O Cortiço

Part 20

Chapter 203,573 wordsPublic domain

E, como a casa commercial de João Romão, prosperava igualmente a sua avenida. Já lá se não admittia assim qualquer pé rapado: para entrar era preciso carta de fiança e uma recommendação especial. Os preços dos commodos subiam, e muitos dos antigos hospedes, italianos principalmente, iam, por economia, desertando para o Cabeça de Gato e sendo substituidos por gente mais limpa. Decrescia tambem o numero das lavadeiras, e a maior parte das casinhas eram occupadas agora por pequenas familias de operarios, artistas e praticantes de secretaria. O cortiço aristocratisava-se. Havia um alfaiate logo á entrada, homem sério, de suissas brancas, que cosia na sua machina entre officiaes, ajudado pela mulher, uma lisboeta côr de nabo gorda, velhusca, com um principio de bigode e cavagnac, mas extremamente circumspecta; em seguida um relojoeiro calvo, de oculos, que parecia mumificado atraz da vidraça em que elle, sem mudar de posição, trabalhava, da manhã até á tarde; depois um pintor de tectos e taboletas, que levou a phantasia artistica ao ponto de fazer, a pincel, uma trepadeira em volta da sua porta, onde se viam passaros de varias côres e feitios, muitos compromettedores para o credito profissional do autor; mais adiante installára-se um cigarreiro, que occupava nada menos de tres numeros na estalagem e tinha quatro filhas e dois filhos a fabricarem cigarros, e mais tres operarias que preparavam palha de milho e picavam e desfiavam tabaco. Florinda, mettida agora com um despachante da estrada de ferro, voltára para o São Romão e trazia a sua casinha em muito bonito pé de limpeza e arranjo. Estava ainda de luto pela mãe, a pobre velha Marcianna, que ultimamente havia morrido no hospicio dos doidos. Aos domingos o despachante costumava receber alguns camaradas para jantar, e como a rapariga puxava os feitios da Rita Bahiana, as suas noitadas acabavam sempre em pagode de dansa e cantarola, mas tudo de portas a dentro, que ali já se não admittiam sambas e chinfrinadas ao relento. A Machona quebrára um pouco de genio depois da morte de Agostinho e era agora visitada por um grupo de moços do commercio, entre os quaes havia um pretendente á mão de Nênêm, que se mirrava já de tanto esperar a secco por marido. Alexandre fôra promovido a sargento e empertigava-se ainda mais dentro da sua farda nova, de botões que cegavam; a mulher, sempre indifferentemente fecunda e honesta, parecia criar bolôr na sua molleza humida e tinha um ar triste de cogumelo; era vista com frequencia a dar de mammar a um pequerrucho de poucos mezes, empinando muito a barriga para a frente, pelo habito de andar sempre gravida. A sua comadre Léonie continuava a visital-a de vez em quando, aturdindo a actual pacatez d'aquelle cenobio com as suas roupas gritadoras. Uma occasião em que lá fóra, um sabado á tarde, produzira grande alvoroço entre os decanos da estalagem, porque comsigo levava Pombinha, que se atirára ao mundo e vivia agora em companhia d'ella.

