O crime do padre Amaro, scenas da vida devota
Chapter 23
Contou-lhe então uma historia diffusa que ia forjando laboriosamente, segundo as sensações que imaginava vêr na face pasmada do sineiro. A rapariga desgostára-se da vida, com as desavenças que tivera com o noivo. Mas a mãi, que estava velha, que a necessitava para o governo da casa, não queria consentir, suppondo que era uma velleidade... Mas não, era vocação... Elle sabia-o... Infelizmente, quando havia opposição, a conducta do sacerdote era muito delicada... Todos os dias os jornaes impios (e infelizmente era a maioria!) gritavam contra as influencias do clero... As auctoridades, mais impias que os jornaes, punham obstaculos... Havia leis terriveis... Se soubessem que elle andava a instruir a menina para professar, ferravam-no na cadeia! Que queria o tio Esguelhas?... Impiedade, alheismo do tempo! Ora, elle necessitava ter com a pequena muitas e muitas conferencias: para a experimentar, para conhecer as suas disposições, vêr bem se é para a Solidão que ella tem geito, ou para a Penitencia, ou para o serviço dos enfermos, ou para a Adoração Perpetua, ou para o ensino... Emfim, estudal-a por dentro e por fóra.
--Mas onde? exclamou, abrindo os braços como na desolação d'um santo dever contrariado. Onde? Em casa da mãi não póde ser, já andam desconfiados. Na igreja impossivel, era o mesmo que na rua. Em minha casa, já vê, menina nova...
--Está claro.
--De modo que, tio Esguelhas... E estou certo que vossê m'o ha de agradecer... pensei na sua casa...
--Oh, senhor parocho, acudiu o sineiro, eu, a casa, os trastes, está tudo ás ordens!
--Bem vê, é no interesse d'aquella alma, é um regosijo para Nosso Senhor...
--E p'ra mim, senhor parocho, e p'ra mim!
O que o tio Esguelhas receava é que a casa não fosse decente e não tivesse as commodidades...
--Ora! fez o padre sorrindo, n'um renunciamento de todos os confortos humanos. Comtanto que haja duas cadeiras e uma mesa para pôr o livro da oração...
De resto, por outro lado, dizia o sineiro, lá como sitio retirado e casa socegada estava a preceito. Ficavam alli, elle e a menina, como os monges no deserto. Nos dias em que o senhor parocho viesse, elle sahia a dar o seu giro. Na cozinha não poderiam accommodar-se, porque o quartito da pobre Tótó era ao pé... Mas tinham o quarto d'elle, em cima.
O padre Amaro bateu com a mão na testa. Não se lembrára da paralytica!
--Isso estraga-nos o arranjinho, tio Esguelhas! exclamou.
Mas o sineiro tranquillisou-o, vivamente. Estava agora todo interessado n'aquella conquista d'uma noiva para Nosso Senhor; queria por força que o seu telhado abrigasse a santa preparação da alma da menina... Talvez lhe attrahisse a elle a piedade de Deus! Mostrou com calor as vantagens, as facilidades da casa. A Tótó não embaraçava. Não se mexia da cama. O senhor parocho entrava pela cozinha do lado da sacristia, a menina vinha pela porta da rua: subiam, fechavam-se no quarto...
--E ella que faz, a Tótó? perguntou o padre Amaro, hesitando ainda.
Coitadita, para alli estava... Tinha manias: ora fazia bonecas e apaixonava-se por ellas a ponto de ter febre; outros dias passava-os n'um silencio medonho com os olhos cravados na parede. Mas ás vezes estava alegre, palrava, chalaceava... Uma desgraça!
--Devia-se entreter, devia lêr, disse o padre Amaro para mostrar interesse.
O sineiro suspirou. Não sabia lêr, a pequena, nunca quizera aprender. Era o que elle lhe dizia--se pudesses lêr já te não pesava tanto a vida! Mas então? Tinha horror a applicar-se... O senhor padre Amaro devia ter a caridade de a persuadir, quando viesse a casa...
Mas o parocho não o escutava, todo abysmado n'uma idéa que lhe alumiára a face d'um sorriso. Achára subitamente a explicação natural a dar á S. Joanneira e ás amigas das visitas d'Amelia a casa do sineiro: era a ensinar a lêr a paralytica! A educal-a! A abrir-lhe a alma ás bellezas dos livros santos, da historia dos martyres e da oração!...
