O crime do padre Amaro, scenas da vida devota
Chapter 13
--Ai, João Eduardo! fez a S. Joanneira com um grande suspiro, que me tira um peso do coração... Que tenho estado... Olhe, nem tenho dormido!...
João Eduardo presentiu que ella ia fallar do _Communicado_. Foi pôr o chapéo n'uma cadeira ao canto; e voltando á janella, com as mãos nos bolsos:
--Então porquê, porquê?
--Aquella pouca vergonha no _Districto!_ Que diz vossê? Aquella calumnia! Ai! tenho-me feito velha!
João Eduardo escrevera o artigo sob as solicitações do ciume, só para «enterrar» o padre Amaro; não previra o desgosto das duas senhoras; e vendo agora a S. Joanneira com duas lagrimas no branco dos olhos, sentia-se _quasi arrependido_. Disse ambíguamente:
--Eu li, é o diabo...
Mas aproveitando o sentimento da S. Joanneira para servir a sua paixão, acrescentou sentando-se, chegando a cadeira para ao pé d'ella:
--Eu nunca lhe quiz fallar d'isso, D. Augusta, mas... olhe que a Ameliasinha tratava o parocho com muita familiaridade... E pelas Gansosos, pelo Libaninho, mesmo sem quererem, a coisa ia-se sabendo, ia-se rosnando... Eu bem sei que ella, coitada, não via o mal, mas... a D. Augusta sabe o que é Leiria. Que linguas, hein!
A S. Joanneira então declarou que lhe ia fallar como a um filho: o artigo affligira-a, sobretudo por causa d'elle, João Eduardo. Porque emfim elle podia acreditar tambem, desfazer o casamento, e que desgosto! E ella podia dizer-lhe, como mulher de bem, como mãi, que não havia entre a pequena e o senhor parocho nada, nada, nada! Era a rapariga que tinha aquelle genio communicativo! E o parocho tinha boas palavras, sempre muito delicado... Que ella sempre o dissera, o senhor padre Amaro tinha maneiras que tocavam o coração...
--Decerto, disse João Eduardo mordendo o bigode, com a cabeça baixa.
A S. Joanneira então poz a mão de leve sobre o joelho do escrevente, e fitando-o:
--E olhe, não sei se me fica mal dizer-lh'o, mas a rapariga quer-lhe devéras, João Eduardo.
O coração do escrevente teve uma palpitação commovida.
--E eu! disse. A D. Augusta sabe a paixão que eu tenho por ella... E lá do artigo que me importa a mim!
Então a S. Joanneira limpou os olhos ao avental branco. Ai! era uma alegria para ella! Ella sempre o dissera, como rapaz de bem, não havia outro na cidade de Leiria!
--Vossê sabe, quero-lhe como filho!
O escrevente enterneceu-se:
--Pois vamos a isso, e tapam-se as bocas do mundo...
E erguendo-se, com uma solemnidade engraçada:
--Snr.^a D. Augusta! Tenho a honra de lhe pedir a mão...
Ella riu-se--e na sua alegria João Eduardo beijou-a na testa, filialmente.
--E falle á noite á Ameliasinha, disse ao sahir. Eu venho ámanhã, e felicidade não ha de faltar...
--Louvado seja Nosso Senhor! acrescentou a S. Joanneira retomando a sua costura, com um suspiro de muito allivio.
Apenas n'essa tarde Amelia voltou do Morenal, a S. Joanneira, que estava pondo a mesa, disse-lhe:
--Esteve ahi o João Eduardo...
--Ah!...
--Ahi esteve a fallar, coitado...
Amelia, calada, dobrava a sua manta de lã.
--Ahi esteve a queixar-se... continuou a mãi.
--Mas de quê? perguntou ella muito vermelha.
--Ora de quê! Que se fallava muito na cidade do artigo do _Districto_; que se perguntava a quem alludia o periodico com as _donzellas inexperientes_, e que a resposta era: «Quem ha de ser? a Amelia da S. Joanneira, da rua da Misericordia!» O pobre João diz que tem andado tão desgostoso!... Não se atrevia, por delicadeza, a fallar-te... Emfim...
--Mas que hei de eu fazer, minha mãi? exclamou Amelia com os olhos subitamente cheios de lagrimas áquellas palavras que cahiam sobre os seus tormentos como gotas de vinagre sobre feridas.
