Chapter 14
--Pois eu t'o explico. Magdalena dirigindo-se pela opinião geral, julga-me incapaz de ser um bom marido, por estes dez ou doze annos, emquanto tiver sangue na guelra, segundo a phrase de Olympia! Ora, meu amigo, Magdalena é ciumenta como uma leôa, que não admitte que se divida o coração, prefere morrer por mim, abraçada á cruz do seu amor, do que ser minha, sem ter fé na fidelidade da minha alma. Comprehendes?
--Olha, se queres que te diga a verdade, não comprehendo bem essas cousas. Ahi tens tu porque eu gosto da minha Olympia. Quanto a essa, estou certo que me não ha de atormentar muito com ciumes, nem aturdir-me com aquelles estirados monologos de sentimento, em que Magdalena está constantemente delirando. Sempre te disse que não trocava a minha felicidade pela tua, se por ventura viesses a ser meu cunhado, o que jámais pude acreditar, e se queres que seja sincero comtigo, nunca me pude aperceber d'essa paixão, que tu dizias ter-lhe inspirado, apezar de m'a estares querendo metter pelos olhos. E que tencionas fazer? ajuntou elle mudando de tom.
--Que tenciono fazer! Conformar-me com o meu destino, como ella...
--Como ella quê? interrompeu o conselheiro, recolheres te tambem a um convento?
--Não, mas esquecel-a em todas as loucuras da vida! No jogo, na embriaguez...
--Mau systema, respondeu o conselheiro.
--Sabes uma cousa, João? acudiu o visconde despeitado com a serenidade do conselheiro.
--Dize, respondeu este fleugmaticamente.
--Está-me revoltando essa tua serenidade! Devias interessar-te mais por mim, lembra-te...
--Que te sou devedor da minha futura felicidade, mas que queres! Creio pouco na tua paixão. Tenho-te visto trinta vezes apaixonado, e no dia seguinte, curado d'esse sentimento com o coração prompto e limpo para receber outro que te appareça. Se fosses pobre como eu, se tivesses as minhas theorias sobre o dinheiro, então poderia acreditar que estavas penalizado pela entrada no convento, porém como se não dá isso, felizmente para ti, pouco tenho a compadecer-me. Ámanhã por estas horas, completamente esquecido de Magdalena, apaixonas-te por qualquer mulher que seduzes pelo teu ouro e pela tua intelligencia, e appareces-me d'aqui a dias curado d'essa paixão que te atormenta.
O visconde mordeu os beiços de raiva. Havia tanto de ironia nas palavras do conselheiro, que não tardou muito que as intenções lhe fossem completamente denunciadas.
--Que tencionas portanto fazer? perguntou elle a Poderosa, querendo dissimular a perturbação que lhe haviam produzido as suas palavras.
--Que tenciono fazer? Ir immediatamente para Buenos-Ayres. E tu?
--Tenho muitas voltas a dar, não poderei ir senão de tarde. E despedindo-se do conselheiro, o visconde saiu, deixando o entregue ás suas profundas reflexões.
«Pobre visconde! Realmente, compadeço-te. Quanto melhor te fôra o teres sido sincero para commigo. Se tens sido esperto, apanhavas-me cincoenta ou sessenta contos por me teres conseguido este casamento. Assim, melhor foi, custar-me-ha apenas cincoenta ou sessenta libras!»
Meia hora depois, o conselheiro mandou buscar um trem, e dirigiu-se para Buenos-Ayres.
XXXIX
São tres horas da tarde. O palacio dos condes de S. Luiz, que na vespera ainda brilhantemente illuminado, abria os seus magnificos salões á primeira sociedade de Lisboa, apresenta se agora entristecido como fachada de edificio legendario!
É que a morte, estranha e indifferente a todas as grandezas humanas, assenta-se melancholicamente sobre os degraus d'aquellas escadas de marmore, e, erguendo-se de vez em quando, fixa o seu olhar invisivel, que atravessando as salas, vae pousar lugubremente no rosto pallido e cadaverico do conde de S. Luiz!
Tristão sente-lhe as mãos frias e descarnadas pesando-lhe sobre o peito. Quer falar; a voz prende-se-lhe na garganta! De vez em quando, levanta um olhar de piedade para um Christo, que de braços abertos o contempla da sua cruz, como se o convidasse a recolher-se ao seu divino seio! Então o conde torna a abaixar os olhos como se aquella imagem o assustasse, e, levantando ao mesmo tempo uma das mãos, pede a Magdalena que se lhe approxime.
Ha quatro horas que não fala! Para maior expiação, a sua intelligencia está clara e completamente serena!
