O crime do padre Amaro, scenas da vida devota
Chapter 11
Mas na sua paixão havia ás vezes grandes impaciencias, Quanto tinha estado, durante tres horas da noite, recebendo o seu olhar, absorvendo a voluptuosidade que se exhalava de todos os seus movimentos,--ficava tão carregado de desejos que necessitava conter-se «para não fazer um disparate alli mesmo na sala, ao pé da mãi». Mas depois, em casa, só, torcia os braços de desespero: queria-a alli de repente, offerecendo-se ao seu desejo: fazia então combinações--escrever-lhe-hia, arranjariam uma casita discreta para se amarem, planeariam um passeio a alguma quinta! Mas todos aquelles meios lhe pareciam incompletos e perigosos, ao recordar o olho finorio da irmã do conego, as Gansosos tão mexeriqueiras! E diante d'aquellas difficuldades que se erguiam como as muralhas successivas d'uma cidadella, voltavam as antigas lamentações: não ser livre! não poder entrar claramente n'aquella casa, pedil-a á mãi, possuil-a sem peccado, commodamente! Porque o tinham feito padre? Fôra «a velha pêga» da marqueza de Alegros! Elle não abdicára voluntariamente a virilidade do seu peito! Tinham-o impellido para o sacerdocio como um boi para o curral!
Então, passeando excitado pelo quarto, levava as suas accusações mais longe, contra o Celibato e a Igreja: porque prohibia ella aos seus sacerdotes, homens vivendo entre homens, a satisfação mais natural, que até têm os animaes? Quem imagina que desde que um velho bispo diz--_serás casto_--a um homem novo e forte, o seu sangue vai subitamente esfriar-se? e que uma palavra latina--_accedo_--dita a tremer pelo seminarista assustado, será o bastante para conter para sempre a rebellião formidavel do corpo? E quem inventou isso? Um concilio de bispos decrepitos, vindos do fundo dos seus claustros, da paz das suas escólas, mirrados como pergaminhos, inuteis como eunucos! Que sabiam elles da Natureza e das suas tentações? Que viessem alli duas, tres horas para o pé da Ameliasinha, e veriam, sob a sua capa de santidade, começar a revoltar-se-lhe o desejo! Tudo se illude e se evita, menos o amor! E se elle é fatal, porque impediram então que o padre o sinta, o realise com pureza e com dignidade? É melhor talvez que o vá procurar pelas viellas obscenas!--Porque a carne é fraca!
A carne! Punha-se então a pensar nos tres inimigos da alma--Mundo, Diabo e Carne. E appareciam á sua imaginação em tres figuras vivas: uma mulher muito formosa; uma figura negra d'olho de braza e pé de cabra; e o _mundo_, coisa vaga e maravilhosa (riquezas, cavallos, palacetes)--de que lhe parecia uma personificação sufficiente o senhor conde de Ribamar! Mas que mal tinham elles feito á sua alma? O diabo nunca o vira; a mulher formosa amava-o e era a unica consolação da sua existencia; e do mundo, do senhor conde, só recebera protecção, benevolencia, tocantes apertos de mão... E como poderia elle evitar as influencias da Carne e do Mundo? A não ser que fugisse, como os santos d'outr'ora, para os areaes do deserto e para a companhia das feras! Mas não lhe diziam os seus mestres no seminario que elle pertencia a uma Igreja militante? O ascetismo era culpado, sendo a deserção d'um serviço santo.--Não comprehendia, não comprehendia!
Procurava então justificar o seu amor com exemplos dos livros divinos. A Biblia está cheia de nupcias! Rainhas amorosas adiantam-se nos seus vestidos recamados de pedras; o noivo vem-lhe ao encontro, com a cabeça coberta de faxas de linho puro, arrastando pelas pontas um cordeiro branco; os levitas batem em discos de prata, gritam o nome de Deus; abrem-se as portas de ferro da cidade para deixar passar a caravana que leva os bem esposados; e as arcas de sandalo onde vão os thesouros do dote rangem, amarradas com cordas de purpura, sobre o dorso dos camêlos! Os martyres no circo casam-se n'um beijo, sob o bafo dos leões, ás acclamações da plebe! Jesus mesmo não vivêra sempre na sua santidade inhumana; era frio e abstracto nas ruas de Jerusalem, nos mercados do Bairro de David; mas lá tinha o seu logar de ternura e de abandono em Bethania, sob os sycomoros do Jardim de Lazaro; alli, emquanto os magros nazarenos seus amigos bebem o leite e conspiram á parte, elle olha defronte os tectos dourados do templo, os soldados romanos que jogam o disco ao pé da Porta de Ouro, os pares amorosos que passam sob os arvoredos de Gethesemani--e pousa a mão sobre os cabellos louros de Martha, que ama e fia a seus pés!
