O condemnado, drama em tres actos e quatro quadros; Seguido do drama em um acto, Como os anjos se vingam

Part 3

Chapter 33,853 wordsPublic domain

Quando a viscondessa quizer contar-lhe as muitas historias que ella deve saber da vida de Lisboa, mostre-se a minha filha inteiramente descuriosa de as saber. Esteja de prevenção. Eugenia, acautele-se das mulheres que não tem outra virtude sabida senão a de murmurar dos vicios alheios. A viscondessa creio eu que não murmura. Hypocrita nunca ella foi. Mas conta, folga de contar: tira dos bastantes annos que tem o partido possivel, como quem se preza de conhecer o romance dos ultimos 30 annos de Lisboa. Além d'isto, ha de a minha filha observar que certas damas contam historias de pessima moral acontecidas com muitas das suas amigas. O seu industrioso plano é dar a perceber que o vicio está por tal forma naturalisado que já não ha razão para espantos nem sequer para censuras. Ora eu muito queria que minha filha soubesse de mim sómente que na sociedade habitual da viscondessa de Pimentel as theses de moral são assim todas pouco mais ou menos. _(Suspende-se subitamente. Vivamente agitado, fixa attentamente o que está lendo, emquanto Eugenia se intretem tocando em qualquer adorno das mezas. O visconde serena-se com grande exforço e disfarce. Depõe o jornal, e toma o chapeu. D. Eugenia tem reparado na commoção do visconde)_. Até já, Eugenia.

D. Eugenia

O pae está tão pallido!

Visconde

Pallido! Não sei o que seja!..

D. Eugenia

Sente-se doente?

Visconde

Não, minha filha... Isto são accessos de hypocondria... Vou tomar ar ao jardim. Volto já. _(Sáe)_.

SCENA XVII

D. Eugenia, _(só)_

Elle ía tão mudado e sobresaltado! E estava a lêr com tanta inquietação! Que seria? que viu elle n'este jornal?! _(Pega do jornal e corre os olhos pela primeira pagina)._ Que é isto? _(estremecendo)_ Este nome... Jacome da Silveira! _(Faz menção de lêr agitadamente, e lê alto): Cego pela paixão feroz do ciume matou..._ Pois elle vive, meu Deus! Que commoção tão funda eu sinto! Que ancia! que susto de que esta noticia me traga desventuras! _(Lendo) Jacome da Silveira... D. Martha de Villasboas!_ São estes os nomes!.. O desgraçado vive!.. Ainda o verei? E poderia amal-o, se o visse? Oh! não... Eu vejo sempre o cadaver d'ella... _(Senta-se a soluçar)._

SCENA XVIII

D. EUGENIA E RODRIGO DE VASCONCELLOS

_(Eugenia forceja por limpar as lagrimas)_

Rodrigo _(reparando)_

Estavas chorando, filha?

D. Eugenia

Estava.

Rodrigo

Porque? São as primeiras lagrimas que te vejo.

D. Eugenia

É verdade...

Rodrigo

Mas porque choras, Eugenia? Tu estavas lendo n'este jornal...

D. Eugenia

Sim, estava... Vem ahi uma historia muito triste.

Rodrigo _(procurando no fundo do jornal)_

No folhetim? Pois os romances fazem-te chorar, creança?

D. Eugenia

Não é romance; é aqui. _(Indicando-lhe o alto da primeira columna)._

Rodrigo

Aqui na Correspondencia de Pariz? _(Ella faz um gesto affirmativo)_ Pois que é? _(Correndo com os olhos alguns periodos, balbucia inintelligiveis palavras, e depois lê):_ «Contar-lhe-hei um successo digno de attenção, e d'algum modo romantico, se bem que procede d'um lance de tragedia.» É aqui?

D. Eugenia

É.

