O crime do padre Amaro, scenas da vida devota

Chapter 20

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E empurrando o batente de baeta que dava accesso para a administração do concelho de Leiria, ficou um momento com a mão no ferrolho, enchendo o vão da porta da pompa da sua pessoa. Não, não havia o apparato judicial que elle concebera. O réo lá estava, sim, pobre João Eduardo, mas sentado á beira do banco, com as orelhas em braza, olhando estupidamente o soalho. Arthur Couceiro, embaraçado com a presença d'aquelle intimo dos serões da S. Joanneira, alli no assento dos presos, para o não olhar fixára o nariz sobre o immenso copiador d'officios, onde desdobrára o _Popular_ da vespera. O amanuense Pires, de sobrancelhas muito erguidas e muito sérias, embebia-se na ponta da penna de pato que aparava sobre a unha. O escrivão Domingos, esse, sim, vibrava d'actividade! O seu lapis rascunhava com furor; o processo estava-se decerto apressando; era tempo de trazer a sua idéa... E o Carlos então adiantando-se:

--Meus senhores! O senhor administrador?

Justamente a voz de sua excellencia chamou de dentro do seu gabinete:

--Ó snr. Domingos?

O escrivão perfilou-se, puxando os oculos para a testa.

--Senhor administrador!

--O senhor tem phosphoros?

O Domingos procurou anciosamente pela algibeira, na gaveta, entre os papeis...

--Algum dos senhores tem phosphoros?

Houve um rebuscar de mãos sobre a mesa... Não, não havia phosphoros.

--Ó snr. Carlos, o senhor tem phosphoros?

--Não tenho, snr. Domingos. Sinto.

O senhor administrador appareceu então, ageitando as suas lunetas de **tartaruga**:

--Ninguem tem phosphoros, hein? É extraordinario que não haja aqui nunca phosphoros! Uma repartição d'estas sem um phosphoro... Que fazem os senhores aos phosphoros? Mande buscar por uma vez meia duzia de caixas!

Os empregados olhavam-se consternados d'essa falta flagrante no material do serviço administrativo. E o Carlos, apoderando-se logo da presença e da attenção de sua excellencia:

--Senhor administrador, eu aqui venho... Aqui venho solicito e espontaneo, por assim dizer...

--Diga-me uma coisa, snr. Carlos, interrompeu a auctoridade. O parocho e o outro ainda estão lá na botica?

--O senhor parocho e o senhor padre Silverio ficaram com minha esposa a repousar da commoção que...

--Tem a bondade de lhes ir dizer que são cá precisos...

--Eu estou á disposição da lei.

--Que venham quanto antes... São cinco horas e meia, queremo-nos ir embora! Vejam que massada tem sido esta aqui, todo o dia! A repartição fecha-se ás tres!

E sua excellencia, rodando sobre os tacões, foi debruçar-se á sacada do seu gabinete--áquella sacada d'onde elle diariamente, das onze ás tres, retorcendo o bigode louro e entesando o plastron azul, depravava a mulher do Telles.

O Carlos abria já o batente verde, quando um _pst_ do Domingos o deteve.

--Ó amigo Carlos--e o sorrisinho do escrivão tinha uma supplicação tocante--desculpe, hein? Mas... Traz-me de lá uma caixita de phosphoros?

N'este momento à porta apparecia o padre Amaro; e por traz a massa enorme do Silverio.

--Eu desejava fallar ao senhor administrador em particular, disse Amaro.

Todos os empregados se ergueram; João Eduardo tambem, branco como a cal do muro. O parocho, com as suas passadas subtis d'ecclesiastico, atravessou a repartição, seguido do bom Silverio que ao passar diante do escrevente descreveu d'esguelha um semi-circulo cauteloso, com terror ao réo; o senhor administrador acudira a receber suas senhorias; e a porta do gabinete fechou-se discretamente.

--Temos composição, rosnou o experiente Domingos, piscando o olho aos collegas.

