Chapter 12
--Segundo meu pae muitas vezes m'o tem dito, o meu dote é de quatrocentos contos?...
--O teu dote é tudo quanto eu tenho, Magdalena, respondeu-lhe Tristão, e se ainda mais quizeres, accrescentou elle, mais ainda serei capaz de te adquirir.
--Peço-lhe portanto um favor, meu pae.
--Dize.
--É que d'esse dinheiro, disponha de cincoenta contos para eu poder dotar uma amiga que tenho, se porventura ella resistir á enfermidade que a anniquila.
--Terás, não cincoenta contos de réis para essa amiga, mas cem, duzentos ou aquillo que te aprouver! Porém, abandonares me, nunca! Queres esse dinheiro? Ámanhã; hoje; agora mesmo! Se o desejas, não tenho mais do que ir buscal-o a casa do meu banqueiro...
É que esse homem perverso por instincto, o unico sentimento grande que havia experimentado na vida era o amor por sua filha!
--Juras me que não abandonas teu pae? accrescentou elle pegando nas mãos de Magdalena e levando-as junto ao coração.
--Juro que não abandonarei meu pae, respondeu Magdalena apertando-o nos braços!
--Parece impossivel! disse Olympia, abrindo ao mesmo tempo a porta do gabinete. Ha mais de dez minutos que está a sopa na mesa, accrescentou voltando-se para Magdalena.
--Já vamos, respondeu esta.
--Ah! temos lagrimas! ajuntou Olympia sahindo do gabinete.
--E quem é essa pessoa que tu queres dotar, Magdalena? perguntou Tristão depois de alguns momentos de silencio.
--É Martha, a filha de Jeronymo.
--Conta com esse dinheiro, respondeu Tristão.
--Obrigada, disse lhe Magdalena. Agora estou mais tranquilla, e, dando o braço a Tristão, sahiram do gabinete, seguidos por D. Maria Egypciaca, e dirigiram-se á casa do jantar.
* * * * *
* * * * *
Apresentado pelo visconde, ás oito horas da noite, entrou o conselheiro Poderosa.
O visconde ao notar a pallidez de Magdalena, olhou de soslaio para o conselheiro, como se lhe indicasse o soffrimento que se lhe notava no semblante.
Poderosa sorriu se! Depois, ao vêr a obesidade da irmã de Magdalena, o rosado das suas faces, e toda aquella economia exhalando vida e saude, pensou de si comsigo que era essa a unica mulher que lhe convinha.
Depois das apresentações do estylo, o conselheiro sentou-se junto do magnate para lhe falar ácerca da missão de que sua magestade o tinha encarregado.
No entretanto, o visconde, proximo de D. Maria Egypciaca, entretinha-se com a futura titular, discutindo sobre o nome que devia juntar-se ao titulo.
--Minha senhora, dizia-lhe o visconde, eu não tenho a mais leve desconfiança que seu marido lhe usurpe o direito da escolha. O que depende do bello pertence a vossa excellencia, queira vossa excellencia lembrar-se do nome que deve ter esse titulo, accrescentava elle olhando significativamente para Magdalena, nos momentos em que por acaso encontrava os olhos do conselheiro.
N'este comenos, o conselheiro, que acabava de falar com Tristão, approximou-se de D. Maria Egypciaca e do visconde.
A conversação correu animadissima até ás onze horas da noite.
Seguindo as instrucções do visconde, o conselheiro portou-se bizarramente no tocante a dissertações culinarias, falando sempre com muito acerto sobre os diferentes generos de cosinha.
O coração de Olympia, ou, para melhor dizer o estomago de Olympia, começou desde esse momento a palpitar pelo joven conselheiro, e a cabeça, que tanta relação tem com essa viscera, principiou tambem a comprehender que era o conselheiro o unico marido que lhe convinha.
Ás onze horas, retiraram-se o conselheiro e o visconde, combinando ambos com Tristão de Almeida a hora para no dia seguinte se encontrarem, a fim de se decidir o nome que devia ser escolhido para o titulo.
* * * * *
D'ali a duas horas, Olympia resonando profundamente, via em sonhos um lauto banquete, e, a seu lado, com a farda de conselheiro, aquelle que na sua vida lhe tinha proporcionado o ensejo de se convencer que no seu todo havia uma outra viscera sem ser o estomago.
Magdalena, com o rosto encostado aos vidros da janella, contemplava os astros, adivinhando em cada um d'elles o rosto grave e melancholico de Manuel de Mendonça.
