Part 11
O outro erguêra-se logo e, mal se tinha equilibrado, já uma rasteira o tombava para a direita, emquanto da esquerda elle recebia uma tapona na orelha. Furioso, desferio novo sôco, mas o capoeira deu para traz um salto de gato e o portuguez sentio um pontapé nos queixos.
Espirrou-lhe sangue da bocca e das ventas. Então fez-se um clamor medonho. As mulheres quizeram metter-se de permeio, porém o cabra as emborcava com rasteiras rapidas, cujo movimento de pernas apenas se percebia. Um horrivel sarilho se formava. João Romão fechou ás pressas as portas da venda e trancou o portão da estalagem, correndo depois para o logar da briga. O Bruno, os mascates, os trabalhadores da pedreira, e todos os outros que tentaram segurar o mulato, tinham rolado em torno d'elle, formando-se uma roda limpa, no meio da qual o terrivel capoeira, fóra de si, doido, reinava, saltando a um tempo para todos os lados, sem consentir que ninguem se approximasse. O terror arrancava gritos agudos. Estavam já todos assustados, menos a Rita que, a certa distancia, via, de braços crusados, aquelles dois homens a se baterem por causa d'ella; um ligeiro sorriso encrespava-lhe os labios. A lua escondêra-se; mudara o tempo: o céo, de limpo que estava, fizéra-se côr de lousa; sentia-se um vento humido de chuva. Piedade berrava, reclamando policia; tinha levado um troca-queixos do marido, porque insistia em tiral-o da lucta. As janellas do Miranda accumulavam-se de gente. Ouviam-se apitos, soprados com desespero.
N'isto, echoou na estalagem um bramido de féra enraivecida: Firmo acabava de receber, sem esperar, uma formidavel cacetada na cabeça. É que Jeronymo havia corrido á casa e armára-se com o seu varapáo minhoto. E então o mulato, com o rosto banhado de sangue, refilando as prezas e espumando de colera, erguêra o braço direito, onde se vio scintillar a lamina de uma navalha.
Fez-se uma debandada em volta dos dois adversarios, estrepitosa, cheia de pavor. Mulheres e homens atropellavam-se, cahindo uns por cima dos outros. Albino perdera os sentidos; Piedade clamava, estarrecida e em soluços, que lhe iam matar o homem; a das Dôres soltava censuras e maldições contra aquella estupidez de se destriparem por causa de entre-pernas de mulher; a Machona, armada com um ferro de engommar, jurava abrir as fuças a quem lhe désse um segundo coice como acabava ella de receber um nas ancas; Augusta enfiára pela porta do fundo da estalagem, para atravessar o capinzal e ir á rua ver se descobria o marido, que talvez estivesse de serviço no quarteirão. Por esse lado acudiam curiosos, e o pateo enchia-se de gente de fóra. Dona Isabel e Pombinha, de volta da casa de Leonie, tiveram difficuldade em chegar ao numero 15, onde, mal entraram, fecharam-se por dentro, praguejando a velha contra a desordem e lamentando-se da sorte que as lançou n'aquelle inferno. Em tanto, no meio de uma nova roda, encintada pelo povo, o portuguez e o brasileiro batiam-se.
Agora a lucta era regular: havia igualdade de partidos, porque o cavouqueiro jogava o páo admiravelmente; jogava-o tão bem quanto o outro jogava a sua capoeiragem. Embalde Firmo tentava alcançal-o; Jeronymo, sopesando ao meio a grossa vara na mão direita, girava-a com tal pericia e ligeireza em torno do corpo, que parecia embastilhado por uma teia impenetravel e sibilante. Não se lhe via a arma, só se ouvia um zunido do ar simultaneamente cortado em todas as direcções.
E, ao mesmo tempo que se defendia, atacava. O brasileiro tinha já recebido páoladas na testa, no pescoço, nos hombros, nos braços, no peito, nos rins e nas pernas. O sangue inundava-o inteiro; elle rugia e arfava, iroso e cansado, investindo ora com os pés, ora com a cabeça, e livrando-se d'aqui, livrando-se d'ali, aos pulos e ás cambalhotas.
A victoria pendia para o lado do portuguez. Os espectadores acclamavam-no já com enthusiasmo; mas, de subito, o capoeira mergulhou, n'um relance, até ás canellas do adversario e surgio-lhe rente dos pés, grudado n'elle, rasgando-lhe o ventre com uma navalhada.
