O Conde de S. Luiz

Chapter 13

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Restava-lhe apenas no meio dos seus infortunios, a grata lembrança de devolver aos braços d'aquelle homem a pobre mãe que elle tão anciosa e infructiferamente havia buscado!

A pouca distancia viu Manuel de Mendonça, de pé, encostado á amurada. Com o rosto curvado sobre o peito, olhava para as aguas da corrente, que vinham no seu eterno movimento gemer de encontro á quilha da embarcação.

Ao ver aquelle bote que se lhe dirigia por estibordo, reconheceu immediatamente a filha de Tristão de Almeida, e, descendo a escada de corda, veiu recebel-a no momento em que abordava á embarcação.

--Preciso falar-lhe, disse Magdalena. E nem mesmo subo, ajuntou ella, olhando tristemente para a galera.

Manuel entrou para o bote, e Magdalena mandou que remassem para o caes.

Durante o curto espaço de tempo que levaram em chegar á rocha, Magdalena não lhe dirigiu uma palavra.

Manuel não sabia que pensar.

Os catraeiros olhando-se mutuamente, conjecturavam entre si, o que seria a causa d'aquelle mysterio.

Chegaram finalmente á rocha.

Ao subir as escadas, Magdalena voltou-se para Manuel de Mendonça, ergueu o véu que lhe occultava o rosto, e demorou-se fitando-o por alguns instantes.

--Vim buscal-o tão apressadamente, porque lhe quero dar o maior prazer que tem experimentado na sua vida. A Providencia fez com que me encontrasse, para lhe depositar nos seus braços tudo quanto tem de mais precioso sobre a terra.

Manuel contemplava-a sem comprehender uma palavra.

--Não lhe offereço o meu trem; poder se-ia tornar reparado, accrescentou ella; mas, o que lhe peço, é que venha immediatamente a casa de Jeronymo para onde me dirijo. E saltando para dentro do trem, mandou ao cocheiro que seguisse para a rua do Meio.

Metteu-se n'uma sege que passava n'aquelle instante Manuel de Mendonça e acompanhou a carruagem de Magdalena.

Chegaram ao mesmo tempo á porta de Jeronymo.

Magdalena foi a primeira a apear-se, e, entrando rapidamente em casa de Jeronymo, dirigiu-se ao quarto de D. Marianna de Mendonça.

A pobre senhora lançou-se-lhe nos braços!

--Venho cumprir a minha promessa, disse-lhe Magdalena. Vae ver seu filho! O que lhe peço, é que tenha valor para resistir a este lance! e, abrindo a porta que communicava com a saleta, chamou em voz alta por Manuel de Mendonça.

* * * * *

* * * * *

Vêde a leôa a quem haviam roubado o filho, e que o torna a colher entre as suas garras, e podereis avaliar o que se passou n'aquella eternidade de sensações.

* * * * *

* * * * *

Magdalena, de pé, com os olhos arrasados de lagrimas, contemplava esta scena ao lado da mulher de Jeronymo.

Perto de cinco minutos esteve a pobre mãe agarrada ao pescoço de Manuel de Mendonça! Ainda lhe parecia impossivel aquella palpavel realidade! Desprendendo-se emfim do collo de seu filho, D. Marianna lançou-se aos pés de Magdalena, e, beijando-lh'os no transporte de uma alegria assustadora, ergueu-se de novo cingindo-a pela cintura e cobrindo-lhe a face de beijos e lagrimas de gratidão!

--Agora, disse Magdalena desembaraçando se de D. Marianna, devemos attender ao estado de Martha. É necessario prevenirmos todas estas circumstancias. Ter-nos-ha ouvido?

--Com certeza que não; e demais tem um somno muito pesado, respondeu Balbina enxugando as lagrimas que lhe rolavam pelo rosto.

N'este momento, Martha chamava por sua mãe.

Balbina e Magdalena dirigiram-se ao quarto da doente.

--Que voz foi essa que ouvi na saleta, minha mãe? perguntou Martha sem notar a presença de Magdalena.

--Era a minha voz, respondeu a filha de Tristão approximando-se do leito e beijando-a na face.

--A sua! exclamou ella. Eu suppunha...

--O quê?

--Que era...

--A voz de Manuel de Mendonça? Não se illudiu. É Manuel que vem hoje pedil-a a seu pae.