XXXI
No dia seguinte á entrevista do conselheiro, á mesma hora que este e o visconde se preparavam para ir falar com Tristão, Manuel de Mendonça resolvia procurar informações de Martha.
--Se tudo quanto te disse aquella infame beata, não fosse mais do que uma calumnia... pensava Manuel ao mesmo tempo que o proferia a Mascatudo.
--Póde muito bem ser que tal aconteça, respondia-lhe o marinheiro. Em todo o caso, se eu fosse ao sr. Manuel de Mendonça...
--Que fazias? acudiu rapidamente o capitão.
--Ia saber d'aquella pobre menina.
--Tomarei o teu conselho. Vou. Não sei o que me adivinha o coração; porém, ou eu me illudo muito, ou Martha está innocente como os anjos.
--Estou da sua opinião. No que o senhor fez mal, foi em acreditar nas primeiras palavras d'essa mulher. Se eu sei, tinha-lhe occultado tudo quanto a seu respeito ouvi dizer.
--Não te arrependas, Mascatudo; nos teus casos, teria feito o mesmo.
--E se essa mulher não passasse de uma infame mentirosa?
--E se tudo quanto a tia Monica te disse fosse verdadeiro? Que remorsos não terias n'este momento, se me tivesses dito que a conducta de Martha era irreprehensivel?
--Isso lá é que é verdade, sr. Manuel de Mendonça. Em todo o caso, tudo se poderá hoje descobrir. Se o senhor consentisse que eu fosse em sua companhia...
--Da melhor vontade e até me fazes muito favor.
* * * * *
* * * * *
Em menos de um quarto de hora, Manuel de Mendonça acompanhado por Mascatudo, desembarcava na rocha do conde de Obidos e, subindo a rampa, dirigia-se para a rua do Meio.
--Se lhe parece, disse Mascatudo ao chegarem á rua das Praças, vamos á tenda em que lhe falei. O caixeiro, que já é meu conhecido, póde nos dar mais algumas informações.
--Confesso-te que me vae custando esta espionagem, respondeu placidamente Manuel de Mendonça.
Seria a delicadeza da sua alma, ou o receio de saber alguma circumstancia menos favoravel ácerca da vida intima de Martha, que fazia com que o maritimo fugisse a mais investigações?
Deixaremos isto ao juizo da intelligente leitora, que para casos de tal monta não nos julgamos habilitados.
Ao chegar defronte da casa onde habitava a filha do operario, Manuel de Mendonça estremeceu. Lembrou-se da noite em que pela primeira vez a encontrára, quando ella com as supplicas de piedade lhe pediu entre lagrimas que a ajudasse a procurar seu pae. Logo, recordou-se das duas ou tres vezes que a vira no hotel Bragança, quando ainda as boccas maliciosas não se haviam aberto para lhe cuspir o fel da maledicencia. Em toda a pureza angelica da sua castidade, Martha desenhava-se-lhe deante dos olhos, como muitas e muitas vezes a imagem grata de sua mãe lhe apparecia por entre as nevoas da tarde, quando a galera, sulcando as aguas do oceano, o conduzia a estranhos climas onde nem um só coração amigo se lhe approximava.
Mascatudo comprehendeu-lhe o soffrimento.
--Que devemos fazer? perguntou Manuel.
--Sondar estes baixios, e se o rumo não fôr perigoso, seguiremos a nossa derrota, respondeu Mascatudo.
N'este momento passava uma carruagem.
Manuel olhou instinctivamente para dentro do trem.
Ao mesmo tempo, o cocheiro como se já estivesse prevenido, estacou os cavallos.
Era Magdalena que vinha dentro da carruagem!
Collocando a cabeça fóra do postigo, a filha de Tristão fez um aceno a Manuel para que se approximasse.
--Necessito falar-lhe quanto antes, acudiu ella rapidamente, dirigindo se ao maritimo, que a contemplava com um gesto de espanto impossivel de descrever. Provavelmente, accrescentou ella, tenciona ir ver a pobre Martha; não o faça sem primeiro me falar.
--Estou ás ordens de vossa excellencia, respondeu Manuel de Mendonça, reconhecendo n'esse momento a filha de Tristão de Almeida.
--Mas aqui é inteiramente impossivel por causa da visinhança, accrescentou ella, com uma voz tremula e assustada.
--Dir-me-ha então?... perguntou Manuel.