Pobre Pombinha! no fim dos seus primeiros dois annos de casada já não podia supportar o marido; todavia, a principio, para conservar-se mulher honesta, tentou perdoar-lhe a falta de espirito, os gostos razos e a sua risonha e fatigante palermice de homem sem ideal; ouvio-lhe, resignada, as confidencias banaes nas horas intimas do matrimonio; attendeu-o nas suas exigencias mesquinhas de ciumento que chora; tratou-o com toda a solicitude, quando elle esteve a decidir com uma pneumonite aguda; procurou afinar em tudo com o pobre rapaz: não lhe fallou nunca em coisas que cheirassem a luxo, a arte, a esthetica, a originalidade; escondeu a sua mal educada e natural intuição pelo que é grande, ou bello, ou arrojado, e fingio ligar interesse ao que elle fazia, ao que elle dizia, ao que elle ganhava, ao que elle pensava e ao que elle conseguia com paciencia na sua vida estreita de negociante rotineiro; mas, de repente, zás! faltou-lhe o equilibrio e a misera escorregou, cahindo nos braços de um bohemio de talento, libertino e poeta, jogador e capoeira. O marido não deu logo pela coisa, mas começou a estranhar a mulher, a desconfiar d'ella e a espreital-a, até que um bello dia, seguindo-a na rua sem ser visto, o desgraçado teve a dura certeza de que era trahido pela esposa, não mais com o poeta libertino, mas com um artista dramatico, que muitas vezes lhe arrancára, a elle, sinceras lagrimas de commoção, declamando no theatro em honra da moral triumphante e estigmatisando o adulterio com a rethorica mais vehemente e indignada.

Ah não poude illudir-se! ... e, a despeito do muito que amava á ingrata, rompeu com ella e entregou-a á mãe, fugindo em seguida para São Paulo. Dona Isabel, que sabia já, não d'esta ultima falcatrua da filha, mas das outras primeiras, que bem a mortificaram, coitada! desfez-se em lagrimas, aconselhou-a a que se arrependesse e mudasse de conducta; em seguida escreveu ao genro, intercedendo por Pombinha, jurando que agora respondia por ella e pedindo-lhe que esquecesse o passado e voltasse para junto de sua mulher. O rapaz não respondeu á carta, e dahi a mezes, Pombinha desappareceu da casa da mãe. Dona Isabel quasi morre de desgosto. Para onde teria ido a filha?... «Onde está? onde não está! Procura d'aqui! procura d'ahi!» Só a descobrio semanas depois; estava morando n'um hotel com Léonie. A serpente vencia afinal. Pombinha foi, pelo seu proprio pé, attrahida, metter-se-lhe na bocca. A pobre mãe chorou a filha como morta; mas, visto que os desgosto não lhe tiraram a vida por uma vez e, como a desgraçada não tinha com que matar a fome, nem forças para trabalhar, aceitou de cabeça baixa o primeiro dinheiro que Pombinha lhe mandou. E, desde então, aceitou sempre, constituindo-se a rapariga no seu unico amparo da velhice e sustentando-a com os ganhos da prostituição. Depois, como n'este mundo uma creatura a tudo se acostuma, Dona Isabel mudou-se para a casa da filha. Mas não apparecia nunca na sala quando havia gente de fóra; escondia-se; e, se algum dos frequentadores de Pombinha a pilhava de improviso, a infeliz, com vergonha de si mesma, fingia-se criada ou dama de companhia. O que mais a desgostava, e o que ella não podia tolerar sem apertos de coração, era ver a pequena endemoninhar-se com champanha depois do jantar e pôr-se a dizer tolices e a estender-se ali mesmo no collo dos homens. Chorava sempre que a via entrar ébria, fóra d'horas, depois de uma orgia; e, de desgosto em desgosto, foi se sentindo enfraquecer e enfermar, até cahir de cama e mudar-se para uma casa de saude, onde afinal morreu.