Erguendo se n'um impeto de suprema vontade, Martha lançou-se ao pescoço de Magdalena.

Que lagrimas não foram as d'essas duas mulheres! N'uma, o pranto consolador da alegria; na outra, lagrimas que vinham do coração, abrazando-lhe as palpebras n'um fogo do inferno!

--Valor! disse Magdalena, soltando-se dos braços de Martha, é necessario que se restabeleça para em breve conceder a sua mão ao filho de D. Marianna de Athayde!

--Ao filho de Marianna de Athayde! exclamou ella sem comprehender uma palavra do que acabava de ouvir!

--Sim, ao filho da sua amiga Marianna.

--Então Manuel de Mendonça é...

--Seu filho. Agora, cumpre-me dar ainda alguns passos para resolver completamente a minha missão, e, abraçando a sua protegida, Magdalena sahiu do quarto e dirigiu-se á saleta aonde Manuel de Mendonça, ainda preso nos braços de sua mãe, agradecia á Providencia o ter-lhe devolvido tudo quanto elle tinha de mais caro n'este mundo.

Ao vel-a, D. Marianna lançou-se-lhe de novo ao pescoço e cobriu-a de beijos!

Manuel de Mendonça, que fixára o rosto entristecido de Magdalena, cravou os olhos no chão, como receiando que o trahisse o seu olhar.

Teria elle comprehendido o que se passava no coração de Magdalena?

--Agora, disse Magdalena, retiro-me. Ámanhã sendo meio dia, aqui estarei, por que tenho graves negocios a tractar com vossa excellencia e com seu filho. Extendendo a mão a este ultimo e a D. Marianna, Magdalena retirou-se, caminho do hospital.

XXXV

Havia quinze dias que sahira o decreto concedendo o titulo de «conde de S. Luiz» ao illustre e philanthropico varão, que, com tanto e tanto afan, continuava a espalhar as joias da sua caridade.

A condessa, impando de orgulho e de vaidade, ora se pavoneava pelas ruas mais concorridas da capital, ora embocetada no palacio de S. Francisco de Paula, aguardava o sequito das fidalgas caridosas, que, esquecendo o amarellecido dos seus pergaminhos, iam, movidas pela virtude da moderna titular, fazer antecamara áquella que dias antes se chamava apenas D. Maria Egypciaca.

Graças ás repetidas instancias do seu amigo o visconde de Coruche, Tristão de Almeida, ou, para falarmos com mais propriedade, o conde de S. Luiz, fizera um arrendamento a longo prazo de um magnifico palacio em Buenos-Ayres, outr'ora pertencente aos marquezes de...

Encarregando-se por especial favor do que dizia respeito ás cavallariças, o visconde, como homem entendido na materia, fez acquisição de tudo quanto n'esse genero havia de melhor.

Tornou-se notorio o luxo d'aquella irreprehensivel vivenda.

Os fidalgos, que n'esse tempo--menos por necessidade, do que pelo prazer de manifestarem aos quatro ventos do céu o seu desamor pela archeologia--esbanjavam sem dó nem piedade, os mais preciosos objectos de arte, deparados nos empoeirados sotãos dos seus castellos feudaes, correram atropellando-se ao escriptorio do conde de S. Luiz, afim de ver qual seria o primeiro a depositar nas mãos do magnate as nobres reliquias dos seus preclarissimos antepassados. Não tardou que o palacio do conde de S. Luiz se tornasse n'um museu de antiguidades! Retratos houve de familia, que foram jazer empilhados na estrebaria por não lhes permittirem os salões o seu elevado porte.

O conde, pagava tudo com prodiga generosidade, o que lhe deu o triste resultado de alguem lhe metter um collar de perolas falsas por barrocas, o que elle generosamente acceitou e pagou, attendendo que esse mesmo collar havia figurado no pescoço de um grande ministro de um excelso monarcha.

Juntem se a estas nobres qualidades, uma mesa esplendida, e que o leitor avalie se a casa do conde de S. Luiz seria ou não frequentada.

O conselheiro Poderosa, graças ás ausencias do visconde, de dia para dia se tornava mais sympathico para Olympia, para o conde e para a condessa.

Olympia adivinhava no conselheiro, não só um marido exemplar, como um dedicado companheiro de mesa, prompto sempre a affrontar qualquer ataque apopletico por mais anormaes que fossem as epochas.

