Chapter 6
--Fizeste muito mal, respondeu o visconde mergulhando uma pequena escova de dentes n'um liquido pardacento, e levando-a repetidas vezes ao bigode. Já te disse que nunca se mandam receber contas senão no fim dos mezes.
--Pois foi exactamente por esse motivo que o mandei cá vir ámanhã, que é o ultimo de outubro.
--Já te disse ha pouco que o meu fim do mez é sempre o de novembro, respondeu o visconde encolerizado, passando a escova por sobre o labio inferior, e deixando o côr de chocolate.
--O mesmo disse eu ao sr. Alves, quando a semana passada o procurou por causa d'aquella letra de 600$000 réis que se vence no primeiro de novembro.
--E elle insiste em não querer a reforma?
--Creio que insiste. O alquilé a quem vossa excellencia comprou as eguas baias, foi dizer-lhe que o sr. visconde promettia pagar-lhe tudo no primeiro de novembro.
--Veremos o que se ha de fazer, disse o visconde, esfregando com uma essencia a nodoa côr de castanha que lhe descompunha a phisionomia. Dá-me d'alli umas ceroulas de seda. É preciso que vás logo ao Baron que me mande uma duzia de camisolas.
--Cumprirei com as ordens de vossa excellencia, respondeu o criado, abrindo a gaveta d'uma commoda, e tirando um par de ceroulas de malha de seda.
--Se alguem me procurar ás tres horas da tarde, dize lhe que não volte antes do primeiro de novembro, caso não queira perder o tempo, disse o visconde, atirando para longe com umas lindas chinellas de velludo bordadas a oiro, e vestindo ao mesmo tempo as ceroulas.
--Vossa excellencia sae a cavallo ou de trem?
--O dia está tão bonito que me parece melhor saír a cavallo. Sim, continuou elle, depois de reflectir alguns segundos, dize ao Marçal que me apparelhe a egua lazã. É necessario montal-a; ha perto de oito dias que não sáe.
Depois de collocar sobre uma ottomana o fato do visconde, o criado abriu a porta do toucador, e saíndo foi transmittir as ordens que seu patrão lhe dera.
--Sim senhores! a coisa não vae feia, dizia o visconde de si para comsigo. Se não levanto o dinheiro do deposito estou arruinado. O credito escassea-me, os credores, longe de me sustentarem a posição que seria o unico recurso para se embolsarem do que lhes devo, começam a negar-se e até me atormentam. Fazem bem, o futuro lhes dará o pago e tambem Deus, que de vez em quando ainda se recorda de mim.
«Não encontro meio algum de salvação! Se apeio os trens, se revelo, ainda que por sombras, o estado da minha casa, não tarda a ruina, seguindo-se a poucos passos a miseria, com toda a sua hediondez que me assusta.
«Devo a todos, e aos que me devem não me atrevo a pedir-lhes contas; não, seria uma loucura para a situação em que me encontro. Exigindo-lhes essas miseraveis quantias, seria mostrar-lhes que as necessito, e eu não tenho mais remedio senão representar que estou rico. Quanto custa esta falsa posição! Á custa de quantas insomnias se adquire um nome que não dá honra no presente nem tão pouco no futuro! Que luctas inglorias! Quem me dera ter nascido filho de um lavrador, e gosar em branda paz os encantos d'uma vida tranquilla. E os homens julgam me feliz! quantos dariam metade dos seus haveres para terem o meu nome! Pobres nescios! Vêem os meus trens, os meus cavallos, os meus vestuarios, e mal pensam as horas que todo esse fausto me rouba ao somno.
«Vi a meus pés as primeiras mulheres de Lisboa, por mais de uma vez, com as faces incendiadas pela colera do ciume, vi os maridos a contemplarem-me, e eu mudo, indifferente, com o sorriso nos labios, desprezando-as a ellas, e escarnecendo d'elles.
«Quanto dera agora por ter amado uma unica vez, e ter consagrado a esse objecto do meu amor toda a exuberancia da minha vida, todo o ardor das minhas paixões.
«Rico, saudavel, com uma intelligencia clara e algum tanto cultivada, porque não creei a melhor de todas as instituições: a familia?