--Dirija-se ao passeio da Estrella. Espero-o na montanha; e antes que Manuel tivesse tido tempo de reflectir, Magdalena falou ao cocheiro, e os cavallos partiram n'um trote largo, caminho da rua dos Navegantes.
Manuel ficou como assombrado! Não sabia que pensar! Aquella mulher, que na ante-vespera o estivera olhando por um telescopio, seria a confidente dos amores de Martha, ou seria ella mesma que o amava? Aquella insolita maneira de o avisinhar; a perturbação das suas palavras; a visivel pallidez do rosto, que augmentava á proporção que os seus olhos o contemplavam, tudo concorria para que o maritimo ficasse como abysmado.
--Que foi isso? perguntou Mascatudo, ao notar a profunda perturbação de Manuel de Mendonça.
Manuel contou-lhe o que se havia passado.
--E que tenciona fazer? perguntou Mascatudo.
--Ir immediatamente para o passeio da Estrella. Que te parece?
--Que vá quanto antes, respondeu Mascatudo.
Sem mais hesitação, Manuel de Mendonça entrou na rua da Bella Vista, e seguiu para o passeio da Estrella.
--Espera-me aqui junto ao lago, disse elle a Mascatudo ao entrarem as portas do passeio.
XXXII
Espera-o, martyr! Unge-lhe o peito com o divino balsamo do teu nobre sacrificio! Lagrimas misericordiosas foram as tuas, derramadas sobre a face da pobre virgem! Vae, infeliz; fere, profunda, arranca uma por uma as fibras do coração, e que o sangue que d'ahi te gotejar, lavando as nodoas do futuro conde lhe purifique a alma para um dia entrar no reino dos justos com o passaporte de uma retribuição!
* * * * *
* * * * *
Manuel subiu á montanha.
Magdalena não faltára.
--Venho cumprir com as ordens de vossa excellencia, disse Manuel de Mendonça, approximando-se.
--Ah! respondeu ella, como se despertasse de um sonho. E accrescentou, visivelmente perturbada: realmente, deve estranhar o meu proceder, porém, uma circumstancia grave e muito grave me obrigou a procural-o hoje mesmo. Tracta-se de salvar uma pessoa cuja vida me interessa.
--Estou ás ordens de vossa excellencia para tudo quanto me fôr possivel.
--Sabe que tem estado á morte a filha de Jeronymo?
--Não o sabia, minha senhora, respondeu Manuel começando tambem a perturbar-se.
--Ha quinze dias que a infeliz, deitada sobre o leito da agonia, olha para o céu que lhe pertence. Hontem, que foi a ultima vez que lá estive, o medico sahiu completamente desanimado. A sua enfermidade é menos physica do que moral, e só á ultima hora lhe podemos descobrir a causa.
--E essa causa é?... perguntou Manuel.
--Amar um homem que a tem desprezado! Aquelle anjo, occultando a todos o sentimento que a devora, reclinou se sobre a sua sepultura, aguardando apenas que lh'a venham abrir para desprender a alma a Deus!
Os olhos de Manuel humedeceram se de lagrimas. Havia tanto sentimento nas palavras de Magdalena, a sua voz, ainda ha pouco perturbada, tornára-se tão firme e tão segura, que elle não pôde ver em Magdalena mais do que uma amiga verdadeira e dedicada de Martha.
--E onde existe esse homem que a póde salvar?
--Onde existe?... accudiu Magdalena com uma expressão que principiava a denunciar-lhe o seu estado. Esse homem... accrescentou ella, é... o sr. Manuel de Mendonça!
--Eu! exclamou o maritimo n'um transporte de indescriptivel alegria.
--Sim, continuou Magdalena. O senhor, em cujo espirito adivinhou inteira a sua felicidade. O senhor a quem uma vez encontrou na existencia para nunca mais o esquecer! Mais tarde, o seu coração candido e inexperiente fez-lhe conhecer que o amava. O seu nascimento, a humildade de educação, a pobreza de seus paes, tudo emfim concorreu para que Martha não se atrevesse a declarar a pessoa alguma o amor que o senhor lhe tinha inspirado. Emquanto teve forças, lutou, mas um dia, exhausta, a pobre Martha cahiu como essas flores delicadas que não têem força bastante para supportarem a furia dos elementos. Hontem, finalmente, abriu-me inteira a sua alma, alma candida e serena como a dos anjos que hoje lhe tecem o seu diadema de martyr! Sem lhe descortinar as minhas ideias, resolvi commigo mesma de o procurar, e pedir-lhe que salve da morte a minha pobre amiga. Não sei quem v. s.ª é, porém, julgo-o um homem de bem e capaz de fazer a felicidade de qualquer mulher.