Magdalena, debruçada sobre o leito, pegando n'um lenço de cambraia, limpa-lhe de vez em quando o rosto banhado por um suor lento e copioso. O seu rosto, denota-lhe o martyrio e a resignação.
A condessa, curvada n'uma poltrona, descança a fronte nas mãos, erguendo-se de minuto em minuto para contemplar o infeliz esposo. O seu olhar é triste, mas resignado como o de sua filha.
Olympia ao fundo do quarto, sentada n'um sophá tapa os olhos com um lenço de assoar, mastigando occulta e prestidigiosamente, umas bolachinhas de agua e sal.
O commendador Lopes de Miranda e o banqueiro Vaz Mendes, ora se approximam dos pés do leito, ora se dirigem aos outros gabinetes, onde uma multidão de individuos esperam com anciedade saber o estado do enfermo.
N'este comenos entra o conselheiro Poderosa. Demora-se um minuto olhando para o conde, e, engatilhando um gesto de sofrimento dirige-se para a condessa.
Esta extende-lhe silenciosamente a mão, occultando ao mesmo tempo o rosto com um lenço de cambraia.
João Poderosa fica immovel por alguns segundos, e em seguimento retira-se para falar com Olympia.
Ao approximar-se lhe, a noiva simula um estremecimento de surpreza, e, esquecendo o embrulho das bolachinhas que conservava no regaço, entorna-o, fazendo rebolar as bolachas sobre a alcatifa.
O conselheiro curva o busto, e salva os despojos farinaceos que se preparavam para fazer as delicias da mastigação da sua futura esposa!
No momento em que o conselheiro principiava o seu dialogo com Olympia, Magdalena, que havia chegado o rosto aos labios de seu pae, volta-se para a condessa.
Esta pergunta lhe o que deseja.
--Meu pae, necessita estar sosinho commigo e pede a todos que se retirem, responde Magdalena.
A condessa levanta-se. Olympia e o conselheiro seguem-n'a. Este ultimo demora se no gabinete com sua futura sogra; Olympia aproveita a occasião de ir á copa tomar uma canja de gallinha.
--Sinto que me foge a vida, filha, disse o conde extendendo a mão para Magdalena. Não quero morrer sem ter cumprido os meus e os teus desejos. Agora que me sinto mais tranquillo, vae tu, Magdalena, vae tu mesma buscar D. Marianna de Mendonça. Quero ouvir-lhe o perdão de seus proprios labios, e tambem do Manuel. Vae Magdalena, vae, minha filha, cumpre com este ultimo desejo de teu pae.
--E minha mãe?... e toda a gente?...
--E o que temos nós com toda esta gente, Magdalena? Trata-se agora da minha consciencia. Quero apresentar-me deante de Deus arrependido de todos os males que causei n'este mundo. Desde que confiei todos os peccados áquelle santo padre que me trouxeste, minha filha, já não receio o desconhecido. Sinto-me muito mais alliviado. Quando eu morrer, Magdalena, dentro da minha secretaria, encontrarás um pequeno cofre de platina; guarda-o, e a mais ninguem confies os segredos que elle encerra. Só tu serás digna d'isso. O meu testamento está na gaveta pequena d'aquella secretaria. Ha quatro dias que foi feito. Parecia adivinhar o que succedia! Foi Deus! Deixo quatrocentos contos a D. Marianna de Mendonça: ainda não é muito, para o que lhe fiz soffrer! Agora, que sabes o principal, vae filha, e possa o perdão d'essa mulher fazer com que a minha alma, voando aos pés de Deus, seja acolhida no seu divino regaço.
Afastando-a brandamente, tornou a pedir-lhe que fosse buscar D. Marianna de Mendonça.
--Se tua mãe te perguntar onde vaes, accrescentou elle, responde-lhe que é um segredo que juraste guardar a um moribundo.
Magdalena, depois de beijar seu pae na fronte, saíu do quarto e atravessou pelo gabinete onde sua mãe conversava com o conselheiro.
--Onde vaes? perguntou-lhe a condessa.
--Vou saír.
--Saír?
--Buscar uma pessoa a quem meu pae deseja falar antes de morrer.
--E essa pessoa... quem é?
--É um mysterio e um segredo, e recommendando á condessa que fosse para junto de seu pae, Magdalena atravessou as salas, e subindo ao quarto, preparou-se para saír.
Era tal o respeito e consideração que Magdalena inspirava a sua mãe; tinha tanta certeza da inutilidade de todos os seus esforços, para lhe quebrar qualquer dever, que a condessa resumiu-se ao silencio, e dirigiu-se sem mais reflexões ao quarto de seu marido.
