O Conde de S. Luiz

Chapter 4

Chapter 43,916 wordsPublic domain

Historiando o atropellamento e matizando a historia dos mais lisongeiros epithetos para Tristão, o visconde de Coruche contou ao commendador o que se havia passado com o operario.

--Se vossa excellencia não deu a morte a esse desgraçado, estou certissimo que fará a sua felicidade, disse o commendador, piscando ao mesmo tempo o olho para o visconde.

--Ha males que vem por bens, acudiu este fazendo uma careta para Lopes de Miranda.

--Mysterios de Deus, respondeu Tristão em voz alta. Fortes nescios, ajuntou elle de si para comsigo. Mal sabem que lhes percebo os signaes.

Momentos depois, entravam todos quatro no hotel de Bragança e dirigiam-se ao quarto do ferido.

O operario encontrava-se no mesmo estado de anemia. Pessoa alguma havia podido arrancar-lhe uma só palavra.

A sr.ª D. Maria Egypciaca, segundo o havia ordenado o seu philanthropico esposo, não tinha abandonado o leito do enfermo. Magdalena e Olympia, de vez em quando approximavam se do quarto.

Depois de cumprimentarem a esposa de Tristão, os tres amigos chegaram-se ao enfermo.

--Faz pena! disse o commendador, Deus sabe ajuntou elle, se este pobre homem terá alguma pessoa a quem esteja dando sérios cuidados. É uma lastima que se lhe não possa saber o nome. Se descobrissemos quem é a familia, mandar lhe-iamos dizer que estava sob a protecção de vossa excellencia. N'estas epochas de epidemia, a mais pequena demora faz com que todos estejam em cuidados.

--Vejamos se é possivel fazel o falar, disse Vaz Mendes, debruçando se sobre o leito do operario.

O enfermo continuava no mesmo lethargo.

Eram perto de seis horas. Como não houvesse meios de lhe arrancar uma palavra, D. Maria Egypciaca lembrou que seria mais prudente irem jantar emquanto durasse aquelle estado morbido, e deixando o doente entregue a um creado, convidou as visitas a dirigirem-se á casa de jantar.

Ao chegarem alli, já Olympia, a filha mais nova de Tristão de Almeida, aguardava que seus paes tivessem dado treguas á caridade para desfructarem o unico gozo da vida, o comer. Minutos depois, appareceu Magdalena, a irmã mais velha.

O jantar correu animadissimo! Formosas eram ambas as filhas de Tristão de Almeida; juntando-se á formosura e juventude um dote de duzentos contos de reis, que lhes poderia faltar?

Ventilado pela vigessima vez o caso do atropellamento, bem como o valor do visconde de Coruche, que fizera convencer Tristão de Almeida do risco que havia corrido a sua existencia em se ter approximado, do cavallo da sella, discutiu-se a fundação do hospital.

D. Maria Egypciaca, que de antemão havia sido prevenida por seu esposo, falou eloquentemente sobre este assumpto, deixando assombrados os hospedes tanto pela sua verbosidade como pelas idéas philantropicas que defendia.

Olympia contentava se de atacar com vigor extraordinario cada prato de cosinha que o servente lhe apresentava pelo lado do coração, viscera que apenas lhe estremecia consoante o apimentado dos molhos onde o guizado se mergulhava!

Fitando o olhar na comida, Olympia manejava o talher com mais desembaraço do que qualquer malabar de feira, pegando depois n'um oitavo de pão de meio arratel para limpar o prato com o artistico intuito de admirar o bom gosto do estampador.

Olympia tinha duas paixões: a cosinha e a ceramica. Se lhe dissessem que morrendo de uma indigestão de ninhos de andorinhas seria depositada n'um sarcophago de Sévres, a filha de Tristão de Almeida apanharia a indigestão de bom grado.

Debalde o visconde de Coruche se desfazia em melifluas olhaduras, tudo era inutil; o estomago de Olympia concedía-lhe apenas que as suas vistas se dirigissem ora para o prato que limpava, ora para a porta por onde entrava o criado com o seguimento do _menu_.

E, apezar de tudo, essa creatura que tão desenvoltamente usava e abusava dos orgãos da mastigação, perguntando ao criado durante o jantar o que tencionava guardar-lhe para a ceia, tinha o poetico nome de Olympia, como o leitor não ignora, e era formosa, formosa a fazer enraivar de inveja todas as do seu sexo, menos a amavel leitora que sobre estas paginas se debruça.

