O crime do padre Amaro, scenas da vida devota
Chapter 25
Poz-lh'a nos hombros, apertou-lhe sobre o peito o fecho de prata lavrada. E afastou-se para a contemplar toda envolvida no manto, assustada e immovel, com um sorriso cálido de gozo devoto.
--Oh filhinha, que linda que ficas!
Ella então, movendo-se com uma cautela solemne, chegou-se ao espelho da sacristia--um antigo espelho de reflexo esverdeado com um caixilho negro de carvalho lavrado, tendo no topo uma cruz. Mirou-se um momento, n'aquella sêda azul celeste que a envolvia toda, picada do brilho agudo das estrellas, com uma magnificencia sideral. Sentia-lhe o peso rico. A santidade que o manto adquirira no contacto com os hombros da imagem penetrava-a d'uma voluptuosidade beata. Um fluido mais dôce que o ar da terra envolvia-a, fazia-lhe passar no corpo a caricia do ether do paraiso. Parecia-lhe ser uma santa no andor, ou mais alto, no céo...
Amaro babava-se para ella:
--Oh filhinha, és mais linda que Nossa Senhora!
Ella deu uma olhadella viva ao espelho. Era, decerto, linda. Não tanto como Nossa Senhora... Mas com o seu rosto trigueiro, de labios rubros, alumiado por aquelle rebrilho dos olhos negros, se estivesse sobre o altar, com cantos ao orgão e um culto susurrando em redor, faria palpitar bem forte o coração dos fieis...
Amaro então chegou-se por detraz d'ella, cruzou-lhe os braços sobre o seio, apertou-a toda--e estendendo os labios por sobre os d'ella, deu-lhe um beijo mudo, muito longo... Os olhos d'Amelia cerravam-se, a cabeça inclinava-se-lhe para traz, pesada de desejo. Os beiços do padre não se desprendiam, avidos, sorvendo-lhe a alma. A respiração d'ella apressava-se, os joelhos tremiam-lhe: e com um gemido desfalleceu sobre o hombro do padre, descórada e morta de gozo.
Mas endireitou-se de repente, fixou Amaro batendo as palpebras como acordada de muito longe; uma onda de sangue escaldou-lhe o rosto:
--Oh Amaro, que horror, que peccado!...
--Tolice! disse elle.
Mas ella desprendia-se do manto, toda afflicta:
--Tira-m'o, tira-m'o! gritava, como se a sêda a queimasse.
Então Amaro fez-se muito sério. Realmente não se devia brincar com coisas sagradas...
--Mas não está benzida... Não tem duvida...
Dobrou o manto cuidadosamente, envolveu-o no lençol branco, collocou-o no gavetão, sem uma palavra. Amelia olhava-o petrificada: e só os seus labios pallidos se moviam n'uma oração.
Quando elle lhe disse, emfim, que eram horas d'irem a casa do sineiro--recuou, como diante do demonio que a chamasse.
--Hoje não! exclamou, implorando-o.
Elle insistiu. Era levar realmente muito longe a pieguice... Ella bem sabia que não era peccado, quando as coisas não estavam benzidas... Era ser muito pobre d'espirito... Que demonio, só meia hora, ou um quarto d'hora!
Ella, sem responder, ia-se aproximando da porta.
--Então não queres?
Ella voltou-se, e com uns olhos supplicantes:
--Hoje não!
Amaro encolheu os hombros. E Amelia atravessou rapidamente a igreja, de cabeça baixa e olhos nas lages, como se passasse entre as ameaças cruzadas dos santos indignados.
No dia seguinte de manhã, a S. Joanneira, que estava na sala de jantar, sentindo o senhor conego subir soprando forte, veio encontral-o á escada e fechou-se com elle na saleta.
