O crime do padre Amaro, scenas da vida devota

Chapter 14

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Depois dos primeiros desesperos, desabafados em patadas no soalho e blasphemias de que pedia logo perdão a Nosso Senhor Jesus Christo, quiz serenar, estabelecer a razão das coisas. Aonde o levava aquella paixão? Ao escandalo. E assim, casada ella, cada um entrava no seu destino legitimo e sensato--ella na sua familia, elle na sua parochia. Depois, quando se encontrassem, um comprimento amavel; e elle poderia passear a cidade com a sua cabeça bem direita, sem medo dos ápartes da Arcada, das insinuações da gazeta, das severidades de sua excellencia e das picadinhas da consciencia! E a sua vida seria feliz.--Não, por Deus! a sua vida não poderia ser feliz sem ella! Tirado á sua existencia aquelle interesse das visitas à rua da Misericordia, os apertosinhos de mão, a esperança de delicias melhores--que lhe restava a elle? Vegetar, como um dos tortolhos nos cantos humidos do adro da Sé! E ella, ella que o entontecera com os seus olhinhos e as suas maneirinhas, voltava-lhe as costas mal lhe apparecia outro, bom para marido, com 25$000 reis por mez! Todos aquelles suspiros, aquellas mudanças de côr--chalaça! Mangára com o senhor parocho!...

O que a odiava!--menos que o outro porém, o outro que triumphava porque era um homem, tinha a sua liberdade, o seu cabello todo, o seu bigode, um braço livre para lhe dar na rua! Repastava então a imaginação rancorosamente nas visões de felicidade do escrevente: via-o trazendo-a da igreja triumphantemente; via-o beijando-lhe o pescoço e o peito... E a estas idéas dava patadas furiosas no soalho--que assustavam a Vicencia na cozinha.

Depois procurava socegar, retomar a direcção das suas faculdades, applical-as todas a achar uma vingança, uma boa vingança! E voltava então o antigo desespero de não viver no tempo da inquisição, e com uma denuncia de irreligião ou de feiticeria, mandal-os ambos para um carcere. Ah! n'esse tempo um padre gozava! Mas agora, com os senhores liberaes, tinha de vêr aquelle miseravel escrevente a seis vintens por dia apoderar-se-lhe da rapariga--e elle, sacerdote instruido, que podia ser bispo, que podia ser Papa, tinha de vergar os hombros e ruminar solitariamente o seu despeito! Ah! se as maldições de Deus tinham algum valor--malditos fossem elles! Quereria vêl-os cheios de filhos, sem pão na prateleira, com o ultimo cobertor empenhado, resequidos de fome, injuriando-se,--e elle a rir-se, elle a regalar-se!...

Na segunda-feira não se conteve, foi á rua da Misericordia. A S. Joanneira estava em baixo na saleta com o conego Dias. E apenas viu Amaro:

--Oh, senhor parocho! bem apparecido! Estava a fallar em v. s.^a! Já estranhava não o vermos, agora que ha alegria em casa.

--Já sei, já sei, murmurou Amaro pallido.

--Alguma vez havia de ser, disse o conego jovialmente. Deus os faça felizes e lhes dê poucos filhos, que a carne está cara.

Amaro sorriu--escutando em cima o piano.

Era Amelia que tocava como outr'ora a valsa dos _Dois Mundos_; e João Eduardo, muito chegado a ella, voltava as folhas da musica.

--Quem entrou, _Ruça_? gritou ella sentindo os passos da rapariga nas escadas.

--O senhor padre Amaro.

Um fluxo de sangue abrazou-lhe o rosto--e o coração batia-lhe tão forte, que ficou um momento com os dedos immoveis sobre o teclado.

--Não se precisava cá do senhor padre Amaro, rosnou João Eduardo por entre dentes.

Amelia mordeu o beiço. Teve odio ao escrevente: n'um instante repugnou-lhe a sua voz, os seus modos, a sua figura de pé junto d'ella: pensou com deleite como depois de casada (já que tinha de casar) se confessaria toda ao padre Amaro, e não deixaria de o amar! Não sentia n'aquelle momento escrupulos; e quasi desejava que o escrevente lhe visse no rosto a paixão que a revolvia.

--Credo, creatura! disse-lhe. Chegue-se um pouco mais para lá, que nem me deixa os braços livres para tocar!

Terminou bruscamente a valsa dos _Dois Mundos_, começou a cantar o _Adeus_:

Ai! adeus! acabaram-se os dias Que ditosa vivi a teu lado!

