Part 2
Mandei pedir a minha prima se me concedia o favor de a cumprimentar. Permittiu que a visitasse no dia seguinte. Fui com um exquisito alvoroço e presentimento. Appareceu uma formosa menina com as rosetas da tysica nas faces e um sorriso de santa, como se a sahida d'este mundo lhe désse alegria. Conversamos muitas horas. Contou-me que era orphan, e tinha um pequeno patrimonio, de cujo rendimento se sustentava e mais a sua Eugenia, um anjo que Deus lhe mandára, como compensação, que em poucos annos a indemnisasse da felicidade e amor, em desconto do muito que poderia viver. Visitei-a segunda vez. Apresentou-me então a sua amiga. Não trato de te incutir espanto da sua formosura. Eugenia tem a belleza reflexa do ideal incorporeo e indefinido. O que muito me impressionou, e mais do que a belleza, foi o ar de bondade e melancolia, uns olhos que pareciam estar sempre lagrimosos e fitos em uma grande calamidade, um scismar e concentrar-se sem affectação, sem sequer attender á presença de um homem que poderia ter a vaidade de fazer-se attendivel. Participei a meu pae o que tinha visto. Recommendou-me que convidasse de sua parte minha prima Celestina para passar-se do convento aos ares saudaveis de nossa casa em Traz-os-Montes, e lhe pedisse que levasse comigo Eugenia. Mostrei a carta de meu pae. Celestina pensou tres dias, e aprestou-se para a jornada com a sua amiga e as suas criadas.
Pelo caminho me foi contando minha prima a breve historia de Eugenia. Uma senhora de Lisboa entrou no recolhimento da Piedade de Evora com uma menina de tres annos, a quem chamava sobrinha. Esta senhora vivia com poucos meios, e morreu não deixando alguns, quando Eugenia contava dezeseis annos. Minha prima levou para a sua cella a desvalida menina, e repartiu com ella a sua pensão. N'este sereno affecto encontrei as duas orphans.
As recolhidas, segundo depois averiguei, suspeitavam que Eugenia fosse filha da reclusa que lhe chamava sobrinha. Eugenia presume ter a certeza de que não é filha da senhora que a creou. Como quer que fosse, a supposição de que a orphan denotava com o seu sombrio silencio a procedencia de algum desgraçado amor, obrigava talvez a curiosidade a não devassar o mysterio de que minha prima não tinha a menor elucidação.
Celestina melhorou algum tanto na provincia; mas ao cahir da folha, expirou nos braços da companheira de infancia, dizendo a meu pae, em tom supplicante, que adoptasse como sua filha a pobre Eugenia. Passados dias.... Vê lá se te estou estafando com a historia.
Pedro
Homem, não vês o interesse e a gravidade com que te escuto! Passados dias...
Rodrigo _(proseguindo)_
Meu pae, adivinhando-me, disse que o meu silencio lhe não lisongeava a alma, que eu ainda mal conhecia.--Se amas Eugenia, casa, disse elle.
Fui a Evora averiguar por onde poderia haver certidões necessarias ao casamento. Nada obtive; apenas um antigo capellão do recolhimento me disse, que a senhora D. Maria da Gloria, tia ou o que quer que fosse de Eugenia, entrára no convento em 1837 e morrêra em 1849 sem ter escripto nem recebido alguma carta; e que uma vez cada anno apparecia na portaria um homem ordinario, procurando a reclusa, e provavelmente entregava a D. Maria da Gloria o dinheiro com que ella parcamente se sustentava. No pensar do capellão esta dama era fidalga, porque o padre que a confessava uma vez dissera que a secular tinha tão nobre sangue como espirito. Este padre confessor era já fallecido quando o procurei em Lisboa. Nada pude, portanto, averiguar, nem cuidei mais de inuteis indagações. Obtive dispensa das mais urgentes certidões, e casei com Eugenia... Por esta occasião meu pae perfilhou-me.
