O crime do padre Amaro, scenas da vida devota
Chapter 19
Olhava agora João Eduardo com respeito, aquelle João Eduardo que se lhe revelava inesperadamente um paladino do livre-pensamento.
--Bebe, amigo, bebe!--dizia-lhe, enchendo-lhe o copo com affecto, como se aquelle esforço heroico de liberalismo necessitasse ainda, depois de tantos dias, reconfortos excepcionaes.
E que se tinha passado? Que tinha dito a gente da rua da Misericordia?
Tanto interesse commoveu João Eduardo: e d'um fôlego fez a sua confidencia. Mostrou-lhe mesmo a carta d'Amelia que ella decerto, coitada, fôra levada a escrever n'um terror do inferno, sob a pressão dos padres furiosos...
--E aqui tens a victima que eu sou, Gustavo!
Era-o com effeito; e o typographo considerava-o com uma admiração crescente. Já não era o _Pacatinho_, o escrevente do Nunes, o chichisbéo da rua da Misericordia--era uma _victima das perseguições religiosas_. Era a primeira que o typographo via; e, apesar de não lhe apparecer na attitude tradicional das estampas de propaganda, amarrado a um poste de fogueira ou fugindo com a familia espavorida a soldados que galopam da sombra do ultimo plano, achava-o interessante. Invejava-lhe secretamente aquella honra social. Que _chic_ que lhe daria a elle entre a rapaziada d'Alcantara! Famosa pechincha, ser uma _victima da reacção_ sem perder o conforto das iscas do tio Osorio e os salarios inteiros ao sabbado!--Mas sobretudo o procedimento dos padres enfurecia-o! Para se vingarem d'um liberal, intrigarem-no, tiraram-lhe a noiva!--Oh, que canalha!... E esquecendo os seus sarcasmos ao Casamento e á Familia, trovejou d'alto contra o clero, que é quem sempre destroe essa instituição social, perfeita, d'origem divina!
--Isso precisa uma vingança medonha, menino! É necessario arrasal-os!
Uma vingança? João Eduardo desejava-a, vorazmente! Mas qual?
--Qual? Contar tudo no _Districto_, n'um artigo tremendo!
João Eduardo citou-lhe as palavras do doutor Godinho: d'alli por diante o _Districto_ estava fechado aos senhores livre-pensadores!
--Cavalgadura! rugiu o typographo.
Mas tinha uma idéa, caramba! Publicar um folheto! Um folheto de vinte paginas, o que se chama no Brazil uma _mofina_, mas n'um estylo floreado (elle se encarregava d'isso), cahindo sobre o clero com um desabamento de verdades mortaes!
João Eduardo enthusiasmou-se. E diante d'aquella sympathia activa de Gustavo, vendo n'elle um irmão, soltou as ultimas confidencias, as mais dolorosas. O que havia no fundo da intriga era a paixão do padre Amaro pela pequena, e era para se apoderar d'ella que o escorraçava a elle... O inimigo, o malvado, o carrasco--era o parocho!
O typographo apertou as mãos na cabeça: semelhante caso (que todavia era para elle trivial, nas locaes que compunha) succedido a um amigo seu que estava alli bebendo com elle, a um democrata, parecia-lhe monstruoso, alguma coisa semelhante aos furores de Tiberio na velhice, violando, em banhos perfumados, as carnes delicadas de mancebos patricios.
Não queria acreditar. João Eduardo accumulou as provas. E então Gustavo, que tinha molhado vastamente de tinta as iscas de figado, ergueu os punhos fechados, e com a face entumecida, dente rilhado, berrou em rouco:
--Abaixo a religião!
Do outro lado do tabique uma voz trocista grasnou em réplica:
--Viva Pio Nono!
Gustavo ergueu-se para ir esbofetear o entremettido. Mas João Eduardo socegou-o. E o typographo, sentando-se tranquillamente, rechupou o fundo do copo.
Então, com os cotovêlos sobre a mesa, a garrafa entre elles, conversaram baixo, de rosto a rosto, sobre o plano do folheto. A coisa era facil: escrevel-o-hiam ambos. João Eduardo queria-o em fórma de romance, d'enredo negro, dando ao personagem do parocho os vicios e as perversidades de Caligula e d'Hellogabalo. O typographo porém queria um livro philosophico, de estylo e de principios, que **demolisse** d'uma vez para sempre o Ultramontanismo! Elle mesmo se encarregava de imprimir a obra aos serões, _gratis_, já se sabe.--Mas appareceu-lhes então, bruscamente, uma difficuldade.
