O Claro Riso Medieval

Part 2

Chapter 23,824 wordsPublic domain

As próprias condições históricas da sociedade, que produziu a arte que estudamos neste momento, parecem auxiliar a minha conjectura. O mundo feudal ganhára uma certa estabilidade. As exacções e violencias dos barões eram menos frequentes, porque o aparecimento das cruzadas afastára da Europa um grande número de esses senhores brigões e aventureiros. O camponez principiava a respirar. O fructo do seu penosissimo labôr já lhe não era, como em tempos idos, insolentemente surripiado pelos vílicos do castelo. O direito era ainda a força, mas os costumes ganhavam cada vêz mais prestigio e o trabalho dos _glossadôres_ começava a sêr encarado como uma tarefa util e necessária. Com a paz veio um esboço de prosperidade e o oiro afluiu ao velho continente, arruinado e miseravel. O homem não era ainda feliz, decerto. Mas que diferença entre o passado próximo e aquele presente, escancarado para um futuro de que havia tudo a esperar e nada a temêr, por as almas e os corpos estarem ha muito couraçados para todas as miserias!

Examinai de perto, agora, uma igreja de esta época. Vereis quão facilmente se dissolve a vossa primeira impressão, ante as surprêsas que vos reserva um exame mediocremente atento!

Arsène Alexandre, o historiadôr amavel da caricatura, afirma algures que os constructores do templo medieval quizeram «aterrar por meio das grandes linhas, alegrar e distrair pelo detalhe.»[8]

Eu não saberia dizer-vos melhor nem mais completamente a minha ideia.

Com efeito, a igreja románica é pesada, austera, no seu conjuncto arquitectural--jocosa e satírica, frequentes vezes, em sua decoração.

Como interpretar esta contradicção?

Creio que facilmente, desde que saibamos que aos frades da época se deve o plano da referida igreja. Os monges eram, ao tempo, os unicos homens cultos da Europa meridional, que foi aonde a arte románica nasceu e produziu os seus mais belos fructos. Refugiados nos mosteiros da montanha ou perdidos na solidão das florestas despovoadas, êles entregavam-se, nos intervalos dos oficios sacros, á piedosa tarefa de recolher os fragamentos da velha náu latina desmantelada, pondo, na lide ingrata, aquela amorosa e inabalavel tenacidade que mais tarde possuirá os tres precursores da renascença medicénica: Dante, Petrarca e Bocácio. Que admira, pois, que, ao planearem a nova casa de Deus, êles se deixassem inconscientemente influenciar pela arte dos pagãos, cuja nobre simplicidade de algum modo era afim do austero evangelismo de então?

Uma força tenaz e obscura, porém, se opunha á realisação integral da concepção benedictina, erudita e grave: a imaginação popular. Mais puros de sugestões alheias, ignorando por completo a arte antiga e a teologia contemporánea, os pedreiros humildes, a quem a tarefa coubéra de erguer o templo, desforravam-se da _contrainte_ monacal, dando largas á sua fantasia exuberante e um pouco desordenada, quando chamados a decorar os nichos, tímpanos, capiteis, portais.

Tudo quanto os interessava, todas as ideias que os preocupavam, uma diabrura que os fizéra rir ou um vicio que pretendiam stigmatisar, tudo nessas pedras ficou modelado pelo cinzel ainda ingénuo e balbuciante, mas já irreverente e malicioso, dos mestres canteiros da época.

É certo que, por vezes, no meio de essas lavranterias do granito, uma cabeça monstruosa surge, relembrando antigos pavores. Simples capricho de esculptôr-contista, historiando o inferno á mingua de outro assumpto. O diabo era ainda temido, sem duvida, mas ao respeito de outrora começava a misturar-se não sei que vago halito de mordacidade jovial, que singularmente o apoucava...

Depois, por aquele principio que os psicólogos baptisaram de «lei do esquecimento activo»--o qual nos ensina que a memoria do homem tem repugnancia pelas recordações dolorosas e se esforça por libertar-se de elas--, não me parece muito atrevida a afirmação que venho fazendo. Sobre aquelas almas primitivas a lembrança da recente agonia pairava ainda sinistramente. Que é, pois, de admirar que eles, libertos do perigo buscassem atordoar-se, por um natural instincto de reacção, entregando-se francamente a uma alegria, que não souberam exprimir?