Jeronymo soltou um mugido e cahio de borco, segurando os intestinos.
--Matou! Matou! Matou! exclamaram todos com assombro.
Os apitos esfuziaram mais assanhados.
Firmo varou pelos fundos do cortiço e desappareceu no capinzal.
--Pega! Pega!
--Ai, o meu rico homem! ululou Piedade, atirando-se de joelhos sobre o corpo ensanguentado do marido. Rita viera tambem de carreira lançar-se ao chão junto d'elle, para lhe afagar as barbas e os cabellos.
--É preciso o doutor! supplicou aquella, olhando para os lados á procura de uma alma caridosa que lhe valesse.
Mas n'isto um estardalhaço de formidaveis pranchadas estrugio no portão da estalagem. O portão abalou com estrondo e gemeu.
--Abre! Abre! reclamavam de fóra.
João Romão atravessou o pateo, como um general em perigo, gritando a todos:
--Não entra a policia! Não deixa entrar! Aguenta! Aguenta!
--Não entra! Não entra! repercutio a multidão em côro.
E todo o cortiço ferveu que nem uma panella ao fogo.
--Aguenta! Aguenta!
Jeronymo foi carregado para o quarto, a gemer, nos braços da mulher e da mulata.
--Aguenta! Aguenta!
De cada casulo espipavam homens armados de páo, achas de lenha, varaes de ferro. Um empenho collectivo os agitava agora, a todos, n'uma solidariedade briosa, como se ficassem deshonrados para sempre se a policia entrasse ali pela primeira vez. Emquanto se tratava de uma simples lucta entre dois rivaes, estava direito! «Jogassem lá as cristãs, que o mais homem ficaria com a mulher!» mas agora tratava-se de defender a estalagem, a communa, onde cada um tinha a zelar por alguem ou alguma coisa querida.
--Não entra! Não entra!
E berros atroadores respondiam ás pranchadas, que lá fóra se repetiam ferozes.
A policia era o grande terror d'aquella gente, porque, sempre que penetrava em qualquer estalagem, havia grande estropicio: á capa de evitar e punir o jogo e a bebedeira, os urbanos invadiam os quartos, quebravam o que lá estava, punham tudo em polvorosa. Era uma questão de odio velho.
E, emquanto os homens guardavam a entrada do capinzal e sustentavam de costas o portão da frente, as mulheres, em desordem, rolavam as tinas, arrancavam giráos, arrastavam carroças, restos de colchões e saccos de cal, formando ás pressas uma barricada.
As pranchadas multiplicavam-se. O portão rangia, estalava, começava a abrir-se; ia ceder. Mas a barricada estava feita e todos entrincheirados atraz d'ella. Os que entraram de fora por curiosidade não puderam sahir e viam-se mettidos no surumbamba. As cercas das hortas voaram. A Machona terrivel fungára as saias e empunhava na mão o seu ferro de engommar. A das Dôres, que ninguem dava nada por ella, era uma das mais duras e que parecia mais empenhada na defeza.
Afinal o portão lascou; um grande rombo abrio se logo; cahiram taboas; e os quatro primeiros urbanos que se precipitaram dentro foram recebidos a pedradas e garrafas vazias. Seguiram-se outros. Havia uns vinte. Um sacco de cal, despejado sobre elles, desnorteou-os.
Principiou então o sarilho grosso. Os sabres não podiam alcançar ninguem por entre a trincheira; ao passo que os projectis, arremeçados lá de dentro, desbaratavam o inimigo. Já o sargento tinha a cabeça partida e duas praças abandonavam o campo, á falta de ar.
Era impossivel invadir aquelle baluarte com tão poucos elementos, mas a policia teimava, não mais por obrigação que por necessidade pessoal de desforço. Semelhante resistencia os humilhava. Se tivessem espingardas fariam fogo. O unico d'elles que conseguio trepar á barricada, rolou de lá abaixo sob uma carga de páo e teve de ser carregado para a rua pelos companheiros. O Bruno, todo sujo de sangue, estava agora armado de um refle e o Porfiro, mestre na capoeiragem, linha na cabeça uma barretina de urbano.
--Fóra os morcegos!
--Fóra! Fóra!
E, a cada exclamação, tome pedra! tome lenha! tome cal! tome fundo de garrafa!
Os apitos estridulavam mais e mais fortes.
N'essa occasião, porém, Nênêm gritou, correndo na direcção da barricada.
