Chapter 11
--Estou d'accordo comtigo, e tanto, que se me falas serio, mas bem serio, entendes, farei com que Olympia te encontre alguma vez, e se te guiares pelos meus conselhos, vencerás a batalha. Se por ventura a fôres visitar ao hotel e falares com a tua futura, não te approximes da janella, erguendo olhares inspirados para o Tejo; não, longe d'isso, faz um gesto de profunda meditação, engatilhando ao mesmo tempo o ouvido em direcção ao corredor e aspirando o aroma das iguarias que se espalha na atmosphera. Não fales nem de flores nem de estrellas, discute-lhe as empadas do José Romão, e os pasteis de nata da rua da Rosa. Não lhe fales de Dumas nem de Eugenio Sue, conta-lhe a biographia de Vatel, promette-lhe a phisiologia de paladar de Brillat Savarin, e conta lhe isto, com os olhos radiantes de enthusiasmo, e as faces incendiadas pelo quinto peccado. Se assim fizeres, Olympia terá um conselheiro e o teu guarda-portão um fardamento novo!
--Convem-me, respondeu o conselheiro, e tu, ajuntou elle, porque não aproveitas a poetica Magdalena? O teu espirito ainda ás vezes infantil e sonhador, casar-se-ia admiravelmente com a sua organização. Então é que era, visconde: nós os amigos de tantos annos, casados com duas irmãs, que representavam já oitocentos contos e que representariam seis mil para o futuro!
--Se o quizesse fazer, não tinha senão dar o meu sim. Se tu soubesses o que tem ido por essa casa a meu respeito! Magdalena ama-me desde o primeiro dia que me viu. Orgulhosa de mais nunca se atreveu a declarar me o seu amor, mas de sobejo se lhe lê no olhar com que me contempla, na voz que lhe estremece quando por ventura me dirige a palavra, no gesto cuja melancolia me chega ás vezes a causar remorso. Eu tenho sempre feito que nada comprehendo, porém seu pae não o ignora nem a mãe. Falta só dizerem-me em voz clara, o sentimento que a minha presença inspirou á filha.
--Pois acho que fazes uma grande asneira, disse o conselheiro.
--Eu ás vezes também assim penso, mesmo porque talvez venha no futuro a sentir remorsos de ter concorrido para a morte d'aquella creança. Se tu soubesses quanto soffre. Aquelle ardente desespero com que Magdalena se lança a todos os perigos, penso eu ás vezes ser mais vontade que tem de morrer para não affrontar a minha indifferença, do que realmente caridade.
--Mas porque motivo não lhe retribues tu com muito amor, o affecto que essa creança te consagra?
--Porque a não amo, João. E como, graças a Deus, não estou na posição de me casar por necessidade, não quero sacrificar os longos annos que ainda me restam de vida, passando os ao lado de uma mulher, que nada tem a desejar, mas pela qual o meu coração não palpita de amor. O motivo é este, apenas este.
--Tens-me falado com seriedade em tudo isto? acudiu o conselheiro depois de alguns instantes de profunda reflexão.
--Dou-te a minha palavra de honra que tenho.
O visconde não mentia. Fiado ainda na sua belleza proverbial, e afeito a que todas as mulheres o estremecessem, pensou que esse sentimento que a pobre Magdalena nutria em silencio por Manuel de Mendonça, era o resultado de uma paixão que elle lhe havia inspirado.
Orgulhoso do seu nome, o visconde, apezar da inquestionavel vantagem que lhe poderia resultar d'esse enlace, não queria, diremos, baixar da sua dignidade entregando-se n'uma facil conquista, a essa mulher cujo coração o estremecia, a quem elle nunca poderia ter sido indifferente, attendendo á sua formosura e altas virtudes que a distinguiam.
Viu n'um relancear de olhos o proveito que poderia tirar, arranjando o casamento do conselheiro com a irmã de Magdalena. Por essa fórma viveria mais em familia, e se um dia, exasperada de amor e incendiada de paixão, Magdalena se lançasse em seus braços, pedindo-o em casamento, elle então do alto do seu throno de vaidade, extenderia a mão para lhe dar um sim de protecção. Eram estas as suas idéas, as que elle estreitamente guardava no fundo da sua alma.
Por isso não mentia, quando respondeu ao conselheiro que lhe estava falando a serio.