Rodrigo _(lendo)_

«Um cavalheiro portuguez, que hontem encontrei no _Bois de Bologne_, me mostrou um sujeito que ia passando sósinho, triste e vagaroso. E depois me contou o seguinte caso que teceria o enredo de um bom romance, se cahisse na officina de Alexandre Dumas. Ha duas duzias de annos, pouco mais ou menos, um homem de consideração, residente em Lisboa, de nome Jacome da Silveira, casado com uma distincta e formosa senhora, chamada Martha de Villasboas, cego pela paixão feroz do ciume, matou a espoza. Poucas horas depois, apresentou-se ao governador civil declarando que matára sua mulher. Interrogado sobre os motivos do crime, respondeu que não tinha obrigação, vontade, ou necessidade de declarar o crime da senhora morta, porquanto já estava castigada, e a memoria d'ella não esperava da sociedade estigma nem rehabilitação. Perguntado como é que se apresentava, respondeu: «Como homem que matou». Na qualidade pois de homicida voluntario com premeditação foi Jacome da Silveira encarcerado, julgado e sentenciado em 20 annos de degredo para Africa, em attenção não sabemos a que circumstancias attenuantes. A sociedade de Lisboa, o jury, e o juiz que o julgaram e sentenciaram sabiam de sobejo que D. Martha de Villas-boas morrêra criminosa. O cumplice da adultera éra conhecido. Constava que o réo encontrára superabundantes provas do crime, as quaes valeriam tanto na consciencia do jury como o flagrante delicto. Todavia como Silveira teimou pertinaz e loucamente em não declarar o crime de sua mulher, a condemnação éra inevitavel, a não estar o jury, como não estava, á altura da tão infeliz quanto generosa alma do réo. Jacome da Silveira era rico. Todos suppozeram que elle se transferisse d'Africa para onde bem quizesse, sobrando-lhe recursos com que armar navio que o transportasse á Europa ou America do norte, a não querer antes levantar-se com o senhorio de Angola e proclamar-se rei d'áquem e d'alem mar em Africa, etc. Estas conjecturas eram indignas do nobre e excentrico animo do condemnado. Jacome cumpriu a sentença; completou 20 annos de degredo; e, cobrando alvará de soltura, passou ao coração da Europa, e nomeadamente ao _Bois de Bologne_, onde hontem o vi. Tanto quanto de relance o pude vêr, deixou-me uma impressão melancolica. «N'aquelle rosto de bronze, transluzia d'esta historia a pagina que escreveram lagrimas choradas por espaço de 24 annos. Na historia ha duas victimas, e um infame. D'este personagem não lhe sei dizer o nome. Esse talvez tenha envelhecido socegadamente em Portugal, e esteja lendo com olhos enxutos esta noticia». _(Declama):_ Mais nada. Saibamos agora porque choraste, Eugenia?

D. Eugenia

Porque chorei!? não foi tão infeliz e triste a sorte d'esta senhora?!

Rodrigo

Triste? decerto foi; mas não era justo que fosse alegre. Esta mulher deshonrou o marido: foi punida. Ella matou um coração honrado; elle matou um corrupto. Não ha comparação racional entre os dous delictos. Se tu chorasses por elle que soffreu primeiro a deshonra, e depois a condemnação a degredo de vinte annos!... As tuas lagrimas poderiam revelar a piedade abraçada á justiça; mas chorar pela criminosa que...

D. Eugenia _(atalhando-o)_

Tens razão... Perdôa ás minhas lagrimas... Em poucas palavras me fizeste comprehender a desgraça d'esse infeliz.

Rodrigo _(pausadamente)_

Pois não é assim, filha?.. Primeiro, a affronta recebida no coração; depois o aviltamento do amor-proprio e os risos insultadores do mundo; depois o horrendo trance da morte com as angustias infernaes que deviam lacerar-lhe a alma; depois o carcere e a sentença; depois vinte annos sem patria; e finalmente...

SCENA XIX

OS MESMOS E O VISCONDE

Visconde

Que estavas tu dizendo tão commovido, Rodrigo?

Rodrigo

Conversavamos a respeito d'esta noticia, meu pae. _(Mostra-lh'a no Jornal)._

Visconde

Já vi.

D. Eugenia

Parece-me que o pae tambem a leu com amargura.

Visconde

Li... Na sala de espera, Eugenia, estava alguem agora a procural-a.