O conselheiro comia e bebia por dez conselheiros, o que era extremamente agradavel para Olympia, porém, quando ella um dia notou que depois do jantar, os olhos do seu futuro se fitaram brandamente n'uma othomana que estava proxima, Olympia exultou de alegria, e viu n'esse homem, o unico individuo capaz de fazer a sua felicidade: comer e dormir, acordar e comer!

Olympia esperava apenas que o conselheiro a pedisse a seu pae.

A condessa sabia d'estes amores. Por mais de uma vez tinha dito a Olympia, que pela sua parte não encontraria a menor opposição.

Exceptuando duas pessoas, todos alli viviam felizes: essas duas, eram Magdalena e o conde de S. Luiz! O que entre ambos se havia passado, sabia-o apenas Deus, que ajudára a primeira nos seus pedidos e escutara as promessas do segundo!

Quanto á condessa de S. Luiz, ou porque a sua alegria não lhe tivesse dado tempo a reflectir na tristeza do conde e de sua filha ou porque inteiramente lhes não desse importancia, não cuidava senão em distrahir os seus convidados.

Aos almoços, succediam-se os jantares, a estes os bailes, de forma que o palacio do conde de S. Luiz tornou se em poucos dias o centro da melhor sociedade de Lisboa.

Debalde tentavam Magdalena e seu pae, encobrir a dôr que lhes roubava a felicidade. Este ultimo, vendo constantemente deante dos olhos a imagem grave e severa de D. Marianna de Mendonça, recordando lhe o seu passado; Magdalena lembrando-se do homem que teria feito a ventura da sua alma, mas a cujo sacrificio tinha prendido um juramento!

* * * * *

Magdalena no dia immediato áquelle em que entregara Manuel de Mendonça nos braços de sua mãe, fechada com seu pae no escriptorio do hospital, communicára-lhe tudo quanto dizia respeito á familia de Athaide de Mendonça.

O conde de S. Luiz, que não tinha segredos para sua filha, abrindo-lhe inteira a sua alma, desenhára-lhe em traços rapidos o quadro inteiro da sua vida, accrescentando-lhe, que por ella e só por ella havia incorrido em certas _coisas_ de que se arrependia profundamente.

Magdalena exigiu-lhe uma restituição d'aquelle dinheiro extorquido á viuva, compromettendo-se a preparar tudo de forma que a opinião publica ainda mais se levantasse em favor de seu pae, vendo-o entregar cem ou duzentos contos de réis, á filha d'esse homem, para cuja morte involuntariamente havia concorrido.

Concordando plenamente em tudo quanto Magdalena exigiu, pediu apenas a sua filha o maior segredo para com a condessa e Olympia, accrescentando a isto a maior brevidade possivel no casamento, o qual, auctorizando aquella restituição, lhe ia devolver a paz ao espirito.

Abraçando seu pae, Magdalena assegurou-lhe que partiria immediatamente para casa de Martha, afim de se oferecer para madrinha do seu casamento. Com effeito, ás duas horas da tarde, e não ao meio dia como havia combinado com Manuel de Mendonça, Magdalena entrou em casa do operario.

Martha havia passado a noite mais tranquilla. O doutor não se tinha illudido; a sua doença era menos physica do que moral.

Desde as onze horas da manhã que Manuel de Mendonça estava ao lado de sua mãe. Já na vespera tinha visto Jeronymo, e já lhe havia pedido a mão de sua filha.

Magdalena entrou no quarto de Martha, e, dando-lhe os parabens, offereceu-se para madrinha do casamento.

Consummara-se o sacrificio!

* * * * *

--Quando se realisará esse casamento? perguntava todos os dias o conde de S. Luiz.

--Brevemente, respondia-lhe Magdalena!

XXXVI

Instigado pelos conselhos do visconde, e pela persistente côrte que D. Olympia lhe dirigia, o conselheiro resolveu se emfim a pedir aos condes a mão de sua filha.

Eram duas horas da tarde. O conde tinha partido para o hospital, mas, para sua felicidade estava em casa a condessa de S. Luiz, e prompta como sempre, desde as dez horas da manhã, para receber todas as visitas que lhe mereciam a honra da sua amizade.

O conselheiro foi introduzido para um pequeno gabinete «á renascença», todo mobilado ao gosto do visconde de Coruche.

