Chapter 7
Havia tanta verdade nas palavras do visconde; era tão singela a sua dicção, tão arrobadas de sentimento as phrases que acabava de proferir, que Tristão, apezar do seu profundo conhecimento do coração humano, hesitou por alguns instantes, sem poder avaliar se essas palavras seriam calculadas, ou se eram apenas dictadas por um coração votado á caridade.
Tristão era homem de arrojado animo. Por mais de uma vez sorrira para a morte que se lhe approximava sem que os lábios houvessem mudado de côr ou o seu coração pulsado com maior violencia.
Affeito a uma existencia aventurosa, ainda o fascinavam os perigos. A despeito de se considerar bastante avançado em annos, fiava se na sua robustissima compleição, e, sopesando as forças, distinguiu rapidamente o que ainda podia fazer, graças ao seu arrojo, intelligencia e capitaes.
Então desenhou-se lhe um mundo inteiramente novo! Julgou-se cercado pela aureola do prestigio, e ouviu pronunciar o seu nome com todas as pompas de uma gloria merecida. Viu-se a edificar um hospital, e mais tarde, elle mesmo, sua mulher e suas proprias filhas, descendo como anjos á cabeceira dos enfermos. Viu os olhos do monarcha iriados de angelica expressão, volvendo-se agradecidos para elle e para sua familia. Fascinou-o a gloria de um renome, e, elevando se nas azas da caridade, creu subir ao ultimo céu das ledices sociaes!
--Tem razão e muita razão, sr. visconde. Vamos hoje mesmo dar um grande impulso á nossa idéa. Jeronymo, a quem tenciono entregar a direcção das obras, segundo me consta, tem tanto de intelligente quanto de honrado. O pobre homem por estes dois ou tres dias não poderá sair de casa; vamos nós sem mais delongas escolher o sitio. Em que bairro lhe parece?
--No de Santos. Por exemplo lá para as bandas da Pampulha.
--Visto isso, vou mandar pôr o trem, e entretanto subo ao quarto de Jeronymo para lhe communicar as nossas intenções. E sem mais demora saiu do gabinete.
--Esplendido, exclamou o visconde, contemplando ao mesmo tempo um album de retratos que estava sobre uma banca de jogo. O negocio corre ás mil maravilhas. Em todo o caso, é necessario espaçal-o por mais alguns dias, e em vez de dez ou doze contos, serão vinte ou trinta, hypothecando-lhe... hypothecando-lhe o quê? umas propriedades que eu desejava possuir no Algarve. O homem está sequioso de gloria. Cega-o a vaidade. É um zote que eu domino com a força da minha eloquencia. Bastam-me duas palavras para o conduzir aonde me aprouver.
N'este comenos entrou o magnate, dizendo lhe que já estava o trem á porta.
Desceram e entraram na carruagem. Tomando pela rua do Arsenal, dirigiram-se ao Corpo Santo. Proximo á egreja grande multidão contemplava um pobre velho, que, estorcendo-se em terriveis convulsões, denunciava ter sido atacado pela febre. Mandaram parar o trem, e Tristão, apeando-se primeiro, dirigiu-se para o grupo.
O visconde seguia o sem dar uma palavra.
--É um infeliz que foi atacado pela febre, disse um gallego a quem Tristão se havia dirigido.
--E tambem pela fome, interrompeu uma vendedeira de hortaliça.
--E ainda não appareceu ninguem que lhe fosse buscar soccorros? perguntou o visconde.
--Saberá vossa excellencia que ainda não _senhora_, respondeu a vendedeira.
--Pois se vossemecê se interessa por esse homem, peço-lhe que se encarregue de lhe chamar os soccorros, accudiu Tristão, approximando-se mais da mulher e entregando-lhe quatro libras. Se elle tem familia, diga-lhe que me procurem logo no hotel Bragança, e vá vossemecê com ella, para lhe dar tambem alguma coisa.
O oiro assombrou a vendedeira, que esteve por alguns segundos sem poder soltar palavra.
--É uma caridade, meu senhor, porque está cheiosinho de familia, disse finalmente a mulher com voz tremula e commovida. Mas agora outra coisa, meu senhor, ajuntou ella, por quem devo procurar.
--Pelo excellentissimo sr. Tristão de Almeida disse vivamente o visconde.
