O crime do padre Amaro, scenas da vida devota

Chapter 2

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O conego Dias ia explicando pachorrentamente ao parocho «o que lhe arranjára». Não lhe tinha procurado casa: seria necessario comprar mobilia, buscar criada, despezas innumeraveis! Parecera-lhe melhor tomar-lhe quartos n'uma casa de hospedes respeitavel, de muito conchego--e n'essas condições (e alli estava o amigo coadjutor que o podia dizer), não havia como a da S. Joanneira. Era bem arejada, muito aceio, a cozinha não deitava cheiro; tinha lá estado o secretario geral e o inspector dos estudos; e a S. Joanneira (o Mendes amigo conhecia-a bem) era uma mulher temente a Deus, de boas contas, muito economica e cheia de condescendencias...

--Vossê está alli como em sua casa! Tem o seu _cozido_, prato de meio, café...

--Vamos a saber, Padre-Mestre: preço? disse o parocho.

--Seis tostões. Que diabo, é de graça! Tem um quarto, tem uma saleta...

--Uma rica saleta, commentou o coadjutor respeitosamente.

--E é longe da Sé? perguntou Amaro.

--Dois passos. Póde-se ir dizer missa de chinelos. Na casa ha uma rapariga, continuou com a sua voz pausada o conego Dias. É a filha da S. Joanneira. Rapariga de vinte e dois annos. Bonita. Sua pontinha de genio, mas bom fundo... Aqui tem vôsse a sua rua.

Era estreita, de casas baixas e pobres, esmagada pelas altas paredes da velha Misericordia, com um lampeão lugubre ao fundo.

--E aqui tem vossê o seu palacio! disse o conego, batendo na aldraba de uma porta esguia.

No primeiro andar duas varandas de ferro, de aspecto antigo, faziam saliencia, com os seus arbustos de alecrim, que se arredondavam aos cantos em caixas de madeira; as janellas de cima, pequeninas, eram de peitoril; e a parede, pelas suas irregularidades, fazia lembrar uma lata amolgada.

A S. Joanneira esperava no alto da escada; uma criada, enfezada e sardenta, alumiava com um candieiro de petroleo; e a figura da S. Joanneira destacava plenamente na luz sobre a parede caiada. Era gorda, alta, muito branca, d'aspecto pachorrento. Os seus olhos pretos tinham já em redor a pelle engelhada; os cabellos arripiados, com um enfeite escarlate, eram já raros aos cantos da testa e no começo da risca; mas percebiam-se uns braços rechonchudos, um collo copioso e roupas aceadas.

--Aqui tem a senhora o seu hospede, disse o conego subindo.

--Muita honra em receber o senhor parocho! muita honra! Ha de vir muito cansado! por força! Para aqui, tem a bondade? Cuidado com o degrausinho.

Levou-o para uma sala pequena pintada de amarello, com um vasto canapé de palhinha encostado à parede, e defronte, aberta, uma mesa forrada de baeta verde.

--É a sua sala, senhor parocho, disse a S. Joanneira. Para receber, para espairecer... Aqui--acrescentou abrindo uma porta--é o seu quarto de dormir. Tem a sua commoda, o seu guarda-roupa...--Abriu os gavetões, gabou a cama batendo a elasticidade dos colxões--Uma campainha para chamar sempre que queira... As chavinhas da commoda estão aqui... Se gosta de travesseirinho mais alto... Tem um cobertor só, mas querendo...

--Está bem, está tudo muito bem, minha senhora, disse o parocho com a sua voz baixa e suave.

--É pedir! O que ha, da melhor vontade...

--Oh creatura de Deus! interrompeu o conego jovialmente, o que elle quer agora é cear!

--Tambem tem a ceiasinha prompta. Desde as seis que está o caldo a apurar...

E sahiu, para apressar a criada, dizendo logo do fundo da escada:

--Vá, _Ruça_, mexe-te, mexe-te!...

O conego sentou-se pesadamente no canapé, e sorvendo a sua pitada:

--É contentar, meu rico. Foi o que se pôde arranjar.

--Eu estou bem em toda a parte, Padre-Mestre, disse o parocho, calçando os seus chinelos de ourelo. Olha o seminario!... E em Feirão! Cahia-me a chuva na cama.

Para o lado da Praça, então, sentiu-se o toque de cornetas.