--Acudam aqui! Acudam aqui! Ha fogo no numero 12. Está sahindo fumaça!
--Fogo!
A este grito um panico geral apoderou-se dos moradores do cortiço. Um incendio lamberia aquellas cem casinhas emquanto o diabo esfrega um olho!
Fez-se logo medonha confusão. Cada qual pensou em salvar o que era seu. E os policias, aproveitando o terror dos adversarios, avançaram com impeto, levando na frente o que encontravam e penetrando emfim no infernal reducto, a dar espadeiradas para a direita e para a esquerda, como quem destroça uma boiada. A multidão atropellava-se, desembestando n'um alarido. Uns fugiam á prisão; outros cuidavam em defender a casa. Mas as praças, loucas de colera, mettiam dentro as portas e iam invadindo e quebrando tudo, sequiosas de vingança.
N'isto, roncou no espaço a trovoada. O vento do norte zunio mais estridente e um grande pé d'agoa desabou cerrado.
XI
A Bruxa, por influencia suggestiva da loucura de Marcianna, peiorou do juizo e tentou incendiar o cortiço.
Emquanto os companheiros o defendiam a unhas e dentes, ella, com todo o disfarce, carregava palha e sarrafos para o numero 12 e preparava uma fogueira. Felizmente acudiram a tempo; mas as consequencias foram do mesmo modo desastrosas, porque muitas outras casinhas, escapando como aquella ao fogo, não escaparam á devastação da policia. Algumas ficaram completamente assoladas. E a coisa seria ainda mais feia, se não viera o providencial agoaceiro apagar tambem o outro incendio ainda peior, que, de parte a parte, lavrava nos animos. A policia retirou-se sem levar nenhum preso. «A ir um, iriam todos á estação! Deus te livre! Demais, para que? o que ella queria fazer, fez! Estava satisfeita!»
Apezar do empenho do João Romão, ninguem conseguio descobrir o autor da sinistra tentativa, e só muito tarde cada qual cuidou de pregar olho, depois de reaccommodar, entre plangentes lamentações, o que se salvou do destroço. O tempo levantou de novo á meia noite. Ao romper da aurora já muita gente estava de pé e o vendeiro passava uma revista minuciosa no pateo, avaliando e carpindo, inconsolavel e furioso, o seu prejuizo. De vez em quando soltava uma praga. Além do que escangalharam os urbanos dentro das casas, havia muita tina partida, muito giráo quebrado, lampeões em fanicos, hortas e cercas arrazadas; o portão da frente e a taboleta foram reduzidos a lenha. João Romão meditava, para cobrir o damno, carregar um imposto sobre os moradores da estalagem, augmentando-lhes o aluguel dos commodos e o preço dos generos. Vio-se n'uma dobadoira durante o dia inteiro; desde pela manhã déra logo os providencias para que tudo voltasse aos seus eixos o mais depressa possivel: mandou buscar novas tinas; fabricar novos giráos e concertar os quebrados; pôz gente a remendar o portão e a taboleta. Ao meio dia teve de comparecer á presença do subdelegado na secretaria da policia. Foi mesmo em mangas de camisa e sem meias; muitos do cortiço o acompanharam, quer por espirito de camaradagem, quer por simples curiosidade.
Uma verdadeira patuscada esse passeio á cidade! Parecia uma romaria; algumas mulheres levavam os seus pequenitos ao collo; um magote de italianos ia á frente, macarroneando, a fumar cachimbo; alguns cantavam. Ninguem tomou bonde; e por toda a viagem discutiram e altercaram em grande troça, commentando com gargalhadas e chalaças gordas o que iam encontrando, a chamar a attenção das ruas por onde desfilava a ruidosa farandula.
A sala da policia encheu-se.
O interrogatorio, exclusivamente dirigido a João Romão, era respondido por todos a um só tempo, a despeito dos protestos e das ameaças da autoridade, que se vio tonta. Nenhum d'elles nada esclarecia e todos se queixavam da policia, exagerando as perdas recebidas na vespera.
A respeito de como se travara o conflicto e quem o provocara, o taverneiro declarou que nada podia saber ao certo, porque na occasião se achava ausente da estalagem. Do que tinha certeza era de que as praças lhe invadiram a propriedade e poseram em cacos tudo o que encontraram, como se aquillo lá fosse roupa de francez!
--Bem feito! bradou o subdelegado. Não resistissem!
