O crime do padre Amaro, scenas da vida devota

Chapter 24

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Emfim Amaro, impaciente, fazia um signal a Amelia; ella punha logo diante da Tótó o livro com estampas da _Vida dos Santos_.

--Vá, ficas agora a vêr as figuras... Olha, este é S. Matheus, esta Santa Virginia... Adeus, eu vou lá a cima com o senhor parocho rezarmos para que Deus te dê saude e te deixe ir passear... Não estragues o livro, que é peccado.

E subiam a escada, emquanto a paralytica, estendendo o pescoço sôfregamente, os seguia, escutando o ranger dos degraus, com olhos chammejantes que lagrimas de raiva ennevoavam. O quarto, em cima, era muito baixo, sem forro, com um tecto de vigas negras sobre que assentavam as telhas. Ao lado da cama pendia a candeia que puzera sobre a parede um penacho negro do fumo. E Amaro ria sempre dos preparativos que fizera o tio Esguelhas--a mesa ao canto com o Novo Testamento, uma caneca d'agua, e duas cadeiras dispostas ao lado...

--É p'r'á nossa conferencia, para te ensinar os deveres de freira, dizia elle, galhofando.

--Ensina, então! murmurava ella de braços abertos, pondo-se diante do padre, com um sorriso calido onde brilhava um branquinho dos dentes, n'um abandono que se offerecia.

Elle atirava-lhe beijos vorazes pelo pescoço, pelos cabellos; às vezes mordia-lhe a orelha; ella dava um gritinho; e ficavam então muito quedos, escutando, com medo da paralytica em baixo. O parocho depois fechava as portadas da janella e a porta muito perra que tinha d'empurrar com o joelho. Amelia ia-se despindo devagar; e com as saias cahidas aos pés ficava um momento immovel, como uma fórma branca na escuridão do quarto. Em redor o padre, preparando-se, respirava forte. Ella então persignava-se depressa, e sempre ao subir para o leito dava um suspirosinho triste.

Amelia só podia demorar-se até ao meio dia. O padre Amaro por isso pendurava o seu _cebolão_ no prego da candeia. Mas quando não ouviam as badaladas da torre, Amelia conhecia a hora pelo cantar d'um gallo visinho.

--Devo ir, filho, murmurava toda cansada.

--Deixa lá... Estás sempre com a pressa...

Ficavam ainda um momento calados, n'uma lassidão dôce, muito chegados um ao outro. Pelas vigas separadas do telhado mal junto viam aqui e além fendas de luz: ás vezes sentiam um gato, com as suas passadas fofas, vadiar, fazendo bolir alguma telha solta; ou um passaro, pousando, chilreava e ouviam-lhe o fremito das azas.

--Ai, são horas, dizia Amelia.

O padre queria detel-a; não se fartava de lhe beijar a orelhinha.

--Lambão! murmurava ella. Deixa-me!

Vestia-se á pressa no escuro do quarto; depois ia abrir a janella, vinha ainda abraçar o pescoço de Amaro, que ficára estatelado sobre o leito; e ia emfim arrastar a mesa e as cadeiras, para a paralytica sentir em baixo, saber que tinha acabado a conferencia.

Amaro não findava ainda de a beijocar: ella então, para acabar, fugia-lhe, ia escancarar a porta do quarto; o padre descia, atravessava em duas passadas a cozinha sem olhar para a Tótó, e entrava na sacristia.

Amelia, essa, antes de sahir, vinha vêr a paralytica, saber se gostára das estampas. Encontrava-a ás vezes com a cabeça debaixo dos cobertores, que entalava e prendia com as mãos para se **esconder**; outras vezes, sentada na cama, examinava Amelia com olhos em que se accendia uma curiosidade viciosa; chegava o rosto para ella, com as narinas dilatadas que pareciam cheiral-a; Amelia recuava, inquieta, córando tambem; queixava-se então de ser tarde, recolhia a _Vida dos Santos_,--e sahia, amaldiçoando aquella creatura tão maliciosa na sua mudez.

Ao passar no largo, áquella hora, via sempre a Amparo á janella. Ultimamente mesmo julgára prudente contar-lhe em segredo a sua caridade com a Tótó. A Amparo, mal a via, chamava-a; e debruçando-se toda na varanda:

--Então como vai a Tótó?

--Lá vai.

--Já lê?

--Já soletra.

--E a oração a Nossa Senhora?

--Já a diz.

--Ai, que devoção a tua, filha!