--Está decidido, tio Esguelhas, exclamou, esfregando as mãos de jubilo. É em sua casa que se ha de fazer da rapariga uma santa. E d'isto--e a sua voz deu um grave profundo--um segredo inviolavel!
--Oh, senhor parocho! fez o sineiro, quasi offendido.
--Conto comsigo! disse Amaro.
Veio logo á sacristia escrever um bilhete, que devia passar em segredo a Amelia, em que lhe explicava detalhadamente «o arranjinho que fizera para gozarem novas e divinas felicidades». Prevenia-a que o pretexto para ella vir todas as semanas a casa do sineiro devia ser a educação da paralytica: elle mesmo o proporia á noite em casa da mamã. «Que n'isto, dizia, ha alguma verdade, pois seria grato a Deus que se alumiasse com uma boa instrucção religiosa as trevas d'aquella alma. E matamos assim, querido anjo, dois coelhos com uma só cacheirada!»
Depois entrou em casa. Como se sentou regalamente á mesa do almoço, com um contentamento pleno de si, da vida e das dôces facilidades que n'ella encontrava! Ciumes, duvidas, torturas do desejo, solidão da carne, tudo o que o consumira mezes e mezes, além na rua da Misericordia e alli na rua das Sousas, passára. Estava emfim installado á larga na felicidade! E recordava, abysmado n'um gozo mudo, com o garfo esquecido na mão, toda aquella meia hora da vespera, prazer por prazer, resaboreando-os mentalmente um a um, saturando-se da deliciosa certeza da posse--como o lavrador que percorre a leira de terra adquirida que os seus olhos invejaram muitos annos. Ah, não tornaria a olhar de lado, com azedume, os cavalheiros que passeavam na Alameda com as suas mulheres pelo braço! Tambem elle agora tinha uma, toda sua, alma e carne, linda, que o adorava, que usava boas roupas brancas, e trazia no peito um cheirinho d'agua de colonia! Era padre, é verdade... Mas para isso tinha o seu grande argumento: é que o comportamento do padre, logo que não dê escandalo entre os fieis, em nada prejudica a efficacia, a utilidade, a grandeza da religião. Todos os theologos ensinam que a ordem dos sacerdotes foi instituida para administrar os sacramentos; o essencial é que os homens recebam a santidade interior e sobrenatural que os sacramentos contêm; e comtanto que elles sejam dispensados segundo as formulas consagradas, que importa que o sacerdote seja santo ou peccador? O sacramento communica a mesma virtude. Não é pelos meritos do sacerdote que elles operam, mas pelos meritos de Jesus Christo. O que é baptisado ou ungido, ou seja por mãos puras ou por mãos torpes, fica igualmente bem lavado da macula original, ou bem preparado para a vida eterna. Isto lê-se em todos os santos padres, estabeleceu-o o seraphico concilio de Trento. Os fieis nada perdem, na sua alma e na sua salvação, com a indignidade do parocho. E se o parocho se arrepende á hora extrema, tambem se lhe não fecham as portas do céo. Logo em definitiva tudo acaba bem, e em paz geral...--E o padre Amaro, raciocinando assim, sorvia com prazer o seu café.
A Dionysia, ao fim do almoço, veio saber, muito risonha, se o senhor parocho fallára ao tio Esguelhas...
--Fallei por alto, disse elle ambiguamente. Não ha nada decidido... Roma não se construiu n'um dia.
--Ah! fez ella.
E recolheu-se á cozinha, pensando que o senhor parocho mentia como um hereje. Tambem, não se importava... Nunca gostára de arranjos com os senhores ecclesiasticos; pagavam mal, e suspeitavam sempre...
E mesmo ouvindo Amaro que sahia, correu á escada a dizer-lhe--que emfim, ella tinha a olhar pela sua casa, e quando o senhor parocho tivesse arranjado criada...
--A snr.^a D. Josepha Dias anda-me a tratar d'isso, Dionysia. Espero ter alguem ámanhã. Mas vossê appareça... Agora que somos amigos...
--Quando o senhor parocho quizer é chamar-me da janella para o quintal, disse ella do alto da escada. Para tudo que precisar. De tudo sei um bocadinho, até de desarranjos e de partos... E n'este ponto posso até dizer...
Mas o padre não a escutava: atirára com a porta de repellão, fugindo, indignado d'aquella utilidade torpe assim brutalmente offerecida.
Foi d'ahi a dias que elle fallou em casa da S. Joanneira da filha do sineiro.