E é, talvez, porque não souberam exprimir-se porque não tiveram a ajuda-los um tecnica perfeita, que, ainda hoje, muitos afirmam, iludidos pelas aparencias, que a esculptura decorativa da igreja románica, é na maioria dos casos, recatada, austera e cheia de melindrosos pudores--quando a verdade é que ela não passa de um riso que foi mal rido.

Esta inconsciente revolta da imaginação espontánea e caprichosa dos artistas contra o dogmatismo árido de uma reduzida _élite_ de eruditos foi lentamente preparando as almas e os olhos para o milagre ogival.

A Europa, mesmo durante as invasões, nunca deixára de estar em contacto com o Oriente. Com o advento das cruzadas as relações estreitam-se entre os dois continentes. Os bárbaros guerreiros, que do velho mundo abalavam á caça do infiel, voltavam de lá maravilhados com o explendôr de uma civilisação que não intendiam, mas que os perturbava como o perfume de uma flôr de estufa. E, nas desabridas noites de invernia, entre as paredes fuliginosas dos donjons, ouvindo crepitar os grossos tóros de carvalho na lareira, tudo era arregalar os olhos deslumbrados para o rude homem de armas, que falava de êsses países longínquos como de um paraíso inegualavel, em que tudo fossem preciosíssimos brocados, joias scintilantes e palácios de mil côres, irreais como filigranas de cibórios!

Das altas salas do castelo a maravilhosa legenda descia até ao povo, trazida pela bôca de algum menestrel tagarela, que a recontava, prodigalisando tintas.

E sempre no auditorio havia um artista que a escutava, embebido, e se ficava sonhando, mesmo depois da historia concluída e a multidão dispersa...

Por uma gradual evolução, que não vem a pêlo detalhar, o gótico, filho espúrio do románico, aparta-se de êste e, ahi por fins do século XII, adquire fóros de arquitectura original. O plenocintro, acanhado, frio, incómodo como uma grilheta, cede o logar á ogiva esbeltissima, que se ergue para o céo com a mesma graça alada de duas mãos que resam e o mesmo indefinido anceio de liberdade que faz estremecer de entusiasmo as lanças compridas das comunas, luctando pela sua independencia politico-económica.

A insurreição lavra por toda a parte e em todos os campos. Já de ha muito o homem se rebelára contra a secura doutrinal dos teólogos, que prégavam o horrôr pela carne e só das almas curavam, minando-as de terror e desesperança[9]. «O cristão Abeillard nega o pecado original, reabilita a dignidade dos sentidos e procura estabelecer, pelo estudo imparcial da filosofia antiga e da doutrina dos Padres, a unidade do espirito humano, desde a antiguidade até á Idade-Media. Quatro anos depois da sua morte, Arnaldo de Brescia, seu discipulo, proclama a republica em Roma[10]».

Entre a creatura e o Creadôr de novo se intromete a vida natural, terrena, humaníssima, que, em vez de ser um contacto de infamia e damnação, se torna no mais comovido meio de comunicar com Deus.

Certa manhan de chuva torrencial, Joaquim de Flora, numa qualquer humilde capela de aldeia, prégava sobre o pecado. Súbito, a borrasca serena e um raio de sol penetra alegremente na igreja, vestindo de oiro os ombros vergados dos ouvintes. Comovido, o bom do frade cala-se um instante e fica a olhar, extasiadamente, a nesga de luz... Mas logo recobra os sentidos e, entoando o _Veni-Creator_, sái com a multidão para o campo, a saudar o grande sol amigo[11]! Cem anos mais tarde, á hora da sua morte, o maravilhoso pobresinho de Assis havia de renegar o ascetismo, pedindo perdão ao irmão corpo de o haver maltratado tanto. E, com o derradeiro suspiro, dos seus lábios exangues voariam para o céo os versos imortais do «Cantico ao Sol»:

Laudato sia, Dio mio signore, con tutte le tue creature![12]

A insurreição contra os moldes asfixiantes do Passado invade todos os campos, desperta em todos os corações o anceio do libertamento. Interpretes inconscientes do sonho comum, os trovadôres levam, de terra em terra, com o embalo das liricas de amôr e o vinho acre e forte das _canções de gesta_, o seu reportorio sempre aclamado de _fabliaux_ mordazes e sirventes implacaveis[13].