O Carlos sentára-se descontente. Viera alli para esclarecer a auctoridade sobre os perigos sociaes que ameaçavam Leiria, o Districto e a Sociedade, para ter o seu papel n'aquelle processo, que, segundo elle, era um processo politico--e alli estava calado, esquecido, no mesmo banco ao lado do réo! Nem lhe tinham offerecido uma cadeira! Seria realmente intoleravel que as coisas se arranjassem entre o parocho e o administrador sem o consultarem a elle! Elle, o unico que percebera n'aquelle murro dado no hombro do padre--não o punho do escrevente, mas a mão do Racionalismo! Aquelle desdem pelas suas luzes parecia-lhe um erro funesto na administração do Estado. Positivamente o administrador não tinha a capacidade necessaria para salvar Leiria dos perigos da revolução! Bem se dizia na Arcada--era uma bambocha!

A porta do gabinete entreabriu-se, e as lunetas do administrador reluziram.

--Ó snr. Domingos, faz favor, vem-nos fallar? disse sua excellencia.

O escrivão apressou-se com importancia; e a porta cerrou-se de novo, confidencialmente. Ah! aquella porta, fechada diante d'elle, deixando-o de fóra, indignava o Carlos. Alli ficava, com o Pires, com o Arthur, entre as intelligencias subalternas, elle que promettera á Amparosinho fallar d'alto ao administrador! E quem era ouvido, e quem era chamado? O Domingos, um animal notorio, que começava _satisfação_ com um _c_ cedilhado! Que se podia de resto esperar d'uma auctoridade que passava as manhãs de binoculo a deshonrar uma familia? Pobre Telles, seu visinho, seu amigo!... Não, realmente devia fallar ao Telles!

Mas a sua indignação cresceu quando viu o Arthur Couceiro, um empregado da repartição, na ausencia do seu chefe, erguer-se da sua escrivaninha, vir familiarmente junto do réo, dizer-lhe com melancolia:

--Ah, João, que rapaziada, que rapaziada!... Mas a coisa arranja-se, verás!

João tinha encolhido tristemente os hombros. Havia meia hora que alli estava, sentado á beira d'aquelle banco, sem se mexer, sem despregar os olhos do soalho, sentindo-se interiormente tão vazio de idéas, como se lhe tivessem tirado os miolos. Todo o vinho, que na taberna do Osorio e no largo da Sé lhe accendia na alma fogachos de cólera, lhe retesava os pulsos n'um desejo de desordem, parecia subitamente eliminado do seu organismo. Sentia-se agora tão inoffensivo como quando no cartorio aparava cautelosamente a sua penna de pato. Um grande cansaço entorpecia-o; e alli esperava, sobre o banco, n'uma inercia de todo o seu sêr, pensando estupidamente que ia viver para uma enxovia em S. Francisco, dormir n'uma palhoça, comer da Misericordia... Não tornaria a passear na Alameda, não veria mais Amelia... A casita em que vivia seria alugada a outro... Quem tomaria conta do seu canario? Pobre animalzinho, ia morrer de fome, decerto... A não ser que a Eugenia, a visinha, o recolhesse...

O Domingos de repente sahiu do gabinete de sua excellencia, e fechando vivamente a porta sobre si, em triumpho:

--Que lhes dizia eu? Composição! Arranjou-se tudo!

E para João Eduardo:

--Seu felizão! Parabens! parabens!

O Carlos pensou que era aquelle o maior escandalo administrativo desde o tempo dos Cabraes! E ia retirar-se enojado (como no quadro classico o Stoico que se afasta d'uma orgia patricia) quando o senhor administrador abriu a porta do seu gabinete. Todos se ergueram.

Sua excellencia deu dois passos na repartição, e revestido de gravidade, distillando as palavras, com as lunetas cravadas no réo:

--O senhor padre Amaro, que é um sacerdote todo caridade e bondade, veio-me expôr... Emfim, veio-me supplicar que não désse mais andamento a este negocio... Sua senhoria com razão não quer vêr o seu nome arrastado nos tribunaes. Além d'isso, como sua senhoria disse muito bem, a religião, de que elle é... de que elle é, posso dizel-o, a honra e o modêlo, impõe-lhe o perdão da offensa... Sua senhoria reconhece que o ataque foi brutal, mas frustrado... Além d'isso parece que o senhor estava bebedo...

Todos os olhos se fixaram em João Eduardo, que se fez escarlate. Aquillo pareceu-lhe n'esse momento peor que a prisão.

--Emfim, continuou o administrador, por altas considerações que eu pesei devidamente, tomo a responsabilidade de o soltar. Veja agora como se porta. A auctoridade não o perde d'olho... Bem, póde ir com Deus!

E sua excellencia recolheu-se ao gabinete. João Eduardo ficou immovel, como parvo.

