O crime do padre Amaro, scenas da vida devota

Chapter 21

Chapter 213,906 wordsPublic domain

A sala vibrava agora com a gralhada das senhoras, arrebatadas n'um furor santo. D. Josepha Dias, D. Maria da Assumpção fallavam com gozo do _fogo_, enchendo a boca com a palavra, n'uma delicia inquisitorial de exterminação devota. Amelia e a Gansoso, no quarto, rebuscavam pelas gavetas, por entre a roupa branca, as fitas e as calcinhas, á caça dos «objectos excommungados». E a S. Joanneira assistia, attonita e assustada, áquelle alarido d'auto-de-fé que atravessava bruscamente a sua sala pacata, refugiada ao pé do conego, que depois de ter rosnado algumas palavras sobre «a Inquisição em casas particulares», se enterrára commodamente na poltrona.

--É para lhes fazer sentir que se não perde impunemente o respeito á batina, dizia Natario baixo a Amaro.

O parocho assentiu, com um gesto mudo de cabeça, contente d'aquellas cóleras beatas que eram como a affirmação ruidosa do amor que lhe tinham as senhoras.

Mas D. Josepha impacientava-se. Agarrára já o _Panorama_ com as pontas do chale, para evitar o contagio, e gritava para dentro, para o quarto, onde continuava pelos gavetões uma rebusca furiosa:

--Então appareceu?

--Cá está, cá está!

Era a Gansoso que entrava triumphante com a cigarreira, a velha luva e o lenço de algodão.

E as senhoras, em alarido, arremetteram para a cozinha. A mesma S. Joanneira as seguiu, como boa dona de casa, para fiscalisar a fogueira.

Os tres padres então, sós, olharam-se--e riram.

--As mulheres têm o diabo no corpo, disse o conego philosophicamente.

--Não senhor, padre-mestre, não senhor, acudiu logo Natario fazendo-se sério. Eu rio porque a coisa, assim vista, parece patusca. Mas o sentimento é bom. Prova a verdadeira devoção ao sacerdocio, horror á impiedade... Emfim o sentimento é excellente.

--O sentimento é excellente, confirmou Amaro, tambem sério.

O conego ergueu-se:

--E é que se pilhassem o homem eram capazes de o queimar... Não lh'o digo a brincar, que a mana tem figados para isso... É um Torquemada de saias...

--Está na verdade, está na verdade, affirmou Natario.

--Eu não resisto a ir vêr a execução! exclamou o conego. Eu quero vêr com os meus olhos!

E os tres padres então foram até á porta da cozinha. As senhoras lá estavam, em pé diante da lareira, batidas da luz violenta da fogueira que fazia destacar estranhamente as mantas d'agasalho de que já se tinham coberto. A _Ruça_, de joelhos, soprava esfalfada. Tinham cortado com o facão a encardernação do _Panorama_; e as folhas retorcidas e negras, com um faiscar de fagulhas, voavam pela chaminé nas linguas do fogo claro. Só a luva de pellica não se consumia. Debalde com as tenazes a punham no vivo da chamma: tisnava, reduzida a um caroço engorolado; mas não ardia. E a sua resistencia aterrava as senhoras.

--É que é a da mão direita com que commetteu o desacato! dizia furiosa D. Maria da Assumpção.

--Bufa-lhe, rapariga, bufa-lhe! aconselhava da porta o conego muito divertido.

--O mano faz favor de não troçar com coisas sérias! gritou D. Josepha.

--Oh, mana! a senhora quer saber melhor que um sacerdote como é que se queima um impio? A pretenção não está má! É bufar-lhe, é bufar-lhe!

Então, confiadas na sciencia do senhor conego, a Gansoso e D. Maria da Assumpção, acocoradas, bufaram tambem. As outras olhavam, n'um sorriso mudo, o olho brilhante e cruel, no gozo d'aquella exterminação grata a Nosso Senhor. O fogo estalava, pulando com uma força galharda, na gloria da sua antiga funcção de purificador dos peccados.--E por fim sobre as achas em braza, nada restou do _Panorama_, do lenço e da luva do impio.

A essa hora João Eduardo, o impio, no seu quarto, sentado aos pés da cama, soluçava, com a face banhada em lagrimas, pensando em Amelia, nos bons serões da rua da Misericordia, na cidade para onde iria, na roupa que empenharia, e perguntando em vão a si mesmo porque o tratavam assim, elle que era tão trabalhador, que não queria mal a ninguem, e que a adorava tanto, a ella?

