Chapter 5
--Se vossas senhorias fossem tão bons que tal fizessem, seria uma grande obra de caridade, disse Jeronymo, tentando sentar-se sobre o leito.
--Não faça similhante loucura. Conserve-se como está, e tenha a certeza que d'aqui a meia hora terá a seu lado as pessoas que tanto deseja.
N'este momento entrou a sr.ª D. Maria Egypciaca, acompanhada por suas duas filhas.
--Já sabemos, graças a Deus, quem é o nosso doente, e onde mora, disse a D. Maria Egypciaca o visconde, que n'esse momento saía do quarto, com o fim de dar ordem ao cocheiro para trazer a familia do ferido.
--Quanto estimo, meu Deus! respondeu D. Maria, erguendo para o tecto os seus grandes olhos azues.
--Em que sustos estará a sua pobre familia! disse Magdalena olhando para Olympia.
--Talvez que nem hoje tivessem que jantar.
--Enfim! disse D. Maria Egypciaca depois de ter contemplado o ferido por alguns instantes, Deus tudo quanto faz é para melhor. É certo que teve esta pequena contrariedade, mas graças ao Senhor, está livre de perigo, e vae fazer a felicidade de sua familia. Não é verdade, Tristão? ajuntou ella dirigindo-se ao esposo.
--Quantos desejariam ter egual sorte! disse o commendador intromettendo-se na conversação.
--Magnifico achado para dirigir as obras do nosso hospital, disse o banqueiro voltando se para Lopes de Miranda.
--Do hospital?! perguntou admirado o commendador.
--Não ouviste dizer ha pouco que era mestre de obras?
--Lembra bem, lembra bem, meu amigo, disse Tristão sentando se n'um pequeno sophá.
N'este momento, ouviu se o rumor de muitos passos subindo apressadamente a escada que dava para o segundo andar. Segundos depois abriu se a porta e appareceram duas mulheres. Eram Balbina e Martha. O desconhecido seguia-as de perto.
No momento em que Balbina e sua filha se precipitavam sobre o leito de Jeronymo, este fez um supremo esforço para se erguer, porém as dôres que lhe atacavam a cabeça e todo o lado direito tornaram a prostral-o completamente.
Todos se compadeceram ao contemplar aquella scena de amargura, até a propria Olympia arrancou dos fundos penetraes do estomago, unica viscera onde a sensibilidade se lhe refugiára, um par de lagrimas que vinham em turvos crystaes, rescendendo mais a fricassé do que a natural piedade.
O desconhecido, com os olhos fitos n'aquelle grupo, parecia contemplar a physionomia de Tristão, como se uma vaga reminiscencia lhe houvesse acudido á memoria.
O mesmo se passava no espirito do magnata; aquelle individuo não lhe era estranho.
Seguido da esposa, approximou-se do leito de Jeronymo e contou a sua familia tudo quanto tinha acontecido.
O mesmo fez Balbina e sua filha.
--É portanto a este cavalheiro que devemos tudo? disse Tristão. Quanto folgo que tenha concorrido para a felicidade d'esta familia, ajuntou elle extendendo a mão ao desconhecido.
Este, retribuindo-lhe o aperto de mão, cumprimentou rapidamente a todas as pessoas e saiu d'aquelle gabinete.
--Quem será este moço? perguntou Tristão voltando-se para o banqueiro.
--Deus sabe; respondeu Vaz Mendes. Acho-o pouco delicado.
--Quer tornar-se mysterioso, acudiu Lopes de Miranda.
--Provavelmente é algum rapaz acanhado que não sabe estar entre gente fina, disse D. Maria Egypciaca.
--Não sou d'essa opinião; pelo contrario, pareceu-me um moço de um trato finissimo, mas excessivamente modesto para se conservar n'este quarto. Receiava que o cobrissem de elogios. Não achas Magdalena? ajuntou Tristão dirigindo-se a sua filha.
--N'isso mesmo pensava eu, meu pae, respondeu Magdalena. Quando o sr. Vaz Mendes o alcunhou de indelicado, de mysterioso o sr. Lopes de Miranda, e de pouco sociavel minha mãe, não concordei com opinião nenhuma d'essas. Julgo o como meu pae: modesto de mais para escutar os elogios de que é merecedor.
--Que innocencia! gargalhou Vaz Mendes. Quem se esquiva a ser elogiado?