--Posso ir, hein? balbuciou.

--P'r'á China, p'ra onde quizer! _Liberus, libera, liberum!_ exclamou o Domingos que, interiormente detestando padres, jubilava com aquelle final.

João Eduardo olhou um momento em redor os empregados, o carrancudo Carlos; duas lagrimas bailavam-lhe nas palpebras; de repente agarrou o chapéo e abalou.

--Poupa-se um rico trabalhinho! resumiu o Domingos, esfregando vivamente as mãos.

Immediatamente a papelada foi arrumada, aqui e além, á pressa. É que era tarde! O Pires recolhia as suas mangas de lustrina e a sua almofadinha de vento. O Arthur enrolou os seus papeis de musica. E no vão da janella, amuado, esperando ainda, o Carlos olhava sombriamente o largo.

Emfim os dois padres sahiram acompanhados até á porta pelo senhor administrador, que, terminados os deveres publicos, reapparecia homem de sociedade.--Então porque não tinha o amigo Silverio vindo a casa da baroneza de Via-Clara? Houvera um voltarete furibundo. O Peixoto levára dois codilhos. Tinha dito blasphemias medonhas!... Criado de suas senhorias. Estimava bem que tudo se tivesse harmonisado. Cuidado com o degrau... Ás ordens de suas senhorias...

Ao voltar porém ao seu gabinete dignou-se parar diante da mesa do Domingos, e retomando alguma solemnidade:

--A coisa passou-se bem. É um bocado irregular, mas sensata! Bem basta já os ataques que ha contra o clero nos jornaes... A coisa podia fazer barulho. O rapaz era capaz de dizer que tinham sido ciumes do padre, que queria desinquietar a rapariga, etc. É mais prudente abafar a coisa... Quanto mais que, segundo o parocho me provou, toda a influencia que elle tem exercido na rua da Misericordia ou onde diabo é, tem tido por fim livrar a rapariga de casar com aquelle amigo, que, como se vê, é um bebedo e uma fera!

O Carlos roia-se. Todas aquellas explicações eram dadas ao Domingos! A elle, nada! Alli ficava, esquecido no vão da janella!

Mas não! Sua excellencia, de dentro do seu gabinete, chamou-o mysteriosamente com o dedo.

Emfim! Precipitou-se, radiante, subitamente reconciliado com a auctoridade.

--Eu estava para passar pela botica--disse-lhe o administrador baixo e sem transição, dando-lhe um papel dobrado--para que me mandasse isto a casa, hoje. É uma receita do doutor Gouvêa... Mas já que o amigo aqui está...

--Eu tinha vindo para me pôr á disposição da vindicta...

--Isso está acabado! interrompeu vivamente sua excellencia. Não se esqueça, mande-me isso antes das seis. É para tomar ainda esta noite. Adeus. Não se esqueça!

--Não faltarei, disse sêccamente o Carlos.

Ao entrar na botica, a sua cólera flammejava. Ou elle não se chamava Carlos, ou havia de mandar uma correspondencia tremenda ao _Popular_!... Mas a Amparo, que lhe espreitára a volta da varanda, correu, atirando-lhe as perguntas:

--Então? Que se passou? O rapaz foi p'r'á rua? Que disse elle? Como foi?

O Carlos fixava-a, com as pupillas chammejantes.

--Não foi culpa minha, mas triumphou o materialismo! Elles o pagarão!

--Mas tu que disseste?

Então, vendo os olhos da Amparo e os do praticante abertos para devorar a citação do seu depoimento--o Carlos, tendo de resalvar a dignidade de esposo e a superioridade de patrão, disse laconicamente:

--Dei a minha opinião, com firmeza!

--E elle que disse, o administrador?

Foi então que o Carlos, recordando-se, leu a receita que amarrotára na mão. A indignação emmudeceu-o--vendo que era aquelle todo o resultado da sua grande entrevista com a auctoridade!

--Que é? perguntou sôfregamente a Amparo.

O que era? E no seu furor, desdenhando o segredo profissional e o bom renome da auctoridade, o Carlos exclamou:

--É um frasco de xarope de Gibert para o senhor administrador! Ahi tem a receita, snr. Augusto.

A Amparo, que, com alguma pratica de pharmacia, conhecia os beneficios do mercurio, fez-se tão escarlate como as fitas flammejantes que lhe enfeitavam a cuia.