A condessa não se fez demorar muito tempo. Já esperava que mais dia menos dia o conselheiro se resolvesse a pedir-lhe Olympia.

--Quanto folgo vel-o n'esta casa, e a esta hora, disse a condessa, ao mesmo tempo que lhe extendia a mão. Adivinho pouco mais ou menos do que se tracta, ajuntou ella designando-lhe uma othomana, e puxando uma cadeira para si.

A condessa queria ser a primeira, sempre, em resolver qualquer questão.

--Provavelmente vem pedir a mão de Olympia?... ajuntou ella, sem admittir que o conselheiro lhe dirigisse uma só palavra. Quanto o estimo! e como o conde vae ficar alegre! Pela minha parte, concedo-lh'a da melhor vontade, e, desde já lh'o affianço, que o conde ha-de ser da minha opinião. Tenho toda a certeza que v. ex.ª ha de ser o mais feliz possivel com minha filha. Não parece uma rapariga d'este tempo. Para Olympia é-lhe tão indifferente ir aos bailes, como passar as noites em casa. Não dá importancia alguma ao luxo! O seu gosto é estar em casa e olhar pela dispensa. Nem é mesmo d'essas meninas que passam o dia a lêr livros, como Magdalena por exemplo, que está ás vezes até as duas horas da noite amarrada á sua Biblia, e outros romances quejandos. Olympia detesta os livros, tem-lhes um odio de morte! Lá quanto a isso, parece-se commigo. Foi coisa que nunca pude supportar! Olympia, o seu maior prazer é fazer pudins e fructas de compota.

O conselheiro, olhando estupefacto para aquella Niagára de eloquencia, debalde esperava o ensejo favoravel para lhe dizer o fim que alli o havia trazido. A condessa não lh'o permittia!

--Em Olympia não ha coisa alguma a desejar, formosura, riqueza, saude, tudo, tudo, accrescentou a condessa de S. Luiz, tirando o lenço da algibeira para limpar o suor que em bagas lhe escorria.

--Pois, minha senhora, acudiu rapidamente o conselheiro, aproveitando o ensejo que lhe favorecia a limpeza d'aquella individualidade titular, o que me trouxe a casa dos condes de S. Luiz, foi o mesmo que v. ex.ª com esse instincto que lhe é natural, adivinhou! Escuso portanto de lh'o repetir.

--Quanto o estimo, meu querido genro, respondeu a condessa, approximando-se do conselheiro e apertando-lhe ambas as mãos.

--Vae fazer-me o mais feliz de todos os homens.

--Sim?... respondeu a bojuda matrona, vae vêr: levantando-se, puchou o cordão da campainha.

--E crê v. ex.ª que a sr.ª D. Olympia responde aos eccos do meu coração?

--Não o comprehendo, sr. conselheiro.

Este occultou a custo um sorriso.

--Quero eu dizer, se o meu amor será retribuido por sua excelentissima filha?

--Ora essa! respondeu a condessa tornando a sentar-se ao lado do conselheiro, se soubesse quanto ella o estima...

N'este momento appareceu um criado.

--Vá dizer a Maria que participe á Gertrudes que suba ao quarto da aia da menina Olympia, para lhe dizer que venha immediatamente falar com sua mãe.

O conselheiro abysmou deante d'aquelle prodigio de memoria, que com tanta facilidade decorava tão grande porção de nomes!

D'alli a momentos entrou a aia de Olympia, participando que a menina ainda teria alguma demora, porque se encontrava um pouco indisposta.

--Provavelmente ceiou muito. É o seu unico defeito, sr. conselheiro. É muito gulosa esta minha filha.

A criada retirou-se.

--O mesmo sou eu, minha senhora, respondeu o conselheiro.

--Sim?

--É verdade. Tenho dias de jantar tres vezes.

--Ai que ar! gargalhou a condessa de S. Luiz. Pois realmente, sinto que Olympia não esteja de pé. Em todo o caso, sempre vou lá acima. Talvez que seja apenas um leve incommodo; e, levantando-se saiu da sala, deixando o conselheiro na contemplação de umas gravuras em aço que adornavam as paredes do gabinete.

