Part 6
Adormeceu, e suspira de sorte que parece lhe está gemendo o coração... _(beijando o rosto da creança)_ Eu não posso com tantas agonias, Rodrigo! _(abraçando-o impetuosamente)_ Espedaça-me o arrependimento de não te haver dito o nome de minha mãe... Eu sei que teu pae me daria o pão da subsistencia ainda que não fosse causa da morte d'ella; mas minha tia disse-me que eu seria desprezada e repellida, se declarasse o nome de minha mãe; que as mais deshonestas senhoras teriam vergonha de se compadecerem de mim; e que eu, sobre tantas desventuras, tinha a da pobreza, a mais repugnante de todas. Isto me dizia a minha sancta tia, lavando-me o rosto com lagrimas, como se quizesse purificar-m'o das manchas do opprobrio da minha infeliz mãe. Mas o que ella me não disse foi que eu não poderia proferir sem receio o nome de meu pae. Ella não quiz aviltar aos meus olhos a sua pobre irmã assassinada. Nem me revelou quem foi o homem que a tentou e perdeu, nem sequer me deixou entrever a duvida de que eu fosse filha d'esse, que hontem cobriu de eterno lucto a nossa familia. Se elle não é meu pae, Rodrigo, que me és tu a mim? Não vês que o marido de minha mãe dirá que eu sou tua irmã, e que o nosso filho herda a deshonra d'esta nossa união impossivel... impossivel, meu Deus!
Rodrigo
Que queres tu pois fazer da tua vida, da minha, e d'esta creança?!
D. Eugenia
Não m'o perguntes a mim, que morro de afflicção! Ensina-me a ter animo... Dize-me, Rodrigo, como ha de chegar um raio de luz a esta nossa situação tão negra! Que te diz o coração, filho?
Rodrigo
Que esperemos, Eugenia. Quando meu pae estiver menos febril, perguntar-lhe-hei com dolorosa franqueza o segredo do teu nascimento, e...
D. Eugenia _(interrompendo-o anciada)_
Não perguntes que pódes matal-o. Se elle tem de morrer, que vá sem a terrivel surpreza de saber quem sou. Poupa-o, que eu tenho tanta pena d'elle como de ti. Não lhe digas quem sou. Ha nada mais afflictivo? Ó Rodrigo, que horrenda angustia a d'elle se eu sou... sua filha! _(Esconde o rosto nas mãos)._
Rodrigo
Ahi vem o pae...
SCENA II
OS MESMOS E O VISCONDE
_O visconde vem amparado por dois creados_
Rodrigo _(adiantando-se a recebel-o com apparente alegria)_
Óptimo! bella surpreza! N'esta cadeira, meu pae. _(Rodrigo e Eugenia vão recebel-o dos braços dos creados, e conduzem-o á cadeira)._
D. Eugenia
Está muito melhor...
Visconde
Estou, filha.
Rodrigo
Que sente agora?
Visconde
Ancia de repouso, e a nuvem da eternidade a toldar-me os olhos. Eis que chega a noite da morte. _(Fitando Eugenia)_ Como está desfeita a sua formosura, Eugenia! Onde as lagrimas chegam, começa a morte a sua obra de destruição... Comprehendo bem a sua piedade, menina. Como não conheceu mãe nem pae, o grande amor filial que tinha no seu coração, deu-o ao pae do seu Rodrigo. Deus lh'o recompense no amor de meu neto... Cheguem para aqui o berço. Quero vêr o meu Álvaro... _(Approxima Eugenia o berço)_ Adeus. Adeus. Tu entras, e eu vou sahir. Guardai-o, filhos. Conta-lhe tu, Rodrigo, a minha vida e morte... Eu queria beijal-o. _(A Eugenia que faz menção de o tirar do berço)_ Não, não. Deixal-o dormir... Que serenidade! Tambem eu hei de têl-a. Para os grandes desgraçados o sepulchro é suave e socegado como o berço das creanças. Eugenia, venha aqui... Não chore d'esse modo, filha! Lamente-me, se eu viver.