Um côro de respostas assanhadas levantou-se para justificar a resistencia. «Ah! Estavam mais que fartos de ver o que pintavam os morcegos, quando lhes não sabia alguem pela frente! Esbodegavam até á ultima, só pelo gostinho de fazer mal! Pois então uma creatura, porque estava a divertir-se um bocado com os amigos, havia de ser aperreada que nem boi ladrão?... Tinha lá geito?... Os rôlos era sempre a policia quem os levantava com as suas furias! Não se mettesse ella na vida de quem vivia socegado no seu canto, e não sahiria tanto barulho!...» Como de costume, o espirito de collectividade, que unia aquella gente em circulo de ferro, impedio que transpirasse o menor vislumbre de denuncia. O subdelegado, depois de dirigir-se inutilmente a um por um, despachou o bando, que fez logo a sua retirada, no meio de uma alacridade mais quente ainda que a da ida.
Lá no cortiço, de portas a dentro, podiam esfaquear-se a vontade, que nenhum d'elles, e muito menos a victima, seria capaz de apontar o criminoso; tanto que o medico, que, logo depois da invasão da policia, desceu da casa do Miranda á estalagem, para soccorrer Jeronymo, não conseguio arrancar d'este o menor esclarecimento sobre o motivo da navalhada. «Não fôra nada!... Não fôra de proposito!.. Estavam a brincar e succedêra aquillo!... Ninguem tivera a menor intenção de fazer-lhe móssa!...»
Rita mostrou-se de uma incansavel solicitude para com o ferido. Foi ella quem correu a buscar os remedios, quem servio de ajudante ao medico e quem servio de enfermeiro ao doente. Muitos lá iam, demorando-se um instante, para dar fé; ella, porém, desde que Jeronymo se achou operado, não lhe abandonou a cabeceira; ao passo que Piedade, afflicta e atarantada, não fazia senão chorar e arreliar-se.
A mulata, essa não chorava; mas a sua physionomia tinha uma profunda expressão de magoa enternecida. Agora toda ella se sentia apegar-se áquelle homem bom e forte; áquelle gigante inoffensivo; áquelle hercules tranquillo, que mataria o Firmo com uma punhada, mas que, na sua boa fé, se deixára navalhar pelo facinora. «E tudo por causa d'ella! só por ella!» Seu coração de mulher rendia-se captivo a semelhante dedicação ensanguentada e dolorosa. E elle, o misero, interrompia as contracções do rosto para sorrir defronte dos olhos enamorados da bahiana, feliz n'aquella desgraça que lhe permittia gosar dos seus carinhos. E tomava-lhe as mãos, e cingia-lhe a cintura, resignado e commovido, sem uma palavra, sem um gesto, mas a dizer bem claro, na sua dôr silenciosa e quieta de animal ferido, que a amava muito, que a amava loucamente.
Rita affagava-o, já sem a menor sombra de escrupulo, tratando-o por tu, ameigando-lhe os cabellos sujos de sangue com a polpa macia da sua mão feminil. E, ali mesmo em presença da mulher d'elle, só faltava beijal-o com a boca, que com os olhos o devorava de beijos ardentes e sequiosos.
Depois da meia noite dada, ella e Piedade ficaram sozinhas velando o enfermo. Deliberou-se que este iria pela manhã para a Ordem de Santo Antonio, de que era irmão. E, com effeito, no dia immediato, emquanto o vendeiro e seu bando andavam lá ás voltas com a policia, e o resto do cortiço formigava, tagarelando em volta do concerto das tinas e giráos, Jeronymo, ao lado da mulher e da Rita, seguia dentro de um carro para o hospital.
As duas só voltaram de lá á noite, cahindo de fadiga. De resto, toda a estalagem estava igualmente prostrada e morrendo pela cama, se bem que n'esse dia as lavadeiras em geral gazeassem o trabalho; as que tinham roupa com mais pressa foram lavar fóra ou arrastaram bacias de banho para debaixo das bicas, á falta de melhor vasilha para o serviço. Discutio-se a campanha da vespera sem variar de assumpto. Aqui era um que lembrava as suas proezas com os urbanos, descrevendo enthusiasmado os pormenores da lucta; ali, outro repetia, cheio de empafia, os desaforos que dissera depois nas bochechas da autoridade; mais adiante trocavam se queixas e recriminações; cada qual, mulheres e homens, soffrêra o seu prejuizo ou a sua arranhadura, e mostravam entre si, numa febre de indignação os objectos partidos ou a parte do corpo escoriada.
