Part 4
Está; pois eu não vejo? Parece-me que ama tanto os bailes como o pae de Rodrigo e como eu...
Pedro _(ao novo signal da mazurka)_
Vamos, minha snr.ª? _(Sahem. Movimento dos pares atravessando no corredor)._
SCENA VII
VISCONDESSA, SÁ E JORGE
Viscondessa
Já viram uma sinceridade mais infantil? A dona do baile a dizer-nos que não gosta de bailes? Tanto importa como declarar-nos que a nossa companhia lhe é mediocremente agradavel; não acham?..
Jorge
Esta senhora parece-me boa, triste, mas realmente pouco habituada ás salas. É do Porto?
Viscondessa
Nada, não é; mas eu tambem não sei d'onde seja. Este casamento de Rodrigo dá dois capitulos para um romance semsabor como se escrevem em Portugal.
Jorge
Os romances portuguezes póde ser que sejam semsabores; mas as tragedias tem um não sei que de irritante, um acre de sangue... Vamos á tragedia, snr.ª viscondessa, á tragedia interrompida.
Viscondessa
Pois eu não conclui?
Jorge
Não minha snr.ª V. Ex.ª chegou ao ponto em que...
Viscondessa
Em que o marido a matou. Ella morreu envenenada, e elle entregou-se á justiça. Ajude-me a recordar, snr. José de Sá? Que explicações deu o Silveira matando a mulher e deixando viver o Vasconcellos?
José de Sá
Silveira não deu explicação alguma, snr.ª viscondessa.
Viscondessa _(com impeto)_
Ai! ai! ai! a quem eu estou contando a historia... Ainda agora me lembro! ora esta! pois V. ex.ª não era o amigo intimo de Silveira? Não passava os dias com elle no Limoeiro?
José de Sá
Passava, minha snr.ª
Viscondessa
Então aqui tem o melhor informador que V. Ex.ª podia encontrar. Conte o que sabe, conselheiro. É verdade, queira dizer-me: a filha de Martha de que tomou conta a Maria da Gloria Villasboas, que é feito d'ella, sabe?
José de Sá
Não sei.
Viscondessa
Então que sabe? Esta ignorancia é singular, por não dizer irrizoria! Querem vêr que a candura d'este varão se está insurgindo contra uma historia de corrupção social.
José de Sá _(sorrindo)_
Isto não é candura, minha snr.ª Eu estou corrompido bastantemente para não ser tolo. Na nossa sociedade, minha viscondessa, as canduras apodreciam antes de florir innocencias tamanhas. Declaro a V. Ex.ª que não sei o que é feito da filha de D. Martha de Villasboas. Mas que insistencia, senhora! Tendo V. Ex.ª tantas flôres e tantas coisas cheias de vida e de luz no seu espirito; para que ha de estar enluctando a sua gentil conversação com umas memorias em que ha lagrimas a respeitar e infamias a perdoar?
Jorge _(severamente)_
A perdoar!
Viscondessa
E eu accuso alguem! O snr. está exquisito! Eu não sei se a Humanitaria dá medalhas aos sentimentalistas como V. Ex.ª Este snr. se vir representar o Othello de Shaskspeare sáe do theatro para não vêr historiada a infelicidade de Desdemona e a colera barbara do marido. É capaz de os ir accusar á policia!
José de Sá
Eu não me retirava do theatro, nem iria accusar á policia as adulteras mortas visto que não accuso as vivas; não sahiria do theatro; mas em vez de olhar para o palco, olharia para as snr.as que contemplam sem impallidecer o horrendo trance da morte de Desdemona; e, na seguinte noite, irão vêr no mesmo palco representar uma comedia em que se zombe d'um marido deshonrado, e se mova a piedade das plateias a favor da adultera e do seu cumplice.