--Muita gente, sr. Vaz Mendes, ainda que não seja senão por egoismo. O elogio frivolo e banal, inscripto no codigo da civilidade, é uma ironia pungente para o que tem a consciencia do seu merito. Ha o louvor que anima e a adulação que fere. O incenso nem sempre é agradavel; está muitas vezes pendente da mão que balança o thuribulo, e comtudo sempre é incenso.
--Quer vossa excellencia dizer que os nossos encomios o poderiam offender? perguntou o visconde.
--Nem por sombras, sr. visconde! Não era essa a minha intenção, respondeu Magdalena approximando se de sua irmã.
--Não seria melhor deixarmos em paz esta pobre gente? disse Olympia em voz baixa para sua mãe. E demais, acrescentou ella, já se vão approximando as horas do chá, e se quer que lhe diga a verdade, estou sentindo uma fraqueza...
--Bemdito Deus, respondeu D. Maria Egypciaca, sempre, sempre pensando em comer.
--Em que quer a minha mãe que eu pense? tartamudeou Olympia, fazendo-se vermelha como a fita que lhe cingia o collo.
No entretanto, o visconde, Vaz Mendes e Lopes de Miranda conversavam em voz baixa n'um dos angulos do quarto.
--O que lhes peço, disse Tristão approximando-se de Balbina e de sua filha, é que estejam aqui tanto á sua vontade como em casa propria. Fiquem certas que coisa alguma lhes faltará. Se necessario fôr que seu homem aqui se demore, o que espero em Deus tal não permitta, não consinto que d'aqui se afastem. E emquanto a vossemecê, ajuntou Tristão dirigindo-se a Jeronymo, não se persuada que fica sem trabalho; apenas estiver melhor, ha de fazer-me o plano de uma obra que vamos immediatamente principiar e de que o meu amigo fica encarregado.
Nos olhos do pobre Jeronymo deslizaram duas lagrimas de gratidão.
Absortas na contemplação de Jeronymo, Balbina e sua filha ouviam as palavras de Tristão como se não as comprehendessem.
--Agora que terminaram os cuidados, e que seu marido está livre de perigo, disse o visconde approximando-se do leito do operario, agradeçam á Providencia o ter lhes deparado a mão que os veiu arrancar da pobreza, ajuntou elle, voltando-se para Balbina que o contemplava como que assombrada.
--Minha santinha, ás vezes, d'onde a gente menos o espera, é d'ahi que provém ou grande mal ou uma grande ventura, disse Lopes de Miranda approximando-se do visconde.
--Será a ultima, acudiu rapidamente D. Maria Egypciaca, collocando protectoramente sobre os hombros de Balbina a sua mão direita, cujos dedos cravejados de brilhantes feriram os olhos verdes e entristecidos da pobre Martha.
--Vamos dar ordem para que tragam alguma coisa de comer a esta gente, disse Olympia, puxando pela saia de sua mãe.
--Safa, inimigo! Que esta rapariga não pensa n'outra coisa senão em comer, resmungava D. Maria Egypciaca á proporção que, seguida dos seus hospedes, saía do quarto de Jeronymo.
* * * * *
--Que bem que alli cheira, dizia Olympia dirigindo-se para sua irmã e aspirando os aromas culinarios que rescendiam no corredor por onde atravessavam. Provavelmente foi algum hospede que mandou vir o jantar ao seu quarto. Quem me dera fazer o mesmo!
XI
Cada vez mais impressionado pela ingenua formosura da filha do operario, debalde tentava o desconhecido afastar para longe da memoria aquella imagem que o perseguia.
«Mas, pensava elle, e se tudo isto não passar de uma illusão, d'um capricho de phantasia?
«Casar-me hoje, para d'aqui a mezes aborrecer a companheira da minha vida? Continua solteiro Manuel de Mendonça, e se um dia te impressionar como agora algum rosto de mulher, estuda o teu coração e a tua intelligencia, apalpa, mede e analysa esse sentimento que experimentas, e se o considerares estavel, firme e immorredouro, pede então a mão da mulher que o tiver despertado, e torna-a a companheira inseparavel da tua existencia.
«Ai, do homem só!» diz Salomão, e eu digo: ai, do homem casado, que sente ao lado da esposa a solidão. E comtudo, é esta a primeira vez que sinto palpitar o coração! Será o amor esta intranquillidade de espirito que ha horas me atormenta? Esta saudade que me traz a ausencia da sua imagem e o desejo ardente de a tornar a ver será ainda o amor? Veremos.