«Isto corre ás mil maravilhas! pensava o conselheiro. Olympia pelo que me parece, consultando o estomago, decidiu de si para si que lhe não era antipathica a minha pessoa. Sua mãe, pelo que se vê, encontrou em mim o seu sonho dourado! Quanto ao conde de S. Luiz por certo que se conforma com tudo que sua mulher decidir! Emfim, será o que Deus quizer! Em todo o caso, foi um achado, um verdadeiro achado, este Tristão de Almeida. E eu que estive para desprezar a sua apresentação!... Desconfio que, apezar de todo o amor que Magdalena experimenta pelo visconde, o meu casamento ainda se ha de effectuar primeiramente do que o seu. Custa-me a acreditar que um caracter como o de Magdalena, possa experimentar pelo visconde, outro sentimento, a não ser o de repulsão. O que fôr verdadeiramente bom e digno, não póde amar senão o que é digno e bom! E demais, Magdalena deve conhecel-o. Tão pouco falado tem elle sido na sociedade de Lisboa.»

N'este comenos entrou a condessa; Olympia seguia-a de perto.

Se aos vinte annos a pallidez traduz em absoluto a poesia da alma; se o desbotado da face é synonimia dos sofrimentos intimos que lavram o coração, Olympia n'aquelle momento, a despeito da sua anafada estructura, dir-se-ia nutrida estatua da poesia affectada pelas terriveis consequencias de uma gastro enterite!

Ao approximar-se do conselheiro, a filha do conde de S. Luiz debalde se esforçava para, n'uma graciosa mesura, cumprimentar aquelle a quem brevemente ia conceder a sua mão. O esophago não lhe permittia a mais leve inclinação do busto. Olympia conservava se firme como um sargento, deante d'esse que era de ha muito o commandante dos seus pensamentos!

--Venho agora mesmo de saber por minha mãe a sr.ª condessa de S. Luiz que vossa excellencia deseja estreitar os laços matrimoniaes com a minha pessoa. Se a meu pae lhe não fôr desagradavel a união das nossas almas, estou muito prompta a acceder em tudo aos seus desejos.

O conselheiro contentou-se apenas em lhe apertar a mão n'um transporte de reconhecida ventura.

--Como já tive o gosto de dizer a vossa excellencia o conde de S. Luiz terá o maior desejo em que este casamento se effectue o mais depressa possivel, portanto, não tem vossa excellencia mais cousa alguma a fazer senão vir hoje mesmo pedir-lhe a mão de Olympia. Meu marido e eu mesma, accrescentou a condessa de S. Luiz, nos temos informado por todas as pessoas que frequentam o nosso palacio, quem vossa excellencia é; deve portanto suppor a honra que nos vae causar, entrando para o seio da nossa familia.

--A honra sou eu que a recebo, senhora condessa de S. Luiz, e é tão profundo o meu desejo em ver realizadas as nossas esperanças, que, hoje mesmo, se vossa excellencia acha conveniente...

--Se acho, meu genro! O conde de S. Luiz, sendo cinco horas, mais _migalha_ menos _migalha_ deve cá estar. Não falte pois, accrescentou ella extendendo a mão ao conselheiro, que foi recuando sem descravar os olhos de Olympia, até que se retirou.

--Até que vês as tuas esperanças realizadas, disse a condessa de S. Luiz voltando-se para sua filha.

--É verdade, minha mãe, suspirou Olympia! E agora, para ter forças de supportar todas estas commoções, vou ver se me dão um caldo de cabeça de vitella.

XXXVII

Segundo havia combinado com a condessa, o conselheiro ás cinco horas da tarde foi procurar o conde de S. Luiz.

Este parecia ouvil-o sem lhe prestar attenção alguma; porém, graças á sua esposa, declarou por ultimo que não tinha duvida em conceder-lhe a mão de Olympia.

João Poderosa exultou de alegria! Olympia sentia brincar-lhe o travesso amor nas cavidades estomacaes apontando-lhe ao mesmo tempo as flechas de ouro, ao orgão musculoso do corpo humano, a que vulgarmente se chama coração!

Momentos depois começaram a entrar convidados para jantar; entre esses vinha o visconde de Coruche.

Ao _toast_, a condessa de S. Luiz declarou que estava justo o casamento de sua filha D. Olympia com o conselheiro João Poderosa.

Em seguimento aos brindes do estylo, não houve quem deixasse de notar que esta declaração não tivesse sido feita pelo conde. Mas que influencia tinha isso? Não fôra esplendido o jantar?!

O que ninguem podia descortinar era o motivo da tristeza do conde de S. Luiz e de Magdalena!

