Chapter 2
--Ha perto de quatro annos, continuou o commendador dirigindo se ao advogado, que eu administro os bens d'esta senhora. O seu rendimento, que não chegava a um conto e duzentos por anno, subiu a um conto e seiscentos. Uma propriedade que lhe valia o muito quatro contos de réis, vendi-lh'a e appliquei o producto d'ella n'um negocio, que rende para cima de doze por cento. Que necessidade tenho eu d'isto tudo? Tenho empregado trabalho e tempo; e preciso eu por ventura de capitaes alheios para fazer as minhas transacções? Escusado será dizer que não. Para que o fiz? Para o seu bem! Boa paga, não haja duvida. Que esta lição me sirva! Pois, minha senhora, ajuntou elle, voltando-se para D. Marianna, rogo a vossa excellencia que ámanhã, sem falta, até ás onze horas da manhã, encarregue alguem de me tomar contas, e queira vossa excellencia vir tambem, afim de me passar recibo do dinheiro que tenho na minha mão. Hoje mesmo, se lhe fosse possivel, apezar de ser tarde, muito prazer me daria.
--Ámanhã aqui estarei, visto assim o exigir, respondeu D. Marianna, olhando ao mesmo tempo para o advogado, como que esperando a sua opinião.
--Sendo onze horas aqui viremos, disse o jurisconsulto, despedindo se do commendador.
--Que lhe pareceu? perguntou a viuva ao chegarem á porta da rua.
--Um homem honesto, ferido pela ingratidão que acaba de receber, respondeu fleugmaticamente o doutor. Em todo o caso, accrescentou elle, faça vossa excellencia o que quizer; sendo dez horas estarei em sua casa.
No dia immediato, conforme haviam combinado, apresentou se o advogado em casa de D. Marianna de Mendonça.
Ás onze horas metteram-se n'uma traquitana, e dirigiram-se ao escriptorio do commendador.
Contra todos os usos da casa ainda estava fechado.
--Que lhe parece isto? perguntou D. Marianna ao advogado, com mais receio do que na vespera ao perguntar-lhe como lhe havia parecido.
--Que é um homem ferido pela ingratidão, e que anda a tratar de levantar dinheiro para a embolsar d'essa quantia, respondeu elle ingenuamente.
Momentos depois começaram a apparecer varios individuos. O physionomista que de perto os observasse, veria em todos elles a mesma sombra de receio que se revelava no rosto pallido e transtornado de D. Marianna de Mendonça.
D'alli a duas horas ainda Felix de Araujo não tinha apparecido.
--Que lhe parece isto tudo doutor? dizia a viuva ás cinco horas da tarde, olhando para o advogado, que a contemplava com uma physionomia alvar.
Que é um refinado ladrão que nos deixa a todos desgraçados! accudiu um individuo que ouvira a pergunta feita pela viuva.
O commendador Felix Justino de Araujo havia fechado o escriptorio. Domingos de Andrade fugira, roubando dinheiro a todos aquelles que, como D. Marianna de Mendonça, o haviam depositado nas suas mãos.
Cinco dias depois D. Marianna, com a razão perdida, entrava para a casa dos doidos no hospital de S. José.
II
Pelos fins do anno de 1858, vivia n'uma pequena casa da Rua do Meio, freguezia de Nossa Senhora da Lapa, Jeronymo de Almeida, honrado mestre de obras, em companhia de sua mulher e de uma filha de dezeseis annos, chamada Martha. A excentricidade de caracter do operario, fazia com que todos os visinhos o detestassem. Para elle, não havia domingos nem dias santificados que o obrigassem a distrair-se do seu trabalho. A sua janella encontrava-se sempre fechada.
O cultivo do microscopico jardim era a unica distracção que n'esses dias se permittia. Alli entre sua mulher e sua filha, Jeronymo mondava o pequeno canteiro de hortaliça, que duas horas depois tinha de fazer as delicias da refeição domingueira. No armario da cozinha, esperava desde a vespera a garrafa do Cartaxo que figurava á sua meza, sobria sempre, porém honradamente disfructada com o suor do rosto.
Emquanto Jeronymo trabalhava no pequeno horto, Balbina, a esposa, assentada na cadeira de costura, largava apenas a agulha para agradecer a Deus o marido que a Providencia lhe havia destinado.
