Part 3
«Quem a visse, como eu a via todas as manhans, com o seu barrete enfiado na cabeça, o manto de noite sôbre os ombros, ir acocorar-se à beira do fogão, e lhe tivesse contemplado os olhos ramelentos, encovados e baços, tossindo e cuspinhando sempre, teria esquecido cem mil amores».
E por este diapasão afina o resto da tirada! Num dado momento abandona o seu caso particular e generalisa:
«As mulheres apenas se ocupam de parecerem belas e serem admiradas. Nenhuma ha que seja ajuizada e capaz de agir criteriosamente. Todas elas são inconstantes, levianas, frívolas, querem e não querem uma coisa ao mesmo tempo, excepto se ela se relaciona com os seus desregrados apetites..... Fingem-se medrosas e tímidas; se estão num logar elevado, queixam-se de vertigens; se é necessário entrar num barco, aqui-del-rei que o seu delicado estomago não o suporta; se se trata de caminhar de noite, receiam encontrar espiritos, duendes e até mesmo ratos; se o vento sacode uma janela ou da parede se despega uma pedrinha, todas se cobrem de suores frios.
Deus sabe, no entanto, como elas são atrevidas, quando se trata do que lhes apraz! Não há rudeza de logar, precipicios de montanha, altura de palacio, obscuridade de noite, que sejam capazes de as deter!»[21]
Não se agastem Vossas Excelencias, Minhas Senhoras, com as desamaveis reflexões do poeta, nem comigo tampouco, que apenas as reproduzo pelo saboroso pitoresco que encontro nelas. Tais desabridos queixumes, no fim de contas, só em favor da mulher redundam. De ela tudo se tem dito desde que o mundo é mundo--todo o bem e todo o mal. As mulheres fazem-me lembrar as obras de arte, que só são inteiramente más quando ninguem fala de elas. E a verdade, a grande verdade é que as mulheres são obras de arte de que nós, homens, constantemente e regaladamente nos ocupamos.
Mas se, para merecer o vosso perdão, isto não basta ainda, recordar-vos-hei que, enquanto Bocácio dava largas à sua misogenia de despeitado, o seu amigo Petrarca continuava a exalçar Laura e na memória de todos os corações persistia a saudade amorosissima da mulher de excepção que o Dante imortalisou!
* * * * *
Com a Renascença o grande riso puro, vibrante, terra-a-terra, desaparece de todos os labios para dar logar à casquinada erudita e petulante do «humanismo». Os humoristas da transição--Ariosto, Rabelais, o nosso mestre Gil e, mais tarde, Molière, Cervantes, o pintor Brueghel-o-Velho e até o próprio Brantôme--são a gargalhada suprema, embora um pouco dolorosa, dum mundo na agonia.
Oh! o _De profundis_ inegualavel!
De então para cá a alegria torna-se uma palavra quasi sem sentido, vocábulo inerte que os dicionarios.--que são museus de palavras--guardam sómente para satisfação de arqueologos amadores de inutilidades. No dia em que o homem descobriu o sorriso e a ironia, da sua boca desertou para sempre o grande riso de outrora.
Hoje, esbofado por cinco duros seculos de marchas forçadas para a Civilisação, nem mesmo esse sorriso e essa ironia lhe restam! Quando tenta rir, os musculos do _facies_ resistem ao desejo, cavando-lhe mais fundo a sua tisica _grimace_ de neurastenico arqui-civilisado; e, se procura ironisar, as palavras saem-lhe pela garganta com um rangido seco, gritante, agudissimo, de porta com gonzos pêrros.
[1] H. Taine, _Philosophie de l'art_, 1.º vol.
[2] CH. SEIGNOBOS--_Histoire de la Civilisation: Moyen âge et temps modernes_, 5ième éd. Sôbre os monumentos de Ravêna, a Bisancio italiana, consulte-se o interessante volume de Charles Diehl, _Ravenne_, ed. Laurens--Paris, 1907.
[3] E. PÊCAUT E CHARLES BAUDE--_L'art_, 10ième éd.
[4] SALOMON REINACH--_Apollo_, 5ième éd.
[5] EUGÉNE VÉRON--_L'esthétique_, 1878.
[6] E. VÉRON--_Op. cit._
[7] Na impossibidade de reproduzir o _croquis_ em referencia, indicamos ao leitor, que pelo assumpto se interesse, o livro já citado de E. PÉCAUT e CH. BAUDE e o valioso trabalho de ELIE FAURE, «_Histoire de l'art: L'art medieval_». Em qualquer de êles, bem como em qualquer antologia desenvolvida de artes plásticas, o curioso encontrará não só a reproducção do aludido monumento como a de outros, que o ajudarão a completar a sua visão estética dêste periodo.