D. Eugenia

Sim? eu vou. _(Sáe)._

SCENA ULTIMA

RODRIGO E O VISCONDE

Visconde

Pungiu-te essa noticia, Rodrigo?

Rodrigo

Eugenia é que estava chorando de compaixão da mulher que o marido matou.

Visconde

Deixasse-l'a chorar, coitada! Essa mulher, que morreu, foi uma virtuosa espoza como Eugenia.

Rodrigo

Então morreu innocente?

Visconde

Não.

Rodrigo

N'esse caso, o confronto não lisongêa minha mulher...

Visconde

Eu ia dizer-te que D. Martha entrou innocente n'um baile; e, quando sahiu, sentia a febre da paixão que antecede a morte do brio e do pundonor. Estava n'esse baile um homem de preversidade contagiosa. Lê as ultimas linhas d'essa correspondencia, ahi onde começa: _Na historia ha duas victimas e..._

Rodrigo _(lendo)_

«Na historia ha duas victimas e um infame. D'este personagem não lhe sei dizer o nome. Esse talvez tenha socegadamente envelhecido em Portugal, e esteja lendo com olhos enxutos esta noticia.»

Visconde _(commovido até ás lagrimas)_

Vês os meus olhos enxutos? Repára, filho, que eu estou chorando...

Rodrigo

Está; mas que querem dizer as suas lagrimas?!

Visconde

Querem dizer que o infame, de que falla essa noticia, é... teu pae. _(Rodrigo estremece. Corre o panno)._

FIM DO PRIMEIRO ACTO.

ACTO SEGUNDO.

A sala do primeiro acto. Ouve-se musica que vem soando das salas, onde se dança. Damas e cavalheiros cruzam n'esta sala, mas no segundo plano.

SCENA I

VISCONDESSA DE PIMENTEL E O CONSELHEIRO JOSÉ DE SÁ

Viscondessa

Surpreza assim! José de Sá n'um baile do Porto! Encontrar-me ha quinze dias no Chiado, e não me diz que vem ao Porto. Creatura mais mysteriosa, com vislumbres de romantica, nunca vi! E estar no Francfort, meu companheiro d'hotel, sem eu saber! Há quantos annos o não encontro em bailes, conselheiro? Deixe-me vêr se me lembro... Foi, foi, foi ha...

José de Sá

Ha 22 annos, minha senhora.

Viscondessa

Mas que maravilhosa conversão foi esta? como é que V. Ex.ª depois de duas duzias d'annos d'um anachoretismo selvagem, volta aos bailes, a estes pedaços modernos da Babilonia antiga?

José de Sá _(sorrindo)_

Milagres d'amôr, snr.ª viscondessa, acho eu. Ha amôres que rebentam no inverno da vida como os tortulhos com as primeiras chuvas; e, como não achem coração onde se hospedem dignamente, recolhem-se á cabeça, e tamanhos estragos lá fazem que não é raro vêr em bailes muitos doudos que trazem nos miolos um cupido mais destruidor que um rato em queijo de cabeça de preto.

Viscondessa

Vejo que fez conserva da linguagem pittoresca d'outro tempo!

José de Sá

Pois está claro; nas nossas idades... quero dizer, na minha idade, são tudo sequeiros e conservas... O coração, como eu o sinto, é verdadeiramente uma betarraba já curtida...

Viscondessa

Pois sim mas não zombe do amor, que não perdôa sarcasmos... Olhe que a occasião é de grande perigo... Veja, veja, o que ahi vai de bellezas... _(apontando para as senhoras que vão passando)_.

José de Sá _(mirando-as com a luneta)_

É verdade. Bem vejo. Ó minha querida snr.ª viscondessa, defenda-me com o seu bom conselho. Diga-me de que Circes devo acautelar-me.

Viscondessa

De todas.

José de Sá

De todas? pois tambem V. Ex.ª terá a crueldade de não poupar uma antiga victima dos seus desdens? Constituamos o dialogo em pleno reinado d'el-rei nosso senhor Dom João V.