--Aonde foi Magdalena?
--Buscar uma pessoa a quem desejo pedir perdão antes de morrer, e com quem pretendo ficar sósinho.
A condessa, sem responder uma palavra, foi sentar se na mesma poltrona d'onde momentos antes se havia levantado.
Amparado por aquelle desejo ardente, o conde de S. Luiz parecia de momento para momento ganhar mais tranquillidade.
Um quarto de hora depois, Magdalena entrou de novo no quarto de seu pae, participando lhe a chegada de D. Marianna. O conde fez um gesto significativo a sua mulher, esta comprehendendo o em seguida com uma obediencia passiva, levantou-se e saíu do quarto. Pouco depois entrava D. Marianna de Mendonça e seu filho. Magdalena fechou a porta deixando-os a sós com o conde.
Magdalena dissera-lhe apenas que seu pae os queria ver antes de expirar.
O conde, ao vel-os parados no meio da sala, extranhos e alheios áquella situação, ergueu se n'um supremo esforço, e, chamando-os pelos nomes, convidou-os a approximarem-se do leito.
D. Marianna, accedendo immediatamente aos seus desejos, acercou-se do enfermo.
--Lembra-se D. Marianna de Mendonça, recorda-se Manuel, d'um banqueiro chamado Felix Justino de Araujo, que em 1835 a mandou ir um dia em companhia do seu advogado, levantar um deposito de perto de quarenta contos de réis?
--Lembro-me, respondeu D. Marianna de Mendonça, fixando demoradamente o semblante do conde de S. Luiz.
--Se esse homem, que fez a sua desgraça, que lhe roubou filho, haveres, e por ultimo a razão, debruçado sobre a sepultura, lhe extendesse a mão supplice e arrependida, implorando lhe o perdão para sua alma, que lhe faria?
--Perdoar-lhe tudo, para que Deus tambem me perdôe os meus peccados, respondeu ainda D. Marianna.
--Perdôa-me tambem, Manuel de Mendonça? disse o conde. Perdoa a este homem, que durante vinte e tres annos o separou de tudo quanto tinha de mais caro no mundo! Perdoa a este homem, accrescentou elle, que conduziu sua mãe á miseria e á loucura.
--Perdoae-lhe, Senhor, como eu lh'o perdôo de todo o meu coração, respondeu Manuel de Mendonça, voltando-se para a cruz do Redemptor, juiz supremo d'esta tocante scena.
--Morrerei tranquillo, disse então o moribundo, com a voz já enfraquecida.
--Que Deus perdôe ao pae d'aquelle anjo, disse D. Marianna caindo de joelhos, e apontando para a porta por onde Magdalena havia saido.
--Diz bem, D. Marianna; d'aquelle anjo, accrescentou o conde de S. Luiz. Foi aquella candida pomba a encarregada por Deus para me conduzir á sua divina presença! A ella devo o seu perdão, sr.ª D. Marianna!
--E eu devo-lhe o meu filho, respondeu D. Marianna, arrastando-se de joelhos sobre a alcatifa, até se collocar deante do Christo. Pela vossa infinita misericordia, exclamou ella levantando as mãos para a cruz, perdoae-lhe Senhor, como eu de todo o coração lhe perdôo, e queira a vossa infinita vontade conservar-lhe largos annos de vida, para que este arrependido conheça a sinceridade das minhas palavras.
--Chamem a minha filha que deve estar n'aquelle quarto, murmurou o conde, voltando-se para Manuel de Mendonça, e apontando para uma porta que separava os dois aposentos.
Magdalena entrou immediatamente. Ainda que dotada de uma organização robustissima, a infeliz, já principiava a resentir-se de tantas commoções.
D. Marianna, lançando-se-lhe nos braços, debalde tentava occultar as lagrimas.
--Falta me aqui uma pessoa a quem desejava ver antes de morrer. Queria abraçar a Martha, a minha companheira do hospital.
--Deus favorece-lhe os seus desejos, meu pae. Ha dois minutos que alli estão todos tres: e, abrindo a porta, deu passagem a Balbina, Jeronymo e sua filha.
--Approximem-se, meus amigos, disse-lhes o conde de S. Luiz. E, emquanto fôr tempo, accrescentou elle, apertem esta mão, que sempre se lhes extendeu com amizade.
As lagrimas embargaram-lhes as vozes. Uma pessoa apenas se conservava n'uma serenidade de martyr. Era Magdalena!