Amelia baixava os olhos, modesta. E o Carlos, que estava tambem no segredo, deixava o balcão para vir á porta admirar Amelia.

--Vem da sua grande missão de caridade, hein? dizia, d'olho arregalado, balanceando-se na ponta das chinelas.

--Estive um bocado com a pequena, a entretel-a...

--Grandioso! murmurava o Carlos. Um apostolado! Pois vá, minha santa menina, recados á mamã.

Voltava-se então para dentro, para o praticante:

--Veja o snr. Augusto aquillo... Em logar de passar o seu tempo, como as outras, em namoros, faz-se anjo da guarda! Passa a flôr dos annos com uma entrevada! Veja o senhor se a philosophia, o materialismo, e essas porcarias são capazes d'inspirar acções d'este jaez... Só a religião, meu caro senhor! Eu queria que os Renans e essa cambada de philosophos vissem isto! Que eu, tenha o senhor em vista, admiro a philosophia, mas quando ella, por assim dizer, vai de mãos dadas com a religião... Sou homem de sciencia e admiro um Newton, um Guizot... Mas (e grave o senhor estas palavras) se a philosophia se afasta da religião... (grave bem estas palavras) dentro de dez annos, snr. Augusto, está a philosophia enterrada!

E continuava a mexer-se pela pharmacia a passos lentos, de mãos atraz das costas, ruminando o fim da philosophia.

XVIII

Foi aquelle o periodo mais feliz da vida de Amaro.

«Ando na graça de Deus», pensava elle ás vezes á noite, ao despir-se, quando por um habito ecclesiastico, fazendo o exame dos seus dias, via que elles se seguiam faceis, tão confortaveis, tão regularmente gozados. Não houvera, nos ultimos dois mezes, nem attritos nem difficuldades no serviço da parochia; todo o mundo, como dizia o padre Saldanha, andava d'um humor de santo. D. Josepha Dias arranjára-lhe muito barata uma cozinheira excellente, e que se chamava Escolastica. Na rua da Misericordia tinha a sua côrte admiradora e devota; cada semana, uma ou duas vezes, vinha áquella hora deliciosa e celeste na casa do tio Esguelhas; e para completar a harmonia até a estação ia tão linda, que já no Morenal começavam a abrir as rosas.

Mas o que o encantava era que nem as velhas, nem os padres, ninguem da sacristia suspeitava os seus _rendez-vous_ com Amelia. Aquellas visitas á Tótó tinham entrado nos costumes da casa; chamavam-lhe «as devoções da pequena»; e não a interrogavam com particularidades, pelo principio beato que as devoções são um segredo que se tem com Nosso Senhor. Só ás vezes alguma das senhoras perguntava a Amelia--como ia a doente; ella assegurava que estava muito mudada, que começava a abrir os olhos á lei de Deus; então, muito discretamente, fallavam de coisas differentes. Havia apenas o plano vago de irem um dia, mais tarde, quando a Tótó soubesse bem o seu catecismo e pela efficacia da oração se tivesse tornado boa, admirar em romaria a obra santa de Amelia e a humilhação do Inimigo.

Amelia mesmo, perante esta confiança tão larga na sua virtude, propuzera um dia a Amaro, como muito habil--dizer ás amigas que o senhor parocho ás vezes vinha assistir á pratica piedosa que ella fazia á Tótó...

--Assim, se alguem te surprehendesse a entrar para a casa do tio Esguelhas, já não havia suspeitas.

--Não me parece necessario, disse elle. Deus está comnosco, filha, é claro. Não queiramos intrometter-nos nos seus planos. Elle vê mais longe que nós...

Ella concordou logo--como em tudo que sahia dos seus labios. Desde a primeira manhã, na casa do tio Esguelhas, ella abandonára-se-lhe absolutamente, toda inteira, corpo, alma, vontade e sentimento: não havia na sua pelle um cabellinho, não corria no seu cerebro uma idéa a mais pequenina, que não pertencesse ao senhor parocho. Aquella possessão de todo o seu sêr não a invadira gradualmente; fôra completa, no momento que os seus fortes braços se tinham fechado sobre ella. Parecia que os beijos d'elle lhe tinham sorvido, esgotado a alma: agora era como uma dependencia inerte da sua pessoa. E não lh'o occultava; gozava em se humilhar, offerecer-se sempre, sentir-se toda d'elle, toda escrava; queria que elle pensasse por ella e vivesse por ella; descarregára-se n'elle, com satisfação, d'aquelle fardo da responsabilidade que sempre lhe pesára na vida; os seus juizos agora vinham-lhe formados do cerebro do parocho, tão naturalmente como se sahisse do coração d'elle o sangue que lhe corria nas veias. «O senhor parocho queria ou o senhor parocho dizia» era para ella uma razão toda sufficiente e toda poderosa. Vivia com os olhos n'elle, n'uma obediencia animal: tinha só a curvar-se quando elle fallava, e quando vinha o momento a desapertar o vestido.