Agora, as duas cocotes, amigas, inseparaveis, terriveis n'aquella inquebrantavel solidariedade, que fazia d'ellas uma só cobra de duas cabeças dominavam o alto e o baixo Rio de Janeiro. Eram vistas por toda a parte onde houvesse prazer; á tarde, antes do jantar, atravessavam o Catette em carro descoberto, com a Jujú ao lado; á noite, no theatro, em um camarote de bocca, chamavam sobre si os velhos conselheiros desfibrados pela politica e avidos de sensações extremas, ou arrastavam para os gabinetes particulares dos hoteis os sensuaes e gordos fazendeiros de café, que vinham á côrte esbodegar o farto producto das safras do anno, trabalhadas pelos seus escravos. Por cima d'ellas duas passára uma geração inteira de devassos. Pombinha, só com tres mezes de cama franca, fizera-se tão perita no officio como a outra; a sua infeliz intelligencia, nascida e criada no modesto lodo da estalagem, medrou logo admiravelmente na lama forte dos vicios de largo folego; fez maravilhas na arte; parecia adivinhar todos os segredos d'aquella vida; seus labios não tocavam em ninguem sem tirar sangue; sabia beber, gotta a gotta, pela bocca do homem mais avarento, todo o dinheiro que a victima pudesse dar de si. Entretanto, lá na Avenida São Romão, era, como a mestra, cada vez mais adorada pelos seus velhos e fieis companheiros de cortiço; quando lá iam, acompanhadas por Jujú, a porta da Augusta ficava, como d'antes, cheia de gente, que as abençoava com o seu estupido sorriso de pobreza hereditaria e humilde. Pombinha abria muito a bolsa, principalmente com a mulher de Jeronymo, a cuja filha, sua protegida predilecta, votava agora, por sua vez, uma sympathia toda especial, identica á que n'outro tempo inspirára ella propria á Léonie. A cadeia continuava e continuaria interminavelmente; o cortiço estava preparando uma nova prostituta n'aquella pobre menina desamparada, que se fazia mulher ao lado de uma infeliz mãe ébria.

E era, ainda assim, com essas esmolas de Pombinha, que na casa de Piedade não faltava de todo o pão, porque já ninguem confiava roupa á desgraçada, e nem ella podia dar conta de qualquer trabalho.

Pobre mulher! chegára ao extremo dos extremos. Coitada! já não causava dó, causava repugnancia e nojo. Apagaram-se-lhe os ultimos vestigios do brio; vivia andrajosa, sem nenhum trato e sempre ébria, d'essa embriaguez sombria e morbida que se não dissipa nunca. O seu quarto era mais immundo e o peior de toda a estalagem; homens malvados abusavam d'ella, muitos de uma vez, aproveitando-se da quasi completa inconsciencia da infeliz. Agora, o menor trago de aguardente a punha logo prompta; acordava todas as manhãs apatetada, muito triste, sem animo para viver esse dia, mas era só correr á garrafa e voltavam-lhe as risadas frouxas, de bocca que já se não governa. Um empregado de João Romão, que ultimamente fazia as vezes d'elle na estalagem, por tres vezes a enxotou, e ella, de todas, pedio que lhe dessem alguns dias de espera, para arranjar casa. Afinal, no dia seguinte ao ultimo em que Pombinha appareceu por lá com Léonie e deixou-lhe algum dinheiro, despejaram-lhe os tarecos na rua.

E a misera, sem chorar, foi refugiar-se, junto com a filha, no Cabeça de Gato que, á proporção que o São Romão se engrandecia, mais e mais ia-se rebaixando acanalhado, fazendo-se cada vez mais torpe, mais abjecto, mais cortiço, vivendo satisfeito do lixo e da salsugem que o outro regeitava, como se todo o seu ideal fosse conservar inalteravel, para sempre, o verdadeiro typo da estalagem fluminense, a legitima, a legendaria; aquella em que ha um samba e um rôlo por noite; aquella em que se matam homens sem a policia descobrir os assassinos; viveiro de larvas sensuaes em que irmãos dormem misturados com as irmãs na mesma lama; paraiso de vermes; brejo de lodo quente o fumegante, donde brota a vida brutalmente, como de uma podridão.

XXIII

A porta de uma confeitaria da rua do Ouvidor, João Romão, apurado n'um fato novo de casimira clara, esperava pela familia do Miranda, que n'esse dia andava em compras.

