O crime do padre Amaro, scenas da vida devota

Chapter 12

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«Deve ter comprehendido que lhe voto um fervente affecto, e pela sua parte me parece, (se não me enganam esses olhos que são os pharoes da minha vida, e como a estrella do navegante) que tambem tu, minha Ameliasinha, tens inclinação por quem tanto te adora; pois que até outro dia, quando o Libano quinou com os seis primeiros numeros, e que todos fizeram tanta algazarra, tu apertaste-me a mão por baixo da mesa com tanta ternura, que até me pareceu que o céo se abria e que eu sentia os anjos entoarem o Hossana! Porque não respondeste pois? Se pensas que o nosso affecto póde ser desagradavel aos nossos anjos da guarda, então te direi que maior peccado commettes trazendo-me n'esta incerteza e tortura, que até na celebração da missa estou sempre com o pensar em ti, e nem me deixa elevar a minha alma no divino sacrificio. Se eu visse que este mutuo affecto era obra do tentador, eu mesmo te diria: oh minha bem amada filha, façamos o sacrificio a Jesus, para lhe pagar parte do sangue que derramou por nós! Mas eu tenho interrogado a minha alma e vejo n'ella a brancura dos lirios. E o teu amor tambem é puro como a tua alma, que um dia se unirá á minha, entre os córos celestes, na bemaventurança. Se tu soubesses como eu te quero, querida Ameliasinha, que até às vezes me parece que te podia comer aos bocadinhos! Responde pois, e dize se não te parece que poderia arranjar-se a vermo-nos no Morenal, pela tarde. Pois eu anceio por te exprimir todo o fogo que me abraza, bem como fallar-te de coisas importantes, e sentir na minha mão a tua que eu desejo que me guie pelo caminho do amor, até aos extases d'uma felicidade celestial. Adeus, anjo feiticeiro, recebe a offerta do coração do teu amante e pai espiritual

«_Amaro_».

Depois de jantar copiou esta carta a tinta azul, e com ella bem dobrada no bolso da batina foi á rua da Misericordia. Logo da escada sentiu em cima a voz aguda de Natario, discutindo.

--Quem está por cá?--perguntou á _Ruça_, que alumiava, encolhida no seu chale.

--As senhoras todas. Está o senhor padre Brito.

--Ólá! Bella sociedade!

Galgou os degraus, e á porta da sala, com o seu capote ainda pelos hombros, tirando alto o chapéo:

--Muito boas noites a todos, começando pelas senhoras.

Natario, immediatamente, plantou-se diante d'elle e exclamou:

--Então que lhe parece?

--O quê? perguntou Amaro. E reparando no silencio, nos olhos cravados n'elle:--O que é? Alguma coisa de novo?

--Pois não leu, senhor parocho!? exclamaram. Não leu o _Districto_!?

Era papel em que elle não puzera os olhos, disse. Então as senhoras indignadas romperam:

--Ai! é um desafôro!

--Ai! é um escandalo, senhor parocho!

Natario, com as mãos enterradas nas algibeiras, contemplava o parocho com um sorrisinho sarcastico, soltando d'entre os dentes:

--Não leu! Não leu! Então que fez?

Amaro reparava, já aterrado, na pallidez d'Amelia, nos seus olhos muito vermelhos. E emfim o conego erguendo-se pesadamente:

--Amigo parocho, dão-nos uma desanda!...

--Ora essa! exclamou Amaro.

--Têsa!

O senhor conego, que trouxera o jornal, devia ler alto--lembraram.

--Leia, Dias, leia, acudiu Natario. Leia, para saborearmos!

A S. Joanneira deu mais luz ao candieiro: o conego Dias accommodou-se á mesa, desdobrou o jornal, pôz os oculos cuidadosamente, e, com o lenço do rapé nos joelhos, começou a leitura do _Communicado_ na sua voz pachorrenta.

