O crime do padre Amaro, scenas da vida devota
Chapter 18
Emfim foi a vez do velho, depois a do homem amarello de braço ao peito. João Eduardo, só, passeava nervoso pela saleta. Parecia-lhe agora muito difficil ir assim, sem ceremonia, pedir protecção ao doutor. Com que direito?... Lembrou-se de se queixar primeiro de dôres do peito ou desarranjos de estomago, e depois, incidentalmente, contar os seus infortunios...
Mas a porta abriu-se. O doutor estava diante d'elle, com a sua longa barba grisalha que lhe cahia sobre a quinzena de velludo preto, o largo chapéo desabado na cabeça, calçando as luvas de fio d'Escocia.
--Ólá! és tu, rapaz! Ha novidade na rua da Misericordia?
João Eduardo córou.
--Não senhor, senhor doutor, queria-lhe fallar em particular.
Seguiu-o ao gabinete--o conhecido gabinete do doutor Gouvêa, que com o seu cahos de livros, o seu tom poeirento, uma panoplia de flechas selvagens e duas cegonhas empalhadas, tinha na cidade a reputação d'uma «cella d'alchimista».
O doutor puxou o seu _cebolão_.
--Um quarto para as duas. Sê breve.
A face do escrevente exprimiu o embaraço de condensar uma narração tão complicada.
--Está bom, disse o doutor, explica-te como puderes. Não ha nada mais difficil que ser claro e breve; é necessario ter genio. Que é?
João Eduardo então tartamudeou a sua historia, insistindo sobretudo na perfidia do padre, exagerando a innocencia de Amelia...
O doutor escutava-o, cofiando a barba.
--Vejo o que é. Tu e o padre, disse elle, quereis ambos a rapariga. Como elle é o mais esperto e o mais decidido, apanhou-a elle. É lei natural: o mais forte despoja, elimina o mais fraco; a femea e a prêsa pertencem-lhe.
Aquillo pareceu a João Eduardo um gracejo. Disse com a voz perturbada:
--Vossa excellencia está a caçoar, senhor doutor, mas a mim retalha-se-me o coração!
--Homem, acudiu o doutor com bondade, estou a philosophar, não estou a caçoar... Mas emfim, que queres tu que eu te faça?
Era o que o doutor Godinho lhe tinha dito, tambem, com mais pompa!
--Eu tenho a certeza que se vossa excellencia lhe fallasse...
O doutor sorriu:
--Eu posso receitar á rapariga _este ou aquelle xarope_, mas não lhe posso impôr _este ou aquelle homem_! Queres que lhe vá dizer: «A menina ha de preferir aqui o snr. João Eduardo?» Queres que vá dizer ao padre, um maganão que eu nunca vi: «O senhor faz favor de não seduzir esta menina?»
--Mas calumniaram-me, senhor doutor, apresentaram-me como um homem de maus costumes, um patife...
--Não, não te calumniaram. Sob o ponto de vista do padre e d'aquellas senhoras que jogam á noite o quino na rua da Misericordia tu és um patife: um christão que nos periodicos vitupera abbades, conegos, curas, personagens tão importantes para se communicar com Deus e para se salvar a alma, é um patife. Não te calumniaram, amigo!
--Mas, senhor doutor...
--Escuta. E a rapariga, descartando-se de ti em obediencia ás instrucções do senhor padre fulano ou sicrano, comporta-se como uma boa catholica. É o que te digo. Toda a vida do bom catholico, os seus pensamentos, as suas idéas, os seus sentimentos, as suas palavras, o emprego dos seus dias e das suas noites, as suas relações de familia e de visinhança, os pratos do seu jantar, o seu vestuario e os seus divertimentos--tudo isto é regulado pela auctoridade ecclesiastica (abbade, bispo ou conego), approvado ou censurado pelo confessor, aconselhado e ordenado pelo _director da consciencia_. O bom catholico, como a tua pequena, não se pertence; não tem razão, nem vontade, nem arbitrio, nem sentir proprio; o seu cura pensa, quer, determina, sente por ella. O seu unico trabalho n'este mundo, que é ao mesmo tempo o seu unico direito e o seu unico dever, é aceitar esta direcção; aceital-a sem a discutir; obedecer-lhe, dê por onde der; se ella contraria as suas idéas, deve pensar que as suas idéas são falsas; se ella fere as suas affeições, deve pensar que as suas affeições são culpadas. Dado isto, se o padre disse á pequena que não devia nem casar, nem sequer fallar comtigo, a creatura prova, obedecendo-lhe, que é uma boa catholica, uma devota consequente, e que segue na vida, logicamente, a regra moral que escolheu. Aqui está, e desculpa o sermão.