Eram duas horas da tarde e um grande movimento fazia-se ali. O tempo estava magnifico; sentia-se pouco calor. Gente entrava e sahia, a passo frouxo, da casa Pascoal. Lá dentro janotas estacionavam de pé, soprando o fumo dos charutos, á espera que desoccupassem uma das mezinhas de marmore preto; grupos de senhoras, vestidas de seda, faziam lanche com vinho do Porto. Respirava-se um cheiro agradavel de essencias e vinagres aromaticos; havia um rumor quente e garrido, mas bem educado; namorava-se forte, mas com disfarce, furtando-se olhares no complicado encontro dos espelhos; homens bebiam ao balcão e outros conversavam, comendo empadinhas junto ás estufas; algumas pessoas liam já os primeiros jornaes da tarde; serventes, muito atarefados, despachavam compras de doce e biscoitos e faziam sem descançar, pacotes de papel de côr, que os compradores levavam pendurados n'um dedo. Ao fundo, de um dos lados do salão, aviavam-se grandes encommendas de banquetes para essa noite, traziam-se lá de dentro, já promptas, torres e castellos de balas e trouxas d'ovos e imponentes peças de cozinha caprichosamente enfeitadas; criados desciam das prateleiras as enormes baixellas de metal branco, que os companheiros iam embalando em caixões com papel fino picado. Os empregados das secretarias publicas vinham tomar o seu vermuth com siphão; reporteres insinuavam-se por entre os grupos dos jornalistas e dos politicos, com o chapéo á ré, avidos de noticias, uma curiosidade indiscreta nos olhos. João Romão sem deixar a porta, apoiado no seu guarda chuva de cabo de marfim, recebia cumprimentos de quem passava na rua; alguns paravam para lhe fallar. Elle tinha sorrisos e offerecimentos para todos os lados; e consultava o relogio de vez em quando.

Mas a familia do Barão surgio afinal. Zulmira vinha na frente, com um vestido côr de palha justo ao corpo, muito elegante no seu typo de fluminense pallida e nervosa; logo depois Dona Estella, grave, toda de negro, passo firme e ar severo de quem se orgulha das suas virtudes e do bom cumprimento dos seus deveres. O Miranda acompanhava-as, de sobrecasaca, fitinha ao peito, o collarinho até ao queixo, botas de verniz, chapéo alto e bigode cuidadosamente raspado. Ao darem com João Romão, elle sorrio e Zulmira tambem; só Dona Estella conservou inalteravel a sua fria mascara de mulher que não dá verdadeira importancia senão a si mesma.

O ex-taverneiro e futuro visconde foi, todavia, ao encontro d'elles, cheio de solicitude, descobrindo-se desde logo e convidando-os com empenho a que tomassem alguma coisa.

Entraram todos na confeitaria e apoderaram-se da primeira meza que se esvaziou. Um criado acudio logo e João Romão, depois de consultar Dona Estella, pedio sandwichs doces e moscatel de Setubal. Mas Zulmira reclamou sorvete e licor. E só esta fallava; os outros estavam ainda á procura de um assumpto para a conversa; afinal o Miranda que, durante esse tempo considerava o tecto e as paredes, fez algumas considerações sobre as reformas e novos adornos do salão da confeitaria. Dona Estella dirigio, de má, a João Romão varias perguntas sobre a companhia lyrica, o que confundio por tal modo ao pobre homem, que o poz vermelho e o desnorteou de todo. Felizmente, n'esse instante chegava o Botelho e trazia uma noticia: a morte de um sargento no quartel; questão entre inferior e superior. O sargento, insultado por um official do seu batalhão, levantara a mão contra elle, e o official então arrancára da espada e atravessára-o de lado a lado. Estava direito! Ah! elle era rigoroso em pontos de disciplina militar! Um sargento levantar a mão para um official superior!... devia ficar estendido ali mesmo, que duvida!

E faiscavam-lhe os olhos no seu inverterado enthusiasmo por tudo que cheirasse á farda. Vieram logo as anecdotas analogas; o Miranda contou um facto identico que se dera vinte annos atraz e Botelho citou uma enfiada d'elles interminavel.