Viscondessa _(ironica)_

E quem tem um espirito d'este tamanho andou 22 annos por fóra dos bailes!

José de Sá _(rapido)_

Para o não perder, minha snr.ª.

Viscondessa

Diz bem. O espirito aqui perde-se. Esta gente nova parece que sáe bronca dos collegios. Aprendem linguas estrangeiras para fallarem com espirito, e guardam o portuguez para dizerem semsaborias. Vae vêr. Entre por essas salas; encontra cincoenta galantes meninas de uma enxabidez monumental. Espirito! Foi tempo. Não ha hoje em dia quem saiba conversar cinco minutos sem justificar o mais sincero abrimento de bôcca.

José de Sá

Espirito de papoulas, não, minha snr.ª? Excellente coisa! Eu durmo ha muito tempo ajudado pelos artigos de fundo das gazetas. Se eu podesse adormecer acalentado pelas semsaborias dos anjos, trocaria a insipidez dos anjos pelo sal dos politicos.

Viscondessa

Ai! politicos! não me falle em politica que me estorce os nervos! Pois não sabe que o visconde por causa da candidatura de meu cunhado me fez ir a Setubal dirigir as eleições contra o governo?

José de Sá

V. Ex.ª fez as eleições em Setubal? Isso tem graça; acho-lhe um sal, mais sal do que Setubal exporta! V. Ex.ª fez eleições?

Viscondessa

Fiz.

José de Sá

E venceu?

Viscondessa

Venci.

José de Sá

Está claro. Venceu. O amôr vence tudo, inclusive as eleições. Um ou dois raios d'amor despedido por olhos ardentes sobre a urna, fariam o prodigio de converter em ministerial o deputado opposicionista. Mas, ó querida viscondessa, V. Ex.ª não receou que os irritados manes de Bocage a satyrizassem em Setubal?

Viscondessa

Satyrizar-me, porquê?

José de Sá

Pois uma snr.ª toda poesia, toda flôres, toda céo, a combinar com as facções o arranjo d'um deputado, ha ahi cousa que deva recear-se mais da satyra bocagiana?.. Uma dama politica! Uns dedos finos e côr de rosa, affeitos a volver as paginas do livro do coração, a profanarem-se na entrega das listas de costaneira! Ó muito illustre e muito presada minha amiga, posto que V. Ex.ª qual outra Judith venceu o Holofernes administrativo de Setubal, não posso deixar de lhe dizer que se V. Ex.ª e as suas correligionarias começam a fazer politica, eu e os meus correligionarios teremos de fazer meia. Este paiz é muito pequeno, e a custo dará politica para o sexo feio.

Viscondessa

Já vejo que o snr. conselheiro continua a considerar a mulher uma incapacidade para os actos do espirito.

José de Sá

Não minha snr.ª Eu sou obrigado a confessar que ha senhoras intelligentissimas e com grande capacidade.

Viscondessa

Mas com intelligencia sómente honorifica. Concedem-nos a honra da intelligencia; mas sem exercicio... Obrigadissimas, rei da creação, obrigadissimas... _(Reparando)_ Ah! ahi vem o Jorge de Mendanha, conhece?

José de Sá _(intencionalmente)_

Não conheço Jorge de Mendanha.

Viscondessa

E não se lembra de ter conhecido este nome?

José de Sá

Não conheci.

Viscondessa

Eu apresento-o!

José de Sá _(áparte)_

Tem graça a apresentação...

SCENA II

VISCONDESSA, JOSÉ DE SA, D. EUGENIA, JORGE DE MENDANHA

Viscondessa _(a Jorge)_

Apresento o snr. conselheiro José de Sá, cavalheiro pertencente á mais selecta sociedade de Lisboa. Talvez conhecesse V. Ex.ª _(Indicando Jorge)_ O snr. Jorge de Mendanha. É natural que já se hajam visto... _(Os apresentados apertam-se as mãos, fixando-se de um modo que deixa entrever disfarce)_.

José de Sá

Certamente.