O seu amor era pois uma infracção canonica, não um peccado da alma: podia desagradar ao senhor chantre, não a Deus: seria legitimo n'um sacerdocio de regra mais humana. Lembrava-se de se fazer protestante: mas onde, como? Parecia-lhe mais extraordinariamente impossivel que transportar a velha Sé para cima do monte do Castello.
Encolhia então os hombros, escarnecendo toda aquella vaga argumentação interior. «Philosophia e palhada»! Estava doido pela rapariga,--era o positivo. Queria-lhe o amor, queria-lhe os beijos, queria-lhe a alma... E o senhor bispo se não fosse velho faria o mesmo, e o Papa faria o mesmo!
Eram ás vezes tres horas da manhã, e ainda passeava no quarto, fallando só.
Quantas vezes João Eduardo, passando alta noite pela rua das Sousas, tinha visto na janella do parocho uma luz amortecida! Porque ultimamente João Eduardo, como todos que têm um desgosto amoroso, tomára o habito triste de andar até tarde pelas ruas.
O escrevente, logo desde os primeiros tempos, percebêra a sympathia de Amelia pelo parocho. Mas conhecendo a sua educação e os habitos devotos da casa, attribuia aquellas attenções quasi humildes com Amaro ao respeito beato pela sua batina de padre, pelos seus privilegios de confessor.
Instinctivamente porém começou a detestar Amaro. Sempre fôra inimigo de padres! achava-os um «perigo para a civilisação e para a liberdade»; suppunha-os intrigantes, com habitos de luxuria, e conspirando sempre para restabelecer «as trevas da meia idade»; odiava a confissão que julgava uma arma terrivel contra a paz do lar; e tinha uma religião vaga--hostil ao culto, ás rezas, aos jejuns, cheia de admiração pelo Jesus poetico, revolucionario, amigo dos pobres, e «pelo sublime espirito de Deus que enche todo o Universo»! Só desde que amava Amelia é que ouvia missa, para agradar á S. Joanneira.
E desejaria sobretudo apressar o casamento para tirar Amelia d'aquella sociedade de beatas e padres, receando ter mais tarde uma mulher que tremesse do inferno, passasse horas a rezar estações na Sé, e se confessasse aos padres «que arrancam ás confessadas os segredos d'alcova»!
Quando Amaro voltára a frequentar a rua da Misericordia, ficou contrariado. «Cá temos outra vez o marmanjo»! pensou. Mas que desgosto, quando reparou que Amelia tratava agora o parocho com uma familiaridade mais terna, que a presença d'elle lhe dava visivelmente uma animação singular, «e que havia uma especie de namoro»! Como ella se fazia vermelha, mal elle entrava! Como o escutava, com uma admiração babosa! Como arranjava sempre a ficar ao pé d'elle nas partidas de _quino_!
Uma manhã, mais inquieto, veio á rua da Misericordia,--e emquanto a S. Joanneira tagarellava na cozinha, disse bruscamente a Amelia:
--Menina Amelia, sabe? Está-me a dar um grande desgosto com essas maneiras com que trata o senhor padre Amaro.
Ella ergueu os olhos muito espantados:
--Que maneiras?! Ora essa! então como quer que o trate? É um amigo da casa, esteve aqui d'hospede...
--Pois sim, pois sim...
--Ah! mas socegue. Se isso o quezila, verá. Não me torno a chegar ao pé do homem.
João Eduardo, tranquillisado, raciocinou--que «não havia nada». Aquelles modos eram excessos de beaterio. Enthusiasmo pela padraria!