D. Eugenia
Eu não choro... o pae ha de restabelecer-se. _(Rodrigo gesticula a Eugenia para que ella se esconda de modo que o pae a não veja)._
Rodrigo
Meu pae. _(Espera instantes que o pae levante a cabeça)._
Visconde
Eugenia?
Rodrigo
Foi lá dentro. Na ausencia d'ella, faço uma pergunta a meu pae, e da ousadia lhe peço perdão.
Visconde
Pergunta.
Rodrigo
Essa infeliz senhora que meu pae amou... a mulher de Jacome da Silveira, tinha filhos?
Visconde
Uma filha.
Rodrigo
Que se chamava...
Visconde
Leonor. Uma creança entre trez e quatro annos, muito formosa. Sabes alguma coisa d'essa menina?
Rodrigo
Meu pae soube que destino lhe deram?
Visconde
Não. Alguns amigos meus de Lisboa a procuraram sem resultado. Se ella tivesse apparecido, eu adoptal-a-hia, sabendo que o pae a renegára de filha aleivosamente, mas digno de desculpa...
Rodrigo
Mas meu pae tem a certeza de que Leonor era filha de Jacome da Silveira?
Visconde
Como tu tens a certeza de que este filho é teu: jural-o-hei com os olhos na sepultura, e o coração na misericordia de Deus. Quando comecei a... cavar o abysmo da minha victima... Leonor já tinha dois annos e meio, e fitava-me com os seus grandes olhos d'um modo mui triste que parecia dizer-me: «Eu por amor de ti, ficarei sem pae e sem mãe» E ficou. _(Eugenia, que tem ouvido muito alvoroçada este dialogo, n'este lance corre em grande transporte aos braços de Rodrigo)._
D. Eugenia
Graças, graças, meu Deus! Fizestes o milagre, virgem do céo! Agora sim, que toda a minha alma respira desopprimida! És meu Rodrigo! _(Ajoelhando aos pés do visconde)_ Bem haja, bem haja que me tirou a morte de sobre o coração, e de sobre esta creança um affrontoso opprobrio!
Visconde _(enleado)_
Que é?! que diz, Eugenia?
D. Eugenia
Chame-me Leonor, que eu sou Leonor... Sou a filha da peccadora que morreu... Sou a orfã que a mãe de Deus guiou até ao coração de seu filho.
Visconde _(agitadissimo)_
É isto febre, meus filhos? é o delirio dos ultimos arrancos? Não me está esta senhora dizendo que é filha de Martha?!
D. Eugenia
Sou... sou...
Visconde
Ajudai-me... erguei-me... Forças, vida, um dia de vida, meu Deus! Um dia para chorar comtigo, Leonor... Olha que tinhas a mais amoravel e extremosa das mães... o coração mais sancto do amor maternal. Formosa como tu... da tua edade... respeitada e adorada; contente, feliz, virtuosa, boa... Mas... matei-a... Não foi teu pae que a matou, Leonor... Fui eu!... O veneno que lhe fazia espumar sangue, e ranger os dentes convulsos, e rojar-se no chão, e atirar-se a gritar para o teu berço, esse veneno fui eu que lh'o vasei no peito... Eu fui quem a despenhei dos respeitos publicos para a deshonra irrevogavel, da mais rica e florida existencia para um torrão desconhecido do cemiterio, para a valla dos pobres... e levantei-lhe como monumento uma memoria infame! Fui eu... eu fui o algoz... _(Resvala á cadeira, soluça e prosegue:)_ Meus filhos, ide, ide... Pede-vol-o com as mãos erguidas o penitente na agonia... Ide pedir a Jacome da Silveira... Vae, filha, vae pedir a teu pae que me perdôe. Dize-lhe que é um agonisante que lh'o pede... Um homem que até esta hora invocou a morte, e a morte, a enviada de Deus, não quiz derrubar-me sem este grande trance. Vae, Leonor, vae dizer a teu pae que eu morro. Apaga-lhe o fogo da ira com as tuas lagrimas... Chora-lhe no coração, que a piedade renascerá, e o perdão virá a tempo de eu poder acabar sem estas angustias de remorso que me...
