Chapter 10
--Eu lh'o conto. Foi atropellado por um fidalgo muito rico, que tem agora um hospital para a rua de S. Francisco de Paula, e como elle ficasse muito mal tractado, sabe o que o fidalgo fez? levou-o para a hospedaria onde estava, tractou d'elle sem lhe faltar nada, e por ultimo empregou o, dando-lhe quinze tostões por dia. Ora veja vossemecê como o diabo as tece! Ha males que vem por bem! Quem me dera a mim encontrar um fidalgo que me atropellasse com a condição de me dar, já não digo quinze porém cinco tostões por dia. Ha dois annos que estou n'esta maldita casa, e o miseravel do patrão ainda me não augmentou o ordenado. Aqui estou ganhando dois mil reis por mez, que como o outro que diz, não me chega nem para beber uma pinga aos domingos. Agora por isso, ajuntou elle, mudando de tom, creio que já despejou todo o vinho. Quer que torne a encher?...
--Encha, respondeu Mascatudo, occultando a custa um sorriso.
--E ainda ahi não fica, como ia dizendo. Em tal graça caiu a sua familia para com os fidalgos, que é raro o dia, em que as meninas não vém no seu proprio trem buscar a filha de Jeronymo.
--E ella porta-se bem?
--Diziam que sim, porém agora, já ha quem lhe rosne no credito. Ora aqui para nós tem razão! Uma rapariga tão bonita como a Martha, e pobre como é, andar no luxo em que anda!
--Mas talvez que esse luxo lhe tenha sido dado pelas filhas do tal fidalgo, respondeu Mascatudo, sentindo um grande estremecimento no coração.
--Tambem isso é verdade; póde muito bem ser, e n'esse caso então, não lhe deviam cortar na pelle.
--E quem é que lhe corta na pelle?
--Olhe, alli vem uma das visinhas que não lhe faz lá muito boas ausencias: a tia Monica.
N'esse momento, a beata, de quem o leitor deve estar lembrado, involta na sua mantilha de merino preto, entrou na tenda.
--Deus seja n'esta casa, disse ella, olhando ao mesmo tempo para Mascatudo.
--Amen, respondeu este, cravando os olhos no rosto cadaverico da intrusa.
--Então como vae isso hoje lá por baixo a respeito da febre, perguntou o caixeiro, que já sabia que era a hora em que ella vinha da baixa.
--A colera de Deus continua a castigar os peccadores, respondeu a misera abaixando ao mesmo tempo a cabeça. Hontem, continuou ella, disseram-me que houve uma mortandade espantosa. E estes herejes do sitio sem fazerem uma procissão como tantas vezes lhes tenho pedido!
--Porque não mette n'isso o mestre Jeronymo? perguntou o caixeiro á tia Monica, piscando ao mesmo tempo o olho para Mascatudo.
--Cruzes! Credo! Virgem da Soledade! Pedir uma coisa d'essas a similhante creatura! De que Deus me livrasse, sr. André!
--Pelo que vejo, não é muito amiga do nosso visinho!
--E como queria o senhor que uma mulher como eu fosse amiga de similhante homem?
--Pois olhe, basta o que elle fez pela tia Marianna, para mostrar que tem bom coração. Lá o que é verdade, deve-se dizer sempre! Ha de haver mez e meio, proseguiu o caixeiro voltando-se para Mascatudo, foi aqui atacada uma mulher pela febre amarella, e ninguem se atreveu a entrar em sua casa; a unica pessoa que o fez, foi Martha, a filha de Jeronymo. Com tanto amor a tractaram, que hoje está viva e sã.
Mascatudo sorriu d'alegria ao ouvir a boa acção de Martha.
--E porque fez elle isso tudo? resmungou a beata. Sô para que depois se dissesse pela visinhança que eram uns santinhos. Que santinhos de pau carunchoso!
--Seja lá pelo que fôr, o grande caso é que salvaram aquella embarcação que ia dar á costa, acudiu Mascatudo.
--Pelo que vejo respondeu Monica contemplando o marinheiro, vossemecê anda sobre as aguas do mar? Que o Senhor dos Navegantes, a quem mesmo agora acabo de rezar duas estações, o livre de todos os perigos, meu filho; e possa tambem a Senhora da Bonança andar sempre em sua companhia. Padre nosso que estaes nos céos... continuou ella.
