O crime do padre Amaro, scenas da vida devota

Chapter 10

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Abominava então todo o mundo secular--por lhe ter perdido para sempre os privilegios: e, como o sacerdocio o excluia da participação nos prazeres humanos e sociaes, refugiava-se, em compensação, na idéa da superioridade espiritual que elle lhe dava sobre os homens. Aquelle miseravel escrevente podia casar e possuir a rapariga--mas que era elle em comparação d'um parocho a quem Deus conferira o poder supremo de distribuir o céo e o inferno?...--E repastava-se d'este sentimento, enchendo o espirito d'orgulhos sacerdotaes. Mas vinha-lhe bem depressa a desconsoladora idéa que esse dominio só era valido na região abstracta das almas; nunca o poderia manifestar, por actos triumphantes, em plena sociedade. Era um Deus dentro da Sé--mas, apenas sahia para o largo, era apenas um plebeu obscuro. Um mundo irreligioso reduzira toda a acção sacerdotal a uma mesquinha influencia sobre almas de beatas... E era isto que lamentava, esta diminuição social da Igreja, esta mutilação do poder ecclesiastico, limitado ao espiritual, sem direito sobre o corpo, a vida e a riqueza dos homens... O que lhe faltava era a auctoridade dos tempos em que a Igreja era a nação e o parocho dono temporal do rebanho. Que lhe importava, no seu caso, o direito mystico d'abrir ou fechar as portas do céo? O que elle queria era o velho direito d'abrir ou fechar a porta das masmorras! Necessitava que os escreventes e as Amelias tremessem da sombra da sua batina... Desejaria ser um sacerdote da antiga Igreja, gozar das vantagens que dá a denuncia e dos terrores que inspira o carrasco, e alli n'aquella villa, sob a jurisdicção da sua Sé, fazer estremecer, á idéa de castigos torturantes, aquelles que aspirassem a realisar felicidades--que lhe eram a elle interdictas: e pensando em João Eduardo e em Amelia, lamentava não poder accender as fogueiras da Inquisição!--Assim aquelle inoffensivo moço tinha durante horas, sob a excitação colerica d'uma paixão contrariada, ambições grandiosas de tyrannia catholica:--porque todo o padre, o mais boçal, tem um momento em que é penetrado pelo espirito da Igreja ou nos seus lances de renunciamento mystico ou nas suas ambições de dominação universal: todo o sub-diacono se julga uma hora capaz de ser santo ou de ser Papa: não ha seminarista que não tenha, durante um instante, aspirado com ternura á caverna no deserto em que S. Jeronymo, olhando o céo estrellado, sentia descer-lhe sobre o peito a Graça como um abundante rio de leite: e o abbade pansudo que á tardinha, á varanda, palita o dente furado saboreando o seu café com um ar paterno, traz dentro em si os indistinctos restos d'um Torquemada.

A vida d'Amaro tornou-se monotona. Março ia muito molhado, muito frio; e, depois do serviço na Sé, Amaro entrava em casa, tirava as botas enlameadas, ficava em chinelas a aborrecer-se. Ás tres horas jantava; e nunca levantava a tampa rachada da terrina sem se lembrar, com uma saudade pungente, do jantarinho na rua da Misericordia, quando Amelia, com o seu collar muito branco, lhe passava a sopa de grãos de bico, sorrindo, toda carinhosa. Ao lado a Vicencia servia, têsa e enorme, com o seu corpo de soldado vestido de saias, sempre constipada; e de vez em quando, desviando a cabeça, assoava-se ao avental com ruido. Era muito suja: as facas tinham o cabo humido da agua gordurosa das lavagens. Amaro, desgostoso e indifferente, não se queixava; comia mal, á pressa; mandava vir o café, e ficava horas esquecidas sentado á mesa, quebrando a cinza do cigarro na borda do prato, perdido n'um tedio mudo, sentindo os pés e os joelhos frios do vento que entrava pelas frinchas da sala desabrigada.

Ás vezes o coadjutor, que nunca o visitára na rua da Misericordia, apparecia ao fim do jantar: sentava-se arredado da mesa, e ficava calado, com o seu guardachuva entre os joelhos. Depois, julgando agradar ao parocho, repetia, invariavelmente:

--Vossa senhoria aqui está melhor, sempre é estar em sua casa.

--Está claro... rosnava Amaro.