--Pois então, disse João Poderosa, visto não me teres illudido, digo-te tambem, e muito de coração t'o peço, que me auxilies n'esta tentativa, cuja realização póde fazer a tua e a minha felicidade. Pensa nos meios que temos a empregar; dirige-me em tudo se te apraz; serei um automato se m'o exigires, mas colloca-me ao contacto d'essa mulher. Agora, accrescentou elle, como se um mundo novo se desenrolasse a seus olhos, vou contar a el-rei o que se passou comtigo, e logo, sendo sete horas, antes de ir para o theatro, aqui te venho buscar. Ficamos certos?
--Pois não, respondeu o visconde, e á fé de quem sou te prometto, que em menos de um mez, Olympia será tua mulher.
Despedindo-se do visconde, o conselheiro seguiu para o paço.
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«Vae tudo ás mil maravilhas, pensava elle. Com esta missiva official farei de Tristão quanto me aprouver! Tenho até a certeza que obteria a mão de Magdalena. E porque não hei de requisital-a? Requisital-a não, que ella m'a requisite. Se eu me curvava á filha de um Tristão de Almeida! Parece-me mais razoavel, accrescentou o visconde depois de alguns momentos de graves locubrações, fazer com que o Poderosa consiga a mão de Olympia; feito isso serei eu a entrar em scena. Por agora não, tratemos apenas do titulo. Quem tudo quer tudo perde!»
Vestindo-se em seguida, montou n'um magnifico cavallo inglez, e partiu a trote largo, dirigindo se para o hospital.
Proximo á calçada do marquez de Abrantes, viu que um homem o chamava de dentro de um trem. Estacando de repente o cavallo, approximou-se do postigo da sege.
Era Gil de Carvalho.
--Encontrei-o emfim, disse o jogador. Então onde se póde ver o seu amigo Tristão de Almeida?
--Aonde se póde ver? por ahi, respondeu o visconde.
--Não é isso o que eu queria dizer; perguntava aonde elle joga para lhe pagar as cem libras que sabe.
--Ah! o meu amigo Tristão de Almeida? esse já não joga, respondeu o visconde, mas se lhe quer pagar as cem libras, entregue-m'as, que eu lh'as darei.
--Peior é essa! exclamou Gil de Carvalho, suspendendo o movimento que fizera para tirar as notas da algibeira.
--Então não quer que lh'as entregue? repetiu o visconde, que começava a desconfiar da velhacaria do jogador.
--Suppuz que vinha prevenido, mas enganei-me, respondeu Gil de Carvalho. Ámanhã passarei por sua casa.
--Pois então adeus, meu amigo, disse o visconde, batendo as pernas ao cavallo.
Deixemos o visconde e Tristão de Almeida no jardim do hospital discutindo ácerca do nome que tencionam escolher para o titulo, e subindo pela rua do Conde, vamos a casa da pobre Martha, de quem não sabemos desde aquelle dia em que se prostrou sem sentidos ao ouvir a historia do mestre de obras.
XXIX
Magdalena, ao ver a cruel realidade das suas suspeitas, resolveu esmagar nos seios d'alma aquelle affecto que lhe era vida, e dirigindo-se a casa de Martha, exigir da sua amizade a revelação de todos os segredos.
Havia dias que a pobre criança, cada vez mais enfraquecida, parecia levantar os olhos a Deus, como pedindo-lhe pela sua infinita misericordia que a recolhesse na paz divina de seus braços.
Balbina e Jeronymo, sem se retirarem um só momento do lado de sua filha, erguiam de vez em quando os seus olhos supplices e inquietos para a Virgem da Conceição.
Martha não falava, afóra algumas palavras á tia Marianna, com quem abria inteira a sua alma.
Bem sabia Martha, que n'aquelle peito podia sem receio depositar todos os seus arcanos! A pobre velha havia-lhe jurado nunca revelar a pessoa alguma as confidencias que lhe depositasse no cofre do seu coração!
* * * * *
* * * * *
São duas horas da tarde. Martha na vespera havia peiorado! A febre, augmentando-lhe consideravelmente, dera graves receios ao doutor Hermenegildo, distincto facultativo do hospital do magnate.
Ouve-se o rodar de um trem, que pára á porta do operario, e, de dentro d'elle, envolta n'uma comprida capa de velludo preto, apeia-se uma mulher. É a filha de Tristão, Magdalena. Escusado seria dizel-o, que n'essa hora, Olympia, á mesa do _lunch_, saboreia em doce encantamento as altas locubrações d'um intelligente cozinheiro.