Amaro gozava prodigiosamente esta dominação; ella desforrava-o de todo um passado de dependencias--a casa do tio, o seminario, a sala branca do senhor conde de Ribamar... A sua existencia de padre era uma curvatura humilde que lhe fatigava a alma; vivia da obediencia ao senhor bispo, á camara ecclesiastica, aos canones, á Regra que nem lhe permittia ter uma vontade propria nas suas relações com o sacristão. E agora, emfim, tinha alli aos seus pés aquelle corpo, aquella alma, aquelle sêr vivo sobre quem reinava com despotismo. Se passava os seus dias, por profissão, louvando, adorando e incensando Deus,--era elle tambem agora o Deus d'uma creatura que o temia e lhe dava uma devoção pontual. Para ella ao menos, era bello, superior aos condes e aos duques, tão digno da mitra como os mais sabios. Ella mesmo, um dia, dissera-lhe, depois de ter estado um momento pensativa:

--Tu podias chegar a Papa!

--D'esta massa se fazem, respondeu elle com seriedade.

Ella acreditava-o--com um receio, todavia, que as altas dignidades o afastassem d'ella, o levassem para longe de Leiria. Aquella paixão, em que estava abysmada e que a saturava, tornára-a estupida e obtusa a tudo o que não respeitava ao senhor parocho ou ao seu amor. Amaro de resto não lhe consentia interesses, curiosidades alheias á sua pessoa. Prohibia-lhe até que lêsse romances e poesias. Para que se havia de fazer doutora? Que lhe importava o que ia no mundo? Um dia que ella fallára, com algum appetite, d'um baile que iam dar os Vias-Claras, offendeu-se como d'uma traição. Fez-lhe em casa do tio Esguelhas accusações tremendas: era uma vaidosa, uma perdida, uma filha de Satanaz!...

--Mas mato-te! Percebes? Mato-te!--exclamou, agarrando-lhe os pulsos, fulminando-a com o olhar accêso.

Tinha um medo, que o pungia, de a vêr subtrahir-se ao seu imperio, perder-lhe a adoração muda e absoluta. Pensava ás vezes que ella se fatigaria, com o tempo, d'um homem que não lhe satisfazia as vaidades e os gostos de mulher, sempre mettido na sua batina negra, com a cara rapada e a corôa aberta. Imaginava que as gravatas de côres, os bigodes bem torcidos, um cavallo que trota, um uniforme de lanceiros exercem sobre as mulheres uma fascinação decisiva. E se a ouvia fallar d'algum official do destacamento, d'algum cavalheiro da cidade, eram ciumes desabridos...

--Góstas d'elle? Hein? É pelos trapos, pelo bigode?...

--Gósto d'elle! Oh, filho, eu nunca vi o homem!

Mas escusava de fallar da creatura, então! Era ter curiosidade, pôr o pensamento n'outro! D'essas faltas de vigilancia sobre a alma e a vontade é que se aproveitava o demonio!...

Viera assim a ter um odio a todo o mundo secular--que a poderia attrahir, arrastar para fóra da sombra da sua batina. Impedia-lhe, com pretextos complicados, toda a communicação com a cidade. Convenceu mesmo a mãi que a não deixasse ir só á Arcada e ás lojas. E não cessava de lhe representar os homens como monstros d'impiedade, cobertos de peccados como d'uma crosta, estupidos e falsos, votados ao inferno! Contava-lhe horrores de quasi todos os rapazes de Leiria. Ella perguntava-lhe aterrada, mas curiosa:

--Como sabes tu?

--Não te posso dizer, respondia com uma reticencia, indicando que lhe fechava os labios o segredo da comfissão.