Queria contar-lhe a afflicção que tivera de madrugada. A Amelia acordára de repente aos gritos, que Nossa Senhora lhe estava a pousar o pé no pescoço! que suffocava! que a Tótó a queimava por detraz! e que as labaredas do inferno subiam mais alto que as torres da Sé!... Emfim um horror!... Viera encontral-a em camisa a correr pelo quarto, como doida. D'ahi a pouco cahira para o lado com um ataque de nervos. Toda a casa estivera em alvoroço... A pobre pequena lá estava de cama, e em toda a manhã apenas tocára n'uma colher de caldo.
--Pesadêlos, disse o conego. Indigestão!
--Ai, senhor conego, não! exclamou a S. Joanneira, que parecia acabrunhada, sentada diante d'elle na borda d'uma cadeira. É outra coisa: são aquellas desgraçadas visitas á filha do sineiro!
E então desabafou, com a effusão labial de quem abre os diques a um descontentamento accumulado. Nunca quizera dizer nada, porque emfim reconhecia que era uma grande obra de caridade. Mas, desde que aquillo começára, a rapariga parecia transtornada. Ultimamente, então, andava de todo. Ora alegrias sem razão, ora umas trombas de dar melancolia aos moveis. De noite sentia-a passear pela casa até tarde, abrir as janellas... Ás vezes tinha até medo de lhe vêr o olhar tão exquisito: quando vinha de casa do sineiro era sempre branca como a cal, a cahir de fraqueza. Tinha de tomar logo um caldo... Emfim, dizia-se que a Tótó tinha o demonio no corpo. E o senhor chantre, o outro que tinha morrido (Deus lhe falle n'alma), costumava dizer que n'este mundo as duas coisas que se pegavam mais ás mulheres eram tisicas e demonio no corpo. Parecia-lhe, pois, que não devia consentir que a pequena fosse a casa do sineiro, sem estar certa que aquillo nem lhe prejudicava a saude nem lhe prejudicava a alma. Emfim, queria que uma pessoa de juizo, d'experiencia, fosse examinar a Tótó...
--N'uma palavra, disse o conego que escutára d'olhos cerrados aquella verbosidade repassada de lamuria, o que a senhora quer é que eu vá vêr a paralytica e saber á justa o que se passa...
--Era um allivio p'ra mim, riquinho!
Aquella palavra, que S. Joanneira, na sua gravidade de matrona, reservava para a intimidade das séstas, enterneceu o conego. Fez uma caricia ao pescoço gordo da sua velhota, prometteu com bondade ir estudar o caso...
--Ámanhã, que a Tótó está só, lembrou logo a S. Joanneira.
Mas o conego preferia que Amelia estivesse presente. Podia assim vêr como as duas se davam, se havia influencia do espirito maligno...
--Que isto que eu faço é d'agradecer... É por ser p'ra quem é... Que bem me bastam os meus achaques, sem me occupar dos negocios de Satanaz.
A S. Joanneira recompensou-o com uma beijoca sonora.
--Ah, sereias, sereias!... murmurou o conego philosophicamente.
No fundo aquelle encargo desagradava-lhe: era uma perturbação nos seus habitos, toda uma manhã desarranjada; ia decerto fatigar-se, tendo d'exercitar a sua sagacidade; além d'isso odiava o espectaculo de doenças e de todas as circumstancias humanas relacionadas com a morte. Mas, emfim, fiel á sua promessa, d'ahi a dias, na manhã em que fôra prevenido que Amelia ia á Tótó, arrastou-se contrariado para a botica do Carlos; e installou-se, com um olho no _Popular_ e outro na porta, á espera que a rapariga **atravessasse** para a Sé. O amigo Carlos estava ausente; o snr. Augusto occupava os seus vagares sentado á escrivaninha, de testa sobre o punho, relendo o seu Soares de Passos; fóra, o sol já quente dos fins de abril fazia rebrilhar o lageado do largo; não passava ninguem; e só quebravam o silencio as martelladas nas obras do doutor Pereira. Amelia tardava. E o conego, depois de ter considerado longo tempo, com o _Popular_ cahido nos joelhos, o medonho sacrificio que fazia pela sua velhota, ia cerrando as palpebras, já tomado da quebreira, n'aquelle repouso calado do meio dia proximo--quando entrou na botica um ecclesiastico.