Martha, a preguiçosa Martha como Jeronymo n'esses dias lhe chamava, escondia os ferros de engommar, para seguir seu pae, sorrindo-se e gracejando a cada passo que elle dava pelo jardim.
Toda a visinhança da rua do Meio se mordia de despeito ao contemplar a beatifica tranquillidade d'aquella pobre mas venturosa familia; até uma sobrinha do sr. regedor, que se finava de inveja ao contemplar os olhos verdes de Martha, chegou a dizer ao sr. padre prior que era impossivel que toda aquella gente não tivesse grande peccado na consciencia, attendendo á constante reclusão em que vivia. O sacerdote, que conhecia o invejoso caracter da menina Gertrudes, passou de leve sobre o caso, e contentou-se apenas em responder-lhe que era tal a confiança que depositava na virtude d'aquella familia, que não teria duvida alguma, embora se sacrificasse a pôr fóra de casa a velha ama, a admittir Martha a viver em sua companhia, entregando-lhe nas mãos as chaves da dispensa, e tudo quanto possuia de mais valor. Gertrudes desanimou na lucta, contentando se apenas em desacredital-a em voz baixa, quando por ventura alguma das amigas lhe falava a seu respeito.
Defronte da casa de Jeronymo morava uma pobre velhinha, que se tornava um mysterio para toda a visinhança, passando apenas despercebida da familia do operario, pouco affeita a importar-se com as vidas alheias. A apparencia de sua casa, o seu trajar emfim, tudo revelava summa pobresa, porém nunca a sua mão se estendeu a pedir o obulo da caridade.
A velha costumava sair todas as manhãs a fazer as compras. Um dia a porta conservou-se fechada, e a tia Marianna, segundo lhe chamavam, não apparecia. Ou por curiosidade, ou por interesse, não faltou quem lhe batesse ao postigo. Em resposta ouviram-se apenas uns gemidos. O regedor chamou dois cabos de policia e mandou immediatamente arrombar a porta. Encontraram-n'a exanime sobre o leito. A infeliz havia adoecido com a febre amarella; foi esse um dos primeiros casos que se dera na freguezia da Lapa. Atterrados, não houve quem quizesse approximar se da enferma. Não tardou muito que o facto transpirasse por toda a visinhança. No momento em que o regedor, dois metros affastado da porta, dava as suas ordens para que fossem buscar a maca afim de conduzirem a velha ao hospital da rua do Sol, Martha, a loira Martha, saiu de casa e atravessou a rua, dirigindo-se ao logar do sinistro.
--Onde vae a menina? perguntou o sr. Venancio da Conceição.
--Levar esta gotta de caldo á visinha, respondeu Martha ao previdente regedor.
--Não consinto similhante loucura! disse elle; a velha foi atacada pela febre amarella, e vae immediatamente para o hospital.
--O que vocemecê não me póde impedir, é que eu pratique uma obra de caridade; e demais, veja se está no seu direito de mandar para o hospital uma pessoa que se póde curar em sua casa.
--Essa mulher não se póde tratar em sua casa, não tem familia.
--E quem lhe disse ao sr. que não tem quem a trate? acudiu Martha, afastando o regedor e dirigindo se para o interior da casa da tia Marianna. Ora essa! ajuntou ella, e se eu a quizer tratar, ha de alguem oppôr-se?! Creio que não. Com sua licença, sr. regedor; e entrando animosamente, dirigiu-se a uma alcova, onde a desgraçada, extorcendo-se em dolorosas agonias, cravava os olhos n'um pequeno crucifixo, collocado sobre uma commoda.
Os cabos, regedor, e todos quantos alli se encontravam, olhavam-se mutuamente sem proferir uma só palavra.
--Assim o quer, assim o tenha, disse a auctoridade, depois de alguns instantes de reflexão. Se ella fosse minha filha ou coisa que me pertencesse, por certo que não havia de lá entrar. Eu cá é que não tomo nada, acrescentou elle olhando com receio para dentro da casa.
Instantes depois, saía Martha de casa da velha.
--Mandem chamar immediatamente um medico, disse ella voltando-se para o regedor. Póde ser que ainda lhe possamos acudir. Pelo facto de ser uma pobre mulher, bem vê que não a devemos deixar morrer ao desamparo. E dizendo estas palavras, tornou a entrar para dentro da casa da tia Marianna.