João Eduardo ouvia com respeito, com espanto estas phrases, a que a face placida, a bella barba grisalha do doutor davam uma auctoridade maior. Parecia-lhe agora quasi impossivel recuperar Amelia, se ella pertencia assim tão absolutamente, alma e sentidos, ao padre que a confessava. Mas emfim, porque era elle considerado um marido prejudicial?
--Eu comprehenderia, disse, se fosse um homem de maus costumes, senhor doutor. Mas eu porto-me bem; eu não faço senão trabalhar; eu não frequento tabernas nem troças; eu não bebo, eu não jógo; as minhas noites passo-as na rua da Misericordia, ou em casa a fazer serão para o cartorio...
--Meu rapaz, tu pódes ter socialmente todas as virtudes; mas, segundo a religião de nossos paes, todas as virtudes que não são catholicas são inuteis e perniciosas. Ser trabalhador, casto, honrado, justo, verdadeiro, são grandes virtudes; mas para os padres e para a Igreja não contam. Se tu fôres um modelo de bondade mas não fôres á missa, não jejuares, não te confessares, não te desbarretares para o senhor cura--és simplesmente um maroto. Outros personagens maiores que tu, cuja alma foi perfeita e cuja regra de vida foi impeccavel, têm sido julgados verdadeiros canalhas porque não foram baptisados antes de ter sido perfeitos. Has de ter ouvido fallar de Socrates, d'um outro chamado Platão, de Catão, etc... Foram sujeitos famosos pelas suas virtudes. Pois um certo Bossuet, que é o grande chavão da doutrina, disse que das virtudes d'esses homens estava cheio o inferno... Isto prova que a moral catholica é differente da moral natural e da moral social... Mas são coisas que tu comprehendes mal... Queres tu um exemplo? Eu sou, segundo a doutrina catholica, um dos grandes desavergonhados que passeiam as ruas da cidade; e o meu visinho Peixoto, que matou a mulher com pancadas e que vai dando cabo pelo mesmo processo de uma filhita de dez annos, é entre o clero um homem excellente porque cumpre os seus deveres de devoto e toca figle nas missas cantadas. Emfim, amigo, estas coisas são assim. E parece que são boas, porque ha milhares de pessoas respeitaveis que as consideram boas, o Estado mantem-as, gasta até um dinheirão para as manter, obriga-nos mesmo a respeital-as--e eu, que estou aqui a fallar, pago todos os annos um quartinho para que ellas continuem a ser assim. Tu naturalmente pagas menos...
--Pago sete vintens, senhor doutor.
--Mas emfim vaes ás festas, ouves musica, sermão, desforras-te dos teus sete vintens. Eu, o meu quartinho perco-o; consolo-me apenas com a idéa de que vai ajudar a manter o esplendor da Igreja--da Igreja que em vida me considera um bandido, e que para depois de morto me tem preparado um inferno de primeira classe. Emfim, parece-me que temos cavaqueando bastante... Que queres mais?
João Eduardo estava acabrunhado. Agora que escutava o doutor, parecia-lhe, mais que nunca, que se um homem de palavras tão sabias, de tantas idéas, se interessasse por elle, toda a intriga seria facilmente desfeita e a sua felicidade, o seu logar na rua da Misericordia recobrados para sempre.
--Então vossa excellencia não póde fazer nada por mim? disse muito desconsolado.
--Eu posso talvez curar-te d'outra pneumonia. Tens outra pneumonia a curar? Não? Então...
João Eduardo suspirou:
--Sou uma victima, senhor doutor!
--Fazes mal. Não deve haver victimas, quando não seja senão para impedir que haja tyrannos--disse o doutor, pondo o seu largo chapéo desabado.
--Porque no fim de tudo, exclamou ainda João Eduardo que se prendia ao doutor com uma sofreguidão d'afogado, no fim de tudo o que o patife do parocho quer, com todos os seus pretextos, é a rapariga! Se ella fosse um camafeu, bem se importava o maroto que eu fosse um impio ou não! O que elle quer é a rapariga!
O doutor encolheu os hombros.