«Só ámanhã poderei saber o tempo que me demoro em Lisboa. Se fôr pouco, bem vamos; no mar largo substituirei a sua imagem pela doce contemplação das estrellas, quando por noites caladas ouvir apenas o vogar da minha galera, e de longe em longe o canto rude, mas harmonioso dos marinheiros. Nada, continuava Manuel de Mendonça, se essa é a minha casa e elles a minha familia, para que abandonal-a, trocando a por outros que me são desconhecidos e que, se eu morresse, nem talvez uma lagrima de saudade fossem chorar sobre a minha sepultura.
«Mas se eu me demorar, se a imagem de Martha me continua a perseguir? Não póde ser! Não ha de ser, não quero que seja! Estou ainda muito novo para me prender. E demais, affeito a uma vida isolada, como poderia eu cumprir todos os deveres de um bom chefe de familia? Desde os dezeseis annos que me afastei da unica pessoa que tinha n'este mundo: minha mãe. Só, em terra estranha, sem um amigo que me protegesse, alonguei a vista para os horizontes da patria, e extendendo-lhe os braços, debalde lhe pedi noticias d'ella. Desanimado ao principio, vi por ultimo que não tinha outro remedio senão revestir-me de valor, e luctei, e soube vencer.
«Quando, possuidor de algum dinheiro, tentei voltar á Europa afim de ver minha mãe, disseram-me na Bahia, poucos dias antes de embarcar, que a pobre estava reduzida á miseria. Vim para Lisboa, e ao chegar descobri a terrivel verdade, que tinha morrido no hospital dos alienados!
«Aterrado, saí immediatamente de Portugal, buscando nos transportes de uma vida arriscada esquecer a dôr que me feria. Como eu sorri á tormenta que parecia zombar da minha agonia! Com que desejo ardente de seguir minha mãe eu me lancei em tudo quanto havia de perigoso, e Deus sempre a proteger-me, como se me estivesse guardando para algum fim sobre a terra. E que poderei eu esperar? Que felicidade posso conceber lembrando-me que, emquanto dispendia contos e contos de réis, jazia a minha infeliz mãe nas palhas d'um hospital?
«Nada, continuava Manuel de Mendonça, passeiando pelo seu quarto do hotel da Europa. Permitta Deus, ajuntava elle, que ámanhã termine o negocio que espero e que possa levantar ferro quanto antes.»
N'este momento, baterem mansamente á porta do quarto.
--Entre, disse Manuel, volvendo os olhos para a porta.
Um individuo alto e excessivamente delgado levantou o ferrolho, e entrou no gabinete.
O homem chamava-se Luiz, por alcunha o _Mascatudo_.
A camaradagem que Mascatudo tivera por largos annos com os irlandezes, a bordo dos seus navios mercantes, introduziu lhe por tal forma o vicio de mascar tabaco, que o pobre Luiz, quando o não tinha, era capaz de mascar tudo quanto lhe apparecesse.
Contava-se d'elle a seguinte anecdota, que prova a quanto aquelle vicio o arrastava:
N'uma viagem a Macau, acabára-se-lhe o tabaco. Receiando a tripulação que se prolongasse a derrota, defenderam todos das maxillas do tio Luiz a preciosa planta que começava a escassear-lhes.
Certos e mais do que certos se tornaram os seus receios, a viagem durou mais onze dias do que esperavam. Não havia tabaco a bordo!
Dizendo mal á sua vida, a tripulação debalde vasculhava os mais reconditos escaninhos das algibeiras! Ninguem fumava! Um marujo apenas seguia no seu eterno ruminar. Era o tio Luiz.
--Forte velhaco! diziam uns.
--E eu que ainda o outro dia fui tão tolo que lhe dei dois charutos havanos!
--E eu, acudiu outro, perto de meia quarta de rollo. Daria agora por elle um mez da minha soldada.
--Um raio me parta se aquelle marau me apanha mais um cigarro em toda a sua vida, dizia com voz rouquenha o timoneiro.
--Arrebentado morra eu da sobre gata se aquelle arenque de fumo me leva mais uma cachimbada, acrescentava um velho marinheiro.
E gritando e vociferando, iam todos contra o tio Luiz, e elle sempre sereno, tranquillo, ruminando e salivando ao mesmo tempo.