Contra o seu habito, Magdalena vem completamente só. O olhár e a pallidez do rosto, denunciam-lhe um soffrimento profundo. No pisado das palpebras, adivinha-se-lhe o rasto produzido pelas lagrimas. A sua voz, ordinariamente firme e sonora, perturba-se á mais pequena palavra, como receiando que as lagrimas lh'a interrompam! O descuidado da _toilette_, o desalinho dos cabellos, tudo emfim lhe descobre a tempestade em que se agita o seu coração!
Não era Magdalena, era apenas a sua sombra!
Bate á porta de Jeronymo, e Balbina vem abrir.
Ao vel-a n'esse estado, a mulher do operario não pode occultar o seu assombro.
Jeronymo secunda sua esposa na admiração.
--Mas que é isto! Valha-me Deus, minha querida menina, disse a mulher de Jeronymo voltando-se para Magdalena.
--Preciso falar-lhe em particular, e depois, com sua filha. O que me traz aqui, é grave e muito grave sr.ª Balbina.
Esta, fazendo toda a diligencia para que Martha se não apercebesse da presença de Magdalena, leva a para uma pequena alcova que deita para o quintal de Jeronymo, outr'ora tão cuidadosamente tratado, e triste ha uns tempos a esta parte, como o coração do seu cultivador.
--Estamos sós? perguntou Magdalena para Balbina.
--Tão sós que ninguem nos póde ouvir, respondeu Balbina sem comprehender o que se passava em torno de si.
--Em primeiro logar, como está a pobre Martha?
--Mal! bastante mal, minha boa menina, e tanto que, hoje o medico...
--O quê?
--Disse-me que me não illudisse, ajuntou Balbina agarrando se á amiga de sua filha.
--Pobre anjo! exclamou Magdalena apertando-lhe fortemente as mãos. E o que diz elle a respeito da sua doença?
--Que é toda moral, e portanto mais difficil de se lhe encontrar o curativo.
--E a que attribue a senhora isso? perguntou Magdalena fitando a mulher do operario.
--Eu sei! respondeu esta, tornando a resumir-se ao silencio.
--Seja sincera commigo, sr.ª Balbina, e lembre-se que ninguem n'este mundo será capaz de ser mais amiga de sua filha do que eu sou.
--Creio o bem, minha senhora.
--Pois então porque não abre commigo a sua alma? Diga me não deposita em mim bastante confiança no meu caracter? Olhe, continuou Magdalena, descobrindo inteiramente o rosto. Diga-me se n'estas feições adivinha a menor sombra de hypocrisia?
--Por Deus, minha senhora! acudiu rapidamente a mulher de Jeronymo.
--Pois então, Balbina, se acredita na lealdade de minha alma, seja sincera commigo, e fale-me como se eu fosse uma outra sua filha. Não imagina o prazer que me vae dar. Como eu serei feliz podendo desabafar n'um coração de mãe, quanta dôr existe n'este meu pobre peito.
--Já que tanto insiste, minha senhora, vou confiar-lhe um segredo, que nunca me teria atrevido a revelar, se não fosse conhecer a nobreza da sua alma! O que a minha filha tem, é uma paixão, paixão que a leva á sepultura.
--E esse homem que lh'a inspirou, é?... perguntou Magdalena, como se ainda uma pequena esperança lhe restásse.
--Esse homem é o commandante da galéra Esperança, o mesmo que descobriu aonde estava meu marido, na noite do dia em que foi atropellado por seu excellentissimo pae.
--Manuel de Mendonça! exclamou Magdalena.
--Elle mesmo!
--E elle?
--Nunca mais o tornou a ver.
--E como soube tudo isso? perguntou Magdalena.
Balbina então contou-lhe quanto se havia passado entre Jeronymo e a filha, não lhe omittindo a circumstancia d'estas terriveis palavras: «esse homem é amado pela filha do nosso protector.» Magdalena pensou morrer. A nobreza d'alma d'aquelle anjo, deixando se descer á sepultura, sem interromper o sentimento que dominava o coração de Magdalena, a sua generosidade, abandonando-lhe por assim dizer aquelle homem que ella amava, e de quem tinha a certeza de ser correspondida, tudo concorreu para que no seu coração immenso tambem como o de Martha, se formassem mil conjecturas tendentes todas á generosidade.