--É natural, coitado--disse, já com a mão no fecho da porta. Que queres tu? Elle tem para as mulheres, como homem, paixões e orgãos; como confessor, a importancia d'um Deus. É evidente que ha de utilisar essa importancia para satisfazer essas paixões; e que ha de cobrir essa satisfação natural com as apparencias e com os pretextos do serviço divino... É natural.
João Eduardo então, vendo-o abrir a porta, desvanecer-se a esperança que o trouxera alli, disse, furioso, vergastando o ar com o chapéo:
--Canalha de padres! Foi raça que sempre detestei! Queria-a vêr varrida da face da terra, senhor doutor!
--Isso é outra tolice, disse o doutor, resignando-se a escutal-o ainda, e parando á porta do quarto. Ouve lá. Tu crês em Deus? no Deus do céo, no Deus que lá está no alto do céo, e que é lá de cima o principio de toda a justiça e de toda a verdade?
João Eduardo, surprehendido, disse:
--Eu creio, sim senhor.
--E no peccado original?
--Tambem...
--Na vida futura, na redempção, etc?
--Fui educado n'essas crenças...
--Então para que queres varrer os padres da face da terra? Deves pelo contrario ainda achar que são poucos. És um liberal racionalista nos limites da Carta, ao que vejo... Mas se crês no Deus do céo, que nos dirige lá de cima, e no peccado original, e na vida futura, precisas d'uma classe de sacerdotes que te expliquem a doutrina e a moral revelada de Deus, que te ajudem a purificar da macula original e te preparem o teu logar no paraiso! Tu necessitas dos padres. E parece-me mesmo uma terrivel falta de logica que os desacredites pela imprensa...
João Eduardo, attonito, balbuciou:
--Mas vossa excellencia, senhor doutor... Desculpe-me vossa excellencia, mas...
--Dize, homem. Eu quê?
--Vossa excellencia não precisa dos padres n'este mundo...
--Nem no outro. Eu não preciso dos padres no mundo, porque não preciso do Deus do céo. Isto quer dizer, meu rapaz, que tenho o meu Deus dentro em mim, isto é, o principio que dirige as minhas acções e os meus juizos. Vulgo Consciencia... Talvez não comprehendas bem... O facto é que estou aqui a expôr doutrinas subversivas... E realmente são tres horas...
E mostrou-lhe o _cebolão_.
Á porta do pateo, João Eduardo disse-lhe ainda:
--Vossa excellencia então desculpe, senhor doutor...
--Não ha de quê... Manda a rua da Misericordia ao diabo!
João Eduardo interrompeu com calor:
--Isso é bom de dizer, senhor doutor, mas quando a paixão está a roer cá por dentro!...
--Ah! fez o doutor, é uma bella e grande coisa a paixão! O amor é uma das grandes forças da civilisação. Bem dirigida levanta um mundo e bastava para nos fazer a revolução moral...--E mudando de tom:--Mas escuta. Olha que isso ás vezes não é paixão, não está no coração... O coração é ordinariamente um termo de que nos servimos, por decencia, para designar outro orgão. É precisamente esse orgão o unico que está interessado, a maior parte das vezes, em questões de sentimento. E n'esses casos o desgosto não dura. Adeus, estimo que seja isso!
XV
João Eduardo desceu a rua, embrulhando o cigarro. Sentia-se enervado, todo cansado da noite desesperada que passára, d'aquella manhã cheia de passos inuteis, das conversas do doutor Godinho e do doutor Gouvêa.
--Acabou-se, pensava, não posso fazer mais nada! É aguentar.
Tinha a alma extenuada de tantos esforços de paixão, d'esperança e de cólera. Desejaria ir estirar-se ao comprido, n'um sitio isolado, longe de advogados, de mulheres e de padres, e dormir durante mezes. Mas como já passava das tres horas, apressava-se para o cartorio do Nunes. Teria talvez ainda de ouvir um sermão por ter chegado tão tarde! Triste vida a sua!
Dobrára a esquina no Terreiro, quando ao pé da casa de pasto do Osorio se encontrou com um moço de quinzena clara, debruada de uma fita negra muito larga, e com um bigodinho tão preto que parecia postiço sobre as suas feições extremamente pallidas.
--Ólé! Que é feito, João Eduardo?