Pedro
Tu eras filho natural? Eu não sabia.
Rodrigo
Não? Nem eu. Só depois que sahi do collegio dos nobres e fui á provincia, é que os criados me contaram que minha mãe era uma formosa e pobre moça que amou muito e viveu pouco. Como vinha dizendo, meu pae perfilhou-me. Deu-me em dote a maior parte da sua casa, e reservou para si uma quinta afogada entre serranias em Traz-os-Montes. Ora aqui tens.
Pedro
E dizias que não tinhas romance!...
Rodrigo
Romance não é; é o que os romancistas não sabem pintar: a felicidade perfeita. Eugenia é boa como todas as mães extremosas. Tenho um filho de seis mezes: a criancinha figura-se-me uma flor que se abriu da innocente e doce alma da mãe. Eu não tinha direito a tanto contentamento sem intercadencia de tristeza. Sou feliz; e creio que o sou, porque ha Deus, e porque me liguei a um dos seus anjos n'este mundo.
Pedro
Que linguagem! que transformação! Deixei-te sceptico a respeito de mulheres; atheu, a respeito dos deuses; e um consummado Herodes a respeito dos meninos. Acho-te um coração cheio dos tres e unicos elementos da felicidade humana: o amor do marido, a ternura de pae, e a religião que recebe os bens e os males da vida como favores da Providencia. Eu tambem creio em tudo isso; mas tambem creio no diabo. Depois d'isto o que eu poderia desejar-te era doze contos de renda, e um supplemento de boa saude, como pedia Henri Heine quando não tinha esposa, nem filho, nem Deus, nem saude, nem dinheiro. Saude tens tu á proporção dos capitaes, não é verdade?
Rodrigo
Sim; vivo bem, e desassombrado de credores.
Pedro
Ah! tu já não tens credores?! _(baixo)_ Transgrediste o solemne juramento que fizemos em Lisboa de não pagar a uzurario que abuzasse da nossa innocencia do juro da lei?!
Rodrigo
Meu pae mandou pagar tudo e a todos.
Pedro
E não te amaldiçoou?
Rodrigo
Não.
Pedro
Oh! que pae! que santo! que patriarcha hebreu!
Rodrigo
Disse-me isto sómente: «Se houvesses contrahido dividas no valor do que possues, eu pagaria as dividas e ficarias pobre. Por óra és rico; mas, se teimares em dissipar, o opprobrio te ensinará o caminho da infamia.»
Pedro
Apre! Isso parece-me estylo de pae grego ou romano. Esse caso deve passar para a nova edição do _Thesouro de meninos_!
Rodrigo
E tu não pagaste áquelle dos oculos verdes?
Pedro
A qual dos oculos verdes? Todos os uzurarios que eu conheci tinham oculos verdes. Eu não paguei a nenhum. Sou equitativo, e não distingo credores. Tambem sou romano e grego quando dou a minha palavra. Jurei não pagar.
Rodrigo
Teu pae provavelmente pagou...
Pedro
As minhas dividas? Seria virtude mais velha que os heroismos de Grecia e Roma, se meu pae pagava as minhas dividas não pagando as d'elle! Os meus credores devem morrer de spasmo quando souberem que na minha familia não ha avô que pague pelo filho e pelo neto. Descendo de uma raça insoluvel desde meu vigesimo quarto avô D. Ordonho, principe gothico, até mim, que tambem não pago porque me não chamem gothico, como éra meu vigesimo quarto avô D. Ordonho.
SCENA X
OS MESMOS E D. EUGENIA
_D. Eugenia assoma no limiar de uma porta, e faz menção de retroceder vendo um estranho_
Rodrigo
Entra, Eugenia. _(Ella entra com uma carta aberta.)_ Quero apresentar-te ao meu amigo Pedro Gavião Aranha.
Pedro
Amigo desde o collegio, e de quantos elle teve e tem o mais participante das felicidades em que o venho encontrar depois de quatro mezes de auzencia.