O principio não interessava: eram periodos enternecidos em que o _liberal_ exprobrava aos phariseus a crucifixão de Jesus:--«Por que o matasteis? (exclamava elle). Respondei!» E os phariseus respondiam:--«Matamol-o porque elle era a liberdade, a emancipação, a aurora de uma nova era», etc. O _liberal_ então esboçava, a largos traços, a noite do Calvario:--«Eil-o pendente da cruz, traspassado de lanças, a sua tunica jogada aos dados, a plebe infrene», etc. E, voltando a dirigir-se aos phariseus infelizes, o _liberal_ gritava-lhes com ironia:--«Contemplai a vossa bella obra!» Depois, por uma gradação habil, o _liberal_ descia de Jerusalem a Leiria:--«Mas pensam os leitores que os phariseus morreram? Como se enganam! Vivem! conhecemol-os nós; Leiria está cheia d'elles, e vamos apresental-os aos leitores...»

--Agora é que ellas começam, disse o conego olhando para todos em redor, por cima dos oculos.

Com effeito «ellas começavam»; era, n'uma fórma brutal, uma galeria de photographias ecclesiasticas: a primeira era a do padre Brito:--«Vêde-o, (exclamava o _liberal_) grosso como um touro, montado na sua egua castanha...»

--Até a côr da egua! murmurou com uma indignação piedosa a snr.^a D. Maria da Assumpção.

«...Estupido como um melão, sem sequer saber latim...»

O padre Amaro, assombrado, fazia: Oh! oh! E o padre Brito, escarlate, mexia-se na cadeira, esfregando devagar os joelhos.

«...Especie de caceteiro», continuava o conego que lia aquellas phrases crueis com uma tranquillidade dôce, «desabrido de maneiras, mas que não desgosta de se dar á ternura, e, segundo dizem os bem informados, escolheu para Dulcinêa a propria e legitima esposa do seu regedor...»

O padre Brito não se dominou:

--Eu racho-o de meio a meio! exclamou erguendo-se e recahindo pesadamente na cadeira.

--Escute, homem! disse Natario.

--Qual escute! O que é, é que o racho!

Mas se elle não sabia quem era o _liberal_!

--Qual _liberal_! Quem eu racho é o doutor Godinho. O doutor Godinho é que é o dono do jornal. O doutor Godinho é que eu racho!

A sua voz tinha tons roucos: e atirava furioso grandes palmadas á côxa.

Lembraram-lhe o dever christão de perdoar as injurias. A S. Joanneira com unção citou a bofetada que Jesus Christo supportou. Devia imitar Christo.

--Qual Christo, qual cabaça! gritou Brito apopletico.

Aquella impiedade creou um terror.

--Credo, senhor padre Brito, credo! exclamou a irmã do conego recuando a cadeira.

O Libaninho, com as mãos na cabeça, vergado sob o desastre, murmurava:

--Nossa Senhora das Dôres, que até póde cahir um raio!

E, vendo mesmo Amelia indignada, o padre Amaro disse gravemente:

--Brito, realmente vossê excedeu-se.

--Pois se estão a puxar por mim!...

--Homem, ninguem puxou por vossê, disse severamente Amaro. E com um tom pedagogo:--Apenas lhe lembrarei, como devo, que em taes casos, quando se diz a _blasphemia má_, o reverendo padre Scomelli recommenda confissão geral e dois dias de recolhimento a pão e agua.

O padre Brito resmungava.

--Bem, bem, resumiu Natario. O Brito commetteu uma grande falta, mas saberá pedir perdão a Deus, e a misericordia de Deus é infinita!

Houve uma pausa commovida em que se ouviu a snr.^a D. Maria da Assumpção murmurar «que ficára sem pinga de sangue»; e o conego, que durante a catastrophe pousára os oculos sobre a mesa, retomou-os, e continuou serenamente a leitura:

«...Conheceis um outro com cara de furão?...»