Mettendo-se outra vez na carruagem, abandonaram aquelle grupo, pasmado por tanta generosidade, e partiram pela rua da Boa Vista.
--A sorte favorece-o, proporcionando-lhe todos os ensejos para pôr em pratica a sua grande obra, dizia-lhe o visconde, fitando-o com um olhar de lynce.
--Assim o creio, respondia-lhe Tristão, olhando para todas as ruas por onde passava, com a curiosidade que todos experimentam, ao contemplarem pela primeira vez os logares que lhe são desconhecidos.
--Agora me recordo, disse o visconde, parece-me que está uma casa para alugar na rua de S. Francisco de Paula. Se lhe parece vamos vel-a.
--Deus permitta que esteja nas condições que precisamos.
Finalmente chegaram á rua designada pelo visconde.
A casa, segundo elle havia pensado, era magnifica para aquelle fim. O dono morava longe, porém a boa vontade tanto de um como de outro principiava a não admittir difficuldades, e seguiram immediatamente para casa do senhorio.
No dia seguinte ás oito horas da manhã, na rua de S. Francisco de Paula, começavam todos os preparativos inherentes á fundação do hospital.
O anjo da caridade, invocado por Tristão de Almeida, elevava as suas azas brancas sobre os telhados d'aquelle edificio!
XVII
--Acompanhas-me, Luiz? Tenho tanto desejo de ir visitar aquella gente... e comtudo não me sinto com valor.
--Ora essa, meu capitão, da melhor vontade! Não sei o que li n'aquelles olhos verdes de Martha; ainda se me não poderam tirar da memoria! Póde ser que me engane, mas essa menina é um anjo! Ha na meiguice do seu olhar um não sei quê, que me prendeu!
--Será isso uma illusão da tua parte?
--Nem por sombras! Se a visse, quando eu prometti a sua mãe que faria com que o senhor lá fosse...
--Então mostrou muitos desejos de me ver? perguntou Manuel com essa visivel curiosidade dos namorados, e como desejando prolongar a conversação de Mascatudo.
--Se mostrou! Ao principio fez-se branca como a cal da parede, e em seguida tornou-se vermelha como uma romã. Havia tanto interesse no seu olhar, quando me falou a respeito do senhor, que logo comprehendi que alguma coisa se passava no seu coração.
--Pois então, meu amigo, o que tem de ser, seja. É Deus que o determina: iremos hoje vel-os. Passava-se este dialogo a bordo da galera Esperança, no mesmo dia e á mesma hora em que o visconde de Coruche expunha a Tristão de Almeida, no gabinete do hotel Bragança, as graves conveniencias que lhe resultariam da sua philanthropica resolução.
Subindo á tolda, Manuel mandou apromptar o escaler e veiu para terra em companhia de Mascatudo.
Dirigiu se ao hotel.
Ao subir a escada que conduzia aos quartos de Jeronymo, sentiu que um mundo novo e inteiramente estranho se desenrolava a seus olhos! Receioso pelo sentimento que lhe perturbava o espirito, o marinheiro quasi pedia á Providencia, que qualquer circumstancia fortuita lhe viesse impedir a realização dos seus desejos!
Batendo mansamente á porta do quarto de Jeronymo, ouviu a voz doce e melancholica de Martha que de dentro lhe respondia. Faltou-lhe o valor; foi necessario que Mascatudo o animasse a entrar. Entraram ambos.
Reclinado sobre uma poltrona, Jeronymo dir-se-ia um cadaver.
A seus pés, assentada n'um tamborete, Balbina olhava-o com gesto de profundo desalento, fitando de vez em quando sua filha que de pé os contemplava!
Martha ficou immovel!
--Venho saber da saude de seu marido, disse Manuel para Balbina, extendendo ao mesmo tempo a mão ao mestre de obras.
Este sorriu-se brandamente para o maritimo, apertando entre as suas aquella mão que se lhe offerecia.
--E como se sente?
--Melhor, felizmente, muito melhor! respondeu Jeronymo, olhando ao mesmo tempo para sua mulher, e indicando-lhe que approximasse uma cadeira.
Manuel, pegando na cadeira que Balbina lhe offerecia, sentou-se ao lado do enfermo.
Mascatudo contentava-se apenas em observar os olhos de Martha, buscando em cada movimento descobrir o que lhe passava n'alma.