E ao mesmo tempo martellava-lhe os ouvidos com a glorificação do sacerdocio. Desenrolava-lhe com pompa a erudição dos seus antigos compendios, fazendo-lhe o elogio das funcções, da superioridade do padre. No Egypto, grande nação da antiguidade, o homem só podia ser rei se era sacerdote! Na Persia, na Ethiopia, um simples padre tinha o privilegio de desthronar os reis, dispôr das corôas! Onde havia uma auctoridade igual á sua? Nem mesmo na côrte do céo. O padre era superior aos anjos e aos seraphins--porque a elles não fôra dado como ao padre o poder maravilhoso de perdoar os peccados! Mesmo a Virgem Maria, tinha ella um poder maior que elle, padre Amaro? Não: com todo o respeito devido à magestade de Nossa Senhora, elle podia dizer com S. Bernardino de Sena: «o sacerdote excede-te, ó mãi amada!»--porque, se a Virgem tinha incarnado Deus no seu castissimo seio, fôra só uma vez, e o padre, no santo sacrificio da missa, incarnava Deus todos os dias! E isto não era argucia d'elle, todos os santos padres o admittiam...

--Hein, que te parece?

--Oh, filho! murmurava ella pasmada, desfallecida de voluptuosidade.

Então deslumbrava-a com citações venerandas: S. Clemente, que chamou ao padre «o Deus da terra»; o eloquente S. Chrysostomo, que disse «que o padre é o embaixador que vem dar as ordens de Deus». E Santo Ambrosio que escreveu: «entre a dignidade do rei e a dignidade do padre ha maior differença que a que existe entre o chumbo e o ouro»!

--E o ouro é cá o menino, dizia Amaro com palmadinhas no peito. Que te parece?

Ella atirava-se-lhe aos braços, com beijos vorazes, como para tocar, possuir n'elle o «ouro de Santo Ambrosio», o «embaixador de Deus», tudo o que na terra havia mais alto e mais nobre, o sêr que excede em graça os archanjos!

Era este poder divino do padre, esta familiaridade com Deus, tanto ou mais que a influencia da sua voz--que a faziam crêr na promessa que elle lhe repetia sempre: que ser amada por um padre chamaria sobre ella o interesse, a amizade de Deus; que depois de morta dois anjos viriam tomal-a pela mão para a acompanhar e desfazer todas as duvidas que pudesse ter S. Pedro, chaveiro do céo; e que na sua sepultura, como succedera em França a uma rapariga amada por um cura, nasceriam espontaneamente rosas brancas, como prova celeste de que a virgindade não se estraga nos abraços santos d'um padre...

Isto encantava-a. Áquella idéa da sua cova perfumada de rosas brancas, ficava toda pensativa, n'um antegosto de felicidades mysticas, com suspirinhos de gozo. Affirmava, fazendo beicinho, que queria morrer.

Amaro galhofava.

--A fallar da morte, com essas carnesinhas...

Engordára com effeito. Estava agora d'uma belleza ampla e toda igual. Perdera aquella expressão inquieta que lhe punha nos labios uma seccura e lhe afilava o nariz. Nos seus beiços havia um vermelho quente e humido; o seu olhar tinha risos sob um fluido sereno; toda a sua pessoa uma apparencia madura de fecundidade. Fizera-se preguiçosa: em casa, a cada momento suspendia o seu trabalho, ficava a olhar longamente com um sorriso mudo e fixo; e tudo parecia ficar adormecido um momento, a agulha, o panno que ella costurava, toda a sua pessoa... Estava revendo o quarto do sineiro, o catre, o senhor parocho em mangas de camisa.

Passava os seus dias esperando as oito horas, em que elle apparecia regularmente com o conego. Mas os serões agora pezavam-lhe. Elle recommendára-lhe muita reserva; ella exagerava-a, por um excesso de obediencia, a ponto de nunca se sentar ao pé d'elle ao chá, e de nem mesmo lhe offerecer bolos. Odiava então a presença das velhas, a gralhada das vozes, as pachorras do quino: tudo lhe parecia intoleravel no mundo, excepto estar só com elle... Mas depois, em casa do sineiro, que desforra! Aquelle rosto todo alterado, aquellas suffocações de delirio, aquelles ais agonisantes, depois a immobilidade da morte, assustavam ás vezes o padre. Erguia-se no cotovêlo, inquieto:

--Estás incommodada?

Ella abria os olhos espantados, como resurgindo de muito longe; e era realmente bella, cruzando os braços nús sobre o peito descoberto, dizendo lentamente com a cabeça que não...

XIX

Uma circumstancia inesperada veio estragar aquellas manhãs da casa do sineiro. Foi a extravagancia da Tótó. Como disse o padre Amaro, «a rapariga sahia-lhes um monstro»!