Olympia era uma pomba. Dizia sua mãe que até aos dezoito annos, o unico desgosto que lhe havia dado fôra ter atirado com uma travessa ao rosto pallido de Magdalena, por esta lhe ter comido duas queijadas de Reinholas, resto de tres duzias que seu pae lhe havia trazido de Cintra.

Magdalena era a sua antithese. Afôra aquelles dois pasteis, poder-se-ia julgar impolluta no que dizia respeito ao quinto peccado.

De uma formosura menos provocadora do que sua irmã, Magdalena sabia insinuar-se no coração de todos os que tinham a felicidade de lhe merecer sympathia.

Tinha na tristeza vaga e scismadora do seu olhar uns longes de melancolia que prendiam quem a contemplasse.

Sobretudo, o que mais espantava em Magdalena era a harmonia da voz. Assombrava! Os anjos deviam aprendel-a, para espalharem nos seus canticos a musica da palavra.

Falava pouco, porém a phrase era sempre correcta. Reservada mais por calculo do que por organização, a irmã de Olympia atravessava a sociedade com a consciencia segura e mathematica dos mil escolhos de que ella se compõe!

Ferira-a a aza negra da tormenta? A ave da desgraça esvoaçára-lhe sobre os seus louros cabellos? Desfizera-se-lhe algum sonho luminoso? Sentira o seu coração immenso, golpeado pelo punhal do desengano?

Todos o ignoravam, ou para melhor dizer, pessoa alguma se havia demorado a estudar aquella peregrina organização.

Magdalena nunca havia amado, porém o seu coração tinha necessidade de amar como os pulmões do ar que respiram.

Creando um dia na sua phantasiosa imaginação o typo que ambicionara, quiz-lhe dar vida, formas e animação. Quando mais tarde se lhe sumiu o vago, o impalpavel, o ideal que concebêra e que tombára na tristissima realidade, esmoreceu e curvou-se resignada para chorar a sós as suas lagrimas.

Prophetisa da amargura, como veremos na continuação d'esta singela historia, Magdalena parecia adivinhar as supremas angustias que mais tarde lhe haviam de escruciar a pobre alma!

Debalde, repetimos, se esforçava o visconde para merecer um olhar de Olympia.

Era invulneravel!

--Se o homem já terá dado accordo de si, disse o visconde para não estar calado.

--Deus sabe! murmurou o amphitrião defendendo uma perna de perdiz da insaciavel voracidade da filha!

--Daria tudo para que esse infeliz tornasse á vida, disse D. Maria Egypciaca dirigindo-se ao commendador. Como estará a sua pobre familia! ajuntou ella despejando um copo de vinho do Rheno.

--Feliz d'elle, tartamudeou o visconde, se podesse abrir os olhos no momento em que vossa excellencia estivesse á cabeceira do seu leito. Pela minha parte, abençoaria fosse que circumstancia fosse que me trouxesse tal ventura, ajuntou elle, dirigindo-se a Olympia.

--Passa me aquelle prato de carne de porco assada, disse Olympia tocando no hombro de sua irmã e sem se atrever a olhar para o visconde.

--Não ouves o que te diz aquelle cavalheiro? perguntou D. Maria Egypciaca, voltando-se com modo agastado para sua filha.

--Não repare, meu caro amigo, acudiu Tristão, Olympia é muito envergonhada, e demais está pouco acostumada á sociedade. Não ouves o que te diz o sr. visconde? acrescentou elle dirigindo-se á gastronoma.

--Ouço, sim senhor, mas não sei o que hei de responder.

Magdalena estremeceu de pejo ao ouvir a resposta de Olympia.

N'este comenos, o criado que ficara junto do ferido entrou na casa de jantar para participar que elle havia tornado a si, dizendo poucos instantes depois o seu nome e a rua onde morava. Ajuntou em seguida o criado que um sujeito muito bem vestido pedira ao guarda portão para vir reconhecer o doente.

--E esse individuo... ainda lá está? perguntou Tristão.

--Não senhor. Saiu logo que lhe soube o nome. Disse que ia dar parte á familia que estava com muito cuidado julgando que tinha sido atacado pela febre.

--E quem é o doente e como se chama? perguntou vivamente o visconde.

--Chama-se Jeronymo e é mestre de obras.