Amelia decidiu então disfarçar o que lhe ia no coração: sempre considerára o escrevente um pouco tapado--e se elle percebêra, que fariam as Gansosos tão finas, e a irmã do conego que era cortida em malicia! Por isso mal sentia Amaro na escada, d'ahi por diante, tomava uma attitude distrahida, muito artificial: mas, ai! apenas elle lhe fallava com a sua voz suave ou voltava para ella aquelles olhos negros que lhe faziam correr estremeções nos nervos,--como uma ligeira camada de neve que se derrete a um sol muito forte a sua attitude fria desapparecia, e toda a sua pessoa era uma expressão continua de paixão. Ás vezes, absorvida no seu enlevo, esquecia que João Eduardo estava alli; e ficava toda surprehendida quando ouvia a um canto da sala a sua voz melancolica.
Ella sentia de resto que as amigas da mãi envolviam a sua «inclinação» pelo parocho n'uma approvação muda e affavel. Elle era, como dizia o conego, o menino bonito: e das maneirinhas e dos olhares das velhas exhalava-se uma admiração por elle que fazia ao desenvolvimento da paixão d'Amelia uma atmosphera favoravel. D. Maria da Assumpção dizia-lhe ás vezes ao ouvido:
--Olha para elle! É d'inspirar fervor. É a honra do clero. Não ha outro!...
E todas ellas achavam João Eduardo «um presta-p'ra-nada»! Amelia então já não disfarçava a sua indifferença por elle: as chinelas que lhe andava a bordar tinham ha muito desapparecido do cesto do trabalho, e já não vinha á janella vel-o passar para o cartorio.
A certeza agora tinha-se estabelecido na alma de João Eduardo--na alma, que, como elle dizia, lhe andava mais negra que a noite.
--A rapariga gosta do padre, tinha elle concluido. E á dôr da sua felicidade destruida juntava-se a afflicção pela honra d'ella ameaçada.
Uma tarde, tendo-a visto sahir da Sé, esperou-a adiante da botica, e muito decidido:
--Eu quero-lhe fallar, menina Amelia... Isto não póde continuar assim... Eu não posso... A menina traz namoro com o parocho!
Ella mordeu o beiço, toda branca:
--O senhor está a insultar-me!--E queria seguir, indignada.
Elle reteve-a pela manga do casabeque:
--Ouça, menina Amelia. Eu não a quero insultar, mas é que não sabe... Tenho andado, que até se me parte o coração!--E perdeu a voz, de commovido.
--Não tem razão... Não tem razão... balbuciava ella.
--Jure-me então que não ha nada com o padre!
--Pela minha salvação!... _Não ha nada!_... Mas tambem lhe digo, se torna a fallar em tal, ou a insultar-me, conto tudo á mamã, e o senhor escusa de nos voltar a casa.
--Oh, menina Amelia...
--Não podemos continuar aqui a fallar... Está alli já a D. Michaela a cocar...
Era uma velha, que levantára a cortina de cassa n'uma janella baixa, e espreitava com olhinhos reluzentes e gulosos, a face toda resequida encostada sôfregamente á vidraça. Separaram-se então--e a velha desconsolada deixou cahir a cortina.
Amelia n'essa noite--emquanto as senhoras discutiam com algazarra os missionarios que então prégavam na Barrosa--disse baixo a Amaro, picando vivamente a costura:
--Precisamos ter cautela... Não olhe tanto para mim nem esteja tão chegado... Já houve quem reparasse.
Amaro recuou logo a cadeira para junto de D. Maria da Assumpção; e, apesar da recommendação d'Amelia, os seus olhos não se despregavam d'ella, n'uma interrogação muda e anciosa, já assustado que as desconfianças da mãi ou a malicia das velhas «andassem armando escandalo». Depois do chá, no rumor das cadeiras que se accommodavam ao _quino_, perguntou-lhe rapidamente:
--Quem reparou?
--Ninguem. Eu é que tenho medo. É preciso disfarçar.
Desde então cessaram as olhadellas dôces, os logares chegadinhos á mesa, os segredos; e sentiam um gozo picante em affectar maneiras frias, tendo a certeza vaidosa da paixão que os inflammava. Era para Amelia delicioso--emquanto o padre Amaro afastado tagarellava com as senhoras--adorar a sua presença, a sua voz, as suas graças, com os olhos castamente applicados ás chinelas do João Eduardo que muito astutamente recomeçára a bordar.