Balbina então relatou a Manuel quanto havia succedido, sem lhe omittir os rasgos de generosidade de que era devedora a Tristão e a toda a sua familia.
--E quem é esse homem tão caridoso? perguntou Manuel, como se já n'esse instante se lhe começasse a perturbar o espirito com a idéa de que essa protecção fosse menos devida á caridade do que á formosura de Martha.
--Quem é elle, não lh'o podemos dizer, respondeu Balbina. Sabemos apenas que é um senhor muito rico, e que todo o seu fim é fazer bem á pobreza. Agora vae elle estabelecer um hospital para as pessoas atacadas pela febre, hospital de que meu marido é o encarregado.
--E não só elle, como sua mulher e filhas, se tem interessado o mais possivel por mim, ajuntou Jeronymo.
--Nunca me ha de esquecer aquella noite, menina, tartamudeou Manuel dirigindo-se a Martha.
--Quanto lhe devemos, meu caro senhor, acudiu o operario, olhando ora para Manuel, ora para a mulher e para a filha.
--Como elle se portou com a nossa filha! Não temos modos de agradecer! disse Balbina visivelmente reconhecida.
--É merecedora de tudo! Nada tem que me agradecer, respondeu Manuel olhando ao mesmo tempo para a interessante Martha.
Quando a filha do operario, mais familiarizada com a presença do maritimo, se preparava para lhe dirigir a palavra, soaram uns passos no corredor e abriu-se em seguida a porta do quarto.
Eram Tristão e o visconde.
--Venho prevenil-os de que já temos casa para o hospital, e que ámanhã por estas horas--graças á actividade do sr. visconde--já devem começar os trabalhos, disse Tristão de Almeida, reparando ao mesmo tempo em Manuel de Mendonça e Mascatudo.
Estes ultimos olhavam para os recemchegados, sem poderem occultar que as suas presenças se lhes não tinham tornado muito sympathicas.
--Estes senhores pertencem á sua familia? perguntou o visconde dirigindo-se a Martha.
--Não, senhor, respondeu Martha. E indicando Manuel de Mendonça, accrescentou: este senhor foi quem me encontrou na rua, e que mais tarde descobriu aonde estava meu pae.
--Ah! foi este senhor! acudiu Tristão. Quanto folgo em ter o gosto de o conhecer. Se me não engano, n'aquella mesma noite tive o prazer de o encontrar; porém, quando ia para lhe extender a mão, já vossa senhoria tinha saido d'este quarto, ajuntou Tristão dirigindo-se a Manuel de Mendonça e extendendo-lhe brandamente a mão.
Se n'aquella noite do atropellamento os olhos de Manuel de Mendonça se haviam cravado particularmente no rosto de Tristão, mais cuidadosamente o fixaram n'aquelle momento.
O mesmo se passou com o magnate. Dir-se-ia que esses dois homens já se haviam encontrado alguma vez na vida! Onde? Sabia-o Deus, que n'esse instante os não illucidava!
O physionomista que de perto observasse o rosto de Manuel, ter-lhe-ia notado um estremecimento de repulsão no momento em que, extendendo a mão, a sentiu em contacto com a de Tristão de Almeida.
A Mascatudo não lhe passou desapercebido.
--Queira Deus, pensava elle comsigo, que o sr. Manuel de Mendonça não comece já a imaginar que lhe querem estorvar a pesca. Se elle vê que lhe lançam a fisga, põe-se de ventas á enchente e vae tudo com trezentos mil diabos. Elle é bom, isso lá é que não ha duvida, mas, se lhe pegam fogo ao paiol da polvora, vae tudo pelos ares em mil estilhaços.
Tristão e o visconde trocaram ainda algumas palavras entre si, e depois de alguns momentos de silencio, despediram-se de Jeronymo e de sua familia, e sairam do quarto cumprimentando affavelmente Manuel de Mendonça.
--Conhece aquelle senhor? perguntou Martha a Manuel de Mendonça, referindo-se a Tristão de Almeida.
--Não conheço, respondeu o maritimo, comtudo, parece-me já ter visto aquelle individuo, aonde não me recordo.
--O mesmo me pareceu a mim, acudiu Mascatudo. E a elle, se me não engano, tambem o senhor não lhe era estranho.