Por toda a parte um ritmo surdo, mas grandioso e indomavel, anima a vida colectiva, conjugando energias dispersas, elaborando o sônho de deslumbramento que nas catedrais góticas se perpetuará. Muito fraco ainda para derrubar o barão feudal, o vilão procura neutralisar um poderio que o insurge, vinculando-se fortemente á comuna, isto é, á confraria dos seus pares. Assim fortalecido o seu esforço individual pela coordenação de mil esforços, sedentos de liberdade, êle poderá orgulhosamente solicitar do senhor os forais que o deixarão trabalhar em paz e erguêr, mesmo em face do castelo da senhoria, o seu _beffroi_, tão rendilhado e opulento como um templo ogival.

Para estas almas, cachoantes de revolta, um podêr ha, comtudo, que lhes não pésa, nem excita ódios: o poder de Deus. É tambem o único que aceitam sem murmúrio--mais, é o único que amam. E amam-no com um ardor tanto maior quanto mais funda é a miseria em que se debatem. Porque, para elas, amar a Deus é ainda de algum modo robustecer a febre de insurreição que as abrasa, pois é tomar contacto com um _além_ radioso em que não ha cavaleiros arrogantes nem servos espesinhados, abençoado mundo em que todos são iguais e se não odeiam, jardim de maravilha eternamente florido por onde nunca passaram fomes, nem pestes, nem guerras incruentas.

Então as almas voltam-se para a casa de Deus na terra, para a igreja acolhedora e apasiguadora, na anciosa esperança de ahi vivêrem mais plenamente o sonho de universal fraternidade que as devora.

Em breve a estreita nave románica se torna insuficiente para contêr a multidão, que ao assalto da felicidade confiada e alegremente avança.

A maré sobe, engrossa, faz pressão contra as muralhas do velho templo, cujas pedras vão cedêr ante a irresistivel força de expansão da vaga rumorosa e formidavel. E quando, por fim, as broncas paredes desabam e sôbre a terra alastra o entusiasmo novo, das águas vivas da inundação emerge, feminina, irreal, levíssima, a catedral nova, como um lirio de milagre abrindo ao sol as suas pétalas de mármore!

Johannes Joergenson, o nobilissimo poeta dinamarquês, cuja recente conversão ao catolicismo fez de êle o mais enternecido dos historiadores de S. Francisco de Assis, conta, no seu «_Le Livre de la Route_», o seguinte delicado episódio.

Um dia, certo anonimo pesquisador de belas coisas, encontrando-se de passagem em não me recorda que medievesco burgo do Norte, lembrou-se de visitar-lhe a catedral--notavel reliquia de arte gótica, ao que parece.

Depois de a havêr miudamente esquadrinhado, quiz rematar o seu exame por uma ascenção ao mais elevado ponto da flecha, tão afusada e alta que os maiores edificios da cidade pareciam de joelhos aos pés de ela. Ora sucedeu que, ao chegar lá acima, áquela imensa altura, o nosso curioso visitante inesperadamente esbarrou com um velho canteiro de longas barbas de prata, que, de cinzel e de martelo em punho, minuciosamente abria, num pedaço de granito desornado, um sem-número de minusculas flôres e outros _motivos_ frageis...

Um instante interdicto, o turista acabou por interpelal-o, com um sorriso de piedosa ironia:

--Eh! meu amigo, esse trabalho bem inutil me parece! Pois para que servirão tantos cuidados, se, lá de baixo, ninguem, absolutamente ninguem, poderá vêr e admirar a sua obra?!

Então, o pedreiro, volvendo para o indiscreto uns olhos plácidos e ingenuos, retorquiu brevemente:

--E que não vejam?! _Deus vê_--é quanto basta.

E, de novo, o cinzel cantou sôbre o granito frio...

Á medida que o meu estudo mais intimamente me relaciona com a Meia-Idade, mais no meu espírito se radica a impressão de que pela bôca dêste velho obscuro lucidamente falam alguns séculos de Historia--quiçá os mais intensos, senão os mais belos, de quantos o homem até ao presente viveu.