SCENA III
OS MESMOS, E PEDRO ARANHA
Pedro _(a D. Eugenia)_
Se V. Ex.ª quizesse sahir á primeira salla, encontraria seu pae.
D. Eugenia
Jesus! Que hei de eu fazer, Rodrigo!
Visconde
Vae... cumpre o meu pedido, Leonor. Dize a teu pae que Heitor de Vasconcellos lhe pede perdão.
SCENA ULTIMA
OS MESMOS, JOSÉ DE SA E JORGE DE MENDANHA
Jorge _(com as costas voltadas para o visconde)_
Aqui estou, Leonor. _(Leonor inclina-se como quem vae ajoelhar)._ Não ajoelhes. Se algum de nós deve ajoelhar, sou eu diante de ti. Vingada estás do meu desamparo, filha. Perdi as tuas caricias por espaço de vinte e um annos. Agora, o que pódes dar-me é lagrimas. Eu t'as recebo como signaes da misericordia divina. Snr. Rodrigo. _(Rodrigo approxima-se)_ Vou expatriar-me outra vez. Deixo-lhe o bom e nobre coração de minha filha. Quem a aceitou e amou pobre, nada lhe importa saber que ella é rica. Filha, privei-te do amor de pae; mas os bens de fortuna, como não podiam dar-me um instante de paz, não se perderam. Poderás enxugar com elles muitas lagrimas, se ellas não forem de angustias tamanhas como a minha.
D. Eugenia _(ajoelhando)_
O perdão, meu pae!
Jorge
Que tenho eu que perdoar-te, anjo?!
D. Eugenia
O perdão... para o pae de meu marido. _(O visconde está erguido e amparado nos braços de Pedro Aranha e José de Sá)._
Jorge _(sem olhar para o visconde)_
A misericordia dos homens não póde ser mais indulgente que a de Deus. Quando esse homem não sentir sobre a consciencia o pezo da justiça divina, o meu perdão ser-lhe-ha inutil. Eu não posso perdoar-lhe a elle, por que Deus ainda me não perdoou a mim. Leonor, eu ainda choro tua mãe. Elle... que morra a choral-a. _(Aponta-o sem o vêr)._
FIM.
* * * * *
COMO OS ANJOS SE VINGAM
DRAMA EM UM ACTO.
PERSONAGENS
FRANCISCO DE VALLADARES--30 annos, esposo de
D. ALBERTINA--entre 20 e 25 annos.
D. ANTONIA DE VALLADARES--irmã de Francisco de Valladares, 25 annos.
CONSELHEIRO SOUSA--pae de Albertina.
JOÃO LOBO--medico, entre 30 e 40 annos.
LEONARDO--creado velho.
Uma creada, nova.
* * * * *
COMO OS ANJOS SE VINGAM
ACTO UNICO
Ante-camara espaçosa, bem mobilada. Portas ao fundo e lado.
_João Lobo vem sahindo do quarto ao fundo. Albertina sáe de pós elle._
SCENA I
JOÃO LOBO E D. ALBERTINA
Albertina _(com vehemencia e receio)_
O nosso doente continua bem, não é verdade, snr. Lobo?
João Lobo
Seu marido, minha senhora, pareceu-me mais concentrado, mais triste.
Albertina _(afflicta)_
Sim?! Peorou?
João Lobo
Deixei-o hontem risonho, com excellente pulso, a planear viagens, bailes...
Albertina _(sobresaltada)_
E tornou a febre, meu Deus?
João Lobo
Sim, ha o quer que seja.... e póde ser que isto não passe d'um accidente... mas... Que está V. Ex.ª cogitando? Suspeita que alguma impressão moral...
Albertina _(preoccupada e abstrahida)_
Nada... Eu hontem de tarde sahi para vêr minha mãe. Demorei-me uma hora; e quando entrei no quarto achei-o a conversar com minha cunhada. Beijei-o; elle sorriu-se de um modo extranho. Quiz pedir-lhe explicação d'um ar tão desacostumado na nossa vida de cinco annos; mas temi inquietal-o. Perguntei depois a minha cunhada se... Ella ahi vem.