[8] _Histoire du rire et de la caricature._
[9] ÉMILE GEBHART, no seu curioso romance _Autour d'une tiare_, revive o duelo formidavel, através das predicas antagónicas do asceta Egidius e do tolerante bispo Joaquim, curiosa figura de pre-franciscano, que o auctor esboçou sugestionado pelo grande vulto do Santo que a Idade-Media com mais fervente e duradoiro culto venerou.
[10] ÉLIE FAURE, _Op. cit._
[11] ÉMILE GEBHART--_L'Italie mystique._
[12] S. Francisco de Assis é o poeta máxinio da Alegria--uma suprema figura de assombro. Na aurea legenda do cristianismo não ha vulto que o exceda em belêsa moral, nem lábios que tenham rido um riso mais comovido e pacificador que o seu. O Snr. JAIME DE MAGALHÃES LIMA resume assim um dos pontos mais salientes da clara doutrina do _Poverello_: «A mágoa será pecado de rebeldia; não ha dôr que não se torne benéfica, para exaltação da carne ou do espirito; a desgraça é uma ilusão; a toda a sorte havemos de sorrir; porque sempre, qualquer que seja, é caminho do bem. Todo o estado conduz à perfeição; em todo o momento trabalhamos na construcção de um edifício infindo de infinita belesa. A tristêsa será uma infidelidade religiosa; quem a admitiu no coração esqueceu o Senhor e os seus desígnios.» Cf. _apud «S. Francisco de Assis»_ pag. 150. Com o doce amigo do cardeal Hugolino (mais tarde Gregório IX) o catolicismo atinge o seu mais belo significado e um dos pontos mais culminantes da sua história--só comparavel ao periodo heroico do Apostolado. A quem o assumpto desperte interesse aconselho a leitura dos três belos trabalhos do dinamarquês JOHANNES JOERGENSON, de uma rigorosa probidade scientifica e de um encantador relevo literário: _Saint François d'Assise, Pélerinages franciscains_ e _Le livre de la route_ (trad. de Teodor de Wyzewa,) Perrin & Cie., Paris.
[13] «_Les Fableaux_ sont sur tons sujets: y paraissent Dieu, les anges, les diables, les saints, les chevaliers, les trouvères, les jongleurs (trouvères de second ordre), les bourgeois, les moines--très souvent--les paysans. Les hommes de toutes classes de la societé y sont moqués, quelquefois avec une extrême finesse, quelquefois avec une verdeur gauloise un peu rude..... Les Fableaux peuvent être considerés comme la grande oeuvre de sagesse bourgeoise, de bon sens un peu sec et dur et de gauloiserie divertissante du moyen àge. Les romans de renart sont du même genre, mais avec plus d'ingeniosité.» _Cf._ E. FAGUET. _Petite histoire de la littérature française_, pag. 6 e 7. «Papas, reis e senhores, se nas canções recebiam a vassalagem da adulação, encontravam nas _cantigas de mal disêr_ o mais desassombrado castigo e a mais dura vingança. A avaliar pelo que dos cancioneiros nos resta, o comentario político e religioso teriam assumido uma extensão incrivelmente audaciosa» _Cf._ HIPPOLYTO RAPOSO, _Sentido do Humanismo_, pag. 14.
[14] «A fachada de Nossa Senhora de Paris, que está longe de ser a mais rica, tem sessenta e oito estátuas muito maiores que o natural e a maioria de elas executadas com rara perfeição; ha mais de cem em cada um dos pórticos de Nossa Senhora de Chartres e de Amiens». ED. CORROVER, «_L'architecture gothique_» pag. 157.
[15] MALE, cit. pelo DR. CABANÈS, _Moeurs intimes du Passé_, 3.ième série Paris.
[16] «_Philosophie de l'art_» cit., pag. 81 e seg.
[17] «_Voyage en Italie_» tômo II.
[18] E. FAURE, _op. cit._, pag. 229 e segg.
[19] CANANÉS _op. cit._
[20] E. RODOCANACHI, _Boccace: poète, conteur, moraliste, homme politique_, Hachette, Paris, 1908.
[21] RODOCANACHI, _op. cit._
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Le vieux Paris (Guide historique, pittoresque & anecdotique) Impresso _chez_ Ménard et Chaufour, Paris. (Exposição Universal de 1900).
ACABOU DE IMPRIMIR-SE ESTA BROCHURA AOS 21 DE DEZEMBRO DE 1915 NA TIPOGRAFIA DO PORTO-GRÁFICO.
End of Project Gutenberg's O Claro Riso Medieval, by João de Lebre e Lima