Era um Gustavo, typographo da _Voz do Districto_, que havia dois mezes fôra para Lisboa. Segundo dizia o Agostinho, era «rapaz de cabeça e instruidote, mas d'idéas do diabo». Escrevia ás vezes artigos de Politica Estrangeira, onde introduzia phrases poeticas e retumbantes, amaldiçoando Napoleão III, o czar e os oppressores do povo, chorando a escravidão da Polonia e a miseria do proletario. A sympathia entre elle e João Eduardo proviera de conversas sobre religião, em que ambos exhalavam o seu odio ao clero e a sua admiração por Jesus Christo. A revolução d'Hespanha enthusiasmára-o tanto que aspirára a pertencer á Internacional; e o desejo de viver n'um centro operario, onde houvesse associações, discursos e fraternidade, levára-o a Lisboa. Encontrára lá bom trabalho e bons camaradas. Mas como sustentava a mãi, velha e doente, e como era mais economico viverem juntos, voltára a Leiria. O _Districto_, além d'isso, na perspectiva d'eleições, prosperava a ponto de augmentar o salario aos tres typographos.
--De modo que lá estou outra vez com o rachitico...
Vinha jantar, e convidou logo João Eduardo a que lhe fizesse companhia. Não havia d'acabar o mundo, que diabo, por elle faltar um dia ao cartorio!
João Eduardo então lembrou-se que desde a vespera não tinha comido. Era talvez a debilidade que o trouxera assim estonteado, tão prompto a desanimar... Decidiu-se logo--contente, depois das emoções e das fadigas da manhã, de se estirar no banco da taberna, diante d'um prato cheio, na intimidade com um camarada d'odios iguaes aos seus. Demais, os repellões que soffrera davam-lhe uma necessidade, uma avidez de sympathia; e foi com calor que disse:
--Homem, valeu! Caes-me do céo! Este mundo é uma choldra. Se não fosse por alguma hora que se passa em amizade, caramba, não valia a pena andar por cá!
Este modo, tão novo no João Eduardo, no _Pâcatinho_, espantou Gustavo.
--Porquê? As coisas não correm bem? Turras com a besta do Nunes, hein? perguntou-lhe.
--Não. Um bocado de _spleen_.
--Isso de _spleen_ é d'inglez! Oh menino, havias de vêr o Taborda no _Amor londrino_!... Deixa lá o _spleen_. É deitar lastro para dentro e carregar no liquido!
Travou-lhe do braço, metteu-o pela porta da taberna.
--Viva o tio Osorio! Saude e fraternidade!
O dono da casa de pasto, o tio Osorio, personagem obeso e contente da vida, com as mangas da camisa arregaçadas até aos hombros, os braços nús muito brancos apoiados sobre o balcão, a face balofa e finoria, felicitou logo Gustavo de o vêr de novo em Leiria. Achava-o mais magrito... Havia de ser das más aguas de Lisboa e do muito _pau campeche_ nos vinhos... E que havia d'elle servir aos cavalheiros?
Gustavo, plantando-se diante do contador, de chapéo para a nuca, apressou-se a soltar o gracejo, que tanto o enthusiasmára em Lisboa:
--Tio Osorio, sirva-nos figado de rei, com rim grelhado de padre!
O tio Osorio, prompto á réplica, disse logo, dando um raspão de rodilha sobre o zinco do contador:
--Não temos cá d'isso, snr. Gustavo. Isso é petisco da capital.
--Então estão vossês muito atrazados! Em Lisboa era todos os dias o meu almoço... Bem, acabou-se, dê-nos duas iscas com batatas... E bem saltadinho, isso!
--Hão de ser servidos como amigos.
Accommodaram-se á «mesa dos envergonhados», entre dois tabiques de pinho fechados por uma cortina de chita. O tio Osorio, que apreciava Gustavo, «moço instruido e de pouca troça», veio elle mesmo trazer a garrafa do tinto e as azeitonas; e limpando os copos ao avental enxovalhado:
--Então que ha de novo pela capital, snr. Gustavo? Como vai por lá aquillo?
O typographo deu immediatamente seriedade ao rosto; passou a mão pelos cabellos, e deixou cahir algumas phrases enigmaticas:
--Tremidito... Muito pouca vergonha em politica... A classe operaria começa a mexer-se... Falta d'união, por ora... Está-se á espera de vêr como as coisas correm em Hespanha... Ha de havel-as bonitas! Tudo depende d'Hespanha ...