«Que futuro me espera? Poderei eu sustentar por muitos annos esta vida, sem dinheiro, alicerce indispensavel d'este edificio? Se ámanhã, completamente desanimados os meus credores, comprehenderem a nenhuma vantagem de me conservarem n'esta situação, que poderei fazer? Sair de Lisboa? e para onde?
«Que sei eu fazer? Montar a cavallo ou guiar bem um tilbury. É isto o sufficiente? E demais, affeito a este luxo que me rodeia, teria eu bastante valor para lançar mão de qualquer modo de vida, que não estivesse em harmonia com o que hoje tenho?
«Se eu podesse encontrar um homem que me emprestasse dez a doze contos de réis, talvez ainda conseguisse levantar-me. Por isso me liguei com o commendador e com o banqueiro, a fim de explorarmos o Tristão, mas ou eu me engano muito ou d'aquella moita não sae coelho.
«Aquillo é homem para duzentas ou trezentas libras, que nada me podem remedeiar. Se eu me convencesse do contrario, ajuntava o visconde abotoando o collete, cujos magnificos botões de coral contrastavam com a pallidez morbida do seu aristocratico semblante, se aquelle Tristão de Almeida fosse homem para emprestar uma duzia de contos de réis, separava-me totalmente dos meus companheiros e recorria á sua bolsa. E quem sabe? Quem me diz que a minha salvação se aninha na sua algibeira!
«Quem sabe, continuava elle, mirando-se ao espelho, se as suas idéas ácerca do hospital tem no amago o conseguir um titulo. Se assim fosse estava salvo. Tenho alguns amigos no ministerio, homens que até já dispozeram da minha bolsa, póde ser que elles me sirvam para isto. Se fosse dinheiro tinha eu a certeza que m'o negariam, porém um titulo...
«Experimentemos, e se são esses os seus desejos, ficarei salvo. E se não forem? Embora, convencel o hei de que um homem na sua posição necessita um titulo, e que para o alcançar basta ter dinheiro».
Quando no meio d'estas judiciosas reflexões se preparava o visconde de Coruche para, afastando-se de Lopes de Miranda e do banqueiro, se lançar aos fundos de Tristão de Almeida, entrou de novo o seu _groom_ annunciando lhe o commendador.
--Que teremos? disse o visconde comsigo mesmo, pondo ao mesmo tempo as esporas.
--Disse lhe que vossa excellencia se estava vestindo, porém, foi tal a sua insistencia que não tive remedio senão fazel-o entrar para a sala.
--Dize-lhe que vou immediatamente. Espera! accrescentou elle como mudando de pensamento. Entre rapazes não ha cerimonias. Que venha para aqui mesmo.
O _groom_ retirou-se, e acompanhou d'alli a minutos o commendador.
--Deve estranhar o tel o procurado tão cedo, exclamou o commendador, dando-se ares de janota, palavra que n'esse tempo principiava a estar em voga.
--Por caso nenhum! Estou sempre ás suas ordens.
--Podemos conversar á vontade?
--Pois não, respondeu o visconde, visivelmente importunado pela presença do commendador, que viera interrompel-o nas suas profundas meditações.
Ou por esquecimento, ou por pouca importancia concedida áquella entrevista, o visconde não havia mandado retirar o _groom_.
Lopes de Miranda não tardou em fazer-lh'o notar.
Córando ligeiramente, o visconde comprehendeu aquelle reparo e mandando retirar o criado, assentou-se n'um sophá, offerecendo um logar ao commendador.
--Preciso fazer lhe uma pergunta. Que idéa fórma de Tristão de Almeida?
--A melhor que se póde formar; que é uma excellente alma, e desambicioso de todas as grandezas do mundo.
--Fala serio?
--Quanto se póde falar.
--Julga portanto?...
--O quê?
--Que o seu projecto a respeito do hospital seja movido, pura e simplesmente, pela idéa de pôr em pratica uma obra de caridade?
--Assim o creio.
--Outro tanto não penso eu, meu nobre amigo. Ha em tudo aquillo um _arrière pensée_, ajuntou Lopes de Miranda, querendo mostrar ao visconde os seus conhecimentos linguisticos. O homem deseja um titulo.
Feliz em que o seu pensamento se tivesse encontrado com o do commendador, o visconde, como homem experimentado, calculou que o unico partido de que podia lançar mão, seria o dissuadil-o completamente das suas suspeitas.