--Oh, abbade Ferrão, vossê pela cidade! exclamou o conego Dias despertando do seu quebranto.
--De fugida, collega, de fugida, disse o outro collocando cuidadadosamente sobre uma cadeira dois grossos volumes que trazia, amarrados n'um barbante.
Depois voltou-se e tirou com respeito o seu chapéo ao praticante.
Tinha o cabello todo branco; devia passar já dos sessenta annos; mas era robusto, uma alegria bailava sempre nos seus olhinhos vivos, e tinha dentes magnificos a que uma saude de granito conservava o esmalte; o que o desfigurava era um nariz enorme.
Informou-se logo com bondade se o amigo Dias estava alli de visita ou infelizmente por motivo de doença.
--Não, estou aqui á espera... Uma embaixada de truz, amigo Ferrão!
--Ah, fez o velho discretamente.--E emquanto tirava com methodo d'uma carteira atulhada de papeis a receita para o praticante, deu ao conego noticias da freguezia. Era lá, nos Poyaes, que o conego tinha a fazenda, a Ricoça. O abbade Ferrão passára de manhã diante da casa e ficára surprehendido vendo que lhe andavam a pintar a fachada. O amigo Dias tinha algumas idéas d'ir lá passar o verão?
Não, não tinha. Mas como trouxera obras dentro e a fachada estava uma vergonha, mandára-lhe dar uma mão d'oca. Emfim era necessario alguma apparencia, sobretudo n'uma casa que estava á beira da estrada, onde passava todos os dias o morgadelho dos Poyaes, um parlapatão que imaginava que só elle tinha um palacete decente em dez leguas á roda... Só para metter ferro áquelle atheu! Pois não lhe parecia, amigo Ferrão?
O abbade estava justamente lamentando comsigo aquelle sentimento de vaidade n'um sacerdote; mas, por caridade christã, para não contrariar o collega, apressou-se a dizer:
--Está claro, está claro. A limpeza é a alegria das coisas...
O conego então, vendo passar no largo uma saia e um mantelete, foi á porta affirmar-se se era Amelia. Não era. E voltando, retomado agora da sua preoccupação, vendo que o praticante fôra dentro ao laboratorio, disse ao ouvido do Ferrão:
--Uma embaixada da fortuna! Vou vêr uma endemoninhada!
--Ah, fez o abbade, todo sério á idéa d'aquella responsabilidade.
--Quer vossê vir commigo, abbade? É aqui perto...
O abbade desculpou-se polidamente. Viera fallar ao senhor vigario geral, fôra depois ao Silverio para lhe pedir aquelles dois volumes, vinha alli aviar uma receita para um velho da freguezia, e tinha d'estar de volta aos Poyaes ao toque das duas horas.
O conego insistiu; era um instante, e o caso parecia curioso...
O abbade então confessou ao caro collega que eram coisas que não gostava d'examinar. Aproximava-se sempre d'ellas com um espirito rebelde á crença, com desconfianças e suspeitas que lhe diminuiam a imparcialidade.
--Mas emfim ha prodigios! disse o conego.--Apesar das suas proprias duvidas, não gostava d'aquella hesitação do abbade, a proposito d'um phenomeno sobrenatural, em que elle, conego Dias, estava interessado. Repetiu com seccura:--Tenho alguma experiencia, e sei que ha prodigios.
--Decerto, decerto ha prodigios, disse o abbade. Negar que Deus ou a Rainha do céo possa apparecer a uma creatura é contra a doutrina da Igreja... Negar que o demonio possa habitar o corpo de um homem, seria estabelecer um erro funesto... Aconteceu a Job, sem ir mais longe, e á familia de Sara. Está claro, ha prodigios. Mas que rarissimos que são, conego Dias!