XVI

No domingo seguinte havia missa cantada na Sé, e a S. Joanneira e Amelia atravessaram a Praça para ir buscar D. Maria da Assumpção, que em dias de mercado e de «populacho» nunca sahia só, receosa que lhe roubassem as joias ou lhe insultassem a castidade.

N'essa manhã, com effeito, a affluencia das freguezias enchia a Praça: os homens em grupo, atravancando a rua, muito sérios, muito barbeados, de jaqueta ao hombro; as mulheres aos pares, com uma fortuna de grilhões e de corações d'ouro sobre peitos pejados; nas lojas, os caixeiros azafamavam-se por traz dos balcões alastrados de lençaria e de chitas; nas tabernas apinhadas gralhava-se alto; pelo mercado, entre os saccos de farinha, os montões de louça, os cestos de brôa, ia um regatear sem fim; havia multidão ao pé das tendas onde reluzem os espelhinhos redondos e transbordam os mólhos de rosarios; velhas faziam pregão por traz dos seus taboleiros de cavacas; e os pobres, afreguezados á cidade, choramingavam Padre-nossos pelas esquinas.

Já senhoras passavam para a missa, todas em sêdas, de rostinho sisudo; e a Arcada estava cheia de cavalheiros, têsos nos seus fatos de casimira nova, fumando caro, gozando o domingo.

Amelia foi muito olhada: o filho do recebedor, um atrevido, disse mesmo alto d'um grupo: _Ai, que me leva o coração!_ E as duas senhoras, apressando-se, dobravam para a rua do Correio, quando lhes appareceu o Libaninho de luvas pretas e cravo ao peito. Não as tinha visto desde «o desacato do largo da Sé», e rompeu logo em exclamações. Ai, filhas, que desgosto aquelle! O malvado do escrevente! Elle tinha tido tanto que fazer, que só n'essa manhã é que pudera ir ao senhor parocho dar-lhe os sentimentos; o santinho recebera-o muito bem, estava-se a vestir; elle quiz-lhe vêr o braço e felizmente, louvores a Deus, nem uma pisadura... E se ellas vissem, que carnadura tão delicada, que pelle tão branca... Uma pellinha d'archanjo!

--Mas querem vossês saber, filhas? Encontrei-o n'uma grande afflicção!

As duas senhoras assustaram-se. Porquê, Libaninho?

A criada, a Vicencia, que havia dias se queixava, tinha ido n'essa madrugada para o hospital com um febrão...

--E alli está o pobre santo sem criada, sem nada! Vejam vossês! Para hoje bem, que vai jantar com o nosso conego (tambem lá estive, ai, que santo!), mas ámanhã, mas depois? Que elle já tem em casa a irmã da Vicencia, a Dionysia... Mas, oh, filhas, a Dionysia! Foi o que eu lhe disse: a Dionysia póde ser uma santa, mas que reputação!... É que não ha peor em Leiria... Uma perdida que não põe os pés na igreja... Tenho a certeza que o senhor chantre até havia de reprovar!

As duas senhoras concordaram logo que a Dionysia (mulher que não cumpria os preceitos, que representára em theatros de curiosos) não convinha ao senhor parocho...

--Olha, S. Joanneira, disse Libaninho, sabes o que lhe convinha? Eu lá lh'o disse, lá lhe fiz a proposta. É ferrar-se outra vez em tua casa. Que é onde está bem, com gente que o acarinha, que lhe trata da roupa, que lhe sabe os gostos, e onde tudo é virtude! Elle não disse que _não_ nem que _sim_. Mas olha que se lhe podia lêr na cara que está a morrer por isso... Tu é que lhe devias fallar, S. Joanneirinha!

Amelia fizera-se tão escarlate como a sua gravata de sêda da India. E a S. Joanneira disse ambiguamente:

--Fallar-lhe não... Eu n'essas coisas sou muito delicada... Bem comprehendes...

--Era como teres um santo de portas a dentro, filha! disse com calor o Libaninho. Lembra-te d'isso! E era um gosto para todos... Tenho a certeza que até Nosso Senhor se havia d'alegrar... E agora adeus, pequenas, que vou de fugida. Não vos demoreis, que está a missinha a cahir.

As duas senhoras continuaram caladas até casa de D. Maria da Assumpção. Nenhuma queria arriscar primeiro uma palavra sobre aquella possibilidade tão inesperada, tão grave, do senhor parocho voltar para a rua da Misericordia! Foi só quando pararam que a S. Joanneira disse, ao puxar à campainha:

--Ai, o senhor parocho realmente não póde ter a Dionysia de portas a dentro...