Quando se levantaram, João Romão deu o braço a Zulmira e o Barão á mulher, e seguiram todos para o largo de São Francisco, lentamente, em andar de passeio, acompanhados pelo parasita. Lá chegados Miranda queria que o visinho acceitasse um logar no seu carro, mas João Romão tinha ainda que fazer na cidade e pedio dispensado obsequio. Botelho tambem ficou; e, mal a carroagem partio, este disse ao ouvido do outro, sem tomar folego:

--O homem vae hoje, sabe? Está tudo combinado!

--Ah! vae? perguntou João Romão com interesse, estacando no meio do largo. Ora graças! Já não é sem tempo!

--Sem tempo! Pois olhe, meu amigo, que tenho suado o topete! Foi uma campanha!

--Ha que tempo já tratamos d'isto!...

--Mas que quer você, se o homem não apparecia?... Estava fóra! Escrevi-lhe varias vezes, como sabe, e só agora consegui pilhal-o. Fui tambem á policia duas vezes e já lá voltei hoje; ficou tudo prompto! mas você deve estar em casa para entregar a crioula quando elles lá se apresentarem ...

--Isso é que seria bom se se pudesse dispensar... Desejava não estar presente...

--Ora essa! Então com quem se entendem elles?.... Não! tenha paciencia! é preciso que você lá esteja!

--Você podia fazer as minhas vezes...

--Peior! Assim não arranjamos nada! Qualquer duvida póde entornar o caldo! E melhor fazer as coisas bem feitas Que diabo lhe custa isto?... Os homenzinhos chegam, reclamam a escrava em nome da lei, e você a entrega--prompto! Fica livre d'ella para sempre, e d'aqui a dias estoira o champanha do casorio! Hein, não lhe parece?

--Mas...

--Ella ha de choramigar, lazer lamurias e coisas, mas você pôe-se duro e deixe-a seguir lá o seu destino!...

Bolas! não foi você que a fez negra!...

--Pois vamos lá! creio que são horas.

--Que horas são!

--Tres e vinte.

--Vamos indo.

E desceram de novo a rua do Ouvidor até ao ponto dos bondes de Gonçalves Dias.

--O de São Clemente não está agora, observou o velho. Vou tomar um copo d'agoa emquanto o esperamos.

Entraram no botequim do logar e, para conversar assentados, pediram dois calices de cognac.

--Olhe, acrescentou Botelho; você nem precisa dizer palavra ... faça como coisa que não tem nada com isso, comprehende?

--E se o homem quizer os ordenados de todo o tempo em que ella esteve em minha companhia?...

--Como, filho, se você não a alugou das mãos de ninguem?!... Você não sabe lá se a mulher é ou era escrava; tinha-a por livre naturalmente; agora apparece o dono, reclama-a, e você a entrega, porque não quer ficar com o que lhe não pertence! Ella sim, póde pedir o seu saldo de contas; mas para isso você lhe dará qualquer coisa...

--Quanto devo dar-lhe?

--Ahi uns quinhentos mil reis, para fazer a coisa á fidalga.

--Pois dou-lh'os.

--E feito isso--acabou-se! O proprio Miranda vae logo, logo, ter com você! Verá!

Iam fallar ainda, mas o bonde de São Clemente acabava de chegar, assaltado por todos os lados pela gente que o esperava. Os dois só conseguiram logar muito separados um do outro, de sorte que não puderam conversar durante a viagem.

No largo da Carioca uma victoria passou por elles, a todo o trote. Botelho vergou-se logo para traz, procurando os olhos do vendeiro, a rir-se com intenção. Dentro de carro ia Pombinha, coberta de joias, ao lado de Henrique; ambos muito alegres, em pandega. O estudante, agora no seu quarto anno de medicina, vivia á solta com outros da mesma idade e pagava ao Rio de Janeiro o seu tributo de rapazola rico.

Ao chegarem á casa, João Romão pedio ao cumplice que entrasse e levou-o para o seu escriptorio.

--Descance um pouco ... disse-lhe.

--É, se eu soubesse que elles se não demoravam muito, ficava para ajudal-o.