Calou-se um momento olhando o conego, que tapava o nariz com rapé em silencio--e continuou mais baixo, com o olho brilhante e fino:
--E depois não tem o collega notado que é uma coisa que só succede ás mulheres? É só a ellas, cuja **malicia** é tão grande que o proprio Salomão não lhes pôde resistir, cujo temperamento é tão nervoso, tão contradictorio que os medicos não as comprehendem. É só a ellas que succedem prodigios!... O collega já ouviu de ter apparecido a nossa Santa Virgem a um respeitavel tabellião? Já ouviu d'um digno juiz de direito possuido do espirito maligno? Não. Isto faz reflectir... E eu concluo que é malicia n'ellas, illusão, imaginação, doença, etc... Não lhe parece? A minha regra n'esses casos é vêr tudo isso d'alto e com muita indifferença.
Mas o conego, que vigiava a porta, brandiu subitamente o guardasol, fazendo para o largo:
--Pst, pst! Eh lá!
Era Amelia que passava. Parou logo, contrariada d'aquelle encontro que a ia ainda retardar mais. E já o senhor parocho devia estar desesperado...
--De modo que, disse o conego á porta abrindo o seu guardasol, vossê, abbade, era lhe cheirando a prodigio...
--Suspeito logo escandalo.
O conego contemplou-o um momento, com respeito:
--Vossê, Ferrão, é capaz de dar quinaus a Salomão em prudencia!
--Oh, collega! oh, collega! exclamou o abbade, offendido com aquella injustiça feita á incomparavel sabedoria de Salomão.
--Ao proprio Salomão! affirmou ainda o conego da rua.
Tinha preparado uma historia habil para justificar a sua visita á paralytica; mas durante a sua conversação com o abbade ella escapára-lhe, como tudo o que deixava um momento nos reservatorios da memoria; e foi sem transição que disse simplesmente a Amelia:
--Vamos lá, tambem quero ir vêr essa Tótó!
Amelia ficou petrificada. E o senhor parocho, naturalmente, já lá estava! Mas sua madrinha Nossa Senhora das Dôres, que ella invocou logo n'aquella afflicção, não a deixou enleada no embaraço.--E o conego, que caminhava ao lado d'ella, ficou surprehendido ouvindo-lhe dizer com um risinho:
--Viva, hoje é o dia das visitas á Tótó! O senhor parocho disse-me que tambem talvez hoje apparecesse por lá... Talvez lá esteja até.
--Ah! O amigo parocho tambem? Está bom, está bom. Faremos uma consulta á Tótó!
Amelia então, contente da sua malicia, tagarellou sobre a Tótó. O senhor conego ia vêr... Era uma creatura incomprehensivel... Ultimamente, ella não tinha querido contar em casa, mas a Tótó tomára-lhe birra... E dizia coisas, tinha um modo de fallar de cães e d'animaes, d'arripiar!... Ai, era um encargo que já lhe pesava... Que a rapariga não lhe escutava as lições, nem as orações, nem os conselhos... Era uma fera!
--O cheiro é desagradavel! rosnou o conego entrando.
Que queria! A rapariga era uma porca, não havia tel-a arranjado. O pai, esse, um desleixado tambem...
--É aqui, senhor conego, disse, abrindo a porta da alcova--que agora, em obediencia ás ordens do senhor parocho, o tio Esguelhas deixava sempre fechada.
Encontraram a Tótó meio erguida sobre a cama, com a face accêsa n'uma curiosidade, áquella voz do conego que não conhecia.
--Ora viva lá a snr.^a Tótó! disse elle da porta, sem se aproximar.
--Vá, comprimenta o senhor conego, disse Amelia, começando logo, com uma caridade desacostumada, a compôr a roupa da cama, a arrumar a alcova. Dize-lhe como estás... Não te faças amuada!