SCENA II
OS MESMOS E D. ANTONIA
João Lobo _(comprimentando-a)_
V. Ex.ª nos vae dizer se alguma impressão moral póde explicar a tristeza e abatimento em que encontro seu mano.
D. Antonia _(desdenhosa)_
Já a mana Albertina me fez a mesma pergunta. Acho curiosa a indagação! Eu não sei se meu mano recebeu impressões moraes...
João Lobo _(sempre sereno e risonho)_
É que eu deixei-o hontem socegado e alegre...
D. Albertina
É verdade. Bem viu a mana Antonia como elle estava bom quando eu sahi; depois, encontrei-o com a mana, e fui recebida com certas maneiras... havia não sei que desconfiança e mysteriosa intelligencia entre meu marido e...
D. Antonia _(atalhando-a)_
E eu?!
D. Albertina
Sim... pareceu-me...
D. Antonia
Ora esta! Tem coisas esta senhora! Sempre injusta comigo!
D. Albertina
Injusta, não. Sou incapaz de ajuizar mal de ninguem. Não vá o doutor cuidar que eu tenho sido para a mana Antonia o que ella deixa entender... Que mal lhe fiz? que injustiças minhas a offenderam? _(Ouve-se o toque de campainha no quarto de Francisco Valladares)_ O Francisquinho chama. _(Corre ao quarto)._
SCENA III
JOÃO LOBO E D. ANTONIA
João Lobo
A mim cumpre-me lembrar-lhe, minha senhora, que o estado de seu irmão é melindroso. Olhe que os dois fios quasi quebrados d'aquella vida estão mal soldados. Sacudam-lhe a alma com alguma leve paixão, que os fios partem-se...
D. Antonia _(impaciente)_
Mas que fiz eu ou que disse?!
João Lobo
Não sei o que V. Ex.ª disse ou que fez. O que sei é que a snr.ª D. Antonia odeia sua cunhada.
D. Antonia
Que calumnia! odeio minha cunhada!
João Lobo _(sempre sereno)_
E, se puder perdêl-a, perde-a.
D. Antonia
Porquê?.. por que hei de eu querer perdêl-a?..
João Lobo
Não lhe respondo. O meu silencio pede á sua consciencia que responda, minha senhora. E se V. Ex.ª calar a voz da consciencia, verá como ahi na sociedade do Porto se levantam cem vozes a dizer-lhe...
D. Antonia
O quê?..
SCENA IV
OS MESMOS E D. ALBERTINA
D. Albertina _(alvoroçada)_
Elle está tão inquieto!.. Vamos lá, doutor... _(suspende-se)_ Vá... vá! _(O doutor entra na alcôva)._
SCENA V
D. ALBERTINA E D. ANTONIA
D. Albertina _(com brandura e commovida)_
Mana Antonia, se me fez mal, remedeie o mal que fez a seu mano e a mim.
D. Antonia
Eu! que teima! que aleivozia!
D. Albertina _(rapida e a meia voz)_
Eu accuso-me de ter querido obrigar a mana Antonia a ser honesta, a ser uma digna irmã de meu marido. Accuse-se a senhora de ter tentado vingar-se de mim calumniando-me.
D. Antonia
Que me accuse! É original a ordem! Ahi vem a virtuosa senhora com a deshonestidade da minha vida! Dê-me licença. Retiro-me que não vá ser contagiosa a minha deshonestidade! _(Sáe rindo uma rizada nervosa. Albertina encaminha-se para a alcôva guando o doutor vem sahindo)._
SCENA VI
JOÃO LOBO E D. ALBERTINA
D. Albertina
Já?! que tem elle?
João Lobo
Mandou-me sahir: quer estar só.
D. Albertina _(com espanto)_
Mandou-o sahir?!
João Lobo
Terminantemente; mas com delicadeza.
D. Albertina
Então que vem a ser isto, meu Deus? O snr. Lobo suspeita que meu marido possa...
João Lobo
Possa o quê, minha senhora? Enlouquecer? é o que V. Ex.ª quer perguntar? Não ouso dizer-lhe as minhas suspeitas.
D. Albertina
Então é certo? O Francisco póde enlouquecer?!