--Eu digo-te isto para teu governo. Faze o que quizeres, filha. Eu bem sei que são calumnias! Mas tu sabes o que são linguas do mundo... O que te posso dizer é que o rapaz não acreditou no periodico. Que era isso que me dava cuidado!... Credo! tirou-me o somno... Mas não, diz que não lhe importa o artigo, que te quer da mesma maneira, e está a arder por que se faça o casamento... E eu por mim o que fazia, para calar toda essa gente, era casar-me já. Eu bem sei que tu não morres por elle, bem sei. Deixa lá! Isso vem depois. O João é bom rapaz, vai ter o emprego...
--Vai ter o emprego!?
--Pois foi o que elle me veio dizer tambem... Esteve com o doutor Godinho, diz que lá para o fim do mez está empregado... Emfim tu fazes o que entenderes... Que olha que eu estou velha, filha, posso faltar-te d'um momento para o outro...
Amelia não respondeu, olhando de frente no telhado voarem os pardaes--menos desassocegados, n'aquelle instante, que os seus pensamentos.
Desde domingo vivia atordoada. Sabia bem que a _donzella inexperiente_ a que alludia o _Communicado_ era ella, Amelia, e torturava-a o vexame de vêr assim o seu amor publicado no jornal. Depois (como ella pensava, mordendo o beiço n'uma raiva muda, com os olhos afogados de lagrimas), aquillo vinha estragar tudo! Na Praça, na Arcada já se diria com risinhos perversos:--«Então a Ameliasita da S. Joanneira mettida com o parocho, hein?» Decerto o senhor chantre, tão severo em «coisas de mulheres,» reprehenderia o padre Amaro... E por alguns olhares, alguns apertos de mão, ahi estava a sua reputação estragada, estragado o seu amor!
Na segunda-feira, ao ir ao Morenal, parecera-lhe sentir pelas costas risinhos a escarnecel-a; no aceno que lhe fez da porta da botica o respeitavel Carlos julgou vêr uma seccura reprehensível; á volta encontrára o Marques da loja de ferragens, que não lhe tirou o chapéo, e ao entrar em casa julgava-se desacreditada--esquecendo que o bom Marques era tão curto da vista que usava na loja duas lunetas sobrepostas.
--Que hei de eu fazer? que hei de eu fazer? murmurava, às vezes, com as mãos apertadas na cabeça. O seu cerebro de devota apenas lhe fornecia soluções devotas--entrar n'um recolhimento, fazer uma promessa a Nossa Senhora das Dôres «para que a livrasse d'aquelle apuro», ir confessar-se ao padre Silverio... E terminava por se vir sentar resignadamente ao pé da mãi com a sua costura, considerando, muito enternecida, que desde pequena fôra sempre bem infeliz!
A mãi não lhe fallára claramente sobre o _Communicado_; tivera apenas palavras ambíguas:
--É uma pouca vergonha... É deitar ao desprezo... Quando a gente tem a sua consciencia socegada, o mais historias...
Mas Amelia via-lhe bem o desgosto--na face envelhecida, nos tristes silencios, nos suspiros repentinos quando fazia meia á janella com a luneta na ponta do nariz: e então mais se convencia que havia «grande fallatorio na cidade», de que a mãi, coitada, estava informada pelas Gansosos e pela D. Josepha Dias--cuja boca produzia o mexerico mais naturalmente que a saliva. Que vergonha, Jesus!
E então o seu amor pelo parocho, que até ahi, n'aquella reunião de saias e batinas da rua da Misericordia se lhe afigurára natural, agora, julgando-o reprovado pelas pessoas que desde pequena fora acostumada a respeitar--os Guedes, os Marques, os Vazes,--apparecia-lhe já monstruoso: assim as côres d'um retrato pintado á luz d'azeite, e que á luz d'azeite parecem justas, tomam tons falsos e disformes quando lhes cae em cima a luz do sol. E quasi estimava que o padre Amaro não tivesse voltado á rua da Misericordia.
No emtanto, com que anciedade esperava todas as noites o seu toque de campainha! Mas elle não vinha; e aquella ausencia, que a sua razão julgava prudente, dava ao seu coração o desespero d'uma traição. Na quarta-feira á noite não se conteve, disse, córando sobre a sua costura:
--Que será feito do senhor parocho?