Mas a Tótó permaneceu tão muda como a imagem de S. Bento que tinha á cabeceira, examinando muito aquelle sacerdote tão gordo, tão grisalho, tão differente do senhor parocho... E os seus olhos, mais brilhantes todos os dias á medida que se lhe cavavam as faces, iam, como de costume, do homem para Amelia, n'uma anciedade de perceber porque o trazia ella alli, aquelle velho obeso, e se ia tambem subir com elle para o quarto.
Amelia agora tremia. Se o senhor parocho entrasse, e alli, diante do cónego, a Tótó, tomada do seu phrenesi, rompesse aos gritos, tratando-os de cães!... Com o pretexto de dar uma arrumadella foi à cozinha vigiar o pateo. Faria um signal da janella, apenas Amaro apparecesse.
E o conego, só na alcova da Tótó, preparando-se para começar as suas observações, ia perguntar-lhe quantas eram as pessoas da Santissima Trindade,--quando ella, adiantando a face, lhe disse n'uma voz subtil como um sôpro:
--E o outro?
O conego não comprehendeu. Que fallasse alto! Que era?
--O outro, o que vem com ella!
O conego chegou-se, com a orelha dilatada de curiosidade:
--Que outro?
--O bonito. O que vai com ella p'ró quarto. O que a belisca...
Mas Amelia entrava: e a paralytica calou-se logo, repousada, com os olhos cerrados e respirando regaladamente, como n'um allivio repentino de todo o seu soffrimento. O conego, esse, immobilisado d'assombro, permanecia na mesma postura, dobrado sobre a cama como para ascultar a Tótó. Ergueu-se por fim, soprou como n'uma calma d'agosto, sorveu d'espaço uma pitada forte; e ficou com a caixa aberta entre os dedos, os olhos muito vermelhos cravados na colcha da Tótó.
--Então, senhor conego, que lhe parece cá a minha doente? perguntou Amelia.
Elle respondeu, sem a olhar:
--Sim senhor, muito bem... Vai bem... É exquisita... Pois é andar, é andar... Adeus...
Sahiu, resmungando que tinha negocios,--e voltou immediatamente á botica.
--Um copo d'agua! exclamou, cahindo em cheio sobre a cadeira.
O Carlos, que voltára, apressou-se, offerecendo flôr de laranja, perguntando se sua excellencia estava incommodado...
--Cansadote, disse.
Tomou o _Popular_ de sobre a mesa, e alli ficou, sem se mexer, abysmado nas columnas do periodico. O Carlos tentou fallar da politica do paiz, depois dos negocios d'Hespanha, depois dos perigos revolucionarios que ameaçavam a Sociedade, depois da deficiencia da administração do concelho de que era agora um adversario feroz... Debalde. Sua excellencia grunhia apenas monosyllabos soturnos. E o Carlos, emfim, recolheu-se a um silencio chocado, comparando, n'um desdem interior que lhe vincava de sarcasmo os cantos dos beiços, a obtusidade soturna d'aquelle sacerdote à palavra inspirada d'um Lacordaire e d'um Malhão! Por isso o Materialismo em Leiria, em todo o Portugal erguia a sua cabeça d'hydra...
Batia uma hora na torre quando o conego, que vigiava a Praça pelo canto do olho, vendo passar Amelia, arremessou o jornal, sahiu da botica sem dizer uma palavra e estugou o seu passo d'obeso para casa do tio Esguelhas. A Tótó estremeceu de medo ao vêr de novo aquella figura bojuda apparecer á porta da alcova. Mas o conego riu-se para ella, chamou-lhe Tótósinha, prometteu-lhe um pinto para bolos; e mesmo sentou-se aos pés da cama com um _ah!_ regalado, dizendo:
--Ora vamos nós agora conversar, amiguinha... Esta é que é a pernita doente, hein? Coitadita! Deixa que te has de curar... Hei de pedir a Deus... Fica por minha conta.