Ao principio, para consolar o seu despeito, dizia ligeiramente mal da S. Joanneira, provocando, animando o coadjutor (que era de Leiria) a contar os escandalos da rua da Misericordia. O coadjutor, por servilismo, tinha sorrisos mudos, repassados de perfidia.

--Alli ha pôdres, hein? dizia o parocho.

O outro encolhia os hombros, com as mãos muito espalmadas ao pé das orelhas, n'uma expressão de malicia; mas não pronunciava um som, receando que as suas palavras, repetidas, escandalisassem o senhor conego. Ficavam então soturnos, trocando, a espaços, phrases molles: um baptisado que havia; o que dissera o conego Campos; um frontal do altar que era necessario limpar. Aquella conversa enfastiava Amaro: sentia-se muito pouco padre, muito distante da panellinha ecclesiastica: não o interessavam as intriguinhas do cabido, as parcialidades tão commentadas do senhor chantre, os roubos da Misericordia, as turras da camara ecclesiastica com o governo civil; e achava-se sempre alheio, mal informado, nas palestras ecclesiasticas em que tão femininamente se deleitam os padres, e que têm a puerilidade d'uma caturrice e a tortuosidade d'uma conspiração.

--O vento está sul? perguntava elle emfim, bocejando.

--Sempre! respondia o coadjutor.

Accendia-se a luz; o coadjutor erguia-se, sacudia o guardachuva, e sahia com um olhar de revez á Vicencia.

Era aquella a peor hora, a da noite, quando ficava só. Procurava lêr, mas os livros enfastiavam-n'o: deshabituado da leitura não comprehendia «o sentido». Ia olhar á vidraça: a noite estava tenebrosa, o lagedo reluzia vagamente. Quando acabaria aquella vida? Accendia o cigarro, e do lavatorio para a janella recomeçava os seus passeios, com as mãos atraz das costas. Deitava-se sem rezar ás vezes: e não tinha escrupulos: julgava que ter renunciado a Amelia era já uma penitencia, não necessitava cansar-se a lêr orações no livro; celebrára o «seu sacrificio»--sentia-se vagamente quite com o céo!

E continuava a viver só: o conego nunca vinha á rua das Sousas, «porque, dizia, era casa que só o entrar n'ella até se lhe agoniava o estomago». E Amaro, cada dia mais amuado, não voltára a casa da S. Joanneira. Escandalisára-se muito que ella não lhe tivesse mandado pedir para ir ás partidas da sexta-feira; attribuira «a desfeita» á hostilidade d'Amelia; e, mesmo para a não vêr, trocára com o padre Silveira a missa do meio-dia onde ella costumava ir, e dizia a das nove horas, furioso com aquelle novo sacrificio!

Todas as noites Amelia, ao ouvir tocar a campainha, tinha uma palpitação tão forte no coração que ficava como suffocada um momento. Depois os botins de João Eduardo rangiam na escada, ou ella conhecia os passos fôfos das galochas das Gansosos: apoiava-se então às costas da cadeira, cerrando os olhos, como na fadiga d'uma desesperança repetida. Esperava o padre Amaro; e ás vezes, pelas dez horas, quando já não era possível que elle viesse, a sua melancolia era tão pungente que se lhe entumecia a garganta de soluços, tinha de pousar a costura, dizer:

--Vou-me deitar, estou com umas dôres de cabeça que não paro!

Atirava-se para a cama de bruços, murmurava n'uma agonia:

--Oh Senhora das Dôres, minha madrinha! porque não vem elle, porque não vem elle?

Nos primeiros dias, apenas elle se fôra embora, toda a casa lhe pareceu deshabitada e lugubre! Quando vira no quarto d'elle os cabides sem a sua roupa, a commoda sem os seus livros, rompeu a chorar. Foi beijar a travesseirinha onde elle dormia, apertou ao peito com delirio a ultima toalha a que elle limpára as mãos! Tinha constantemente o seu rosto presente, elle entrava sempre nos seus sonhos. E com a separação o seu amor ardia mais forte e mais alto, como uma fogueira que se isola.

Uma tarde, que fôra visitar uma prima enfermeira no hospital, viu ao chegar á ponte gente parada, embasbacada com gozo para uma rapariga de cuia á banda e _garibaldi_ escarlate, que, de punho no ar, já rouca, praguejava contra um soldado: o rapazola, um beirão de cara redonda e lorpa coberta de pennugem loura, virava-lhe as costas, encolhendo os hombros, as mãos muito enterradas nos bolsos, rosnando:

--Não lhe fez mal, não lhe fez mal...