O conego, que na sua poltrona parecia dormitar, tossiu grosso, mexeu-se, rosnou:
--Mais que fazer... E escusam de esperar por elle tão cedo!...
E Amelia, que ficára branca como a cal, teve immediatamente a certeza que o parocho, aterrado com o escandalo do jornal, aconselhado pelos padres timoratos zelosos «do bom nome do clero»--tratava de se descartar d'ella! Mas, cautelosa, diante das amigas da mãi, escondeu o seu desespero: foi mesmo sentar-se ao piano, e tocou mazurkas tão estrondosas--que o conego, tornando a mexer-se na poltrona, grunhiu:
--Menos espalhafato e mais sentimento, rapariga!
Passou uma noite agoniada, e sem chorar. A sua paixão pelo parocho flammejava mais irritada; e todavia detestava-o pela sua cobardia. Mal uma allusão n'um jornal o picára, ficára a tremer na sua batina, apavorado, não se atrevendo sequer a visital-a--sem se lembrar que tambem ella se via diminuida na sua reputação, sem ser satisfeita no seu amor! E fôra elle que a tentára com as suas palavrinhas dôces, as suas denguices! Infame!... Desejava violentamente apertal-o ao coração--e esbofeteal-o. Teve a idéa insensata de ir ao outro dia à rua das Sousas atirar-se-lhe aos braços, installar-se-lhe no quarto, fazer um escandalo que o obrigasse a fugir da diocese... Porque não? Eram novos, eram robustos, poderiam viver longe, n'outra cidade--e a sua imaginação começou a repastar-se logo hystericamente nas perspectivas deliciosas d'essa existencia, em que se figurava constantemente a dar-lhe beijos! Através da sua intensa excitação, aquelle plano parecia-lhe muito pratico, muito facil: fugiriam para o Algarve; lá, elle deixaria crescer o cabello (que mais bonito seria então!) e ninguem saberia que era um padre; poderia ensinar latim, ella coseria para fóra; e viveriam n'uma casinha--onde o que mais a attrahia era o leito com as duas travesseirinhas chegadas... E a unica difficuldade que via em todo este plano radiante era fazer sahir de casa, às escondidas da mãi, o bahú com a sua roupa!--Mas quando acordou, essas resoluções morbidas, á luz clara do dia, desfizeram-se como sombras: tudo aquillo lhe parecia agora tão impraticavel, e elle tão separado d'ella, como se entre a rua da Misericordia e a rua das Sousas se erguessem inaccessivelmente todas as montanhas da terra. Ai, o senhor parocho abandonára-a, era certo! Não queria perder os lucros da sua parochia nem a estima dos seus superiores!... Pobre d'ella! Considerou-se então para sempre infeliz e desinteressada da vida. Guardou, todavia, muito intenso o desejo de se vingar do padre Amaro.
Foi então que reflectiu, pela primeira vez, que João Eduardo desde a publicação do _Communicado_ não apparecera na rua da Misericordia. Tambem me volta as costas--pensou com amargura. Mas que lhe importava! No meio da afflicção que lhe dava o abandono do padre Amaro, a perda do amor do escrevente, piegas e pesado, que lhe não trazia utilidade nem prazer, era uma contrariedade imperceptivel: uma infelicidade viera que lhe arrebatava bruscamente todas as affeições--a que lhe enchia a alma e a que apenas lhe acariciava a vaidadesinha: e irritava-a, sim, não sentir já o amor do escrevente collado a suas saias, com a docilidade d'um cão--mas todas as suas lagrimas eram para o senhor parocho, «que já não queria saber d'ella»! Só lamentava a deserção de João Eduardo, porque perdia assim um meio sempre prompto de fazer enraivecer o padre Amaro...
Por isso n'essa tarde á janella, calada, olhando no telhado defronte voarem os pardaes--depois de saber que João Eduardo, certo do emprego, viera fallar emfim á mãi,--pensava com satisfação no desespero do parocho ao vêr publicados na Sé os banhos do seu casamento. Depois as palavras muito praticas da S. Joanneira trabalhavam-lhe silenciosamente n'alma: o emprego do governo civil rendia 25$000 reis mensaes; casando, reentrava logo na sua respeitabilidade de senhora; e se a mãi morresse, com o ordenado do homem e com o rendimento do Morenal, podia viver com decencia, ir mesmo no verão aos banhos... E via-se já na Vieira, muito comprimentada pelos cavalheiros, conhecendo talvez a do governador civil.