--O papel? Como se ha de arranjar o papel?
Era uma despeza de nove ou dez mil reis; nenhum os tinha--nem um amigo que, por dedicação aos principios, lh'os adiantasse.
--Pede-os ao Nunes por conta do teu ordenado! lembrou vivamente o typographo.
João Eduardo coçou desconsoladamente a cabeça. Estava justamente pensando no Nunes e na sua indignação de devoto, de membro da junta de parochia, d'amigo do chantre, apenas lêsse o pamphleto! E se soubesse que era o seu escrevente que o compuzera, com as pennas do cartorio, no papel almaço do cartorio... Via-o já rôxo de cólera, alçando sobre o bico dos sapatos brancos a sua pessoa gordalhufa, e gritando na voz de grillo:--«Fóra d'aqui, pedreiro-livre, fóra d'aqui!»
--Ficava eu bem arranjado, disse João Eduardo muito sério, nem mulher nem pão!
Isto fez lembrar tambem a Gustavo a cólera provavel do doutor Godinho, dono da typographia. O doutor Godinho, que depois da reconciliação com a gente da rua da Misericordia, retomára publicamente a sua consideravel posição de pilar da Igreja e esteio da Fé...
--É o diabo, póde-nos sahir caro, disse elle.
--É impossivel! disse o escrevente.
Então praguejaram de raiva. Perder uma occasião d'aquellas para pôr a calva á mostra ao clero!
O plano do folheto, como uma columna tombada que parece maior, afigurava-se-lhes, agora que estava derrubado, d'uma altura, d'uma importancia colossal. Não era já a demolição local d'um parocho scelerado, era a ruina, ao longe e ao largo, de todo o clero, dos jesuitas, do poder temporal, de outras coisas funestas...--Maldição! se não fosse o Nunes, se não fosse o Godinho, se não fossem os nove mil reis do papel...
Aquelle perpetuo obstaculo do pobre, falta de dinheiro e dependencia do patrão, que até para um folheto era estorvo, revoltou-os contra a sociedade.
--Positivamente é necessario uma revolução! affirmou o typographo. É necessario arrasar tudo, tudo!--E o seu largo gesto sobre a mesa indicava, n'um formidavel nivelamento social, uma demolição de igrejas, palacios, bancos, quarteis e predios de Godinhos!--Outra do tinto, tio Osorio!...
Mas o tio Osorio não apparecia. Gustavo martellou a mesa a toda a força com o cabo da faca. E emfim, furioso, sahiu fóra ao contador «para arrebentar a pansa áquelle vendido que fazia assim esperar um cidadão».
Encontrou-o desbarretado, radiante, conversando com o barão de Via-Clara, que, em vesperas d'eleições, vinha pelas casas de pasto apertar a mão aos compadres. E alli na taberna, parecia magnifico o barão, com a sua luneta d'ouro, os botins de verniz sobre o sólo terreo, tossicando ao cheiro acre do azeite fervido e das emanações das borras de vinho.
Gustavo, avistando-o, recolheu discretamente ao cubiculo.
--Está com o barão, disse n'uma surdina respeitosa.
Mas vendo João Eduardo aniquilado, com a cabeça entre os punhos, o typographo exhortou-o a não esmorecer. Que diabo! No fim, livrava-se de casar com uma beata...
--Não me poder vingar d'aquelle maroto! interrompeu João Eduardo com um repellão no prato.
--Não te afflijas, prometteu o typographo com solemnidade, que a vingança não vem longe!
Fez-lhe então, baixo, a confidencia «das coisas que se preparavam em Lisboa». Tinham-lhe afiançado que havia um club republicano a que até pertenciam figurões--o que era para elle uma garantia superior de triumpho. Além d'isso, a rapaziada do trabalho mexia-se... Elle mesmo--e murmurava quasi contra a face de João Eduardo, estirado sobre a mesa--fôra fallado para pertencer a uma secção da Internacional, que devia organisar um hespanhol de Madrid; nunca vira o hespanhol, que se disfarçava por causa da policia; e a coisa falhára porque o _Comité_ tinha falta de fundos... Mas era certo haver um homem, que possuia um talho, que promettera cem mil reis... O exercito, além d'isso, estava na coisa: tinha visto n'uma reunião um sujeito barrigudo que lhe tinham dito que era major, e que tinha cara de major...--De modo que, com todos estes elementos, a opinião d'elle Gustavo, era que dentro de mezes, governo, rei, fidalgos, capitalistas, bispos, todos esses monstros iam pelos ares!