Olhares de lado fixaram o padre Natario.

«...Desconfiai d'elle: se puder trahir-vos, não hesita; se puder prejudicar-vos, folga: as suas intrigas trazem o cabido n'uma confusão porque é a vibora mais damninha da diocese, mas com tudo isso muito dado á jardinagem, porque cultiva com cuidado _duas rosas do seu canteiro_.»

--Homem, essa! exclamou Amaro.

--É para que vossê veja, disse Natario erguendo-se lívido. Que lhe parece? Vossê sabe que eu, quando fallo das minhas sobrinhas, costumo dizer _as duas rosas do meu canteiro_. É um gracejo. Pois senhores, até vem com isto!--E com um sorriso macilento, de fel:--mas ámanhã hei de saber quem é! Ólaré! Eu hei de saber quem é!

--Deite ao desprezo, senhor padre Natario, deite ao desprezo, disse a S. Joanneira pacificadora.

--Obrigado, minha senhora, acudiu Natario curvando-se com uma ironia rancorosa--obrigado! Cá recebi!

Mas a voz imperturbavel do conego retomára a leitura. Agora era o retrato d'elle, traçado com odio:

«...Conego bojudo e glutão, antigo caceteiro do senhor D. Miguel, que foi expulso da freguezia de Ourem, outr'ora mestre de Moral n'um seminario e hoje mestre de immoralidade em Leiria...»

--Isso é infame! exclamou Amaro exaltado.

O conego pousou o jornal, e com a voz pachorrenta:

--Vossê pensa que me dá isto cuidado? disse elle. Boa! Tenho que comer e que beber, graças a Deus! Deixar rosnar quem rosna!

--Não, mano, interrompeu a irmã, mas a gente sempre tem o seu bocadinho de brio!

--Ora, mana! replicou o conego Dias com um azedume de raiva concentrada. Ora, mana! ninguem lhe pede a sua opinião!

--Nem preciso que m'a peçam! gritou ella impertigando-se. Sei-a dar muito bem quando quero e como quero. Se não tem vergonha, tenho-a eu!

--Então! então!... disseram em roda, acalmando-a.

--Menos lingua, mana, menos lingua! disse o conego fechando os seus oculos. Olhe não lhe cáiam os dentes postiços!

--Seu malcriado!

Ia fallar, mas suffocou-se; e começou subitamente a soltar _ais_.

Recearam logo que lhe désse o _flato_: a S. Joanneira e a D. Joaquina Gansoso levaram-na para o quarto, em baixo, amparando-a, com palavras brandas:

--Estás doida! Por quem és, filha! Olha que escandalo! Nossa Senhora te valha!

Amelia mandava buscar agua de flôr de laranja.

--Deixe-a lá, rosnou o conego, deixe-a lá! Aquillo passa-lhe. São calores!

Amelia deu um olhar triste ao padre Amaro, e desceu ao quarto com a snr.^a D. Maria da Assumpção e a Gansoso surda, que iam tambem «socegar a D. Josepha, coitadita»! Os padres agora estavam sós; e o conego voltando-se para Amaro:--Ouça vossê, que é a sua vez--disse retomando o jornal.

--E verá que dóse! disse Natario.

O conego escarrou, aproximou mais o candieiro, e declamou:

«...Mas o perigo são certos padres novos e ajanotados, parochos por influencias de condes da capital, vivendo na intimidade das familias de bem onde ha donzellas inexperientes, e aproveitando-se da influencia do seu sagrado ministerio para lançar na alma da innocente a semente de chammas criminosas!»

--Pouca vergonha! murmurou Amaro livido.

