O Conde de S. Luiz

Chapter 3

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Trazia apenas tres cartas de recommendação, uma para o visconde de Coruche, outra para o commendador Lopes de Miranda, e a terceira para a casa bancaria de Vaz Mendes e C.ª, extraordinariamente acreditada n'esta capital, não só pela notavel amabilidade dos seus gerentes, como pelo facto de já ter fallido tres vezes.

O visconde, o commendador e o banqueiro abraçaram gostosamente o seu recommendado. Como bons farejadores reflectiram que a caça era rara de mais para se abandonar por essas mattas de Lisboa, onde o genero tanto escasseia.

Disputada calorosamente entre todos tres a preza que promettia dar para succulenta refeição, transigiram, promettendo, como quaesquer jogadores da vermelhinha, que dividiriam entre todos os despojos da caçada.

Deixando-se de vogar na torrente de eternas adulações, Tristão de Almeida olhava para as facecias dos seus aduladores com aquelle olhar de experimentada velhacaria com que todo o homem do mundo se deixa levar, quando, porventura, no amago das lisonjas que lhe disparam, antolha, ou pelo menos fareja o mais leve indicio de estremado calculo.

Sem patentear a sua intelligencia ou, ainda mais, deixando-se passar por zote, Tristão ia cercando de lisongeiras esperanças o filão d'essa inexgotavel mina que os tres inseparaveis amigos julgavam descobrir na sua aurifera individualidade.

Mulher e filhas ainda não haviam entrado em scena. Constava porém que uma das meninas era de formosura extrema, e d'uma superior intelligencia. Não tardou uma semana que esse homem, ou para melhor dizer esse mysterio fosse discutido em todos os circulos.

Quem era? Qual o seu passado, ninguem o sabia; ao passo que elle conhecia a todos, e de todos sabia as chronicas. Se este, antes de ser visconde de tal era apenas Manuel Pinto com barracas de fressureiro, se aquelle, antes de barão, empregava a casca de polvo para tirar em baixo relevo a vera effigie de qualquer monarcha, ensaiando por esta forma a sua industria até conseguir a tiragem por meio do balancé; se aquell'outro, profundo amador do sexo fragil, tivera casa de alcouce no Brazil com o unico fim de matar o tempo.

Tristão de Almeida sabia o passado de todos, e todos ignoravam o seu preterito.

«É forçoso votar uma quantia para estes tres individuos, pensava elle, passeiando pela varanda do hotel e contemplando as aguas do Tejo que pareciam conhecel-o e sorrir-lhe. Se com vinte ou trinta contos de réis se contentam, satisfarei os seus desejos e poderei conseguir os meus fins. Graças a sir Francis Strolopp, tornei-me desconhecido.[1] Hoje pessoa alguma poderá descobrir que antes de ser Tristão de Almeida fui Felix Justino de Araujo como antes de ser Felix Justino de Araujo fôra Domingos de Andrade.

«É forçoso que me arranjem um titulo pelo menos de visconde. Quero ver minha mulher viscondessa, tenho n'isso o maior de todos os meus caprichos. Não que me seja preciso, para casar minhas filhas é-lhes sufficiente o seu dote de duzentos contos de réis. Brevemente encontrarão algum fidalgo arruinado, que tenha por unicos restos de grandeza o seu titulo, e isso... é genero que abunda muito em Portugal. Está decidido, quero um titulo. Começarei por ser apresentado em casa de alguma senhora protectora d'essas escolas de caridade, e dar-lhe-hei uma avultada esmola, afim de a applicar aos seus protegidos. Mas agora me recordo, ajuntava elle, desencostando-se do parapeito da varanda; o ensejo é favoravel. A febre amarella, levando a desgraça a centenares de familias, enlucta-lhes as suas habitações. Vou fundar um hospital. Serei o anjo dos tristes! Beatifica-te, Domingos de Andrade. Eleva-te aos olhos de Deus, Felix de Araujo. Derrama esse ouro que tanto te custou a adquirir, Tristão de Almeida, e serás um dia aquillo que te aprouver.»

N'este momento, bateram á porta da sala. Tristão mandou que abrissem, e entrou um criado annunciando o visconde de Coruche.

--Que entre, disse lhe Tristão de Almeida retirando-se da varanda e dirigindo-se para o salão.