--Que lhe parece, minha mãi?--perguntou bruscamente. Estava decidida pelas vantagens que entrevia; mas, com a sua natureza lassa, desejava ser persuadida e forçada.
--Eu ia pelo seguro, filha--foi a resposta da S. Joanneira.
--É sempre o melhor--murmurou Amelia entrando no quarto. E sentou-se muito triste aos pés da cama, porque a melancolia que lhe dava o crepusculo tornava-lhe agora mais pungente a saudade «dos seus bons tempos com o senhor parocho».
N'essa noite choveu muito, as duas senhoras passaram sós. A S. Joanneira, repousada agora das suas inquietações, estava muito somnolenta, a cada momento cabeceava com a meia cahida no regaço. Amelia então pousava a costura, e com o cotovêlo sobre a mesa, fazendo girar o _abat-jour_ verde do candieiro, pensava no seu casamento: o João Eduardo era bom rapaz, coitado; realisava o typo de marido tão estimado na pequena burguezia--não era feio e tinha um emprego; decerto o offerecimento da sua mão, apesar das infamias do jornal, não lhe parecia, como a mãi dissera, «um rasgo de mão cheia»; mas a sua dedicação lisonjeava-a, depois do abandono tão cobarde de Amaro: e havia dois annos que o pobre João gostava d'ella... Começou então laboriosamente a lembrar tudo o que n'elle lhe agradava--o seu ar sério, os seus dentes muito brancos, a sua roupa aceada.
Fóra ventava forte, e a chuva, fustigando friamente as vidraças, dava-lhe appetites de confortos, um bom lume, o marido ao lado, o pequerrucho a dormir no berço--porque seria um rapaz, chamar-se-hia Carlos e teria os olhos negros do padre Amaro. O padre Amaro!... Depois de casada, decerto, tornaria a encontrar o senhor padre Amaro... E então uma idéa atravessou todo o seu sêr, fêl-a erguer bruscamente, ir por instincto procurar a escuridão da janella para occultar a vermelhidão do rosto. Oh! isso não, isso não! Era horrível!... Mas a idéa implacavelmente apoderára-se d'ella como um braço muito forte que a suffocava e lhe dava uma agonia deliciosa. E então o antigo amor, que o despeito e a necessidade tinham recalcado no fundo da_sua alma, rompeu, inundou-a: murmurou repetidamente, com paixão, torcendo as mãos, o nome d'Amaro: desejou avidamente os seus beijos--oh! adorava-o! E tudo tinha acabado, tudo tinha acabado! E devia casar, pobre d'ella!... Então á janella, com a face contra a escuridão da noite, choramingou baixinho.
Ao chá a S. Joanneira disse-lhe, de repente:
-Pois a coisa a fazer-se, filha, devia ser já... Era começar o enxoval, e se fosse possivel casar-te para o fim do mez.
Ella não respondeu--mas a sua imaginação alvoroçou-se áquellas palavras. Casada d'ahi a um mez, ella! Apesar de João Eduardo lhe ser indifferente, a idéa d'aquelle rapaz, novo e apaixonado, que ia viver com ella, dormir com ella, deu uma perturbação a todo o seu sêr.
E quando a mãi ia descer ao quarto disse-lhe:
--Que lhe parece, minha mãi? Eu está-me a custar entrar em explicações com o João Eduardo, dizer-lhe que sim. O melhor era escrever-lhe...
--Tambem acho, filha, escreve-lhe... A _Ruça_ leva a carta pela manhã... Uma carta bonita, e que agrade ao rapaz.
Amelia ficou na sala de jantar até tarde fazendo o rascunho da carta. Dizia:
«Snr. João Eduardo,
«A mamã cá me pôz ao facto da conversação que teve comsigo. E se a sua affeição é verdadeira, como creio e me tem dado muitas provas, eu estou pelo que se decidiu com muito boa vontade, pois conhece os meus sentimentos. E a respeito d'enxoval e papeis, ámanhã se fallará, pois que o esperamos para o chá. A mamã está muito contente e eu desejo que tudo seja para nossa felicidade, como espero ha de ser, com a ajuda de Deus. A mamã recommenda-se e eu sou
a que muito lhe quer,
_«Amelia Caminha»_.