D. Eugenia
O Rodrigo já me tinha fallado de V. Ex.ª com muita estima; e eu tenho muito prazer em vêl-o n'esta casa. _(Voltando-se a Rodrigo)_ Chegou agora esta carta da condessa de Travaços. Vê.
Rodrigo _(depois de a lêr mentalmente)_
Pede um convite para o baile... _(reflectindo)_ Ó Pedro Aranha, como se chamava o sujeito que em New-York te fallou em meu pae?
Pedro
Jorge de Mendanha.
Rodrigo
Ora ouve lá: _(lê)_. «Minha querida, senhora. Peço-lhe que obtenha do Rodrigo de Vasconcellos um cartão de convite para um sugeito de fóra que foi apresentado ao conde. Chama-se Jorge de Mendanha.
Da sua prima e amiga etc.»
Pedro
Oh! cá está o homem! E é singular coisa! Quando sahi da America estive com elle, e nada me disse de vir a Portugal!.. Vão V. Ex.as vêr um homem de romance.
D. Eugenia _(com simplicidade)_
Então quem é esse homem?
Rodrigo _(risonho)_
Essa pergunta assusta-me! Alvoroça-te a prespectiva d'um homem romantico?
D. Eugenia _(sorrindo ingenuamente)_
Nunca vi nenhum...
Rodrigo
Nem á mim? Então que sou eu? Não sou... sequer romantico!
D. Eugenia
Não; tu, Rodrigo, és bom... Eu li alguns romances no convento; e não encontrei n'elles a semelhança do teu genio; e nós lá quando diziamos que algum sujeito ou alguma senhora eram romanticos, não lhes faziamos elogio algum. Por isso é que eu desejava saber em que opinião se deve ter o tal sujeito que o snr. Pedro Aranha diz que é de romance.
Pedro
E poderei eu responder-lhe, minha senhora? Jorge de Mendanha é o mysterio; é um portuguez com uma cara de beduino; um velho com uns ares que impõe respeito, e ao mesmo tempo se insinuam no affecto dos moços. É eloquente; mas falla á moda dos atticos. Tem estylo sentencioso, concizo e cathedratico. Emfim, minha snr.ª, estimo grandemente o novo encontro com este homem que se destaca das espalmadas vulgaridades que nos acotovellam nos bailes, nos cafés, nas ruas, em todo este Portugal que é uma especie de viveiro, onde todos os homens parecem educados para meninos do côro.
Rodrigo _(sorrindo)_
Por exemplo, aqui tens, Eugenia, um menino do côro creado nos viveiros de Portugal. _(Indica Pedro)_.
Pedro
Pois bem; eu não inculco a minha sufficiencia para corista; mas é que eu fui reedificar-me, para assim dizer, nos paizes onde as artes são por tal modo milagrosas que transformam um homem. A civilisação anglo-americana é uma especie de depillatorio que descabella os ursos de todas as nações.
Rodrigo
Tudo portanto que não foi, como tu, receber da thesoura ingleza uma tosquia, é urso. Obrigado, snr. Gavião Aranha. Dá alvará de urso aos seus compatriotas, e eu tenho um criado que vinga os seus patricios annunciando-te como sujeito que tem dois bichos mais ou menos ferozes na sua pessoa.
Pedro
O que?
SCENA XI
OS MESMOS E JOÃO
João
Está lá em baixo uma fidalga n'um carrão.
Rodrigo
N'um carrão?
Pedro
Hade ser carroção. Pois ainda ha no Porto fidalgas que se fazem mover por bois?
Rodrigo _(a João)_
É carroção ou carroagem?
João
É sim senhor.
Rodrigo
O quê?
João
É uma d'estas chirinolas que trazem os moxillas na tampa de diante.
Rodrigo
_Chirinolas que trazem os moxillas na tampa de diante._ Entendeste, ó Pedro?
Pedro
Tu deves ter diccionario particular para entender o sujeito. A linguagem tem certo pittoresco, e um sabor classico.