--Infelizmente, accrescentou o conde voltando-se para Martha e Manuel de Mendonça, não lhes posso assistir ao casamento mas aqui lhes fica este anjo, continuou elle voltando-se para Magdalena.
Esta ficou immovel!
Alma temperada nas grandes agonias, a que realeza de martyrio foste arrancar esse diadema que te corôa?
Momentos depois, retiraram se todos do quarto.
O conde ficou em estado de profunda atonia.
Não se ouvia um ruido. Apenas o estremecimento da prece passando pelos labios descorados de Magdalena.
Como tudo isto estivesse em socego entraram no quarto a condessa, Olympia, o conselheiro e o visconde de Coruche. Seguiam n'os o commendador e o banqueiro.
--Dorme tranquillo! disse o visconde olhando na direcção do leito.
--Dorme acudiu a condessa, á medida que se approximava de seu esposo.
Magdalena, n'esse momento, adeantou se mais, e debruçou-se a escutar a respiração.
--Morto! exclamou a pobre filha, n'um arranco d'alma! Bemdito Deus, que me permittiste salvar meu pae! ajuntou ella caindo sobre o cadaver do conde, e aproveitando nos seus labios o derradeiro calor d'aquelle rosto extremecido.
EPILOGO
No mesmo dia foi aberto o testamento, tendo por testemunhas o visconde de Coruche, o commendador Lopes de Miranda e o conselheiro João Poderosa.
Deixava por testamenteira a sua filha D. Magdalena. Entre varios legados a differentes hospitaes e asylos, avultava a quantia de quatrocentos contos a D. Marianna de Mendonça e Athayde, como um testemunho de eterna recordação pelos muitos favores de que lhe era devedor.
A sua fortuna, espalhada por differentes bancos da Europa e da America, excedia a dois mil contos.
Quinze dias depois da morte do conde de S. Luiz, ás seis horas da manhã, Manuel de Mendonça recebia-se na freguezia de Nossa Senhora da Lapa com a filha de Jeronymo, tendo por padrinhos dois honrados capitães de navio, e por madrinha D. Magdalena de Almeida.
Ao cabo de dois mezes, Olympia concedeu a sua mão ao conselheiro, e o seu coração aos inqualificaveis gozos da cosinha.
Gozando em branda paz as delicias do hymeneu, havia comtudo uma terrivel sombra que lhes perturbava a paz domestica: o conselheiro não era capaz de fazer nem um _beefsteak_! Toda a sciencia culinaria de que se vangloriara, era apenas um mytho que elle creára para conquistar o estomago de D. Olympia!
Quando emfim sobre Lisboa deixaram de esvoaçar as azas negras do monstro, e que Magdalena fechou as portas áquelle hospital, d'onde não tinha saido desde a morte de seu pae, o visconde de Coruche, vivamente ferido pela grandeza d'alma de Magdalena, lançou se-lhe aos pés e pediu-a em casamento.
--Vou casar-me com Deus, respondeu Magdalena, levantando os olhos para o céu!
No dia seguinte, Magdalena entrava no convento de ***, onde morreu pouco depois, recebendo as bençãos da pobreza, com quem havia repartido os seus rendimentos.
Lopes de Miranda, associado com Vaz Mendes n'uma casa de penhores, abre os seus armarios a todos os objectos de valor que o visconde de Coruche periodicamente lhe envia pelo seu mordomo. Este espera ainda ver seu amo n'um estado florescente, attendendo ao axioma de um dos nossos primeiros vultos litterarios: que um fidalgo arruinado sempre tem cem contos de réis!
Quanto á condessa de S. Luiz, uns dizem que está beata, outros asseveram que se tornou capitalista de uma partida de _Roulette_ não sei em que parte da Europa, e de que são feitores Gil de Carvalho e Bernardo de Paiva, tendo-lhe o primeiro ganho a confiança pela paga espontanea das cem libras que devia a seu defuncto marido, e de que nem ella mesma era sabedora.
E Martha, e Manuel de Mendonça, e sua mãe, e Balbina e Jeronymo, e Mascatudo?
Apezar da tia Monica asseverar aos que á noite se reunem na tenda da rua da Lapa, que foram todos parar aos peixinhos, pessoa de credito affirmou a quem estas paginas escreve, que essa familia, venturosa na sua união, se foi estabelecer nos Estados-Unidos, gosando em doce calma os prazeres de uma existencia honesta, moral e religiosa.
E ter-se-hão esquecido da memoria de Magdalena?
Nunca! N'aquelles corações não cabia a ingratidão.
FIM
COMPANHIA PORTUGUESA EDITORA, L.^{DA}
PORTO
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