--Credo, até causa horror!

Foi tambem a expressão da snr.^a D. Maria da Assumpção quando lhe contaram, em cima, a doença da Vicencia e a installação da Dionysia: causava horror!

--Que eu não a conheço, disse a excellente senhora. E tenho até vontade de a conhecer. Que me dizem que é dos pés à cabeça uma crosta de peccado!

A S. Joanneira então fallou da «proposta do Libaninho». D. Maria da Assumpção declarou logo com ardor que era uma inspiração de Nosso Senhor. Que nunca o senhor parocho devia ter sahido da rua da Misericordia! Até parece que mal elle se fôra embora, Deus retirára a sua graça da casa... Não houvera senão desgostos--o _Communicado_, a dôr de estomago do conego, a morte da entrevadinha, aquelle desgraçado casamento (que estivera por um _triz_, que horror!), o escandalo do largo da Sé... A casa tinha parecido enguiçada!... E era até peccado deixar viver o santinho n'aquelle desarranjo, com a suja da Vicencia, que nem lhe sabia dar uma passagem nas meias!

--Em parte nenhuma póde estar melhor que em tua casa... Tem tudo o que necessita, de portas a dentro... E para ti é uma honra, é estar em graça. Olha, filha, se eu não fosse só, sempre o digo, quem o hospedava era eu! Que aqui é que elle estava bem... Que salinha para elle, hein?

Riam-se-lhe os olhos, contemplando em redor as suas preciosidades.

A sala com effeito era toda ella uma immensa armazenagem de santaria e de _bric-à-brac_ devoto: sobre as duas commodas de pau preto com fechaduras de cobre apinhavam-se, sob redomas, em peanhas, as Nossas Senhoras vestidas de sêda azul, os Meninos Jesus frizados com o ventresinho gordo e a mão abençoadora, os Santo Antonios no seu burel, os S. Sebastiões bem fréchados, os S. Josés barbudos. Havia santos exoticos, que eram o seu orgulho, que lhe fabricavam em Alcobaça--S. Paschoal Baylão, S. Didacio, S. Chrisolo, S. Gorislano... Depois eram os bentinhos, os rosarios de metal e de caroços d'azeitonas, contas de côres, rendas amarellas d'antigas alvas, corações de vidro escarlate, almofadinhas com J. M. entrelaçados a missanga, ramos bentos, palmas de martyres, cartuchinhos d'incenso. As paredes desappareciam forradas de estampas de Virgens de todas as devoções,--equilibradas sobre o orbe, enrodilhadas aos pés da cruz, trespassadas d'espadas. Corações d'onde gotejava sangue, corações d'onde sahia uma fogueira, corações d'onde dardejavam raios: orações encaixilhadas para as festas particularmente amadas--o _Casamento de Nossa Senhora_, a _Invenção da Santa Cruz_, os _Estigmas de S. Francisco_, sobretudo o _Parto da Santa Virgem_, a mais devota, que vem pelas quatro temporas. Sobre as mesas lamparinas accêsas, para serem collocadas sem demora aos santos especiaes, quando a boa senhora tivesse a sua sciatica, ou que o catarrho se assanhasse, ou lhe viessem as caimbras. Ella mesma, só ella, arrumava, espanejava, lustrava toda aquella santa população celeste, aquelle arsenal beato, que era apenas sufficiente para a salvação da sua alma e o allivio dos seus achaques. O seu grande cuidado era a collocação dos santos; alterava-a constantemente, porque ás vezes, por exemplo, sentia que Santo Eleuterio não gostava d'estar ao pé de S. Justino, e ia então pendural-o a distancia, n'uma companhia mais sympathica ao santo. E distinguia-os (segundo os preceitos do ritual que o confessor lhe explicava), dando-lhes uma devoção graduada, e não tendo por S. José de segunda classe o respeito que sentia por S. José de primeira classe. Aquella riqueza era a inveja das amigas, a edificação dos curiosos, e fazia sempre dizer ao Libaninho, quando a vinha visitar, abrangendo a sala n'um olhar langoroso:--Ai, filha, é o reininho dos céos!

--Não é verdade, continuava a excellente senhora radiante, que elle aqui é que estava bem, o santinho do parocho? É como ter o céo debaixo da mão!