Finalmente chegaram a Macau.
Á tarde, o commandante chamou o tio Luiz e ordenou-lhe que se vestisse afim de o acompanhar a terra.
O marujo empallideceu, mas não teve mais remedio do que cumprir as ordens do commandante.
Meia hora depois ouviu-se á ré um grande motim, e viu-se entre os apupos e os risos da tripulação o tio Luiz gravemente compromettido, com uma bota de cano no pé direito e no esquerdo uma especie de sapato de mulher completamente franjado.
O tabaco que os seus companheiros injustamente lhe attribuiam, era o cano da bota esquerda, que o tio Luiz mascára durante os onze dias de atrazo. O marujo preparava-se para entrar pelo pé esquerdo se por ventura não deitam ferro defronte da grande cidade.
Os creditos foram-lhe de novo restituidos, e desde esse dia o tio Luiz foi conhecido a bordo pela alcunha de Mascatudo.
O tio Luiz tinha quarenta e dois annos. O seu valor e honradez faziam com que todos o estimassem.
Quando Manuel de Mendonça comprou em Buenos-Ayres uma galera, Mascatudo foi-lhe o mais recommendado entre os tripulantes que lhe inculcaram. Desde esse dia até ao momento que o vemos entrar no hotel, Manuel de Mendonça nunca teve um momento de se arrepender da profunda confiança que n'elle tinha depositado. De todos os seus amigos, como chamava aos seus tripulantes, Mascatudo era o mais intimo, sem que nenhum dos outros jámais levantasse a voz para deprimir as nobres qualidades do seu companheiro de perigos.
Mascatudo havia perdido sua mãe, unico parente que lhe restava, e que elle adorava com todo o ardor do seu coração, coração grande e ingenuo, como de todo o homem que passa a vida separado do resto da humanidade, entre a colera dos elementos e a mercê do Creador!
Seria esta circumstancia que fazia com que essas duas almas se casassem? Era o! Nos espiritos irmãos pelo infortunio, vasa Deus o balsamo da sympathia para que possam juntos enlaçar os soffrimentos que os pungem.
Era bello vel-os, quando á noite, ao lado um do outro, contemplavam em religioso silencio a solidão das aguas, olhando de vez em quando para o céo, como se alli procurassem algum vestigio d'aquellas que lhes haviam dado o ser. Outras vezes, sosinhos na sua camara, Mascatudo contava a Manuel as suas viagens, acabando quasi sempre por lhe ler as cartas que sua mãe lhe escrevia, e que aquelle já ha muito sabia de cór.
Era portanto este o amigo a quem Manuel abria inteira a sua alma, e em cujo coração depositava todos os segredos da sua vida aventurosa.
--Venho participar-lhe que não poderemos sair d'aqui em menos de cincoenta dias, o que deveras sinto, porquanto é um tempo precioso o que estamos perdendo, disse Mascatudo, encostando-se desembaraçadamente a uma commoda que estava no quarto de Manuel. Se imagino que tal acontecia, juro por Santa Barbara que não era eu que o tinha aconselhado a vir a Portugal.
-Pois sinto-o deveras, respondeu Manuel de Mendonça, sobretudo n'esta occasião; e fazendo sentar Mascatudo a seu lado, contou-lhe em poucas palavras a aventura da vespera, não sem lhe mostrar os graves receios que atormentavam a sua alma.
--Nunca se arrependa de que a sua presença tenha feito a felicidade de alguem. Dizia minha mãe, que Deus haja, que tudo quanto o Senhor fazia era para melhor. Ora quem nos diz a nós que atraz d'essa borrascasita que lhe arrebentou no coração, não está perto a bonança?
--Parece-te portanto... que devo dar azas a isto, que nem eu mesmo sei como hei de chamar?
--Olhe, sr. Manuel de Mendonça, dizia minha mãe, que Deus tenha, que o homem só n'este mundo é alvo da perdição. E eu digo o mesmo. Antigamente não pensava assim, porém hoje, que me sinto cançado de trabalhar, parece-me que, apezar das muitas saudades que me ficariam do mar, viveria talvez mais feliz ao lado de minha mulher, tendo a barca sempre em ordem e o porão cheio de mantimentos para sustentar os filhitos, vendo-os alegres a todos, e trepando por este velho mastro, açoitado dos vendavaes. Ha lá nada melhor n'este mundo, como dizia minha mãe, que Deus haja, do que ter a gente umas sopas para comer ao pé de sua familia! Basta a gente lembrar-se que tem quando morrer quem lhe feche os olhos, e lá de vez em quando, quem se recorde da nossa alma, resando-lhe uma oração sobre a sepultura do corpo. Emfim, faça o sr. o que quizer, que eu cá por mim deixo correr a embarcação.