João Lobo
Podemos todos enlouquecer, minha excellente amiga... Descance. O snr. Francisco Valladares está febril; não está doudo... Aquella febre tem o ardor d'uns infernos que costumam accender-se n'uns corações perversissimos...
D. Albertina _(atalhando-o)_
O coração de meu marido é bom, snr. Lobo.
João Lobo
Não me entendeu, snr.ª D. Albertina... Seu marido desconfia da minha probidade.
D. Albertina
Como? desconfia?!
João Lobo
E da virtude de V. Ex.ª... desconfia tambem.
D. Albertina _(tremula e anciada)_
Não póde ser, não póde ser! _(Faz menção de correr para a alcôva: o medico sustem-a com um gesto)._
João Lobo _(a meia voz)_
Repito-lhe que a fragil vida do snr. Valladares nos está aconselhando muitas cautelas. Escute-me serenamente. Eu suspeito que sua cunhada começou hontem a obra infame do descredito de V. Ex.ª Era preciso dar-lhe um cumplice: fui eu. Sua cunhada escolheu o homem competente, porque a sociedade me tem calumniado mil vezes para usar largamente do direito que eu lhe dei de me accusar uma vez com justiça. É sempre assim; excepto quando o vicioso ou a viciosa aprenderam as artes da hypocrisia depois que a primeira fragilidade lhes fez resvalar o pé e cahir com estrondo. O grande caso é cahir sem estrondo. Ora seu marido, minha nobre senhora, não me julga melhor nem peor do que sou julgado pelo restante da sociedade. Chamou-me, quando receou morrer; e hoje talvez preferisse a morte á fraqueza de me chamar... Eu, porém...
D. Albertina _(interrompendo-o)_
Mas então é preciso que eu me defenda já, e na sua presença, snr. Lobo!..
João Lobo
Não, minha senhora. As commoções e luctas que necessariamente acompanhariam tal defeza, abririam a sepultura ao lado do leito do snr. Valladares. É cedo. Seu marido por emquanto apenas vê em V. Ex.ª o anjo, e em mim o tentador. _(sorrindo)_ D'um pobre diabo _(desculpe V. Ex.ª a phrase plebea)_; d'um pobre diabo tem querido a sociedade fazer um sugeito possuido das influencias satanicas dos Tenorios e dos Faustos. Não se impaciente, minha senhora. Olhe que não está sósinha. Quando mais opprimida sentir a sua innocente e nobilissima alma, imagine que vê sempre ao seu lado... a Providencia.
D. Albertina
Mas o meu silencio póde condemnar-me.
João Lobo
Quando a interrogarem responda; mas não provoque altercações. Espere que seu marido se fortaleça; não queira V. Ex.ª curar uma alma enferma como a delle. Qualquer balsamo o irritará. E quando eu lhe disser que se vingue restaurando a sua dignidade, então será tempo de salvar o seu nome... e o meu. Não posso nem devo demorar-me. Adeus, minha senhora.
D. Albertina _(apertando-lhe a mão muito affectuosamente)_
Adeus, meu bom amigo... Não o desampare... _(D. Albertina vae á porta da alcôva, escuta, e hesita; vae levantar o fêcho quando a porta se abre)._
SCENA VII
D. ALBERTINA E FRANCISCO VALLADARES
_Francisco Valladares extremamente magro e pallido, caminhando a custo. Veste um rob de chambre_
D. Albertina _(tomando-lhe o braço)_
Pois tu levantas-te, meu filho?
Francisco de Valladares
Estou bom... não vês, Albertina? Sinto-me forte. _(Senta-se prostrado)._
D. Albertina
Ardem-te as mãos... Que imprudencia! O medico consentiu que te levantasses?
Francisco de Valladares _(após uma longa pausa, em que conserva o rosto escondido nas mãos)_
Quero sahir. O dia está sereno.
D. Albertina
Pois tu queres sahir em convalescença tão arriscada?! Não vês que pódes recahir!
Francisco de Valladares
A recahida é a cura. Onde uma sepultura se fecha, fechou-se a bôcca d'um abysmo. A morte quando se aproxima é bella; só vista ao longe, é horrivel. _(Ergue-se)_ Estou vigoroso. Vou a Cintra. Que tirem a caleche.