A sua voz elevava-se, com uma modulação ardente,--dirigindo o canto, através do soalho, ao coração do parocho, em baixo.

E o parocho, com a sua bengala entre os joelhos, sentado no canapé, devorava todos os tons da voz d'ella--emquanto a S. Joanneira tagarellava, contando as peças de algodão que comprára para lençoes, os arranjos que ia fazer no quarto dos noivos, e as vantagens de viverem juntos...

--Uma felicidade por ahi além, interrompeu o conego erguendo-se pesadamente. E vamos lá para cima, que isto de noivos não se querem sós...

--Ah, lá n'isso, disse a S. Joanneira rindo, fio-me n'elle, que é homem de bem ás direitas.

Amaro, ao subir a escada, tremia--e, mal entrou na sala, o rosto d'Amelia, alumiado pelas luzes do piano, deu-lhe um deslumbramento, como se as vesperas do noivado a tivessem embellezado e a separação lh'a tornasse mais appetitosa. Foi dar-lhe gravemente um aperto de mão, outro ao escrevente, disse baixo, sem os olhar:

--Os meus parabens... Os meus parabens...

Voltou as costas, e foi conversar com o conego que se enterrára na sua poltrona queixando-se d'enfastiamento e reclamando o chá.

Amelia ficára como abstracta, correndo inconscientemente os dedos pelo teclado. Aquelle modo do padre Amaro confirmava a sua idéa: queria a todo o custo descartar-se d'ella, o ingrato! fazia «como se nada tivesse havido», o villão! Na sua cobardia de padre, com o terror do senhor chantre, do jornal, da Arcada, de tudo,--sacudia-a da sua imaginação, do seu coração, da sua vida, como se sacode um insecto que tem peçonha!... Então, para o enraivecer, começou a cochichar ternamente com o escrevente; roçava-se-lhe pelo hombro, rendida, com risinhos, segredinhos; tentaram, em alarido jovial, tocar uma peça a quatro mãos; depois ella beliscou-o, elle deu um gritinho exagerado.--E a S. Joanneira contemplava-os babosa, emquanto o conego dormitava já, e o padre Amaro, abandonado a um canto como outr'ora o escrevente, ia folheando o velho album.

Mas um brusco repique da campainha veio sobresaltal-os todos: passos rapidos galgaram a escada, pararam em baixo na saleta: e a _Ruça_ appareceu dizendo «que era o senhor padre Natario, que não desejava subir, e queria dar uma palavra ao senhor conego».

--Fracas horas para embaixadas, rosnou o conego, arrancando-se com custo ao fundo confortavel da poltrona.

Amelia fechou logo o piano--e a S. Joanneira pousando a meia foi em bicos de pés escutar ao alto da escada: fóra ventava forte, e para os lados da Praça afastava-se o toque de retreta.

Emfim a voz do conego chamou, de baixo, da porta da saleta:

--Ó Amaro!

--Padre-Mestre?

--Venha cá, homem. E diga á senhora que póde vir tambem.

A S. Joanneira desceu logo, muito assustada: Amaro imaginava que o padre Natario emfim descobrira o _liberal_!

A saleta parecia muito fria com a luz pequenina da vela sobre a mesa: e na parede, n'um velho painel muito escuro--que ultimamente o conego dera á S. Joanneira--destacava uma face livida de monge e um osso frontal de caveira.

O conego Dias accommodára-se ao canto do canapé, sorvendo reflectidamente a pitada; e Natario, que se agitava pela sala, exclamou logo:

--Boas noites, senhora! Olá, Amaro! Trago novidades!... Não quiz subir porque imaginei que estaria o escrevente, e estas coisas são cá para nós. Estava a começar a dizer ao collega Dias... Tive lá em casa o padre Saldanha. Temol-as boas!

O padre Saldanha era o confidente do senhor chantre. E o padre Amaro, já inquieto, perguntou:

--Coisa que nos toca?

Natario começou com solemnidade erguendo alto o braço:

--_Primo_: o collega Brito mudado da freguezia d'Amor para ao pé d'Alcobaça, para a serra, para o inferno...

--Que me diz!? exclamou a S. Joanneira.

--Obras do _liberal_, minha senhora! O nosso digno chantre levou-lhe tempo a meditar o _Communicado_ do _Districto_, mas por fim sahiu-se! O pobre Brito lá vai esfogueteado!...