Apenas fechou a carta, as folhas de papel branco espalhadas diante d'ella deram-lhe o desejo d'escrever ao padre Amaro. Mas o quê? Confessar-lhe o seu amor, com a mesma penna, molhada na mesma tinta, com que aceitava por marido o _outro_?... Accusal-o da sua cobardia, mostrar o seu desgosto--era humilhar-se! E, apesar de não ter motivo para lhe escrever, a sua mão ia traçando com gozo as primeiras palavras _«Meu adorado Amaro...»_ Deteve-se, considerando que não tinha por quem mandar a carta. Ai! tinham de separar-se assim, em silencio, para sempre!... Separarem-se porquê?--pensou. Depois de casada podia bem vêr o senhor padre Amaro. E a mesma idéa voltava, subtilmente, mas n'uma fórma tão honesta agora, que a não repellia: decerto, o senhor padre Amaro podia ser o seu confessor; era em toda a christandade a pessoa que melhor guiaria a sua alma, a sua vontade, a sua consciencia; haveria então entre elles uma troca deliciosa e constante de confidencias, de dôces admoestações; todos os sabbados iria receber ao confessionario, na luz dos seus olhos e no som das suas palavras, uma provisão de felicidade; e aquillo seria casto, muito picante, e para gloria de Deus.
Sentiu-se quasi satisfeita com a impressão, que não definia bem, d'uma existencia em que a carne estaria legitimamente contente, e a sua alma gozaria os encantos d'uma devoção amorosa. Tudo vinha a calhar bem, por fim... E d'ahi a pouco dormia serenamente, sonhando que estava na _sua_ casa, com o _seu_ marido, e que jogava a manilha com as velhas amigas, no meio do contentamento de toda a Sé, sentada nos joelhos do senhor parocho.
Ao outro dia a _Ruça_ levou a carta a João Eduardo, e toda a manhã as duas senhoras, costurando á janella, fallaram do casamento. Amelia não se queria separar da mãi, e, como a casa tinha accommodações, os noivos viveriam no primeiro andar, e a S. Joanneira dormiria no quarto em cima; decerto o senhor conego ajudaria para o enxoval; podiam ir passar a lua de mel para a fazenda da D. Maria. E Amelia áquellas perspectivas felizes fazia-se toda escarlate, sob o olhar da mãi que, de luneta na ponta do nariz, a admirava babosa.
Ás Ave-Marias a S. Joanneira fechou-se em baixo no seu quarto a rezar a sua corôa, e deixou Amelia só «para se entender com o rapaz».--D'ahi a pouco, com effeito, João Eduardo bateu á campainha. Vinha muito nervoso, de luvas pretas, enfrascado em agua de colonia. Quando chegou á porta da sala de jantar não havia luz, e a bonita fórma d'Amelia destacava de pé, junto á claridade da vidraça. Elle pôz o chale-manta a um canto como costumava, e vindo para ella que ficára immovel, disse-lhe, esfregando muito as mãos:
--Lá recebi a cartinha, menina Amelia...
--Eu mandei-a pela _Ruça_ logo pela manhã para o pilhar em casa, disse ella immediatamente com as faces a arder.
--Eu ia para o cartorio, até já ia na escada... Haviam de ser nove horas...
--Haviam de ser... disse ella.
Calaram-se, muito perturbados. Elle então tomou-lhe delicadamente os pulsos, e baixo:
--Então sempre quer?
--Quero, murmurou Amelia.
--E o mais depressa possivel, hein?
--Pois sim...
Elle suspirou, muito feliz.
--Havemos de nos dar muito bem, havemos de nos dar muito bem! dizia. E as suas mãos, com pressões ternas, iam-se apoderando dos braços d'ella, dos pulsos aos cotovêlos.
--A mamã diz que podemos viver juntos, disse ella, esforçando-se por fallar tranquillamente.
--Está claro, e eu vou mandar fazer lençoes, acudiu elle, todo alterado.
Attrahiu-a então a si, subitamente, beijou-lhe os labios; ella teve um soluçosinho, abandonou-se-lhe entre os braços, toda fraca, toda languida.
--Oh, filha! murmurava o escrevente.
Mas os sapatos da mãi rangeram na escada, e Amelia foi vivamente para o aparador accender o candieiro.