Viscondessa
Optimo! Isso é bom, bonito e eloquente. Mas eu, se não desmaio quando vejo as agonias fantasticas das peccadoras no theatro, tambem me não rio dos maridos escarnecidos, nem me commovo pela desventura d'aquellas que fizeram do seu coração um filtro de peçonha e de infames lagrimas. Quando Martha de Villasboas foi morta, eu não fui das que se vestiram de lucto e andaram pelas egrejas a fazer-lhe uns baratos suffragios pela alma, e formavam grupos nos adros execrando a ferocidade do homem que não pôde dispôr da pacifica tolerancia dos maridos que acompanharam ás egrejas as devotas esposas. Se eu tivesse a fé que ensina a rezar pela salvação das almas, rezava em caza. Não indo á egreja, nem saindo a irritar odios contra o infeliz marido de Martha, cuido que respeitei bastantemente a desgraça de ambos. E, se as minhas orações valessem perante Deus, eu pediria perdão para ella, e misericordia para elle.
Jorge
Esse grande desgraçado, se ouvisse a snr.ª viscondessa, cuidaria que houve no mundo duas pessoas que choraram por elle...
Viscondessa
Eu que tinha sido excluida das relações de Martha, fiz mais, snr. Mendanha. Sabia que existia uma menina de tres annos, quando a minha amiga de infancia morreu. Fiz inuteis exforços para descobrir a paragem da menina. Se tivesse encontrado em desamparo a filha de Martha, leval-a-ia para minha caza... _(Momentos antes Eugenia e Pedro Aranha tem entrado na sala que vão atravessando, e Eugenia applica o ouvido ao que se está dizendo: e solta com sobresalto uma exclamação quando a viscondessa termina)._
SCENA VIII
OS MESMOS, PEDRO, D. EUGENIA
D. Eugenia
Ah!
Pedro
Que tem V. Ex.ª?
D. Eugenia _(aproximando-se do grupo com dissimulado socego)_
V. Ex.as estavam conversando a respeito de...
Viscondessa
De frivolidades, minha snr.ª
D. Eugenia _(com muito embaraço)_
Cuidei que ouvi proferir um nome que... V. Ex.as diziam coisa que eu não devo ouvir... A minha chegada perturbou a snr.ª viscondessa.
Viscondessa
Não minha snr.ª Estava-se conversando e recordando coisas antigas... a sociedade de Lisboa de ha vinte annos.
D. Eugenia
Pois sim; mas V. Ex.ª não fallou de uma senhora chamada Martha de Villasboas?..
Jorge
Fallou, snr.ª D. Eugenia. E que sabe V. Ex.ª da pessoa que teve esse nome?..
D. Eugenia _(encarando-o com susto)_
Nada...
Jorge _(á parte a José de Sá)_
Sabe a historia do sogro.
José de Sá _(o mesmo)_
É natural.
Viscondessa
O senhor Aranha, diz-me onde está a prima Travaços...
Pedro
Eu conduzo V. Ex.ª _(dá-lhe o braço.. Sahem)._
SCENA IX
D. EUGENIA, JORGE, SÁ
Jorge _(aproximando a cadeira)_
De Martha de Villasboas estavamos nós effectivamente conversando, minha snr.ª Quando a mulher que teve esse nome sahiu d'este mundo, V. Ex.ª teria apenas nascido.
D. Eugenia
V. Ex.ª conheceu-a?
Jorge
Vi-a. Quer V. Ex.ª provavelmente que se lhe conte um episodio da historia de seu sogro...
D. Eugenia _(erguendo-se de impeto)_
De meu sogro? Não intendo... que tem que vêr meu sogro com essa senhora?
José de Sá _(á parte a Jorge)_
Descrição. _(Sáe)._
SCENA X
D. EUGENIA E JORGE
Jorge
No semblante angelico de V. Ex.ª reluz sinceridade. Não posso crêr que a snr.ª D. Eugenia finja ignorancia; mas tambem não posso perceber o ar de interesse com que me pergunta se eu conheci Martha de Villasboas.
D. Eugenia
Fui creada n'um recolhimento, onde muitas vezes ouvi contar a desventurada sorte d'essa snr.ª
Jorge
Ah! ficou-lhe na memoria o nome, e no coração o dó da mulher que teve a infelicidade de ser amada do marido até ao extremo de ser morta por elle...