O snr. Vasques, com loja de panos na Arcada, parára a olhar, descontente d'aquella «falta d'ordem publica».

--Algum barulho? perguntou-lhe Amelia.

--Olá, menina Amelia! Não, uma brincadeira do soldado. Atirou-lhe um rato morto á cara, e a mulher está a fazer aquelle espalhafato. Bebedas!

Mas a rapariga de _garibaldi_ vermelha voltára-se--e Amelia aterrada reconheceu a Joanninha Gomes, sua amiga da mestra, que fôra amante do padre Abilio! O padre fôra suspenso, deixára-a; ella partira para Pombal, depois para o Porto; de miseria em miseria voltára a Leiria, e ahi vivia n'alguma viella ao pé do quartel, entisicando, gasta por todo um regimento!--Que exemplo, santo Deus, que exemplo!

E tambem ella gostava d'um padre! Tambem ella, como outr'ora a Joanninha, chorava sobre a sua costura quando o senhor padre Amaro não vinha! Onde a levava aquella paixão? Á sorte da Joanninha! A ser a _amiga do parocho_! E via-se já apontada a dedo, na rua e na Arcada, mais tarde abandonada por elle, com um filho nas entranhas, sem um pedaço de pão!... E, como uma rajada de vento que limpa n'um momento um céo ennevoado, o terror agudo que lhe dera o encontro de Joanninha varreu-lhe do espirito as nevoas amorosas e morbidas em que ella se ia perdendo. Decidiu aproveitar a separação, esquecer Amaro: lembrou-se mesmo de apressar o seu casamento com João Eduardo para se refugiar n'um dever dominante; durante alguns dias forçou-se a interessar-se por elle; começou mesmo a bordar-lhe umas chinelas...

Mas pouco a pouco a _idéa má_ que, atacada, se encolhera e se fingira morta,--principiou lentamente a desenroscar-se, a subir, a invadil-a! De dia, de noite, costurando e rezando, a idéa do padre Amaro, os seus olhos, a sua voz appareciam-lhe, tentações teimosas! com um encanto crescente. Que faria elle? porque não vinha? gostava d'outra? Tinha ciumes indefinidos, mas mordentes, que a queimavam. E aquella paixão ia-a envolvendo como uma atmosphera d'onde não podia sahir, que a seguia se ella fugia, e que a fazia viver! As suas resoluções honestas resequiam-se, morriam como debeis florinhas n'aquelle fogo que a percorria. Se ás vezes a lembrança de Joanninha ainda voltava, repellia-a com irritação; e acolhia alvoroçadamente todas as razões insensatas que lhe vinham de amar o padre Amaro! Tinha agora só uma idéa:--atirar-lhe os braços ao pescoço e beijal-o... oh! beijal-o! Depois, se fosse necessario, morrer!

Começou então a impacientar-se com o amor de João Eduardo. Achava-o «palerma».

--Que massada! pensava quando lhe sentia os passos na escada, á noite.

Não o supportava com os seus olhos voltados sempre para ella, a sua quinzena preta, as suas monotonas conversas sobre o governo civil.

E idealisava Amaro! As suas noites eram sacudidas de sonhos lubricos; de dia vivia n'uma inquietação de ciumes, com melancolias lugubres, que a tornavam, como dizia a mãi, «uma môna, que até enraivece»!

O genio azedava-se-lhe.

--Credo, rapariga! que tens tu? exclamava a mãi.

--Não me sinto boa. Estou para ter alguma!

Andava, com effeito, amarella, perdera o appetite. E emfim uma manhã ficou de cama com febre. A mãi, assustada, chamou o doutor Gouvêa. O velho pratico, depois de vêr Amelia, veio à sala de jantar sorvendo com satisfação a sua pitada.

--Então, senhor doutor? disse a S. Joanneira.

--Case-me esta rapariga, S. Joanneira, case-me esta rapariga. Tenho-lh'o dito tantas vezes, creatura!

--Mas, senhor doutor...

--Mas case-a por uma vez, S. Joanneira, case-a por uma vez! repetia elle pelas escadas, arrastando um pouco a perna direita que um rheumatismo teimoso encolhia.

