O Christão novo Romance Historico do Seculo XVI
Chapter 7
Dispunha-se a retorquir o provincial quando o badage se apresenta de improviso.
--Recuso, disse com firmesa, todo o perdão e todo o favor. Simão Rodrigues, Simão Rodrigues, sois vós que precisaes da graça de el-rei!
--Não comprehendo bem o teu orgulho, meu amigo! acodiu o nobre Duque de Beja.
--É o orgulho de quem estima e defende uma boa causa: a causa do povo.
--O povo, sempre o povo! exclama com asedume o terrivel jesuita. Dize-me: que entendes tu por essa massa enorme e infrene, esse corpo sem entendimento nem consciencia que apedreja hoje o idolo da vespera, essa cabeça desvairada que nunca soube comprehender as doçuras da paz nem respeitar as glorias de Deus?
--O povo, proferiu o indio com enthusiastico espirito, é um instrumento de trabalho que emprega todo o suor do seu corpo e todos os dias da sua existencia no roçar das charnecas, no arroteamento dos latifundios, nos perigos e labores das officinas, sobrecarregado sempre de gabellas e desfavores, ganhando apenas os meios pecuniarios de não morrer de fome e não conseguindo nunca abandonar a sua condição servil. É o contrario de essa classe que se chama a nobresa e de essa oligarchia que se chama o clero. O nobre e o padre, favorecidos por uma legislação de isenções e privilegios, são homens livres que deixam de contribuir para as despesas do estado, que tudo á larga possuem e que desconhecem os suores do trabalho. Gosam e mandam a seu alvedrio... O povo, todavia, constitue a maxima parte, a grande porção do estado. Do seu braço, das suas forças e da sua actividade provém a riquesa publica, a defesa das monarchias ou das republicas, a manutenção da ordem e da paz, o desenvolvimento do commercio e das industrias. O povo é o elemento mais forte das instituições politicas e da ordem social: o eixo e as rodas da machina social. Seria preciso conseguintemente não despojal-o da sua personalidade e da sua liberdade... Mas quando irromperá a fulgorosa alvorada em que esse rebanho de ilotas ou escravos desperte ao grito heroico e triunfal de um novo Spartaco, o libertador dos povos? Quando, proclamado o advento da igualdade e da justiça, surgirá a epocha redemptora em que a essa _cohorte renegada de hebreus_ se concedam pelas prescripções de uma legislação benefica e humana os foros de cidadãos e os direitos de homens livres, a sua alforria politica e social emfim? Eu erguerei sempre a minha voz contra os excessos da tyrannia feudal, inquisitorial ou real que fasem do povo uma besta de carga. O systema pagão ainda prevalece nas hodiernas sociedades, apesar de já decorrerem mais de quinze seculos de christianismo[18]: isto é do reinado da igualdade, da liberdade, da fraternidade humana. Porque se não ha de abolir este nefando systema aperfeiçoando as coisas existentes, dando ás ideias diversa direcção, melhorando as leis e os habitos e os costumes? Vós, provincial Simão Rodrigues, confiaes que, submettendo o povo ao jugo da escravidão e roubando-lhe a luz do sol nas abobadas dos carceres, conseguis a regeneração da sociedade civil e a grandesa da igreja catholica. Mas por acaso ignoraes que a consciencia publica e o senso universal reprovam com vehemencia as traças e ardis empregados pelo vosso systema estacionario e fanatico, systema vergonhoso que directamente conduz á anniquilação e ao opprobrio? As nações não podem viver sem leis de egualdade na distribuição dos bens e dos males, dos cargos e beneficios. Não podem os homens coexistir e prosperar sem as vantagens de uma associação commum. Como é pois que a vossa corporação de jesuitas ambiciona dispor de todas as forças e riquesas, de todos os elementos de soberania e de todos os graus de despotismo? Não comprehendeis o grande pensamento do dever--que é a lei da vida, a grandiosa ideia do bem--que é o dever da humanidade! Conheço que debalde cairei sem nome nem gloria como o soldado ferido no fragor dos combates. Mas eu vos profetiso, Simão Rodrigues, eu vos profetiso que ainda um dia, ao grito de triunfo dos meus irmãos, ha de sobre as cinzas frias do jesuitismo e dos Cains do Santo Officio erguer-se em canticos de alegria o altar da liberdade!
Logo Simão Rodrigues se dispunha a esfriar a impressão do democratico discurso do badage; mas Catharina de Austria, com a fronte radiosa de firmesa e coragem, apressou-se a diser para seu esposo:
--Não approvaes, senhor, os gentis e nobres sentimentos d'este mancebo? Por Deus vos declaro que não conheço em nossos reinos mais generoso fidalgo nem mais leal vassallo!