D. Eugenia
E elle amava-a!?
Jorge
Que pergunta! Pois não vê que elle a matou por ciumes?
D. Eugenia _(como aterrada)_
Matar! que horror, meu Deus!
Jorge
O horror não é matar; é sobreviver a esse cadaver que deixa uma herança de deshonra eterna. O horror é viver com o pezo d'esse cadaver, não sobre a consciencia, mas sobre o coração esmagado para nunca mais ressurgir. Para que V. Ex.ª possa sem espavorir-se, pôr os olhos de sua alma no homem que matou Martha, imagine-o esposo, amante e apaixonado, ao quarto anno ainda noivo, cuidando que sua mulher a cada novo dia que vem sempre de caricias, sente a precisão de redobrar de ternura e gratidão. Veja-o de joelhos, ao pé de um berço onde lhe brincava com os beijos uma creança que elle chamava filha...
D. Eugenia _(com impeto)_
Então V. Ex.ª conheceu-o?
Jorge
Se conheci!.. Considere-o de repente sem a esposa, sem a filha, com a alma varada pela morte das duas vidas que viviam n'elle. A mãe descaroada vae ao berço onde está a creança, grava-lhe no rosto o labéo da sua infamia, involve-a na sua mesma mortalha, sepulta-se com ella. O marido e pae é de repente arrancado a impuxões de opprobrio dos braços de uma esposa querida. Quando lhe elle agradecia as alegrias de seu amor, e a creança sorrindo parecia entender os jubilos do pae, Martha punha um pé sobre o coração do marido, outro, sobre o seio da filha, e repartia entre os dois a deshonra que lhe subejava. Do homem que por espaço de quatro annos lhe beijára os pés, fez um desgraçado sem nome; mas a sociedade precizando dar um nome a esse desamparado, chamou-lhe assassino. Elle matou-a, snr.ª D. Eugenia; foi a si proprio que elle se matou. Era forçoso espedaçar a alma que se identificára ao corpo contaminado da mulher perdida. As convulsões do veneno dilaceraram-lhe duas robustas vidas, a do coração e a do pundonor. O anjo que esse homem chamava filha cahiu dos braços da mãe, e elle repulsou-a dos seus, porque... não sei onde estão torturas comparaveis ás da incerteza entre um berço onde sorri um innocente e a sepultura onde os vermes completam a podridão de uma coisa infame como é a mulher que deixou seus filhos envergonhados se lhe proferirem o nome. Peço perdão, se estou magoando a sua sensibilidade, minha snr.ª V. Ex.ª está soffrendo, e eu disse palavras acerbas como se as estivesse dizendo em frente dos juizes que condemnaram Jacome da Silveira. Chora! V. Ex.ª chora?! porque?
D. Eugenia
E porque não pediria essa criancinha a vida de sua mãe? Ella choraria o seu remorso ao pé do berço da filha... O desgraçado que praticou um tão duro castigo devia deixal-a viver, abandonal-a, para que a orfã não ficasse tão sem abrigo, á caridade de estranhos... Não se mata uma mãe que tem nos braços uma criancinha de tres annos.
Jorge _(severo)_
Essa mulher que morreu tinha o amante que primeiro lhe matou os brios; a criança podia ser filha do amante; e, se elle fosse menos infame do que cobarde, deveria retribuir a deshonra da mãe, repartindo com a orfã as pompas d'esta casa.
D. Eugenia _(vivamente agitada)_
Não entendo, snr.! Porque diz V. Ex.ª que a filha de Martha devia ter parte nas pompas d'esta casa? Responda... diga... diga que segredo é este de que vae estalar uma grande desgraça... Olhe que é atroz a minha desconfiança... é horrivel... e eu receio morrer...
Jorge
É incomprehensivel o susto de V. Ex.ª! Receia morrer... porquê? A snr.ª D. Eugenia está formando espantosas tragedias na sua fantasia! Olhe que não ha nada extraordinario que deva atemorisal-a... Contou-se aqui a historia d'um homem atraiçoado, e d'uma mulher morta...