«Morrerei, pensava ella, mas salvarei este anjo que tão nobremente se me sacrificou. E que m'importa a vida? De que me serve este eterno martyrio? Vivam! que vivam para serem muito felizes, e abençoarem a minha memoria se eu concorrer como espero para a sua ventura!»
--Bem, ajuntou Magdalena voltando-se para Balbina, vá ao quarto de Martha, veja o estado do seu espirito e se ella estiver mais tranquilla, quero-lhe falar.
A pobre Balbina sem comprehender o choque que este encontro poderia produzir na alma de sua filha, apressou-se em cumprir as ordens de Magdalena.
«Parece que sobre a nossa familia peza uma grande desgraça, continuou a filha de Tristão de Almeida olhando para o pequeno horto. De que serve a enorme riqueza de meu pae! A sua alegria, é sempre aquella eterna mascara com que tenta encobrir as lagrimas que o devoram na eterna solidão de sua alma. Minha mãe, afeita a illudir, tem chegado a convencer-se que é muito feliz, não passando d'uma desgraçada! Eu, que tenho passado uma existencia de tristeza, no momento em que pela primeira vez na vida me poderia considerar venturosa, vem o destino, e corta-me rapidamente o fio da minha felicidade. Olympia, graças ao seu genio, é a unica fadada para a completa tranquillidade da alma! Vive e come, pobre irmã, que seria o mesmo que dizer-te: vive e sê feliz!
«Falarei com Martha, e hoje mesmo lançar-me-hei aos pés de meu pae, pedindo-lhe que d'esse dote dos quatrocentos contos que tantas vezes me tem promettido me conceda apenas cincoenta para dar a Martha, e depois de os ver ambos casados, felizes, abençoando a minha mão que lhe estreitou a sua ventura, eu então, ou buscarei a morte, ou fechar-me-hei entre as grades d'um convento!»
N'este comenos entrou Balbina. Martha havia accordado e esperava a visita de Magdalena.
Esta sem mais hesitar, entrou no quarto da criança, e, occultando a custo as lagrimas que a suffocavam, lançou-se sobre o leito abraçando a pobre amiga.
--Ha dias que desejo falar-lhe sobre um assumpto muito importante, porém, a sua eterna reserva para todas as pessoas que deveras a estimam, tem sido a causa de me não ter atrevido, disse-lhe Magdalena. Quem mais do que Martha possue corações verdadeiramente dedicados? accrescentou ella. Não vê que está offendendo a Deus que a protege? Porque pensa em morrer, minha amiga? Não vê que morrendo, mataria sua mãe, seu pae, e que fará soffrer a todos que se interessam pela sua vida? Por que motivo se tem occultado á sombra da sua agonia sem buscar um peito amigo com quem desabafe os seus desgostos? Não tinha minha irmã? Não me tinha a mim? á sua propria mãe? Quem melhor do que ella, podia ser a confidente dos seus segredos?
--Segredos! Eu? murmurou Martha.
--Sim, Martha; segredos e muito importantes. Não queira negar-me o que sei.
--Não tenho coisa alguma a negar, minha boa menina, respondeu Martha, como se já não tivesse forças para sustentar aquelle dialogo.
Insciente do mal que as suas palavras poderiam influir no espirito de Martha, Magdalena seguia apenas a que o seu coração lhe ordenava.
--Nunca amou ninguem, Martha? Seja sincera commigo. Deposite as suas magoas n'este coração que lhe quer tanto como se fosse sua propria irmã.
Os olhos da creança inundaram-se de lagrimas. A mentira jámais havia passado por seus labios! A infeliz não sabia que responder.
--Responda, minha irmã. Até hoje homem algum lhe feriu esse coração? Jura-m'o?
Haveria ainda algum vestigio de esperança no coração de Magdalena ao insistir n'aquellas perguntas? Sabia-o Deus e a sua alma!
Martha sem responder agarrou-se ao pescoço de Magdalena e desatou n'uma torrente de lagrimas.