--Crê portanto o commendador que essa caridade que antes de hontem viu dispensar ao mestre de obras, era movida apenas por um calculo? Quanto se illude! Seria necessario ter avaliado todas as circumstancias que se deram, para formar o seu juizo. O mesmo suppunha eu, mas logo vi o contrario. Ha factos que se não podem fingir, sr. Lopes de Miranda. Seria necessario que Tristão fosse um grande actor, para tão desassombradamente poder jogar com todas as paixões, como fez antes de hontem quando atropellámos esse infeliz. Seria tambem um calculo o interesse com que sua esposa se approximou do leito do moribundo, e calculo foi tambem de suas filhas, quando com as lagrimas nos olhos pediram ao medico informações do doente? Não me considero de uma credulidade parva, sr. commendador, mas a Cezar o que é de Cezar. Se Tristão, tem ou não desejo de entrar na sociedade precedido por um titulo, não me atrevo a dizel-o, o que lhe affianço, é que, se realmente tem esse desejo, não é elle o movel da sua caridade. Homens tem havido muito caridosos que desejam possuir um titulo, e Tristão póde muito bem ser um d'esses individuos.
--Pois eu é que não sou da sua opinião, e venho propôr-lhe o seguinte: Como sabe, tenho tido ha dois annos a esta parte consideraveis perdas em resultado da escassez do vinho, e o sr. visconde, creio que tambem n'esta occasião não abunda em dinheiro. Lembrava me por isso que propozessemos a Tristão, mediante um emprestimo de doze a quatorze contos de réis, o obter-lhe um titulo de visconde, ou mesmo de conde. Que lhe parece?
--Em primeiro logar, sr. commendador, nem vossa excellencia nem pessoa alguma está auctorizada a saber se eu abundo ou não em dinheiro, e em segundo devo dizer-lhe que estranho sobremaneira que se atreva a propôr-me similhante indignidade! Creio que nunca, nem ao sr., nem a outra pessoa extendi a minha mão para pedir dinheiro, por maior ou menor que fosse a quantia; estou portanto habilitado a pedir-lhe o favor de mudar de assumpto.
Comprehendendo a loucura que tinha practicado, o commendador mudou immediatamente de conversação.
Pretextando em seguida varios negocios que tinha de tractar, Lopes de Miranda despediu-se do visconde, seguindo d'alli para casa de Vaz Mendes, esperançado de encontrar melhor acolhimento no banqueiro.
Dez minutos depois, perfumado, burnido e penteado, o visconde de Coruche n'um irreprehensivel _pied fé_ fazia em branda flexão voltar o pescoço á _Andorinha_, a egua lazã que mandara apparelhar.
Saindo do pateo em duas upas obrigadas, a _Andorinha_ levou o visconde, que formulando o seu plano, se dirigia ao hotel Bragança.
XIV
Quando Manuel de Mendonça e Mascatudo sairam do hotel d'Europa, encaminharam-se para bordo, como o leitor deve estar lembrado.
A galera que fôra em Buenos-Ayres comprada por Manuel de Mendonça, era uma formosa barca de duzentas a trezentas toneladas.
Era muito de vêr-se o aceio e a disciplina que reinavam a bordo da galera Esperança, habilmente commandada por Manuel de Mendonça, cujos conhecimentos nauticos fariam inveja ao mais experimentado maritimo.
Com sobejos motivos chamava elle aos seus tripulantes os seus amigos e companheiros! A amizade e a confiança com que os tractava jámais concorreu para que lhe dessem o minimo desgosto de indisciplina.
Durante a folga todos o tractavam como se elle fôra um amigo, no serviço todos o respeitavam como o seu commandante. Quando por qualquer circumstancia se agitava a mais pequena questão entre os marinheiros, e elle apparecia perguntando-lhes a causa, era bello de vêr como esses homens endurecidos pelas luctas dos elementos, se enterneciam ao ouvir as palavras do seu capitão chamando-os á ordem, e expondo-lhes em phrases insinuantes as terriveis consequencias da má camaradagem.
Então, aquelles que momentos antes se haviam levantado exaltados pela colera, graças á eloquencia de Manuel, acabavam sempre por se abraçarem.
A galera fundeada a pouca distancia da Rocha do conde de Obidos, parecia na sua eterna inquietação aguardar o que era dono e commandante.