--Então o que se diz por ahi de Jeronymo, tia Monica, perguntou Mascatudo, começando a tratal-a com certa confiança.
--Ora! O que se ha de dizer! O que se diz sempre d'um homem que consente que sua filha esteja fóra de casa, e que venha a altas horas da noite, muitas vezes acompanhada por um individuo, que vem sósinho com ella dentro d'um trem. Quem elle é ainda eu não pude descobrir, mas, agora que felizmente já consegui encaixar-me no hospital e fazer conhecimento com as meninas... vou descobrir quem é o melro.
Mascatudo sentiu um estremecimento por todo o corpo. Elle que a julgava pura como um anjo, começava a duvidar da sua virtude. E não tinha mais remedio senão contar tudo que ouvira.
--Agora que já tenho lá entrada como lhe ia dizendo, é que hei de saber qual dos amigos do fidalgo, é o que está acostumado a acompanhal-a. E a boa da tia Marianna, sempre por toda a parte a dizer d'ella mil maravilhas, e eu a saber como os meus dedos, a peça que é a creancinha! Dizem-me que anda sempre muito triste. Deus sabe como ella andará! Que Deus me perdoe de fazer maus juizos!... exclamou a beata curvando a cabeça.
Outro que não fosse Mascatudo, teria regeitado as opiniões da execravel beata, porém ferido por aquella primeira impressão, o caracter fogoso e ao mesmo tempo selvagem do marinheiro, levou-o a acreditar em tudo quanto lhe haviam dito! Sem descer a mais indagações, e abandonando ao caixeiro a segunda meia canada que mandara encher, Mascatudo pagou o que devia, e sem quasi se despedir nem d'um nem d'outro, saiu apressadamente da loja. Seguindo pela rua da Lapa, desceu a rua de S. Domingos, e entrando nas Janellas Verdes, alcançou a rocha do Conde de Obidos, aonde embarcou para bordo da galera.
Manuel de Mendonça, passeiando á prôa, aguardava com impaciencia o resultado da commissão do marinheiro.
Os olhos de Mascatudo arrazados de lagrimas, seguiam os movimentos do seu commandante. O pobre homem receiava os instantes que o approximavam de Manuel de Mendonça, afim de lhe participar o que se havia passado.
O escaler abordou finalmente á galera e Mascatudo subiu a escada.
--Que soubeste? perguntou Manuel conduzindo-o á sua camara.
Revestindo-se de valor Mascatudo contou-lhe quanto tinha ouvido.
Manuel de Mendonça sorriu-se brandamente, e olhando para aquelles horisontes, toldados então por uma neblina espessa, fitou a vista no oceano, como que dizendo-lhe que o esperasse.
N'essa mesma noite adoeceu com uma febre gravissima, de que lhe resultou estar quinze dias de cama.
Foi durante esse tempo, emquanto ao infeliz, entre as visões da febre, se lhe desenhava a imagem da supposta peccadora, que Magdalena na varanda do hospital, assestava de vez em quando o telescopio para descobrir o rasto do commandante da galera.
XXVI
--Terá a bondade de dizer á sr.ª D. Magdalena que está aqui a sua pobresinha, dizia a tia Monica voltando-se para o guarda-portão do hospital.
--A sr.ª D. Magdalena não póde agora recebel-a; acha-se á cabeceira de um doente que está por pouco... respondeu-lhe o guarda-portão.
--Pois sim, pois sim, vá sempre dizer-lhe que é a tia Monica, a quem deu ordem para que viesse aqui hoje sem falta. Ande, avie-se; verá se me fala ou não.
--Já lhe disse a vossemecê o que tinha a dizer-lhe. Escusa de me importunar mais.
--Deixa estar que eu te direi, dizia a velha comsigo. Alcance eu o que desejo, e verás como te ponho no andar da rua, só pelo mal que me estás tratando. Estejas tu meu traste mais oito dias sem cá vir, e eu te direi, como te ponho tambem no meio da rua, minha Martasinha.
--Então vossemecê, vae ou não vae! ajuntou a tia Monica em voz alta, voltando-se de novo para o porteiro.
--E ella a dar-lhe, e a burra a fugir, disse o guarda-portão, voltando-lhe a cara para a banda, e continuando a varrer o patim. Se vossemecê continua a atormentar-me subo lá acima e digo ao mestre Jeronymo que lhe pegue por um braço e que a ponha fóra da porta. Forte impertinente! cruzes, canhoto!