--Vá á botica pedir soccorros, disse o regedor, voltando se para o cabo geral, e que venham immediatamente; porquanto, esta mulher pelo facto de ser pobre, não devemos deixar morrer ao desamparo, ajuntou elle, secundando as palavras de Martha, e repetindo-as como se fossem suas proprias.
O cabo geral, sem mais hesitar, voltou as costas aos circumstantes, e resmungando subiu a rua do Meio, dirigindo-se aonde a auctoridade o havia mandado.
Não tardou muito que á porta da tia Marianna se ajuntasse um circulo de curiosos. As visinhas a quem o terror da cruel epidemia havia infiltrado nos animos o mais terrivel desalento, debalde vociferavam contra a estulta caridade de Martha, e a pueril condescendencia do regedor, em annuir aos desejos da filha do mestre de obras. Revestindo-se emfim de todo o seu poder, o sr. Venancio da Conceição convenceu o auditorio, repetindo-lhe pela segunda vez, que, pelo facto da tia Marianna ser uma pobre, não a deviam deixar morrer ao desamparo.
N'este comenos, appareceu o mestre Jeronymo.
--A sua filha está doida de todo! diziam uns.
-Já tres vezes que vamos avisar a sr.ª Balbina para que a retire d'aquella casa e ainda não houve meios, acudiu uma ajuntadeira de calçado, que nem por isso gozava de muitos bons creditos na visinhança.
--Que loucura! que loucura! dizia a capellista.
--Parece que está a zombar da cholera do Senhor! acudiu respeitosamente a tia Monica, beata que vivia de resas por conta das fidalgas de Buenos Ayres, quando os seus affazeres não lhe permitiam conversar com o Todo Poderoso por conta propria.
--Se Deus a arrasta ao leito da moribunda, elle mesma a salvará, respondeu fleugmaticamente mestre Jeronymo, lendo-se-lhe, apezar de tudo, um certo receio pela vida da criança que estremecia.
--Muito estimo que assim penses, acudiu Balbina, que saira n'este momento de casa. O mesmo pensei eu quando Martha me foi pedir uma gotta de caldo; entregando-lh'o, entreguei a a Deus.
--Pois olhe, sr.ª Balbina, disse a capellista, fosse ella minha filha, não lh'o consentia.
--Cada qual tem o seu modo de pensar, sr.ª Margarida, e Deus fez-me assim; mas deixemo nos de mais dize tu, direi eu, e vamos a ver o que se poderá fazer por aquella infeliz. E sem mais reflexionar, entrou n'esse recinto mortuario, por onde momentos antes sua filha havia desapparecido.
--_Avé Maria, cheia de graça, o senhor é comvosco, benta sois vós_, dizia a beata. Forte impostora! accrescentou ella; aquillo não é senão para se fazer valer na visinhança.
III
Meia hora depois d'esta veridica scena, que acabamos de descrever, appareceu o medico.
--É alli, disse-lhe o regedor, apontando para a porta da tia Marianna.
--Siga me, disse o doutor, voltando-se para a autoridade.
O lance era fatal, não havia que hesitar. Amaldiçoando n'esse momento a má estrella, que o conduzira áquella posição, com as faces lividas de susto e de terror, o sr. Venancio seguiu o medico.
Junto ao leito de Marianna, fazendo lhe uma fricção nos joelhos, Martha, a filha do operario, debalde tentava chamar á vida essa que, n'um olhar turvo e desvairado, parecia contemplar lhe a angelica formosura.
Balbina, com um pequeno frasco chegado ao labio superior da enferma tentava fazel a aspirar o conteùdo do vidro. De pé, contemplando este doloroso quadro, Jeronymo pedia a Deus se compadecesse de sua familia.
Approximando-se da enferma, o medico tomou-lhe brandamente o pulso, e voltando-se em seguida para Martha, pediu-lhe uma véla, afim de melhor analysar a vista da moribunda.
--Encontro-a muito debil, disse o esculapio em voz baixa; é de suppôr que não a possamos salvar; comtudo, far-se-ha a diligencia, ajuntou elle cravando os olhos no rosto pallido e abatido de Martha.
Abrindo em seguida a caixa dos medicamentos, começou de applicar lhe os que o seu estado exigia.
--Esta senhora pertence á sua familia? ajuntou o medico voltando se para Jeronymo.