--E onde mora? interrompeu Vaz Mendes.

--Na rua do Meio á Lapa, respondeu o criado.

--Quanto estimo! quanto estimo! exclamou D. Maria Egypciaca. Provavelmente foram chamar-lhe a familia. Que venha, que venha. Pobre gente! Talvez ainda abençõem a fatalidade que lhes aconteceu! Pódes retirar-te, Manuel, ajuntou ella, dirigindo-se ao criado.

--Agora, disse Vaz Mendes, já temos por onde começar a nossa obra de caridade. Principiaremos por esse pobre Jeronymo.

--Apoiado! bradou o commendador despejando o decimo copo de vinho do Porto, e olhando de soslaio para Olympia, cujos olhos pardos se fitavam ardentemente n'uma torta de maçã.

--Se m'o permittem, vou ver o meu protegido disse Tristão, levantando se ao mesmo tempo da cadeira.

--E se tambem m'o permittem?... accrescentou o visconde, imitando o movimento do seu amigo.

--Mas com o maior prazer, respondeu D. Maria Egypciaca. E não tardará muito que lá vamos, eu e minhas filhas.

--Querem vel o? perguntou o visconde voltando-se para o banqueiro e para o commendador.

--Da melhor vontade, responderam os dois a um tempo.

Levantando se rapidamente seguiram o seu amphitrião.

* * * * *

--Ora ahi tem a mamã porque eu não gosto de comer á mesa quando temos visitas. Levanto-me sempre com fome. Só eu á minha parte seria capaz de comer toda aquella carne assada, disse Olympia entristecidamente voltando se para sua mãe.

--Pois é possivel que ainda tivesses mais vontade? perguntou Magdalena.

--Abençoado estomago! disse D. Maria Egypciaca levantando-se da mesa.

VIII

Deixemos por algum tempo os preclaros bemfeitores do pobre Jeronymo; a inconsolavel esposa rezando á Virgem Santissima; D. Maria Egypciaca abençoando o fructo dos seus burocraticos amores, e volvamos a uma epocha vinte annos anterior a estes successos, quando, perdida a razão, a infeliz D. Marianna de Mendonça deu entrada no hospital de S. José.

Como o leitor deve estar lembrado, a viuva não tinha um unico parente sobre a terra. As pessoas que frequentavam a sua casa havia muito que se tinham afastado, em virtude das intrigas urdidas pela sua amiga intima, que annos antes a aconselhára a depositar os capitaes nas mãos do commendador.

Até o advogado que fôra acompanhal-a ao escriptorio no dia da fuga de Felix Justino de Araujo, até esse a havia abandonado, para com o seu conselho salvar as victimas do fugitivo.

Maria Gertrudes, uma das creadas que lhe era mais affeiçoada, ao vel-a entrar n'aquella situação, dirigiu-se immediatamente a casa da amiga da sua ama participando-lhe o estado em que D. Marianna se encontrava, perguntando-lhe o que queriam dizer aquellas palavras que proferira o commendador--que lhe tinham roubado todos os seus bens.

--Que a sua ama sempre propendeu para a loucura, ha muito que o suspeitava, mas que tivesse chegado a esse ponto, é que não podia crer. Vejo-lhe apenas um remedio: metterem-n'a no hospital dos doidos, e, quanto a isso, quem está nas melhores condições é o regedor. E sem mais tir'te nem guar'te, voltou as costas á fiel criada, mostrando-lhe que o sitio por onde tinha de sair era o mesmo por onde minutos antes havia entrado.

Esperançada no restabelecimento de D. Maria, a pobre mulher voltou para casa.

--Já não ha meios de a soffrer, disse-lhe uma sua companheira. Tem quebrado tudo quanto encontra á mão, e se assim continúa, não temos ámanhã um copo por onde beber. Pela minha parte, entendo que visto a senhora não ter amigos nem parentes, o melhor era dirigirmo-nos ao sr. regedor.

--O mesmo disse a sr.ª D. Maria Clara. Porém, entregar a nossa ama á justiça, nós que lhe queremos tanto! Não seria mais razoavel supportal-a ainda alguns dias, como antes de hontem nos disse o medico? respondeu Maria Gertrudes.