Quando um velho marinheiro divisou o escaler do capitão, e este sentado á prôa, o maritimo debruçou-se do navio como criada velha que espera á janella a criança que volve ao lar.
Então começaram a apparecer os outros marinheiros, esperando anciosamente que o escaler abordasse á embarcação.
E a galera agitando-se aos movimentos da corrente, parecia tambem esperal-o inquieta.
Finalmente, o escaler atracou, e Manuel subindo por uma pequena escada de corda entrou a bordo seguido por Mascatudo.
Quem de perto observasse o tractamento que elle dava aos marinheiros, e ignorasse o logar que occupava, tel-o-ia tomado por um simples navegante.
Depois de falar a todos aquelles homens, desceu á camara, e alli, em companhia de Mascatudo, continuou a conversação que uma hora antes havia começado no hotel Europe.
--Estamos aqui mais sós para podermos falar, dizia elle ao marinheiro. Ninguem poderá ouvir as nossas palavras a não ser o mar, e Deus que nos escuta.
--O mesmo me acontece, respondia-lhe Mascatudo. Não sei o que sinto quando passo uma noite encarcerado entre as quatro paredes de uma hospedaria! Acordar pela noite velha sem ouvir o rumor da agua batendo de encontro á quilha da embarcação, e sem ver o lume de alguma estrella reflectindo-se de vez em quando como se estivesse a acompanhar o meu dormir, parece que é acordar n'um tumulo.
--Quero pedir-te um favor, disse Manuel de Mendonça, depois de alguns instantes de profunda meditação. Como já t'o disse, sei apenas que ficaram no hotel de Bragança. Desejava saber quanto se tem passado, mas falta-me o valor para ir eu mesmo proceder a indagações. Terias duvida em ir procurar essa familia da minha parte?
--Eu! exclamou o marinheiro. E porque motivo? Foi alguma acção má a que o sr. praticou? Ora essa! É para já. Não tem mais do que dizer-me o sitio onde tenho de me dirigir.
--Aonde te disse, ao hotel de Bragança. Se ainda lá estiverem, pede ao guarda portão que te conduza ao quarto. Pergunta por sua mulher ou por Martha, e dize a qualquer das duas que vaes da minha parte saber da saude de Jeronymo.
--É só isso o que deseja saber? Veja lá; lembre-se bem, ajuntou Mascatudo, sorrindo-se para o seu commandante.
--É só isto.
--E o sr. fica á minha espera, aonde?
--A bordo.
--Volto portanto aqui?
--Já se vê.
--Quer que vá já?
--Quero.
--Era melhor ter-me dito isso lá em terra, ponderou judiciosamente o marinheiro.
--Quiz antes pedir-te isso sobre as aguas do mar.
--Pois então, sr. Manuel de Mendonça, como bom maritimo que sou, irei sondar esses mares desconhecidos, e tenho fé em Deus, que em poucos dias poderemos navegar de vento em pôpa, sem que o mais leve indicio de temporal nos faça perder o rumo. O que eu não quero é vel-o assim entristecido, accrescentou o fiel marinheiro, fixando a vista na melancolica physionomia do seu commandante.
--Pensas talvez que me sinto prezo a essa mulher? perguntou Manuel com aquella pueril ingenuidade de que se revestem os espiritos sujeitos ás mysteriosas influencias do amor!
--Não sei, respondeu Mascatudo, mas apostava que sim. Ás vezes, tudo está no começar. O maior temporal principia a levantar-se por uma brisa serena.
--Espero em Deus que essa aragem que tu adivinhas, nunca seja nuncia de nenhuma tormenta.
--Que Santa Barbara e a Senhora da Bonança nos protejam, commandante, disse Mascatudo, levantando-se e preparando-se para cumprir as ordens do seu capitão.
--Amen, respondeu Manuel, reclinando a fronte na mão direita.
Mascatudo, sem esperar mais observações, saiu da camara, e, subindo ao convez mandou preparar o escaler. Manuel olhava-o em silencio.
--Será este o anjo que Deus me mandou á terra, para me acompanhar nas longas noites da minha solidão? pensava elle espraiando os seus olhares entristecidos na direcção do soberbo edificio do hotel Bragança.
XV
Desembarcando no Terreiro do Paço, Mascatudo tomou o rumo do hotel. Desde que saira de bordo, o dedicado amigo em mais alguma coisa havia pensado senão em Martha.