--Sempre é o que se dizia da mulher do regedor... murmurou a boa senhora.

--Ólá! interrompeu severamente o conego. Então, senhora, então! Isto aqui não é casa de murmuração!... Siga com o seu recado, collega Natario.

--_Secundo_, continuou Natario: é o que eu ia dizer ao collega Dias... O senhor chantre, em vista do _Communicado_ e d'outros ataques da imprensa, está decidido a «reformar os costumes do clero diocesano», palavras do padre Saldanha. Que lhe desagradam summamente os conciliabulos de ecclesiasticos e de senhoras... Que quer saber o que é isso de sacerdotes ajanotados tentando meninas bonitas... Emfim, palavras textuaes de sua excellencia--_está decidido a limpar as cavalhariças d'Augias_!...--o que quer dizer em bom portuguez, minha senhora, que vai andar tudo n'uma roda-viva.

Houve uma pausa consternada. E Natario, plantado no meio da saleta com as mãos enterradas nas algibeiras, exclamou:

--Que lhes parece esta á ultima hora, hein?

O conego ergueu-se pachorrentamente:

--Olhe, collega, disse, entre mortos e feridos ha de escapar alguem... E a senhora não se fique ahi com essa cara de _Mater-dolorosa_, e mande servir o chá, que é o importante.

--Eu lá disse ao padre Saldanha...--começou Natario perorando.

Mas o conego interrompeu-o com força:

--O padre Saldanha é um patarata!... Vamos nós ás torradinhas, e lá em cima, diante dos rapazes, caluda.

O chá foi silencioso. O conego, a cada bocado de torrada, respirava affrontado, franzia muito o sobr'olho; a S. Joanneira, depois de fallar da D. Maria da Assumpção que estava mal do catarrho, ficou toda murcha, com a testa sobre o punho; Natario, a grandes passadas, fazia uma ventania na sala com as abas do casacão.

--E quando vem essa boda? exclamou elle, estacando subitamente diante d'Amelia e do escrevente; que tomavam o chá sobre o piano.

--Um dia cedo, respondeu ella sorrindo.

Amaro então ergueu-se devagar, e tirando o seu _cebolão_:

--São horas de me ir chegando á rua das Sousas, minhas senhoras, disse com uma voz desalentada.

Mas a S. Joanneira não consentiu. Credo, estavam todos mônos como se estivessem de pêzames!... Que fizessem um quino para espairecer...--O conego porém, sahindo do seu torpor, disse com severidade:

--Está a senhora muito enganada, ninguem está môno. Não ha razões senão para estar alegre. Pois não é verdade, senhor noivo?

João Eduardo mexeu-se, sorriu:

--Eu cá por mim, senhor conego, não tenho razão senão para estar feliz.

--Pois está claro, disse o conego. E agora Deus lhes dê boas noites a todos, que eu vou _quinar_ para valle de lençoes. E o Amaro tambem.

Amaro foi apertar silenciosamente a mão d'Amelia,--e os tres padres desceram calados.

Na saleta a vela ainda ardia com um murrão. O conego entrou a buscar o seu guardachuva; e então, chamando os outros, cerrando devagarinho a porta, disse-lhes baixo:

--Eu, collegas, não quiz assustar ha pouco a pobre senhora, mas essas coisas do chantre, esses fallatorios... É o diabo!

--É ter cautelinha, meninos! aconselhou Natario, abafando a voz.

--É sério, é sério, murmurou lugubremente o padre Amaro.

Estavam de pé no meio da saleta. Fóra o vento uivava: a luz da vela agitada fazia alternadamente destacar e reentrar na sombra do quadro o osso frontal da caveira: e em cima Amelia cantarolava a _Chiquita_.

Amaro recordava outras noites felizes em que elle, triumphante e sem cuidados, fazia rir as senhoras,--e Amelia, gorgeando _Ai chiquita que si_, revirava-lhe olhares rendidos...

--Eu, disse o conego, os collegas sabem, tenho que comer e beber, não me importa... Mas é necessario manter a honra da classe!

--E não carece duvida, acrescentou Natario, que se ha outro artigo e mais fallatorios, estala com certeza o raio...

--Olha o pobre Brito, murmurou Amaro, esfogueteado para a serra!...

Em cima decerto houve alguma graça, porque sentiram as risadas do escrevente.

Amaro rosnou com rancor:

--Grande galhofa, lá em cima!...