--Pois supporte-a vossemecê, que eu pela minha parte já estou farta. E demais, nós as criadas não temos obrigação de aturar doidas. Se a tal me quizesse sujeitar, ia para o hospital de S. José, onde tinha melhor ordenado do que n'esta casa. Vossemecê, que é mais antiga do que eu, se gosta, sopeteie, que quanto a mim, não tenho mais nada se não arranjar o bahu, pôr o capote e o lenço, e pés para que te quero.

É que não sei; não sei o que hei de fazer á minha vida. Valha-me Deus, para que estava guardada.

--Estivesse eu no seu caso; eu lh'o diria.

--Então o que havia de fazer?

--Chamar o regedor e ferrar com ella no hospital.

--E esta casa? Quem ha de ficar n'esta casa?

--Ora essa sr.ª Maria Gertrudes! Ficavamos nós emquanto o filho não viesse.

--E sabemos por ventura aonde está o filho?

--Onde está! Está no estrangeiro. Bem se vê que a sr.ª Maria Gertrudes não é mulher d'este tempo. Boa está. Olha que grande difficuldade! Pensa talvez que não sei como essas coisas se fazem. Para que servem os correios? Não tem mais nada senão pôr: ao sr. Manuel de tal, e em baixo: pelo correio do Estrangeiro, em letras muito grandes.

--Isso lá é verdade; e quanto tempo pode levar isso tudo?

--O tempo que leva uma carta ao estrangeiro. Olhe, sr.ª Maria Gertrudes, se vossemecê quer, não diga nada ao criado, que eu _mesmo_ me encarrego de a escrever. Por agora o que devemos fazer é ir a casa do sr. regedor. Já com este são cinco dias que estamos aturando aquella doida, e bem vê que isto não póde durar por muito tempo.

--Lá n'isso tem muita razão.

--Ora ainda bem; então mãos á obra.

* * * * *

Maria Gertrudes resolveu-se a ir falar ao regedor.

N'essa mesma tarde, a infeliz senhora, que cinco dias antes se considerava rica e cheia de ventura, entrava na enfermaria das alienadas como uma simples pedinte sem protecção e sem abrigo. Quando dois mezes depois, informado pelos visinhos, soube o regedor o que se estava passando em casa de D. Marianna de Mendonça e como os seus creados de dia para dia iam roubando os haveres, entendeu-se com o juiz eleito, e entrando em casa, viram com effeito que não eram mal fundadas as suspeitas da visinhança.

A carta remettida para o estrangeiro ainda não tinha chegado ás mãos de Manuel de Mendonça, e a desgraçada continuava no hospital sem que nenhum dos creados fosse indagar o seu estado.

No dia seguinte, o juiz mandou tomar posse de tudo quanto existia, e depois de competentemente inventariado, collocou no meio da rua aquelles dedicados servos que tão tranquillamente habitavam a casa de sua ama sem ao menos saberem se ainda existia ou não.

Pelo espaço de sete annos, esteve D. Marianna nas enfermarias de S. José. Finalmente, recobrou a razão e deram-lhe alta.

Antes da saida pediu para falar com o director. Depois de lhe confiar todos os pormenores da sua vida, perguntou-lhe se durante a sua enfermidade alguem tinha vindo informar-se da sua saude.

Sympathizando com as maneiras da viuva e condoido pela sua desgraça, o director levou-a para casa da sua familia.

Finalmente, graças ás relações do seu protector, D. Marianna tomou posse do que lhe restava. Entre louça, moveis e roupas brancas apurou dois contos e duzentos mil réis.

Alugou uma casa proxima á dos seus protectores, entregou-lhes o resto para lh'o empregarem no que melhor lhes parecesse, até que o destino, cançado de a torturar, lhe proporcionasse a maior de todas as felicidades: devolver-lhe o filho querido da sua alma!

Debalde se passaram annos e annos, e o destino sem se compadecer da sua desventura.

Os dezeseis vintens que pouco mais ou menos lhe rendiam as inscripções, juntos aos ganhos que os seus bordados lhe produziam, eram mais do que sufficiente para o seu alimento. Infeliz de todo não se considerava D. Marianna, e ingrata seria para com Deus se da sua sorte se queixasse. Era já muito o amparo que lhe concedia a Providencia representada nas pessoas do director e de sua mulher; porém a desgraça que parecia ter-se aninhado no seu coração, não podia permittir-lhe que descesse á sepultura sem que primeiro a bafejasse uma vez ainda com o seu halito envenenador. Levou-lhe em menos d'um anno as duas unicas pessoas que tinha sobre a terra: o director e sua esposa!