--E então somos nós os reisinhos, menino! Godinho, Nunes, toda a cambada ferramol-a na enxovia de S. Francisco. Eu a quem me atiro é ao Godinho... Padres, derreamol-os á pancada! E o povo respira, emfim!
--Mas d'aqui até lá! suspirou João Eduardo, que pensava com amargura que quando a revolução viesse já seria tarde para recuperar a Ameliasinha...
O tio Osorio então appareceu com a garrafa.
--Ora até que emfim, «seu fidalgo»! disse o typographo a trasbordar de sarcasmo.
--Não se pertence á classe, mas é-se tratado por ella com consideração, replicou logo o tio Osorio, a quem a satisfação fazia parecer mais pansudo.
--Por causa de meia duzia de votos!
--Dezoito na freguezia, e esperanças de dezenove. E que se ha de servir mais aos cavalheiros? Nada mais? Pois é pena. Então é beber-lhe, é beber-lhe!
E correu a cortina, deixando os dois amigos em frente da garrafa cheia, aspirarem a uma Revolução que lhes permittisse--a um rehaver a menina Amelia, a outro espancar o patrão Godinho.
Eram quasi cinco horas quando sahiram emfim do cubiculo. O tio Osorio, que se interessava por elles por serem rapazes d'instrucção, notou logo, examinando-os do canto do balcão onde saboreava o seu _Popular_, que «vinham tocaditos». João Eduardo, sobretudo, de chapéo carregado e beiço trombudo: «pessoa de mau vinho», pensou o tio Osorio, que o conhecia pouco. Mas o snr. Gustavo, como sempre, depois dos seus tres litros, resplandecia de jubilo. Grande rapaz! Era elle que pagava a conta; e gingando para o balcão, batendo d'alto com as suas duas placas:
--Encafua mais essas na burra, Osorio pipa!
--O que é pena é que sejam só duas, snr. Gustavo.
--Ah bandido! imaginas que o suor do povo, o dinheiro do trabalho é para encher a pansa dos Philistinos? Mas não as perdes! Que no dia do ajuste de contas quem ha de ter a honra de te furar esse bandulho ha de ser cá o Bibi... E o Bibi sou eu... Eu é que sou o Bibi! Não é verdade, João, quem é o Bibi?
João Eduardo não o escutava: muito carrancudo, olhava com desconfiança um borracho, que na mesa do fundo, diante do seu litro vazio, com o queixo na palma da mão e o cachimbo nos dentes, embasbacára, maravilhado, para os dois amigos.
O typographo puxou-o para o balcão:
--Dize aqui ao tio Osorio quem é o Bibi! Quem é o Bibi?... Olhe p'ra isto, tio Osorio! Rapaz de talento, e dos bons! Veja-me isto! Com duas pennadas dá cabo do ultramontanismo! É cá dos meus! Tambem entre nós é p'r'á vida e p'r'á morte. Deixa lá a conta, Osorio barrigudo, ouve o que te digo! Este é dos bons... E se elle aqui voltar e quizer dois litros a credito, é dar-lh'os... Cá o Bibi responde por tudo.
--Temos pois, começou o tio Osorio, iscas a dois, salada a dois...
Mas o borracho arrancára-se com esforço ao seu banco: de cachimbo espetado, arrotando forte, veio plantar-se diante do typographo, e, tremeleando nas pernas, estendeu-lhe a mão aberta.
Gustavo considerou-o d'alto, com nojo:
--Que quer vossê? Aposto que foi vossê que berrou ha pouco «Viva Pio Nono»? Seu vendido... Tire p'ra lá a pata!
O borracho, repellido, grunhiu; e, embicando contra João Eduardo, offereceu-lhe a mão espalmada.
--Arrede p'ra lá, seu animal! disse-lhe o escrevente desabrido.
--Tudo amizade... Tudo amizade... resmungava o borracho.
E não se arredava, com os cinco dedos muito espetados, despedindo um halito fetido.
João Eduardo, furioso, atirou-o de repellão contra o contador.
--Brincadeiras de mãos, não! exclamou logo severamente o tio Osorio. Brutalidades, não!
--Que se não mettesse commigo, rosnou o escrevente. E a vossê faço-lhe o mesmo...
--Quem não tem decencia vai p'r'á rua, disse muito grave o tio Osorio.