Na vespera dera o bilhete a Amelia; e n'essa noite, emquanto na sala se galrava alto, aproximára-se do piano, onde Amelia, com os dedos preguiçosos, corria escalas, e abaixando-se para accender o cigarro á vela, murmurára:
--Leu?
--Optimo!
Amaro recolheu logo ao grupo das senhoras, onde a Gansoso estava contando uma catastrophe que lêra n'um jornal, succedida em Inglaterra: uma mina de carvão que desabára, sepultando cento e vinte trabalhadores. As velhas arripiavam-se horrorisadas. A Gansoso então, gozando o effeito, accumulou loquazmente os detalhes: a gente que estava fóra esforçára-se por desatulhar os infelizes; ouviam-se-lhes em baixo os gemidos e os ais; era ao lusco-fusco; havia uma tormenta de neve...
--Desagradavel! rosnou o conego, aconchegando-se na sua poltrona, gozando o calor da sala e a segurança dos tectos.
A snr.^a D. Maria da Assumpção declarou que todas essas minas, essas machinas estrangeiras lhe causavam medo. Vira uma fabrica ao pé d'Alcobaça, e parecera-lhe uma imagem do inferno. Estava certa que Nosso Senhor não as via com bons olhos...
--É como os caminhos de ferro, disse D. Josepha. Tenho a certeza que foram inspirados pelo demonio! Não o digo a rir. Mas vejam aquelles uivos, aquelle fogaracho, aquelle fragor! Ai, arripia!
O padre Amaro galhofou,--assegurando á snr.^a D. Josepha que eram ricamente commodos para andar depressa! Mas, tornando-se logo sério, acrescentou:
--Em todo o caso é incontestavel, que ha n'essas invenções da sciencia moderna muito do demonio. E é por isso que a nossa santa Igreja as abençôa, primeiro com orações e depois com agua benta. Hão de saber que é o costume. Com agua benta para lhes fazer o exorcismo, expulsar o espirito inimigo: e com orações para as resgatar do peccado original que não só existe no homem, mas nas coisas que elle construe. É por isso que se benzem e se purificam as locomotivas... Para que o demonio não se possa servir d'ellas para seu uso.
D. Maria da Assumpção quiz immediatamente uma explicação. Como era a maneira usual do Inimigo se servir dos caminhos de ferro?
O padre Amaro esclareceu-a, com bondade. O Inimigo tinha muitas maneiras, mas a habitual era esta: fazia descarrilar um trem de modo que morressem passageiros, e como essas almas não estavam preparadas pela Extrema-Unção, o demonio alli mesmo, zás, apoderava-se d'ellas!
--É de velhaco! rosnou o conego, com uma admiração secreta por aquella manha tão habil do Inimigo.
Mas D. Maria da Assumpção abanou-se langorosamente, com o rosto banhado n'um sorriso de beatitude:
--Ai, filhas! dizia pausadamente para os lados, a nós é que não nos succedia isso... Que não nos pilhava desprevenidas!
Era verdade; e todas gozaram um momento aquella certeza deliciosa de estarem preparadas, de poderem lograr a malicia do Tentador!
O padre Amaro então tossiu como para preparar as vias, e apoiando as duas mãos sobre a mesa, n'um tom de pratica:
--É necessario muita vigilancia para conservar de longe o demonio. Ainda hoje eu estava a pensar n'isso (foi mesmo a minha meditação) a respeito de um caso bem triste que tenho lá ao pé da Sé... É a filhita do sineiro.
As senhoras tinham chegado as cadeiras, bebendo-lhe as palavras, n'uma curiosidade subitamente excitada, esperando ouvir a historia picante d'alguma façanha de Satanaz. E o parocho continuou com uma voz a que o silencio em redor dava solemnidade:
--Alli está aquella rapariga, todo o santo dia, pregada na cama! Não sabe lêr, não tem devoções habituaes, não tem o costume da meditação; é por consequencia, para empregar a expressão de S. Clemente--_uma alma sem defeza_. O que succede? Que o demonio, que ronda constantemente e não perde dentada, estabelece-se alli como em sua casa! Por isso, como me dizia hoje o pobre tio Esguelhas, são phrenesis, desesperos, furores sem razão... Emfim o pobre homem tem a vida estragada.
--E a dois passos da igreja do Senhor! exclamou D. Maria da Assumpção, indignada d'aquella impudencia de Satanaz, **installando-se** n'um corpo, n'um leito, que apenas a estreiteza do pateo separava dos contrafortes da Sé.