D. Eugenia
Mas meu sogro teve parte n'esse terrivel acontecimento?
Jorge
E quando tivesse, minha snr.ª? Ha ahi nada mais vulgar, que um homem deshonrado por outro? E acaso viu V. Ex.ª incapellarem-se grandes tormentas á volta das pessoas como seu sogro?
D. Eugenia
Mas... só duas palavras... depressa, antes que venha gente. Meu sogro foi quem perdeu Martha.... foi? _(Agitando os braços, desprende-se-lhe uma pulseira, que Jorge levanta; mas, ao acolchetar-lh'a, repara e estremece)._
Jorge _(rancoroso)_
Quem lhe deu esta pulseira? quem lhe deu este retrato, senhora?
D. Eugenia
Retrato! isto não é retrato... Esta pulseira deu-m'a...
Jorge _(interrompendo-a com mal reprimido arrebatamento)_
Seu sogro? Esse ignobil costuma dar ás esposas dos filhos os retratos das amantes?
D. Eugenia
Jesus! Ouça-me...
Jorge
Sabe a snr.ª que este retrato é o de uma adultera que se chamou Martha? uma adultera que deu a seu sogro o retrato que o marido lhe dera n'esta pulseira entre as joias do noivado? _(Arroja a pulseira ao chão, e vae pizal-a quando Eugenia a levanta impetuosamente)._
D. Eugenia
Pois este retrato é o d'ella? _(beijando-o e soluçando)_ Oh! eu não sabia... Vem gente... não quero que me vejam chorar... siga-me... eu tenho muito que lhe dizer... siga-me a outra sala. _(Toma-lhe o braço e sahem rapidos)._
SCENA XI
VISCONDE DE VASCONCELLOS E JOSÉ DE SÁ
Visconde
Quando me disseram que estavas aqui esperava eu que as forças me deixassem preparar para a jornada...
José de Sá
Para onde vaes, visconde?
Visconde
Para Traz-os-montes, para uma torre onde estaria bem apartado da sociedade o Leproso de Xavier de Maistre... Ha muitos annos que te não vejo, José de Sá. Eramos rapazes a derradeira vez que nos vimos! Estás ainda robusto, e com o colorido da mocidade nos gestos e nos olhos. Vê-se que não inclinaste a cabeça para o peito a chorar. Não afogaste em lagrimas, quando eras moço, os embriões d'onde te floriram as alegrias da velhice. Não fui eu assim, José de Sá. Sabes que formidavel trance me envelheceu quando eu principiava a viver. A Providencia ainda não levantou a mão inexoravel. Não pódes imaginar o que ha sido a minha vida.
José de Sá
Basta-me vêr-te para crêr que tens soffrido; porém, não o imaginava eu assim. Depois que sahiste de Lisboa, poucos annos passados soube que tinhas um filho. Ha dias chegando ao Porto, soube que teu filho dava um baile, e que tu vivias quasi sempre na provincia. Estas noticias, a fallar verdade; não me parecem bastantemente significativas da vida dolorosa que tens passado. Eu julgava-te feliz como o vulgar dos homens.
Visconde
José de Sá, o mundo quando vê padecer os grandes criminosos, recusa acreditar que elles soffrem, para os ter sempre debaixo do peso do seu odio. Se um supplicio secreto os mata lentamente, o mundo, embora lhes veja lagrimas nas rugas do rosto, não tem compaixão d'elles. A sociedade crê pouco nos castigos occultos da justiça divina, porque não conhece justiça efficaz e exemplar senão a dos carceres, dos degredos e das forcas. Desde aquella hora funesta em que eu me vi ao mesmo tempo o mais miseravel e despresivel homem... quando me foi forçoso esconder no meu antro as lagrimas por aquella... cuja sepultura eu abri... desde aquella hora accendeu-se em minh'alma um inferno inextinguivel.
