O Claro Riso Medieval

Part 1

Chapter 13,596 wordsPublic domain

Produced by Mike Silva

JOÃO DE LEBRE E LIMA

O claro riso medieval

CONFERENCIA LIDA PELO AUTOR NO PRIMEIRO SALÃO DOS HUMORISTAS E MODERNISTAS REALISADO NA CIDADE DO PORTO 14-VI-915

LIVRARIA CHARDRON DE LELO & IRMÃO, EDITORES PORTO-1916

Als ik kan

Sinal do pintor Jehan de Eyck

O CLARO RISO MEDIEVAL

Do Autôr:

O LIVRO DO SILENCIO seguido dos POÊMAS DO CORAÇÃO E DA TERRA (1913)

A seguir:

DA PÊNA DE MORTE

PALAVRAS... PALAVRAS

O TEAR DE PENÉLOPE

JOÃO DE LEBRE E LIMA

O claro riso medieval

CONFERENCIA LIDA PELO AUTOR NO PRIMEIRO SALÃO DOS HUMORISTAS E MODERNISTAS REALISADO NA CIDADE DO PORTO 14-VI-915

LIVRARIA CHARDRON DE LELO & IRMÃO, EDITORES PORTO

AOS EXPOSITORES E CONFERENTES DO PRIMEIRO SALÃO DOS HUMORISTAS ORGANISADO NO PORTO. HOMENAGEM DE ADMIRAÇÃO, RECONHECIMENTO E SIMPATIA.

J. de L. e L.

Quand une chose me plaira, je ne prétends pas qu'elle te plaise, encore moins qu'elle plaise aux autres. Le ciel nous préserve des legislateurs en matière de beauté, de plaisir et d'émotion! Ce que chacun sent lui est propre et particulier comme sa nature; ce que j'éprouverai dépendra de ce que je suis.

TAINE--_Voyage en Italie._

MINHAS SENHORAS MEUS SENHORES

Eu não sei de período histórico que mais malsinado tenha sido, por quanto arengadôr comicieiro se tem lembrado de evocal-o, que esse que pelo nome dá de Meia-Idade, fecundo e generoso período que a erudição moderna, ha uns lustros a esta data, com tão desvelado carinho vem reabilitando, para mór desespêro e atarantação dos que na «noite dos seculos», «treva da Humanidade» e «aviltamento do espírito humano» encontraram bordões cómodos a que apoiar a sua indolencia intelectual e o seu arripiante desdém pelos processos honestamente scientíficos de fazêr ou espalhar a História. E é com um regalo um tudo-nadinha perverso que eu esfrego as mãos a cada nova descoberta, visionando a desorientação sempre maior que vai por casa do Senhor Logar-Comum e de sua estimavel consorte, Mme. Frase-Feita.

Popularisada pelo espírito sectarista da Renascença, ainda conserva raíses teimosas no cérebro contemporáneo a impressão de que a Idade-Média mais não foi do que uma deprimente crise, em que tudo quanto de nobre existe no homem correu sério risco de naufrágio.

Porque, ao alvorecêr do cristianismo, das landes e florestas bravías, da Germánia, alguns milhares de teutões, brutais e fortes, como vaga assoladora descêram até aos países que se abrigavam sob a asa, já então desplumada, da águia romana e porque, esfacelado o Império que assombrára o mundo, essas rudes hordas batalhadoras durante alguns centos de anos rijamente se haviam disputado os pingues bocados da prêsa, logo para o critério racionalista, factício, estreito, dos humanistas do _Quattrocento_ os dez séculos que precederam a ressurreição da cultura greco-latina se tornaram num grosseiro e despresivel rosário de ladroagens, devassidões e carnificinas--assim como que uma jaula enorme em que um bando faminto de ursos se entredevorasse, enraivado e excitado pela sangueira.

Por outro lado, as preocupações doentias do _au-delà_, os terrôres do inferno e o papel capital que a Egreja desempenhou em todas as grandes crises da época, criaram a lenda de que os tempos medievos haviam coalhado em todos os lábios os sorrisos e as palavras de alegria, tornando o mundo num gelado claustro de convento, aonde ninguem se atrevia a falar alto, com mêdo de perturbar o sussurro das litanias e dos _Kyries_.

O mundo era demasiado estreito para nêle cabêrem à vontade outras figuras que a do frade e a do cavaleiro não fossem. E como por traz do burel monástico se ocultava o mistério da Divindade, isto é, a incertêsa do _além_--que tanto podia sêr o paraíso como as labarêdas implacaveis do inferno--e a cota de malha dos guerreiros apenas prometia mortes, pestes, assolações e fome, inferiu-se levianamente que, da queda de Roma á queda de Bisáncio, a alegria se exilára duma terra que a não compreendia, tão absorvidas andavam as almas pelo cuidado da própria salvação e os corpos pelo terrôr da morte sempre presente.

A própria catedral gótica (que é o mais intenso himno de júbilo que conheço) foi erradamente encarada como um simbolo de tristêsa, de dolorosa anciedade, de cobardia até[1]!

Essa arquitectura de sonho, tão fragil e amavel aos olhos como uma velha renda de Malines ao tacto, foi inventada, disse-se, para enternecer, para subornar manhosamente Jehovah, tão ríspido e intransigente como nos tempos remotos do Exodo e do Pentateuco.

Não se amava Deus, como não se amava o rico-homem feudal. Mas pagava-se o tributo a um e a outro para arredar calamidades da beira da porta.

Assim se figuraram a Idade-Média os contemporáneos de Lourenço de Médicis: aos pés do lirio mistico de Dante Alighieri a acha de armas, pingando sangue, de Gilles de Rais--o Barba-Azul da legenda.

Assim tambem a imaginamos nós ainda, os melancólicos e scepticos contemporáneos de Mr. Anatole France e da politica parlamentar.

Certo, muito de exacto se pode topar no fundo deste conceito.

Efectivamente, ao desabrochar da era actual, o homem assistiu a um espectáculo de catástrofes e horrores capaz de desconcertar a imaginação do mais absurdo creadôr de _films_ cinematográficos ou do mais fantasioso _metteur-en-scène_ de grand-guignolescas tragedias. Durante cêrca de duzentos annos (que tanto durou a invasão ocidental dos bárbaros, ou, na xaroposa denominação tudesca, a migração dos povos) um ciclónico vento de agonia e desvairo sacudiu toda a Europa, de Bisancio--ultimo santuário do heleno-romanismo--ás praias fecundas do Atlantico.

O imperio dos cesares, perdida a virtude antiga dos seus homens e relaxado o culto severo do exclusivismo da _civitas_, arquejava sôb a nuvem de extrangeiros, que, espontánea ou forçadamente, acorriam a Roma de todos os cantos do mundo, e morria, asfixiado, de beiços colados sofregamente aos seios morenos e lascivos das escravas asiáticas e ás gargantas firmes e frias das loiras mulheres do Norte--que tinham grandes pupilas azúes de creança e provocantes receios de gazela, que os halalis de caça desorientam.

Os membrudos legionários, que desbarataram as coortes de Anibal e sob todos os sóes haviam passeado a águia de oiro da _Roma Victrix_, já não podiam com o rijo casco dos tempos heróicos e usavam agora um chapéo leve e nem couraça traziam. Dos campos desertava a população rural, que para as cidades enveredava, sequiosa de partilhar as inéditas volúpias dos triclinios em festa. E já não era sómente ao claro Apolo e a Venus Anadyómene que Roma erguia altares votivos e sacrificava as réses e os fructos do ritual litúrgico, mas a quantas misteriosas e tenebrosas divindades esquálidos profetas lhe traziam dos confins dum Oriente rutilante e exasperado e hirsutos druidas, cobertos de alvas túnicas de linho, importavam das florestas sombrias e metafisicas da Gália.

Foi então que os Bárbaros apetecêram a cortesan romana, que, nos átrios de mármore e sôb o olhar vasio das estatuas, uivava de luxúria monstruosa, entre cacos de taças estilhaçadas e sob um chuveiro continuo, embriagante, exaustivo, de pétalas de rosa.

E a epopeia do Fim principiou...

De norte a sul e de oriente a ocidente, um frémito de terrôr galvanisou a carne entorpecida do heroi, que ia morrer--que inexoravelmente ia morrer.

Num derradeiro lampejo de coragem, dessa coragem sublimada e excelsa que lhe déra mundos e a sua quadriga de triunfo acorrentara cem raças, êle ergueu-se, então, cambaleante, meio tonto da ultima bacanal, e, sacando do pesado gladio de Rómulo e Remo, tentou ainda uma desesperada resistencia á investida dos que lhe cobiçavam as pedrarias das arcas e a carne voluptuosa e dôce das mulheres requintadissimas.

Mas, ai! aos músculos do seu braço não acudiu o vigor de outros tempos--e dos seus dedos afusados, femininos, cobertos de joias, o gladio das victorias desprendeu-se e, ao bater no mosaico do chão, partiu-se em mil bocados, com um ruido sinistro de bronze que se lamenta...

E os Bárbaros entraram.

E os Bárbaros entraram, de roldão, como um _sirocco_ de inferno, talando campos, incendiando cidades, semeando a morte e o horror por onde passavam. Á sua aproximação burgos inteiros se despejavam de habitantes e as legiões, que o desuso da guerra amolentára, fugiam tambem, mordidas de terrôr pânico.

Foi um êxodo trágico, que nenhum Rochegrosse poderá ressuscitar!

Sobre as terras do Império agonisante a morte desdobrára as azas rígidas e o Império acabava, afogado em tristêsa pela brutal profanação...

Mas, mais alto ainda que o desespêro estridente das mulheres e o clamor ululante dos vencidos, subia a gargalhada satisfeita, a imensa gargalhada das hordas victoriosas. Riso de embriaguês, riso de insania, que importa? era um riso que fazia estremecer a terra inteira e sob a abóbada do céo écoava como um himno triunfal!

Depois...

A Historia aqui balbucia.

Pouco a pouco a tempestade amainou. Das inúmeras tribus, lançadas como irresistiveis arietes contra a muralha latina, umas, levadas pela vertigem de epopeia que os seus chuços de guerra andavam escrevendo, desabaram caudalosamente sôbre a Iberia e, atravessando o mar, fôram perder-se nas areias de Africa, como regatinhos míseros, que o deserto facilmente engole; outras--a maioria--menos ambiciosas, ou mais extenuadas de tanto pelejar, cravaram no chão as suas tendas de pele de cabra e a primeira noite dormida em sólo romano foi a primeira de uma Historia nova, de um mundo novo.

Para traz de elas e ao seu redor nada restava da luminosa sociedade que sabia de cór hexámetros de Horacio e com Petronio aprendêra a arte subtil de enrugar uma toga. Palacios, termas, sumptuosos pórticos e até humildes cabanas de tijolo jaziam por terra, desfeitas em cinzas, que fumegavam ainda. E as estatuas mutiladas pela primeira vez sentiram aflorar aos seus olhos de marmore, divinamente impassiveis, uma lagrima de humana piedade...

A Belêsa antiga morrêra!

Debalde os invasores, num supersticioso temor de _parvenus_ selvagens, tentaram ressuscital-a e com ela o mecanismo complicado e sabio da administração romana.

«Começou-se a restauração dos aqueductos, banhos e teatros; chegou-se mesmo a edificar monumentos novos, como o palacio de Verona e a basilica de Ravêna. Os espectaculos recomeçaram, reabriram as escolas de retórica. Mas os Godos não toleraram por muito tempo similhante regimen. Após a morte de Teodorico, como a rainha Amalasonte tivesse confiado a educação do filho a preceptores romanos, os principais guerreiros exigiram-lhe que a creança fosse educada com os seus camaradas, para com êles aprender a caça e o manejo das armas, conforme era de uso entre bárbaros[2]».

Este episódio melhor que nenhum outro revela a fisionomia moral da Idade Média dos primeiros séculos.

O vinho novo não se acomodava nos ôdres velhos. O pesado estatismo latino embaraçava, sufocava os movimentos de aqueles homens que traziam, de longe, um zeloso culto pela dignidade e liberdade do individuo.

Tudo, na civilisação que o Lacio cultivara ao longo das duas Europas, meridional e central, se opunha e resistia á absorpção. Roma era um estado enorme, disciplinado, culto e homogéneo, a despeito da infinidade de povos diferentes que pela sua Lei se regiam. As suas condições de estabilidade e a manifesta superioridade do seu talento governativo davam-lhe um prestigio tão grande que muitos bárbaros, como os francos, burgondos e wisigodos, não hesitavam em desertar em massa as suas terras, para se colocarem sob a protecção do césar, que nove decimas partes da população do imperio nunca vira e, talvez por isso mesmo, temia e respeitava como a um deus.

Outras e muito diversas eram as condições da sociedade que para lá do Reno e do Danubio ficava. O territorio da Alemanha actual encontrava-se parcelado, dividido por um sem-número de tríbus, que se não estimavam entre si e que, quando não guerreavam o Império, matavam o tempo batalhando umas com as outras. Chefe supremo que coordenasse todas aquelas energias dispersas não havia. Quando muito suportavam, momentaneamente, qualquer _condottiere_, que a fortuna das armas em certo minuto bafejara e cujo prestigio findava com o primeiro revés ou com a morte, não chegando a criar tradição.

Este permanente estado de briga impedia o desenvolvimento de uma superior cultura do espirito, permitindo unicamente as profissões que podemos alcunhar de instinctivas: a pastoricia, a agricultura e a guerra. Só esta ultima seria capaz de fixar unidade, se fôsse servida por um plano politico nitidamente estabelecido, como sucedeu com a conquista romana. Ora esse plano não existia. A guerra entre os Germanos, porque era motivada por impulsos passionais e sofreguidão de pilhagem, apenas logrou robustecer a barbarie e fomentar a dissociação.

Raça juvenil, fremente de acção e de paixões violentas, afeiçoando o ar livre e os scenarios naturais, que melhor falavam á espontaneidade do seu instincto, não podia intender as serenas discussões do _Forum_, entre alabastros plácidos e inertes. Para estes homens, que dormiam a cavalo e amavam com a simplesa de animais magnificos, só o que a vida lhes revelava directamente seduzia as suas irraciocinadas preferencias.

Quando se assembleiavam, escolhiam um recanto ao acaso sob a copa de um carvalho tutelar. E, ahi, sentados em calháus asperos, ouvindo o gorgolejar das fontes e o balir dos rebanhos, tumultuosamente deliberavam sôbre uma guerra a fazer ou um crime a julgar.

Além da natural distincção entre fortes e fracos não havia outras hierarquias. Quem não podia brandir a massa de armas, que laborasse a terra. Os guerreiros eram os pares do seu chefe. Cada tribu formava um estado e todos se conheciam dentro de cada tribu.

Era o ensaio fruste da comuna medieval futura e das modernas democracracias.

Deste conflicto se entretece a historia dos primeiros séculos de barbarie, após a queda do Baixo-Imperio.

Se meu intuito fôra massacrar abusivamente a benévola atenção de Vossas Excelências, eu poderia ainda--sem modestia e sem custo--longamente dissertar sôbre o assunto. Mas, porque ele vos é familiar e eu careço absolutamente de abreviar-vos, tanto quanto possivel, a fastidiosa obrigação de me escutardes, deixarei em paz este confuso e tumultuado desenrolar de guerras, brutalidades e catástrofes de toda a sorte--tenebrosa retorta de alquimista maluco em que o mundo de agora já se sente obscuramente fermentar.

Não o abandonarei, comtudo, sem primeiro ter salientado a minha persuasão de que o riso não se sumiu da face da terra, mesmo neste cataclísmico período em que horrorosas pestes aniquilavam provincias inteiras e por cada espaço de setenta anos havia quarenta de fome e se chegara a comêr carne humana.

Riso brutal, decerto, gargalhar selvagem de mandibulas desconjunctadas, riso que faria desmaiar de espanto e de terrôr as _preciosas_ do palacio Rambouillet e as marquesinhas liricas do Trianon--mas riso verdadeiro, espontáneo, irreprimivel, riso de creanças e de heróes, riso sem adjectivos nem _parti-pris_, riso simplesmente e nuamente riso!

Eis, porém, que o ano mil se avisinha.

Por toda a cristandade supersticiosa vôa celeremente a crença de que o mundo vai acabar e todas as bôcas se contracturam num rictus de agonia, que enlividece e espectralisa as máscaras.

Inutilmente alguns doutores da Igreja procuram destruir o credo absurdo. Ninguem os ouve, ninguem acredita neles. O sortilégio do número embruxa todos os cérebros e o contágio do mêdo acaba por ganhar aqueles mesmo que a principio descriam.

Então viu-se esta coisa de tragédia esquiliana: multidões rouquejando de aflição aos pés dos frades lívidos, dementadas procissões de fanáticos azorragando-se até ao sangue, corais sinistras de miseraveis erguendo para o céo parado mãos súplices e crispadas, como, por certo crepúsculo da Hélade, as mãos convulsas das carpideiras, aos gritos junto de Patroclo morto...

Ah! que supremo Artista, que semi-deus d'Annunzio cantará a angustia dessa noite de epopeia!

Senhoras e Senhores, perdoai a quem, tendo-se proposto ocupar-vos do riso na Meia-Idade mais não fêz ainda que passar-vos ante os olhos quintos-actos de dramalhão histórico. É que, para a minha sensibilidade e para o meu espírito, esta profunda crise da velha civilisação ocidental tem captivancias de côr, _sorcelleries_ de mistério, de vida intensa e magnífica, que em nenhuma outra encontro e que nenhumas palavras sabem dar. Rasão por que...

Eu procurarei, no emtanto, absolvêr-me do venial pecado.

Ia dizendo que, ao aproximar do ano 1000, entre os cristãos se espalhara a crença de que o mundo ia acabar e que o terrôr do Fim exilára das bôcas pálidas o riso claro e sonóro de outras eras.

Breve, porém, se desfez o cauchemarêsco bruxedo. Ao clarear da primeira madrugada do século XI, o homem, que--como escreve certo historiador de arte[3]--se deitára para morrer, ergueu-se do seu catre, atónito e deslumbrado, e a cristandade toda respirou fundo, desopressa da lúgubre ameaça.

Era o remoto milagre de Lázaro redivivo que em plena Meia-Idade se repetia.

Então foi pelo mundo adiante uma alegria desordenada, febril, quase dolorosa, como o casquinar das histéricas em face dum perigo que inesperadamente se desfaz. Libertas do cruciante pesadelo, as almas, reconhecidas, volveram-se para Deus, para esse Deus de misericordia e de piedade que conjurára a apocalíptica ameaça. E as bôcas, que ainda hontem soluçavam _requiems_ de desespêro, abriram-se num _te-Deum_ imenso, que iluminava a terra como um sol de gloria e para o céo subia como o perfume de um roseiral sem limites.

A estas rudes creaturas, porém, não bastava o platonismo da oração. O seu ingénuo e sincero reconhecimento anceiava por encontrar uma forma de exteriorisar-se mais duradoira e efectiva que a das palavras, que logo morrem mal nascem.

E encontraram a igreja románica.

Durante muito tempo o deus dos cristãos não tivera santuário próprio. O credo galileu, mesmo depois de perfilhado pelo Imperio, era prégado em casa de pagãos. E quando os recem-convertidos, no zêlo da sua fé, pretenderam repudiar os templos, que a idolatria dos antepassados para sempre havia maculado, e em seus espíritos nasceu o desejo de erguêr á Divindade nova um altar novo, foi ainda á _basílica_ dos romanos que êles fôram pedir o plano arquitectonico de que tanto careciam[4].

Logo, porém, que as invasões cessaram e uma paz relativa trouxe um pouco de socêgo ao velho mundo _bouleversé_, começou-se a notar que o recinto escolhido não satisfazia as exigencias de sensibilidade que o Verbo nazarêno acordára em todas as almas.

Aquela grande sala nua, rectangular, monótona, de tecto horisontal e escassamente alumiada, em nada correspondia, ou antes, nada traduzia da aspiração ardente dos cristãos. Contra as pesadas traves de aquele tecto raso, baixo, opressivo, as azas brancas da oração esbarravam e, ensanguentadas, tombavam sôbre o lagêdo da nave, como pombas alvíssimas feridas.