--Quem vai p'r'á rua, quem vai p'r'á rua? rugiu o escrevente, empinando-se, de punho fechado. Repita lá isso d'ir p'r'á rua! Com quem está vossê a fallar?
O tio Osorio não replicava, apoiado sobre as mãos ao balcão, patenteando os seus enormes braços que lhe faziam o estabelecimento respeitado.
Mas Gustavo, com auctoridade, poz-se entre os dois, e declarou que era necessario ser-se cavalheiro! Questões e más palavras, não! Podia-se chalacear e troçar os amigos, mas como cavalheiros! E alli só havia cavalheiros!
Arrastou para um canto o escrevente, que resmungava muito resentido.
--Oh, João! oh, João! dizia-lhe com grandes gestos, isso não é d'um homem illustrado!
Que diabo! Era necessario ter-se boas maneiras! Com repentes, com vinho desordeiro, não havia pandega, nem sociedade, nem fraternidade!
Voltou ao tio Osorio, fallando-lhe sobre o hombro, excitado:
--Eu respondo por elle, Osorio! É um cavalheiro! Mas tem tido desgostos, e não está acostumado a um litro de mais. É o que é! Mas é dos bons... Vossê desculpe, tio Osorio. Que eu respondo por elle...
Foi buscar o escrevente, persuadiu-o a apertar a mão ao tio Osorio. O taberneiro declarou com emphase que não quizera insultar o cavalheiro. Os _shake-hands_ então succederam-se com vehemencia. Para consolidar a reconciliação, o typographo pagou tres «canas brancas». João Eduardo, por brio, offereceu tambem um «giro» de cognac. E com os copos em fila sobre o balcão, trocavam boas palavras, tratavam-se de cavalheiros--emquanto o borracho, esquecido ao seu canto, derreado para cima da mesa, a cabeça sobre os punhos e o nariz sobre o litro, se babava silenciosamente, com o cachimbo cravado nos dentes.
--D'isto é que eu gósto! dizia o typographo a quem a aguardente augmentára a ternura. Harmonia! Cá o meu fraco é a harmonia! Harmonia entre a rapaziada e entre a humanidade... O que eu queria era vêr uma grande mesa, e toda a humanidade sentada n'um banquete, e fogo preso, e chalaça, e decidirem-se as questões sociaes! E o dia não vem longe em que vossê o ha de vêr, tio Osorio!... Em Lisboa as coisas vão-se preparando p'ra isso. E o tio Osorio é que ha de fornecer o vinho... Hein, que negociosinho! Diga que não sou amigo!
--Obrigado, snr. Gustavo, obrigado...
--Isto aqui entre nós, hein, que somos todos cavalheiros! E cá este--abraçava João Eduardo--é como se fosse irmão! Entre nós é p'r'á vida e p'r'á morte! E é mandar a tristeza ao diabo, rapaz! Toca a escrever o folheto... O Godinho, e o Nunes...
--O Nunes racho-o! soltou com força o escrevente, que, depois das «saudes» com cana, parecia mais sombrio.
Dois soldados entraram então na taberna--e Gustavo julgou que eram horas d'ir para a typographia. Senão, não se haviam de separar todo o dia, não se haviam de separar toda a vida!... Mas o trabalho é dever, o trabalho é virtude!
Sahiram, emfim, depois de mais _shake-hands_ com o tio Osorio. Á porta, Gustavo jurou ainda ao escrevente uma lealdade d'irmão; obrigou-o a aceitar a sua bolsa de tabaco; e desappareceu á esquina da rua, de chapéo para a nuca, trauteando o _Hymno do trabalho_.
João Eduardo, só, abalou logo para a rua da Misericordia. Ao chegar á porta da S. Joanneira, apagou com cuidado o cigarro na sola do sapato, e deu um puxão tremendo ao cordão da campainha.
A _Ruça_ veio, correndo.
--A Ameliasinha? Quero-lhe fallar!
--As senhoras sahiram, disse a _Ruça_ espantada do modo do snr. Joãosinho.
--Mente, sua bebeda! berrou o escrevente.
A rapariga, aterrada, fechou a porta d'estalo.
João Eduardo foi-se encostar á parede defronte, e ficou alli, de braços cruzados, observando a casa: as janellas estavam fechadas, as cortinas de cassa corridas: dois lenços de rapé do conego seccavam em baixo na varanda.
Aproximou-se de novo e bateu devagarinho a aldrava. Depois repicou com furor a campainha. Ninguem appareceu: então, indignado, partiu para os lados da Sé.