O visconde era um homem de cincoenta annos, mas que parecia ter quarenta quando muito.

Dotado d'uma inteligencia regular, já pelos dotes physicos de que Deus fôra prodigo para com ele, já pela riqueza de que por duas vezes havia disposto, era ainda, apezar da sua decadencia, o primeiro rapaz d'esta terra, onde se não envelhece antes dos setenta e seis a setenta e sete annos, graças á temperatura do seu clima.

Quando entrava no Marrare de Polimento, toda a moderna geração se curvava deante d'aquelle que havia sido o chefe da velha guarda.

Não havia rapaz que não escutasse avido de curiosidade as mil aventuras que se haviam dado n'aquella existencia tumultuosa. Havia sido o terror da banca portugueza no salão do theatro de S. Carlos, como na caixa do mesmo theatro fôra o invejado emulo de todos os seus contemporaneos, em resultado das innumeras conquistas que em cada epocha se permitia. Ninguem montava como o visconde! Os seus cavallos eram os primeiros de Lisboa. Tivera por sotas da sua magnifica sege o Feliciano e o Bem Bom!

Aos vinte anos, casara-se com uma prima, a filha do conde de ***. Quinze dias depois, n'um camarote de primeira ordem da Rua dos Condes, estava a viscondessa e defronte dela, noutro camarote da mesma ordem, miss Ellen Barkshead, voltando de vez em quando o rosto para a rectaguarda para melhor falar com o marido da viscondessa.

Como se vê, era um homem completo.

Dois anos depois entregou a viscondessa a sua meia alma a Deus deixando sobre a terra a outra metade, para ser previamente repartida por uma multidão de mulheres que disputavam entre si o voluvel coração do visconde.

Extravagante mais por indole do que por ostentação, o fidalgo deliciava-se nos encantos dos seus desvarios, saboreando as commoções que d'elles lhe resultavam, com o mesmo deleite com que o gastronomo delicia o palladar nos prazeres d'uma variada mastigação. Era o verdadeiro sybarita da estroinice.

Senhor d'uma casa de vinte contos de renda, não tardou muito que a visse desbaratada em custosas viagens.

Aos trinta annos estava pobre! Tinha por unico recurso a morte de um tio de quem era herdeiro forçado, porém a pertinaz saude do velho fazia com que o pobre visconde estivesse quasi a esmorecer no caminho da vida, onde se assentava desanimado, como o peregrino, a quem o desalento feriu no começo da sua jornada.

Um dia, finalmente, o velho aristocrata, mais talvez para acceder aos ardentes desejos do seu arruinado sobrinho do que para descer aos abysmos do inferno, que por direito de conquista lhe pertencia, cerrou brandamente as palpebras, e partiu d'esta para peior, segundo a opinião das suas victimas, deixando por seu universal herdeiro o visconde de Coruche.

As privações porque este passára foram completamente esquecidas desde que se encontrou novamente possuidor d'um vinculo cujo rendimento excedia seis contos de réis, e esquecidos tambem se julgaram os seus crédores, porquanto lhes foi necessario lançarem mão de meios pouco brandos para adquirirem, senão a totalidade do devido, pelo menos o capital confiado ao visconde, com juro modico e rasoavel. O fogo d'aquella eterna juventude, amortecido durante cinco annos de amargura, reanimou-se então com todo o esplendor do seu brilho! O visconde tornou a entregar-se a todos os prazeres, com o ardente desejo de quem apenas se recordava d'elles.

A sua vida era um mysterio. Todos os dias se dizia que estava arruinado, porém tanto a casa como o trem conservavam-se como no tempo do apogeu da sua riqueza.

D'onde lhe viria o dinheiro para tanto? Eis o misterio que a pessoa alguma era dado descortinar.

Ao cabo de alguns annos, o vinculo que herdára teve o mesmo resultado que havia tido o que seus pais lhe deixaram, porém desta vez a situação era mais difficil, não tinha parente algum para quem apellar.

Não podendo recorrer aos mortos, decidiu-se a explorar os vivos. Escudado pela prestigiosa fama que o acompanhava, fez do seu nome uma industria.

Os rapazes que entravam na sociedade desejavam todos ser-lhe apresentados. O visconde conhecia isto, e, esquivando-se a principio, anuia finalmente, não sem mostrar quanta honra ele lhes dispensava colocando-os no rol de seus intimos.