Ella fazia-se ora toda branca ora toda vermelha, olhando aqui e além, inquieta, na perturbação que lhe dava aquelle homem a sós com ella tão perto que lhe sentia o halito forte.
--Então, ouve cá, disse elle chegando-se mais para ella, fazendo ranger o catre com o seu peso. Ouve cá, quem é o outro? Quem é que vem com a Amelia?
Ella respondeu logo, atirando as palavras d'um fôlego:
--É o bonito, é o magro, vêm ambos, sobem p'r'ó quarto, fecham-se por dentro, são como cães!
Os olhos do conego injectaram-se para fóra das orbitas:
--Mas quem é elle, como se chama? O teu pai que te disse?
--É o outro, é o parocho, o Amaro! fez ella impaciente.
--E vão p'r'ó quarto, hein? lá p'ra cima? E tu que ouves, tu que ouves? Dize tudo, pequena, dize tudo!
A paralytica então contou, com um furor que dava tons sibilantes à sua voz de tisica,--como ambos entravam, e a vinham vêr, e se roçavam um pelo outro, e abalavam para o quarto em cima, e estavam lá uma hora fechados...
Mas o conego, com uma curiosidade lubrica que lhe punha uma chamma nos olhos mortiços, queria saber os detalhes torpes:
--E ouve lá, Tótósinha, tu que ouves? Ouves ranger a cama?
Ella respondeu com a cabeça affirmativamente, toda pallida, os dentes cerrados.
--E olha, Tótósinha, já os viste beijarem-se, abraçarem-se? Anda, dize, que te dou dois pintos.
Ella não descerrava os labios; e a sua face transtornada parecia ao conego selvagem.
--Tu embirras com ella, não é verdade?
Ella fez que sim n'uma affirmação feroz de cabeça.
--E vistel-os beliscarem-se?
--São como cães! soltou ella por entre os dentes.
O conego então endireitou-se, bufou outra vez com o seu grande sôpro d'encalmado, e coçou vivamente a corôa.
--Bem, disse, erguendo-se. Adeus, pequena... Agasalha-te. Não te constipes...
Sahiu; e ao fechar com força a porta exclamou alto:
--Isto é a infamia das infamias! Eu mato-o! eu perco-me!
Esteve um momento considerando e partiu para a rua das Sousas, de guardasol em riste, apressando a sua obesidade, com a face apopletica de furor. No largo da Sé, porém, parou a reflectir ainda; e rodando sobre os tacões, entrou na igreja. Ia tão levado que, esquecendo um habito de quarenta annos, não dobrou o joelho ao Santissimo. E arremessou-se para a sacristia--justamente quando o padre Amaro sahia, calçando cuidadosamente as luvas pretas que usava agora sempre para agradar á Ameliasinha.
O aspecto descomposto do conego assombrou-o.
--Que é isso, padre-mestre?
--O que é? exclamou o conego de golpe, é a maroteira das maroteiras! É a sua infamia! é a sua infamia!...
E emmudeceu, suffocado de cólera.
Amaro, que se fizera muito pallido, balbuciou:
--Que está vossê a dizer, padre-mestre?
O conego tomára fôlego:
--Não ha padre-mestre! O senhor desencaminhou a rapariga! Isso é que é uma canalhice mestra!
O padre Amaro, então, franziu a testa como descontente d'um gracejo:
--Que rapariga!? O senhor está a brincar...
Sorriu mesmo, affectando segurança; e os seus beiços brancos tremiam.
--Homem, eu vi! berrou o conego.
O parocho, subitamente aterrado, recuou:
--Viu!?
Imaginára n'um relance uma traição, o conego escondido n'um recanto da casa do tio Esguelhas...
--Não vi, mas é como se visse!--continuou o conego n'um tom tremendo. Sei tudo. Venho de lá. Disse-m'o a Tótó. Fecham-se no quarto horas e horas! Até se ouve em baixo ranger a cama! É uma ignominia !