Aterrada com esse golpe, julgou de novo enlouquecer!

Querendo mudar-se do bairro, que lhe recordava os seus protectores, á sombra de cuja amizade tanto tempo se abrigára, lembrou-se de ir viver para a Lapa.

Uma tarde saiu, e dirigindo-se para aquelles sitios encontrou na rua do Meio a casa que lhe convinha. Dois dias depois, alugou e mudou para alli a sua pequena mobilia. Foi onde oito annos depois a encontramos atacada pela febre amarella.

A pobre senhora, na doce esperança de ainda tornar a vêr seu filho, economizava, quanto cabia em suas forças, os poucos haveres que lhe restavam.

«Este dinheiro, dizia ella ás vezes comsigo olhando para as inscripções, não me pertence, é de meu filho; cumpre-me fazer tudo quanto possivel me fôr para lh'o augmentar.»

Explicado está portanto o seu modo de viver.

IX

A physionomia doce e melancholica de Martha impressionára de mais o desconhecido para que a sua promessa deixasse de ser cumprida.

Quando ao apear-se no Largo das Duas Egrejas se demorou alguns segundos para pagar ao bolieiro, olhou instinctivamente para um grupo composto de quatro individuos que estavam discutindo.

--Se fosse algum de nós que tivesse atropellado o homem, provavelmente estava preso, dizia um d'elles.

--Mas como foi o sr. Tristão d'Almeida... acudiu outro.

--E o visconde de Coruche, accrescentou terceiro.

--Mas elle morreu ou não morreu?

--Dizem que está melhor.

--Veremos como se porta o brazileiro.

--Até agora, não ha razão de queixa, segundo me disseram. Lá ficou n'um bello quarto do hotel, tendo por enfermeiras a mulher do magnata, e as duas filhas.

--Tenho pena de não ter sido eu o atropellado, só para ter taes enfermeiras.

--Vocês vão d'aqui para o Marrare de Polimento, ou ficam ainda a descobrir a mysteriosa individualidade do menino de ouro, como se diz na minha terra?

--Vamos para o Marrare, responderam os outros tres, dirigindo-se pela rua do Chiado.

Reflectindo em que o atropellado podia muito bem ser o pae de Martha, o mysterioso protector da infeliz criança seguiu os quatro individuos até á sua entrada no Marrare de Polimento.

Entrou tambem.

O que primeiro falára do acontecimento ficou á porta assobiando alegremente; os outros dirigiram-se para os bilhares.

--Deve estranhar uma pergunta que lhe vou fazer, disse o desconhecido interrompendo o assobio do _dilettante_. Ha tres horas que procuro um individuo que desappareceu de sua casa. Quando me apeei de um trem no Largo das Duas Egrejas, percebi que falavam ácerca de uma pessoa que tinha sido atropellada, e confesso-lhe que commetti a indiscrição de os escutar. Póde ser que seja esse o mesmo individuo que procuro.

--Talvez, respondeu amavelmente a pessoa a quem estas palavras foram dirigidas. O que sinto é não lhe poder dizer o seu nome. Sei apenas que está no Hotel de Bragança.

Retribuindo n'um aperto de mão a amabilidade com que fôra recebido, o protector de Martha correu immediatamente para o sitio que lhe haviam indicado.

Ao chegar perguntou ao guarda portão se ainda alli estava um sugeito que de manhã fôra pizado por um brazileiro.

--E não só por um brazileiro como tambem por um visconde, respondeu o guarda portão, como se n'estas palavras quizesse tornar mais illustre o atropellamento, ou diminuir a culpabilidade dos animaes dividindo-a por todos quatro.

--É possivel falar lhe?

--É possivel vel-o; emquanto a falar-lhe isso fia mais fino, respondeu o guarda portão. Ainda não tornou a si.

--Pois obsequiava-me muito se me podesse conduzir ao seu quarto.

Minutos depois entrava no quarto do ferido.

Jeronymo ainda se encontrava no mesmo estado lethargico. A dôr das feridas havia-lhe diminuído progressivamente, comtudo a perda de sangue tinha sido abundante, e ao pobre operario nem forças restavam para pedir que chamassem a sua familia, de quem n'esse instante tão amargamente se recordava. A imagem de Balbina e de sua filha passava-lhe por entre as visões da febre, como se as visse alli, pregadas á sua cabeceira.