D. Albertina
Pela tua vida te rogo que não vás, meu querido filho.
Francisco de Valladares
A minha vida!.. por que me não pedes antes pela minha honra?
D. Albertina
Pois sim, peço-t'o pela tua honra...
Francisco de Valladares
E pela tua...
D. Albertina _(com dignidade)_
O quê? Que me pedes tu?
Francisco de Valladares
A ti?.. que me deixes morrer...
D. Albertina _(muito commovida)_
E tu queres morrer?
Francisco de Valladares
Honrado.
SCENA VIII
OS MESMOS, LEONARDO E DEPOIS O CONSELHEIRO SOUSA
Leonardo
Está aqui o snr. conselheiro Sousa. _(Sáe. D. Albertina vae ao encontro do pae e beija-lhe a mão)._
Conselheiro
Ólá! a pé! Optima convalescença, snr. Valladares! Ainda hontem lhe davam vinte dias de cama!..
Francisco de Valladares
Estou melhor.
Conselheiro
E tu como estás, filha?
D. Albertina
Bem; e a mamã peor?
Conselheiro
Peor, e pediu-me que te viesse buscar, se teu marido podesse dispensar-te. Imagina que morre, e quer todos os filhos á volta da cama. Já lá estão tuas irmãs.
Francisco de Valladares
Póde ir; eu mesmo insto que vá.
Conselheiro
Tenho ahi a sege; não te demores na _toilette_. _(Sáe Albertina)._
SCENA IX
O CONSELHEIRO E FRANCISCO VALLADARES
Conselheiro
Não seria perigosa imprudencia sahir da cama, snr. Valladares? Acho-lhe um certo rubor nas faces...
Francisco de Valladares
É signal de bom sangue, quando não seja de nobre vergonha.
Conselheiro
Como?
Francisco de Valladares _(inquieto)_
Quero sahir de Portugal por algum tempo... Vou para Florença... É um clima restaurador; quem lá não póde viver sente-se morrer mais suavemente. Os grandes infelizes devem pensar em morrer onde as agonias lhes sejam menos crueis. Vou só... quero ir só. Estou intratavel, impertinente, phrenetico. Tudo me enoja, e eu devo enojar a todos.
Conselheiro
Menos a sua esposa que o ama extremosamente e o não deixará ir só.
Francisco de Valladares
Deixa... ha de deixar. Não admitto contradicções que poderiam matar-me...
Conselheiro _(com assombro)_
Matarem-no!.. quem?
Francisco de Valladares
E para quê?! Eu não embaraço a passagem a ninguem! _(Com exaltação de louco)_ Passem! Praça ao vicio! Rompa triumphante. Eu sou pequeno para me atravessar á bôcca da voragem. Entrem, abysmem-se, esmaguem-me o coração, mas deixem-me a honra salva.
Conselheiro _(áparte)_
Está perdido!
SCENA X
OS MESMOS E D. ALBERTINA
D. Albertina
Estou prompta, meu pae. _(Aproxima-se do marido, beija-lhe a fronte com serena altivez)._ Até logo, Francisco.
Conselheiro
O doutor Lobo aconselha viagens a teu marido?
D. Albertina
Eu ainda não ouvi fallar em viagens.
Conselheiro _(encarando-os alternadamente)_
A infelicidade entrou n'esta casa ha poucas horas...
D. Albertina
Entrou, mas ha de sahir. _(Com resolução. Aproxima-se do marido tocando-lhe no hombro)._ Olha que eu tenho Deus por mim. Hei de vencer. Vamos, meu pae. _(Sáem)._
SCENA XI
FRANCISCO DE VALLADARES E DEPOIS LEONARDO
Francisco de Valladares
Pois esta mulher sabe que me é suspeita a sua lealdade, e não se justifica? Não seria natural que me interrogasse com lagrimas e fizesse ahi grande estrondo com a sua dignidade ferida? _(Tange uma campainha com phrenesi. Apparece Leonardo)._ A snr.ª D. Antonia?