D. Eugenia _(rindo)_
Falla á moda de Traz-os-montes.
Rodrigo
Essa coisa é puxada por bois ou cavallos?
João
São eguas, fidalgo.
Rodrigo _(a Pedro que ri)_
Este é o creado que te annunciou com dois bichos. _(Para João)_ Quem é a senhora?
João
Um dos moxillas disse que é a snr.ª D. Viscondessa de Pimentel.
Rodrigo _(com as mãos na cabeça, comicamente)_
Ai! ai! ai!
Pedro
Pois está no Porto a viscondessa de Pimentel?
Rodrigo
Eu vou recebel-a á portinhola; mas tu depois dispensa-me, Eugenia. Deixas-me fugir, sim, meu amor?
D. Eugenia _(sorrindo)_
Pois sim. _(Rodrigo e João sahem)_.
SCENA XII
D. EUGENIA E PEDRO
Pedro
A viscondessa de Pimentel! como atura V. Ex.ª esta arara de conserva?
D. Eugenia
Conheço-a ha poucos dias. Encontrei-a em casa da condessa de Travaços, e fui visital-a depois ao hotel de Francfort... É a primeira vez que vem cá.
Pedro
Mas ridicula até á commiseração, não é verdade?
D. Eugenia
Não... Faz-me dó! Tenho muitissima pena das senhoras que se não resignam com a velhice. No convento, onde eu fui creada, muitas senhoras, sendo em tudo exemplares, esqueciam-se de se fazer venerar pela idade; e eu tinha muita compaixão quando se riam d'ellas.
Pedro
Ella ahi está explendida de antiguidade como uma cathedral!
SCENA XIII
OS MESMOS, RODRIGO E A VISCONDESSA DE PIMENTEL
_A viscondessa é uma senhora de 50 annos, trajando no requinte da moda, e dissimulando a idade com o caio no rosto e cabellos postiços. Nos trejeitos e meneios exagera um desembaraço ridiculo, com o intento de affectar o garbo e desenvoltura de rapariga. Entretanto convem que se não desmanche dos modos verdadeiramente palacianos e proprios de esmerada educação e pratica da melhor sociedade._
D. Eugenia _(indo ao encontro da Viscondessa)_
Senhora viscondessa, como está V. Ex.ª?
Viscondessa
Muito nervosa. E V. Ex.ª? Hontem no theatro deu-me grande cuidado a sua sahida no intervalo do 2.º acto. Pedi ao primo Travaços que soubesse se algum motivo extraordinario alem do _spleen_... oh! o _spleen_!.. é uma calamitosa enfermidade esta, não acha?.. depois soube felizmente que o snr. Rodrigo de Vasconcellos dera uma gentil e formosissima razão da sua sahida...
D. Eugenia
Ah! sim... Eu sahi porque... _(sustendo-se)_.
Rodrigo _(a Pedro)_
Porque teve saudades do filho, Pedro Aranha.
Viscondessa _(com alvoroço)_
Pedro Aranha! Pois está aqui o snr. Pedro Aranha... Bem me parecia conhecer... mas por mais que concentrasse as minhas reminiscencias...
Pedro _(apertando a mão da viscondessa)_
Eu esperava ensejo de poder comprimentax V. Ex.ª
Viscondessa
Vem de Pariz?
Pedro
Da Suissa, minha senhora.
Viscondessa
Da Suissa? paiz das montanhas colossaes, com muitas bellezas selvagens, e a poesia magestosa e imponente do extraordinario, não é assim?
Pedro
Sim, minha senhora; ha muita poesia grandiosa na Suissa.