Sentia na fronte a mão fina e delicada de Martha, e pousando lhe sobre o coração, que fortemente lhe palpitava, a face de sua mulher incendida pelo terror.

Jeronymo via tudo isto como atravez de um sonho.

Junto ao leito o desconhecido olhava-o caridosamente, levando-lhe de vez em quando a mão á fronte.

Momentos depois os olhos do operario, até alli brandamente cerrados, abriram-se como que para contemplar o desconhecido, que fitando-o parecia descobrir-lhe nas feições alguma similhança com as da pobre Martha. N'este comenos o enfermo fez um movimento como se tentasse falar.

Manuel, o creado que lhe servia de enfermeiro, approximando-se suavemente, perguntou-lhe se desejava alguma cousa.

--Falar... mas... não posso, murmurou o infeliz Jeronymo, deixando cair sobre o colchão o braço direito que tentára levantar.

O desconhecido approximou-se ainda mais.

--E ainda não houve meio de se saber quem é este homem?

--Ouviu aquellas palavras que elle disse? Foram as primeiras! respondeu o creado.

--Como se chama vossemecê, perguntou o desconhecido debruçando-se sobre o leito.

--Jeronymo, balbuciou o pobre; e a minha familia mora na rua do Meio, á Lapa.

--Basta! bradou rapidamente o desconhecido, e saindo do quarto sem que o criado tivesse tido tempo de lhe perguntar aonde se dirigia, encaminhou-se para o Loreto, afim de procurar uma sege.

Martha havía-lhe dado o nome da rua e o numero da porta. Dizendo ambas as cousas ao bolieiro, ordenou-lhe que trouxesse Martha e sua mãe ao Hotel de Bragança o mais depressa que lhe fosse possivel.

Foi n'este momento que Manuel desceu á casa do jantar para dizer a Tristão de Almeida que o ferido estava no uso das suas faculdades.

Deixemos o mysterioso descobridor do pae de Martha esperando á porta do hotel a mulher e a filha de Jeronymo, e vejamos o que se está passando no quarto do ferido.

X

--Ora graças a Deus que está livre de perigo, exclamou Tristão de Almeida approximando-se do leito de Jeronymo. Não calcula o quanto me tem feito soffrer a sua prostração. Quero que nos perdôe todo o mal que involuntariamente lhe causamos, eu e o meu amigo visconde.

--Mas agora, felizmente, sente-se melhor! perguntou o visconde approximando-se de Tristão.

--Nem mesmo sei como me sinto, meus caros senhores, respondeu Jeronymo, como se ainda estivesse sendo victima de uma allucinação. De quanto se passou, continuou elle, com uma voz muito enfraquecida, lembro-me apenas que fui atropellado por um trem, e de nada mais me recordo. Sei que tenho tido umas dôres horríveis tanto na cabeça como em todo este lado direito, e nada mais posso responder a vossa senhoria. O que apenas me mortifica é lembrar-me os cuidados em que deve estar minha pobre mulher e filha, o resto será o que Deus quizer. Tratamento, graças aos senhores, vejo que me não tem faltado. O que eu tambem agora desejava pedir-lhe eram dois favores; o primeiro, que me dissessem onde estou, e o segundo, que mandassem immediatamente a minha casa participar a Martha e a minha mulher que estou aqui, vivo e bem tractado. As infelizes a esta hora cuidam que fui atacado pela febre amarella, e andam á minha procura por toda a parte.

--Emquanto ao sitio aonde se encontra, respondeu Tristão, bastará dizer-lhe que está entre amigos, e que nada lhe faltará; emquanto a mandar chamar sua familia, queira dizer-me aonde mora.

--Moramos na rua do Meio n.º 7, Lapa, respondeu Jeronymo, fazendo ao mesmo tempo uma dolorosa contracção.

--Que é isso, meu amigo? acudiu rapidamente o commendador dirigindo-se ao mestre de obras.

--É uma dôr muito grande que me toma a cabeça toda, respondeu elle, levando á fronte ambas as mãos.

--Veja se póde socegar um momento, e tranquillize se porque vamos immediatamente chamar a sua familia.

--Para que venham mais depressa vou mandar o meu trem, disse o visconde dirigindo-se para a porta.

--Bom será, visconde, ajuntou o commendador, quanto mais depressa descançarmos aquella pobre gente tanto melhor para todos.