«...Dize, sacerdote de Christo, onde queres arrastar a impolluta virgem? Queres arrastal-a aos lodaçaes do vicio? Que vens fazer aqui ao seio d'esta respeitavel familia? Porque rondas em volta da tua prêsa como o milhafre em torno da innocente pomba? Para traz, sacrilego! Murmuras-lhe seductoras phrases, para a desviares do caminho da honra; condemnas á desgraça e á viuvez algum honrado moço que lhe queira offerecer sua mão trabalhadora; e vaes-lhe preparando um horroroso futuro de lagrimas. E tudo para quê? Para saciares os torpes impulsos de tua criminosa lascivia!...»

--Que infame! rosnou com os dentes cerrados o padre Amaro.

«...Mas acautela-te, presbytero perverso!» E a voz do conego tinha tons cavos ao soltar aquellas apostrophes. «Já o archanjo levanta a espada da justiça. E sobre ti, e teus cumplices, já a opinião da illustrada Leiria fita seu olho imparcial. E nós cá estamos, nós, filhos do trabalho, para vos marcar na fronte o estigma da infamia. Tremei, sectarios do _Syllabus_! Cuidado, sotainas negras!»

--D'escacha! fez o conego suado, dobrando a _Voz do Districto_.

O padre Amaro tinha os olhos ennevoados de duas lagrimas de raiva: passou devagar o lenço pela testa, soprou, disse com os beiços a tremer:

--Eu, collegas, nem sei o que hei de dizer! Pelo Deus que me ouve, isto é a calumnia das calumnias.

--Uma calumnia infame... rosnaram.

-E a mim o que me parece, continuou Amaro, é que nos dirijamos á auctoridade!

--É o que eu tinha dito, acudiu Natario, é necessario fallar ao secretario geral...

--Um cacete é que é! rugiu o padre Brito. Auctoridade! O que é, é rachal-o! Eu bebia-lhe o sangue!...

O conego, que meditava coçando o queixo, disse então:

--E vossê, Natario, é que deve ir ao secretario geral. Vossê tem lingua, tem logica.

--Se os collegas decidem, disse Natario curvando-se, vou. E hei de lh'as cantar, á auctoridade!

Amaro ficára junto da mesa com a cabeça entre as mãos, aniquilado. E o Libaninho murmurava:

--Ai, filhos, eu não é nada commigo, mas só de ouvir todo esse aranzel, até se me estão a vergar as pernas. Ai, filhos, um desgosto assim...

Mas sentiram a voz da snr.^a Joaquina Gansoso subindo a escada; e o conego immediatamente com uma voz prudente:

--Collegas, o melhor, diante das senhoras, é não se fallar mais n'isto. Bem basta o que basta.

D'ahi a momentos, apenas Amelia entrou, Amaro ergueu-se, declarou que estava com uma forte dôr de cabeça, e despediu-se das senhoras.

--E sem tomar chá? acudiu a S. Joanneira.

--Sim, minha senhora, disse elle embrulhando-se no seu capote, não me estou a sentir bem. Boas noites... E vossê, Natario, appareça ámanhã pela Sé á uma hora.

Apertou a mão de Amelia, que se lhe abandonou entre os dedos passiva e molle,--e sahiu com os hombros vergados.

A S. Joanneira notou, desconsolada:

--O senhor parocho ia muito pallido...

O conego levantou-se, e com um tom impaciente e quezilado:

--Se ia pallido, ámanhã estará córado. E agora quero dizer uma coisa: esse aranzel do jornal é a calumnia das calumnias! Eu não sei quem o escreveu, nem para que o escreveu. Mas são tolices e são infamias. É pateta e maroto, quem quer que seja. O que devemos fazer já o sabemos, e como já se tagarellou bastante sobre o caso, a senhora mande vir o chá. E o que lá vai, lá vai, não se falla mais na questão.

As faces em roda continuavam contristadas.--E então o conego acrescentou:

--Ah! e quero dizer outra coisa: como não morreu ninguem, não ha necessidade de estar aqui com cara de pezames. E tu, pequena, senta-te ao instrumento e repenica-me essa _Chiquita_!