Amaro acudiu:
--Tem a D. Maria razão. O escandalo é enorme. Mas então? Se a rapariga não sabe lêr! Se não sabe uma oração, se não tem quem a instrua, quem lhe leve a palavra de Deus, quem a fortifique, quem lhe ensine o segredo de frustrar o Inimigo!...
Ergueu-se animado, deu alguns passos pela sala, de hombros vergados, n'uma mágoa de pastor a quem uma força desproporcional arrebata uma ovelha amada. E, exaltado pelas suas palavras, sentia, com effeito, uma piedade que o invadia, uma compaixão verdadeira por aquella pobre creatura, a quem a falta de consolações devia tornar mais intensa a agonia da immobilidade...
As senhoras olhavam-se, magoadas com aquelle caso triste d'abandono d'alma,--sobretudo pela dôr que elle parecia trazer ao senhor parocho.
A snr.^a D. Maria da Assumpção, que percorria em imaginação o abundante arsenal da devoção, lembrára logo que se lhe puzessem alguns santos á cabeceira, como S. Vicente, Nossa Senhora das Sete Chagas... Mas o silencio das amigas exprimiu bem a insufficiencia d'aquella galeria devota.
--As senhoras dir-me-hão talvez, disse o padre Amaro sentando-se de novo, que se trata apenas da filha do sineiro. Mas é uma alma! É uma alma como as nossas!
--Todos têm direito á graça do Senhor, disse o conego gravemente, n'um sentimento d'imparcialidade, admittindo a igualdade das classes logo que não se tratava de bens materiaes e apenas dos confortos do céo.
--P'ra Deus não ha pobre nem rico, suspirou a S. Joanneira. Antes pobre, que dos pobres é o reino do céo!
--Não, antes rico, acudiu o conego, estendendo a mão para deter aquella falsa interpretação da lei divina. Que o céo tambem é para os ricos. A senhora não comprehende o preceito. _Beati pauperes_, bemditos os pobres, quer dizer que os pobres devem-se achar felizes na pobreza; não desejarem os bens dos ricos; não quererem mais que o bocado de pão que têm; não aspirarem a participar das riquezas dos outros, sob pena de não serem bemditos. É por isso, saiba a senhora, que essa canalha que préga que os trabalhadores e as clases baixas devem viver melhor do que vivem, vai d'encontro á expressa vontade da Igreja e de Nosso Senhor, e não merece senão chicote, como excommungados que são! Ouf!
E estirou-se, extenuado de ter fallado tanto. O padre Amaro, esse, permanecia calado, com o cotovêlo sobre a mesa, esfregando devagar a testa. Ia lançar a sua idéa, como vinda d'uma inspiração divina, propôr que fosse Amelia levar uma educação devota á triste paralytica... E hesitava supersticiosamente diante do seu motivo todo carnal, todo de concupiscencia. A filha do sineiro apparecia-lhe agora, exageradamente, abysmada n'uma treva d'agonia. Sentia toda a caridade que haveria em consolal-a, entretel-a, fazer-lhe os dias menos amargos... Esta acção redimiria decerto muitas culpas, encantaria Deus, se fosse feita n'um puro espirito de fraternidade christã! Vinha-lhe uma compaixão sentimental de bom rapaz por aquelle miseravel corpo pregado n'uma cama, sem nunca vêr o sol nem a rua... E alli estava embaraçado, n'aquella piedade que o invadia, sem se decidir, coçando a nuca, arrependido quasi de ter fallado ás senhoras da Tótó...
Mas D. Joaquina Gansoso tivera uma idéa:
--Ó senhor padre Amaro, se se lhe mandasse aquelle livro com pinturas de vidas dos santos? Eram pinturas que edificavam. A mim tocavam-me alma... Não és tu que o tens, Amelia?
--Não, disse ella, sem erguer os olhos da costura.