Amelia emfim melhorou--com grande alegria de João Eduardo, que emquanto ella estivera doente vivera n'uma afflicção, lamentando não poder ser seu enfermeiro, e derramando ás vezes no cartorio uma lagrima triste sobre os papeis sellados do severo Nunes Ferral.

No domingo seguinte, á missa das nove horas na Sé, Amaro, ao subir para o altar, entre as devotas que se arredavam viu de relance Amelia ao pé da mãi, com o seu vestido de sêda preta de largos folhos. Cerrou um momento os olhos; e mal podia sustentar o calix com as mãos tremulas.

Quando, depois de resmungar o Evangelho, Amaro fez uma cruz sobre o missal, se persignou e se voltou para a igreja dizendo _Dominus vobiscum_--a mulher do Carlos da botica disse baixo a Amelia «que o senhor parocho estava tão amarello, que devia ter alguma dôr». Amelia não respondeu, curvada sobre o livro, com todo o sangue nas faces. E durante a missa, sentada sobre os calcanhares, absorta, a face banhada n'um extase baboso, gozou a sua presença, as suas mãos magras erguendo a hostia, a sua cabeça bem feita curvando-se na adoração ritual; uma doçura corria-lhe na pelle quando a voz d'elle, apressada, dizia mais alto algum latim: e quando Amaro, tendo a mão esquerda no peito e a direita estendida, disse para a igreja o _Benedicat vos_, ella, com os olhos muito abertos, arremessou toda a sua alma para o altar, como se elle fosse o proprio Deus a cuja benção as cabeças se curvavam ao comprido da Sé, até ao fundo, onde os homens do campo com os seus varapaus pasmavam para os dourados do sacrario.

Á sahida da missa começára a chover; e Amelia e a mãi, á porta com outras senhoras, esperavam uma «aberta».

--Ólá! por aqui!? disse de repente Amaro, chegando-se, muito branco.

--Estamos á espera que passe a chuva, senhor parocho, disse a S. Joanneira voltando-se. E immediatamente, muito reprehensiva:--E porque não tem apparecido, senhor parocho? Realmente! Que lhe fizemos nós? Credo, até dá que fallar...

--Muito occupado, muito occupado... balbuciou o parocho.

--Mas um bocadinho á noite. Olhe, póde crêr, tem-me causado desgosto... E todos têm reparado. Não, lá isso, senhor parocho, tem sido ingratidão!

Amaro disse, córando:

--Pois acabou-se. Hoje á noite lá appareço, e estão as pazes feitas ...

Amelia, muito vermelha, para encobrir a sua perturbação olhava para todos os pontos o céo carregado, como assustada do temporal.

Amaro então offereceu-lhe o seu guardachuva. E emquanto a S. Joanneira o abria, apanhando com cuidado o vestido de sêda, Amelia disse ao parocho:

--Até á noite, sim?--E mais baixo, olhando em redor, com medo:--Oh, vá! Tenho estado tão triste! tenho estado como doida! Vá, peço-lh'o eu!

Amaro, voltando para casa, continha-se para não correr de batina pelas ruas. Entrou no quarto, sentou-se aos pés da cama, e alli ficou saturado de felicidade, como um pardal muito farto n'um raio de sol muito quente: recordava o rosto d'Amelia, a redondeza dos seus hombros, a belleza dos encontros, as palavras que lhe dissera:--_Tenho estado como doida!_ A certeza de que «a rapariga gostava d'elle» entrou-lhe então na alma com a violencia de uma rajada, e ficou a susurrar por todos os recantos do seu sêr com um murmurio melodioso de felicidades agitadas. E passeava pelo quarto com passadas de covado, estendendo os braços, desejando a posse immediata do seu corpo: sentia um orgulho prodigioso: ia defronte do espelho altear a arca do peito, como se o mundo fosse um pedestal expresso que só o sustentasse a elle! Mal pôde jantar. Com que impaciencia desejava a noite! A tarde clareára; a cada momento tirava o seu «cebolão» de prata, indo olhar á janella, com irritação, a claridade do dia que se arrastava devagar no horisonte. Engraxou elle mesmo os seus sapatos, lustrou o cabello de banha. E antes de sahir rezou cuidadosamente o seu Breviario--porque, em presença d'aquelle amor adquirido, viera-lhe um susto supersticioso que Deus ou os santos escandalisados o viessem perturbar: e não queria, com desleixos de devoção, _dar-lhes razão de queixa_.