Todavia o escrevente vivia ainda inquieto: amargurava-o encontrar o parocho installado alli todas as noites, com a face próspera, a perna traçada, gozando a veneração das velhas. «A Ameliasinha, sim, agora portava-se bem, e era-lhe fiel, era-lhe fiel...»: mas elle sabia que o parocho a desejava, a «cocava»; e apesar do juramento d'ella _pela sua salvação,_ da certeza _que não havia nada_--temia que ella fosse lentamente penetrada por aquella admiração caturra das velhas, para quem o senhor parocho _era um anjo_: só se contentaria em arrancar Amelia (já empregado no governo civil) áquella casa beata: mas essa felicidade tardava a chegar--e sahia todas as noites da rua da Misericordia mais apaixonado, com a vida estragada de ciumes, odiando os padres, sem coragem para desistir. Era então que se punha a andar pelas ruas até tarde; ás vezes voltava ainda vêr as janellas fechadas da casa d'ella; ia depois á alameda ao pé do rio, mas o frio ramalhar das arvores sobre a agua negra entristecia-o mais; vinha então ao bilhar, olhava um momento os parceiros carambolando, o marcador, muito esguedelhado, que bocejava encostado ao _reste_. Um cheiro de mau petroleo suffocava. Sahia; e dirigia-se, devagar, á redacção da _Voz do Districto_.
X
O redactor da _Voz do Districto_, o Agostinho Pinheiro, era ainda seu parente. Chamavam-lhe geralmente o _Rachitico_, por ter uma forte corcunda no hombro e uma figurinha enfezada d'hectico. Era extremamente sujo; e a sua carita de femea, amarellada, d'olhos depravados, revelava vícios antigos, muito torpes. Tinha feito (dizia-se em Leiria) toda a sorte de maroteira. E ouvira tantas vezes exclamar: «Se vossê não fosse um rachitico, quebrava-lhe os ossos»--que, vendo na sua corcunda uma protecção sufficiente, ganhára um descaro sereno. Era de Lisboa, o que o tornava mais suspeito aos burguezes sérios: attribuia-se a sua voz rouca e acre «a fartar-lhe as campainhas»: e os seus dedos queimados terminavam em unhas muito compridas--porque tocava guitarra.
A _Voz do Districto_ fôra creada por alguns homens, a quem chamavam em Leiria o _grupo da Maia_, particularmente hostis ao senhor governador civil. O doutor Godinho, que era o chefe e o candidato do _grupo_, tinha encontrado em Agostinho, como elle dizia, o _homem que se precisa_: o que o _grupo_ precisava era um patife com orthographia, sem escrupulos, que redigisse em linguagem sonora os insultos, as calumnias, as allusões que elles traziam informemente á redacção, em apontamentos. Agostinho era um estylista de vilezas. Davam-lhe quinze mil reis por mez e casa de habitação na redacção--um terceiro andar desmantelado n'uma viella ao pé da Praça.
Agostinho fazia o artigo de fundo, as locaes, a _Correspondencia_ de Lisboa; e o bacharel Prudencio escrevia o folhetim litterario sob o titulo de _Palestras Leirienses_: era um moço muito honrado, a quem o snr. Agostinho era repulsivo; mas tinha uma tal gula de publicidade, que se sujeitava a sentar-se todos os sabbados fraternalmente á mesma banca, a revêr as provas da sua prosa--prosa tão florida de imagens, que se murmurava na cidade, ao lêl-a: «_Que opulencia! Que opulencia, Jesus!_»
João Eduardo reconhecia tambem que o Agostinho era «um trastesito»; não se atreveria a passear com elle de dia nas ruas; mas gostava de ir para a redacção, alta noite, fumar cigarros, ouvir o Agostinho fallar de Lisboa, do tempo que lá vivêra empregado na redacção de dois jornaes, no theatro da rua dos Condes, n'uma casa de penhores, e em outras instituições. Estas visitas eram _segredos_!
Áquella hora da noite a sala da typographia no primeiro andar estava fechada (o jornal tirava-se aos sabbados); e João Eduardo encontrava em cima Agostinho abancado, com uma velha jaqueta de pelles cujos colchetes de prata tinham sido empenhados--ruminando, curvado, á luz d'um medonho candieiro de petroleo, sobre longas tiras de papel: estava fazendo o jornal, e a sala escura em redor tinha o aspecto d'uma caverna. João Eduardo estirava-se no canapé de palhinha, ou indo buscar a um canto a velha guitarra de Agostinho repenicava o _fado corrido_. O jornalista no emtanto, com a testa apoiada a um punho, produzia laboriosamente: «a coisa não lhe sahia catita»: e como nem o _fadinho_ o inspirava, erguia-se, ia a um armario engulir um copinho de genebra que gargarejava nas fauces estanhadas, espreguiçava-se escancaradamente, accendia o cigarro, e aproveitando o acompanhamento cantarolava roucamente:
Ora foi o fado tyranno Que me levou á má vida,
E a guitarra: dir-lin, din, din, dir-lin, din, don.
Na vida do negro fado Ai! Que me traz assim perdida...
Isto trazia-lhe sempre as recordações de Lisboa, porque terminava por dizer, com odio:
--Que possilga de terra esta!
Não se podia consolar de viver em Leiria, de não poder beber o seu quartilho na taberna do tio João, á Mouraria, com a Anna alfaiata ou com o Bigodinho--ouvindo o João das Biscas de cigarro ao canto da boca, o olho choroso meio fechado pelo fumo do tabaco, fazer chorar a guitarra dizendo a morte da Sophia!
Depois, para se reconfortar com a certeza do seu talento, lia a João Eduardo os seus artigos, muito alto. E João interessava-se--porque essas «producções», sendo ultimamente sempre «desandas ao clero», correspondiam ás suas preoccupações.
Era por esse tempo que, em virtude da famosa questão da Misericordia, o doutor Godinho se tornára muito hostil ao cabido e «á padraria». Sempre detestára padres; tinha uma má doença de figado, e como a Igreja o fazia pensar no cemiterio, odiava a sotaina, porque lhe parecia uma ameaça da mortalha. E Agostinho, que tinha um profundo deposito de fel a derramar, instigado pelo doutor Godinho, exagerava as suas verrínas: mas, com o seu fraco litterario, cobria o vituperio de tão espessas camadas de rhetorica que, como dizia o conego Dias, «aquillo era ladrar, não era morder»!
Uma d'essas noites João Eduardo encontrou Agostinho todo enthusiasmado com um artigo que compuzera de tarde, e que lhe «sahira cheio de piadas á Victor Hugo»!
--Tu verás! Coisa de sensação!
Como sempre, era uma declamação contra o clero e o elogio do doutor Godinho. Depois de celebrar as virtudes do doutor, «_esse tão respeitavel chefe de familia_» e a sua eloquencia no tribunal que «_arrancára tantos desventurados ao cutelo da lei_», o artigo, tomando um tom roncante, apostrophava Christo:--«Quem te diria a ti (bradava Agostinho), ó immortal Crucificado! quem te diria, quando no alto do Golgotha expiravas exangue, quem te diria que um dia, em teu nome, á tua sombra, seria expulso d'um estabelecimento de caridade o doutor Godinho,--a alma mais pura, o talento mais robusto...»--E as virtudes do doutor Godinho voltavam, em passo de procissão, solemnes e sublimadas, arrastando caudas de adjectivos nobres.
Depois, deixando por um momento de contemplar o doutor Godinho, Agostinho dirigia-se directamente a Roma:--«É no seculo XIX que vindes atirar á face de Leiria liberal os dictames do _Syllabus_! Pois bem. Quereis a guerra? Tel-a-heis!»
--Hein, João?! dizia. Está forte! Está philosophico!
E retomando a leitura:--«Quereis a guerra? Tel-a-heis! Levantaremos bem alto o nosso estandarte, que não é o da demagogia, comprehendei-o bem! e arvorando-o, com braço firme, no mais alto baluarte das liberdades publicas, gritaremos á face de Leiria, á face da Europa: Filhos do seculo XIX! ás armas! Ás armas pelo progresso!»
--Hein? Está de os enterrar!
João Eduardo, que ficára um momento calado, disse então, levantando as suas expressões em harmonia com a prosa sonora de Agostinho:
--O clero quer-nos arrastar aos funestos tempos do obscurantismo!
Uma phrase tão litteraria surprehendeu o jornalista: fitou João Eduardo, disse:
--Porque não escreves tu alguma coisa, tambem?
O escrevente respondeu, sorrindo:
--E eu, Agostinho, eu é que te escrevia uma desanda aos padres... E eu tocava-lhes os pôdres. Eu é que os conheço!...
Agostinho instou logo com elle para que escrevesse a _desanda_.
--Vem a calhar, menino!