Viscondessa

Em Lisboa? _(Signal de começar-se uma polka. Rodrigo offerece o braço á viscondessa, e Aranha a D. Eugenia. Movimento de pares que atravessam rapidamente)_.

Rodrigo _(offerecendo o braço)_

É a terceira polka, minha snr.ª

Viscondessa

Ah! sim? vamos...

D. Eugenia _(com distracção a Pedro Aranha)_

Sou seu par, snr. Aranha?

Aranha

Sim, minha snr.ª; mas, se V. Ex.ª...

D. Eugenia _(desprendendo-se do braço de Jorge)_

Desculpe, cuidei que... _(Sáem os dois pares)._

SCENA III

JORGE E JOSÉ DE SA

José de Sã

Que vieste, afinal, fazer aqui?

Jorge

Ver como se houve a Providencia n'este pleito que eu terminei com a sociedade. Fui condemnado. Apellei da iniquidade da terra para a justiça do céo. Agora, vim vêr como a justiça do céo sentenciou. Quero vêr, face a face, e sem que me conheçam, o homem que matou a alma da mulher que a sociedade disse que morreu ás minhas mãos. Morta estava ella. Matou-a quem a cobriu de opprobrio: matou-a o infame que eu venho procurar n'estas salas, 20 annos depois que offereci a minha sentença de desterro á suprema alçada de Deus. Vejamos, pois, o que Deus fez d'elle. Por ora, o que presenceamos, meu amigo, faz-me desconfiar que a justiça celestial não desce a sujar as suas balanças n'este lamaçal da terra. _(sorrindo)_ Suspeito que o meu recurso de revista foi lá em cima julgado por desembargadores que fazem obra pela jurisprudencia que levaram de cá. _(Triste e concentrado)_ Ainda o não vi; mas sei que estou nas suas opulentas salas. Aqui de certo não mora a desgraça. Os infelizes não accendem tantas serpentinas para se mostrarem. O homem que depravou Martha, e atirou ás mãos da minha vingança esse cadaver, Heitor de Vasconcellos vive! nobilitaram-no com uma corôa de visconde, saborea-se nas dôces chimeras que esmaltam o ouro da vida; e, de mais d'isso, tem um filho que lhe regala a velhice com estas musicas e danças. _(Ouve-se a orchestra, por um breve espaço, durante o qual Jorge medita concentrado. Depois a musica descahe para uma toada triste e como remota acompanhando a declamação)_ E o condemnado fui eu. Abri-lhe as portas de minha casa, leveio-o ao intimo do meu lár, puz na sua mão a de uma mulher que eu adorava, dizendo a ambos que se dessem os parabens da minha felicidade. E elle empestou-lhe a alma, insinuou-lhe no coração o despejo, e a infernal coragem de me trahir e matar. Matou-me. Quem foi dos trez o desgraçado? E ella jaz onde a infamia lhe não peza. Eu venho de arrastar meia existencia debaixo de um céo maldito. Heitor de Vasconcellos envelheceu: placidamente lhe corre a vida debaixo d'estes tectos explendidos e por sobre estas alcatifas aveludadas. A sociedade respeita-o. Nos seus salões estão os sabios, os virtuosos, os ricos, e tambem o pae de familias com suas filhas, e os maridos com as espozas sem macula. O condemnado fui eu. Perdi a mulher que amei, perdi a honra que amava mais, lavei o sangue de minhas mãos com lagrimas em vinte mezes de carcere, e vinte annos sem patria. Aqui estou. Venho vêr o que a divina Providencia me diz d'este homem que voltou as costas á sepultura da mulher que ambos matamos... ao infame que envelheceu feliz. Respondi, José de Sá. Não me perguntes mais o que vim aqui fazer.

SCENA IV

OS MESMOS E A VISCONDESSA PELO BRAÇO DE RODRIGO

Viscondessa _(descendo para o proscenio)_

Mas o visconde não vem, snr. Vasconcellos?

Rodrigo

Meu pae prometteu vir, se bem que ainda ao anoitecer estava na cama bastante incommodado, e com tenções de ir esta madrugada para a provincia.