Tinha agora por Amelia uma aversão desabrida. Apenas ella se aproximava da cama, atirava a cabeça para debaixo dos cobertores, torcendo-se com phrenesi se lhe sentia a mão ou a voz. Amelia fugia, impressionada com a idéa de que o diabo que habitava a Tótó, recebendo o cheiro que ella trazia da igreja nos vestidos, impregnados d'incenso e salpicados d'agua benta, se espolinhava de terror dentro do corpo da rapariga...

Amaro quiz reprehender a Tótó, fazer-lhe sentir, em palavras tremendas, a sua ingratidão demoniaca para com a menina Amelia que vinha entretel-a, ensinal-a a conversar com Nosso Senhor... Mas a paralytica rompeu n'um chôro hysterico; depois, de repente, ficou immovel, hirta, esbugalhando os olhos em alvo, com uma escuma branca na bôca. Foi um grande susto; inundaram-lhe a cama d'agua; Amaro, por prudencia, recitou os exorcismos... E Amelia desde então resolveu «deixar a fera em paz». Não tentou mais ensinar-lhe o alphabeto, nem orações a Sant'Anna.

Mas, por escrupulo, iam sempre ao entrar vêl-a um instante. Não passavam da porta da alcova, perguntando-lhe d'alto «como ia». Nunca respondia. E elles retiravam-se logo aterrados com aquelles olhos selvagens e brilhantes, que os devoravam, indo d'um a outro, percorrendo-lhes o corpo, fixando-se com uma faiscação metallica nos vestidos d'Amelia e na batina do padre, como para lhe adivinhar o que estava por baixo, n'uma curiosidade avida que lhe dilatava desesperadamente as narinas e lhe arreganhava os beiços lividos. Mas era a mudez, obstinada e rancorosa, que os incommodava sobretudo. Amaro, que não acreditava muito em possessos e endemoninhados, via alli os symptomas de _loucura furiosa_. Os sustos d'Amelia augmentaram.--Felizmente que as pernas inertes cravavam a Tótó alli na enxerga! Senão, Jesus, era capaz de lhes entrar no quarto e mordêl-os n'um accesso!

Declarou a Amaro que nem lhe sabia bem o prazer da manhã, «depois d'aquelle espectaculo»; e decidiu então, d'ahi por diante, subir para o quarto sem fallar á Tótó.

Foi peor. Quando a via atravessar da porta da rua para a escada, a Tótó debruçava-se para fóra do leito, agarrada ás bordas da enxerga, n'um esforço ancioso para a seguir, para a vêr, com a face toda descomposta do desespero da sua immobilidade. E Amelia ao entrar no quarto sentia vir de baixo uma risadinha sêcca, ou um _ui!_ prolongado e uivado que a gelava...

Andava agora aterrada: viera-lhe a idéa que Deus estabelecera alli, ao lado do seu amor com o parocho, um demonio implacavel para a escarnecer e apupar. Amaro, querendo-a tranquillisar, dizia-lhe que o nosso santo padre Pio IX, ultimamente, declarára peccado crêr em _pessoas possessas_...

--Mas para que ha rezas, então, e exorcismos?

--Isso é da religião velha. Agora vai-se mudar tudo isso... Emfim a sciencia é a sciencia...

Ella presentia que Amaro a enganava--e a Tótó estragava a sua felicidade. Emfim Amaro achou o meio de escaparem «á maldita rapariga»: era entrarem ambos pela sacristia: tinham apenas a atravessar a cozinha para subir a escada, e a posição da cama da Tótó, na alcova, não lhe permittia vêl-os, quando elles cautelosamente passassem pé ante pé. Era facil, de resto, porque á hora do _rendez-vous_, entre as onze e o meio dia, nos dias de semana, a sacristia estava deserta.

Mas succedia que, quando elles entravam em pontas de pés e mordendo a respiração, os seus passos, por mais subtis, faziam ranger os velhos degraus da escada. E então a voz da Tótó sahia da alcova, uma voz rouca e aspera, berrando:

--Passa fóra cão! passa fóra cão!

Amaro tinha um desejo furioso de estrangular a paralytica. Amelia tremia, toda branca.

E a creatura uivava de dentro:

--Lá vão os cães! lá vão os cães!

Elles refugiavam-se no quarto, aferrolhando-se por dentro. Mas aquella voz d'um desolamento lugubre, que lhes parecia vir dos infernos, chegava-lhes ainda, perseguia-os:

--Estão a pegar-se os cães! estão a pegar-se os cães!