--Que é aquillo? perguntou Amaro, indo á janella.

--Ás nove e meia, o toque de recolher.

Amaro abriu a vidraça. Ao fim da rua um candieiro esmorecia. A noite estava muito negra. E havia sobre a cidade um silencio concavo, de abobada.

Depois das cornetas, um rufar lento de tambores afastou-se para o lado do quartel; por baixo da janella um soldado, que se demorára n'alguma viella do castello, passou correndo; e das paredes da Misericordia sahia constantemente o agudo piar das corujas.

--É triste isto, disse Amaro.

Mas a S. Joanneira gritou de cima:

--Póde subir, senhor conego! Está o caldo na mesa!

--Ora vá, vá, que vossê deve estar a cahir de fome, Amaro!--disse o conego, erguendo-se muito pesado.

E detendo um momento o parocho pela manga do casaco:

--Vai vossê vêr o que é um caldo de gallinha feito cá pela senhora! Da gente se babar!...

No meio da sala de jantar, forrada de papel escuro, a claridade da mesa alegrava, com a sua toalha muito branca, a louça, os copos reluzindo á luz forte d'um candieiro d'_abat-jour_ verde. Da terrina subia o vapor cheiroso do caldo, e na larga travessa a gallinha gorda, afogada n'um arroz humido e branco, rodeada de nacos de bom paio, tinha uma apparencia succulenta de prato morgado. No armario envidraçado, um pouco na sombra, viam-se côres claras de porcelana; a um canto, ao pé da janella, estava o piano, coberto com uma colcha de setim desbotado. Na cozinha frigia-se; e sentindo o cheiro fresco que vinha d'um taboleiro de roupa lavada, o parocho esfregou as mãos, regalado.

--Para aqui, senhor parocho, para aqui, disse a S. Joanneira. D'ahi póde-lhe vir frio.--Foi fechar as portadas das janellas; chegou-lhe um caixão de areia para as pontas dos cigarros.--E o senhor conego toma um copinho de geleia, sim?

--Vá lá, para fazer companhia, disse jovialmente o conego, sentando-se e desdobrando o guardanapo.

A S. Joanneira, no emtanto, mexendo-se pela sala, ia admirando o parocho que, com a cabeça sobre o prato, comia em silencio o seu caldo, soprando a colhér. Parecia bem feito: tinha um cabello muito preto, levemente annelado. O rosto era oval, de pelle trigueira e fina, os olhos negros e grandes, com pestanas compridas.

O conego, que não o via desde o seminario, achava-o mais forte, mais viril.

--Vossê era enfezadito...

--Foi o ar da serra, dizia o parocho, fez-me bem.--Contou então a sua triste existencia em Feirão, na alta Beira, durante a aspereza do inverno, só, com pastores. O conego deitava-lhe o vinho de alto, fazendo-o espumar.

--Pois é beber-lhe, homem! é beber-lhe! D'esta gota não pilhava vossê no seminario.

Fallaram do seminario.

--Que será feito do Rabicho, o despenseiro? disse o conego.

--E do Carôcho, que roubava as batatas?

Riram; e bebendo, na alegria das reminiscencias, recordavam as historias de então, o catarrho do reitor, e o mestre de canto-chão que deixára um dia cahir do bolso as poesias obscenas de Bocage.

--Como o tempo passa, como o tempo passa! diziam.

A S. Joanneira então poz na mesa um prato covo com maçãs assadas.

--Viva! Não, lá n'isso tambem eu entro! exclamou logo o conego. A bella maçã assada! nunca me escapa! Grande dona de casa, meu amigo, rica dona de casa, cá a nossa S. Joanneira! Grande dona de casa!

Ella ria; viam-se os seus dois dentes de diante, grandes e chumbados. Foi buscar uma garrafa de vinho do Porto; poz no prato do conego, com requintes devotos, uma maçã desfeita polvilhada de assucar; e batendo-lhe nas costas com a mão papuda e molle:

--Isto é um santo, senhor parocho, isto é um santo! Ai, devo-lhe muitos favores!

--Deixe fallar, deixe fallar..., dizia o conego.--Espalhava-se-lhe no rosto um contentamento baboso.--Boa gota! acrescentou, saboreando o seu calix de _porto_. Boa gota!