O secretario geral, o snr. Gouvêa Ledesma, antigo jornalista, e, em annos mais expansivos, auctor do livro sentimental _Devaneios de um sonhador_, estava então dirigindo o districto na ausencia do governador civil.

Era um moço bacharel que passava por ter talento. Representára de galan no theatro academico, em Coimbra, com muito applauso; e tomára a esse tempo o habito de passear á tarde na Sophia, com o ar fatal com que no palco arrepellava os cabellos, ou levava, nos transes d'amor, o lenço aos olhos. Depois em Lisboa arruinára um pequeno patrimonio com o amor de Lolas e de Carmens, ceias no Matta, muita calça no Xafredo e perniciosas convivencias litterarias: aos trinta annos estava pobre, saturado de mercurio e auctor de vinte folhetins romanticos na _Civilisação_: mas tornára-se tão popular, que era conhecido nos lupanares e nos cafés por um cognome carinhoso--era o _Bibi_. Julgando então que conhecia a fundo a existencia, deixou crescer as suiças, começou a citar Bastiat, frequentou as camaras e entrou na carreira administrativa; chamava agora á republica que tanto exaltára em Coimbra _uma absurda chimera_; e Bibi era um pilar das instituições.

Detestava Leiria, onde passava por espirituoso; e dizia ás senhoras, nas _soirées_ do deputado Novaes,--«que estava cansado da vida». Rosnava-se que a esposa do bom Novaes andava doida por elle: e em verdade Bibi escrevêra a um amigo da capital:--«emquanto a conquistas, pouco por ora; tenho apenas no papo a Novaesitos».

Levantava-se tarde; e n'essa manhã, de robe-de-chambre á mesa do almoço, partia os seus ovos quentes, lendo com saudade no jornal a narração apaixonada d'uma pateada em S. Carlos, quando o criado,--um gallego que trouxera de Lisboa--veio dizer que «estava alli um cura».

--Um cura? Que entre para aqui!--E murmurou para sua satisfação pessoal:--O Estado não deve fazer esperar a Igreja.

Ergueu-se, e estendeu as duas mãos ao padre Natario que entrava, muito composto, na sua longa batina de lustrina.

--Uma cadeira, Trindade! Toma uma chavena de chá, senhor cura? Soberba manhã, hein? Estava justamente pensando em v. s.^a--isto é, estava pensando no clero em geral... Acabava de lêr as peregrinações que se estão fazendo a Nossa Senhora do Lourdes... Grande exemplo! Milhares de pessoas da melhor roda... É realmente consolador vêr renascer a fé... Ainda hontem eu disse em casa do Novaes: «no fim de tudo a fé é a mola real da sociedade». Tome uma chavena de chá... Ah! é um grande balsamo!...

--Não, obrigado, almocei já.

--Mas não! Quando digo um grande balsamo refiro-me á fé, não ao chá! Ah! ah! É boa, não?

E prolongou a sua risadinha com complacencia. Queria agradar a Natario, pelo principio que repetia muito, com um sorriso astuto--«que quem está mettido na politica deve ter por si a padraria».

--E depois, acrescentou, como eu dizia hontem em casa do Novaes, que vantagem para as localidades! Lourdes, por exemplo, era uma aldeola; pois com a affluencia dos devotos está uma cidade... Grandes hoteis, _boulevards_, bellas lojas... É por assim dizer o desenvolvimento economico, correndo parelhas com o renascimento religioso.

E deu com satisfação um puxãosinho grave ao collarinho.

--Pois eu vinha aqui fallar a v. exc.^a a respeito d'um communicado na _Voz do Districto_.

--Ah! interrompeu o secretario geral, perfeitamente, li! Uma famosa verrina... Mas litterariamente, como estylo e como imagens, que miseria!

--E que tenciona v. exc.^a fazer, senhor secretario geral?

O snr. Gouvéa Ledesma apoiou-se nas costas da cadeira, perguntou pasmado:

--Eu!?