Ao entrar na rua d'Amelia o coração bateu-lhe tão forte que teve de parar, suffocado; e pareceu-lhe melodioso o piar das corujas na velha Misericordia, que ha tantas semanas não ouvia.

Que admiração quando elle appareceu na sala de jantar!

--Ditosos olhos que o vêem! Pensavamos que tinha morrido! Grande milagre!...

Estava a snr.^a D. Maria da Assumpção, as Gansosos. Arredaram as cadeiras com enthusiasmo para lhe dar logar, admiral-o.

--Então que tem feito, que tem feito? E olhe que está mais magro!

O Libaninho, no meio da sala, imitava foguetes subindo ao ar. O snr. Arthur Couceiro improvisou-lhe um _fadinho_ á viola:

Ora já cá temos o senhor parocho Nos chás da S. Joanneira. Isto já parece outra coisa, Volta a bella cavaqueira!

Houve palmas. E a S. Joanneira, toda banhada de riso:

--Ai, tem sido uma ingratidão d'elle!

--Uma ingratidão, diz a senhora? rosnou o conego. Uma casmurrice, digo eu!

Amelia não fallava, com as faces abrazadas, os olhos humidos pasmados para o padre Amaro--a quem tinham dado a poltrona do conego, e que se repoltreava n'ella, tumido de gozo, fazendo rir as senhoras pelas pilherias com que contava os desleixos da Vicencia.

João Eduardo, isolado a um canto, ia folheando o velho album.

IX

Assim recomeçou a intimidade de Amaro na rua da Misericordia. Jantava cedo, depois lia o seu Breviario; e apenas na igreja batiam as sete horas, embrulhava-se no seu capote e dava volta pela Praça passando rente da botica, onde os frequentadores caturravam, com as mãos molles apoiadas ao cabo dos guardachuvas. Mal avistava a janella da sala de jantar alumiada, todos os seus desejos se erguiam; mas ao toque agudo da campainha sentia ás vezes um susto indefinido d'achar a mãi já desconfiada ou Amelia mais fria!... Mesmo por superstição entrava sempre com o pé direito.

Encontrava já as Gansosos, a D. Josepha Dias; e o conego, que jantava agora muito com a S. Joanneira, e que áquella hora, estirado na poltrona, findava a sua somneca, dizia-lhe bocejando:

--Ora viva o menino bonito!

Amaro ia sentar-se ao pé d'Amelia que costurava á mesa; o olhar penetrante que se trocavam era todos os dias como o mutuo juramento mudo que o seu amor crescera desde a vespera; e ás vezes mesmo, debaixo da mesa, roçavam os joelhos com furor. Começava então a «cavaqueira». Eram sempre os mesmos interessesinhos, as questões que iam na Misericordia, o que dissera o senhor chantre, o conego Campos que despedira a criada, o que se rosnava da mulher do Novaes...

--Mais amor do proximo! resmungava o conego mexendo-se na poltrona. E com um arrôto curto tornava a cerrar as palpebras.

Então as botas de João Eduardo rangiam na escada, e Amelia immediatamente abria a mesinha para a partida de _manilha_: os parceiros eram a Gansoso, D. Josepha, o parocho: e como Amaro jogava mal, Amelia, que era _mestra_, sentava-se por detraz d'elle para o «guiar». Logo ás primeiras vasas havia altercações. Então Amaro voltava o rosto para Amelia, tão perto que confundiam os seus halitos.

--Esta? perguntava, indicando a carta com o olho languido.

--Não! não! espere, deixe vêr, dizia ella, vermelha.

O seu braço roçava o hombro do parocho: Amaro sentia o cheiro da agua de colonia que ella usava com exagero.

Defronte, ao pé de Joaquina Gansoso, João Eduardo, mordicando o bigode, contemplava-a com paixão; Amelia, para se desembaraçar d'aquelles dois olhos langorosos fitos n'ella, tinha-lhe dito por fim «que até era indecente, diante do parocho que era de ceremonia, estar assim a cocal-a toda a noite».

Ás vezes mesmo dizia-lhe, rindo:

--Ó snr. João Eduardo, vá conversar com a mamã, senão têmol-a aqui têmol-a a dormir.

E João Eduardo ia sentar-se ao pé da S. Joanneira, que, de lunetas na ponta do nariz, fazia somnolentamente a sua meia.