--Olhe que ainda é dos annos da Amelia, senhor conego.

--E onde está ella, a pequena?

--Foi ao _Morenal_ com a D. Maria. Aquillo naturalmente foram para casa das Gansosos passar a noite.

--Cá esta senhora é proprietaria, explicou o conego, fallando do _Morenal_. É um condado!--Ria com bonhomia, e os seus olhos luzidios percorriam ternamente a corpulencia da S. Joanneira.

--Ah, senhor parocho, deixe fallar, é uma nesga de terra..., disse ella.

Mas vendo a criada encostada á parede, sacudida com afflicções de tosse:

--Ó mulher, vai tossir lá p'ra dentro! credo!

A moça sahiu, pondo o avental sobre a boca.

--Parece doente, coitada, observou o parocho.

Muito achacada, muito!... A _pobre de Christo_ era sua afilhada, orphã, e estava quasi tisica. Tinha-a tomado por piedade...

--E tambem porque a criada que cá tinha foi para o hospital, a desavergonhada... Metteu-se ahi com um soldado!...

O padre Amaro baixou devagar os olhos--e trincando migalhas perguntou se havia muitas doenças n'aquelle verão.

--Cholerinas, das fructas verdes, rosnou o conego. Mettem-se pelas melancias, depois tarraçadas de agua... E suas febritas...

Fallaram então das sezões do campo, dos ares de Leiria.

--Que eu agora, dizia o padre Amaro, ando mais forte. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo, tenho saude, tenho!

--Ai, Nosso Senhor lh'a conserve, que nem sabe o bem que é! exclamou a S. Joanneira.--Contou immediatamente a grande desgraça que tinha em casa, uma irmã meia idiota entrevada havia dez annos! Ia fazer sessenta annos... No inverno viera-lhe um catarrho, e desde então, coitadinha, definhava, definhava...

--Ha bocado, ao fim da tarde, teve ella um ataque de tosse! Pensei que se ia embora. Agora descansou mais...

Continuou a fallar «d'aquella tristeza», depois da sua Ameliasinha, das Gansosos, do antigo chantre, da carestia de tudo--sentada, com o gato no collo, rolando com os dois dedos, monotonamente, bolinhas de pão. O conego, pesado, cerrava as palpebras; tudo na sala parecia ir gradualmente adormecendo; a luz do candieiro esmorecia.

--Pois senhores, disse por fim o conego mexendo-se, isto são horas!

O padre Amaro ergueu-se, e com os olhos baixos deu as _graças_.

--O senhor parocho quer lamparina? perguntou cuidadosamente a S. Joanneira.

--Não, minha senhora. Não uso. Boas noites!

E desceu devagar, palitando os dentes.

A S. Joanneira alumiava no patamar, com o candieiro. Mas nos primeiros degraus o parocho parou, e voltando-se, affectuosamente:

--É verdade, minha senhora, ámanhã é sexta-feira, é jejum...

--Não, não, acudiu o conego que se embrulhava na capa de lustrina, bocejando, vossê ámanhã janta commigo. Eu venho por cá, vamos ao chantre, á Sé, e por ahi... E olhe que tenho lulas. É um milagre, que isto aqui nunca ha peixe.

A S. Joanneira tranquillisou logo o parocho:

--Ai, é escusado lembrar os jejuns, senhor parocho. Tenho o maior escrupulo!

--Eu dizia, explicou o parocho, porque infelizmente hoje em dia ninguem cumpre...

--Tem vossa senhoria muita razão, atalhou ella. Mas eu! credo!... A salvação da minha alma antes de tudo!

A campainha em baixo, então, retiniu fortemente.

--Ha de ser a pequena, disse a S. Joanneira. Abre, _Ruça_!

A porta bateu, sentiram-se vozes, risinhos.

-És tu, Amelia?

Uma voz disse _adeusinho! adeusinho!_ E appareceu, subindo quasi a correr, com os vestidos um pouco apanhados adiante, uma bella rapariga, forte, alta, bem feita, com uma manta branca pela cabeça e na mão um ramo de alecrim.

--Sobe, filha. Aqui está o senhor parocho. Chegou agora á noitinha, sobe!

Amelia tinha parado um pouco embaraçada, olhando para os degraus de cima, onde o parocho ficára, encostado ao corrimão. Respirava fortemente de ter corrido; vinha córada; os seus olhos vivos e negros luziam; e sahia d'ella uma sensação de frescura e de prados atravessados.