Mas o tio Osorio, que juntára alguns vintens e comprára uma fazenda, tinha horror a tumultos... O que se queria no paiz era paz... Sobretudo o que lhe desagradava era contar-se com hespanhoes... De Hespanha, deviam os cavalheiros sabel-o, «nem bom vento nem bom casamento»!
--Os povos são todos irmãos! exclamou Gustavo. Quando se tratar d'atirar abaixo Bourbons e imperadores, camarilhas e fidalguia, não ha portuguezes nem hespanhoes, todos são irmãos! Tudo é fraternidade, tio Osorio!
--Pois então é beber-lhe á saude, e beber-lhe rijo, que isso é que faz andar o negocio, disse o tio Osorio tranquillamente, rolando a sua obesidade para fóra do cubiculo.
--Elephante! rosnou o typographo, chocado com aquella indifferença pela Fraternidade dos Povos. Que se podia esperar, de resto, d'um proprietario e d'um agente d'eleições?
Trauteou a _Marselheza_, enchendo os copos d'alto, e quiz saber o que tinha feito o amigo João Eduardo... Já se não ia pelo _Districto_? O rachitico dissera-lhe que não havia despegal-o da rua da Misericordia...
--E quando é esse casamento, por fim?
João Eduardo córou, disse vagamente:
--Nada decidido... Tem havido difficuldades.--E acrescentou com um sorriso desconsolado:--Temos tido arrufos.
--Pieguices! soltou o typographo, com um movimento d'hombros, que exprimia um desdem de revolucionario pelas frivolidades do sentimento.
--Pieguices... Não sei se são pieguices, disse João Eduardo. O que sei é que dão desgostos... Arrasam um homem, Gustavo...
Calou-se, mordendo o beiço, para recalcar a emoção que o revolvia.
Mas o typographo achava todas essas historias de mulheres ridiculas. O tempo não estava para amores... O homem do povo, o operario que se agarrava a uma saia para não despegar, era um inutil... era um vendido! Em que se devia pensar não era em namoros: era em dar a liberdade ao povo, livrar o trabalho das garras do capital, acabar com os monopolios, trabalhar para a republica! Não se queria lamuria, queria-se acção, queria-se a força!--E carregava furiosamente no _r_ da palavra--a forrrça!--agitando os seus pulsos magrissimos de tisico sobre o grande prato d'iscas que o moço trouxera.
João Eduardo, escutando-o, lembrava-se do tempo em que o typographo, doido pela Julia padeira, apparecia sempre com os olhos vermelhos como carvões, e atroava a typographia com suspiros medonhos. A cada _ai_ os camaradas, troçando, davam uma tossesinha de garganta. Um dia mesmo, Gustavo e o Medeiros tinham-se esmurrado no pateo...
--Olha quem falla! disse por fim. És como os outros... Estás ahi a palrar, e quando te chega és como os outros.
O typographo então--que, desde que em Lisboa frequentára um Club democratico d'Alcantara e ajudára a redigir um manifesto aos irmãos cigarreiros em _grève_, se considerava exclusivamente votado ao serviço do Proletariado e da Republica--escandalisou-se. Elle? Elle como os outros? Perder o seu tempo com saias?...
--Está vossa senhoria muito enganado!--E recolheu-se a um silencio chocado, partindo com furor a sua isca.
João Eduardo receou tel-o offendido.
--Ó Gustavo, sejamos razoaveis: um homem póde ter os seus principios, trabalhar pela sua causa, mas casar, arranjar o seu conchego, ter uma família.
--Nunca! exclamou o typographo exaltado. O homem que casa está perdido! D'ahi por diante é ganhar a papa, não se mexer do buraco, não ter um momento para os amigos, passear de noite os marmanjos quando elles berram com os dentes... É um inutil! é um vendido! As mulheres não entendem nada de politica. Têm medo que o homem se metta em barulhos, tenha turras com a policia... Está um patriota atado de pés e mãos! E quando ha um segredo a guardar? O homem casado não póde guardar um segredo!... E ahi está ás vezes uma revolução compremettida... Sêbo p'r'á familia! Outra de azeitonas, tio Osorio!
A pansa do tio Osorio appareceu entre os tabiques.
--Então que estão os senhores aqui a questionar, que parece que entraram os da _Maia_ no conselho de districto?