--Não, senhor; comtudo minha filha interessa se muito por esta desgraçada; e se não fosse Martha, talvez a tivessem mandado para o hospital.
--Se a teem removido d'este leito, ao chegar lá seria um cadaver, retorquiu o doutor, palpando a fronte da enferma.
--Parece lhe que poderemos ter esperanças? perguntou Martha, approximando se do leito.
--Veremos á noite. Sendo sete horas, se poder, voltarei; e, despedindo-se dos circumstantes, saiu d'aquella casa, levando impressa na memoria a imagem candida e celeste da filha do operario.
Os moveis da tia Marianna reduziam se ao pequeno leito de espinheiro onde jazia, uma enorme papelleira, um bahu, e quatro cadeiras de palhinha, completamente estragadas nos assentos.
Roupas, se as havia, estavam fechadas; e nem ella lh'o podera responder, nem era dado a Balbina o perguntar-lh'o n'esse momento. Dirigindo se a casa, trouxe d'alli quanto necessario lhe pareceu afim de alliviar no que podesse os incommodos da enferma.
--Sempre lhe gabo a pachorra, disse a sr.ª Margarida, ao ver os lençoes alvos como a neve, que a mulher do operario levava no braço. Estar estragando assim as suas roupas brancas com quem pouco póde viver! Não era eu, que Deus me livrasse! E demais, sr.ª Balbina, uma pobre de Christo como a tia Marianna, mais lhe valera o ir para o hospital. Supponha a senhora que fica para ahi entrevada, quem ha de sustental-a?
--Deus nunca faltou a pessoa alguma, sr.ª Margarida; e demais, cada qual que se metta com a sua vida, que eu pela minha parte nunca me intrometto com as alheias, respondeu Balbina, cortando pelo fio as palavras da capellista, e dirigindo-se para casa da tia Marianna, onde a esperavam Martha e seu marido.
A velha havia recobrado a razão, e sorria-se brandamente para a filha do operario, como se n'aquelle olhar significativo estivesse agradecendo a Deus o anjo que a Providencia lhe havia deparado n'esse momento de suprema angustia.
Jeronymo e Balbina, assentados n'um bahu, olhavam para aquelle quadro enternecedor, pedindo ao mesmo tempo nas suas preces silenciosas que lhe livrassem sua pobre filha.
Meia hora depois de arranjada a cama, a velha sentiu-se mais alliviada. As horriveis dôres por que passara, iam-lhe diminuindo a pouco e pouco, e á face, de pallidez mortal, subira-lhe de novo o calor e a vida.
Nem uma só das visinhas, approximando se á sua porta, foram pelo menos indagar o estado da sua doença.
Ás sete horas, como o havia promettido, voltou o doutor. A enferma estava livre de perigo.
IV
Oito dias depois, com grave assombro da visinhança, a tia Marianna, envolta n'um capotezinho azul, apparecia de novo á janela da sua casa.
Os effeitos da febre amarella haviam-lhe passado desapercebidos pela sua organização de ferro. Ao vel-a, ninguem poderia acreditar que essa mulher, aos sessenta e seis annos, podesse haver resistido aos golpes d'uma doença, que tanta gente nova e robusta ceifára n'aquellas immediações.
Todos viam na sua convalescença, começando pela beata, um favor da Providencia; e nem uma só bocca se abriu para dizer, quanto a dedicação da pobre Martha ajudára aquelle verdadeiro milagre.
Almas vis e denegridas que não comprehendeis o bem, como poderieis soltar a voz para elogiardes a virtude, se nos vossos corações não existe mais do que a inveja e a podridão!
Sem valor de praticardes o bem, fere-vos o goso que experimenta o coração, que se entrega aos deleites da caridade.
A apotheose do proximista, echoando nos ouvidos do misanthropo, deve produzir-lhe um effeito atroador, como o som do ouro espalhado pela pobresa, no tympano do avarento.
Ninguem da visinhança se atrevera a soccorrer a pobre doente, ninguem repartira o seu jantar com a infeliz; porém, quando a viram de pé, salva, proclamando por toda a parte o quanto era devedora á familia do operario, todas as visinhas, consumindo-se de inveja, lhe voltavam as costas para não ouvirem os elogios que a velha do coração lhe prodigalizava.