Todos á uma dariam metade do que possuiam para se tratarem por tu com o visconde, no que ele era assaz difficil; a sua intimidade era um genero de superior qualidade para que muitos se podessem ufanar de o possuir.

Ainda que as suas gentilezas eram por todos conhecidas, todos ou quasi todos lhas desculpavam. Estimado nos principais circulos onde aparecia, nem uma só pessoa se atrevia a dar-lhe a mais pequena mostra de desconsideração.

Foi pois o visconde um dos tres individuos a quem Domingos de Andrade, ou o commendador Felix de Araujo, ou Tristão de Almeida, para maior exactidão desta veridica historia, foi apresentado.

--Quanto estranhei não o ter encontrado hontem no theatro, meu caro amigo, disse o visconde, reclinando-se commodamente n'uma poltrona. Ha muito tempo que não vejo S. Carlos tão brilhante. O tenor, como sempre, cantou admiravelmente. E no que diz respeito ás toilettes, não póde calcular, e impossivel seria descrever-lh'as. Felizmente não se tem espalhado muito o panico em Lisboa. O cholera de 1833, de que eu tenho uma vaga reminiscencia, aterrorizou muito mais os habitantes do que esta innocente epidemia. Ha um tempo a esta parte, tudo aqui em Lisboa é pobre e acanhado. Da febre amarella, diz-se: tem morrido muita gente; do cholera, dizia-se com espanto: assim mesmo tem escapado alguem. Isso é que foi uma epidemia, meu amigo.

--Assim ouvi dizer. N'essa epocha estava eu em Buenos Ayres, respondeu o commendador, notando ao mesmo tempo a estudada desenvoltura com que o visconde o tentava seduzir. Pois eu hontem não fui a S. Carlos, ajuntou elle, por ter tido minha filha alguma coisa indisposta.

--N'esse caso fez muito bem, sr. Tristão. O tempo não está para brincadeiras. Eu mesmo, que tenho uma saude de ferro, se n'este momento sentisse a mais leve indisposição, começava por me tractar como estando realmente ameaçado pela epidemia. Em primeiro logar está a nossa saude. Prefiro-a a tudo, até á riqueza.

--Porêm quando se reunem essas duas venturas... acudiu Tristão de Almeida, simulando um gesto de pueril ingenuidade.

--Então o mundo é um verdadeiro paraiso, pelo menos assim o julgo. Muitos rapazes que por ahi conheço possuem, como eu, saude e dinheiro. Encontro-os sempre curvados ao pezo de uma terrivel fatalidade. Nunca se consideram felizes! Fazem da melancolia a sua companheira inseparavel, e dando-se ares de Antonys, arranjam um farnel de desventuras, e vão com elle por essas ruas da capital armando á compaixão das suas Lesbias. Eu sou o contrario; a minha alegria é chronica. Se eu não tenho coisa alguma que me entristeça, para que demonio hei de dizer mal do mundo que tantos deleites me faz experimentar?

--Sou da sua opinião, sr. visconde. O mundo é apenas mau para os tolos, ainda que ha muita gente que diz o contrario. Quem dispozer de boa saude e tiver alguns meios, deve pedir a Deus que o conserve largos annos sobre a terra. Mas voltando agora a outro assumpto, ajuntou Tristão de Almeida, que já começava a impacientar-se, como o leitor, do estirado dialogo do visconde; quanto estimo que me tenha dado a honra d'esta visitasinha, não só pelo prazer da sua companhia, como pela necessidade que tenho de lhe falar. Preciso um conselho seu.

--Um conselho meu! exclamou o visconde profundamente admirado. É a primeira pessoa que m'o pede! Todos me chamam um rapaz extravagante, continuou elle, olhando ao mesmo tempo para um espelho que lhe ficava fronteiro; vossa excellencia quer guiar-se pela minha opinião? Provavelmente trata-se da compra d'algum palacio, e alguem houve que teve o mau senso de lhe dizer que eu era um homem de gosto.

--Nada, não se trata d'isso.

--Então, provavelmente, quer me consultar ácerca da mobilia, ou das carruagens, ou dos cavallos?

--Tão pouco, respondeu serenamente Tristão de Almeida. Isso ficará para mais tarde. Por agora trata-se apenas de uma obra de misericordia;--fazer bem aos desgraçados.