O parocho desceu, cingido ao corrimão, para a deixar passar, murmurando _boas noites!_ com a cabeça baixa. O conego, que descia atraz, pesadamente, tomou o meio da escada, diante de Amelia:

--Então isto são horas, sua bréjeira!

Ella teve um risinho, encolheu-se.

--Ora vá-se encommendar a Deus, vá! disse batendo-lhe no rosto devagarinho com a sua mão grossa e cabelluda.

Ella subiu a correr, emquanto o conego, depois d'ir buscar o guardasol á saleta, sahia, dizendo á criada, que erguia o candieiro sobre a escada:

--Está bom, eu vejo, não apanhes frio, rapariga. Então ás oito, Amaro! Esteja a pé! Vai-te, rapariga, adeus! Reza á Senhora da Piedade que te seque essa catarrheira.

O parocho fechou a porta do quarto. A roupa da cama entreaberta, alva, tinha um bom cheiro de linho lavado. Por cima da cabeceira pendia a gravura antiga d'um Christo crucificado. Amaro abriu o seu Breviario, ajoelhou aos pés da cama, persignou-se; mas estava fatigado, vinham-lhe grandes bocejos; e então por cima, sobre o tecto, através das orações rituaes que machinalmente ia lendo, começou a sentir o _tic-tic_ das botinas de Amelia e o ruido das saias engommadas que ella sacudia ao despir-se.

III

Amaro Vieira nascera em Lisboa em casa da senhora marqueza d'Alegros. Seu pai era criado do marquez; a mãi era criada de quarto, quasi uma amiga da senhora marqueza. Amaro conservava ainda um livro, o _Menino das selvas_, com barbaras imagens coloridas, que tinha escripto na primeira pagina branca: _Á minha muito estimada criada Joanna Vieira e verdadeira amiga que sempre tem sido,--Marqueza d'Alegros_. Possuia tambem um daguerreotypo de sua mãi: era uma mulher forte, de sobrancelhas cerradas, a boca larga e sensualmente fendida, e uma côr ardente. O pai de Amaro tinha morrido de apoplexia; e a mãi, que fôra sempre tão sã, succumbiu, d'ahi a um anno, a uma tisica de larynge. Amaro completára então seis annos. Tinha uma irmã mais velha que desde pequena vivia com a avó em Coimbra, e um tio, mercieiro abastado do bairro da Estrella. Mas a senhora marqueza ganhára amizade a Amaro; conservou-o em sua casa, por uma adopção tacita; e começou, com grandes escrupulos, a vigiar a sua educação.

A marqueza d'Alegros ficára viuva aos quarenta e tres annos e passava a maior parte do anno retirada na sua quinta de Carcavellos. Era uma pessoa passiva, de bondade indolente, com capella em casa, um respeito devoto pelos padres de S. Luiz, sempre preoccupada dos interesses da Igreja. As suas duas filhas, educadas no receio do Céo e nas preoccupações da Moda, eram beatas e faziam o _chic_ fallando com igual fervor da humildade christã e do ultimo figurino de Bruxellas. Um jornalista de então dissera d'ellas:--Pensam todos os dias na _toilette_ com que hão de entrar no paraiso.

No isolamento de Carcavellos, n'aquella quinta de alamedas aristocraticas onde os pavões gritavam, as duas meninas enfastiavam-se. A Religião, a Caridade eram então occupações avidamente aproveitadas: cosiam vestidos para os pobres da freguezia, bordavam frontaes para os altares da igreja. De maio a outubro estavam inteiramente absorvidas pelo trabalho de _salvar a sua alma_; liam os livros beatos e dôces; como não tinham S. Carlos, as visitas, a Aline, recebiam os padres e cochichavam sobre a virtude dos santos. Deus era o seu luxo de verão.

A senhora marqueza resolvera desde logo fazer entrar Amaro na vida ecclesiastica. A sua figura amarellada e magrita pedia aquelle destino recolhido: era já affeiçoado ás coisas de capella, e o seu encanto era estar aninhado ao pé de mulheres, no calor das saias unidas, ouvindo fallar de santas. A senhora marqueza não o quiz mandar ao collegio porque receava a impiedade dos tempos e as camaradagens immoraes. O capellão da casa ensinava-lhe o latim, e a filha mais velha, a snr.^a D. Luiza, que tinha um nariz de cavallete e lia Chateaubriand, dava-lhe lições de francez e de geographia.