Natario disse, distillando as palavras:

--A auctoridade tem o dever de proteger a religião do Estado, e implicitamente os seus sacerdotes... Que tenha v. exc.^a em vista, eu não venho aqui em nome do clero...

E acrescentou com a mão sobre o peito:

--Sou apenas um pobre padre sem influencia... Venho, como particular, perguntar ao senhor secretario geral se se póde permittir que caracteres respeitaveis da Igreja diocesana sejam assim diffamados...

--É certamente lamentavel que um jornal...

Natario interrompeu, impertigando o busto com indignação:

--Jornal que já devia estar suspenso, senhor secretario geral!

--Suspenso!? Por quem é, senhor cura! Mas v. s.^a decerto não quer que eu volte aos tempos dos corregedores-móres! Suspender o jornal! Mas a liberdade de imprensa é um principio sagrado! Nem as leis de imprensa o permittem... Mesmo querelar pelo ministerio publico porque um periodico diz duas ou tres pilherias sobre o cabido, impossivel! Tínhamos de querelar de toda imprensa de Portugal, com excepção da _Nação_ e do _Bem Publico!_ Onde iria parar a liberdade de pensamento, trinta annos de progresso, a propria idéa governamental? Mas nós não somos os Cabraes, meu caro senhor! Nós queremos luz, muitissima luz! Justamente o que nós queremos é luz!

Natario tossiu devagarinho, disse:

--Perfeitamente. Mas então quando, pelas eleições, a auctoridade nos vier pedir o nosso auxilio, nós, vendo que não encontramos n'ella protecção, diremos simplesmente: _Non possumus_!

--E pensa o senhor cura, que por amor de alguns votos que dão os senhores abbades, nós vamos trahir a civilisação?

E o antigo _Bibi_, tomando uma grande attitude, soltou esta phrase:

--Somos filhos da liberdade, não renegaremos nossa mãi!

--Mas o doutor Godinho, que é a alma do jornal, é opposição, observou então Natario; proteger-lhe o jornal é implicitamente proteger-lhe as manobras...

O secretario geral teve um sorriso:

--Meu caro senhor cura, v. s.^a não está no segredo da politica. Entre o doutor Godinho e o governo civil não ha inimizade, ha apenas um arrufo... O doutor Godinho é uma intelligencia... Vai reconhecendo que o _grupo da Maia_ não produz nada... O doutor Godinho aprecia a politica do governo, e o governo aprecia o doutor Godinho.

E, rebuçando-se todo n'um mysterio d'Estado, acrescentou:

--Coisas d'alta política, meu caro senhor.

Natario ergueu-se:

--De modo que...

--_Impossibilis est_, disse o secretario. De resto acredite, senhor cura, que como particular revolto-me contra o _Communicado_; mas como auctoridade devo respeitar a expressão do pensamento... Mas creia, e póde dizel-o a todo o clero diocesano, a Igreja catholica não tem um filho mais fervente que eu, Gouvêa Ledesma... Quero porém uma religião liberal, de harmonia com o progresso, com a sciencia... Foram sempre as minhas idéas; préguei-as bem alto, na imprensa, na universidade e no gremio... Assim, por exemplo, não acho que haja poesia maior que a poesia do christianismo! E admiro Pio IX, uma grande figura! Sómente lamento que elle não arvore a bandeira da civilisação!--E o antigo Bibi, contente da sua phrase, repetia:--Sim, lamento que elle não arvore a bandeira da civilisação... O _Syllabus_ é impossivel n'este seculo de electricidade, senhor cura! E a verdade é que nós não podemos querelar d'um jornal porque elle diz duas ou tres pilherias sobre o sacerdocio, nem nos convém, por altas razões de política, escandalisar o doutor Godinho. Aqui tem o meu pensamento.

--Senhor secretario geral... disse Natario curvando-se.