Mas ás nove da noite já não havia viva alma no pateo da estalagem. A venda fechou-se um pouco mais cedo que de costume. Bertoleza atirou-se ao colchão, estrompada; João Romão recolheu-se junto d'ella, porém não conseguio dormir: sentia calafrios e pontadas na cabeça. Chamou pela amiga, a gemer, e pedio-lhe que lhe désse alguma coisa para suar. Suppunha estar com febre.
A crioula só descansou quando, muitas horas adiante, depois de mudar-lhe a roupa, o vio pegar no somno; e, d'ahi a pouco, ás quatro da madrugada, erguia-se ella, com estalos de juntas, a bocejar, fungando no seu estremunhamento pesadão, e pigarreando forte. Acordou o caixeiro para ir ao mercado; gargarejou um pouco d'agoa á torneira da cozinha e foi fazer fogo para o café dos trabalhadores, riscando phosphoros e accendendo cavacos num fogareiro, donde começaram a borbotar grossos novelos de fumo espesso.
Lá fóra clareava já, e a vida renascia no cortiço. A lucta de todos os dias continuava, como se não houvera interrupção. Principiava o borborinho. Aquella noite bem dormida punha-os a todos de bom humor.
Pombinha, entretanto, nessa manhã acordara abatida e nervosa, sem animo de sahir dos lençóes. Pedio café á mãe, bebeu, e tornou a abraçar-se nos travesseiros, escondendo o rosto.
--Não te sentes melhor hoje, minha filha?... perguntou-lhe Dona Isabel, apalpando-lhe a testa. Febre não tens.
--Ainda sinto o corpo molle ... mas não é nada... Isto passa!...
--Foi de tanto gelo, que tomaste em casa da madama!... Não te dizia?... Agora, o melhor é dar-te um escalda-pés!...
--Não! não, por amor de Deus! D'aqui a pouco estou em pé!
Ás oito horas, com effeito, levantava-se e fazia, indolentemente, o alinho da cabeça, defronte do seu modesto lavatorio de ferro. Dir-se-ia sem forças para a menor coisa; toda ella transpirava uma contemplativa melancolia de convalescente; havia uma doce expressão dolorosa na limpidez crystallina de seus olhos de moça enferma; um pobre sorriso pallido a entreabrir-lhe as petalas da boca, sem lhe alegrar os labios, que pareciam resequidos á mingoa de beijos de amor; assim a delicada planta murcha, languece e morre, se carinhosa borboleta não vae sacudir sobre ella as azas prenhes de fecundo e doirado pollen.
O passeio á casa de Leonie fizera-lhe muito mal. Trouxe de lá impressões e intimos vexames, que nunca mais se apagariam por toda a sua vida.
A cocote recebeu-a de braços abertos, radiante com apanhal-a junto de si, n'aquelles divans fôfos e traidores, entre todo aquelle luxo extravagante e requintado, proprio para os vicios grandes. Ordenou á criada que não deixasse entrar ninguem, ninguem, nem mesmo o Bebê, e assentou-se ao lado da menina, bem juntinho uma da outra, tomando-lhe as mãos, fazendo-lhe uma infinidade de perguntas, e pedindo lhe beijos, que saboreava gemendo, de olhos fechados.
Dona Isabel suspirava tambem, mas d'outro modo; na sua parva comprehensão do conforto, aquelles impertinentes espelhos, aquelles moveis casquilhos e aquellas cortinas escandalosas arrancavam-lhe saudosas recordações do bom tempo e avivavam a sua impaciencia por melhor futuro.
Ai! assim Deus quizesse ajudal-a!...
Ás duas da tarde, Leonie, por sua propria mão, servio ás visitas um pequeno lunch de _foie-gras_, presunto e queijo, acompanhado de champanha, gelo e agoa de Seltz; e, sem se descuidar um instante da rapariga, tinha para ella extremas solicitudes de namorado: levava-lhe a comida á boca, bebia do seu copo, apertava-lhe os dedos por debaixo da mesa.
Depois da refeição, Dona Isabel, que não estava habituada a tomar vinho, sentio vontade de descansar o corpo; Leonie franqueou-lhe um bom quarto, com boa cama, e, mal percebeu que a velha dormia, fechou a porta pelo lado de fóra, para melhor ficar em liberdade com a pequena.