O prazer que Manuel de Mendonça experimentava ao ouvir falar do objecto amado, era mais uma prova do seu amor.
Foi então que elle reconheceu de verdade o seu estado.
--Esperemos, disse elle finalmente de si para comsigo, e vestindo-se saíu com Mascatudo, dirigindo-se a bordo.
[Ilustração:--Como se acha? perguntou Martha levantando se da cadeira... (_pag. 85_)]
XII
No dia immediato aos acontecimentos que presenceamos no hotel de Bragança, a saude de Jeronymo melhorou consideravelmente. O medico que pela manhã o fôra visitar declarou as feridas de pouca importancia, aconselhando, a despeito de tudo, que seria muito mais prudente não removerem d'alli o ferido, attendendo ao estado anormal em que Lisboa se encontrava.
Tanto o mestre de obras como a sua familia não se cançavam de agradecer á Providencia a felicidade que tinham achado no meio da sua desventura.
Não houve delicadeza que lhe não fosse dispensada por aquella santa familia. A tal ponto foi levada a dedicação de D. Maria Egypciaca, que por tres vezes se levantou da cama afim de se informar do doente.
Foram taes as promessas feitas por Tristão ao pobre Jeronymo, que este quasi que dava graças a Deus de ter sido atropellado pelos cavallos do visconde.
Phantasiando trezentos planos de vida, o operario julgou ver realizado o seu sonho de vinte annos: um pequeno casal nas proximidades de Lisboa, onde tivesse uma ou duas vaccas, e um garrano que de vez em quando o trouxesse á cidade.
Via Balbina com a quarta rasa de milho dirigindo-se á estrebaria para arraçoar a cavalgadura, Martha seguindo-a a poucos passos, em busca da creação, e elle, no centro da horta, ao lado dos seus trabalhadores, ora regando o milho, ora arrancando-lhe as bandeiras, e enfeixando as para as levar á vacca malhada, a sua favorita, essa a quem devia pôr o nome de Estrella, por ser o nome de uma vacca torina que seu pae lhe dera no dia em que Jeronymo fazia quinze annos.
Embevecido no seu phantasioso sonho, com as palpebras semi-fechadas, extendia de vez em quando a mão para sua filha, a qual, beijando lh'a n'um transporte de amor filial, fazia ao mesmo tempo votos ao Todo Poderoso para que lhe melhorasse quanto antes o seu querido pae. Balbina, assentada no canapé, olhava ora para Jeronymo, ora para sua filha. Esta, sorrindo meigamente, apontava para o leito de seu pae, como se tentasse mostrar-lhe o socego em que elle repousava.
De repente o ferido abriu os olhos, e, como se despertasse de um sonho, apertou brandamente as mãos da filha, fitando-a com toda a ternura do amor paternal.
--Como se acha? perguntou Martha levantando-se da cadeira e debruçando-se-lhe sobre o leito.
Balbina approximou se.
--Tenho menos dôres, balbuciou o enfermo, e espero em Deus que não tardará muito que eu te possa extender estes braços que a muito custo levanto. Mas não me dirão quem é esta santa familia que com tanto amor nos tem tractado? acrescentou elle, dirigindo-se a sua esposa.
--Ignoro, respondeu Balbina.
--Foi alguem mandado por Deus para nos valer com a sua protecção, continuou elle, como se ainda o acompanhasse aquelle sonho.
--Pois olhe, meu pae, acudiu Martha, apezar de tudo, preferia estar em nossa casa a vêl-o aqui entre estas cortinas.
--Se d'isto resultar a tua felicidade, e a tua, ajuntou elle voltando-se para Balbina, terei de agradecer a Deus estas dôres que me atormentam.
--Pois eu, Jeronymo, ainda que tudo quanto Deus faz é para melhor, desejava bem vêr-te fóra d'este quarto, disse a pobre Balbina olhando ao mesmo tempo para a porta.
Esta abriu-se e entrou Tristão de Almeida.
Depois de as cumprimentar approximou se do leito de Jeronymo.