Amaro então olhou-a. Tinha-a quasi esquecido. Estava agora do outro lado da mesa, abainhando um esfregão: a risca muita fina desapparecia na abundancia espessa do cabello, onde a luz do candieiro ao lado punha um traço lustroso; as pestanas pareciam mais longas, mais negras sobre a pelle da face, d'um trigueiro calido, que uma tinta rosada aquecia; o vestido justo, que se franzia n'uma prega sobre o hombro, elevava-se amplamente sobre a fórma dos peitos, que elle via arfar no rhythmo da respiração igual... Era aquella a belleza que mais appetecia n'ella; imaginava-os d'uma côr de neve, redondos e cheios; tivera-a nos braços, sim, mas vestida, e as suas mãos sôfregas tinham **encontrado** só a sêda fria... Mas na casa do sineiro seriam d'elle, sem obstaculo, sem vestidos, á disposição dos seus labios. Por Deus! e nada impedia que ao mesmo tempo consolassem a alma da Tótó! Não hesitou mais. E erguendo a voz, no meio do palratorio das velhas que discutiam agora a desapparição da _Vida dos Santos_:
--Não, minhas senhoras, não é com livros que se vale á rapariga... Sabem a idéa que me veio? Era um de nós, o que estiver menos occupado, levar-lhe a palavra de Deus e educar aquella alma!--E acrescentou, sorrindo:--E a fallar a verdade, a pessoa mais desoccupada aqui de todos nós é a menina Amelia...
Então foi uma surpreza! Pareceu a mesma vontade de Nosso Senhor vinda n'uma revelação. Os olhos de todas accenderam-se n'uma excitação devota, á idéa d'aquella missão de caridade, que partia alli d'ellas, da rua da Misericordia... Extasiavam-se, no ante-gosto guloso dos elogios do senhor chantre e do cabido! Cada uma dava o seu conselho, n'uma assiduidade de participar da santa obra, de partilharem as recompensas que o céo certamente prodigalisaria. D. Joaquina Gansoso declarou com calor que invejava Amelia; e chocou-se muito vendo-a de repente rir.
--Imaginas que não o faria com a mesma devoção? Já estás com o orgulho da boa acção... Olha que assim não t'aproveita!
Mas Amelia continuava tomada d'um riso nervoso, deitada para as costas da cadeira, suffocando-se para se conter.
Os olhinhos de D. Joaquina chammejavam.
--É indecente, é indecente! gritava.
Calmaram-na: Amelia teve de lhe jurar sob os Santos Evangelhos que fôra uma idéa extravagante que tivera, que era nervoso...
--Ai, disse D. Maria da Assumpção, ella tem razão em s'orgulhar. Que é uma honra p'r'á casa! Em se sabendo...
O parocho interrompeu com severidade:
--Mas não se deve saber, snr.^a D. Maria da Assumpção! De que serve, aos olhos do Senhor, uma boa obra de que se tire alarde e vangloria?
D. Maria vergou os hombros, humilhando-se á reprehensão. E Amaro, com gravidade:
--Isto não deve sahir d'aqui. É entre Deus e nós. Queremos salvar uma alma, consolar uma enferma, e não ter elogios nos periodicos. Pois não é assim, padre-mestre?
O conego ergueu-se pesadamente:
--Vossê esta noite tem fallado com a lingua de ouro de S. Chrysostomo. Eu estou edificado; e não se me dava agora de vêr apparecer as torradas.
Foi então, emquanto a _Ruça_ não trazia o chá, que se decidiu que Amelia, todas as semanas, uma ou duas vezes segundo fosse a sua devoção, **iria em** segredo, para que a acção fosse mais valiosa aos olhos de Deus, passar uma hora à cabeceira da paralytica, lêr-lhe a _Vida dos Santos_, ensinar-lhe rezas e insufflar-lhe a virtude.
--Emfim, resumiu a snr.^a D. Maria da Assumpção voltando-se para Amelia, não te digo senão uma coisa: abichaste!
A _Ruça_ entrou com o taboleiro, no meio dos risos que provocára a «tolice de D. Maria», como disse Amelia, que se fizera escarlate.--E foi assim que ella e o padre Amaro se puderam vêr livremente, para gloria do Senhor e humilhação do Inimigo.
Encontravam-se todas as semanas, ora uma ora duas vezes, de modo que as suas visitas caridosas á paralytica perfizessem ao fim do mez o numero symbolico de sete, que devia corresponder, na idéa das devotas, ás _Sete lições de Maria_. Na vespera o padre Amaro tinha prevenido o tio Esguelhas, que deixava a porta da rua apenas cerrada, depois de ter varrido toda a casa e preparado o quarto para a pratica do senhor parocho. Amelia n'esses dias erguia-se cedo: tinha sempre alguma saia branca a engommar, algum laçarote a compôr; a mãi estranhava-lhe aquelles arrebiques, o desperdicio d'agua de colonia de que ella se inundava; mas Amelia explicava que «era para inspirar á Tótó idéas de aceio e de frescura». E depois de vestida sentava-se, esperando as onze horas, muito séria, respondendo distrahidamente ás conversas da mãi, com uma côr nas faces, os olhos cravados nos ponteiros do relogio: emfim a velha matraca gemia cavamente as onze horas, e ella, depois d'uma olhadella ao espelho, sahia, dando uma beijoca á mamã.