Leonardo _(com ar de maliciosa candura)_
A snr.ª D. Antonia está a conversar no jardim. V. Ex.ª quer que a chame?
Francisco de Valladares
A conversar... com quem?!
Leonardo
Com o visconde de Espinhal.
Francisco de Valladares
E esse homem está no meu jardim?!
Leonardo
Não, snr.: está no jardim do visinho.
Francisco de Valladares
Chama essa senhora. _(Leonardo sáe)._
SCENA XII
FRANCISCO DE VALLADARES
N'esta casa consideram-me morto... Ha em tudo isto que me cerca e atormenta o travor da peçonha que está dilacerando uma familia. Assim que a doença me prostrou, a deshonra chegou ao meu leito de moribundo para me abafar. _(Inclina a cabeça para o peito; demora-se um instante, senta-se de golpe, mas a custo, e amparando-se)_ Eu não quero morrer! Fui um homem inutil; mas antes da minha morte, hei de deixar uma lição aos infames, e um exemplo aos que não acceitam de boamente o seu opprobrio. _(Reflectindo)_ É impossivel. O meu coração não podia enganar-se assim. A duvida nunca passou pelo meu espirito, nem sequer o receio... Estará ella innocente?..
SCENA XIII
O MESMO E D. ANTONIA
D. Antonia
O mano chamou?
Francisco de Valladares
Chamei.
D. Antonia
Eu tinha ido ao jardim vêr as suas araucarias. Estão lindissimas.
Francisco de Valladares
Eu recommendei-lhe ha mezes, Antonia, que se não descuidasse um momento dos seus deveres n'umas relações amorosas em que a vi muito arriscada. O visconde do Espinhal é um homem que tem perdido no conceito da sociedade algumas senhoras na posição da mana Antonia. O mundo, que despreza as mulheres que elle diffamou, nobilitou-o ao mesmo tempo com o diploma de conquistador, e o visconde considera-se obrigado a sustentar a sua reputação. Á justiça ou á dignidade dos irmãos e dos maridos responde com o duello; e á moral pacifica das familias com a zombaria. Ora eu, prevendo que o seu descredito, Antonia, me levaria ao extremo de lhe pedir a elle contas do seu honrado nome, pedi á mana que terminasse essa perigosa inclinação. Antonia prometteu terminar. Cumpriu?
D. Antonia _(hesitante)_
Cumpri, mano Francisco.
Francisco de Valladares
É sempre assim verdadeira? Quando accusa os outros é tão sincera como quando se absolve a si?
D. Antonia
Não percebo...
Francisco de Valladares
Mentiu; mas está perdoada com a condição de desmentir-se das suspeitas que me deixou da fidelidade de Albertina. Repita-me o que sabe de sua cunhada. Chamo a sua consciencia á presença de Deus. Diga, mana Antonia, que viu? em que funda as suas desconfianças?
D. Antonia
As minhas desconfianças?..
Francisco de Valladares
Sim; não me obrigue a repetir o que está bem impresso na sua lembrança.
D. Antonia
Eu já disse que desconfiava... porque... Ha certas coisas... que inspiram suspeitas até certo ponto... sim, eu desconfiei porque...
Francisco de Valladares
Essa hesitação parece um annuncio de arrependimento por haver calumniado a pobre Albertina...
D. Antonia
Calumniado! Tem coisas o mano Francisco! Sou incapaz de calumniar.
Francisco de Valladares
Bem. Diga então lá desembaraçadamente. _(Vê-se ao fundo Leonardo que escuta por entre o reposteiro)._
D. Antonia
Disse e digo que Albertina faz ostentação de virtudes que não tem.
Francisco de Valladares
Disse mais pelo claro que lhe parecia que ella trazia o coração distrahido...
D. Antonia
Foi isso.
Francisco de Valladares
E que Albertina amava o doutor Lobo.
D. Antonia
Justamente.
Francisco de Valladares
Agora venham as provas que hontem lhe não pude pedir porque Albertina entrou.
D. Antonia
As provas!
Francisco de Valladares
Tem as provas?
D. Antonia
Para que quer o mano saber... São coisas que o affligem, e lhe aggravam os padecimentos.