As duas senhoras concordaram. Ella podia ter a sua casa arranjada com devoção, ella que era rica...

--Não o nego, tenho aqui empregadinhos alguns centos de mil reis. Sem contar o que está no relicario...

Ah, o famoso relicario de sandalo forrado de setim! Tinha lá uma lascasinha da verdadeira Cruz, um bocado quebrado do espinho da Corôa, um farrapinho do cueiro do Menino Jesus. E murmurava-se com azedume, entre as devotas, que coisas tão preciosas, d'origem divina, deviam estar no sacrario da Sé. D. Maria da Assumpção, temendo que o senhor chantre soubesse d'aquelle thesouro seraphico, só o mostrava ás intimas, mysteriosamente. E o santo sacerdote, que lh'o obtivera, fizera-a jurar sobre o Evangelho de não revelar a procedencia «para evitar fallatorios».

A S. Joanneira, como sempre, admirou sobretudo o farrapinho do cueiro.

--Que reliquia, que reliquia! murmurava.

E D. Maria da Assumpção muito baixo:

--Não ha melhor. Trinta mil reis me custou... Mas dava sessenta, mas dava cem! mas dava tudo!--E babando-se toda, diante do trapinho precioso:--O cueirinho! dizia quasi a chorar. Meu rico Menino, o seu cueirinho...

Deu-lhe um beijo muito repenicado, e foi fechar o relicario no gavetão.

Mas o meio dia ia bater--e as tres senhoras apressaram-se para a Sé, para pilhar logar no altar-mór.

Já no largo encontraram D. Josepha Dias, que se precipitava para a igreja, sôfrega da missa, com o mantelete descahido sobre o hombro e uma pluma do chapéo a despregar-se. Tinha estado toda a manhã n'um phrenesi com a criada! Fôra necessario fazer ella todos os preparos para o jantar... Ai, tinha medo que nem a missinha lhe dêsse virtude, de nervosa que estava...

--Que temos lá o senhor parocho hoje... Vossês sabem que adoeceu a criada... Ah, já me esquecia, o mano quer que tu lá vás jantar tambem, Amelia. Diz que é para haverem duas damas e dois cavalheiros...

Amelia riu d'alegria.

--E tu vai depois buscal-a, S. Joanneira, á noitinha... Credo, vesti-me tanto á pressa, que até parece que me está a cahir o saiote!

Quando as quatro senhoras entraram, a igreja estava já cheia. Era uma missa cantada ao Santissimo. E apesar de contrario ao rigor do ritual, por um costume diocesano (que o bom Silverio, muito estricto na liturgia, nunca cessava de reprovar) havia, estando presente a Eucharistia, musica de rebeca, violoncello e flauta. O altar, muito ornado, com as reliquias expostas, destacava n'uma alvura festiva; docel, frontal, paramentos dos missaes eram brancos, com relevos d'ouro desmaiado; nos vasos erguiam-se ramos pyramidaes de flôres e folhagens brancas; os velludilhos decorativos, dispostos como velarios, punham dos dois lados do tabernaculo a brancura de duas vastas azas desdobradas, lembrando a Pomba Espiritual; e os vinte castiçaes erguiam as suas chammas amarellas em throno até ao sacrario aberto, que mostrava d'alto, engastada n'um rebrilhar d'ouros vivos, a hostia redonda e baça. Por toda a igreja apinhada corria uma susurração lenta; aqui e além um catarrho expectorava, uma criança choramigava; o ar adensava-se já dos halitos juntos e d'um cheiro d'incenso; e do côro, onde as figuras dos musicos se moviam por traz dos braços dos rebecões e das estantes, vinha a cada momento um afinar gemido de rebeca, ou um pio de flautim. As quatro amigas tinham-se apenas accommodado junto do altar-mór, quando os dois acolythos, um têso como um pinheiro, o outro gordalhufo e enxovalhado, entraram do lado da sacristia, sustentando alto e direito nas mãos os dois castiçaes consagrados; atraz o Pimenta vesgo, com uma sobrepelliz muito vasta para elle, lançando os seus sapatões em passadas pomposas, trazia o incensador de prata; depois successivamente, durante o rumor do ajoelhar pela nave e do folhear dos livrinhos, appareceram os dois diaconos; e emfim, paramentado de branco, d'olhos baixos e mãos postas, com aquelle recolhimento humilde que pede o ritual e que exprime a mansidão de Jesus marchando ao Calvario, entrou o padre Amaro--ainda vermelho da questão furiosa que tivera na sacristia, antes de se revestir, por causa da lavagem das alvas.