Ia sempre receosa, n'uma inquietação de ser espreitada. Todas as manhãs pedia a Nossa Senhora da Boa Viagem que a livrasse de maus encontros; e se via um pobre dava-lhe invariavelmente esmola, para lisonjear os gostos de Nosso Senhor, amigo dos mendigos e vagabundos. O que a assustava era o largo da Sé, sobre o qual a Amparo da botica, costurando por traz da janella, exercia uma vigilancia incessante. Fazia-se então pequenina no seu mantelete, e abaixando o guardasol sobre o rosto, entrava emfim na Sé, sempre com o pé direito.
Mas a mudez da igreja, deserta e adormecida n'uma luz fusca, amedrontava-a: parecia-lhe sentir, na taciturnidade dos santos e das cruzes, uma reprehensão ao seu peccado; imaginava que os olhos de vidro das imagens, as pupillas pintadas dos paineis se fixavam n'ella, com uma insistencia cruel, e percebiam o arfar que ao seu seio dava a esperança do prazer. Ás vezes mesmo, atravessada d'uma superstição, para dissipar o descontentamento dos santos, promettia dar-se n'essa manhã toda á Tótó, occupar-se caridosamente só d'ella, e não se deixar tocar sequer no vestido pelo senhor padre Amaro. Mas se ao entrar na casa do sineiro o não encontrava, ia logo, sem se deter ao pé da cama da Tótó, postar-se à janella da cozinha, vigiando a porta massiça da sacristia de que ella conhecia uma por uma as chapas negras de ferro.
Elle apparecia, emfim. Era então nos começos de março; já tinham chegado as andorinhas; ouviam-n'as chilrear, n'aquelle silencio melancolico, esvoaçando entre os contrafortes da Sé. Aqui e além, plantas dos logares humidos cobriam os cantos d'uma verdura escura. Amaro, ás vezes muito galante, ia procurar uma florzinha. Amelia impacientava-se, rufava na vidraça da cozinha. Elle apressava-se; ficavam um momento á porta, apertando-se as mãos, com olhos brilhantes que se devoravam; e iam emfim vêr a Tótó--e dar-lhe os bolos que o parocho lhe trazia no bolso da batina.
A cama da Tótó era na alcova, ao lado da cozinha; o seu corpinho de tisica quasi não fazia saliencia enterrado na cova da enxerga, sob os cobertores enxovalhados que ella se entretinha a esfiar. N'esses dias tinha vestido um chambre branco, os cabellos reluziam-lhe d'oleo; porque ultimamente, desde as visitas d'Amaro, viera-lhe «uma birra de parecer alguem», como dizia encantado o tio Esguelhas, a ponto de se não querer separar d'um espelho e d'um pente que escondia debaixo do travesseiro e obrigar o pai a encafuar sob a cama, entre a roupa suja, as bonecas que agora desprezava.
Amelia sentava-se um instante aos pés do catre, perguntando-lhe se estudára o A B C, obrigando-a a dizer aqui e além o nome d'uma letra. Depois queria que ella repetisse sem a errar a oração que lhe andava ensinando;--emquanto o padre, sem passar da porta, esperava, com as mãos nos bolsos, enfastiado, embaraçado com os olhos reluzentes da paralytica que o não deixavam, penetrando-o, percorrendo-lhe o corpo com pasmo e com ardor, e que pareciam maiores e mais brilhantes no seu rosto trigueiro tão chupado que se lhe via a saliencia das maxillas. Não sentia agora nem compaixão nem caridade pela Tótó; detestava aquella demora; achava a rapariga selvagem e embirrenta. A Amelia tambem pesavam aquelles momentos em que, para não escandalisar muito Nosso Senhor, se resignava a fallar à paralytica. A Tótó parecia odial-a; respondia-lhe muito carrancuda; outras vezes persistia n'um silencio rancoroso, voltada para a parede; um dia despedaçára o alphabeto; e encolhia-se toda encruada se Amelia lhe queria compor o chale sobre os hombros ou conchegar-lhe a roupa...