Ao desembocar no largo, diante da fachada da igreja, parou, procurando em redor com o sobr'olho carregado: mas o largo parecia deserto; á porta da pharmacia do Carlos um rapazito, sentado no degrau, guardava pela arreata um burro carregado de herva; aqui e além, gallinhas iam picando o chão vorazmente; o portão da igreja estava fechado; e apenas se ouvia o ruido de martelladas n'uma casa ao pé em que havia obras.
E João Eduardo ia seguir para os lados da Alameda--quando appareceram no terraço da igreja, da banda da sacristia, o padre Silverio e o padre Amaro, conversando, devagar.
Batia então um quarto na torre, e o padre Silverio parou a acertar o seu _cebolão_. Depois os dois padres observaram maliciosamente a janella da administração, de vidraças abertas, onde se via, no escuro, o vulto do senhor administrador de binoculo cravado para a casa do Telles alfaiate. E desceram emfim a escadaria da Sé, rindo d'hombro a hombro, divertidos com aquella paixão que escandalisava Leiria.
Foi então que o parocho viu João Eduardo que estacára no meio do largo. Parou para voltar á Sé decerto, evitar o encontro; mas viu o portão fechado, e ia seguir d'olhos baixos, ao lado do bom Silverio que tirava tranquillamente a sua caixa de rapé,--quando João Eduardo, arremessando-se, sem uma palavra, atirou a toda a força um murro ao hombro d'Amaro.
O parocho, aturdido, ergueu frouxamente o guardachuva.
--Acudam! berrou logo o padre Silverio, recuando de braços no ar. Acudam!
Da porta da administração um homem correu, agarrou furiosamente o escrevente pela gola:
--Está preso! rugia. Está preso!
--Acudam, acudam! berrava Silverio a distancia.
Janellas no largo abriam-se á pressa. A Amparo da botica, em saia branca, appareceu á varanda, espavorida; o Carlos precipitára-se do laboratorio em chinelas; e o senhor administrador, debruçado na sacada, bracejava, com o binoculo na mão.
Emfim o escrivão da administração, o Domingos, compareceu, muito grave, de mangas de lustrina enfiadas: e com o cabo de policia levou logo para a administração o escrevente, que não resistia, todo pallido...
O Carlos, esse, apressou-se a conduzir o senhor parocho para a botica; fez preparar, com estrepito, flôr de laranja e ether; gritou pela esposa, para arranjar uma cama... Queria examinar o hombro de sua senhoria: haveria intumecencia?
--Obrigado, não é nada, dizia o parocho muito branco. Não é nada. Foi um raspão. Basta-me uma gota d'agua...
Mas a Amparo achava melhor um calix de vinho do Porto; e correu acima a buscar-lh'o, tropeçando nos pequenos que se lhe penduravam das saias, dando ais, explicando pela escada á criada que tinham querido matar o senhor parocho!
Á porta da botica juntára-se gente, que embascava para dentro; um dos carpinteiros que trabalhavam nas obras affirmava que «fôra uma facada»; e uma velha por traz debatia-se, de pescoço esticado, para vêr o _sangue_. Emfim, a pedido do parocho, que receava escandalo, o Carlos veio magestosamente declarar que não queria motim à porta! O senhor parocho estava melhor. Fôra apenas um sôco, um raspão de mão... Elle respondia por sua senhoria.
E, como o burro ao lado começára a ornear, o pharmaceutico voltando-se indignado para o rapazito que o segurava pela arreata:
--E tu não tens vergonha, no meio d'um desgosto d'estes, um desgosto para toda a cidade, de ficar aqui com esse animal, que não faz senão zurrar! Para longe, insolente, para longe!
Aconselhou então os dois sacerdotes a que subissem para a sala, para evitar a «curiosidade da populaça». E a boa Amparo appareceu logo com dois calices do Porto, um para o senhor parocho, outro para o senhor padre Silverio que se deixára cahir a um canto do canapé, apavorado ainda, extenuado d'emoção.
--Tenho cincoenta e cinco annos, disse elle depois de ter chupado a ultima gota de _porto_, e é a primeira vez que me vejo n'um barulho!
O padre Amaro, mais socegado agora, affectando bravura, chasqueou o padre Silverio:
--Vossê tomou o caso muito ao tragico, collega... E lá ser a primeira, vamos lá... Todos sabem que o collega esteve pegado com o Natario...