Amaro era, como diziam os criados, _um mosquinha morta_. Nunca brincava, nunca pulava ao sol. Se á tarde acompanhava a senhora marqueza ás alamedas da quinta quando ella descia pelo braço do padre Liset ou do respeitoso procurador Freitas, ia a seu lado, môno, muito encolhido, torcendo com as mãos humidas o forro das algibeiras--vagamente assustado das espessuras d'arvoredos e do vigor das relvas altas.

Tornou-se muito medroso. Dormia com lamparina, ao pé d'uma ama velha. As criadas de resto feminisavam-no; achavam-no bonito, aninhavam-no no meio d'ellas, beijocavam-no, faziam-lhe cocegas, e elle rolava por entre as saias, em contacto com os corpos, com gritinhos de contentamento. Ás vezes, quando a senhora marqueza sahia, vestiam-no de mulher, entre grandes risadas: elle abandonava-se, meio nú, com os seus modos languidos, os olhos quebrados, uma roseta escarlate nas faces. As criadas, além d'isso, utilisavam-no nas suas intrigas umas com as outras: era Amaro o que _fazia as queixas_. Tornou-se enredador, muito mentiroso.

Aos onze annos, ajudava á missa, e aos sabbados limpava a capella. Era o seu melhor dia; fechava-se por dentro, collocava os santos em plena luz em cima d'uma mesa, beijando-os com ternuras devotas e satisfações gulosas; e toda a manhã, muito atarefado, cantarolando o Santissimo, ia tirando a traça dos vestidos das Virgens e limpando com gesso e cré as auréolas dos Martyres.

No emtanto crescia; o seu aspecto era o mesmo, miudo e amarellado; nunca dava uma boa risada, trazia sempre as mãos dos bolsos. Estava constantemente mettido nos quartos das criadas, remexendo as gavetas; bolia nas saias sujas, cheirava os algodões postiços. Era extremamente preguiçoso, e custava de manhã arrancal-o a uma somnolencia doentia em que ficava amollecido, todo embrulhado nos cobertores e abraçado ao travesseiro. Já corcovava um pouco, e os criados chamavam-lhe o padreca.

N'um domingo gordo, uma manhã, depois da missa, ao chegar-se ao terraço, a senhora marqueza de repente cahiu morta com uma apoplexia. Deixava no seu testamento um legado para que Amaro, o filho da sua criada Joanna, entrasse aos quinze annos no seminario e se ordenasse. O padre Liset ficava encarregado de realisar esta disposição piedosa. Amaro tinha então treze annos.

As filhas da senhora marqueza deixaram logo Carcavellos e foram para Lisboa, para casa da snr.^a D. Barbara de Noronha, sua tia paterna. Amaro foi mandado para casa do tio, para a Estrella. O mercieiro era um homem obeso, casado com a filha d'um pobre empregado publico, que o aceitára para sahir da casa do pai, onde a mesa era escassa, ella devia fazer as camas e nunca ia ao theatro. Mas odiava o marido, as suas mãos cabelludas, a loja, o bairro e o seu apellido de snr.^a Gonçalves. O marido esse adorava-a como a delicia da sua vida, o seu luxo; carregava-a de joias e chamava-lhe _a sua duqueza_.

Amaro não encontrou alli o elemento feminino e carinhoso em que estivera tepidamente envolvido em Carcavellos. A tia quasi não reparava n'elle; passava os seus dias lendo romances, as analyses dos theatros nos jornaes, vestida de sêda, coberta de pó d'arroz, o cabello em cachos, esperando a hora em que passava debaixo das janellas, puxando os punhos, o Cardoso, galan da Trindade. O mercieiro apropriou-se então de Amaro como d'uma utilidade imprevista, mandou-o para o balcão. Fazia-o erguer logo ás cinco horas da manhã; e o rapaz tremia na sua jaqueta de pano azul, molhando á pressa o pão na chavena de café, ao canto da mesa da cozinha. De resto detestavam-no; a tia chamava-lhe o _cebola_ e o tio chamava-lhe o _burro_. Pesava-lhes até o magro pedaço de vacca que elle comia ao jantar. Amaro emmagrecia e todas as noites chorava.