Viscondessa
Eu amo as soberbas descripções d'esse paiz! Já pedi ao visconde que me mostrasse a Suissa; mas o egoista respondeu que detesta as viagens em nações montanhosas. Ha certos espiritos que querem as nações chatas como elles. Quem me dera beber o ar que sacode os cabellos nos pincaros das serranias! É desejo que me devora desde menina. O visconde diz com a mais desgraciosa semsaboria que suba ás agulhas do Marão ou da serra da Estrella onde ha muito ár puro. Vejam que curteza de alentos! Para certas almas o ar é ar em toda a parte. Vêr o mar do rochedo de Santa Helena ou da Trafaria é igual. Tudo é agua: não é assim, snr. Aranha?
Pedro _(ironico)_
Sempre espirituosa, sempre admiravel de critica, e inexoravel com o seu bom senso em castigar os espiritos canhestros...
Viscondessa
Pois não é assim?
Pedro
Irrefutavelmente é assim, senhora viscondessa. Eu recebo as ordens de V. Ex.ª _(a D. Eugenia. Rodrigo pega no chapeu.)_
D. Eugenia
Vão sahir? Vem fazer companhia ao Rodrigo e ao pae? A gente espera o snr. Aranha.
Pedro
Não me dispenso da honra e do prazer, minha senhora.
Rodrigo _(á viscondessa)_
Senhora viscondessa. Eugenia, até logo. _(beija-a. A viscondessa aperta a mão dos dois que sahem)_.
SCENA XIV
D. EUGENIA E A VISCONDESSA
Viscondessa
Teve carta da prima condessa?
D. Eugenia
Sim, minha snr.ª
Viscondessa
Jantou hontem comnosco um homem sobremaneira excentrico. É esse Jorge de Mendanha de quem lhe falla a prima. É portuguez, e vem de Inglaterra recommendado ao conde--coisa singular!--por um lord de tal que o primo conheceu em Londres. Disse que estivera em Lisboa ha bastantes annos, e fallou de familias da primeira ordem como quem as conhecia muito. Perguntei-lhe, quando se tomava o café, se tinha conhecido, nos bailes do marquez de Vianna, Francisca de Almeida, que sou eu. Fitou-me com um sorriso indescriptivel, e disse: «conheci». E se a visse hoje, conhecel-a-hia?--perguntei eu «Graças á solidez da sua belleza, (disse elle) a viscondessa de Pimentel é ainda a depositaria da insigne formosura de Francisca d'Almeida». Não podia dizer uma amabilidade com tanto e tão delicado espirito, pois não? Ha não sei que de puro parisiense n'isto, _un beau trait d'esprit_ não vulgar em portuguezes, acha?
D. Eugenia
Sim... Este amigo do Rodrigo conheceu-o na America ingleza, e diz que elle é velho, mas muito romantico... _(sorrindo)_.
Viscondessa
Velho?! não, minha snr.ª.. _(Vê-se ao fundo o visconde)_. É homem de quarenta e poucos mais; mas V. Ex.ª ha de vêr um gentleman, um _distingué_, _un homme à bonnes fortunes_ como lá se diz.
SCENA XV
AS MESMAS E O VISCONDE
Visconde _(com mal reprimido azedume)_
A mulher de meu filho não sabe francez, snr.ª viscondessa.
D. Eugenia
Ah! o pae!.. Estava ahi!
Viscondessa
Com effeito! é possivel que eu tenha o tão desejado jubilo de vêr o snr. visconde!? Ha que infinitos annos o não vi! Que doce surpresa!.. mas, ao mesmo tempo, _(com a mão na fronte, pensativa)_ que turbilhão de recordações melancolicas! Vê? não posso vencer a commoção! _(Leva o lenço aos olhos)_ .
Visconde _(sorrindo)_
São os meus cabellos brancos e as rugas profundas que a commovem, minha snr.ª? Ainda bem que V. Ex.ª me não sensibilisa com o espectaculo pungente da decadencia, snr.ª viscondessa.
Viscondessa
Pois creia que padeço infinitamente, visconde. Fóra de Lisboa, recobro forças e energia. Eu disse ao Pimentel: quero sahir d'aqui; estou farta d'isto; Lisboa está estupida; a vida d'esta sociedade é a proza chilra das sociedades gastas, sem feição, toda safada em relevos, um _cancan_, uma palestra de senhoras visinhas; emfim, Lisboa acabou-se... a Lisboa do nosso tempo...