Toda essa tarde se fallou com excitação pela cidade «da tentativa d'assassinato de que estivera para ser victima o senhor parocho». Algumas pessoas censuravam o administrador por não ter procedido: os cavalheiros da opposição sobretudo, que viram na debilidade d'aquelle funccionario uma prova incontestavel de que o governo ia, com os seus desperdicios e as suas corrupções, levando o paiz a um abysmo!

Mas o padre Amaro, esse, era admirado como um santo. Que piedade! que mansidão! O senhor chantre mandou-o chamar á noitinha, recebeu-o paternalmente com um «viva o meu cordeiro paschal»! E depois de escutar a historia do insulto, a generosa intervenção...

--Filho, exclamou, isso é alliar a mocidade de Telemacho á prudencia de Mentor! Padre Amaro, vossê era digno de ser sacerdote de Minerva na cidade de Salento!

Quando Amaro entrou á noite em casa da S. Joanneira--foi como a apparição d'um santo escapo ás feras do Circo ou á plebe de Diocleciano! Amelia, sem disfarçar a sua exaltação, apertou-lhe ambas as mãos, muito tempo, toda tremula, com os olhos humidos. Deram-lhe, como nos grandes dias, a poltrona verde do conego. A snr.^a D. Maria da Assumpção quiz mesmo que se lhe puzesse uma almofada para elle apoiar o hombro dorido. Depois teve de contar miudamente toda a scena, desde o momento em que, conversando com o collega Silverio (que se portára muito bem), avistára o escrevente no meio do largo, de bengalão alçado e ar de matamouros...

Aquelles detalhes indignavam as senhoras. O escrevente apparecia-lhes peor que Longuinhos e que Pilatos. Que malvado! O senhor parocho devia-o ter calcado aos pés! Ah! era d'um santo, ter perdoado!

--Fiz o que me inspirou o coração, disse elle baixando os olhos. Lembrei-me das palavras de Nosso Senhor Jesus Christo: elle manda offerecer a face esquerda depois de se ter sido esbofeteado na face direita...

O conego, a isto, escarrou grosso e observou:

--Eu lhe digo. Eu, se me atirarem um bofetão á face direita... Emfim, são ordens de Nosso Senhor Jesus Christo, offereço a face esquerda. São ordens de cima!... Mas depois de ter cumprido esse dever de sacerdote, oh, senhoras, desanco o patife!

--E doeu-lhe muito, senhor parocho? perguntou do canto uma vozinha expirante e desconhecida.

Acontecimento extraordinario! Era a snr.^a D. Anna Gansoso que fallára depois de dez longos annos de taciturnidade somnolenta! Aquelle torpor que nada sacudira, nem festas, nem lutos, tinha emfim, sob um impulso de sympathia pelo senhor parocho, uma vibração humana!--Todas as senhoras lhe sorriram, agradecidas, e Amaro, lisonjeado, respondeu com bondade:

--Quasi nada, snr.^a D. Anna, quasi nada, minha senhora... Que elle deu de rijo! Mas eu sou de boa carnadura.

--Ai, que monstro! exclamou D. Josepha Dias, furiosa á idéa do punho do escrevente descarregado sobre aquelle hombro santo. Que monstro! Eu queria-o vêr com uma grilheta a trabalhar na estrada! Que eu é que o conhecia! A mim nunca elle me enganou... Sempre lhe achei cara d'assassino!

--Estava embriagado, homens com vinho... arriscou timidamente a S. Joanneira.

Foi um clamor. Ai, que o não desculpasse! Parecia até sacrilegio! Era uma fera, era uma fera!

E a exultação foi grande quando Arthur Couceiro, apparecendo, deu logo da porta a novidade, a ultima: o Nunes mandára chamar o João Eduardo e dissera-lhe (palavras textuaes): «Eu, bandidos e malfeitores não os quero no meu cartorio. Rua!»

A S. Joanneira então commoveu-se:

--Pobre rapaz, fica sem ter que comer...

--Que beba! que beba! gritou a snr.^a D. Maria da Assumpção.

Todos riram. Só Amelia, curvada sobre a sua costura, se fizera muito pallida, aterrada áquella idéa que João Eduardo teria talvez fome...