--O que elle me parece é um santo homem, disse Balbina, que não via em Tristão mais do que o protector de seu marido.
--Assim o julgo, respondeu Manuel, levantando-se e despedindo-se de Jeronymo.
--Já se retira? perguntou Martha, lendo-se-lhe nos olhos o que principiava a sentir no coração.
--Tenho de ir para bordo, respondeu Manuel despedindo-se de Martha, e promettendo-lhe voltar no dia seguinte.
* * * * *
--Então o que me diz, meu capitão? perguntava Mascatudo ao sairem o pateo do hotel.
--Que gosto muito d'ella, respondeu Manuel de Mendonça olhando para as paredes do edificio como se buscasse a janella do quarto onde havia ficado a familia do operario.
XVIII
São dez horas da manhã. Deitado no seu leito de precioso ebano, e fazendo mil conjecturas ácerca de Tristão, a quem na vespera havia convidado para almoçar, o visconde de Coruche, como homem experimentado, palpa, estuda e analysa o terreno por onde tem de caminhar.
Tudo estava prevenido para o almoço. Uma grande parte da baixella, que dias antes tinha sido substituida no _prégo_ por outros objectos cuja ausencia se não fazia notar, já estava sobre os aparadores. Entre os riquissimos trabalhos de prata destacava-se um pelo seu grande valor e merito artistico.
Era um centro de mesa. Representava as tres graças sustentando uma enorme concha.
Era esta, por assim dizer, a ultima reliquia que lhe restava do seu para sempre chorado tio!
«Fiz mal, pensava elle, em não ter convidado o commendador e Vaz Mendes, para almoçarem commigo. Podem prever n'isto alguma insidia e intrigarem-me com o meu Cresus! É mais prudente escrever-lhes. E sem mais delonga, levantou-se e desceu ao escriptorio, formoso aposento ao rez do jardim, esplendida e custosamente mobilado.
«E pensar que tudo isto é sol de pouca dura! accrescentava elle olhando para as estufas do jardim. Não terei valor para cair com a minha ruina? Hei de ver de pé firme e olhar sereno, sair d'esta casa para o poder dos agiotas, até á ultima, todas estas reliquias? Deus não póde permittir que um homem que tem vivido e gozado como eu, se encontre um dia a braços com a miseria! É forçoso tomar uma deliberação. Tenho ainda uns seis mezes para viver, é pouco; prolongue-se a existencia, custe o que custar. Homicidio é um crime, e deixar-me escorregar na pendente do meu infortunio é um suicidio. Não quero ser criminoso.
«Arvores a cuja sombra me abriguei na minha infancia, nem vós já me pertenceis! continuava elle olhando para o vetusto arvoredo do jardim.
«Tectos que vistes expirar meus paes, que impia mão de atroz capitalista te manchará o culto? Aqui nasceu meu avô, aqui morreram todos os que tiveram melhor senso do que este desgraçado! «Soberbo choupo para me enforcar com o cordão do meu chambre», dizia elle como se quizesse zombar de si mesmo e contemplando ao mesmo tempo a arvore, que parecia convidal-o ao passo mais acertado que podia dar em toda a sua vida.
Abandonando estes lugubres pensamentos, o visconde sentou-se á carteira, e escreveu duas cartas, uma ao commendador, e outra a Vaz Mendes. Pedia em ambas a honra de virem almoçar em sua companhia.
Tocou a campainha e entregando as cartas a um criado para que as levasse sem demora ao seu destino, o visconde deu ainda algumas voltas pelo jardim e dirigiu-se á casa de banho.
Ao meio-dia em ponto entraram Vaz Mendes e o commendador Lopes de Miranda.
--Quanto folgo me não tivessem faltado, disse-lhes o visconde conduzindo-os para a sala de visitas. Tristão, acrescentou elle, vem hoje almoçar commigo, era forçoso pedir que mais alguem lhe tornasse menos pezado o sacrificio. Vamos discutir largamente sobre o hospital. Sabem que já temos a casa arrendada?
--Sabemos, responderam ambos.
--Um magnifico palacio á Pampulha.
--O local não podia ser mais bem escolhido, disse o commendador reclinando-se n'uma poltrona. E quando principiam os arranjos? perguntou Vaz Mendes.