E o côro immediatamente atacou o _Introito_.

Amelia passou a sua missa embebecida, pasmada para o parocho--que era, como dizia o conego, «um grande artista para missas cantadas»; todo o cabido, todas as senhoras o reconheciam. Que dignidade, que cavalheirismo nas saudações ceremoniosas aos diaconos! Como se prostrava bem diante do altar, aniquilado e escravisado, sentindo-se cinza, sentindo-se pó diante de Deus, que assiste de perto, cercado da sua côrte e da sua familia celeste! Mas era sobretudo admiravel nas bençãos; passava devagar as mãos sobre o altar como para apanhar, recolher a graça que alli cahia do Christo presente, e atirava-a depois com um gesto largo de caridade por toda a nave, por sobre o estendal de lenços brancos de cabeça, até ao fundo onde os homens do campo muito apertados, de varapau na mão, pasmavam para a scintillação do sacrario! Era então que Amelia o amava mais, pensando que aquellas mãos abençoadoras lh'as apertava ella com paixão por baixo da mesa do quino: aquella voz, com que elle lhe chamava _filhinha_, recitava agora as orações ineffaveis, e parecia-lhe melhor que o gemer das rebecas, revolvia-a mais que os graves do orgão! Imaginava com orgulho que todas as senhoras decerto o admiravam tambem; mas só tinha ciumes, um ciume de devota que sente os encantos do céo, quando elle ficava diante do altar, na posição extatica que manda o ritual, tão immovel como se a sua alma se tivesse remontado longe, para as alturas, para o Eterno e para o Insensivel. Preferia-o, por o sentir mais humano e mais accessivel, quando, durante o _Kirie_ ou a leitura da Epistola, elle se sentava com os diaconos no banco de damasco vermelho; ella queria então attrahir-lhe um olhar; mas o senhor parocho permanecia de olhos baixos n'uma compostura modesta.

Amelia, sentada sobre os calcanhares, com a face banhada n'um sorriso, admirava-lhe o perfil, a cabeça bem feita, os paramentos dourados--e lembrava-se quando o vira a primeira vez descendo a escada da rua da Misericordia, com o seu cigarro na mão. Que romance se passára desde essa noite! Recordava o Morenal, o salto do vallado, a scena da morte da titi, aquelle beijo ao pé da lareira... Ai, como acabaria tudo aquillo? Queria então rezar; folheava o livro, mas vinha-lhe á idéa o que o Libaninho n'essa manhã dissera: «o senhor parocho tinha uma pellesinha tão branca como um archanjo...» Devia-a ter decerto muito delicada, muito tenra... Um desejo intenso queimava-a: imaginava que era uma tentadora visitação do demonio,--e para a repellir arregalava os olhos para o sacrario e para o throno que o padre Amaro, cercado dos diaconos, incensava em semi-circulos significando a Eternidade dos Louvores, emquanto o côro berrava o _Offertorio_... Depois elle mesmo, de pé, no segundo degrau do altar, de mãos postas, foi incensado; o Pimenta vesgo fazia ranger galhardamente as correntes de prata do thurifero; um perfume d'incenso derramava-se, como uma annunciação celeste; ennevoava-se o sacrario sob os rolos alvos de fumo; e o parocho apparecia a Amelia transfigurado, quasi divinisado!... Oh, adorava-o então!

A igreja tremia ao clamor do orgão em pleno; de bocas abertas, os coristas solfejavam a toda a força; em cima, alçando-se entre os braços dos rebecões, o mestre da capella, no fogo da execução, brandia desesperadamente a sua batuta feita d'um rolo de canto-chão.

Amelia sahiu da igreja muito fatigada, muito pallida.

Ao jantar, em casa do conego, a snr.^a D. Josepha censurou-a repetidamente de «não dar palavra».

Não fallava, mas debaixo da mesa o seu pésinho não cessava de roçar, pisar o do padre Amaro. Como escurecera cedo tinham accendido as velas; o conego abrira uma garrafa, não do seu famoso _duque_ de 1815, mas do «1847», para acompanhar a travessa d'aletria, que enchia o centro da mesa, com as iniciaes do parocho desenhadas a canella; era, como explicára o conego, «uma galanteria da mana ao convidado». Amaro fizera logo uma saude com o 1847 «á digna dona da casa». Ella resplandecia, medonha no seu vestido de bareje verde. O que sentia é que o jantar fosse tão mau... Que aquella Gertrudes estáva-se a fazer uma desleixada... Ia-lhe deixando esturrar o pato com macarrão!