O seu caracter concentrado e ao mesmo tempo sensivel, levava o a acreditar na impossibilidade de ventura na terra, e, muito menos sobre as aguas do mar, sem se possuir um coração fiel e dedicado, qual a sua imaginação o phantasiava.
A mulher, essa divina creação que Deus lançou ao mundo para inseparavel companheira do homem, que deante de nossos sorrisos levanta o rosto brilhante de felicidade, e que desmaia a fronte pallida e inquieta, ao enxugar-nos as lagrimas de desventura, concebia-a Mascatudo no seu coração selvatico com toda a força de um vigoroso sentimento.
É que a esse espirito, agitado pelas luctas infrenes dos elementos, descêra um dia o anjo do amor, e pousando-lhe as brancas azas na fronte crestada pelos soes, imprimira-lhe o osculo indelevel do soffrimento.
Amára uma vez na vida! Amára com toda a força da sua alma, alma joven e inexperiente, para quem o mundo era um jardim florido, e cada pomo um goso, e cada goso uma esperança, e cada esperança uma existencia de immorredouras felicidades!
É que a sós entre o mar e o céu, o grito raivoso das paixões humanas, ferindo-lhe os ouvidos, jámais lhe havia interrompido os extasis, quando assentado ao leme da embarcação contemplava os astros que se reflectiam nas aguas prateadas do oceano, vagas como o seu pensamento, indecifraveis como as suas aspirações!
Conhecia apenas a ira do mar, mas a colera do homem envenenado pela inveja ou pela traição, jámais a havia sonhado o seu instincto.
Por isso vira na mulher o anjo, na sua convivencia a felicidade unica e possivel.
Amou!
E quão grande teria sido o affecto n'aquella grande alma?!
Possuia algum dinheiro das suas economias, julgou-se em circumstancias de casar.
Dois mezes depois, Mascatudo realizava no casamento todas as suas aspirações. Curta, porém, foi a sua ventura. A brisa da morte, agitando-se mysteriosamente sobre o tecto do seu ninho, devastou-lhe ao cabo de um anno flôres e fructo!
O triste voltou á vida do mar; e quando por noites caladas o seu barco sulcava as aguas do oceano, via-se ás vezes o tio Luiz encostado á amurada da embarcação, contemplando o firmamento, como que perguntando a cada nuvem em que paragem se occultava aquella metade da sua alma.
Desde então, Mascatudo viveu apenas para duas sepulturas: a da esposa e a da mãe!
--Hei de saber tudo, dizia elle, ao chegar á porta do hotel. Se fôr como a pintam, serei o primeiro a aconselhal-o a que não perca esta occasião.
Cumprindo á risca as instrucções que recebera, Mascatudo foi conduzido pelo guarda portão ao quarto de Jeronymo.
Balbina já estava de volta de sua casa, aonde tinha ido mais com o intuito de tranquillisar a pobre Marianna do que para tractar dos arranjos domesticos.
--Venho aqui da parte do meu commandante, para saber como está o sr. Jeronymo, disse Mascatudo, olhando desassombradamente para o operario e para a mulher e filha.
O enfermo, que nada comprehendêra, ficou como abysmado olhando para Balbina.
--Creio que me não expliquei bem, ajuntou o marinheiro; venho da parte do individuo que avisou a sua familia do sitio onde vossemecê estava.
--Ah! já sei; vem da parte d'esse sujeito a quem somos tão obrigados, exclamou Martha, fazendo-se vermelha como o estofo do sophá onde estava assentada.
--Até que perceberam, continuou Mascatudo, approximando-se do leito de Jeronymo. Foi esse mesmo o que me mandou saber da sua saude.
--Quanto lhe estamos agradecidos, interrompeu Balbina, dirigindo-se ao marinheiro. Se não tivesse sido aquelle excellente senhor, talvez que ainda a estas horas estivessemos sem saber onde elle parava. Diga-lhe que graças a Deus, o Jeronymo está muito melhor, e que tanto elle como eu e minha filha desejamos saber onde o podemos encontrar para lhe darmos os nossos agradecimentos.