Sabia já que aos quinze annos devia entrar no seminario. O tio todos os dias lh'o lembrava:

--Não penses que ficas aqui toda a vida na vadiagem, burro! Em tendo quinze annos é para o seminario. Não tenho obrigação de carregar comtigo! Besta na argola, não está nos meus principios!

E o rapaz desejava o seminario, como um libertamento.

Nunca ninguem consultára as suas tendencias ou a sua vocação. Impunham-lhe uma sobrepelliz; a sua natureza passiva, facilmente dominavel, aceitava-a, como aceitaria uma farda. De resto não lhe desagradava _ser padre_. Desde que sahira das rezas perpetuas de Carcavellos conservára o seu medo do inferno, mas perdera o fervor dos santos; lembravam-lhe porém os padres que vira em casa da senhora marqueza, pessoas brancas e bem tratadas que comiam ao lado das fidalgas e tomavam rapé em caixas d'ouro; e convinha-lhe aquella profissão em que se falla baixo com as mulheres,--vivendo entre ellas, cochichando, sentindo-lhes o calor penetrante,--e se recebem presentes em bandejas de prata. Recordava o padre Liset com um annel de rubi no dedo minimo; monsenhor Sávedra com os seus bellos oculos d'ouro, bebendo aos goles o seu copo de _madeira_. As filhas da senhora marqueza bordavam-lhes chinelas. Um dia tinha visto um bispo que fôra padre na Bahia, viajára, estivera em Roma, era muito jovial; e na sala, com as suas mãos ungidas que cheiravam a agua de colonia apoiadas ao castão d'ouro da bengala, todo rodeado de senhoras em extase e cheias d'um riso beato, cantava, para as entreter, com a sua bella voz:

Mulatinha da Bahia, Nascida no Capujá...

Um anno antes de entrar para o seminario o tio fel-o ir a um mestre para se affirmar mais no latim, e dispensou-o de estar ao balcão. Pela primeira vez na sua existencia Amaro possuiu liberdade. Ia só á escóla, passeava pelas ruas. Viu a cidade, o exercicio de infanteria, espreitou ás portas dos cafés, leu os cartazes dos theatros. Sobretudo começára a reparar muito nas mulheres--e vinham-lhe, de tudo o que via, grandes melancolias. A sua hora triste era ao anoitecer, quando voltava da escóla, ou aos domingos depois de ter ido passear com o caixeiro ao jardim da Estrella. O seu quarto ficava em cima, na trapeira, com uma janellinha n'um vão sobre os telhados. Encostava-se alli olhando, e via parte da cidade baixa que a pouco e pouco se alumiava de pontos de gaz: parecia-lhe perceber, vindo de lá, um rumor indefinido: era a vida que não conhecia e que julgava maravilhosa, com cafés abrazados de luz e mulheres que arrastam ruge-ruges de sêdas pelos perystillos dos theatros; perdia-se em imaginações vagas, e de repente appareciam-lhe no fundo negro da noite fórmas femininas, por fragmentos, uma perna com botinas de duraque e a meia muito branca, ou um braço roliço arregaçado até ao hombro... Mas em baixo, na cozinha, a criada começava a lavar a louça, cantando: era uma rapariga gorda, muito sardenta; e vinham-lhe então desejos de descer, ir roçar-se por ella, ou estar a um canto a vêl-a escaldar os pratos; lembravam-lhe outras mulheres que vira nas viellas, de saias engommadas e ruidosas, passeando em cabello, com botinas cambadas: e, da profundidade do seu sêr, subia-lhe uma preguiça, como que a vontade de abraçar alguem, de não se sentir só. Julgava-se infeliz, pensava em matar-se. Mas o tio chamava-o de baixo:

--Então tu não estudas, mariola?

E d'ahi a pouco, sobre o _Tito-Livio_, cabeceando de somno, sentindo-se desgraçado, roçando os joelhos um contra o outro, torturava o diccionario.

Por esse tempo começava a sentir um certo afastamento pela vida de padre, _porque não poderia casar_. Já as convivencias da escóla tinham introduzido na sua natureza effeminada curiosidades, corrupções. Ás escondidas fumava cigarros: emmagrecia e andava mais amarello.