«Deus vê!»

Pois não é verdade que nesta frase rápida, de uma singelêsa e de uma precisão de legenda latina, nêstes dois monosilabos breves, que facilmente cabem num hálito de creança, toda a Idade-Média se resume e como se justifica amplamente?

«Deus vê!»

Sim, Deus vê. E porque Deus vê, e para que Deus veja, é que os homens esventram montanhas e lhes roubam os mármores sem preço, vão ao fundo da terra cavar os finos metais e as pedras rutilantes, jogam a vida sôbre os mares traiçoeiros em demanda dos brocados e sêdas nunca vistas--e de todos êsses tesoiros confusamente amontoados arrancam, por fim, a mais audaciosa e deslumbrante maravilha do humano engenho: o templo gótico!

Sim, é porque Deus vê que os Van Eyck põem todo o seu génio enorme no retábulo de Gand e Memling toda a sua indizivel candura nas telas do Hospital de Bruges; é porque Deus vê que Jehan Pucele, Pol de Limbourg, Jehan Fouquet e outros gastam uma vida inteira iluminando insonhaveis, preciosissimos missais, livros de Horas e psalterios; é porque Deus vê que Fra Angelico, o divino, ergue as mãos em résa antes de começar o seu labôr e nunca altera o que pintou, «_porque foi Ele quem guiou o seu pincel_»; é porque Deus vê que um formigueiro de arquitectos e maçãos levanta as catedrais de Amiens, Reims, Paris, Chartres, Bruxelas, Lincoln, Colonia, Strasburgo, e pintores as decoram, e esculptores as vestem de milhares de estátuas[14], e marceneiros as enriquecem com madeiras prodigiosamente lavradas, e vitralistas-poetas, perdulários de sonho e de emoção, lhes encastoam nas esguias ventanas ogivadas todos os milagres da _Legenda Sanctorum_ feitos linha e côres inimitaveis. E é ainda porque Deus vê que a quasi totalidade dos artistas dêsses fecundos e gloriosos séculos de crença, de esperança, de legitimas revoltas, deixa por assignar as obras que das mãos palpitantes lhes saem! Para quê assignal-as?! Assoldadados embora, êles trabalham com elevado ardôr, menos para agradar ao principe que os remunera, que ao Senhor _que os vê_. Os homens poderão esquecer-lhes os serviços e até os nomes; Deus é que sempre os recordará, pois por amôr de Ele labutaram.

A arquitectura religiosa da Baixa Meia-Idade é a creação suprema dêstes anónimos Homeros. Todos êles, possuidos de uma fé igual, trazem à obra comum o melhor do seu esforço: os artistas a sua arte, os sábios a sua sciencia, os rudes o seu braço e até os mendigos o seu óbolo. «Graças a êstes admiraveis trabalhadores, a catedral é um sêr vivo, uma árvore gigantesca cheia de aves e flores. Mais parece uma obra da natureza que dos homens... A igreja é a casa de todos, a arte traduz o pensamento de todos... A catedral pode substituir não importa que livros. Só a França soube fazer da catedral uma imagem do mundo, um resumo da história, um espelho da vida moral[15]».

Nunca o preceito d'anunziano: «_crear com alegria_» foi tão escrupulosamente observado como nêste periodo. De aquelas pedras, amorosamente acasteladas até ao céo, num tão vertiginoso impeto que chega a causar arripios, irradia uma tal satisfação, um tal contentamento, que eu não sei de alma bronca que, em frente de elas, não entreadivinhe, um instante, as delicias da Terra Prometida!

Do sombrio templo románico já nada ou pouca resta. O hieratismo e o convencionalismo decorativos do anterior periodo cedem o passo ao franco naturalismo do periodo que começa. Os grandes panos de muralha cega e quasi nua vestem-se, de alto a baixo, de prodigiosos lavores e surgem-nos agora tão recortados de altissimas janelas, enormes rosáceas e frestas sem conto que a gente chega a ter a impressão de que a catedral está suspensa no ar!