--O sr. Manuel, respondeu o marinheiro, póde encontrar-se a bordo da sua galera, e quando alli não estiver, accrescentou, fixando ardentemente os olhos em Martha, que parecia escutal-o com interesse, está no hotel d'Europe, na rua Nova do Carmo. Mas lá por isso não seja a duvida; deixem estar, uma vez que elle se interessa tanto pelos seus, eu farei com que ámanhã ou depois, se por acaso ainda estiverem n'esta estalagem, elle os venha ver a vossemecês.
--Quanto estimaria conhecel-o, interrompeu Jeronymo voltando-se para o maritimo.
Martha empallideceu ligeiramente.
--N'esse caso eu farei a diligencia de o trazer aqui, respondeu Mascatudo, satisfeito por comprehender o que se passava no coração de Martha.
Despedindo se de todos, o marinheiro saiu do hotel.
--É um anjo, ou eu sou um grande asno, dizia elle comsigo mesmo, emquanto se dirigia para bordo.
XVI
Deixemos Mascatudo participar a Manuel de Mendonça os resultados da sua entrevista, e encaminhemo-nos a um pequeno gabinete do hotel onde Tristão costuma receber as visitas de mais confiança.
O visconde, como o leitor não ignora, tinha resolvido tirar o maior partido que podesse do seu novo amigo; com este fim se havia dirigido para o hotel.
Tristão acabava de chegar de casa de um banqueiro, a quem fôra consultar ácerca de uma transferencia de fundos para o Banco de Portugal na importancia de 650:000$000, para lhe não succeder o mesmo que lhe acontecêra com quantia superior a essa, que tinha no banco de Havana, d'onde havia dois annos não recebia juro algum.
Vê-se portanto quaes eram as riquezas d'aquelle homem!
Ao ouvir estas palavras, ainda mais seguro ficou o visconde no bom exito da sua tentativa, e, ampliando apenas a cifra resolveu-se a preparar quanto antes o terreno que tinha a explorar.
--Com que então, meu amigo, disse-lhe o visconde, já sei que os seus protegidos dormem em leito de rosas o doce somno da esperança, acalentados pelas azas brancas do anjo dos tristes.
Por esta exuberancia de imagens, poderá o leitor formar a sua idéa psychologica ácerca do caracter do visconde de Coruche.
--Assim o creio, respondeu Tristão, offerecendo-lhe um magnifico charuto havano.
--E quando principiam os nossos trabalhos do hospital?
--Pela minha parte hoje mesmo, se vossa excellencia quizer; porém, vejo que tem tantos negocios a tractar...
--Por Deus, meu caro amigo! Para uma coisa d'essas deixaria tudo de parte. Hoje mesmo, se lhe apraz, iremos escolher o local.
--Isso é que era ouro sobre azul! Não calcula a anciedade de minha esposa em vêr realizados os seus desejos. Quando se propôe qualquer coisa, não ha quem a dissuada, nem eu o intentaria n'este caso.
--O mesmo sou eu. Veremos quem se lança denodadamente na arena da caridade. E como vossa excellencia vae lucrar n'esta obra! Como se conceituará na opinião publica? De que serve a riqueza, se não fôr applicada ao bem? Quantas ha em Lisboa que para nada servem, a não ser para satisfazer os olhares cubiçosos dos avarentos que as possuem! passam miseravelmente emquanto vivos, e, quando morrem teem por unico elogio dos seus herdeiros, o dizerem que sempre foi um homem muito amigo de olhar pela sua casa. É que esses entes, na minha opinião, esquecidos de Deus, atravessam a vida sem conhecerem a verdadeira felicidade que sente aquelle que, extendendo a mão á pobreza, leva o consolo ao ninho do desamparado. Muitos d'esses miseraveis, renegando o povo d'onde sairam, querem chegar-se á aristocracia, transpôr os humbraes do chefe do Estado, e nem ao menos se lembram de seguir o exemplo, abrindo como elle a sua bolsa aos desvalidos, e os seus pulmões á atmosphera corrompida pelos miasmas da epidemia. E ainda a semana passada o joven monarcha desceu ao leito de um moribundo e passou-lhe a regia mão pelo peito, como para sondar se o coração ainda batia. Já que pessoa alguma o segue no seu heroismo; já que a maior parte d'esses satrapas o abandonam, seja vossa excellencia o heroe que venha a empallidecer-lhes o rosto de vergonha, tomando o exemplo d'aquelle santo rei.