Gustavo atirou-se para o fundo do banco, de perna estirada, e interpellando-o d'alto:
--O tio Osorio é que vai dizer. Diga lá o amigo. Vossemecê era homem de mudar as suas opiniões politicas para fazer a vontade á sua patrôa?
O tio Osorio acariciou o cachaço e disse com um tom finorio:
--Eu lhe respondo, senhor Gustavo. Mulheres são mais espertas que nós... E em politica, como em negocio, quem fôr com o que ellas dizem vai pelo seguro... Eu sempre consulto a minha, e se quer que lhe diga, já vai em vinte annos e não me tenho achado mal.
Gustavo pulou no banco:
--Vossê é um vendido! gritou.
O tio Osorio, acostumado áquella expressão querida do typographo, não se escandilisou; gracejou até, com o seu amor ás boas réplicas:
--Vendido não direi, mas vendedor p'r'ó que quizer... Pois é o que lhe digo, snr. Gustavo. O senhor casará, e depois m'as contará.
--O que lhe hei de contar, é quando houver uma revolução, entrar-lhe por aqui d'espingarda ao hombro, e mettel-o em conselho de guerra, seu capitalista!
--Pois emquanto isso não chega é beber-lhe e beber-lhe rijo, disse o tio Osorio retirando-se com pachorra.
--Hippopotamo! resmungou o typographo.
E, como adorava discussões, recomeçou logo--sustentando que o homem, embeiçado por uma saia, não tem firmeza nas suas convicções politicas...
João Eduardo sorria tristemente, n'uma negação muda, pensando comsigo que, apesar da sua paixão por Amelia, não se tinha confessado nos dois ultimos annos!
--Tenho provas! berrava Gustavo.
Citou um livre-pensador das suas relações que, para manter a paz domestica, se sujeitava a jejuar ás sextas-feiras, e a palmilhar aos domingos o caminho da capella de ripanço debaixo do braço...
--E é o que te ha de succeder!... Tu tens idéas menos más a respeito de religião, mas ainda te hei de vêr d'opa vermelha e cirio na mão na procissão do Senhor dos Passos... Philosophia e atheismo não custam nada quando se conversa no bilhar entre rapazes... Mas pratical-os em familia, quando se tem uma mulher bonita e devota, é o diabo! É o que te ha de succeder, se é que te não vai succedendo já: has de atirar as tuas convicções liberaes para o caixão do cisco, e fazer barretadas ao confessor da casa!
João Eduardo fazia-se escarlate de indignação. Mesmo nos tempos da sua felicidade, quando tinha Amelia certa, aquella accusação (que o typographo fazia só para questionar, para palrar) tel-o-hia escandalisado. Mas hoje! Justamente quando elle perdera Amelia por ter dito d'alto, n'um jornal, o seu horror a beatos! Hoje que se achava alli, com o coração partido, roubado de toda a alegria, exactamente pelas suas opiniões liberaes!...
--Isso dito a mim tem graça! disse com uma amargura sombria.
O typographo galhofou:
--Homem, não me constou ainda que fosses um _martyr da liberdade_!
--Por quem és não me apoquentes, Gustavo, disse o escrevente muito chocado. Tu não sabes o que se tem passado. Se soubesses não me dizias isso...
Contou-lhe então a historia do _Communicado_--calando todavia que o escrevera n'um fogo de ciumes, e apresentando-o como uma pura affirmação de principios... E que notasse esta circumstancia, ia então casar com uma rapariga devota, n'uma casa que era mais frequentada por padres que a sacristia da Sé...
--E assignaste? perguntou Gustavo, espantado da revelação.
--O doutor Godinho não quiz, disse o escrevente córando um pouco.
--E déste-lhes uma desanda, hein?
--A todos, de rachar!
O typographo, enthusiasmado, berrou por «outra de tinto»!
Encheu os copos com transporte, bebeu uma grande saude a João Eduardo.
--Caramba, quero vêr isso! Quero mandal-o á rapaziada em Lisboa!... E que effeito fez?
--Um escandalo mestre.
--E os padrecas?
--Em braza!
--Mas como souberam que eras tu?
João Eduardo encolheu os hombros. O Agostinho não o dissera. Desconfiava da mulher do Godinho, que o sabia pelo marido, e que o fôra metter no bico do padre Silverio, seu confessor, o padre Silverio da rua das Therezas...
--Um gordo, que parece hydropico?
--Sim.
--Que bêsta! rugiu o typographo com rancor.