--Hoje mesmo; para esse fim os mandei chamar. Vamos comprar tudo o que fôr necessario para que principie a funccionar de hoje a oito dias.
--Realmente é um homem de muita caridade este Tristão, interrompeu Vaz Mendes, olhando para uma soberba aguarella de Howell.
--Basta o que elle tem feito pelo mestre de obras, ajuntou Lopes de Miranda.
--E quem seria capaz, já não digo de mais, mas de tanto? acudiu o visconde. Isto é que é a verdadeira caridade, sem alarde nem ostentação.
--Tambem, disse Vaz Mendes, quem tem uma fortuna superior a dois mil contos, o que deve fazer senão dividil-a com a pobreza?
--E quantas pessoas conhece o meu amigo, que não são capazes de gastar um ceitil com os pobres? perguntou o visconde.
--Concordo, respondeu o banqueiro, olhando de soslaio para um Salvator Rosa, unica pintura que restava da galeria do conde de ***.
Ao ouvir-se o rodar de um trem, o visconde approximou-se da janella para se certificar se era a carruagem de Tristão que chegava.
Não se enganára.
Deixando os dois convidados, desceu ao pateo para o receber.
Quando entraram na sala foi uma agradavel surpreza para Tristão de Almeida o encontro dos seus dois amigos.
Á hora designada dirigiram-se todos para a sala de jantar, onde um variado e bem servido almoço os esperava.
Ao contemplarem a magnificencia da baixella, Vaz Mendes e o commendador entreolhavam-se, assombrados por tanta riqueza.
Tristão olhava para tudo com um gesto de profunda indifferença! Um objecto apenas se tornou o alvo da sua attenção: foi o centro de prata, de que já falamos ao leitor.
Havia muito que elle desejava occultar a sua admiração; por ultimo não se conteve.
--É de suppôr que saiba o que alli tem, disse Tristão voltando-se para o visconde, e apontando ao mesmo tempo para as tres graças.
--Sei. É magnifico! Atribuem-n'o ao cinzel não sei de que artista notavel, cujo nome me não lembra, respondeu o visconde.
--Vale um bom par de contos de réis, replicou Tristão dirigindo-se a Vaz Mendes.
«Forte asno, murmurou o banqueiro para comsigo.
«Está doido! pensou o commendador.
«Achei! disse o visconde falando com o seu coração.
«Fortes nescios! reflectiu Tristão, que pelos differentes jogos das suas physionomias, lhe adivinhára os pensamentos.»
Ás quatro horas da tarde sairam todos tres, tendo previamente combinado com o visconde, para que os esperasse no hotel das seis para as sete horas da noite.
«Estou salvo! dizia o visconde, á proporção que os via desapparecer. Por qualquer dos dois meios venço. Desfazendo me das tres graças, que já para mim não tem graça, posso vender-lh'as talvez por dez ou doze contos. Mas espera, accrescentou elle como se uma idéa lhe acudisse subitamente, é mais decente, mais elegante mesmo: presenteal-o com esse objecto. Ninguem chegou a mais de mil libras, e, para isso, foi necessario que encontrasse um inglez que as julgava Benevenuto! Mas quando viu que o não era, creio que me não daria nem mais dez libras do que o seu pezo. Se elle o attribue a cinzel, bem estamos; deve pelo menos avalial-o em vinte contos, portanto, em vinte contos avaliará o presente. Não ficarei habilitado a pedir-lhe vinte e cinco ou trinta? Ao centro, visconde, e chegarás ao teu fim! E, sem mais reflectir, chamou o _groom_ e mandou embrulhar as tres graças em finissima toalha de Flandres, ordenando-lhe que as collocasse dentro do _coupé_.
Ao cair da tarde, acompanhadas pelo visconde, as tres filhas de Eurynome abandonavam a casa do fidalgo para entrarem de graça em casa de Tristão, que bem caro teria de pagar aquella graça.
XIX
O hospital da rua de S. Francisco de Paula, em virtude dos esforços do visconde de Coruche e da inexgotavel bolsa de Tristão, estava prompto de tudo. Sem lisonja, podia chamar-se-lhe um hospital modelo! A boa ordem reunida ao aceio e todas as outras condições hygienicas, tornavam aquella instituição a melhor do seu genero.