José de Sá
Os teus amigos cuidaram que terias então a louvavel e virtuoza coragem do suicidio.
Visconde
A virtuoza coragem do suicidio! depois que se atropellaram em frente de mim desgraças tamanhas, o matar-me então seria coragem? O partir a corrente que me prende ha vinte e dois annos a um incessante supplicio seria coragem? Eu n'aquelle tempo não tinha o menor vislumbre de religião, o matar-me sem pavor da eternidade seria, nas minhas circumstancias, o complemento de uma vida proterva. Fechar olhos para não vêr a sombra de Martha, nem Jacome no degredo, seria um acto de valor? Não. Valor é ter ainda hoje lagrimas para ambos... E no dia em que eu não poder chorar, descrerei de Deus e então... matar-me-hei, por intender que expiei acerbamente, e não fugi ao castigo...
José de Sá
Mas parece que fugiste do duelo.
Visconde
Eu não podia affrontar-me com o homem que eu deshonrara. Criminosos como eu aceitam uma bala, não aceitam um contendor no campo da honra. Matam-se, não se desaffiam taes homens. A sociedade quereria que eu apontasse um florete ao coração do marido de Martha? Se eu o matasse atenuaria a minha baixeza com esse acto de deshumanidade?.
José de Sá
Mas a sociedade, quando vê os delinquentes na tua condição, pergunta como é que expiam.
Visconde
Essa pergunta me fazes tu em nome da sociedade?
José de Sá
Não: se eu te interrogasse, visconde, seria por minha conta. A sociedade creio eu que não te pergunta nada. Dá-lhe bailes; que a sociedade troca por isso o prazer de te diffamar. A sociedade em quanto dança não dilacera reputações. Evita, quanto puderes, ser desgraçado e pobre. Isso é que se não perdôa. Ainda que os remorsos te cortem o coração, sê tu rico, e verás que a sociedade conspira em te distrahir com o espectaculo da farça humana em que os truões sacodem os cascaveis para que não ouças os gemidos da tua consciencia.
Visconde
Eu não dou bailes; dá-os meu filho que é moço, e não se priva dos gozos da mocidade porque me vê chorar. José de Sá, tens sido duramente severo comigo. Não me queixo. Generosamente me apertaste a mão; e eu não merecia tanto. Se alguem houvesse compaixão de mim, não serias tu por certo, que foste amigo de Silveira e o confidente de afflicções superiores ao entendimento de desgraçados maiores do que eu. Chorei-os ambos, porque os matei ambos. Peguei d'aquelles trez entes cheios das alegrias da honra e do amôr... e atirei-os á voragem do opprobrio e da morte... Despreza-me tu, desprezem-me todos, que eu não tenho rehabilitação... não posso arrancar-me das prezas implacaveis do meu remorso. _(Cahe extenuado numa cadeira)._
José de Sá _(comtemplando-o, e entre si)_
Não te erguerás não, infeliz! Péza-te na consciencia o cadaver de Martha...
SCENA XII
OS MESMOS, VISCONDESSA, PEDRO ARANHA COM OUTROS GRUPOS QUE SE CRUZAM AO FUNDO
Viscondessa
Ai! alli está o visconde! _(aproxima-se inclinando-se)_ Visconde!
Visconde
Minha senhora... _(levantando-se a custo)._
Viscondessa
Soubemos agora que V. Ex.ª tinha chegado, e procuramol-o em todas as salas. Reanime-se!
Visconde
Estou bem, snr.ª viscondessa.. E V. Ex.ª tem-se enfastiado?
Viscondessa
Não me enfastio; gelo-me de horror, quando penso que a luz do sol nos ha de mandar sahir d'este paraizo.
Pedro
Onde todos os pomos são prohibidos.
José de Sá
E os maduros tambem? _(tregeitando como allusão á viscondessa)._
Viscondessa
Os verdes principalmente é que são prohibidos pela mesma razão que o eram as uvas á rapoza; não acha, snr. Pedro Aranha?