Attribuiam a esta ultima, que uma paixão em silencio pelo visconde de Coruche, era a causa da sua terrivel melancolia.

Em vez de conversarem com as visitas, de _fazerem sala_, como vulgarmente se diz, Magdalena e seu pae passaram quasi toda a noite n'um pequeno gabinete contiguo a um dos salões.

--Planeiam o modo de agarrar o visconde! dizia um individuo que por mais uma vez intentara fazer a côrte a Magdalena.

--Como se isso fosse uma coisa muito difficil, respondia-lhe o outro. Não tem Magdalena um dote de quatrocentos contos?

--Póde ser que a não ame, e n'esse caso...

--Que innocencia! Quem despreza quatrocentos contos? E sobre tudo o visconde que está sem um vintem.

--Tomáras tu assim estar.

--Olha, quem foi esperto foi o João Poderosa... Quem o ha de agora aturar com quatrocentos contos?

--Felizes dos jogadores!

--Desconfio que não! Já tem comido do pão que o diabo amassou. Não é o conselheiro que torna a arruinar-se.

--Não digas isso. A lei natural é esta: o homem rico, que se arruina e que depois por um bafejo da sorte torna a enriquecer, embriaga-se no fausto e na opulencia, e nunca mais se recorda das terriveis noites de miseria senão quando ellas principiam a despontar vagamente por entre o sol da sua felicidade.

--A mim não me succederia outro tanto.

--És uma excepção.

--A excepção, é o que tu dizes.

--Será o que te aprouver. O que eu não estou é para teimas. Já querias aproveitar esta minha opinião para me ferrares uma _estopada_. Adeus. Vou lá dentro ver se tomo um _grog_.

* * * * *

Á meia noite, retiraram-se todos os convidados.

--Como deves estar satisfeita, Olympia, dizia Magdalena voltando se para sua irmã.

--Eu! respondeu Olympia. Ora essa! Pelo muito que jantei.

XXXVIII

O conselheiro saira da casa do conde de S. Luiz acompanhado pelo visconde.

Ao despedirem se, este ficou de ir no dia seguinte almoçar com João Poderosa, para saber todos os promenores da sua entrevista com o conde de S. Luiz.

São dez horas da manhã. Louco de alegria pelo negocio que viera de fazer, o conselheiro formúla mil planos para o seu dourado porvir!

A geada de muitos invernos que lhe nevara no coração, ia desfazer-se aos raios do sol de melhores dias. Ia subir aos pinaculos da felicidade, e contemplar de uma grande altura os lodaçaes da pobreza, onde havia alguns annos se estorcia.

N'este momento, entrou um criado annunciando o visconde de Coruche.

--Que entre, disse o conselheiro.

Minutos depois, entrou o visconde.

O fidalgo vinha pallido como uma estatua.

--Que temos! Meu Deus! Como vens perturbado! acudiu o conselheiro fitando o rosto do seu amigo.

--Uma grande desgraça! Uma grande fatalidade! exclamou o visconde.

--Uma grande desgraça?! Uma grande fatalidade?!

--Venho agora mesmo de casa do conde de S. Luiz, e...

--Morreu Olympia de alguma indigestão?...

--Peior! tartamudeou o visconde, sentando-se n'uma othomana.

--Peior do que isso?! Ora essa! O que poderia acontecer peior do que isso!

--O conde de S. Luiz foi atacado pela febre, e porque forma, meu caro amigo! A sua morte é irremediavel, mas o peior, ainda não é isso, o peior foi o que me disse agora a condessa...

--O que te disse a condessa? perguntou anciosamente o conselheiro.

--Que Magdalena entrará para um convento no mesmo momento em que seu pae morrer.

--Respiro! disse emfim o conselheiro.

--Respiras?! perguntou o visconde profundamente admirado.

--Sim, cuidei que fosse alguma coisa que me dissesse respeito.

--Mas diz-me respeito a mim, louco! Não sabes que amava essa mulher? Que eu era amado por ella?

--Pois se tu a amas, e és amado por ella, é collocares-te á porta d'esse convento e não a deixares entrar.

--É que tu não comprehendes o seu caracter, João. Não sabes a especie de amor que essa mulher me consagra? Amor que a tem feito soffrer e que lhe vae abrir a sepultura!

--Não comprehendo, murmurou o conselheiro.