--Se tal fôr, acho muito justo, e desde já me offereço a ajudal-o em tudo quanto me seja possivel.

--Sentemo nos, disse Tristão apontando lhe para o sophá. Minha esposa, que tem o habito de empregar na pobreza a mezada que lhe dou para os seus alfinetes, lembrou-se ha dias de gastar uns contos de réis n'um asylo de creanças desvalidas. Que lhe parece a idéa?

--Não a póde haver melhor, respondeu o visconde, e se vossa excellencia m'o permitte, desde já me comprometto a fazer com que minha tia, a sr.ª condessa de Villa Velha, venha immediatamente procural-o afim de o iniciar n'essas associações. Recordo me d'ella, porquanto é uma das mais assiduas obreiras do grande monumento da caridade. Não ha asylo para que não seja consultada e é sempre a sua opinião a que prevalece sobre todas as outras. Se vossa excellencia quer, o meio é muito simples, e torno a repetir-lhe, hoje mesmo me encarrego de tudo.

--Pois meu caro amigo, acudiu fleugmaticamente Tristão de Almeida, não me associo á opinião de minha mulher nem á sua. Tenho outra idéa, e creio que será muito mais razoavel.

--Sim?...

--É verdade. Lembrava-me de fundar um hospital para os enfermos atacados de febre amarella. Isso em primeiro logar; depois, quando este terrivel flagello tiver abandonado Lisboa, então sim, então adoptarei a idéa que teve minha mulher.

--Approvo, e desde já devo confessar que tanto eu como sua excellentissima esposa ficamos completamente vencidos.

--Approva?

--Applaudo.

--E dispensa-me a sua protecção n'esta pequena obra de caridade?

--Conte commigo, respondeu o visconde puxando pela charuteira e offerecendo um magnifico havano ao seu interlocutor.

--Poderemos hoje mesmo começar os nossos trabalhos? perguntou Tristão de Almeida, acceitando o charuto que lhe fôra offerecido.

--Quando queira, respondeu o visconde de Coruche, tirando da algibeira do collete uma caixa de phosphoros magnificamente cinzelada.

--Vamos então procurar o commendador e seguiremos d'alli para casa de Vaz Mendes. Tanto um como o outro é de suppôr que nos possam ajudar em muito.

--Assim o creio, murmurou o visconde, accendendo o charuto e passando-o a Tristão de Almeida.

* * * * *

Momentos depois entrava este para dentro do trem do visconde. Quando a carruagem saia o portão e voltava para a rua do Ferregial, espantou-se o cavallo da sella, e esbarrando no passeio, atropellou um individuo, deixando-o sem sentidos. Sairam ambos e levantaram o desgraçado.

Pegando elles mesmos no corpo inerte da victima, transportaram n'a para o hotel de Bragança.

Tristão de Almeida expediu logo dois creados em procura de medico. Por excepção, o doutor não tardou meia hora!... Das feridas que o atropellado recebera na cabeça nenhuma era de gravidade, comtudo não havia tornado a si.

Tristão de Almeida, com a mão do enfermo entre as suas, parecia com profundo interesse procurar-lhe a vida nas pulsações. Seria calculo ou verdadeira caridade? Sabia o Deus!

Terminado o curativo, o homem descerrou as palpebras, fitando o que havia em torno de si com olhar turvo e desvairado.

É melhor deital-o immediatamente, não lhe sobrevenha alguma congestão, disse o doutor tomando o pulso do enfermo.

Depois de ordenarem ao criado de mesa que arranjasse um quarto, Tristão de Almeida e o visconde levaram em braços o ferido e deitaram-n'o sobre um leito, pedindo ambos ao medico que voltasse antes da noite.

--Começa hoje a espalhar as joias da sua caridade, disse-lhe o visconde com falsa ingenuidade.

--Quizera antes ter perdido dez ou doze contos de réis do que ter sido causa de similhante desgraça, respondeu-lhe Tristão. Agora, sr. visconde, ajuntou elle, emquanto vamos tratar dos nossos negocios, será bom recommendar a minha mulher e a minhas filhas que venham para a cabeceira do ferido.

--Será uma grande alma, pensava o visconde.

--Foi um magnifico prologo, dizia comsigo Tristão.