Pedro
Eu acho que V. Ex.ª sabe tudo, adivinha tudo, é a arvore da sciencia d'este paraizo. Descubriu ultimamente que eu vinha depôr o meu inveterado scepticismo ás plantas de uma menina portuense.
José de Sá
E eu não admiro; que n'estas salas tenho eu visto explendidas bellezas, ás quaes seria facil empreza dobrar o orgulho d'esta moderna seita de scepticos, e de jovens cançados d'amor que se deploram em Portugal por versos mais ou menos errados, e morrem quasi sempre desconhecidos na sua rua.
Viscondessa _(ao visconde)_
Que abstracção! que melancholia! Distraia-se!.. Ó visconde _(indigitando um par)_ quem é aquella menina que parece ir adormecida sobre o hombro do menino respectivo?
Visconde
Não sei, minha snr.ª Eu conheço n'esta sala V. Ex.ª e a mulher de meu filho. Onde está Eugenia?
Viscondessa
É uma pergunta que eu ia fazer. Ha coisa d'um quarto de hora que a vi passar pelo braço de Jorge de Mendanha.
Visconde
Não tive o prazer de vêr esse cavalheiro, e provavelmente já o não verei por que vou sahir.
José de Sá
Tu não estás hospedado em casa de teu filho?
Visconde
Não, José de Sá. Eu amo bastante meu filho e minha nora para os não mortificar com a presença continuada d'uma velhice repellente...
Viscondessa
Ahi vem lamentação do profeta... Se vem, deixo cahir a fronte com o pezo da mortificação!.. Ah! aqui vem a snr.ª D. Eugenia com Jorge Mendanha.
SCENA ULTIMA
OS MESMOS, JORGE, RODRIGO, EUGENIA, E CONVIDADOS QUE VÃO PASSANDO
_Do lado fronteiro, por onde entrou Mendanha, vem Rodrigo que se avisinha do pae no intento de o apresentar. Jorge de Mendanha pára, em frente do visconde, largando o braço de Eugenia e deixando pender os braços. O visconde encara Mendanha com penetrante frieza e spasmo._
Rodrigo _(a Mendanha)_
Tenho a honra de apresentar a V. Ex.ª meu pae. _(O visconde está fitando convulsamente Jorge. Este mantem-se immovel, com a fronte alta e o olhar fixo e sinistro. O visconde recua, erguendo as mãos em attitude de quem repelle uma visão, e cahe nos braços de Eugenia e de José de Sá)._
Rodrigo _(avisinhando-se com altivez de Jorge)_
Quem é o senhor?
Jorge _(apontando para o visconde)_
Pergunte-lh'o. _(Desce o pano vagarosamente)._
FIM DO SEGUNDO ACTO.
ACTO TERCEIRO
(1.º QUADRO)
Sala do hotel de Francfort.--Vêem-se gallegos atravessar carregados de malas.
SCENA I
VISCONDESSA, E UM CREADO, POUCO DEPOIS
Viscondessa _(em trajes de viagem)_
A carroagem ainda não chegou?
Creado
Foi-se chamar, snr.ª viscondessa.
Viscondessa _(irritada)_
Parece que as carroagens no Porto não se mandam buscar, mandam-se fazer. A velocidade aqui é impossivel, fóra do carroção! Ai! Lisboa, Lisboa! Olé! _(ao creado)._
Creado
Minha senhora.
Viscondessa
O snr. Mendanha já se levantou?
Creado
Parece-me que ainda se não deitou. Desde que chegou do baile tem passeado sempre no quarto.
Viscondessa _(ao creado que está sacudindo o pano da jardineira)_
Ó sôr homem!
Creado
Minha senhora.
Viscondessa
O snr. conselheiro José de Sá está com o snr. Mendanha?
Creado
Está no quarto d'elle.
Viscondessa
Está mais alguem de Lisboa n'este hotel?
Creado
Mais ninguem, snr.ª viscondessa.
Viscondessa _(tirando dois bilhetes d'uma carteira)_
Pegue lá: dê estes bilhetes aos snrs...