--Ora sempre haviamos de ver isso, se o tal mestre Jeronymo seria capaz de pôr no meio da rua uma pessoa mandada aqui vir por uma das filhas do dono da casa! Faça isso, sr. Antonio, até desejo que o faça. Ande, então...
N'este momento, uma enfermeira que vinha de jantar, entrou apressadamente no hospital.
--Tem a bondade de dizer á sr.ª D. Magdalena que está aqui a tia Monica, e que lhe vem trazer a resposta d'aquelle recado que lhe encarregou, disse a beata, perseguindo a mulher.
--Farei entregue, respondeu a enfermeira, subindo apressadamente a escadaria.
--Vossemecê não tem vergonha de estar assim com essa teima?
--Pois veremos quem vence--se sou eu ou se é vossemecê; e sentando-se tranquillamente sobre um dos bancos da entrada, a tia Monica começou a olhar para o enraivecido porteiro, com um modo insolente e provocador.
Cinco minutos depois, desceu a mesma enfermeira, dizendo lhe da parte da sr.ª D. Magdalena que fosse ter com ella ao terceiro andar.
A velha, radiante de gloria e de regosijo, fixou o porteiro do alto da sua magestade, e despedindo-lhe um olhar de compaixão, subiu afoita as escadas, promettendo a si mesma vingar-se do pobre homem, logo que o ensejo lhe fosse favoravel.
A principio, o porteiro rugiu de colera, porêm, vendo a inutilidade do seu mau genio, conformou-se com a sorte, e empunhando de novo a vassoura continuou na sua constante operação.
Magdalena, ao ouvir as palavras da enfermeira, encarregou a sua irmã o moribundo, e subiu logo ao terceiro andar, aonde mandaram conduzir a velha.
Quando ella entrou, Magdalena, encostada á varanda, contemplava o Tejo, no Tejo a galera, na galera Manuel de Mendonça, e n'esse a vida que para ella lhe fugia!
--Bons dias, santinha! disse ella approximando-se da tia Monica.
--Muitos bons dias, meu anjinho, replicou a asquerosa beata tentando beijar a mão que Magdalena lhe extendia. Já lhe disse que não quero ver esse rosto tão pallido, minha rosa desbotada. Anime-se, ande, ria-se para mim.
--Soube alguma cousa? perguntou Magdalena.
--Alguma coisa se soube. Ainda não é tudo quanto desejamos; mas de cá se vae a lá, como dizem os hespanhoes. Um amigo d'um sobrinho meu, que está na armada, foi a quem encarreguei. Hoje, seriam oito horas da manhã, quando eu vinha de ouvír as minhas missas, e de pedir a Deus pela minha querida menina, senti baterem-me á porta, abri, e era o Manuel, o tal rapazola. «Que temos?» perguntei-lhe eu. «Que havemos de ter? Já soube onde pára o tal individuo, e quem elle é» respondeu Manuel.
--E quem é elle? perguntou avidamente a filha de Tristão de Almeida.
--É o commandante da galera Esperança. Tem estado muito doente. Ha mais de quinze dias que não sae de bordo!
--Meu Deus! disse Magdalena, eis o motivo porque nunca mais o pôde ver!
--Quanto ao resto, accrescentou a beata, posso-lhe dizer quasi com toda a certeza, que alli anda cousa, e anda por isto:--Ha tempos estando eu na tenda do Melro, entrou um homem de tracto do mar e começou a perguntar informações de Martha. Esse individuo não tinha sido senão alguem mandado por elle, para saber se se portava bem ou mal.
--E o que lhe respondeu, tia Monica?
--Que queria a menina que lhe respondesse! Póde-se julgar mal d'uma pessoa que anda na companhia de dois anjos, como as minhas duas meninas? Embora eu soubesse quem esta familia é, a minha bocca nunca se me teria aberto para dizer similhante coisa!
--Parece-lhe portanto que as minhas suspeitas eram bem fundadas?
--Se me parece! E faça se bem! As meninas a protegerem aquelle traste, e ella pagando-lhes assim!
--Isso não, tia Monica! Pobre rapariga, que culpa tem ella do que se passa no meu coração? O mal que me está causando é involuntario, e tão involuntario que ella propria o desconhece; e demais, se ha alguem culpado em tudo isto, sou eu, eu apenas.