--Perdôe-me, disse ella emfim, mas eu não sabia que o amava. Foi o primeiro homem que meus olhos viram. Havia tanta bondade, tanta nobreza no seu caracter! A quantas pessoas perguntei por meu pae, todas me responderam brutalmente que não sabiam quem elle era. Aterrada com a minha desgraça, encontrei-me só, completamente só. Então, appareceu o sr. Manuel de Mendonça; promptificou-se a procurar meu pae, e encontrou-o. Desde esse dia, a sua imagem ficou-me impressa na memoria. Quiz esquecêl-o, mas era-me completamente impossivel! Dias depois, vi-o. O que eu sentia na minha alma, foi crescendo, crescendo gradualmente, até que reconheci que o amava. Quando já era tarde foi então que comprehendi toda a loucura do meu sentimento, avaliando ao mesmo tempo a immensa distancia que nos separava. Um dia, descobri que esse homem era amado por quem melhor do que eu o merecia. A dôr quebrava-me a alma, mas a ninguem revelava a minha angustia! Desde então, minha boa amiga, entendi que o melhor era esperar resignada o momento em que Deus me chamasse á sua divina presença sem ter deixado no mundo um rastro de ingratidão! Ame-o, sr.ª Magdalena! Amem-se, que são dignos um do outro, e, se um dia se recordarem da pobre Martha, vão ambos, rezem-lhe uma oração sobre a sua sepultura, e lembrem-se da que está no reino dos tristes pedindo a Deus pela sua ventura e pela felicidade do sr. Manuel de Mendonça!
--E quem te disse a ti, filha, que esse homem era amado por mim?
--O meu coração, respondeu Martha, inclinando a cabeça no travesseiro.
--Illudiu-te, e o tempo t'o provará, respondeu-lhe Magdalena. Eu nunca o amei! accrescentou ella, empregando n'estas ultimas palavras todo o valor da sua alma. Eu só quero a tua felicidade, Martha.
--A minha felicidade está no céu, respondeu a infeliz, levantando os olhos para o tecto.
--Enganas-te! exclamou Magdalena. A tua felicidade está nos braços d'esse homem como a sua ventura deve estar n'um coração nobre e generoso como o teu! Já a mim mesma o prometti, irei hoje preparar o teu bem estar. Agora, filha, accrescentou Magdalena, que esses teus olhos se enxuguem para sempre, e que as lagrimas desçam sobre os meus para jámais os abandonar. E abraçando estreitamente a pobre creança, Magdalena sahiu do quarto, e sem quasi se despedir de Balbina, deixou a casa do operario e partiu para o hotel Bragança!
[Ilustração: É de joelhos que lh'o imploro! (_pag. 213_)]
XXX
Ao chegar ao hotel de Bragança, Magdalena encontrou sua mãe louca de alegria. Já tinha sabido por Tristão e pelo visconde de Coruche, a mercê que sua magestade acabava de lhe offerecer.
--Um abraço minha filha! exclamou D. Maria Egypciaca. El-rei, attendendo aos serviços que temos prestado ao paiz durante a epidemia, acaba de encarregar o conselheiro Poderosa, de perguntar a teu pae que nome deseja dar ao titulo de conde que lhe vae ser concedido. Fique portanto sabendo, accrescentou ella, que d'aqui a pouco tempo será filha de uma condessa! Que te parece Olympia?
--Parece-me que sua magestade acaba de nos dispensar uma grande honra, respondeu Olympia, para dizer qualquer coisa a sua mãe.
--Mas que vejo, Magdalena! disse D. Maria Egypciaca, voltando-se para sua filha. Que tens tu? meu Deus! que terrivel pallidez!
--É tão grande a alegria que nossa mãe experimenta só com a ideia do titulo, que nem sequer reparou para o estado em que te encontras! Doe te a cabeça, Magdalena?
--Não, respondeu ella; comtudo, sinto-me alguma coisa indisposta.
--Pois faz a diligencia de te animares! É de suppôr que venha cá hoje passar a noite o conselheiro Poderosa. Já pedi a tua irmã quasi de mãos postas que se fizesse mais amavel. Veremos como se porta.
--Preciso falar-lhe, minha mãe, interrompeu Magdalena, dirigindo-se a D. Maria Egypciaca.
--É negocio grave, pelo que vejo! Succedeu alguma novidade no hospital?
--Não, por certo. É outro assumpto inteiramente diverso.
--Não podemos falar aqui mesmo? perguntou a futura condessa.
--Já disse a minha mãe que era uma coisa em particular.
D. Maria Egypciaca, seguida por sua filha, entrou no gabinete de Tristão, aonde varias vezes temos conduzido o leitor.
--Que queres pois? perguntou ella, reclinando-se commodamente sobre uma cadeira á voltaire.