Desceram. Ao abrir a porta uma rajada de vento bateu a face de Natario d'uma chuva miudinha.

--Olha que noite! exclamou furioso.

Só o conego tinha guardachuva; e abrindo-o devagar:

--Pois meninos, não ha que vêr, estamos em calças pardas...

Da janella de cima, alumiada, sahiam os sons do piano, nos acompanhamentos da _Chiquita_. O conego soprava, agarrando fortemente o guardachuva contra o vento; ao lado Natario, cheio de fel, rilhava os dentes, encolhido no seu casacão; Amaro caminhava de cabeça cahida, n'um abatimento de derrota; e emquanto os tres padres, assim agachados sob o guardachuva do conego, iam chapinhando as poças pela rua tenebrosa, por traz a chuva penetrante e sonora ia-os ironicamente fustigando!

XII

D'ahi a dias, os frequentadores da botica, na Praça, viram com espanto o padre Natario e o doutor Godinho conversando em harmonia, á porta da loja de ferragens do Guedes. O recebedor,--que era escutado com deferencia em questões de politica estrangeira--observou-os com attenção através da porta vidrada da pharmacia, e declarou com um tom profundo «que não se admiraria mais se visse Victor Manoel e Pio IX passearem de braço dado»!

O cirurgião da camara porém não estranhava aquelle «commercio d'amizade».--Segundo elle o ultimo artigo da _Voz do Districto_, evidentemente escripto pelo doutor Godinho, (era o seu estylo incisivo, cheio de logica, atulhado d'erudição!) mostrava que a gente da Maia se queria ir aproximando da gente da Misericordia. O doutor Godinho (na expressão do cirurgião da camara) fazia tagatés ao governo civil e ao clero diocesano: a ultima phrase do artigo era significativa--«não seremos nós que regatearemos ao clero os meios de exercer proficuamente a sua divina missão!»

A verdade era (como observou um individuo obeso, o amigo Pimenta) que, se não havia ainda paz, já havia negociações--porque na vespera elle vira, com aquelles seus olhos que a terra tinha de comer, o padre Natario sahindo de manhã muito cedo da redacção da _Voz do Districto_!

--Oh, amigo Pimenta, essa é fabricada!

O amigo Pimenta ergueu-se com magestade, deu um puxão grave ao cós das calças, e ia indignar-se--quando o recebedor acudiu:

--Não, não, o amigo Pimenta tem razão. A verdade é que eu n'outro dia vi o patife do Agostinho fazer grande barretada ao padre Natario. E que o Natario traz intriga na mão, isso é seguro! Eu gósto d'observar as pessoas... Pois senhores, o Natario, que nunca apparecia aqui na Arcada, agora vejo-o sempre ahi com o nariz pelas lojas... Depois a grande amizade com o padre Silverio... Hão de reparar que são ambos certos ahi na Praça ás Ave-Marias... E é negocio com a gente do doutor Godinho... O padre Silverio é o confessor da mulher do Godinho... Umas coisas pegam com as outras!

Era muito commentada, com effeito, a nova amizade do padre Natario com o padre Silverio. Havia cinco annos tinha occorrido na sacristia da Sé, entre os dois ecclesiasticos, uma questão escandalosa: Natario correra até de guardachuva erguido para o padre Silverio, quando o bom conego Sarmento, banhado em lagrimas, o reteve pela batina, gritando:--«Oh, collega, que é a perdição da religião»! Desde então Natario e Silverio não fallavam--com desgosto de Silverio, um bonacheirão, d'uma obesidade hydropica, que, segundo diziam as suas confessadas, «era todo affeição e perdão». Mas Natario, sêcco e pequeno, tinha tenacidade no rancor. Quando o snr. chantre Valladares começou a governar o bispado, chamou-os, e, depois de lhes lembrar com eloquencia a necessidade «de manter a paz na Igreja», de lhes recordar o exemplo tocante de Castor e Pollux, empurrou Natario com uma brandura grave para os braços do padre Silverio--que o teve um momento sepultado na vastidão do peito e do estomago, murmurando todo commovido:

--Todos somos irmãos, todos somos irmãos!

Mas Natario, cuja natureza dura e grosseira nunca perdia, como o papelão, as dobras que tomava, conservou com o padre Silverio um tom amuado: na Sé ou na rua, resvalando junto d'elle com um geito brusco do pescoço, rosnava apenas: _Senhor padre Silverio, ás ordens!_

Havia porém duas semanas, uma tarde de chuva Natario fizera repentinamente uma visita ao padre Silverio--sob pretexto que «o pilhàra alli uma pancada d'agua, e que se vinha recolher um instante».