Visconde _(com intenção ironica)_
A Lisboa dos nossos velhos tempos, minha snr.ª...
Viscondessa _(sem attender á interrupção)_
Resolvi sahir instada pelo primo Travaços. Vim, e sinto-me melhor. Acho certa novidade nos costumes, nas maneiras, no _ensemble_ da vida portuense. Logo que cheguei e a prima condessa me apresentou esta snr.ª como espoza de um filho do visconde de Vasconcellos, pedi logo que me dessem occasião de vêr a V. Ex.ª
Visconde
Muito grato ao obsequio...
Viscondessa
Não me pergunta por alguem de Lisboa, visconde? Não quer saber de alguem?
Visconde
Das pessoas que conheci em Lisboa ha 25 annos que me dirá V. Ex.ª? Umas morreram, outras envelheceram. Não me parece aprazivel o passearmos em um cemiterio a lêr epitaphios de pessoas amigas ou conhecidas; nem V. Ex.ª folgaria de encontrar-se com alguns velhos que encaram a morte espantados, e apertam no peito ainda com amor o abutre da saudade.
Viscondessa
Que funebre! que elegiaco!.. V. Ex.ª abafa o seu antigo espirito com o pezo dos crepes! Aqui está o que faz a aldeia. Eu estive algum tempo no campo, onde o visconde se desterrou, sacrificando-me ás experiencias agricolas. Ao fim de oito dias, snr.ª D. Eugenia, as minhas ideias eram pavorosas. Se me demoro outra semana, morria abafada. Snr. visconde, trate de viver, e deixe á morte o cuidado de o apanhar, quando estiver distrahido. V. Ex.ª acha sensato estar-se a gente a vêr morrer todos os dias? Eu não. É uma doidice que não abre as portas de Rilhafoles, nem as da Arrabida, nem as de Cartucha, visto que se acabaram os frades contemplativos; mas, snr. visconde, olhe que um mysantropo da sua especie dá cabo de si proprio, e flagella, os outros com as suas visões.
Visconde _(ironico)_
Eu sentiria atrozmente se incutia a V. Ex.ª ideias funeraes, e usurpava á sociedade feliz as alegrias da sua optima indole, snr.ª viscondessa.
Viscondessa
Vamos... Venha a ironia que me faz lembrar o Heitor de Vasconcellos de ha 24 annos. Ria maliciosamente, que eu antes o quero vêr assim. Minha querida amiga, entrego-lhe o cuidado de restaurar o espirito de seu pae. Diga-lhe as coisas floridas e rejuvenescedoras que a mocidade sabe dizer. Remoce este animo arido, e não o deixe voltar á aldeia. E adeus, visconde. Até amanhã. Conversaremos muito... Ah! é verdade! Ó visconde, olhe se se lembra de ter visto em Lisboa um tal Jorge de Mendanha que lá me conheceu ha vinte e tantos annos...
Visconde
Eu já hoje ouvi aqui fallar d'esse Jorge de Mendanha que estava na America ingleza.
Viscondessa
Está no Porto.
Visconde
No Porto?!
Viscondessa
E vem ámanhã ao baile.
Visconde
Tenho certa curiosidade de o vêr.
Viscondessa
É extraordinario!
Visconde
Que singularidade são as do homem, viscondessa?
Viscondessa
É o _incompris_!.. tem a aureola do mysterioso; o incognito, o romance. _(O visconde solta um frouxo de riso)_ De que se ri, visconde?
Visconde
De mim, por ter a innocente ignorancia de me espantar...
Viscondessa
Espantar-se! de quê?
Visconde
Do enthusiasmo juvenil com que V. Ex.ª pinta o homem, que, se nos conheceu ha 24 annos, deve ter uma velhice rasoavel.
Viscondessa
Ahi vem uma jeremiada sobre a velhice!..