--Como se sente? perguntou Tristão pegando brandamente na mão do operario.
--Melhor; muito melhor.
--Quanto folgo! disse Tristão, puchando uma cadeira e abeirando-se do leito. É forçoso que se restabeleça quanto antes para tomar conta da sua obra: um hospital para as pessoas pobres atacadas da febre.
--Pelo que vejo, disse Martha, vossa excellencia não se occupa senão da sorte dos desgraçados.
--É essa a minha unica ambição, respondeu o magnata fitando o rosto ingenuo da filha do operario. Ámanhã por estas horas já devemos saber o logar designado para o hospital, e, como desde hontem o considero meu empregado, accrescentou dirigindo-se a Jeronymo, não pense que vossemecê e sua familia se estão aqui tornando pezados. Se alguma cousa tem que fazer em sua casa, sr.ª Balbina, disse Tristão voltando se para a mulher do operario, eu lhe mando chamar um trem para que a demora não seja muita.
--Não tenho outro remedio senão ir a casa, respondeu Balbina, mesmo por causa da tia Marianna, ajuntou ella voltando-se para Martha.
--Visto isso, vou dar ordem a um criado para que lhe chame um trem, e sem attender a Balbina, que pretendia dissuadil-o da sua determinação, o protector da familia de Jeronymo desceu ao primeiro andar.
--Ainda não vi melhor coração, murmurou Jeronymo voltando-se para sua filha.
--Tudo é muito verdade, meu pae, mas torno a dizer-lhe, preferia que nada d'isto tivesse succedido.
Meia hora depois, com grandes esforços de Tristão de Almeida, Balbina dirigia-se n'um trem de bandeirinha para sua casa.
XIII
Emquanto se estão passando estas veridicas scenas, entremos em casa do visconde de Coruche.
--Vê como pões esse pó de arroz, imbecil! Olha que me estás arranhando as costas! dizia o visconde voltando-se para o seu _groom_.
--Não é da minha mão, sr. visconde, é uma borbulha que v. ex.ª aqui tem.
--Uma borbulha! exclamou o visconde, eu nunca tive a mais pequena excrescencia na pelle. Dá-me d'alli aquelle espelho.
Sem proferir uma palavra, o _groom_ dirigiu-se ao toucador, e tirando de dentro um espelho em fórma de ellipse, entregou-o ao visconde.
--Vejamos, disse este, voltando as costas para um toucador. Com effeito tinhas razão.
--D'isso tenho eu tido aos centos e não faço caso algum, ajuntou o criado.
--Queres tu comparar a tua á minha pelle?
--Eu tambem não digo a vossa excellencia que a minha pelle seja como a sua, digo só que d'isso tenho eu aos centos. Olhe, sr. visconde, se vossa excellencia quer, verá como lhe curo isso n'um momento. Tome o sr. visconde uma... que digo eu? meia pilula das Monicas, ou uma receita que tem as irmãs do padre Bernardo que moram em Jesus, e verá como fica bom no mesmo instante. Isto provavelmente são os humores que andam levantados.
--Será o que tu quizeres, respondeu o visconde. Dá-me d'alli uma camisa.
--Que camisa quer?
--Das mais finas, e põe-lhe os botões de camafeu.
--Ou é _serviço_ ou grande pantomimice, resmungou o criado em voz baixa, abrindo ao mesmo tempo a gaveta do guarda roupa e tirando de dentro uma finissima camisa de cambraia. Agora por isso, ajuntou elle approximando-se do visconde, veiu cá hontem e já voltou hoje um individuo que trouxe para vossa excellencia a conta da camisaria.
--Dize-lhe que volte no fim do mez.
--Recordo a vossa excellencia que estamos hoje no dia 30, e que ámanhã é o ultimo de outubro.
--Pois sim; mas eu quando disse no fim do mez, quiz dizer que era para o mez que vem.
--Cumprirei as ordens de vossa excellencia. Que fato quer? perguntou elle, dirigindo-se para uma commoda á Luiz XV, sobre a qual estava um cofre de tartaruga.
--Um fraque e collete preto, com quaesquer calças de côr.
--Agora por isso, sr. visconde, disse o criado pondo nos punhos da camisa dois magnificos camafeus de Italia, veiu cá hontem um individuo com uma conta do alfaiate, e como vossa excellencia não estivesse em casa, disse-lhe que viesse ámanhã, em sendo duas horas.