Viscondessa

Incommodado de que? Ainda hontem o vi com bastante animação; mas, em verdade, muitissimo abatido de espirito está elle! O snr. conselheiro, não viu ha muito o visconde de Vasconcellos?

José de Sá

Ha vinte e trez annos, minha snr.ª

Viscondessa

Então não o reconhece, sem que lh'o mostrem.

Rodrigo _(á viscondessa)_

V. Ex.ª quer aqui ficar? _(sorrindo)_ Eu não posso deixar de ir ser testemunha das incommodidades que V. Ex.as soffrem n'esta casa. Snr. Jorge de Mendanha, eu folgaria que um baile no Porto não intédiasse antes da meia noute o cavalheiro que vem dos salões de Pariz.

Jorge

Dos areaes da Africa, snr. Vasconcellos.

Rodrigo

Mas tambem viajou na Europa...

Jorge

Na volta d'Africa, passei por algumas cidades da Europa: mas não frequentei bailes; e, quando os visse, quer-me parecer que as salas de V. Ex.ª não poderiam temer-se da confrontação.

Rodrigo

Ó snr. Mendanha... _(Rodrigo fica gesticulando com Jorge)._

Viscondessa _(que tem estado a conversar com José de Sá)_

Nada, polkas não quero mais. Bate-me o coração espantosamente. Olhe este pulso, snr. Sá.

José de Sá _(apalpando-lhe o pulso)_

Valentissimo! É o palpitar dos 18 annos, é vida, é sangue que pula, que polka n'um coração ainda rijo. Eu iria jurar que V. Ex.ª tem um aneurisma...

Viscondessa

O quê?

José de Sá

Um aneurisma d'amor, não se assuste. A viscondessa já sabe que não se morre de taes aneurismas.

Viscondessa

Acha? Este Sá é o contraste de seu pae, snr. Rodrigo. O visconde é a elegia, este é o madrigal. Olhe o que faz viver no Chiado em Lisboa ou nas Mattas de Traz-os-montes! Veja o espirito folgazão d'este rapaz...

José de Sá

Ó cruel! Póde caber tamanha vingança em alma tão dôce? Chegamos a um tempo em que até os favos de mel se azedam! Não me disse ainda ha pouco, minha muito contraditoria senhora, que eu tinha vivido duas duzias de annos como anachoreta selvagem?

Viscondessa

Fóra dos bailes; mas dentro de Lisboa, onde os espiritos remoçam e esvoaçam como...

José de Sá

Como morcegos nas torres da Conceição velha.

Viscondessa _(a Rodrigo)_

Olhe, olhe esta fecundidade! o que eu queria era vêr seu pae assim galhofeiro, snr. Vasconcellos.

Rodrigo _(sorrindo, a retirar-se)_

Pois eu logo que o veja, snr.ª viscondessa... Póde ser que o duelo de espirito em que V. Ex.as tão destramente se batem, produza no meu velho e melancholico pae uma inveja salutar. _(Sáe)._

SCENA V

JORGE, VISCONDESSA E JOSÉ DE SÁ

Viscondessa _(acautelando-se de que a ouçam os que atravessam a sala)_

Ó conselheiro, lembra-se perfeitamente da parte que teve o Vasconcellos n'aquella tragedia do Largo do Intendente?.. Ora se lembra!..

José de Sá

N'aquella tragedia... ah! sim,.. Não recordemos, não recordemos...

Jorge

Recordemos... Eu gosto de ouvir tragedias.

Viscondessa

Se V. Ex.ª esteve em Lisboa ha 20 e tantos annos ha de lembrar-se de uma senhora que o marido matou por ciumes...

Jorge

Injustos?

Viscondessa

Isso não. Ella amava sem duvida nenhuma este visconde de Vasconcellos. Não se recorda?

Jorge

Tenho uma vaga lembrança.

Viscondessa

Como se chamava elle? o marido? Lembra-se, José de Sá? Espere... era Silveira não era?

Jorge

Conheceu-o V. Ex.ª?