Desde esse momento, a pouca affeição que todos consagravam á familia de Jeronymo, tornára-se em decidida aversão. Começando pelo sr. regedor, e acabando na sr.ª Margarida da Silva, ninguem podia supportar aquella pobre gente, que, fechada quasi sempre em sua casa, de mais coisa alguma se importava a não ser dos seus arranjos domesticos.
Quanto mais a tia Marianna proclamava em alto e bom som as virtudes de Martha, maiores antipathias ia inspirando a filha do operario. Quando, acompanhada por sua mãe, saía aos domingos para ir á missa da Lapa, as visinhas zombavam sempre ao vel-a passar. Hoje, porque o seu lenço estava mal engommado, ámanhã porque o seu capote de panno azul já começava a mostrar o fio. A pobre victima fazia que nada percebia dos continuos gracejos que contra ella dirigiam. Chegou a pedir a sua mãe, por tudo quanto havia, que não a obrigasse a ir á missa das onze.
--Que te importa o que diz toda essa gente? exclamava ás vezes o sr. Jeronymo. O que elles têem é inveja do teu comportamento. Não tardará muito, se Deus quizer, que tenha ahi uns _ganchosinhos_ que me devem render um par de moedas, verás então como lhes hei de fazer estalar a castanha na bocca, quando te virem o bom capote aos hombros, e o bom cordão de seis moedas ao pescoço.
--Pouco me importa com o que elles dizem, respondia lhe Martha. Não tenham de abocanhar no meu credito, o mais, tanto se me dá como se me deu. O que eu queria era ajudar a pobre velhinha.
--Pois tambem não tardará muito que lhe façamos algum bem, respondeu o mestre Jeronymo, como se um pensamento lhe acudisse ao espirito. Ámanhã tenciono ir a casa de tua madrinha, para que ella lhe possa obter alguma esmola da senhora Condessa. Que te parece, Martha? Continuou o mestre de obras, cravando os olhos no rosto candido de sua filha, e revelando no gesto o prazer que lhe ia n'alma, ao comparal-a com todas as raparigas suas visinhas.
--Muito estimarei que isso não fique no rol dos esquecimentos, respondeu a criança sorrindo-se ternamente para seu pae. Salvamos a pobresinha da morte, é mister não a desampararmos, nem deixal a morrer de frio ou de fome.
--De frio não morrerá ella por certo, acudiu Balbina, collocando o ferro de engommar sobre o descanço. Ainda esta manhã lhe dei o capote que punhamos no leito.
--Quer dizer, interrompeu Jeronymo, que de hoje em deante... se tivermos frio...
--Que nos havemos de contentar com os cobertores, respondeu a caridosa Balbina, tornando a pegar no ferro, e approximando-o da face para lhe calcular o calor.
--Seja o que vossês quizerem, que eu, pela minha parte nunca as reprehenderei por qualquer acção boa que praticarem; e já que tivemos a felicidade de salvar a vida d'essa infeliz, é justo não a deixarmos agora morrer ao desamparo. Estou da opinião da Martha.
--Ou eu me engano muito, ou a tia Marianna já teve melhores dias, disse Martha. Ha na sua vida algum mysterio que ella nos encobre, mas que, apezar de tudo, adivinhamos, respondeu Martha, com aquella intuição particular que tantas vezes se encontra no coração da mulher.
--O mesmo penso eu, ajuntou mestre Jeronymo. Nunca fui homem que frequentasse estas casas, porém reconheço ás vezes um não sei quê nas maneiras da tia Marianna, que me levam a crer que os seus principios não foram como os nossos; e tenho cá na mente, que mais dia menos dia tudo se ha de descobrir. Quando vossês hontem foram levar aquellas camisas a casa da fregueza, e que fiquei aqui em sua companhia, ainda mais me convenci das minhas suspeitas. «Sr. Jeronymo, disse me a tia Marianna, quem sabe se um dia a Providencia, lembrando se de uma desgraçada que abandonou sobre a terra, a tomará de novo debaixo da sua protecção. Se tal acontecer, lembre-se do que lhe digo hoje, nunca serei ingrata para uma familia a quem tanto devo.» Ora, além d'estas palavras serem proferidas, sim... assim como o outro que diz, com uns certos modos finos e delicados, levam-me a pensar que a tia Marianna não é, nem nunca foi o que parece. Em todo o caso, seja ella quem fôr, tem precisão, é necessario soccorrel-a, e hoje mais do que nunca, quando a inveja a começa a perseguir. Vejam lá a capellista! Até essa mesma, que eu suppunha tão virtuosa, como se uniu a todas as visinhas para lhe cortarem na pelle, mais a ti, minha filha! Valha nos Deus, que mundo este! ajuntou o mestre de obras, dirigindo-se para a cosinha, em cuja chaminé Balbina lhe havia posto a ceia a aquecer.