Em Lisboa, Tristão d'Almeida era o assumpto de todas as conversações. Todos falavam na sua caridade; todos se assombravam das sommas fabulosas que dispendia.
Além do custeamento do hospital, Tristão collocára cincoenta contos de réis em metal sonante na burra do seu escriptorio, para serem applicados ás familias dos doentes que por ventura alli morressem, deixando por unico legado a fome e a saudade.
Além d'estas circumstancias, uma outra havia mais transcendente: era a maneira por que a sua familia se dispunha para receber e tractar os enfermos.
D. Maria Egypciaca e suas duas filhas, todas tres com a mesma equipendencia de valor, eram as encarregadas das enfermarias das mulheres.
Tristão e o commendador tomaram entregue das do sexo masculino.
Oito pessoas entraram no dia da abertura. Por mais perigoso que fosse o estado de qualquer d'esses individuos, não houve um só que deixasse de sentir á cabeceira do leito a voz doce e animadora da mulher de Tristão de Almeida, e de suas duas filhas, sobre tudo de Magdalena.
As principaes familias de Lisboa quasi todas desejavam relacionar-se com aquelles quatro anjos do bem que vinham de longes terras para descançar o seu vôo sobre a cidade agonizante!
Ao encontrar se completamente restabelecido dos ferimentos, Jeronymo partira para o hospital afim de se encarregar da sua direcção.
Ás vêzes, na janella do terceiro andar que olhava para o Tejo, via-se uma criança loura e formosa como os anjos: era Martha. Entristecida, ora parecia buscar n'aquelles horizontes algum objecto que lhe prendia a imaginação, ora descia aos salões do hospital, como se procurasse na morte a branda paz que a sua alma havia perdido sobre a terra!
Avaliando a immensa distancia que a separava de Manuel de Mendonça, Martha havia depositado no mais intimo do coração todos os martyrios que a suffocavam! Vira-o pela ultima vez no dia em que seu pae saira do hotel.
Manuel dissera-lhe que d'alli a poucos dias iria visitar sua mãe, isto a meia voz, sem que Balbina o notasse.
Foi n'esse momento que ella começou a comprehender que lhe não era totalmente indifferente. Mas, d'isto tudo o que poderia resultar? Quem era Martha, para ser amada por um homem como Manuel de Mendonça, um commandante de navios, emquanto ella não era mais do que a filha de um operario!
N'esses momentos subiam-lhe á mente mil idéas que a torturavam. Era um tumultuar de receios que nem a sua intelligencia tinha forças para comprehender, nem o seu coração para os supportar.
Assim foram passando muitos dias, e Manuel sem cumprir a sua promessa.
Tel-a-ia esquecido?
Impossivel! Aquelles olhos não lhe haviam mentido! As ultimas palavras que proferira, revelavam bem todo o interesse que ella lhe tinha inspirado. Teria adoecido com a febre? Morrido? Não! Morrer tão novo, tão anciosamente adorado! Deus não consentiria que elle deixasse este mundo sem que Martha lhe houvesse assistido ao derradeiro sopro d'aquella vida, que era todo o seu querer, todo o seu pensar, toda a sua existencia! Manuel vivia, mas havia a esquecido por outra. Magdalena contemplára-o com interesse, n'uma tarde em que se encontraram na varanda do hotel! Ainda que Manuel não lhe respondeu ao seu olhar, podia tudo isso ter sido um calculo.
«Quem sabe se eu fui um instrumento da sua vontade, fazendo-me suppôr que era a mim e só a mim a quem elle amava, emquanto o seu coração estava inclinado para a filha de Tristão? pensava Martha. Mas sendo assim, tudo poderei descobrir; e se fôr, buscarei a morte como ultimo recurso á minha desgraça.»
Immersa n'estas terriveis conjecturas, Martha desceu ás salas do hospital.
Já haviam entrado D. Maria Egypciaca e suas filhas.
Notando a profunda pallidez da filha de Jeronymo, as fidalgas, segundo Martha lhe chamava, começaram a receiar pela sua saude.
Magdalena foi a primeira a approximar-se-lhe, e beijando a meigamente na fronte, pediu lhe por tudo quanto havia que não arriscasse tanto a sua saude, perdendo as noites ao lado dos doentes.
Durante todo esse dia, aonde mais intensos reinavam o perigo e a afflicção, alli se encontrava Martha!