Meia hora depois dirigiam-se ambos para casa do commendador.

[Nota de rodapé 1: Tristão de Almeida lera a preclarissima obra de sir Francis Strolopp, e procurando um celebre chimico allemão, conseguira que este lhe transformasse a physionomia a ponto de se tornar desconhecido de si mesmo.]

VI

--E já lá vão as cinco, as seis, e as sete, e Jeronymo sem chegar! Virgem Santissima que lhe terá acontecido?

Isto dizia a infeliz Balbina, olhando ora para o relogio, ora para uma pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição, defronte da qual ardia a luz frouxa e melancholica de uma lamparina de azeite.

--Ha dezoito annos que somos casados, continuou ella voltando se para a tia Marianna, e nunca tal me aconteceu! E sobretudo n'este tempo! Quem nos diz que elle foi atacado pela febre, e que o levaram; morto talvez; morto, o meu querido Jeronymo? Deus permitta que Martha se não demore. Ella já tinha tempo e mais do que tempo para voltar.

--Não se apoquente, sr.ª Balbina. D'aqui á rua de S. Francisco não é tão perto como julga, e demais ainda não ha uma hora que foi. Coitadinha! Desacostumada como está de andar por essas ruas! Porque não havia de me ter deixado ir em sua companhia? Valha-nos Deus! Não ha senão desgostos para os que são bons como vossemecê.

--Isso é coisa sabida, tia Marianna; parece que quanto mais a gente quer--como o outro que diz--estar nas graças de Deus, mais o demo que as tece está puxando pelo fio da felicidade! Eu estou como doida! Se Martha se demora mais algum quarto de hora, sou eu quem os vae procurar a _ambos e dois_. Vossemecê fica aqui para o que der e vier, ajuntou a pobre Balbina, passeiando desassocegadamente de um para o outro lado do quarto.

--Ainda não tem razão para estar dizendo mal á sua vida. Quem sabe se ambos se encontraram?...

--Tenho na mente que não, sr.ª Marianna; e demais, não sei o que me diz o coração. Parece que tudo se está preparando para que haja n'esta casa uma grande desgraça. Se a minha amiga visse a maneira por que hoje nos olhou a tia Monica! Não lhe bastou ter-nos rogado a praga que nos rogou...

--Ora deixe-se d'isso, sr.ª Balbina! Não creia em bruxarias. Deus é bom de mais para conceder similhante poder aos mortaes.

--Se ouvisse como hoje esteve a _ouviar_ a minha cadella! Diga-o ella! Por mais que pozesse as cadeiras de pernas para o ar, e que voltasse um sapato de solla para cima, não houve meios de fazer com que se calasse o pobre animal! Eu bem sei que tudo isto são coisas, como o outro que diz, que não vem nada ao caso, mas a gente cá tem os seus enguiços, e desgraçadamente a maior parte das vezes saem certos como dois e dois serem quatro.

--Pois sim, pois sim, socegue a minha boa amiga, e verá que não tarda muito que os veja entrar por essa porta. É preciso que a gente não seja tão desanimada. De que nos serviria a religião se nos não desse conformidade? Estar agora duvidando da graça de Deus, porque seu marido se demora mais duas ou tres horas!

--E como explica vossemecê o elle não ter vindo jantar?

--Quem sabe lá se encontrou o seu ganchosinho com que podesse ganhar algum vintem? Ignora vossemecê o seu genio? Aquillo é uma formiga para a familia. Parece-me que se o dia tivesse quarenta e oito horas, quarenta e oito horas seria capaz de trabalhar por dia.

N'este momento bateram á porta e a voz de Martha soou melancholicamente atravez das fendas do postigo.

Balbina ergueu-se rapidamente para lhe abrir a porta.

Martha vinha desfigurada.

--O pae, disse ella entre soluços, saíu da obra ao meio dia para vir jantar a casa. Ninguem me pôde dar noticias d'elle. Pedi a um pedreiro para me ajudar a procural-o, mas o pobre sentia-se muito incommodado e esquivou-se a acompanhar-me. Outro que lá encontrei começou a sorrir-se para mim de tal forma que não tive valor de lhe dizer quanto soffria, ajuntou Martha tornando-se vermelha como o lenço que lhe occultava os seus magnificos cabellos.

--Infame! exclamou Balbina approximando-se cada vez mais da filha.