Viscondessa

Não. Quem conheci muito foi ella. Estivemos ambas no collegio de M.elle Duchateaux, no Rato. Era lindissima a pobre Martha de Villasboas! Nunca vi o marido, porque nunca a visitei depois que casou, visto que não recebi parte do casamento. Offereceu-se-me ensejo de o conhecer em alguns bailes onde concorremos, mas nem o vi nem desejei conhecel-o desde que me asseveraram que elle fizera uma rigorosa selecção das amigas de sua mulher, receando que as amigas mais desempoadas a despenhassem no abysmo. _(Rindo)_ Ha assim muitos maridos que rodeam as mulheres de anjos; mas Satanaz que é indisputavelmente mais esperto que os anjos, e gosta de luctar com as difficuldades, consegue ás vezes pregar logros verdadeiramente infernaes aos maridos, deixando os anjos tristes e até certo ponto compromettidos. É o que aconteceu ás irreprehensiveis amigas da pobre Martha--umas creaturas que andaram pelas egrejas a orar por alma d'ella, como se precizassem introduzil-a no céo, para poderem alegar um exemplo em seu favor no dia do juizo...

José de Sá

Intrepida lingua, snr.ª viscondessa! Espada de dois gumes!

Viscondessa

A minha lingua não é intrepida, é portugueza.

José de Sá

Seja; mas os mortos que durmam em paz.

Jorge

Mas eu pediria á snr.ª viscondessa que me relacionasse com todos os mortos que deixaram na terra memorias tragicas. Terá V. Ex.ª a bondade de satisfazer a curiosidade de um homem, cuja attenção só póde ser captiva de grandes desgraças? _(José de Sá com ar de enfado vae ao fundo e torna)._

Viscondessa

Sim, eu resumo a historia em duas palavras para não ferir a sensibilidade do snr. conselheiro. Martha apaixonou-se por este Heitor de Vasconcellos, homem perigoso que o Silveira recebeu na sua intimidade. Não sei bem como o marido suspeitou a perfidia, ou interceptou a correspondencia. O que penso é que Martha não soube esconder a culpa na mascara d'aquella santa hypocrisia que costuma escrever nas sepulturas os epitaphios d'algumas excellentes esposas, que eu conheço, e o conselheiro tambem conhece, não acha?

José de Sá

Eu conheço muitas esposas excellentes.

Viscondessa

Mascaradas?

José de Sá _(apontando para D. Eugenia que vem entrando pelo braço de Pedro Aranha)_

Ahi tem um modelo de esposos.

Viscondessa

Cazou ha anno e meio.

SCENA VI

OS MESMOS, D. EUGENIA E PEDRO ARANHA

D. Eugenia

Eu andava procurando V. Ex.as Fogem do bulicio? tomára eu tambem fugir.

Pedro _(a D. Eugenia)_

A snr.ª viscondessa é hoje muito generosa com V. Ex.ª

D. Eugenia

Sim? pois quando deixou de ser generosa a snr.ª viscondessa?

Pedro

Se V. Ex.ª quizer, despovoa-lhe as salas onde se dança. Basta annunciar-se que a snr.ª viscondessa está aqui derramando as perolas do seu espirito.

Viscondessa

Cuida que está lisongeando uma _femme savante_ de Moliere este Trissotin em formato pequeno! este snr. Aranha que tem mais peçonha que o appellido quando quer ter um espirito de ventosa.

Pedro

Eu sou das aranhas que não tecem a sua teia em todas as ruinas.

José de Sá _(áparte)_

Bravo! estão bonitos!

D. Eugenia _(ouve-se a orchestra)_

Vai dançar-se, snr.ª viscondessa.

Viscondessa

Eu não vou dançar, minha querida. Fico por aqui a reconstruir o passado com o auxilio das reminiscencias do snr. conselheiro Sá. Estou a imaginar-me com vinte e dois annos. Isto é bom e innocente recreio. Se a gente retrocede alguns annos, acha-se em sociedade de menos parvos.

D. Eugenia _(a Jorge)_

E V. Ex.ª está triste?

Jorge

Ó minha senhora, não...

D. Eugenia