--Mas que tens tu, que parece te espremeram o succo? perguntava-lhe elle quando aos primeiros beijos a sentia toda fria, toda inerte.

--Passei mal a noite... Nervoso.

--Maldito nervoso! rosnava o padre Amaro impaciente.

Depois vinham perguntas singulares que o desesperavam, repetidas agora todos os dias. Se tinha dito a missa com fervor? Se tinha lido o Breviario? Se tinha feito a oração mental?...

--Sabes tu que mais? disse elle furioso. Sêbo! E esta! Tu pensas que eu sou ainda seminarista, e que tu és o padre examinador, que verifica se cumpri a Regra? Ora a tolice!

--É que é necessario estar bem com Deus, murmurava ella.

Era com effeito a sua preoccupação, agora, que Amaro _fosse um bom padre_. Contava, para se salvar e para se livrar da cólera de Nossa Senhora, com a influencia do parocho na côrte de Deus: e temia que elle por negligencia de devoção a perdesse, e que, diminuindo o seu fervor, diminuissem os seus meritos aos olhos do Senhor. Queria-o conservar santo e favorito do céo, para colher os proveitos da sua protecção mystica.

Amaro chamava a isto «caturrices de freira velha». Detestava-as, por as achar frivolas--e porque tomavam um tempo precioso, n'aquellas manhãs da casa do sineiro...

--Nós não viemos aqui para lamurias, dizia elle, muito sêccamente. Fecha a porta, se queres.

Ella obedecia,--e então aos primeiros beijos na penumbra da janella cerrada, elle reconhecia emfim a sua Amelia, a Amelia dos primeiros dias, o delicioso corpo que lhe tremia todo nos braços, em espasmos de paixão.

E cada dia a desejava mais, d'um desejo continuo e tyrannico, que aquellas horas escassas não satisfaziam. Ah! positivamente, como mulher não havia outra!... Desafiava a que houvesse outra, mesmo em Lisboa, mesmo nas fidalgas!... Tinha pieguices, sim, mas era não as tomar a sério, e gozar emquanto era novo!

E gozava. A sua vida por todos os lados tinha confortos e doçuras--como uma d'estas salas onde tudo é acolchoado, não ha moveis duros nem angulos, e o corpo, onde quer que pouse, encontra a elasticidade molle d'uma almofada.

Decerto, o melhor eram as suas manhãs em casa do tio Esguelhas. Mas tinha outros regalos. Comia bem: fumava caro n'uma boquilha d'espuma: toda a sua roupa branca era nova e de linho: comprára alguma mobilia: e não tinha, como outr'ora, embaraços de dinheiro, porque a snr.^a D. Maria da Assumpção, a sua melhor confessada, lá estava com a bolsa prompta. Sobretudo, ultimamente, tivera uma pechincha: uma noite em casa da S. Joanneira, a excellente senhora, a proposito d'uma familia d'inglezes que vira passar n'um _char-á-banc_ para ir visitar a Batalha, exprimira a opinião que os inglezes eram herejes.

--São baptisados como nós, observára D. Joaquina Gansoso.

--Pois sim, filha, mas é um baptismo para rir. Não é o nosso rico baptismo, não lhes vale.

O conego então, que gostava de a torturar, declarou pausadamente que a snr.^a D. Maria dissera uma blasphemia. O santo concilio de Trento, no seu canon IV, sessão VII, lá determinára «que aquelle que disser que o baptismo dado aos herejes, em nome do Padre, do Filho e do Espirito, não é o verdadeiro baptismo, seja excommungado!» E a D. Maria, segundo o santo concilio, estava desde esse momento excommungada!...

A excellente senhora teve um flato. Ao outro dia foi lançar-se aos pés d'Amaro, que em penitencia da sua injuria feita ao canon IV, sessão VII do santo concilio de Trento, lhe ordenou trezentas missas de intenção pelas almas do purgatorio--que D. Maria lhe estava pagando a cinco tostões cada uma.

Assim, elle podia ás vezes entrar na casa do tio Esguelhas com um ar de satisfação mysteriosa e um embrulhosinho na mão. Era algum presente para Amelia, um lenço de sêda, uma gravatinha de côres, um par de luvas. Ella extasiava-se com aquellas provas da affeição do senhor parocho; e era então no quarto escuro um delirio d'amor, emquanto em baixo a tisica, sobre a Tótó, ia fazendo «trás... trás...»