--E tambem, acrescentou, para lhe pedir a sua receita para a dôr d'ouvidos, que uma das minhas sobrinhas, coitada, está como doida, collega!

O bom Silverio, esquecendo decerto que ainda n'essa manhã vira as duas sobrinhas de Natario sãs e satisfeitas como dois pardaes, apressou-se a escrever a receita, todo feliz de utilisar os seus queridos estudos de medicina caseira; e murmurava, banhado de riso:

--Ora que alegria, collega, vêl-o aqui de novo n'esta sua casa!

A reconciliação foi tão publica--que o cunhado do senhor barão de Via-Clara, bacharel de grandes dotes poeticos, lhe dedicou uma d'aquellas satyras que elle intitulava _Ferrões_, que iam manuscriptas de casa em casa, muito saboreadas e muito temidas; e chamára a composição, tendo presente decerto a figura dos dois sacerdotes: _Famosa reconciliação do Macaco e da Baleia!_ Era com effeito frequente, agora, vêr a pequena figura de Natario gesticulando e saltitando ao lado do vulto enorme e pachorrento do padre Silverio.

Uma manhã mesmo os empregados da administração (que era então no largo da Sé) gozaram muito, observando da sacada os dois padres que passeavam no terraço, ao tepido sol de maio. O senhor administrador,--que passáva as horas da repartição namorando com um binoculo, por traz da vidraça do seu gabinete, a esposa do Telles alfaiate--começára subitamente a dar gargalhadas á janella: o escrivão Borges correu logo, de penna na mão, á varanda, a vêr de que ria sua senhoria, e, muito divertido, a fungar, chamou á pressa o Arthur Couceiro que estava copiando, para estudar á guitarra, uma canção da _Grinalda_: o amanuense Pires, severo e digno, aproximou-se, carregando para a orelha o seu barretinho de sêda, com horror ás correntes d'ar; e em grupo, d'olho arregalado, observavam os dois padres, que tinham parado á esquina da igreja. Natario parecia excitado: procurava decerto persuadir, abalar o padre Silverio; e em bicos de pés, plantado diante d'elle, agitava phreneticamente as mãos muito magras. Depois, subitamente, apoderou-se-lhe do braço, arrastou-o ao comprido do terraço lageado: ao fundo parou, recuou, fez um gesto largo e desolado, como attestando a perdição possivel d'elle, da Sé ao lado, da cidade, do universo em redor; o bom Silverio, com os olhos muito abertos, parecia apavorado. E recomeçaram a passear. Mas Natario exaltava-se: dava recuões bruscos, atirava estocadas com um longo dedo ao vasto estomago de Silverio, batia patadas furiosas nas lages polidas; e de repente, de braços pendentes, mostrava-se acabrunhado. Então o bom Silverio fallou um momento com a mão espalmada sobre o peito; immediatamente, a face biliosa de Natario illuminou-se; pulou, bateu no hombro do collega palmadinhas de muito jubilo,--e os dois sacerdotes entraram na Sé, chegados e rindo baixinho.

--Que patuscos! disse o escrivão Borges, que detestava sotainas.

--Aquillo tudo é a respeito do jornal, disse Arthur Couceiro, vindo retomar o seu trabalho lyrico. O Natario não socega emquanto não souber quem escreveu o _Communicado_; disse-o elle em casa da S. Joanneira... E a coisa pelo Silverio vai bem, que é o confessor da mulher do Godinho.

--Corja! rosnou o Borges com nojo. E continuou pachorrentamente o officio que compunha, remettendo para Alcobaça um preso--que ao fundo da saleta, entre dois soldados, esperava sobre um banco, prostrado e embrutecido, com uma face de fome e as mãos em ferros.

D'ahi a dias tinha havido na Sé o Officio de corpo presente pelo rico proprietario Moraes, que morrera d'um aneurisma, e a quem sua esposa (em penitencia decerto dos desgostos que lhe dera com a sua affeição desordenada por tenentes d'infanteria) estava fazendo, como se disse, «exequias de pessoa real».--Amaro desvestira-se, e na sacristia, á luz d'um velho candieiro de latão, escrevia assentos atrazados, quando a porta de carvalho rangeu, e a voz agitada de Natario disse:

--Ó Amaro, vossê está ahi?