Deixai o grande Taine dizer que o interior do edificio é lúgubre e frio[16] e escutai-o antes quando ele vos descrever, na sua prosa sumptuosissima, tão luminosa e forte como um alabastro da Acropole, as catedrais de Assis e de Milão.[17]

Não, meus senhores, a arte ogival não odiou a luz, antes a fêz a sua mais assidua colaboradôra e até por amôr de ela se perdeu. «A arquitectura gótica repudiou a obscuridade... Quando a catedral é obscura é porque o mestre de obras calculou mal o seu esforço, quiz obrigal-a a dar mais do que ela podia, ou pretendeu acumular nos seus flancos multidões sôbre multidões, como em Paris, aonde as quatro naves laterais aparecem esmagadas por galerias inúmeras. Se vestem as largas aberturas de vitrais, não é para entenebrecer a nave, mas para glorificar a luz............. O vitral oferecia a sua matriz inflamada aos dias pálidos do Norte, para que o afago de êstes fosse mais quente á pedra que de todos os lados subia. Os seus azues liquidos, os seus azues carregados, os seus amarelos de açafrão e de oiro, os seus alaranjados, os seus vermelhos vinosos ou púrpureos, os seus verdes densos, arrastavam ao longo da nave o sangue de Cristo e a safira celeste, o rubro das folhas de vinha que o outono crestou, a esmeralda dos longinquos oceanos e dos prados de em redor. Em verdade êle apenas atenuava as suas rutilantes policromias no fundo das capelas absidiais, aonde a mancha dos cirios fazia tremular a noite. Era um pretexto para acumular á roda do santuario a imprecisão angustiosa e a volúpia do misterio. Mas desde que o céo se descobre, a grande nave estremece de alegria e o cántico triunfal da luz espalha-se por toda ela em grandes lençois de oiro[18]».

* * * * *

Eu termino.

«_Lunga fu la gioniata_» como diz o Poeta--longa e fastidiosa, ai de vós, ai de mim! Pilôto inhabil, atarantadamente guiei os vossos passos atravéz de regiões cuja extranha beleza a minha palavra dura e a minha sciencia minguada vos não souberam salientar. Adivinho os vossos reproches e curvo, em silencio, a pecadôra cabêça...

Mas se, para não agravar as muitas culpas de que me acuso, vos poupo miudas justificações, outrotanto não posso fazer com respeito a certa falta, que absolutamente careço de explicar.

Prometi eu falar-vos do riso na Meia-Idade e, afinal, apenas vos contei--e quão pobremente o fiz!--da clara alegria medieval.

Certo, o riso e alegria são irmãos. Ás vezes, porém, tão arredados andam um do outro, que mais se diriam extranhos que gerados no mesmo ventre. Nas máscaras dos que nos rodeiam quantos risos sem timbre! quanta alegria tambem que desconhece o esgar hilariante! É que os primeiros, à similhança de certas bizarras plantas que não carecem da terra para viver, podem florir sem ter raizes na alma. Mas a segunda é o próprio humus que palpita sob o profundo beijo de Anteu, a própria alma exaltada e transfigurada. Joana de Arc, sagrando Carlos VII após a sua marcha heroica e miraculosa sôbre Reims, não sorriu; mas o seu coração batia as azas, festivamente, como uma pomba em maio... Sôbre o glorioso Monte Alverne, na manhan dos Stigmas, o divino filho de Bernardone não sorriu tambem; mas os seus olhos brilhavam, como se toda a luz do sol lhe cantasse dentro do peito.

Foi de uma alegria assim que eu vos falei, de uma prodigiosa alegria que, durante séculos, fêz bater mais depressa o coração de um mundo adolescente--e não do riso que os homens dessas eras tão espontanea e clamorosamente riram. Porque, atravéz de todas as miserias, de todas as vexações, de todos os dramas, essas ásperas creaturas souberam rir o mais puro e claro riso que a velha Europa viu rir depois que os herois de Homero se calaram. Simplesmente--e com isto penso absolver-me da voluntária culpa--êsse belo riso não é para aqui, para um auditorio que tantas e tão gentilíssimas senhoras aformoseiam.

As catedrais medievas são verdadeiros museus de inconveniencias lavradas em granito. Nenhum acto, por mais intimo, da vida de cada um se exime a figurar nelas com um realismo só familiar aos compendios de fisiologia[19].