Bem! Agora estavam perfeitamente a sós!
--Vem cá, minha flôr!... disse-lhe, puxando-a contra si e deixando-se cahir sobre um divan. Sabes? Eu te quero cada vez mais!... Estou louca por ti!
E devorava-a de beijos violentos, repetidos, quentes, que suffocavam a menina, enchendo-a de espanto e de um instinctivo temor, cuja origem a pobrezinha, na sua simplicidade, não podia saber qual era.
A cocote percebeu o seu enleio e ergueu-se, sem largar-lhe a mão.
--Descansemos nós tambem um pouco... propôz, arrastando-a para a alcova.
Pombinha assentou-se, constrangida, no rebordo da cama e, toda perplexa, com vontade de affastar-se, mas sem animo de protestar, por acanhamento, tentou reatar o fio da conversa, que ellas sustentavam um pouco antes, á meza, em presença de Dona Isabel. Leonie fingia prestar-lhe attenção e nada mais fazia do que affagar-lhe a cintura, as coxas e o collo. Depois, como que distrahidamente, começou a desabotoar-lhe o corpinho do vestido.
--Não! Para que?... Não quero despir-me...
--Mas faz tanto calor... Põe-te a gosto...
--Estou bem assim. Não quero!
--Que tolice a tua! Não vês que sou mulher, tolinha?... De que tens medo?... Olha! Vou dar o exemplo!
E, n'um relance, desfez-se da roupa, e proseguio na campanha.
A menina, vendo-se descomposta, crusou os braços sobre o seio, vermelha de pudor.
--Deixa! segredou-lhe a outra, com os olhos envesgados, a pupilla tremula.
E, apezar dos protestos, das supplicas e até das lagrimas da infeliz, arrancou-lhe a ultima vestimenta, e precipitou-se contra ella, a beijar-lhe todo o corpo, a empolgar-lhe com os labios o roseo bico do peito.
--Oh! Oh! Deixa d'isso! Deixa d'isso! reclamava Pombinha, estorcendo-se em cócegas, e deixando ver preciosidades de nudez fresca e virginal, que enlouqueciam a prostituta.
--Que mal faz?... Estamos brincando...
--Não! não! balbuciou a victima, repellindo-a.
--Sim! Sim! insistio Leonie, fechando-a entre os braços, como entre duas columnas e pondo em contacto com o d'ella todo o seu corpo nú.
Pombinha arfava, reluctando; mas o attrito d'aquellas duas grossas pomas irrequietas sobre o seu mesquinho peito de donzella impubere, e o roçar vertiginoso d'aquelles cabellos asperos e crespos nas estações mais sensitivas da sua feminilidade, acabaram por foguear-lhe a polvora do sangue, desertando-lhe a razão ao rebate dos sentidos.
Agora, espolinhava-se toda, cerrando os dentes, fremindo-lhe a carne em crispações de espasmo; ao passo que a outra, por cima, doida de luxuria, irracional, feroz, revoluteava, em corcovos de egoa, bufando e relinchando.
E mettia-lhe a lingoa tersa pela bocca e pelas orelhas, e esmagava-lhe os olhos debaixo dos seus beijos lubrificados de espuma, e mordia-lhe o lobulo dos hombros, e agarrava-lhe convulsivamente o cabello, como se quizesse arrancal-o aos punhados. Até que, com um assomo mais forte, devorou-a num abraço de todo o corpo, ganindo ligeiros gritos, seccos, curtos, muito agudos, e a final desabou para o lado, exanime, inerte, os membros atirados n'um abandono de bebado, soltando de instante a instante um soluço estrangulado.
A menina voltára a si e torcêra-se logo em sentido contrario á adversaria, cingindo-se rente aos travesseiros e abafando o seu pranto, envergonhada e corrida.
A impudica, mal orientada ainda e sem conseguir abrir os olhos, procurou animal-a, ameigando-lhe a nuca e as espaduas. Mas Pombinha parecia inconsolavel, e a outra teve de erguer-se a meio e puxal-a como uma criança para o seu collo, onde ella foi occultando o rosto, a soluçar baixinho.
--Não chores assim, meu amor!...
Pombinha continuou a soluçar.
--Vamos! Não quero ver-te d'este modo!... Estás zangada commigo?...
--Não volto mais aqui! nunca mais! exclamou por fim a donzella, desgalgando o leito para vestir-se.