--E pensa a menina, que um rapaz como esse tal sr. Manuel de Mendonça, possa descer a olhar para uma mechanica? uma reles filha d'um operario, tendo a palpitar pela sua pessoa, um coração nobre e generoso como o da minha rica menina? Para que havia Manuel de Mendonça querer a filha d'um operario: só se fosse para ser sua criada.
--Pois olhe, tia Monica, veja como eu sou, se tivesse a certeza de que Martha era de ha muito amada por Manuel de Mendonça, creia que embora eu morresse de paixão, seria capaz de me sacrificar, a ponto de ser eu a propria madrinha do seu casamento. Hontem estava pensando n'isso. Mas o que eu queria, era ter uma certeza. Se o que tem conservado Martha n'aquelle estado, é uma paixão, serei eu a propria, embora d'isso me resulte a morte, a fazer todas as diligencias de os reunir. Se elle fôr nobre, pedirei a meu pae, que tire de meu dote alguns contos de réis, para collocar aquella pobre criança n'uma posição que lhe não envergonhe os seus pergaminhos. Porém se esse amor que eu supponho existir no coração de Martha, não fôr mais do que uma desconfiança, então Monica, se lhe não fôr indifferente, rico ou desventurado, nobre ou plebeu, Manuel de Mendonça será o meu esposo, porque o amo muito, muito, tia Monica!
E a pobre Magdalena, tremula e offegante, debalde tentava occultar as lagrimas que a suffocavam!
Era muito de ver-se o contraste d'estas duas creaturas! Magdalena, o amor, a generosidade, a pureza de affectos! Monica, a mentira, a ambição, a crapula emfim de todos os sentimentos!
Alma candida e inexperiente, não avaliava sequer a immensa distancia que as separava. A pomba approximava-se d'aquelle asqueroso reptil, sem comprehender com quantas voltas lhe poderia enrolar o seu pescoço de neve!
Ao escutar aquellas palavras que tão claramente denunciavam a ingenuidade da sua alma, a tia Monica julgou perder a partida. Além dos lucros que esperava obter servindo de intermediaria n'aquelles amores, havia um outro sentimento que a dominava, mais forte talvez que o primeiro: o desejo de se vingar da familia de Jeronymo! Desejo infundado, sem motivo algum, explicado apenas por aquella profunda inveja que os bons mais ou menos inspiram aos que o não são nem o desejam ser!
Envenenando-lhe o seio com o ervado punhal do ciume, a tia Monica poderia fazer com que retirassem a sua protecção ao mestre de obras. Poderia fazer com que Magdalena, odiando a pobre Martha, lhe roubasse a pessoa a quem ella amava, ficando apenas reduzida á miseria e ao descredito que por toda a parte lhe proclamava.
Eram estas as suas idéas, idéas que principiavam a desvanecer se, á proporção que ia lendo na alma de Magdalena toda a grandeza d'aquelle coração, immenso como a agonia que o dilacerava!
--Veja, continuava Magdalena, se por esse individuo, me póde saber, custe o que custar, se Manuel de Mendonça escreve a Martha, se a vê, ou se por ultimo se encontram.
--E se por ventura se amarem? perguntou rapidamente a beata.
--Abençoal-os-hei! respondeu Magdalena como se ao pronunciar estas palavras se lhe rasgasse o coração.
--E se não se amam! insistiu a velha.
--Será meu, disse Magdalena com uma voz debil e melancholica. Tirando depois algumas moedas de prata de dentro de um _porte-monnaie_, entregou-as á tia Monica.
--Se elles não se amassem! pensava Magdalena ao despedir-se da velha.
--Se Deus me ajudasse! repetia a tia Monica sahindo do gabinete.
XXVII
Ao cabo de quinze dias, graças á sua robusta compleição, Manuel de Mendonça pôde subir ao convez, esperando, dizia elle, conseguir com a brisa do mar completo restabelecimento.
Mas não era esse apenas o motivo que alli o conduzia. Mascatudo havia-lhe dito na vespera, que da galera se via perfeitamente o edificio do hospital, e quasi todos os dias, depois da uma hora da tarde se divisava um vulto na varanda, assestando o oculo na direcção do barco.
Achando se completamente restabelecido, Manuel de Mendonça pegou no seu magnifico telescopio e dirigiu-se á prôa do navio afim de descobrir quem tão assiduamente o espreitava.
Ao vêr o edificio que Mascatudo lhe designára, já o seu olhar de lynce havia descoberto que alguem o estava observando.