De uma velha inglesa solteirona sei eu que, em frente de um capitel em que duas nudezes se enroscavam mais vivamente, ia rebentando de apoplexia. E, comtudo, lá na pensão belga em que a conheci, rosnava-se com bonhomia que Vesta talvez não fizesse boa cara às oferendas desta encortiçada pucela...

De facto, a chalaça dos nossos avós frequentemente descamba no escabroso. E as suas melhores _boutades_ ainda são aquelas que só podemos contar aos amigos em noites de tertulia ruidosa ou, pelo telefone... às madamas curiosas.

Ingenuos, simples, duma franqueza de crianças terriveis, amando rir e nunca perdoando a quem os arreliava, os maçãos obscuros que conceberam e realizaram a suprema obra de arte da Meia Idade jámais souberam calar o que lhes ia nas almas, quer se tratasse dum sonho, quer duma farçada.

Um companheiro fôra surpreendido numa atitude grotesca? Dias depois uma gárgula travêssa, suspensa no ar, faria rir toda a colonia de pedreiros e os fieis que entravam para a missa. Um juiz prevaricára, deixára-se subornar? O artista imortalisar-lhe-hia a façanha, pintando-o com orelhas de burro, pernas de pato e compridas garras de ave de prêsa.

A ninguem perdoavam, nem aos senhores que tudo podiam sôbre os corpos, nem aos clerigos, que tudo podiam sôbre as almas.

Mas, eu nunca mais terminaria se começasse a desfiar o rosário de anecdotas que as velhas catedrais sabem de cór!...

Para V. Exas. fazerem uma ideia mais precisa desta crua franqueza, passo a ler um fragmento de uma carta que Bocacio escreve a Mainardo de Cavalcanti, apreciando o «Décameron» e censurando este seu amigo por haver deixado ler tal livro às mulheres do seu _entourage_:

«Eu nunca poderei louvar-te por haveres deixado que as mulheres que te rodeiam lessem os meus carapetões. Rogo-te, por isso, que nunca mais consintas semelhante coisa. Bem sabes quanto desafôro e ofensas á decencia, quantas excitações aos amores impudicos, quantas passagens capazes de arrastar à prática de más acções os corações mais experimentados nesse livro se encontram. Se as mulheres honradas, em cujas frontes brilha ainda o santo pudôr, se não deixam induzir ao adultério, tal leitura, no entanto, pode tornar as suas almas impudicas e vicial-as pela tara obscena da concupiscencia. No caso em que a honra destas mulheres não baste para te conter, então pensa na minha, pois aqueles que me lerem hãode imaginar que eu não passo de um desprezivel alcoviteiro e de um velho debochado, divulgador das patifarias de outrem»[20].

Que artista de hoje subscreveria tão desassombrado libelo contra a própria obra?

E já que evoquei a interessante figura do pitoresco filho de Certaldo, não a deixarei sem contar-vos uma anecdota que vos dirá, melhor que todos os meus comentários, como os nossos avós se desforravam dos remoques das donas que se burlavam de amorios.

Bocácio, já velho, tendo encontrado no seu caminho uma formosissima viuva florentina, apaixonou-se violentamente por ela. A dama, astuciosa e galhofeira, fingiu não desdenhar as homenagens do poeta, que, entusiasmado, lhe mandou cartas sôbre cartas, todas palpitantes dum amor vulcanico. A certa altura, a ironica deusa, sentindo a necessidade de pôr um dique forte áquela tumultuosa verbosidade e desejando imenso folgar de gôrra com as amigas, reuniu todas as cartas e publicou-as. O escandalo foi enorme em Florença. Então, para vingar os seus ultrajados brios de Lovelace serodio, o nosso amoroso escreveu uma tremenda verrina contra as mulheres, a que pôs o nome de _Corbaccio_ ou _O Labirinto do Amor_, por nela se tratar das angustias dum namorado perdido na floresta do Amor e que dela é tirado por um Espirito tutelar. O namorado, bem de ver, é o próprio Boccacio e o Espirito a sombra do marido morto, que vem do inferno à terra para desencantar o mísero transviado, a quem revela, complacentemente, toda a miseria fisica e moral do conjuge ironista.

Oiçamos a fala rancorosa: