O crime do padre Amaro, scenas da vida devota
Chapter 22
--Alto lá, padre-mestre! exclamou o padre Amaro. É o texto da rubrica. _Facta reverentia cruci_, feita a reverencia á cruz: isto é, a reverencia simples, abaixar ligeiramente a cabeça...
E, para **exemplificar**, fez uma cortezia a D. Josepha que lhe sorriu toda, torcendo-se.
--Nego! exclamou formidavelmente o conego que em sua casa, á sua mesa, punha d'alto as suas opiniões. E nego com os meus auctores. Elles ahi vão!--E deixou-lhe cahir em cima, como penedos d'autoridade, os nomes venerados de Laboranti, Baldeschi, Merati, Turrino e Pavonio.
Amaro afastára a cadeira, puzera-se em attitude de controversia, contente de poder, diante d'Amelia, «enterrar» o conego, mestre de theologia moral e um colosso de liturgia pratica.
--Sustento, exclamou, sustento com Castaldus...
--Alto, ladrão, bramiu o conego, Castaldus é meu!
--Castaldus é meu, padre-mestre!
E encarniçaram-se, puxando cada um para si o veneravel Castaldus e a auctoridade da sua facundia. D. Josepha pulava de gozo na cadeira, murmurando para Amelia com a cara franzida de riso:
--Ai, que gostinho vêl-os! Ai, que santos!
Amaro continuava, com o gesto alto:
--E além d'isso tenho por mim o bom-senso, padre-mestre. _Primò_, a rubrica, como expuz. _Secundò_, o sacerdote, tendo na sacristia o barrete na **cabeça**, não deve fazer cortezia inteira, porque lhe póde cahir o barrete e temos desacato maior. _Tertiò_, seguir-se-hia um absurdo, porque então a cortezia antes da missa á cruz da sacristia seria maior que a que se faz depois da missa á cruz do altar!
--Mas a cortezia á cruz do altar... bradou o conego.
--É meia cortezia. Leia a rubrica: _Caput inclinat_. Leia Gavantus, leia Garriffaldi. E nem podia deixar de ser assim! Sabe porquê? Porque depois da missa o sacerdote está no auge da dignidade, uma vez que tem dentro em si o corpo e sangue de Nosso Senhor Jesus Christo. Logo, o ponto é meu!
E de pé, esfregou vivamente as mãos, triumphando.
O conego abatera a papeira sobre as pregas do guardanapo, como um boi atordoado. E depois d'um momento:
--Vossê não deixa de ter razão... Eu foi para o ouvir... Faz-me honra cá o discipulo, acrescentou piscando o olho a Amelia. Pois é beber, é beber! E depois salta o cafésinho bem quente, mana Josepha!
Mas um forte repique á campainha sobresaltou-os.
--É a S. Joanneira, disse D. Josepha.
A Gertrudes entrou com um chale e uma manta de lã:
--Aqui está isto que vem de casa da menina Amelia. A senhora manda muitos recados, que não póde vir, que se achou incommodada.
--Então com quem hei de eu ir? disse logo Amelia, inquieta.
O conego estendeu o braço sobre a mesa, e dando-lhe uma palmadinha na mão:
--Em ultimo caso com este seu criado. E essa virtudesinha podia ir socegada...
--Tem coisas, mano! gritou a velha.
--Deixe lá, mana. O que passa pela boca d'um santo, santo fica.
O parocho approvou ruidosamente:
--Tem muita razão o senhor conego Dias! O que passa pela pela boca d'um santo, santo fica! Para que viva!
--Á sua!
E tocaram os copos, com um olho gaiato, reconciliados da controversia.
Mas Amelia ficára assustada.
--Jesus, que terá a mamã! Que será?
--Ora o que ha de ser! preguiça! disse-lhe o parocho, rindo.
--Não te agonies, filha, disse D. Josepha. Vou-te eu levar, vamos todos levar-te...
--Vai a menina em charola, rosnou o conego descascando a sua pêra.
Mas de repente pousou a faca, arregalou os olhos em redor, e passando a mão pelo estomago:
--Pois olhem, disse, não me estou tambem a sentir bem...
--Que é? que é?
--Um ameaçosito da dôr. Passou, não vale nada.
D. Josepha, já assustada, não queria que elle comesse a pêra. Que a ultima vez que lhe dera fôra por causa da fructa...
Mas elle, obstinado, cravou os dentes na pêra.
--Passou, passou, rosnava.
--Foi sympathia com a mamã, disse o parocho baixo a Amelia.
De repente o conego afastou a cadeira, e torcendo-se de lado:
--Não estou bem, não estou bem! Jesus! Oh, diabo! Oh, caramba! Ai! ai! morro!
Alvoroçaram-se em volta d'elle. D. Josepha amparou-o pelo braço até ao quarto, gritando á criada que fosse buscar o doutor. Amelia correu á cozinha a aquecer uma flanella para lhe pôr no estomago. Mas não apparecia flanella. Gertrudes topava contra as cadeiras, espavorida, á procura do seu chale para sahir.
--Vá sem chale, sua estupida! gritou-lhe Amaro.
A rapariga abalou. Dentro o conego dava urros.
Amaro então, realmente assustado, entrou-lhe no quarto. D. Josepha de joelhos diante da commoda gemia orações a uma grande lithographia de Nossa Senhora das Dôres; e o pobre padre-mestre, estirado de barriga sobre a cama, rilhava o travesseiro.
--Mas, minha senhora, disse o parocho severamente, não se trata agora de rezar. É necessario fazer-lhe alguma coisa... Que se lhe costuma fazer?
--Ai, senhor parocho, não ha nada, não ha nada, choramingou a velha. É uma dôr que vem e vai n'um momento. Não dá tempo p'ra nada! Um chá de tilia allivia-o ás vezes... Mas por desgraça hoje nem tilia tenho! Ai, Jesus!
Amaro correu a casa a buscar tilia. E d'ahi a pouco voltava esbaforido com a Dionysia, que vinha offerecer a sua actividade e a sua experiencia.
Mas o senhor conego, felizmente, sentira-se de repente alliviado!
--Muito agradecida, senhor parocho, dizia D. Josepha. Rica tilia! É de muita caridade. Elle agora naturalmente cae em somnolencia. Vem-lhe sempre depois da dôr... Eu vou para ao pé d'elle, desculpem-me... Esta foi peor que as outras... São estas fructas mald...--Reteve a blasphemia, aterrada.--São as fructas de Nosso Senhor. É a sua divina vontade... Desculpem-me, sim?
Amelia e o parocho ficaram sós na sala. Os seus olhares reluziram logo do desejo de se tocar, de se beijar, mas as portas estavam abertas; e sentiam no quarto, ao lado, as chinelas da velha. O padre Amaro disse então alto:
--Pobre padre-mestre! É uma dôr terrivel.
--Dá-lhe todos os tres mezes, disse Amelia. A mamã já andava com o presentimento. Ainda me tinha dito antes d'hontem: é o tempo da dôr do senhor conego, estou com mais cuidado...
O parocho suspirou, e baixinho:
--Eu é que não tenho quem pense nas minhas dôres...
Amelia pousou n'elle longamente os seus bellos olhos humedecidos de ternura:
--Não diga isso...
As suas mãos iam apertar-se ardentemente por sobre a mesa; mas D. Josepha appareceu, encolhida no seu chale. O mano tinha adormecido. E ella estava que não se podia ter nas pernas. Ai, aquelles abalos arrazavam-lhe a saude! Accendera duas velas a S. Joaquim e fizera uma promessa a Nossa Senhora da Saude. Era a segunda aquelle anno, por causa da dôr do mano. E Nossa Senhora não lhe tinha faltado...
--Nunca falta a quem a implora com fé, minha senhora, disse com unção o padre Amaro.
O alto relogio d'armario bateu então cavamente oito horas. Amelia fallou outra vez no cuidado em que estava pela mamã... Demais a mais ia-se a fazer tão tarde...
--E é que quando eu sahi estava a choviscar, disse Amaro.
Amelia correu á janella, inquieta. O lagedo defronte, debaixo do candieiro, reluzia muito molhado. O céo estava tenebroso.
--Jesus, vamos ter uma noite d'agua!
D. Josepha estava afflicta com o contratempo; mas a Amelia bem via, ella agora não podia despegar de casa; a Gertrudes fôra ao doutor; naturalmente não o encontrára, andava a procural-o de casa em casa, quem sabe quando viria...
O parocho então lembrou que a Dionysia (que viera com elle e esperava na cozinha) podia ir acompanhar a snr.^a D. Amelia. Eram dois passos, não havia ninguem pelas ruas. Elle mesmo iria com ellas até á esquina da Praça... Mas deviam apressar-se, que ia cahir agua!
D. Josepha foi logo buscar um guardachuva para Amelia. Recommendou-lhe muito que contasse á mamã o que tinha succedido. Mas que não se affligisse ella, que o mano estava melhor...
--E olha! gritou-lhe ainda de cima da escada, dize-lhe que se fez tudo o que se pôde, mas que a dôr não deu tempo para nada!
--Sim, lá direi. Boa noite.
Ao abrirem a porta a chuva cahia grossa. Amelia então quiz esperar. Mas o parocho, apressado, puxou-a pelo braço:
--Não vale nada, não vale nada!
Desceram a rua deserta, aconchegados debaixo do guardachuva, com a Dionysia ao lado, muito calada, de chale pela cabeça. Todas as janellas estavam apagadas; no silencio as goteiras cantavam d'enxurrão.
--Jesus, que noite! disse Amelia. Vai-se-me a perder o vestido.
Estavam então na rua das Sousas.
--É que agora cae a cantaros, disse Amaro. Realmente parece-me que o melhor é entrar no pateo de minha casa e esperar um bocado...
--Não, não! acudiu Amelia.
--Tolices! exclamou elle impaciente. Vai-se-lhe estragar o vestido... É um instante, é um aguaceiro. Para aquelle lado, vê, está a alliviar. Vai passar... É uma tolice... A mamã, se a visse apparecer debaixo d'uma carga d'agua, zangava-se, e com razão!
--Não, não!
Mas Amaro parou, abriu rapidamente a porta, e empurrando Amelia de leve:
--É um instante, vai passar, entre...
E alli ficaram, calados, no pateo escuro, olhando as cordas d'agua que reluziam á luz do candieiro defronte. Amelia estava toda atarantada. A negrura do pateo e o silencio assustavam-n'a; mas parecia-lhe delicioso estar assim n'aquella escuridão, ao pé d'elle, ignorada de todos... Insensivelmente attrahida, roçava-se-lhe pelo hombro; e recuava logo, inquieta de ouvir a sua respiração tão agitada, de o sentir tão junto das saias. Percebia por traz, sem a vêr, a escada que levava ao quarto d'elle; e tinha um desejo immenso de lhe ir vêr acima os seus moveis, os seus arranjos... A presença da Dionysia, encolhida contra a porta e muito calada, embaraçava-a; todavia a cada momento voltava os olhos para ella, receando que desapparecesse, se sumisse na negrura do pateo ou da noite...
Amaro então começou a bater com os pés no chão, a esfregar as mãos, arripiado.
--Estamos aqui a apanhar alguma, dizia. As lages estão regeladas... Realmente era melhor esperar em cima na sala de jantar...
--Não, não! disse ella.
--Pieguices! Até a mamã se havia de zangar... Vá, Dionysia, accenda luz em cima.
A matrona immediatamente galgou os degraus.
Elle então, muito baixo, tomando o braço d'Amelia:
--Porque não? Que pensas tu? É uma pieguice. É emquanto não passa o aguaceiro. Dize...
Ella não respondia, respirando muito forte. Amaro pousou-lhe a mão sobre o hombro, sobre o peito, apertando-lh'o, acariciando a sêda. Toda ella estremeceu. E foi-o emfim seguindo pela escada, como tonta, com as orelhas a arder, tropeçando a cada degrau na roda do vestido.
--Entra p'r'áhi, é o quarto, disse-lhe elle ao ouvido.
Correu á cozinha. Dionysia accendia a vela.
--Minha Dionysia, tu percebes... Eu fiquei de confessar aqui a menina Amelia. É um caso muito sério... Volta d'aqui a meia hora. Toma.--Metteu-lhe tres placas na mão.
A Dionysia descalçou os sapatos, desceu em pontas de pés e fechou-se na loja do carvão.
Elle voltou ao quarto com a luz. Amelia lá estava, immovel, toda pallida. O parocho fechou a porta--e foi para ella, calado, com os dentes cerrados, soprando como um touro.
Meia hora depois Dionysia tossiu na escada. Amelia desceu logo, muito embrulhada na manta: ao abrirem a porta do pateo passavam na rua dois borrachos galrando: Amelia recuou rapidamente para o escuro. Mas Dionysia d'ahi a pouco espreitou; e vendo a rua deserta:
--Está a barra livre, minha rica menina...
Amelia embrulhou mais o rosto e apressaram o passo para a rua da Misericordia. Já não chovia; havia estrellas; e uma frialdade sêcca annunciava o norte e o bom tempo.
XVII
Ao outro dia Amaro, vendo no relogio que tinha á cabeceira que ia chegando a hora da missa, saltou alegremente da cama. E, enfiando o velho paletot que lhe servia de robe-de-chambre, pensava n'essa outra manhã em Feirão em que acordára aterrado por ter na vespera, pela primeira vez depois de padre, peccado brutalmente sobre a palha da estrebaria da residencia com a Joanna Vaqueira. E não se atrevera a dizer missa com aquelle crime na alma, que o abafava com um peso de penedo. Considerára-se contaminado, immundo, maduro para o inferno, segundo todos os santos padres e o seraphico concilio de Trento. Tres vezes chegára á porta da igreja, tres vezes recuára assombrado. Tinha a certeza de que, se ousasse tocar na Eucharistia com aquellas mãos com que repanhára os saiotes da Vaqueira, a capella se aluiría sobre elle, ou ficaria paralysado vendo erguer-se diante do sacrario, d'espada alta, a figura rutilante de S. Miguel Vingador! Montára a cavallo e trotára duas horas, pelos barreiros de D. João, para ir á Gralheira confessar-se ao bom abbade Sequeira... Ah! Era nos seus tempos de innocencia, de exagerações piedosas e de terrores noviços! Agora tinha aberto os olhos em redor á realidade humana. Abbades, conegos, cardeaes e monsenhores não peccavam sobre a palha da estrebaria, não--era em alcovas commodas, com a ceia ao lado. E as igrejas não se aluiam, e S. Miguel Vingador não abandonava por tão pouco os confortos do céo!
Não era isso o que o inquietava--o que o inquietava era a Dionysia, que elle ouvia na cozinha, arrumando e tossicando, sem se atrever a pedir-lhe agua para a barba. Desagradava-lhe sentir aquella matrona introduzida, installada no seu segredo. Não duvidava decerto da sua discrição, era o seu _officio_; e algumas meias libras manteriam a sua fidelidade. Mas repugnava ao seu pudor de padre saber que aquella velha concubina de auctoridades civis e militares, que rolára a sua massa de gordura por todas as torpezas seculares da cidade, conhecia as suas fragilidades, as concupiscencias que lhe ardiam sob a batina de parocho. Preferiria que fosse o Silverio ou Natario que o tivesse visto na vespera, todo inflammado: era entre sacerdotes, ao menos!... E o que o incommodava era a idéa de ser observado por aquelles olhinhos cynicos, que não se impressionavam nem com a austeridade das batinas nem com a respeitabilidade dos uniformes, porque sabiam que por baixo estava igualmente a mesma miseria bestial da carne...
--Acabou-se, pensou, dou-lhe uma libra e imponho-a.
Nós de dedos bateram discretamente à porta do quarto.
--Entre! disse Amaro sentando-se logo, curvando-se vivamente sobre a mesa, como absorvido, abysmado nos seus papeis.
A Dionysia entrou, pousou o pucaro da agua sobre o lavatorio, tossiu, e fallando sobre as costas d'Amaro:
--Ó senhor parocho, olhe que isto assim não tem geito. Hontem iam vendo sahir daqui a pequena. É muito sério, menino... Para bem de todos é necessario segredo!
Não, não a podia impôr! A mulher estabelecia-se, à força, na sua confidencia. Aquellas palavras mesmo, murmuradas com medo das paredes, revelando uma prudencia de officio, mostravam-lhe a vantagem d'uma cumplicidade tão experiente.
Voltou-se na cadeira, muito vermelho.
--Iam vendo, hein?
--Iam vendo. Eram dois bebedos... Mas podiam ser dois cavalheiros.
--É verdade.
--E na sua posição, senhor parocho, na posição da pequena!... Tudo se deve fazer pelo calado... Nem os moveis do quarto devem saber! Em coisas que eu protejo, exijo tanta cautela como se se tratasse de morte!
Amaro então decidiu-se bruscamente a aceitar a _protecção_ da Dionysia.
Rebuscou n'um canto da gaveta, metteu-lhe meia libra na mão.
--Seja pelo amor de Deus, filho, murmurou ella.
--Bem; e agora, Dionysia, que lhe parece? perguntou elle recostado na cadeira, esperando os conselhos da matrona.
Ella disse muito naturalmente, sem affectação de mysterio ou de malicia:
--A mim parece-me que para vêr a pequena não ha como a casa do sineiro!
--A casa do sineiro!?
Ella recordou-lhe, muito tranquillamente, a excellente disposição do sitio. Um dos quartos ao pé da sacristia, como elle sabia, dava para um pateo onde se tinha feito um barracão no tempo das obras. Pois bem, justamente do outro lado eram as trazeiras da casa do sineiro... A porta da cozinha do tio Esguelhas abria para o pateo: era sahir da sacristia, atravessal-o, e o senhor parocho estava no ninho!
--E ella?
--Ella entra pela porta do sineiro, pela porta da rua que dá para o adro. Não passa viva alma, é um ermo. E se alguem visse, nada mais natural, era a menina Amelia que ia dar um recado ao sineiro... Isto, já se vê, é ainda pelo alto, que o plano póde-se aperfeiçoar...
--Sim, comprehendo, é um esboço, disse Amaro que passeava pelo quarto reflectindo.
--Eu conheço bem o sitio, senhor parocho, e creia o que lhe digo: para um senhor ecclesiastico que tem o seu arranjinho, não ha melhor que a casa do sineiro!
Amaro parou diante d'ella, rindo, familiarisando-se:
--Ó tia Dionysia, diga lá com franqueza: não é a primeira vez que vossê aconselha a casa do sineiro, hein?
Ella então negou, muito decisivamente. Era homem que nem conhecia, o tio Esguelhas! Mas tinha-lhe vindo aquella idéa de noite, a malucar na cama. Pela manhã cedo fôra examinar o sitio, e reconhecera que estava a calhar.
Tossicou, foi-se aproximando sem ruido da porta; e voltando-se ainda, com um ultimo conselho:
--Tudo está em que vossa senhoria se entenda bem com o sineiro.
Era isso agora o que preoccupava o padre Amaro.
O tio Esguelhas passava na Sé, entre os serventes e os sacristães, por um _macambusio_. Tinha uma perna cortada e usava muleta: e alguns sacerdotes, que desejariam o emprego para os seus protegidos, sustentavam mesmo que aquelle defeito o tornava, segundo a Regra, improprio para o serviço da Igreja. Mas o antigo parocho José Migueis, em obediencia ao senhor bispo, conservára-o na Sé, argumentando que o trambolhão desastroso que motivára a amputação fôra na torre, n'uma occasião de festa, collaborando no culto: _ergo_ estava claramente indicada a intenção de Nosso Senhor em não prescindir do tio Esguelhas. E quando Amaro tomára conta da parochia, o côxo valera-se da influencia da S. Joanneira e d'Amelia para conservar, como elle dizia, a _corda do sino_. Era além d'isso (e fôra a opinião da rua da Misericordia) uma obra de caridade. O tio Esguelhas, viuvo, tinha uma filha de quinze annos paralytica, desde pequena, das pernas. «O diabo embirrou com as pernas da familia», costumava dizer o tio Esguelhas. Era decerto esta desgraça que lhe dava uma tristeza taciturna. Contava-se que a rapariga (cujo nome era Antonia, e que o pai chamava Tótó) o torturava com perrices, phrenesis, caprichos abominaveis. O doutor Gouvêa declarára-a _hysterica_: mas era uma certeza, para as pessoas de bons principios, que a Tótó estava _possuida do Demonio_. Houvera mesmo o plano de a exorcismar: o senhor vigario geral, porém, sempre assustado com a imprensa, hesitára em conceder a permissão ritual, e tinham-lhe feito apenas, sem resultado, as aspersões simples de agua benta. De resto não se sabia a natureza do _endemoninhamento_ da paralytica: a snr.^a D. Maria da Assumpção ouvira dizer que consistia em uivar como um lobo; a Gansosinho, em outra versão, assegurava que a desgraçada se dilacerava com as unhas... O tio Esguelhas, esse, quando lhe perguntavam pela rapariga, respondia sêccamente:
--Lá está.
Os intervallos do seu serviço da igreja passava-os todos com a filha no casebre. Só atravessava o largo para ir á botica por algum remedio, ou comprar bolos á confeitaria da Thereza. Todo o dia aquelle recanto da Sé, o pateo, o barracão, o alto muro ao lado coberto de parietarias, a casa ao fundo com a sua janella de portada negra n'uma parede lazeirenta, permaneciam n'um silencio, n'uma sombra humida: e os meninos do côro, que ás vezes se arriscavam a ir pé-ante-pé, pelo pateo, espreitar o tio Esguelhas, viam-no invariavelmente curvado á lareira, com o cachimbo na mão, cuspilhando tristemente para as cinzas.
Costumava todos os dias respeitosamente ouvir a missa do senhor parocho. E Amaro, n'essa manhã, ao revestir-se, sentindo-lhe nas lageas do pateo a muleta, ia já ruminando a sua historia--porque não podia pedir ao tio Esguelhas o uso do seu casebre sem explicar, d'algum modo, que o desejava para um serviço religioso... E que serviço, a não ser preparar, em segredo e longe das opposições mundanas, alguma alma terna para o convento e para a santidade?
Ao vêl-o entrar na sacristia, deu-lhe logo uns «bons dias» amaveis. Achou-lhe uma bella cara de saude! Tambem não admirava--porque, segundo todos os santos padres, a frequentação dos sinos, pela virtude particular que lhes communica a consagração, dão uma alegria e um bem-estar especiaes. Contou então com bonhomia ao tio Esguelhas e aos dois sacristães que, quando era pequeno, em casa da senhora marqueza d'Alegros, o seu grande desejo era ser um dia sineiro...
Riram muito, extasiando-se com a pilheria de sua senhoria.
--Não se riam, é verdade. E não me ficava mal... N'outros tempos eram clerigos d'ordens menores que tocavam os sinos. Os nossos santos padres consideram-n'os um dos meios mais efficazes da piedade. Lá disse a glosa pondo o verso na bôca do sino:
_Laudo Deum, populum voco, congrego clerum. Defunctum ploro, pestem fugo, festa decoro..._
O que quer dizer, como sabem: _Louvo a Deus, chamo o povo, congrego o clero, choro os mortos, afugento as pestes, alegro as festas_.
Citava a glosa com respeito, já revestido d'amicto e alva, no meio da sacristia; e o tio Esguelhas impertigava-se sobre a sua muleta áquellas palavras que lhe davam uma auctoridade e uma importancia imprevista.
O sacristão tinha-se aproximado com a casula rôxa. Mas Amaro não terminára a glorificação dos sinos;--explicou ainda a sua grande virtude em dissipar as tempestades (apesar do que dizem alguns sabios presumpçosos), não só porque communicam ao ar a unção que recebem da benção, mas porque dispersam os demonios que erram entre os vendavaes e os trovões. O santo concilio de Milão recommenda que se toquem os sinos sempre que haja tormenta...
--Em todo o caso, tio Esguelhas, acrescentou sorrindo com solicitude pelo sineiro, aconselho-lhe que n'esses casos é melhor não se arriscar. Sempre é estar no alto, e perto da trovoada... Vamos a isso, tio Mathias.
E recebeu sobre os hombros a casula, murmurando com muita compostura:
-_Domine, quis dixisti jugum meum_... Aperte mais os cordões por traz, tio Mathias. _Suave est, et onus meum leve_...
Fez uma cortezia á imagem e entrou na igreja, na attitude da rubrica, d'olhos baixos e corpo direito; emquanto o Mathias, depois de ter tambem saudado com um raspão de pé o Christo da sacristia, se apressava com as galhetas, tossindo forte para clarear a garganta.
Durante toda a missa, ao voltar-se para a nave, no _Offertorio_ e ao _Orate fratres_, o padre Amaro dirigia-se sempre (por uma benevolencia que o ritual permitte) para o sineiro, como se o Sacrificio fosse por sua intenção particular;--e o tio Esguelhas, com a sua muleta pousada ao lado, abysmava-se então n'uma devoção mais respeitosa. Mesmo ao _Benedicat_, depois de ter começado a benção voltado para o altar para recolher do Deus vivo o deposito da Misericordia, terminou-a, virando-se devagar para o tio Esguelhas especialmente, como para lhe dar a elle só as Graças e Dons de Nosso Senhor!
--E agora, tio Esguelhas, disse-lhe baixo ao entrar na sacristia, vá-me esperar ao pateo que temos que conversar.
Não tardou a vir ter com elle, com uma face grave que impressionou o sineiro.
--Cubra-se, cubra-se, tio Esguelhas. Pois eu venho fallar-lhe d'um caso sério... Verdadeiramente pedir-lhe um favor...
--Oh, senhor parocho!
Não, não era um favor... Porque, quando se tratava do serviço de Deus, todos tinham o dever de concorrer na proporção das suas forças... Tratava-se d'uma menina que se queria fazer freira. Emfim, para lhe provar a confiança que tinha n'elle, ia-lhe dizer o nome...
--É a Ameliasinha da S. Joanneira!
--Que me diz, senhor parocho?!
--Uma vocação, tio Esguelhas! Vê-se o dedo de Deus! É extraordinario...