Pallida, com as fontes palpitantes e os olhos afogueados por aquella immensa lucta em que a alma se lhe debatia, Magdalena parecia elevar-se nas azas de uma inspiração sublime! Levantando depois a voz que principiava a enfraquecer-lhe, Magdalena pediu a Manuel que lhe concedesse a sua mão para a filha do operario.
Manuel não respondeu!
E no emtanto as aves chilreando por entre as ramas dos arvoredos vinham como n'um concerto infernal soar aos ouvidos da pobre Magdalena!
--Que me diz, sr. Manuel de Mendonça? Hesita? Não a ama? É possivel? Quem póde deixar de amar aquelle anjo?! exclamou Magdalena dando emfim livre curso ás suas lagrimas.
--Mas porque chora? perguntou Manuel de Mendonça dirigindo-se meigamente para Magdalena.
--Porque choro? Porque avalio a dôr de Martha! Porque a sinto tão viva e tão penetrante como ella que a soffre! Porque choro? Porque sei quanta agonia ha, n'esse amar em silencio, o homem que nunca póde ser nosso!
--Pelo que vejo... ama alguem? perguntou Manuel com voz tremula.
--Já amei alguem... sim... mas ha muito tempo. Hoje não, sr. Manuel de Mendonça! Hoje, toda a minha vida cifra-se apenas n'uma missão que tenho a cumprir.
--E essa missão, é?..
--Vel-o casado com Martha. Vão ambos ser muito felizes. Ella ama-o tanto, tanto como eu seria...
Aqui a voz ficou-lhe embargada n'uma torrente de lagrimas.
E as avesinhas chilreando por entre a moita dos junquilhos que emmolduravam a montanha, acordavam no espirito de Magdalena um como concerto infernal!
Finalmente, Manuel de Mendonça prometteu-lhe que pediria a Jeronymo a mão de sua filha.
Apertando-lhe fortemente a mão, Magdalena despediu-se do maritimo e saiu do passeio.
Como aturdido por aquelles estranhos acontecimentos, Manuel dirigiu-se para o sitio onde Mascatudo o esperava, e, saindo tambem do passeio dirigiram-se pela rua da Boa Morte.
--Para onde vae, sr. Manuel de Mendonça, perguntou Mascatudo vendo que o seu capitão seguia a direcção da estrada do cemiterio dos Prazeres.
--Preciso de ar livre, respondeu-lhe Manuel. Escalda-me a febre. Para que haviamos de ter vindo a Lisboa?
Era tal a agitação do seu espirito, que Mascatudo nem se atreveu a perguntar-lhe o resultado da entrevista que tivera com aquella senhora.
O mais que entre ambos se passou foi um mysterio. Soube-o ella e Manuel de Mendonça. Agora, quando estas paginas escrevemos, Magdalena dorme o somno da morte. Manuel, discreto como a sepultura da pobre amiga, seria incapaz de o revelar.
XXXIII
Ao metter-se no trem, Magdalena dissera ao cocheiro que parasse na rua do Meio.
Ao voltar para a esquerda da rua da Bella Vista, ouviu que a chamavam. Era Monica!
Magdalena mandou parar o trem e a beata approximou-se.
--Ora aqui a temos outra vez com os olhos arrasados de lagrimas! exclamou ella. São essas as promessas que me tem feito? Pois, minha querida menina, accrescentou a velha, quanto estimo tel-a encontrado! Fique vossa excellencia sabendo, que o amigo do meu sobrinho, com quem me vou encontrar, ficou de me dizer hoje tudo _tim tim por tim tim_!
--Pois, sr.ª Monica, respondeu-lhe Magdalena, tirando duas libras do _porte-monnaie_, e entregando-as na mão da beata, escusa de se incommodar mais por minha causa.
--Ora essa, minha senhora! accudiu rapidamente a velha, fechando ao mesmo tempo a mão onde as libras se occultavam. Dar-se ha o caso, continuou ella, que não esteja satisfeita com os meus serviços? Se tal succede, ralhe-me, ralhe-me muito mas não me tracte por essa forma.
--Não é isso, tia Monica: é que já sei tudo quanto tinha que saber; e, fazendo um signal ao cocheiro, fez com que o trem seguisse a sua direcção, deixando a beata estupefacta pelo que vinha de lhe acontecer.