--Que temos?

O padre Natario fechou a porta, e atirando os braços para o ar:

--Grande novidade, é o escrevente!

--Que escrevente?

--O João Eduardo! É elle! É o _liberal_! Foi elle que escreveu o _Communicado_!

--Que me diz vossê!?--fez Amaro attonito.

--Tenho provas, meu amigo! Vi o original, escripto pela letra d'elle. O que se chama _vêr_! Cinco tiras de papel!

Amaro, com os olhos esgazeados, fitava Natario.

--Custou! exclamou Natario. Custou, mas soube-se tudo! Cinco tiras de papel! E quer escrever outro! O senhor João Eduardo! O nosso rico amigo senhor João Eduardo!

--Vossê está certo d'isso?

--Se estou certo!... Estou a dizer-lhe que vi, homem!

--E como soube vossê, Natario?

Natario dobrou-se; e com a cabeça enterrada nos hombros, arrastando as palavras:

--Ah, collega, lá isso... Os _comos_ e os _porquês_... Vossê comprehende... _Sigillus magnus_!

E com uma voz aguda de triumpho, a largos passos pela sacristia:

--Mas ainda isto não é nada! O senhor Eduardo que nós viamos alli na casa da S. Joanneira, tão bom mocinho, é um patife antigo! É o intimo do Agostinho, o bandido da _Voz do Districto_! Está mettido na redacção até altas horas da noite... Uma orgia, vinhaça, mulheres... E gaba-se de ser atheu... Ha seis annos que se não confessa... Chama-nos a _canalha canonica_... É republicano... Uma fera, meu caro senhor, uma fera!

Amaro, escutando Natario, arrumava atarantadamente, com as mãos tremulas, papeis no gavetão da escrivaninha.

--E agora?... perguntou.

--Agora? exclamou Natario. Agora é esmagal-o!

Amaro fechou o gavetão, e muito nervoso, passando o lenço pelos labios seccos:

--Uma assim, uma assim! E a pobre rapariga, coitada... Casar agora com um homem d'esses... Um perdido!

Os dois padres, então, olharam-se fixamente. No silencio, o velho relogio da sacristia punha o seu _tic-tac_ plangente. Natario tirou da algibeira dos calções a caixa do rapé, e com os olhos ainda fixos em Amaro, a pitada nos dedos, disse sorrindo friamente:

--Desmanchar-lhe o casamentosinho, hein?

--Vossê acha? perguntou sôffregamente Amaro.

--Caro collega, é uma questão de consciencia... Para mim era uma questão de dever! Não se póde deixar casar a pobre pequena com um bréjeiro, um pedreiro-livre, um atheu...

--Com effeito! com effeito! murmurava Amaro.

--Vem a calhar, hein? fez Natario; e sorveu com gozo a pitada.

Mas o sacristão entrou; eram as horas de fechar a igreja; vinha perguntar se suas senhorias se demoravam.

--Um instante, snr. Domingos.

E, emquanto o sacristão corria os pesados ferrolhos da porta interior do pateo, os dois padres muito chegados fallavam baixo.

--Vossê vai ter com a S. Joanneira, dizia Natario. Não, escute, é melhor que lhe falle o Dias; o Dias é que deve fallar á S. Joanneira. Vamos pelo seguro. Vossê falle á pequena e diga-lhe simplesmente que o ponha fóra de casa!--E ao ouvido de Amaro:--Diga á rapariga que elle vive ahi de casa e pucarinho com uma desavergonhada!

--Homem! disse Amaro recuando, não sei se isso é verdade!

--Ha de ser. Elle é capaz de tudo. E depois é um meio de levar a pequena...

E foram descendo a igreja atraz do sacristão, que fazia tilintar o seu mólho de chaves, pigarreando grosso.

Nas capellas pendiam as armações de paninho negro agaloadas de prata; ao centro, entre quatro fortes tocheiras de grosso murrão, estava a eça, com o largo pano de velludilho cobrindo o caixão do Moraes, recahindo em pregas franjadas; á cabeceira tinha uma larga corôa de perpetuas; e aos pés pendia, d'um grande laço de fita escarlate, o seu habito de cavalleiro de Christo.

O padre Natario então parou; e tomando o braço d'Amaro com satisfação:

--E depois, meu caro amigo, tenho outra preparada ao cavalheiro...

--O quê?

--Cortar-lhe os víveres!

--Cortar-lhe os víveres!?