O doutor Godinho ainda na vespera lhe recommendára:--«Em tudo que cheirar a padre, para baixo! Havendo escandalo, conta-se! não havendo, inventa-se!»
E Agostinho acrescentou, com benevolencia:
--E não te dê cuidado o estylo, que eu cá o florearei!
--Veremos, veremos, murmurou João Eduardo.
Mas d'ahi por diante Agostinho perguntava-lhe sempre:
--E o artigo, homem? Traze-me o artigo.
Tinha avidez d'elle, porque sabendo como João Eduardo vivia na intimidade da «panellinha canonica da S. Joanneira» suppunha-o no segredo de infamias especiaes.
João Eduardo, porém, hesitava. Se se viesse a saber...?
--Qual! affirmava Agostinho. A coisa publica-se como minha. É artigo da redacção. Quem diabo vai saber?
Succedeu na noite seguinte que João Eduardo surprehendeu o padre Amaro resvalando sorrateiramente um segredinho a Amelia--e ao outro dia appareceu de tarde na redacção com a pallidez d'uma noite velada, trazendo cinco largas tiras de papel, miudamente escriptas n'uma letra de cartorio. Era o artigo, e intitulava-se: _Os modernos phariseus!_--Depois de algumas considerações, cheias de flôres, sobre Jesus e o Golgotha, o artigo de João Eduardo era, sob allusões tão diaphanas como teias d'aranha, um vingativo ataque ao conego Dias, ao padre Brito, ao padre Amaro e ao padre Natario!... Todos tinham a sua _dóse_, como exclamou cheio de jubilo o Agostinho.
--E quando sae? perguntou João Eduardo.
O Agostinho esfregou as mãos, reflectiu, disse:
--É que está forte, diabo! É como se tivesse os nomes proprios! Mas descansa, eu arranjarei.
Foi cautelosamente mostrar o artigo ao doutor Godinho--que o achou «uma catilinaria atroz». Entre o doutor Godinho e a Igreja havia apenas um arrufo: elle reconhecia em geral a necessidade da religião entre as massas; sua esposa, a bella D. Candida, era além d'isso d'inclinações devotas, e começava a dizer que aquella guerra do jornal ao clero lhe causava grandes escrupulos: e o doutor Godinho não queria provocar odios desnecessarios entre os padres, prevendo que o seu amor da paz domestica, os interesses da ordem e o seu dever de christão o forçariam bem cedo a uma reconciliação,--«muito contra as suas opiniões, mas...»
Disse por isso a Agostinho sêccamente:
--Isto não póde ir como artigo da redacção, deve apparecer como communicado. Cumpra estas ordens.
E Agostinho declarou ao escrevente--que a coisa publicava-se como um _Communicado_, assignado: _Um liberal_. Sómente João Eduardo terminava o artigo exclamando:--_Álerta, mães de familia!_ O Agostinho suggeriu que este final _álerta_ podia dar logar á réplica jocosa--_Álerta está!_ E depois de largas combinações decidiram-se por este fecho:--_Cuidado, sotainas negras!_
No domingo seguinte appareceu o communicado assignado: _Um liberal_.
Durante toda essa manhã de domingo, o padre Amaro, á volta da Sé, estivera occupado em compôr laboriosamente uma carta a Amelia. Impaciente, como elle dizia, «com aquellas relações que não andavam nem desandavam, que era olhar e apertos de mão e d'alli não passava»--tinha-lhe dado uma noite, á mesa do quino, um bilhetinho onde escrevera com boa letra, a tinta azul:--_Desejo encontral-a só, porque tenho muito que lhe fallar. Onde póde ser sem inconveniente? Deus proteja o nosso affecto._ Ella não respondera:--E Amaro despeitado, descontente tambem por não a ter visto n'essa manhã á missa das nove, resolveu «pôr tudo a claro n'uma carta de sentimento»: e preparava os periodos sentidos que lhe deviam ir revolver o coração, passeando pela casa, juncando o chão de pontas de cigarro, a cada momento curvado sobre o _Diccionario de synonymos_.
«Ameliasinha do meu coração: (escrevia elle) Não posso atinar com as razões maiores que a não deixaram responder ao bilhetinho que lhe dei em casa da senhora sua mamã; pois que era pela muita necessidade que tinha de lhe fallar a sós, e as minhas intenções eram puras, e na innocencia d'esta alma que tanto lhe quer e que não medita o peccado.