XX

--O senhor conego? Quero-lhe fallar. Depressa!

A criada dos Dias indicou ao padre Amaro o escriptorio, e correu acima contar a D. Josepha que o senhor parocho viera procurar o senhor conego, e com uma cara tão transtornada que decerto tinha succedido alguma desgraça!

Amaro abrira abruptamente a porta do escriptorio, fechou-a de repellão, e sem mesmo dar os bons dias ao collega, exclamou:

--A rapariga está gravida!

O conego, que estava escrevendo, cahiu como uma massa fulminada para as costas da cadeira:

--Que me diz vossê!?

--Gravida!

E no silencio que se fez o soalho gemia sob os passeios furiosos do parocho da janella para a estante.

--Está vossê certo d'isso? perguntou emfim o conego com pavor.

--Certissimo! A mulher já ha dias andava desconfiada. Já não fazia senão chorar... Mas agora é certo... As mulheres conhecem, não se enganam. Ha todas as provas... Que hei de eu fazer, padre-mestre?

--Olha que espiga! ponderou o conego atordoado.

--Imagine vossê o escandalo! A mãi, a visinhança... E se suspeitam de mim?... Estou perdido... Eu não quero saber, eu fujo!

O conego coçava estupidamente o cachaço, com o beiço cahido como uma tromba. Representavam-se-lhe já os gritos em casa, a noite do parto, a S. Joanneira eternamente em lagrimas, toda a sua tranquillidade extincta para sempre...

--Mas diga alguma coisa! gritou-lhe Amaro desesperado. Que pensa vossê? Veja se tem alguma idéa... Eu não sei, eu estou idiota, estou de todo!

--Ahi estão as consequencias, meu caro collega.

--Vá p'r'ó inferno, homem! Não se trata de moral... Está claro que foi uma asneira... Adeus, está feita!

--Mas então que quer vossê? disse o conego. Não quer decerto que se dê uma droga á rapariga, que a arrase...

Amaro encolheu os hombros, impaciente com aquella idéa insensata. O padre-mestre, positivamente, estava divagando...

--Mas então que quer vossê? repetia o conego n'um tom cavo, arrancando as palavras do abysmo do thorax.

--Que quero!? quero que não haja escandalo! Que hei de eu querer?

--De quantos mezes está ella?

--De quantos mezes? Está d'agora, está d'um mez...

--Então é casal-a! exclamou o conego com explosão. Então é casal-a com o escrevente!

O padre Amaro deu um pulo:

--C'os diabos, tem vossê razão! É de mestre!

O conego affirmou gravemente com a cabeça que era «de mestre».

--Casal-a já! Emquanto é tempo! _Pater est quem nuptiæ demonstrant_... Quem é marido é que é pai.

Mas a porta abriu-se, e appareceram os oculos azues, a touca negra de D. Josepha. Não se pudera conter em cima, na cozinha, tomada d'um phrenesi agudo de curiosidade; descera na ponta das chinelas e collára o ouvido á fechadura do escriptorio; mas o grosso reposteiro de baetão estava cerrado por dentro, um ruido de lenha que se descarregava na rua abafava as vozes. A boa senhora então decidiu-se a entrar, «a dar os bons dias ao senhor parocho».

Mas debalde, por detraz dos vidros defumados, os seus olhinhos agudos esquadrinharam anciosamente o carão espesso do mano e a face pallida d'Amaro. Os dois sacerdotes estavam impenetraveis como duas janellas fechadas. O parocho mesmo fallou ligeiramente do rheumatico do senhor chantre, da notícia que corria sobre o casamento do senhor secretario geral... Ao fim d'uma pausa ergueu-se, contou que tinha n'esse dia uma famosa orelheira para o jantar--e a snr.^a D. Josepha, roendo-se, viu-o abalar depois de ter dito já por detraz do reposteiro ao conego:

--Então até á noite em casa da S. Joanneira, padre-mestre, hein?

--Até á noite.

E o conego, muito grave, continuou a escrever. D. Josepha então não se conteve; e depois de arrastar um momento as chinelas em torno da banca do mano:

--Ha novidade?

--Grande novidade, mana! disse-lhe o conego, sacudindo os bicos da penna. Morreu o senhor D. João VI!