Ter-lhe-ia Manuel de Mendonça contado a historia dos seus amores? Ter-lhe-ia narrado o que se dera entre Mascatudo e a beata? Ignoramol-o!
O trem chegou á porta de Jeronymo. Ao apear-se, Magdalena foi recebida de braços abertos por Balbina e pela sua amiga.
Como era de esperar, Martha n'aquella noite havia peiorado!
--Venho prevenil-a, que ámanhã antes do meiodia, alguem virá pedir-lhe a mão de sua filha, disse Magdalena. Agora mesmo acabo de estar com essa pessoa. Quando prometto, cumpro, embora vá n'isso a existencia.
A gratidão não tem phrases! Balbina e Marianna, abraçando-se a Magdalena, confundiam entre as suas, as lagrimas da pobre martyr!
--Agora, murmurou Magdalena desembaraçando-se das suas protegidas, cumpre-me falar com Martha.
--Mas, é possivel que um senhor d'aquella ordem deseje casar-se com a filha de um mestre de obras perguntou Balbina com as lagrimas nos olhos.
--Almas como as de Manuel de Mendonça, olham apenas para a virtude e nunca para o nascimento, respondeu Magdalena.
--Manuel de Mendonça?! exclamou Marianna com uma voz tremula e indecisa. E que edade tem esse homem? E quem são os seus paes? ajuntou a pobre mulher approximando-se cada vez mais da filha de Tristão de Almeida.
--Infelizmente, não tem paes, respondeu Magdalena.
--E sabe vossa excellencia quem elle é, perguntou Marianna.
--Sei.
--Oh! por piedade! diga m'o! Dar-se-ha o caso que seja...
--Quem? perguntou Magdalena visivelmente perturbada.
--O meu filho, que ha vinte e tres annos supponho morto!
--Como se chama elle? perguntou Magdalena.
--Manuel de Mendonça Athayde, respondeu a velha com uma voz enfraquecida.
--E seu marido?... como se chamava? ajuntou Magdalena.
-Alvaro de Mendonça...
--Justiça de Deus! exclamou a filha de Tristão, caindo sobre o canapé, e occultando o rosto entre as mãos.
--Oh! mas por Deus não me torture! bradou Marianna, lançando-se aos pés de Magdalena. Diga-me se é elle o meu querido filho! É; não ha duvida! Essa sua perturbação... Vive ainda o meu Manuel, o meu querido filho da minh'alma? Não a deixo, minha senhora, não a deixo emquanto me não contar tudo!
--É o seu filho! respondeu Magdalena levantando-se com uma serenidade heroica. Deus que nunca desamparou os que são verdadeiramente bons, concedeu-lhe em mim o instrumento da sua justiça, e n'elle a consolação para a sua velhice. Agora sr.ª D. Marianna, ajuntou ella lançando-se aos pés da velha, sou eu quem lhe devolve o seu filho, que, em nome de Deus e em meu nome, lhe pedimos o perdão para um culpado! Concede-m'o?
Marianna não sabia que responder!
--É de joelhos que lh'o imploro! ajuntou ella, collocando-se deante da velha, e confundindo as suas vestes de setim negro, com os andrajos da infeliz!
--Eu vos perdôo de todo o meu coração! exclamou D. Marianna de Mendonça cahindo sobre o chão. Mas a quem perdôo eu? accrescentou a infeliz senhora, que não pensava senão em ver seu filho!
--Obrigada, disse Magdalena levantando D. Marianna, e levando-a de encontro ao coração! Agora que _lhe_ perdoou, vou buscar seu filho, e trazel o aqui mesmo.
Com uma physionomia alvar, Balbina contemplava toda esta scena sem a comprehender.
Magdalena fechou-se por alguns instantes no quarto de Martha. Afinal sahiu, e, abraçando de novo as suas amigas, entrou no trem, e seguiu para o hospital.
No entretanto, Manuel de Mendonça descendo a calçada das Necessidades dirigia-se para bordo.
XXXIV
«Felizmente, pensava Magdalena, Manuel de Mendonça nem sequer desconfia que Tristão de Almeida foi Felix Justino de Araujo e muito menos Domingos de Andrade. Poderei conseguir tudo sem comprometter meu pae. Vejamos; seriam quarenta, cincoenta contos... Pedir-lhe-hei o meu dote, e será uma retribuição generosa! Ao principio oppôr se-ha ao meu pedido, mas por ultimo, não terá outro remedio senão acceder. Occultarei tudo de minha mãe. Permitta Deus que o possa encontrar no hospital. São estas as suas horas.»