Creado
Ahi vem o snr. conselheiro. _(sáe)._
SCENA II
JOSÉ DE SÁ E VISCONDESSA
José de Sá
Que madrugada é esta! V. Ex.ª, á uma hora da tarde, já radiosa, em trem de viagem!
Viscondessa
Não dormi nada, tenho os nervos em convulsões, estou doente, e vou para Lisboa no _Lusitania_ que sáe ás duas horas felizmente. Que me diz á scena melodramatica do baile?
José de Sá
Pareceu-me mais tragica do que melodramatica.
Viscondessa
Mas quem anda a fazer tragedias pelos bailes hoje em dia! Aquillo é d'um anachronismo e máo gosto revoltantes! Se os maridos atraiçoados começam a dar-se ares de fantasmas tragicos nos bailes, os salões hão de tornar-se medonhos, e cada marido ha de dar-se o tom e o feitio d'um bravo de Veneza em veteranos.
José da Sá
Não se graceja assim com o infortunio, snr.ª viscondessa.
Viscondessa
Ora pelo divino amôr de Deus, snr. Sá! A gente não ha de vestir-se de lucto por que o senso commum vae morrendo hydropico de ridicularias! Eu acho natural e perdoavel que o seu amigo Jacome da Silveira despisse os ares carregados e funebres da _vendetta_, e esmurraçasse na Praça Nova ou no jardim de S. Lazaro o visconde; mas isto de enroupar-se n'uma _toilette_ mysteriosa, coriscando dos olhos uns fulgores fulminantes, para afinal de contas ajuntar o escandalo á irrisão, sinto dizer-lhe, conselheiro, que é um soberano disparate, e que o seculo vae muito luminoso para podermos receber a sério estas excrecencias da idade media. Que diz?
José de Sá
Eu não disse nada. Estou ouvindo e admirando a snr.ª viscondessa de Pimentel.
Viscondessa
Eu não armo á admiração, meu presado conselheiro; quero apenas que me vejam protestar contra tudo que tem vislumbres de tolice. Ora queira dizer-me: não estava ha muito tempo esquecida a desventura de Martha? O visconde não fugiu da sociedade para que ninguem se lembrasse d'ella e d'elle? Isto é verdade: que diz?
José de Sá
Ainda não disse nada, minha senhora.
Viscondessa
Bem sei que não disse nada. O snr. Sá ensaia-se para estadista n'esta diplomacia de _boudoir?_ Parece-me que desperdiça a sua infinita sagacidade n'esses ares meditativos com que trata coisas insignificantissimas.
José de Sá _(sorrindo)_
Estou quasi resolvido a irritar-me contra V. Ex.ª Se continua a injuriar-me, ai da viscondessa e de mim!
Viscondessa
Mas rebata isto, snr. Sá. Que lucrou o seu amigo bulindo nas cinzas de Martha? Reviver miserias...
José de Sá
Minha senhora, não bula V. Ex.ª n'ellas, que a memoria de Martha é sacratissima desde que expiou acerbamente a sua culpa.
Viscondessa
Concordo; e por isso mesmo reprovo que Silveira... Ah! uma nota curiosa... O conselheiro, reparou n'aquelle pendor sentimental da cabeça de Eugenia sobre o hombro de Silveira, quando passeavam nas salas menos concorridas?
José de Sá _(ironico)_
Não reparei n'esse escandalo!
Viscondessa
Não? foi coisa que deu nos olhos de muita gente. Que infinita graça e que profundo mysterio não teria o apaixonar-se Eugenia... _(rindo)._
José de Sá
Ora, minha senhora... V. Ex.ª traz a sua formosa cabeça repleta de máos romances... Bem se vê que os seus nervos andam destemperados pelo terror das tragedias... _(ouve-se o rodar da sege)._
Viscondessa
Ahi está a sege... Adeus. _(apertando-lhe a mão)_ Vou por casa de Eugenia deixar-lhe um bilhete, se a não poder vêr de relance.
José de Sá