--Ah, sim, exclamou o Silverio, mas isso era entre sacerdotes, amigo!
Mas a Amparo, ainda muito tremula, enchendo outro calix ao senhor parocho, quiz saber «os particulares, todos os particulares...»
--Não ha particulares, minha senhora, eu vinha aqui com o collega... Vinhamos cavaqueando... O homem chegou-se a mim, e, como eu estava desprevenido, deu-me um raspão no hombro.
--Mas porquê? porquê? exclamou a boa senhora, apertando as mãos, n'um assombro.
O Carlos então deu a sua opinião. Ainda havia dias, elle dissera, diante da Amparosinho e de D. Josepha, a irmã do respeitavel conego Dias, que estas idéas de materialismo e atheismo estavam levando a mocidade aos mais perniciosos excessos... E mal sabia elle então que estava prophetisando!
--Vejam vossas senhorias este rapaz! Começa por esquecer todos os deveres de christão (assim nol-o affirmou D. Josepha), associa-se com bandidos, achincalha os dogmas nos botequins... Depois (sigam vossas senhorias a progressão), não contente com estes extravios, publica nos periodicos ataques abjectos contra a **religião**... E emfim, possuido de uma vertigem d'atheismo, atira-se, diante mesmo da cathedral, sobre um sacerdote exemplar (não é por vossa senhoria estar presente) e tenta assassinal-o! Ora, pergunto eu, o que ha no fundo de tudo isto? Odio, puro odio á religião de nossos paes!
--**Infelizmente** assim é, suspirou o padre Silverio.
Mas a Amparo, indifferente ás causas philosophicas do delicto, ardia na curiosidade de saber o que se passaria na administração, o que diria o escrevente, se o teriam posto a ferros... O Carlos promptificou-se logo a ir averiguar.
De resto, disse elle, era o seu dever, como homem de sciencia, esclarecer a justiça sobre as consequencias que **podia ter** trazido um murro, a força de braço, na região delicada da clavicula... (ainda que, louvado Deus, não havia fractura, nem inchaço), e sobretudo queria revelar á auctoridade, para que ella tomasse as suas providencias, que aquella tentativa d'espancamento não provinha de vingança pessoal. Que podia ter feito o senhor parocho da Sé ao escrevente do Nunes? Provinha d'uma vasta conspiração d'atheus e republicanos contra o sacerdocio de Christo!
--Apoiado, apoiado! disseram os dois sacerdotes gravemente.
--E é o que eu vou provar cabalmente ao senhor administrador do concelho!
Na sua precipitação zelosa de conservador indignado, ia mesmo de chinelas e quinzena de laboratorio: mas Amparo alcançou-o no corredor:
--Oh, filho! a sobrecasaca, põe a sobrecasaca ao menos, que o administrador é de ceremonia!
Ella mesmo lha ajudou a enfiar, emquanto o Carlos, com a imaginação trabalhando viva (aquella desgraçada imaginação que, como elle dizia, até ás vezes lhe dava dôres de cabeça), ia preparando o seu depoimento, que faria ruido na cidade. Fallaria de pé. Na saleta da administração seria um apparato judicial: á sua mesa, o senhor administrador, grave como a personificação da Ordem; em redor os amanuenses, activos sobre o seu papel sellado; e o réo, defronte, na attitude tradicional dos criminosos politicos, os braços cruzados sobre o peito, a fronte alta desafiando a morte. Elle, Carlos, então, entraria e diria: _Senhor administrador, aqui venho espontaneamente pôr-me ao serviço da vindicta social_!
--Hei de lhes mostrar, com uma logica de ferro, que é tudo resultado d'uma conspiração do racionalismo. Pódes estar certa, Amparosinho, é uma conspiração do racionalismo! disse, puxando, com um gemido d'esforço, as presilhas dos botins de cano.
--E repara se elle falla da pequena, da S. Joanneira...
--Hei de tomar notas. Mas não se trata da S. Joanneira. Isto é um processo politico!
Atravessou o largo magestosamente, certo que os visinhos, pelas portas, murmuravam: _Lá vai o Carlos depôr_... Ia depôr, sim, mas não sobre o murro no hombro de sua senhoria. Que importava o murro? O grave era o que estava por traz do murro--uma conspiração contra a Ordem, a Igreja, a Carta e a Propriedade! É o que elle provaria d'alto ao senhor administrador. Este murro, excellentissimo senhor, é o primeiro excesso d'uma grande revolução social!