--Malcriado! rugiu ella rodando sobre os sapatões, cruelmente perseguida por uma risadinha do mano.

Foi á noite, em baixo, na saleta da S. Joanneira, emquanto Amelia em cima, com a morte n'alma, martellava a _Valsa dos dois mundos_, que os dois padres, muito chegados no canapé, de cigarro nos dentes, por debaixo do tenebroso painel onde a vaga mão do cenobita se estendia em garra sobre a caveira, cochicharam o seu plano:--antes de tudo era **necessario** achar João Eduardo, que desapparecera de Leiria; a Dionysia, mulher de faro, ia bater todos os recantos da cidade para descobrir a toca em que a fera se acoutava; depois, immediatamente, porque o tempo urgia, Amelia escrever-lhe-hia... Só quatro palavras simples: que soubera que elle fôra victima d'uma intriga; que nunca perdera nada da amizade que lhe tinha; que lhe devia uma reparação; e que **viesse** vêl-a... Se o rapaz hesitasse agora, o que não era provavel (o conego affirmava-o), fazia-se-lhe reluzir a esperança do emprego no governo civil, facil d'obter pelo Godinho, inteiramente governado pela mulher, que era uma escravasinha do padre Silverio...

--Mas o Natario, disse Amaro, o Natario que detesta o escrevente, que dirá elle a esta revolução?

--Homem, exclamou o conego com uma grande palmada na côxa, que me tinha esquecido! Pois vossê não sabe o que aconteceu ao pobre Natario?...

Amaro não sabia.

--Quebrou uma perna! Cahiu da egoa!

--Quando?

--Esta manhã. Eu soube-o agora à noitinha. Eu sempre lh'o disse: homem, esse animal ferra-lhe alguma! Pois senhores, ferrou-lh'a. E têsa! Tem p'ra pêras... E eu que me tinha esquecido! Nem as senhoras lá em cima sabem nada.

Foi uma desolação, em cima, quando souberam. Amelia fechou o piano. Todos lembraram logo remedios que se lhe devia mandar, foi uma gralhada de offerecimentos--ligaduras, fios, um unguento das freiras d'Alcobaça, meia garrafinha d'um licôr dos monges do deserto d'ao pé de Cordova... Era necessario tambem assegurar a intervenção do céo: e cada uma se promptificou a usar do seu valimento com os santos da sua intimidade: D. Maria da Assumpção, que ultimamente praticava com Santo Eleuterio, offereceu a sua influencia; D. Josepha Dias encarregava-se d'interessar Nossa Senhora da Visitação; D. Joaquina Gansoso afiançou S. Joaquim...

--E lá a menina? perguntou o conego a Amelia.

--Eu?...

E fez-se pallida, n'uma tristeza de toda a sua alma, pensando que ella, com os seus peccados e os seus delírios, perdera a util amizade de Nossa Senhora das Dôres.--E não poder ella tambem concorrer com a sua influencia no céo para restabelecer a perna de Natario, foi uma das amarguras maiores, talvez a punição mais viva que sentira desde que amava o padre Amaro.

Foi em casa do sineiro, d'ahi a dias, que Amaro participou a Amelia o plano do padre-mestre. Preparou-a, revelando-lhe primeiro que o conego sabia tudo...

--Sabe tudo em segredo de confissão, acrescentou para a socegar. Além d'isso elle e tua mãi têm culpas em cartorio... Tudo fica em familia...

Depois tomou-lhe a mão, e olhando-a com ternura, como compadecendo-se já das lagrimas afflictas que ella ia chorar:

--E agora escuta, filha. Não te afflijas com o que te vou dizer, mas é necessario, é a nossa salvação...

Ás primeiras palavras, porém, do casamento com o escrevente, Amelia indignou-se com espalhafato.

--Nunca, antes morrer!

O quê? Elle punha-a n'aquelle estado e agora queria descartar-se d'ella e passal-a a outro? Era ella porventura um trapo que se usa e que se atira a um pobre? Depois de ter posto fóra de casa o homem, havia de humilhar-se, chamal-o e cahir-lhe nos braços?... Ah, não! Tambem ella tinha o seu brio! Os escravos trocavam-se, vendiam-se, mas era no Brazil!