--Venho prevenir minha mãe que desejo entrar para um convento antes do prazo de um mez.
--Estás doida, ou variada! exclamou ella como se não acreditasse nas palavras que escutava.
--Nem doida, nem variada! respondeu Magdalena. É uma resolução de que ninguem será capaz de me afastar.
--Mas que te impelle a similhante determinação? Explica-m'o. Quem melhor do que tua mãe poderá ser tua confidente.
--Basta que o saiba Deus, em cujos braços me quero occultar, respondeu-lhe serenamente Magdalena.
--Esta rapariga enlouqueceu! acudiu D. Maria.
--Já respondi a minha mãe que não estava louca, nem tão pouco variada, accrescentou Magdalena sentando-se no sophá.
--Agora que, escudadas por um titulo, vamos brilhar como ninguem na sociedade, é que te queres retirar a um convento?
--Quero agradecer ao Senhor os beneficios que lhe devo, recolhendo-me sob os tectos da sua habitação.
--Jámais t'o consentiria, e muito menos teu pae.
--Torno a dizer a minha mãe, que pessoa alguma poderá impedir a minha resolução.
--Mas que pretendes, filha? Amas alguem? Receias que teu pae se opponha á tua vontade? Fala, fala por Deus, mas não me atormentes! Eu que esperava anciosa a tua vinda para te participar a alegria em que estavamos! Que esperava, emfim, passar uma noite agradavelmente na companhia do visconde e do conselheiro Poderosa, o encarregado por sua magestade de nos offerecer o titulo.
--Não queria falar em coisa alguma com meu pae, sem primeiro lhe dizer as minhas intenções, ajuntou Magdalena com um sangue frio imperturbavel.
--Ah! exclamou D. Maria Egypciaca, levantando-se rapidamente da poltrona. Comprehendo agora que não eram infundadas as desconfianças de teu pae.
--Que desconfianças? perguntou Magdalena.
--Que amas...
--Eu?
--Tu, sim...
--Quem? perguntou Magdalena tornando se cada vez mais pallida.
--O visconde de Coruche!
--Que testemunho! Já disse uma vez a minha mãe, que nunca amei, nem seria capaz de amar o visconde.
--Assim me queres convencer...
--Nunca tentei illudir pessoa alguma, e muito menos a meus paes.
--Então outro homem?
--Não posso amar! respondeu Magdalena cada vez mais perturbada.
N'este momento abriu-se a porta do gabinete, e entrou Tristão de Almeida.
Ao contemplar a physionomia de Magdalena, a sua filha predilecta, o pobre pae sentiu um estremecimento que lhe toldou a côr do rosto! Julgou-a atacada pela febre.
--Saberás, disse D. Maria Egypciaca, que n'um dia, para nós de tanto regozijo, a tua filha...
--O quê? perguntou Tristão, voltando-se para sua mulher.
--Quer recolher-se a um convento?! respondeu D. Maria.
--Recolher-se a um convento!? perguntou Tristão como se não acreditasse em similhantes palavras. Recolher-se a um convento! accrescentou elle, voltando-se para Magdalena. Tu, filha da minha alma? Abandonares-me? Tu que és a unica ventura da minha vida? Mata-me primeiro, e depois, faze o que te aprouver! Sabes o que significa essa palavra «deixares me!» Ignoras que só tu me tens sustido a existencia? Não conheces inteira a minha vida? Não te contei todos os sacrificios que tenho feito por tua causa? Desconheces o que fiz para te ganhar um patrimonio; para ti, só para ti, que és a vida da minha vida? Deixares-me! quando a existencia começa a sorrir-me... quando os meus cofres cheios de ouro se despejariam ao teu mais pequeno capricho? Deixares-me quando a gloria desce sobre a nossa familia, não digo por esse titulo que não passa de uma miseria, mas pelo que temos feito por esses desgraçados. Se amas alguem, bom ou mau, rico ou pobre, dize m'o, e farei tudo para me não separar do teu lado. Se fôr bom, abraçal-o-hei, se mau, tu o tornarás bom, Magdalena! Pobre, o meu ouro o fará enriquecer, e tu verás cumpridos os teus desejos. Mas deixar-te? Nunca, torno a repetir t'o!
--A minha resolução é inabalavel; comtudo, antes d'isso, tenho um grande favor a pedir lhe:
Tristão parecia attendel-a sem consciencia de vida.