Manuel de Mendonça levantou o seu oculo, e descobriu o rosto pallido e insinuante de Magdalena.
Não era esse o semblante que elle cuidava encontrar; comtudo, continuou por alguns segundos esperando ainda descobrir a imagem que durante a sua terrivel enfermidade o havia perseguido. Mas tal não succedeu. Magdalena continuando a olhar, parecia não perder um segundo da sua persistente observação.
Desalentado, metteu o oculo debaixo do braço, e caminhou serenamente para a ré.
Então um milhão de reminiscencias lhe acudiu á memoria. Lembrou-se d'aquelle dia em que Magdalena o contemplára tão demoradamente, quando fôra visitar Jeronymo.
«Quem sabe, pensou elle, se esta mulher me ama, e se lançou mão d'alguma intriga para desconceituar a meus olhos a filha do operario? Se tal fosse! Veremos o que pensa Mascatudo. Não façamos juizos temerarios. Que importa que eu vá visitar seu pae? Não lh'o prometti eu?»
Erguendo o seu telescopio, Manuel assestou-o pela segunda vez na direcção do hospital, onde Magdalena se conservava ainda no seu posto de observação. O maritimo, voltando as costas desceu á camara onde Mascatudo o aguardava.
Quem n'esse momento tivesse entrado no hospital da rua de S. Francisco de Paula, e houvesse subido aquelle terceiro andar, onde Magdalena se achava, teria ouvido o som da queda de um corpo e uma voz entrecortada pelos soluços, soltando estas palavras:
--Amam-se, não ha duvida!
--Maldito caldo de gallinha, puff, está a escaldar! dizia uma outra voz. Era a de Olympia.
XXVIII
Graças aos rasgos de valor e profunda dedicação que o dono do hospital da rua de S. Francisco de Paula espalhava a cada a hora sobre a cidade de Lisboa, o seu nome tornou-se popular.
Todos á uma desejavam encontrar esse homem, que, arriscando constantemente não só a sua preciosa existencia, como tambem a de sua mulher e duas filhas, se chegava hoje ao leito do moribundo com palavras consoladoras, ámanhã amortalhava o cadaver de outro por cuja existencia batalhára até a ultima. Era de justiça, mais do que justiça, indispensavel até conceder-se-lhe a mercê em que sua magestade dias antes havia falado com o ministro do reino, segundo este havia dito ao visconde de Coruche.
Uma manhã em que o visconde, fazendo a sua demorada _toilette_, se preparava para ir ao hospital, foi procural-o o conselheiro Poderosa.
--Sua magestade encarregou-me hontem de te procurar, fiado na amisade que existe entre ti e o Tristão da Almeida.
--Estou ás ordens de sua magestade, respondeu o visconde.
--El-rei deseja agraciar Tristão de Almeida com o titulo de conde, e mandou-me que te viesse procurar com o fim de lhe perguntares qual o nome que deseja juntar ao titulo.
--Quanto agradeço a honra que el-rei me dispensa, fazendo-me intermediario para um acto de tanta justiça! Tencionava hoje passar o dia em casa, mas, em virtude das ordens de el-rei, corro immediatamente a casa do meu amigo, afim de lh'o participar, e juntamente pedir-lhe que me diga o nome que deseja juntar a esse titulo.
--Nunca se fez um acto de maior justiça, disse o conselheiro.
--Escuso de te repetir que sou da mesma opinião.
--Realmente, tem-se portado como um heroe.
--E suas filhas?! e sua mulher! parece impossivel como tenham escapado a tantos perigos, acudiu o visconde.
--É um verdadeiro milagre da Providencia. Mas, aqui para nós, visconde, quem será esse Tristão de Almeida?
--Ora essa! Tristão de Almeida, segundo elle o diz, e eu o creio, descende d'uma das principaes familias de Monforte. Seu pae, homem d'um caracter excentrico e ao mesmo tempo muito gastador, quando se encontrou completamente arruinado, mandou este rapaz e um outro irmão para Val-Paraiso, para casa d'um primo que alli estava estabelecido com uma riqueza enorme. Vasco, seu irmão mais velho, ficou empregado na casa gerindo os negocios de seu primo, de quem era o unico herdeiro, emquanto que Tristão dotado de um genio mais energico e emprehendedor, seguiu uma vida aventureira. Ao cabo de cinco annos, isto peço-te que não contes a pessoa alguma, que foi dito confidencialmente por Tristão, ao cabo de cinco annos repito, já elle tinha feito cinco viagens a salvo, introduzindo na Havana uma grande porção de Chins. Feliz em todos os negocios que emprehendia, Tristão d'alli a dez annos estava archi-millionario. Achando-se uma occasião em Buenos Ayres viu n'um jornal que havia fallecido o seu parente, tendo deixado por unicos herdeiros a elle e a seu irmão.