--Pois olhem, não acho caso para rir! disse a S. Joanneira. É até coisa que me vai tirar o somno... Pensar que o rapaz ha de querer um bocado de pão e não ha de ter... Credo! Não, isso não! E o senhor padre Amaro desculpe...

Mas Amaro tambem não desejava que o rapaz cahisse em miseria! Não era homem de rancor, elle! E se o escrevente viesse á sua porta com necessidade, duas ou tres placas (não era rico, não podia mais), mas tres ou quatro placas dava-lh'as... Dava-lh'as de coração.

Tanta santidade fanatisou as velhas. Que anjo! Olhavam-n'o, babosas, com as mãos vagamente postas. A sua presença, como a d'um S. Vicente de Paulo, exhalando caridade, dava á sala uma suavidade de capella: e a snr.^a D. Maria da Assumpção suspirou de gozo devoto.

Mas Natario appareceu, radiante. Deu grandes apertos de mãos em redor, rompeu em triumpho:

--Então já sabem? O **patife**, o assassino, escorraçado de toda a parte como um cão! O Nunes expulsou-o do cartorio. O doutor Godinho disse-me agora que no governo civil não punha elle os pés. Enterrado, demolido! É um allivio p'r'á gente de bem!

--E ao senhor padre Natario se deve! exclamou D. Josepha Dias.

Todos o reconheciam. Fôra elle, com a sua habilidade, a sua labia, que descobrira a perfidia de João Eduardo, salvára a Ameliasinha, Leiria, a Sociedade.

--E em tudo o que pretender, o maroto, ha de me encontrar pela frente. Emquanto elle estiver em Leiria não o largo! Que lhes disse eu, minhas senhoras?... «Eu é que o esmago!» Pois ahi o têm esmagado!

A sua face biliosa resplandecia. Estirou-se na poltrona, regaladamente, no repouso merecido de uma victoria difficil. E voltando-se para Amelia:

--E agora, o que lá vai, lá vai! Livrou-se de uma fera, é o que lhe posso dizer!

Então os louvores--que já lhe tinham repetido prolixamente desde que ella rompera com a fera--recomeçaram, mais vivos:

--Foi a coisa de mais virtude que tens feito em toda a tua vida!

--É a graça de Deus que te tocou!

--Estás em graça, filha!

--Emfim é Santa Amelia, disse o conego erguendo-se, enfastiado d'aquellas glorificações. Pois parece-me que temos fallado bastante do patife... Mande agora a senhora vir o chá, hein?

Amelia permanecia calada, cosendo á pressa; erguia ás vezes rapidamente para Amaro um olhar desassocegado; pensava em João Eduardo, nas ameaças de Natario; e imaginava o escrevente com as faces encovadas de fome, foragido, dormindo pelas portas dos casaes... E emquanto as senhoras se accommodavam, palrando, á mesa do chá, ella pôde dizer baixo a Amaro:

--Não posso socegar com a idéa que o rapaz soffra necessidades... Eu bem sei que é um malvado, mas... É como um espinho cá por dentro. Tira-me toda a alegria.

O padre Amaro disse-lhe então, com muita bondade, mostrando-se superior á injuria, n'um alto espirito de caridade christã:

--Minha rica filha, são tolices... O homem não morre de fome. Ninguem morre de fome em Portugal. É novo, tem saude, não é tolo, ha de se arranjar... Não pense n'isso... Aquillo é palavriado do padre Natario... O rapaz naturalmente sae de Leiria, não tornamos a ouvir fallar d'elle... E em toda a parte ha de ganhar a vida... Eu por mim perdoei-lhe, e Deus ha de tomar isso em conta.

Estas palavras tão generosas, ditas baixo, com um olhar amante, tranquillisaram-na inteiramente. A clemencia, a caridade do senhor parocho pareceram-lhe melhores que tudo o que ouvira ou lera de santos e de monges piedosos.

Depois do chá, ao quino, ficou junto d'elle. Uma alegria plena e suave penetrava-a deliciosamente. Tudo o que até ahi a importunára e a assustára, João Eduardo, o casamento, os deveres, desapparecera emfim da sua vida: o rapaz iria para longe, empregar-se--e o senhor parocho alli estava, todo d'ella, todo apaixonado! Por vezes, por baixo da mesa, os seus joelhos tocavam-se, a tremer: n'um momento em que todos faziam um alarido indignado contra Arthur Couceiro que pela terceira vez quinára e brandia o cartão triumphante, foram as mãos que se encontraram, se acariciaram; um pequeno suspiro simultaneo, perdido na gralhada das velhas, ergueu o peito d'ambos; e até ao fim da noite foram marcando os seus cartões, muito calados, com as faces accêsas, sob a pressão brutal do mesmo desejo.

Emquanto as senhoras se agasalhavam, Amelia aproximou-se do piano para correr uma escala, e Amaro pôde murmurar-lhe ao ouvido:

--Oh, filhinha, que te quero tanto! E não podermos estar sós...

Ella ia responder--quando a voz de Natario, que se embrulhava no seu capote ao pé do aparador, exclamou, muito severa:

--Então as senhoras deixam andar por aqui semelhante livro?

Todos se voltaram, na surpreza que dava aquella indignação, a olhar o largo volume encadernado que Natario indicava com a ponta do guardachuva, como um objecto abominavel. D. Maria da Assumpção aproximou-se logo d'olho reluzente, imaginando que seria alguma d'essas novellas, tão famosas, em que se passam coisas immoraes. E Amelia chegando-se tambem, disse, admirada de tal reprovação:

--Mas é o _Panorama_... É um volume do _Panorama_...

--Que é o _Panorama_ vejo eu, disse Natario com seccura. Mas tambem vejo isto.--Abriu o volume na primeira pagina branca, e leu alto:--«_Pertence-me este volume a mim, João Eduardo Barbosa, e serve-me de recreio nos meus ocios_.» Não comprehendem, hein? Pois é muito simples... Parece incrivel que as senhoras não saibam que esse homem, desde que poz as mãos n'um sacerdote, está _ipso facto_ excommungado, e excommungados todos os objectos que lhe pertencem!

Todas as senhoras, instinctivamente, afastaram-se do aparador onde jazia aberto o _Panorama_ fatal, arrebanhando-se, n'um arripiamento de medo, áquella idéa da Excommunhão que se lhes representava como um desabamento de catastrophes, um aguaceiro de raios despedidos das mãos do Deus Vingador: e alli ficaram mudas, n'um semi-circulo apavorado, em torno de Natario, que, de capotão pelos hombros e braços cruzados, gozava o effeito da sua revelação.

Então a S. Joanneira, no seu assombro, arriscou-se a perguntar:

--O senhor padre Natario está a fallar sério?

Natario indignou-se:

--Se estou a fallar sério!? Essa é forte! Pois eu havia de gracejar sobre um caso d'excommunhão, minha senhora? Pergunte ahi ao senhor conego se eu estou a gracejar!

Todos os olhos se voltaram para o conego, essa inesgotavel fonte de saber ecclesiastico.

Elle então, tomando logo o ar pedagogico que lhe voltava dos seus antigos habitos do seminario sempre que se tratava de doutrina, declarou que o collega Natario tinha razão. Quem espanca um sacerdote, sabendo que é um sacerdote, está _ipso facto_ excommungado. É doutrina assente. É o que se chama a excommunhão latente; não necessita a declaração do pontifice ou do bispo, nem o ceremonial, para ser valida, e para que todos os fieis considerem o offensor como excommungado. Devem-no tratar portanto como tal... Evital-o a elle, e ao que lhe pertence... E este caso de pôr mãos sacrilegas n'um sacerdote era tão especial, continuava o conego n'um tom profundo, que a bulla do Papa Martinho V, limitando os casos de excommunhão tacita, conserva-a todavia para o que maltrata um sacerdote...--Citou ainda mais bullas, as Constituições de Innocencio IX e de Alexandre VII, a Constituição Apostolica, outras legislações temerosas; rosnou latins, aterrou as senhoras.

--Esta é a doutrina, concluiu dizendo; mas a mim parece-me melhor não se fazer d'isso espalhafato...

D. Josepha Dias acudiu logo:

--Mas nós é que não podemos arriscar a nossa alma a encontrar aqui por cima das mesas coisas excommungadas.

--É destruir! exclamou D. Maria da Assumpção. É queimar! é queimar!

D. Joaquina Gansoso arrastára Amelia para o vão da janella, perguntando-lhe se tinha outros objectos pertencentes ao homem. Amelia, atarantada, confessou que tinha algures, não sabia onde, um lenço, uma luva desirmanada, e uma cigarreira de palhinha.

--É para o fogo, é para o fogo! gritava a Gansoso excitada.