--Oh, minha senhora, estava delicioso! protestou o parocho.

--São favores do senhor parocho. É porque eu lhe acudi a tempo... Mais uma colhérzinha d'aletria, senhor parocho.

--Nada mais, minha senhora, tenho a minha conta.

--Então para desgastar, vá mais esse copito do 47, disse o conego.

Elle mesmo bebeu pausadamente um bom gole, deu um _ah_ de satisfação, e repoltreando-se:

--Boa gota! Assim póde-se viver!

Estava já rubro, e parecia mais obeso, com o seu grosso jaquetão de flanella e o guardanapo atado ao pescoço.

--Boa gota! repetiu, d'este não provou hoje vossê nas galhetas...

--Credo, mano! exclamou D. Josepha com a boca cheia de fios d'aletria, muito escandalisada da irreverencia.

O conego encolheu os hombros com desprezo.

--O credo é p'r'á missa! Esta pretenção de se metter sempre em questões que não percebe! Pois fique sabendo que é d'uma grande importancia a questão da qualidade do vinho, na missa. É que é necessario que o vinho seja bom...

--Concorre para a dignidade do santo sacrificio, disse o parocho muito sério, fazendo uma caricia de joelho a Amelia.

--E não é só isso, disse o conego tomando logo o tom pedagogo. É que o vinho, quando não é bom e tem ingredientes, deixa um deposito nas galhetas; e, se o sacristão não é cuidadoso e não as limpa, as galhetas ganham um cheiro pessimo. E sabe a senhora o que acontece? Acontece que o sacerdote, quando vai a beber o sangue de Nosso Senhor Jesus Christo, não está prevenido e faz-lhe uma careta. Ora ahi tem a senhora!

E deu um forte chupão ao calix. Mas estava fallador n'essa noite, e depois d'arrotar devagar, interpellou de novo D. Josepha, assombrada de tanta sciencia.

--E diga-me lá então a senhora, já que é tão doutora: o vinho, no divino sacrificio, deve ser branco ou tinto?

D. Josepha parecia-lhe que devia ser tinto, para se parecer mais com o sangue de Nosso Senhor.

--Emende a menina, mugiu o conego de dedo em riste para Amelia.

Ella recusou-se, com um risinho. Como não era sacristão, não sabia...

--Emende o senhor parocho!

Amaro galhofou. Se era erro ser tinto, então devia ser branco...

--E porquê?

Amaro ouvira dizer que era o costume em Roma.

--E porque? continuava o conego, pedante e roncão.

Não sabia.

--Porque Nosso Senhor Jesus Christo, quando pela primeira vez consagrou, fel-o com vinho branco. E a razão é muito simples: é porque na Judéa n'esse tempo, como é notorio, não se fabricava vinho tinto... Repita-me a senhora a aletria, faça favor.

Então, a proposito do vinho e da limpeza das galhetas, o padre Amaro queixou-se do Bento sacristão. N'essa manhã antes de se paramentar--justamente quando entrára o senhor conego na sacristia--acabava de lhe dar uma desanda a respeito das alvas. Em primeiro logar dava-as a lavar a uma Antonia que vivia amancebada com um carpinteiro, em grande escandalo, e que era indigna de tocar os paramentos santos. Esta era a primeira. Depois, a mulher trazia-as tão enxovalhadas que era um desacato usal-as no divino sacrificio...

--Ai, mande-m'as a mim, senhor parocho, mande-m'as a mim, acudiu D. Josepha. Dou-as á minha lavadeira, que é pessoa de muita virtude e traz a roupa escarolada. Ai, até era uma honra para mim! Eu mesmo as passava a ferro, e até se podia benzer o ferro...

Mas o conego (que positivamente estava n'aquella noite d'uma loquacidade copiosa) interrompeu-a, e voltando-se para o padre Amaro, fixando-o profundamente:

--Ora a proposito de eu entrar na sacristia, sempre lhe quero dizer, amigo e collega, que commetteu hoje um erro de palmatoria.

Amaro pareceu inquieto.

--Que erro, padre-mestre?

--Depois de se revestir, continuou o conego pausadamente, já com os diaconos ao lado, quando fez a cortezia á imagem da sacristia, em logar de fazer a cortezia profunda, fez só a meia cortezia.