--Talvez só venham depois do jantar, tornou aquelle, assentando-se á carteira.

Um caixeiro approximou-se d'elle respeitosamente e fez-lhe varias perguntas relativas ao serviço do armazem, ao que João Romão respondia por monosyllabos de capitalista; interrogou-o por sua vez e, como não havia novidade, tomou Botelho pelo braço e convidou-o a sahir.

--Fique para jantar. São quatro e meia, segredou-lhe na escada.

Já não era preciso prevenir lá defronte, porque agora o velho parazita comia muitas vezes em casa do visinho.

O jantar correu frio e contrafeito; os dois sentiam-se ligeiramente dominados por um vago sobresalto. João Romão foi pouco além da sôpa e quiz logo a sobremeza.

Tomavam café, quando um empregado subio para dizer que lá em baixo estava um senhor, acompanhado de duas praças, e que desejava fallar ao dono da casa.

--Vou já! respondeu este.

E accrescentou para o Botelho:--São elles!

--Deve ser, confirmou o velho.

--E desceram logo.

--Quem me procura?... exclamou João Romão com disfarce, chegando ao armazem.

Um homem alto, com ar de estroina, adiantou-se e entregou-lhe uma folha de papel.

João Romão, um pouco tremulo, abrio-a defronte dos olhos e leu-a demoradamente. Um silencio formou-se em torno d'elle; os caixeiros pararam em meio do serviço, intimidados por aquella scena em que entrava a policia.

--Está aqui com effeito ... disse afinal o negociante. Pensei que fosse livre...

--É minha escrava, affirmou o outro. Quer entregar-m'a?...

--Mas immediatamente.

--Onde está ella?

--Deve estar lá dentro. Tenha a bondade de entrar...

O sujeito fez signal aos dois urbanos, que o acompanharam logo, e encaminharam-se todos para o interior da casa. Botelho, á frente delles, ensinava-lhes o caminho. João Romão ia atraz, pallido, com as mãos crusadas nas costas.

Atravessaram o armazem, depois um pequeno corredor que dava para um pateo calçado, e chegaram finalmente á cozinha. Bertoleza, que havia já feito subir o jantar dos caixeiros, estava de cocaras no chão, escamando peixe, para a ceia do seu homem, quando vio parar defronte d'ella aquelle grupo sinistro.

Reconheceu logo o filho mais velho do seu primitivo senhor, e um calafrio percorreu-lhe o corpo. N'um relance de grande perigo comprehendeu a situação; adivinhou tudo com a lucidez de quem se vê perdido para sempre: adivinhou que tinha sido enganada; que a sua carta de alforria era uma mentira, e que o seu amante, não tendo coragem para matal-a, restituia-a ao captiveiro.

Seu primeiro impulso foi de fugir, Mal, porém, circumvagou os olhos em torno de si, procurando escapúla, o senhor adiantou-se d'ella e segurou-lhe o hombro.

--É esta! disse aos soldados que, com um gesto, intimaram a desgraçada a seguil-os.--Prendam-na! É escrava minha!

A negra, immovel, cercada de escamas e tripas de peixe, com uma das mãos espalmada no chão e com a outra segurando a faca de cozinha, olhou aterrada para elles, sem pestanejar:

Os policias, vendo que ella se não despachava, desembainharam os sabres. Bertoleza então, erguendo-se com impeto de anta bravia, recuou de um salto e, antes que alguem conseguisse alcançal-a, já de um só golpe certeiro e fundo rasgára o ventre de lado a lado.

E depois emborcou para a frente, rugindo e esfocinhando moribunda numa lameira de sangue.

João Romão fugira até ao canto mais escuro do armazem, tapando o rosto com as mãos.

N'esse momento parava á porta da rua uma carruagem. Era uma commissão de abolicionistas que vinham, de casaca, trazer-lhe respeitosamente o diploma de socio benemerito.

Elle mandou que os conduzissem para a sala de visitas.