Amelia cahia sobre o catre, quasi desmaiada de terror. Jurava não voltar áquella casa maldita...

--Mas que diabo queres tu? dizia-lhe o padre furioso. Onde nos havemos de vêr então? Queres que nos deitemos nos bancos da sacristia?

--Mas que lhe fiz eu? que lhe fiz eu? exclamava Amelia, apertando as mãos.

--Nada! É doida... E o pobre tio Esguelhas tem tido um desgosto... Emfim, que queres que lhe faça?

Ella não respondia. Mas em casa, quando se ia aproximando o dia de _rendez-vous_, começava a tremer á idéa d'aquella voz que lhe atroava sempre nos ouvidos e que sentia em sonhos. E este terror ia-a despertando lentamente do adormecimento de todo o sêr, era que cahira nos braços do parocho. Interrogava-se agora: não andaria commettendo um peccado irremissivel? As affirmações de Amaro, assegurando-lhe o perdão do Senhor, já não a tranquillisavam. Ella bem via, quando a Tótó uivava, uma pallidez cobrir o rosto do parocho, como correr-lhe no corpo um calefrio do inferno entrevisto. E se Deus os desculpava--porque deixava assim o demonio atirar-lhes, pela voz da paralytica, a injuria e o escarneo?

Ajoelhava então aos pés da cama, arremessava orações sem fim para Nossa Senhora das Dôres, pedindo-lhe que a alumiasse, que lhe dissesse o que era aquella perseguição da Tótó, e se era sua intenção divina mandar-lhe assim um aviso medonho. Mas Nossa Senhora não lhe respondia. Não a sentia como outr'ora descer do céo ás suas orações, entrar-lhe na alma aquella tranquillidade suave como uma onda de leite que era uma visitação da Senhora. Ficava toda murcha, torcendo as mãos, abandonada da graça. Promettia então não voltar a casa do sineiro;--mas quando o dia chegava, á idéa d'Amaro, do leito, d'aquelles beijos que lhe levavam a alma, d'aquelle fogo que a penetrava, sentia-se toda fraca contra a tentação; vestia-se, jurando que era a ultima vez; e ao toque das onze partia, com as orelhas a arder, o coração tremendo da voz da Tótó que ia ouvir, as entranhas abrazando-se no desejo do homem que a ia atirar para cima da enxerga.

Ao entrar na igreja não rezava, com medo dos santos.

Corria para a sacristia para se refugiar em Amaro, abrigar-se á auctoridade sagrada da sua batina. Elle então, vendo-a chegar tão pallida e tão transtornada, galhofava para a tranquillisar. Não, era uma tolice, se iam agora estragar o regalosinho d'aquellas manhãs, porque havia uma doida na casa! Promettera-lhe de resto procurar outro sitio para se vêrem: e mesmo com o fim de a distrahir, aproveitando a solidão da sacristia, mostrava-lhe ás vezes os paramentos, os calices, as vestimentas, procurando interessal-a por um frontal novo ou por uma antiga renda de sobrepelliz, provando-lhe, pela familiaridade com que tocava nas reliquias, que era ainda o senhor parocho e não perdera o seu credito no céo.

Foi assim que uma manhã lhe fez vêr uma capa de Nossa Senhora, que havia dias chegára de presente d'uma devota rica d'Ourem. Amelia admirou-a muito. Era de setim azul, representando um firmamento, com estrellas bordadas, e um centro, de lavor rico, onde flammejava um coração d'ouro cercado de rosas d'ouro. Amaro desdobrára-a, fazendo scintillar junto da janella os bordados espessos.

--Rica obra, hein? centos de mil reis... Experimentamol-a hontem na imagem... Vai-lhe como um brinco. Um bocadito comprida, talvez...--E olhando Amelia, n'uma comparação da sua alta estatura com a figura atarracada da imagem da Senhora:--A ti é que te havia de ficar bem. Deixa vêr...

Ella recuou:

--Não, credo, que peccado!

--Tolice! disse elle adiantando-se com a capa aberta, mostrando o forro de setim branco, d'uma alvura de nuvem matutina. Não está benzida... É como se viesse da modista.

--Não, não, dizia ella frouxamente, com os olhos já luzidios de desejo.

Elle então zangou-se. Queria talvez saber melhor do que elle o que era peccado, não? Vinha agora a menina ensinar-lhe o respeito que se deve aos vestuarios dos santos?

--Ora não seja tola. Deixe vêr.