N'este momento, o trem chegava á rua de S. Francisco de Paula. Ao entrar o portão, a primeira pessoa que lhe appareceu, foi a criada de Olympia, dando lhe os parabens não só pelo titulo que haviam concedido a seu pae, como pelo lindo nome que elle tinha escolhido: o conde de S. Luiz.
Sem lhe prestar attenção alguma, Magdalena perguntou-lhe apenas se alli estivera seu pae.
--Ora essa! respondeu a criada de Olympia; acaba agora mesmo de ir para o paço, afim de agradecer a sua magestade.
--E Olympia?
--Sua irmã está lá em cima na casa de jantar a comer umas gallinholas, que até dá nauseas a quem vê similhante coisa! Mandou fazer umas torradas, e deitar sobre ellas o miolo das tripas. Já viram maior porcaria? E diz ella que é o melhor cozinheiro que tem tido, e que faz pena que esteja no hospital!
Magdalena subiu á casa do jantar, onde encontrou sua irmã deliciando o paladar n'uma soberba torrada coberta dos despojos ornithologicos d'aquella innocente gallinhola.
--Já sabes o titulo que o papá escolheu? perguntou Olympia.
--Sei, respondeu Magdalena quasi sem lhe prestar attenção.
--É muito bonito! não achas?
--Muito bonito!
--Estiveste em casa de Martha?
--Estive.
--Vae melhor?
--Muito melhor.
--Não te offereço d'esta gallinhola porque é de suppôr que não esteja ao teu gosto, disse Olympia dissecando a _carcassa_ da avesinha.
--Agradeço, murmurou Magdalena deixando sua irmã, e dirigindo-se para o terceiro andar d'onde dias antes contemplava a galera de Manuel de Mendonça.
Alli pôde emfim dar livre curso ás suas lagrimas!
D'aquella janella por mais de uma vez, insciente da cruel realidade, contemplára o Tejo, no Tejo a barca, na barca o homem, no homem, tudo quanto havia de mais valioso para o seu coração!
Fôra d'alli que vira o seu primeiro desengano, quando Manuel de Mendonça, afastando o oculo, lhe denunciava não ser ella a pessoa que tão anciosamente buscava!
Só, entregue a uma multidão de pensamentos, Magdalena começou a planear o modo de seu pae restituir os quarenta contos de réis extorquidos a D. Marianna de Mendonça.
Magdalena tinha sobejas provas de que a virtude nem sempre havia adejado sobre o proceder de Felix Justino de Araujo. Não ignorava que uma grande parte da sua riqueza tinha sido adquirida em commercios illicitos, porém, o que ella jamais suppozera, é que seu pae tivesse sido capaz de um roubo.
Juntem-se a estas grandes agonias, o infeliz amor que lhe ia n'alma, e vossa excellencia que me lê, e, cujo coração é egual ao de Magdalena, diga me se dôres tamanhas podem caber em coração humano!
Alli se demorou perto de meia hora. Depois, como se um pensamento lhe acudisse rapidamente á imaginação, a infeliz saiu d'aquelle quarto, lançando-lhe uma ultima e dolorosa despedida!
Ao descer ao segundo pavimento encontrou Olympia.
--Que tens? perguntou esta ao notar a pallidez de Magdalena.
--Doe-me a cabeça.
--Isso é fraqueza, respondeu Olympia. Assim estou eu.
Magdalena desceu ás enfermarias e depois de dar as suas ordens, entrou no trem e mandou seguir para Alcantara.
* * * * *
* * * * *
«Disse-me que ia para bordo. Já lá deve estar. Mas isto é uma loucura, pensava ella. Uma mulher da minha edade ir procurar um homem a bordo do seu navio? Embora! A minha consciencia está livre e tranquilla! Não foi Deus quem predispoz todas estas circumstancias, servindo-se de mim para sua intermediaria? Que poderei receiar?»
Voltando-se para o cocheiro disse-lhe que parasse na rocha do Conde de Obidos.
Ao chegar ao boqueirão, Magdalena apeou-se, e dirigindo-se aos catraeiros, pediu a um d'elles que a levassem a bordo da galera Esperança.
Todos queriam ser o primeiro a conduzil-a.
Escolhendo o mais edoso, desceu a rampa e entrou no bote.
Que de poemas se agitavam em sua alma á medida que se approximava da galera! Como ella, escrava de um dever, ia para sempre abandonar a sua ventura!