A par desta objecção de ordem estetico-sentimental, outra, de naturêsa puramente material, mas não menos importante, havia a considerar: é que tal processo de construir oferecia inconvenientes serios, dos quais o menor certamente não era a cobertura dos templos, feita, em geral, com enormes pedras horisontais, dificeis de obtêr, de trabalhar e de colocar. Para iludir este grave embaraço várias vezes se tentou substituir o granito por compridos pranchões de madeira. Mas a inovação fracassou, pois as inclemencias do tempo e os incendios muito frequentes em breve demonstraram a fragilidade do subterfúgio.

Foi então que o sistema das construcções abobadadas se apresentou ao espirito de não se sabe que obscuro arquitecto de génio, que, um dia, talvez em frente de uma arcada romana, as imaginou.

«Esta inovação acarretava uma série de modificações. Contrafortes exteriores, mas ainda pouco salientes, encostaram-se ás parêdes, exactamente nos pontos sobre os quais a abóbada fazia maior pressão. Pilares macissos, com columnas encravadas em cada uma das quatro faces, alternaram com columnas isoladas. Rasgaram-se as janelas em cintro e, quando eram geminadas, uma claraboia as sobrepujava[5]».

Interiormente, a longa nave da basilica romana foi cortada, a dois terços do seu comprimento, por uma nave perpendicular, de menores dimensões, de sorte que o edificio ficou com a forma de uma cruz latina. Exteriormente, além das modificações já apontadas, outra se verifica, muito importante: o aparecimento do campanario ou campanarios, torreões macissos, aderentes ao corpo da igreja e servindo não só para instalar os sinos como tambem para vigiar os terrenos em volta, precaução naturalíssima n'aqueles tempos de guerrilhas quotidianas.

«Quanto á decoração, não se fêz caso algum da simetria romana. A forma e a ornamentação dos capiteis fôram completamente abandonadas á fantasia dos esculptôres. Ha igrejas románicas em que não é possivel encontrar dois capiteis similhantes[6].

Reparem agora Vossas Excelencias nesta gravura. É um _croquis_ da linda igreja de Poitiers, _Nôtre-Dame-la-Grande_, um dos mais belos monumentos religiosos da época que estamos analisando[7].

Frequente é encontrar nas historias de arte a afirmação de que esta arquitectura é triste, pesada, conventual, acompanhada da inevitavel explicação de que sómente á torturada, á sombria fisionomia moral da Idade-Média se póde e deve atribuir a feição particular de similhante arte. É nesta altura que é de uso sacar dos tropos retumbantes, a que já tive ocasião de aludir nos umbrais de esta palestra, e dar cabo da pobre Idade-Média, carregando-a de nomes feios, mutilando-a ferinamente, enxovalhando-a e humilhando-a sem piedade.

Eu peço vénia para não juntar a minha debil voz ao côro dos apostrofadôres, sem que a minha renúncia, comtudo, signifique pretenção de afirmar que a êles não assiste o mais fugidio vislumbre de razão. Sim, a arquitectura románica, á primeira vista, é melancolica, soturna. Estas grandes paredes nuas e cegas, de uma espessura esmagadora, são rebarbativas, duras, quasi hostís. O interior da igreja tambem não nos dispõe melhor: a luz é coada por frestas tuberculosas, abertas aqui e acolá, medrosamente, na mole compacta de granito. Sufoca-se lá dentro com tanta penumbra e tanta frialdade. Dir-se-hia que de aquelas pedras, de aquelas enormes pedras de castelo medievo, eternamente escorre um suor frio de terror.

Terão razão, portanto, os que no templo do século XI se obstinam em encontrar a mais fiel traducção do espírito supersticioso, coalhado de angustias e pavores, que é para êles, o espírito do nosso antepassado feudal?

Todas as ideias, por mais absurdas, são defensaveis--e esta é-o mais que nenhuma. Todavia, parece-me que ainda aqui se toma um pouco a nuvem por Juno...

O ano 1000 passára e, com êle, um dos maiores pánicos da cristandade. Como é possivel que fossem tristes os homens que ergueram tais edificios, se esses homens como que haviam renascido uma segunda vêz?