O parocho, vendo-se pilhado, teve, como um animal acossado e entalado a um canto, uma resistencia de desespero.
--Diga-me uma coisa. O que é que o senhor tem com isso?
O conego pulou.
--O que tenho!? o que tenho!? Pois o senhor ainda me falla n'esse tom!? O que tenho é que vou d'aqui immediatamente dar parte de tudo ao senhor vigario geral!
O padre Amaro, livido, foi para elle com o punho fechado:
--Ah, seu maroto!
--Que é lá? que é lá? exclamou o conego de guardasol erguido. Vossê quer-me pôr as mãos?
O padre Amaro conteve-se; passou a mão sobre a testa em suor, com os olhos cerrados; e depois de um momento, fallando com uma serenidade forçada:
--Ouça lá, senhor conego Dias. Olhe que eu vi-o ao senhor uma vez na cama com a S. Joanneira...
--Mente! mugiu o conego.
--Vi, vi, vi! affirmou o outro com furor. Uma noite ao entrar em casa... O senhor estava em mangas de camisa, ella tinha-se erguido, estava a apertar o collete. Até o senhor me perguntou «_quem está ahi?_» Vi, como estou a vêl-o agora. O senhor a dizer uma palavra, e eu a provar-lhe que o senhor vive ha dez annos amigado com a S. Joanneira, á face de todo o clero! Ora ahi tem!
O conego, já antes esfalfado dos excessos do seu furor, ficou agora, áquellas palavras, como um boi atordoado. Só pôde dizer d'ahi a pouco, muito murcho:
--Que traste que vossê me sae!
O padre Amaro então, quasi tranquillo, certo do silencio do conego, disse com bonhomia:
--Traste porquê? Diga-me lá! Traste porquê? Temos ambos culpas no cartorio, eis ahi está. E olhe que eu não fui perguntar, nem peitar a Tótó... Foi muito naturalmente ao entrar em casa. E se me vem agora com coisas de moral, isso faz-me rir. A moral é para a escóla e para o sermão. Cá na vida eu faço isto, o senhor faz aquillo, os outros fazem o que podem. O padre-mestre que já tem idade agarra-se á velha, eu que sou novo arranjo-me com a pequena. É triste, mas que quer? É a natureza que manda. Somos homens. E como sacerdotes, para honra da classe, o que temos é fazer costas!
O conego escutava-o, bamboleando a cabeça, na aceitação muda d'aquellas verdades. Tinha-se deixado cahir n'uma cadeira, a descansar de tanta cólera inutil; e erguendo os olhos para Amaro:
--Mas vossê, homem, no começo da carreira!
--E vossê, padre-mestre, no fim da carreira!
Então riram ambos. Immediatamente cada um declarou retirar as palavras offensivas que tinha dito; e apertaram-se gravemente a mão. Depois conversaram.
O conego, o que o tinha enfurecido era ser lá com a pequena de casa. Se fosse com outra... até estimava! Mas a Ameliasinha!... Se a pobre mãi viesse a saber estourava de desgosto.
--Mas a mãi escusa de saber! exclamou Amaro. Isto é entre nós, padre-mestre! Isto é segredo de morte! Nem a mãi sabe de nada, nem eu mesmo digo á pequena o que se passou hoje entre nós. As coisas ficam como estavam, e o mundo continua a rolar... Mas vossê, padre-mestre, tenha cuidado!... Nem uma palavra á S. Joanneira... Que não haja agora traição!
O conego, com a mão sobre o peito, deu gravemente a sua palavra d'honra de cavalheiro e de sacerdote que aquelle segredo ficava para sempre sepultado no seu coração.
Então apertaram ainda uma outra vez affectuosamente a mão.
Mas a torre gemeu as tres badaladas. Era a hora de jantar do conego.