--Um criado de v. s.^a Sinto que não tome uma chavena de chá... E como vai o nosso chantre?

--S. exc.^a n'estes ultimos dias, segundo creio, tem tornado a soffrer de tonturas.

--Sinto. Uma intelligencia tambem! Grande latinista... Tenha cuidado com o degrau!...

Natario correu á Sé, com um passo nervoso, resmungando alto de cólera. Amaro passeava devagar no terraço, com as mãos atraz das costas: tinha as olheiras batidas e a face envelhecida.

--Então? disse elle, indo rapidamente ao encontro de Natario.

--Nada!

Amaro mordeu o beiço: e emquanto Natario lhe contava, excitado, a conversação com o secretario geral, «e como argumentára com elle, e como o homem tagarellára, tagarellára»,--a face do parocho cobria-se d'uma sombra desconsolada, e ia arrancando raivosamente, com a ponta do guardasol, a herva que crescia nas fendas do terraço.

--Um patarata! resumiu o padre Natario com um grande gesto. Pela auctoridade não se faz nada. É escusado... Mas a questão agora é entre mim e o _liberal_, padre Amaro! Eu hei de saber quem é, padre Amaro! E quem o esmaga sou eu, padre Amaro, sou eu!...

No emtanto João Eduardo desde o domingo triumphava: o artigo fizera escandalo: tinham-se vendido oitenta numeros avulsos do jornal, e o Agostinho affirmára-lhe que na botica da Praça a opinião era «que o _liberal_ conhecia a padraria a fundo e tinha cabeça»!

--És um genio, rapaz! disse o Agostinho. É trazer-me outro, é trazer-me outro!

João Eduardo gozava prodigiosamente «d'aquelle fallatorio que ia pela cidade».

Relia então o artigo com uma deleitação paternal; se não receasse escandalisar a S. Joanneira, desejaria ir pelas lojas dizer bem alto--_fui eu, eu é que o escrevi!_--E já ruminava outro, mais terrivel, que se deveria intitular: _O diabo feito ermita_, ou _O sacerdocio de Leiria perante o seculo XIX_!

O doutor Godinho encontrára-o na Praça, e parára com condescendencia, para lhe dizer:

--A coisa tem feito barulho. Vossê é o diabo! E a piada ao padre Brito é bem jogada. Que eu não sabia... E diz que é bonita, a mulher do regedor...

--V. exc.^a não sabia?

--Não sabia, e saboreei. Vossê é o diabo! Eu fui que disse ao Agostinho que publicasse a coisa como um communicado. Vossê comprehende... Eu não me convém ter turras de mais com o clero... E depois lá minha esposa tem seus escrupulos... Emfim é mulher, e é conveniente que as mulheres tenham religião... Mas no meu fôro interior saboreei... Sobretudo a piada ao Brito. O patife fez-me uma guerra dos diabos na eleição passada... Ah! e outra coisa, o seu negocio arranja-se. Lá para o mez que vem tem vossê o seu emprego no governo civil.

--Oh, snr. doutor... v. exc.^a...

--Qual historia! vossê é um benemerito!

João Eduardo foi para o cartorio, tremulo d'alegria. O snr. Nunes Ferral sahira: o escrevente aparou devagar uma penna, começou a cópia d'uma procuração--e de repente, agarrando o chapéo, correu á rua da Misericordia.

A S. Joanneira costurava só á janella; Amelia fôra ao Morenal; e João Eduardo, logo da porta:

--Sabe, D. Augusta? Estive agora com o doutor Godinho. Diz que lá para o mez que vem tenho o meu emprego...

A S. Joanneira tirou a luneta, deixou cahir as mãos no regaço:

--Que me diz?...

--É verdade, é verdade...

E o escrevente esfregava as palmas, com risinhos nervosos de jubilo.

--Que pechincha! exclamou. De modo que agora, se a Ameliasinha estiver d'accordo...