--E seu pae? interrompeu o conselheiro.
--Já tinha morrido a esse tempo.
--Dias depois partiu para Val-Paraiso. A riqueza que seu primo deixara estava calculada em quatro mil contos. Ao cabo de um mez teve a desgraça de perder o irmão.
--Que fatalidade! murmurou o conselheiro.
--É verdade! vê tu que fatalidade! Tristão, continuou o visconde, reduziu toda a fortuna a dinheiro e partiu para a Europa, onde annos depois se casou com D. Maria Egypciaca, senhora do Minho, com quem fizera conhecimento uma das vezes que viera a Portugal.
--É um romance a vida d'esse homem.
--Tem coisas admiraveis! disse o visconde.
--Com que então, acudio o conselheiro, a sua fortuna póde calcular-se em...
--Cinco ou seis mil contos.
--Já se póde passar com isso!
--Agora, disse o visconde, é um homem d'uma generosidade incalculavel! Se tem cahido nas mãos dalguns individuos que nós conhecemos...
--Haveriam tirado um grande partido da sua bolsa, emquanto que tu...
--Como graças a Deus não preciso recorrer a ella; mas, se o fizesse, tenho toda a certeza que sempre a encontraria disposta a abrir-se-me.
--Eu tambem não digo que tenhas precisão, mas um homem d'esses, pode-se aproveitar para qualquer empreza, grande já se vê, e de que outros tirassem bom partido, tirando o elle tambem.
--Ainda não pensei n'isso.
--E as filhas são bonitas?
--Uma d'ellas, Magdalena, é um anjo de bondade e formosura.
--E a outra?
--Olympia? Também não é feia, mas é muito gorda. Essa representa o estomago, e a sua irmã o coração. Magdalena ama, suspira e desfaz-se em sentimento. Olympia come, dorme, e emquanto dorme sonha no que ha de comer ao despertar. Afóra isso, é uma creatura esplendida.
--Eis a mulher que me convinha, disse o conselheiro. Confesso-te que já não tenho outra distracção senão a meza. Seria capaz de me casar não pelo coração mas sim pelo estomago! Que verdadeiro achado seria para mim essa Olympia! Uma mulher com bom paladar, que deve infallivelmente saber fazer muito bons doces. Que dorme muito e que come muito!
--Mas tu d'antes não eras assim! disse o visconde accendendo um charuto. O teu typo era a mulher magra, vaporosa, sentimental. Gostavas das olheiras, das rosetas da febre, e sobretudo da pontinha de tosse, como regularmente se diz.
--Isso foi antigamente, meu amigo, quando eu tinha vinte annos, e conservava intacta a riqueza que herdei de meus paes. Porém agora, não; prefiro a mulher sadia, forte, que possa ser uma boa ama de leite para me crear os garotos, se porventura Deus me quizer conceder os deleites da paternidade.
--Como tu estás mudado, João!
--Que queres? são as circumstancias que me fazem assim pensar.
--Pois meu amigo, habilíta-te e terás em Olympia a mulher que te convém. Junta a todas essas qualidades, um dote de trezentos a quatrocentos contos de réis. Que tal, hein? Agora só te peço uma coisa: se á força da tua vontade, ajudada pelos meus esforços, conseguires realizar este sonho...
--Dirás.
--Has de fazer um novo fardamento ao teu guarda-portão.
--Approvo e desde já t'o prometto! Se Olympia fôr minha, o meu guarda-portão terá outro fardamento. Mas agora serio, ajuntou o conselheiro, eu ainda não estou feio de todo, falam por ahi do meu talento, sou filho de gente fina, que mulher se poderá esquivar a conceder-me a sua mão, muito mais, estando eu nas disposições em que me encontro, que é viver pura e simplesmente para comer e dormir e depois accordar para tornar a comer, sem que minha mulher nem os criados de casa me ouçam levantar a voz, a não ser que os pequenos me venham interromper o somno, amotinando me os ouvidos com algum tambor de feira?