--Fugi desorientada, continuou Martha suffocada pelas lagrimas, e quando vinha pelo Chiado, encostei-me a uma esquina quasi sem saber de mim. Então senti que me tocavam brandamente no hombro. Despertei como de um sonho, e vi um senhor muito bem vestido, perguntando me o que tinha. Disse-lhe que ia em busca de meu pae, pois receiava que tivesse sido atacado pela febre. O tal individuo compadeceu-se da minha sorte. Aquelle sim; nem siquer reparou se eu era bonita ou se era feia. Teve apenas tempo de me ver as lagrimas e não a côr dos olhos. «Não me atrevo a dizer-lhe que entre commigo n'uma sege, disse-me elle; seria offendel-a; mas espere, que vou chamar dois trens.»

Esperei, chegaram duas traquitanas.

--Entre, disse-me elle pegando-me na mão esquerda. Do coração lhe affianço, que póde estar tão segura como se fosse ao lado de seu pae, que espero em Deus encontrará com vida, acrescentou o individuo mettendo-me no trem.

Entrei sem saber como. Senti bater o guarda lama e os cavallos seguirem a trote.

De repente, a sua traquitana tomou a deanteira á minha.

Andámos, andámos até que chegou a um sitio onde havia um hospital. Os cavallos pararam. Elle então apeiou-se e perguntou-me os signaes do pae. Dei-lh'os. Entrou para dentro do edificio onde se demorou por alguns minutos, e voltou dizendo-me que não tinha entrado n'aquella casa.

Os trens partiram a galope. Fomos a dois hospitaes; o mesmo resultado.

Faltava apenas o da rua do Sol. Esse, já eu conhecia de nome quando a tia Marianna adoeceu. Ninguem alli tinha entrado desde as nove horas da manhã.

--Vá tranquilla para sua casa, e diga-me onde mora.

Dei-lhe o nome da rua e o numero da porta.

Pagou ao bolieiro dizendo-lhe que me viesse pôr em casa, o que não acceitei por causa da visinhança.

--E quem será esse individuo, para que lhe possamos beijar as mãos? exclamou Balbina, n'um transporte de profundo reconhecimento.

--Deus sabe! Oh! mas elle não me mentiu! respondeu Martha. Tenho tanta fé nas suas palavras! Se a mãe visse como elle me disse: «vá para casa, que ainda hoje hei de descobrir onde está seu pae.»

--E é muito novo esse homem? interrompeu Marianna.

--Uns trinta annos.

--Felizmente, ainda se pode dizer que a mocidade não está perdida de todo.

N'este momento, Balbina approximava-se da porta, preparando-se para sair.

--Mas onde vae? exclamou Martha. Pelo amor de Deus, minha mãe... Tenha prudencia! Onde pretende encontral-o? Na rua? Já vê que se lhe tivesse acontecido alguma desgraça, estaria infallivelmente em algum dos hospitaes, e graças a Deus, tal não succede.

--Embora! hei de encontral o, respondeu a pobre mulher tentando dar volta á chave para sair.

Marianna e Martha, ajoelhadas deante da pobre esposa, tentavam impedir-lhe a passagem.

E ella então, comprehendendo a inutilidade da sua saida, caiu de joelhos deante da imagem de Nossa Senhora. Imitando-a, Martha e Marianna acompanharam-n'a na sua oração.

E o relogio, seguindo n'um rumor compassado, continuava na sua material indifferença marcando os segundos e os minutos, ao som da chuva que, batendo de encontro aos vidros, ainda mais sombrio tornava aquelle quadro de amargura.

VII

Mudando de rumo, o visconde e Tristão de Almeida dirigiram-se primeiramente a casa de Vaz Mendes.

Depois de os escutar, o banqueiro annuiu gostosamente aos desejos do seu recommendado, promettendo-lhe desde logo fazer tudo quanto estivesse ao seu alcance para animar uma idéa tão philantropica.

D'alli partiram todos tres para casa do commendador Lopes de Miranda.

Egual acolhimento, como era de esperar, acrescentando que a mesma idéa exposta por Tristão de Almeida havia sido formulada por elle tres dias antes.

Tristão sorriu-se com a velhacaria que lhe era habitual, agradecendo á Providencia que os seus pensamentos se houvessem encontrado com os do excellentissimo commendador.