Visconde
E, se elle é maior de 50 annos, e finge o _incompris_, o incognito, o romance, e tem aureola de mysterio, o tal sujeito deve ser ridiculissimo. Não me tente, minha presada snr.ª, que eu sou capaz de vir ao baile para não morrer sem ter visto um homem do nosso tempo com uma aureola de mysterio.
Viscondessa _(dando-lhe com a luneta no hombro)_
Maganão! Cuida que toda a gente lhe ha de _fazer cauda_ na via dolorosa da sepultura!.. Ha muito quem ainda sinta o coração desopprimido sob o pezo da consciencia; deixe rir alguem para que nos não affoguemos em diluvio de lagrimas. _(Com intenção.)_
Visconde _(pensativo e abatido)_
Eu é que não posso rir-me; mas sei que ha corações que não soffrem o pezo das consciencias que nada pezam.
Viscondessa
Adeus, minha querida amiga. Adeus, visconde... Ah! que não me esqueça furtar-lhe duas camelias do seu jardim, que as vi lindissimas quando vinha subindo.
D. Eugenia
Sim, minha snr.ª, vamos colher quantas V. Ex.ª quizer.
Viscondessa
Eu amo infinitamente as camelias. As senhoras do Porto mereceram da providencia dos jardins muito mais amor que as de Lisboa. _Sahem._--_(O visconde senta-se alquebrado)_.
SCENA XV
O VISCONDE E DEPOIS JOÃO
Visconde
_Ha muito quem ainda sinta o coração desopprimido sob o pezo da consciencia_, disse ella. Bem sei, bem sei onde apontavas a frecha... Estas allusões moraes e penetrantes resaltam ás vezes das consciencias mais diluidas. Receio que esta mulher conte a Eugenia o meu passado...
João _(entrando com o «Commercio do Porto»; e, como não vê o visconde, que o espaldar da poltrona encobre, olha em redor)_
Não enxergo ninguem. _(Começa a lêr, e vae sentar-se n'outra poltrona, que tem as costas voltadas para a do visconde)_ Deixa-me vêr se ainda leio por cima. Acho que é inglez, isto. Será? Não me parece. Quem sabe lêr n'estes _coisos_ é cá o meu primo Joaquim que já foi entregador ou redactor ou não sei quê d'uma trapalhada d'estas. _(Lendo no alto da primeira pagina) Po, lí, po, lí tí, ca, in, ter, na. Politega eterna._ Isto acho que é a respeito da religião, ou lá da eternidade do outro mundo. Vamos vêr o que diz dos governos: _(Lendo na quarta pagina) Rolhas e palitos, rua da Ferraria, 46. (Soletrando)_ Não é aqui. Ha-de ser mais abaixo, _(lendo) Linguas de bacalhau, em Cima do Muro._ Linguas de bacalhau! Isto é chalaça aos deputados... _(O visconde tosse. João levanta-se atrapalhado, deixa o jornal sobre a cadeira, e sáe da sala derreando-se para não ser visto. Ao mesmo tempo vem entrando D. Eugenia por outra porta)_.
SCENA XVI
VISCONDE E D. EUGENIA
D. Eugenia _(aproximando-se da cadeira e inclinando-se com meiguice)_
Como está triste! que tem, meu pae?
Visconde _(erguendo-se)_
Grande pezar de já ter sido alguma hora alegre, minha filha.
D. Eugenia
Parece qué a visita da viscondessa o contrariou.
Visconde _(pegando do «Commercio», e lendo mentalmente ao mesmo tempo que conversa)_
O conhecimento d'esta senhora não lhe convem, Eugenia. Estas mulheres, emancipadas da opinião publica aos vinte annos, não costumam ser as mais uteis amigas na velhice.
D. Eugenia
Amiga! Eu apenas a conheço, e não sinto a menor inclinação para ser amiga de tal senhora.
Visconde _(lendo sempre. Declamação vagarosa)_