Enterneceu-se então. Ah, elle já não a amava, estava farto d'ella! Ah, que desgraçada, que desgraçada que era!--Atirou-se de bruços para a cama e rompeu n'um chôro estridente.

--Cala-te, mulher, que te podem ouvir na rua! dizia Amaro desesperado, sacudindo-a pelo braço.

--Não me importa! Que ouçam! P'r'á rua vou eu gritar que estou n'este estado, que foi o senhor padre Amaro, e que me quer agora deixar!...

Amaro fazia-se livido de raiva, com um desejo furioso de lhe bater. Mas conteve-se; e com uma voz que tremia sob a sua serenidade:

--Tu estás fóra de ti, filha... Dize lá, posso eu casar comtigo? Não! Bem, então que queres? Se se percebe que estás assim, se tens o filho em casa, vê o escandalo!... Por ti, estás perdida, perdida p'ra sempre! E eu, se se souber, que me succede? Perdido tambem, suspenso, mettido em processo talvez... De que queres tu que eu viva? Queres que morra de fome?

Enterneceu-se tambem áquella idéa das privações e das miserias do padre interdicto.--Ah, era ella, era ella que o não amava, e que depois d'elle ter sido tão carinhoso e tão delicado, lhe queria pagar com o escandalo e com a desgraça...

--Não, não! exclamou Amelia em soluços, lançando-se-lhe ao pescoço.

E ficaram abraçados, tremendo no mesmo **enternecimento**,--ella molhando de pranto o hombro do parocho, elle mordendo o beiço com os olhos todos turvos d'agua.

Desprendeu-se brandamente, emfim, e limpando as lagrimas:

--Não, filha, é uma desgraça que nos succede, mas tem de ser. Se tu soffres, imagina eu! Vêr-te casada, a viver com outro... Nem fallemos n'isso... Mas então, é a fatalidade, é Deus que a manda!

Ella ficára aniquilada, á beira do leito, tomada ainda de grandes soluços. Tinha chegado emfim o castigo, a vingança de Nossa Senhora, que ella sentia preparar-se ha tempos no fundo dos céos, como uma tormenta complicada. Ahi estava, agora, peor que os fogos do Purgatorio! Tinha de se separar de Amaro que imaginava amar mais, e ir viver com o outro, com o excommungado! Como poderia ella nunca reentrar na graça de Deus, depois de ter dormido e vivido com um homem que os canones, o Papa, toda a terra, todo céo consideravam maldito?... E devia ser esse seu marido, talvez o pai d'outros filhos... Ah, Nossa Senhora vingava-se de mais!

--E como posso eu casar com elle, Amaro, se o homem está excommungado?!

Amaro então apressou-se a tranquillisal-a, prodigalisando os argumentos. Era necessario não exagerar... O rapaz, verdadeiramente, excommungado não estava... Natario e o conego tinham interpretado mal os canones e as bullas... Bater n'um sacerdote que não estava revestido não era motivo d'excommunhão _ipso facto_, segundo certos auctores... Elle, Amaro, era d'essa opinião... De mais a mais podiam levantar-lhe a excommunhão.

--Tu comprehendes... Como disse o santo concilio de Trento, e como sabes, _nós atamos e desatamos_. O moço foi excommungado?... Bem, levantamos-lhe a excommunhão... Fica tão limpo como d'antes. Não, isso não te dê cuidado.

--Mas de que havemos de viver, se elle perdeu o emprego?

--Tu não me deixaste dizer... Arranja-se-lhe o emprego. Arranja-lh'o o padre-mestre. Está tudo combinadinho, filha!

Ella não respondeu, muito quebrada e muito triste, com duas lagrimas persistentes ao comprido das faces.

--Dize cá, tua mãi não desconfia de nada?

--Não, por ora não se percebe, respondeu ella com um grande ai.

Ficaram calados: ella limpando as lagrimas, serenando para sahir; elle de cabeça baixa, trilhando lugubremente o soalho do quarto, pensando nas boas manhãs d'outr'ora, quando só havia alli beijos e risadinhas abafadas; tudo mudára agora, até o tempo que estava todo nublado, um dia de fim de verão, ameaçando chuva.

--Percebe-se que estive a chorar? perguntou ella, compondo ao espelho o cabello.

--Não. Vaes-te?

--A mamã está á minha espera...

Deram um beijo triste, e ella sahiu.