N'este momento bateram apressadamente ao postigo.
--Que teremos? disse Balbina.
Martha levantou-se, e ao reconhecer a voz que da rua lhe falava, abriu immediatamente a porta.
Era a tia Monica.
--Deus seja comvosco n'esta casa, e que o Senhor lançando sobre nós a sua divina benção, queira proteger a mais santa e a mais virtuosa de todas as familias, disse a beata. Acaba de ser atacada pela febre amarella a nossa visinha Margarida, ajuntou ella. No momento em que me estava vendendo um vintem de meio grosso, a colera de Deus desceu sobre a peccadora e alli jaz sem protecção nem abrigo, porquanto todas as visinhas receiam que tambem o Senhor as castigue pelos actos que teem praticado sobre a terra. Venho pedir a vossemecê, sr.ª Balbina, que se compadeça d'essa desgraçada, e que me empreste esse milagroso frasquinho com que tornou á vida a tia Marianna.
--Não foi o remedio que lhe deu minha mulher que fez com que a tia Marianna melhorasse, acudiu o mestre Jeronymo, que da porta da cosinha ouvira as exclamações da beata. Façam o mesmo que fez minha filha. Vão chamar o sr. regedor e peçam-lhe que mande immediatamente buscar-lhe os soccorros, ajuntou o mestre de obras com modo aspero e descontente. Quanto ao frasco, continuou elle, voltando-se para sua mulher, podes emprestar-lh'o se é da tua vontade, porém servir-lhe de enfermeira, maletas me dêem se em tal consinto. Bem basta o que basta, sr.ª Monica. Para outra qualquer pessoa talvez que nem fosse preciso que me pedisse por duas vezes, mas para a sr.ª Margarida! Nem que me pezassem a ouro, ou que santo me fizesse o sr. padre prior. Estou farto e mais que farto da ingratidão, sr.ª Monica. Não foi a sr.ª Margarida a primeira a cortar na pelle de minha filha, por ella ter ido acudir á tia Marianna? E não foi só ella como tambem as outras visinhas! Pois agora que se aguentem como melhor lhes parecer. Que se ajudem umas ás outras, que eu pela minha parte, não consinto que lá ponham o pé, nem minha mulher nem minha filha.
[Ilustração: N'este momento a viuva acabava de assignar... (_pag. 15_)]
--Cruzes! Credo! Mãe Santissima! Que modos, sr. Jeronymo! E eu que julgando-o um Santo, me atrevi a vir a sua casa. Que a ira de Deus descendo sobre esta morada castigue o maior de todos os peccadores, resmungou a tia Monica á medida que se approximava da porta por onde momentos depois saía apressadamente, olhando ao mesmo tempo para Jeronymo, cujo olhar, incendiado pelo desespero que a praga lhe havia produzido, incutia certos receios no animo da corretora de orações.
--Que lhes pareceu o traste? perguntou o mestre Jeronymo depois de alguns momentos de profunda reflexão.
--Se meu pae me deixasse ao menos ver o estado em que se encontra essa pobre mulher?... perguntou ingenuamente a caridosa Martha.
--Nem por sombras, respondeu o operario. Vamos pedir a Deus pela saude, e depois descançarmos o corpo para o trabalho de ámanhã.
Momentos depois, ouvia-se apenas em casa do operario o ciciar d'esta curta, mas eloquente oração:
Bom Jesus, todo Poderoso, Filho da Virgem Maria, Soccorrei-nos esta noite E ámanhã por todo o dia.
Se na terra não coubermos, Levae-nos Senhor aos céos, Rogae por nós peccadores, Virgem Santa, Mãe de Deus.
V
Havia dias que tinha chegado a Lisboa, vindo do Rio Grande do Sul, um abastado capitalista por nome Tristão de Almeida, segundo rezava o seu passaporte. Acompanhavam-n'o sua mulher e duas filhas.