A S. Joanneira parou á porta; e para dar a sua primeira approvação maternal, disse, com bonhomia:
--Então vossês estão aqui ás escuras, filhos?
Foi o conego Dias que participou ao padre Amaro o casamento d'Amelia, uma manhã, na Sé. Fallou no «a proposito do enlace», e acrescentou:
--Eu estimo, porque é a contento da rapariga, e é um descanso para a pobre velha...
--Está claro, está claro...--murmurou Amaro que se fizera muito branco.
O conego pigarreou grosso, e ajuntou:
--E vossê agora appareça por lá, agora está tudo na ordem... A patifaria do jornal isso pertence á historia... O que lá vai, lá vai!
--Está claro, está claro...--rosnou Amaro. Traçou bruscamente a capa, sahiu da igreja.
Ia indignado; e continha-se, para não praguejar alto, pelas ruas. Á esquina da viella das Sousas quasi esbarrou com Natario, que o agarrou logo pela manga, para lhe soprar ao ouvido:
--Ainda não sei nada!
--De quê?
--Do _liberal_, do _Communicado_. Mas trabalho, trabalho!
Amaro, que anciava por desabafar, disse logo:
--Então ouviu a novidade? O casamento d'Amelia... Que lhe parece?
--Disse-me o animal do Libaninho. Diz que o rapaz apanhou o emprego... Foi o doutor Godinho... É outro que tal!... Veja vossê esta corja: o doutor Godinho no jornal ás bulhas com o governo civil, e o governo civil a atirar postas aos afilhados do doutor Godinho... Vá lá entendel-os! Isto é um paiz de biltres!
--Diz que grande alegrão na casa da S. Joanneira!--disse o parocho, com um azedume negro.
--Que se divirtam! Eu não tenho tempo de lá ir... Eu não tenho tempo para nada!... Eu cá ando no meu fito, saber quem é o _liberal_ e escachal-o! Não posso vêr esta gente que leva a chicotada, coça-se, e curva a orelha. Eu cá não! eu guardo-as!--E, com uma contracção de rancor que lhe curvou os dedos em garra e lhe encolheu o peito magro. disse por entre os dentes cerrados:--Eu, quando odeio, odeio bem!
Esteve um momento calado, gozando o sabôr do seu fel.
--Vossê se fôr á rua da Misericordia dê lá os parabens a essa gente...--E acrescentou com os olhinhos em Amaro:--O palerma do escrevente leva a rapariga mais bonita da cidade! Vai encher o papo!
--Até á vista! exclamou bruscamente Amaro, abalando pela rua furioso.
Depois d'aquelle terrivel domingo em que apparecera o _Communicado_, o padre Amaro, ao principio, muito egoistamente, apenas se preoccupára com as consequências--«consequencias fataes, santo Deus!»--que lhe podia trazer o escandalo. Hein! se pela cidade se espalhasse que era elle o _padre ajanotado_ que o _liberal_ apostrophava! Viveu dois dias aterrado, tremendo de vêr apparecer o padre Saldanha, com a sua cara ameninada e voz melliflua, a dizer-lhe «que sua excellencia o senhor chantre reclamava a sua presença»! Passava já o tempo preparando explicações, respostas habeis, lisonjas a sua excellencia.--Mas quando viu que, apesar da violencia do artigo, sua excellencia parecia disposto «a fazer a vista grossa», occupou-se então, mais tranquillo, dos interesses do seu amor tão violentamente perturbados. O medo tornava-o astucioso; e decidiu não voltar algum tempo á rua da Misericordia.
--Deixar passar o aguaceiro, pensou.
Ao fim de quinze dias, tres semanas, quando o artigo estivesse esquecido, appareceria de novo em casa da S. Joanneira: deixaria vêr bem á rapariga que a adorava sempre, mas evitaria a antiga familiaridade, as conversasinhas baixas, os logarzinhos chegados ao quino; depois, pela D. Maria da Assumpção, pela D. Josepha Dias, obteria que Amelia deixasse o padre Silverio, e se confessasse a elle: poderiam então entender-se, no segredo do confessionario: combinariam uma conducta discreta, encontros cautelosos aqui e além, cartinhas pela criada: e aquelle amor assim conduzido, com prudenciasinha, não teria o perigo de apparecer uma manhã annunciado no periodico! E regosijava-se já da habilidade d'esta combinação, quando lhe vinha o grande choque--casava-se a rapariga!