Depois do chá Amelia sentava-se ao piano. Causava então enthusiasmo em Leiria uma velha canção mexicana, a _Chiquita_. Amaro achava-a _de appetite_; e sorria de gozo, com os seus dentes muito brancos, apenas Amelia começava com muita languidez tropical:

Quando sali de la Habana Valga-me Dios!...

Mas Amaro amava sobretudo a outra estrophe, quando Amelia, com os dedos frouxos no teclado, o busto deitado para traz, rolando os olhos ternos, em movimentos dôces de cabeça, dizia toda voluptuosa, syllabando o hespanhol:

Si á tua ventana llega Una paloma, Trata-la com cariño, Que es mi persona.

E como a achava graciosa, creoula, quando ella gorgeava:

Ay chiquita que si, Ay chiquita que no-o-o-o!

Mas as velhas reclamavam-o para continuar a _manilha_, e elle ia sentar-se, cantarolando as ultimas notas, com o cigarro ao canto da boca, os olhos humidos de felicidade.

Ás sextas-feiras era a grande partida. A snr.^a D. Maria da Assumpção apparecia sempre com o seu bello vestido de sêda preta: e como era rica e tinha parentela fidalga davam-lhe com deferencia o melhor logar ao pé da mesa--que ella ia occupar, meneando pretenciosamente os quadris, com _ruge-ruges_ de sêda. Antes do chá a S. Joanneira levava-a sempre ao seu quarto, onde guardava para ella uma garrafa de geropiga velha: e alli as duas amigas tagarellavam muito tempo, sentadas em cadeirinhas baixas. Depois Arthur Couceiro, cada dia mais chupado e mais tisico, cantava o _fado_ novo que compuzera, chamado o _Fado da Confissão_; eram quadras feitas para regalar aquella piedosa reunião de saias e de batinas:

Na capellinha do amor, No fundo da sacristia, Ao senhor padre Cupido Confessei-me n'outro dia...

Vinha depois a confissão de peccadinhos dôces, um acto de contrição de amor, uma penitencia terna:

Seis beijinhos de manhã, De tarde um abraço só... E p'ra acalmar dôces chammas Jejuar a pão de ló.

Aquella composição galante e devota fôra muito apreciada na sociedade ecclesiastica de Leiria. O senhor chantre pedira uma cópia, e perguntára, referindo-se ao poeta:

--Quem é o habil Anacreonte?

E informado que era o escrevente da administração, fallou d'elle com tanto apreço á esposa do senhor governador civil, que Arthur obteve a gratificação de oito mil reis, que havia annos implorava.

Áquellas reuniões nunca faltava o Libaninho. A sua ultima pilheria era furtar beijos á snr.^a D. Maria da Assumpção; a velha escandalisava-se muito alto, e abanando-se com furor atirava-lhe de revez um olhar guloso. Depois o Libaninho desapparecia um momento, e entrava com uma saia d'Amelia vestida, uma touca da S. Joanneira, fingindo uma chamma lubrica por João Eduardo--que, entre as risadas agudas das velhas, recuava, muito escarlate. Brito e Natario vinham ás vezes: formava-se então um grande _quino_. Amaro e Amelia ficavam sempre juntos; e toda a noite, com os joelhos collados, ambos vermelhos, permaneciam vagamente entorpecidos no mesmo desejo intenso.

Amaro sahia sempre de casa da S. Joanneira mais apaixonado por Amelia. Ia pela rua devagar, ruminando com gozo a sensação deliciosa que lhe dava aquelle amor--uns certos olhares d'ella, o arfar desejoso do seu peito, os contactos lascivos dos joelhos e das mãos. Em casa despia-se depressa, porque gostava de pensar n'ella, ás escuras, atabafado nos cobertores; e ia percorrendo em imaginação, uma a uma, as provas successivas que ella lhe dera do seu amor, como quem vai aspirando uma e outra flôr, até que ficava como embriagado d'orgulho: era a rapariga mais bonita da cidade! e escolhera-o a elle, a elle padre, o eterno excluido dos sonhos femininos, o sêr melancollico e neutro que ronda como um sêr suspeito á beira do sentimento! Á sua paixão misturava-se então um reconhecimento por ella; e com as palpebras cerradas murmurava:

--Tão boa, coitadinha, tão boa!