--Assim o creio, concordou o monarcha impressionado por um estranho sentimento de generosidade. Tanto que resolvo mostrar-lhe a minha gratidão e a minha graça. Ficas satisfeito, proseguiu ao dirigir-se affavelmente ao badage, em aceitar a commissão com que me apraz honrar-vos? Quero provar-vos com animo generoso que sei premiar as virtudes e serviços dos meus vassallos...
--Senhor, atalhou com um olhar de fogo o jesuita Simão Rodrigues, por Deus que vos não pertence premiar os herejes nem os criminosos!
--Jamais um monarcha de Portugal deixará de cumprir quanto prometteu... Pagem! mando-vos substituir nos meus dominios da India com os mesmos foros e jurisdicção o viso-rei Dom Affonso de Noronha.
Seguidamente fôra o badage abraçado com espontaneas manifestações de contentamento pelo seu sincero amigo o duque de Beja.
--Fez-se justiça, fez-se justiça por fim! exclama a rainha com viva explosão de enthusiasmo.
Experimentaram os nervos do badage uma passageira commoção, humildemente recurvou elle pela primeira vez a sua cabeça altiva e com brandura ajoelhou aos pés do sombrio monarcha:
--Muito agradeço a vossa altesa, lhe disse, as honrarias e os louvores; mas consinta-me que não aceite.
--Puf! meu rapaz. Pareces bem orgulhoso e bem louco. Pois já te não convem o viso-reinado das Indias?
Ao successor de Dom Manoel, o glorioso principe que tam respeitado e temido fisera no Oriente o nome portuguez, retrucou o indio com magestosa serenidade:
--Parto para as agras e florestas do meu paiz; mas deixe-me vossa altesa partir sem honrarias nem proveito. Não me sedusem as grandesas da vida nem os avellorios do mundo. Christão velho ou christão novo, deveras ficarei contente com dar a Simão Rodrigues um exemplo de modestia e uma lição de humildade!
[18] Lamennais. _Du passé et de l'avenir du peuple._
XVI
A VINGANÇA
Foi annunciado o almoço e então suas altesas as pessoas reaes, acompanhadas de suas senhorias os conselheiros e o celebre provincial, poseram logo termo á audiencia.
Apenas se conservou na sala o badage.
--Talvez me chamem desassisado, scismou elle. Regeitar assim riquesas e titulos!... Grande virtude e grande proesa, na verdade... Quem não gosta de elevar-se e engrandecer-se, quem não deseja passar de braço erguido por cima da cabeça dos outros, embora á custa da sua consciencia e da sua dignidade? Todavia do meu procedimento não me arrependerei nunca. As Indias são emporio de riquesas e eu depressa possuiria armasens de fasendas e especiarias, cofres de joias e de barras de ouro... Mas quem me dava todos esses bens? Porventura sua altesa serenissima? O rei, no seu officio inalteravel de gastar, dispõe dos haveres e dos suores do povo, a massa que produz e trabalha. De certo deveria a minha fortuna ás generosidades do rei... Mas não és tu--a maior, a grande porção da humanidade--que trabalhas e que produses e que tudo vaes pagando?... Povo, das bagas do teu suor é que nascem as perolas das coroas regias. Eu comprehendo isso, comprehendo! Havia pois de enriquecer-me á vossa custa, meus irmãos?
O badage sentou-se na luxuosa estadella do monarcha, dobrou a cabeça sobre os braços crusados na beira da mesa e assim por alguns momentos permaneceu como adormecido pelo cansaço. Entregava o seu espirito á meditação, porque logo alteou a sua cabeça esbelta e se dispoz lentamente a escrever.
Todos os mais intimos e sinceros sentimentos do seu coração transmittia-os agora a meia folha de papel. Estava confiando por meio das letras alfabeticas de uma carta dirigida a Catharina de Austria os seus fervorosos affectos e as suas saudosas despedidas.
--Amei-a com dedicação! monologava elle quando acabou de escrever. Mais pelas prendas do seu espirito que pelas bellesas do seu corpo... Conheci-a sempre bondosa e casta como os anjos. O orgulho, a soberba e a impudicicia de uma rainha são vicios que jamais lhe empanaram o brilho das suas virtudes. Não me esquecerei nunca de abençoar o seu nome e de estremecer a sua imagem. Nobre e gentil senhora! quem soffreria os impetos e cruesas de vosso esposo, o lobo sombrio e fanatico, se não fossem as vossas caricias e os vossos conselhos de ovelha paciente e delicada?
Leu a carta seguidamente, reflectiu ainda por alguns minutos e rasgou-a em varios pedaços a final.
--Não! reconsidera com altivez. Não darei eu esta prova de fraquesa. Coragem, coragem!... Sempre, como perola escondida na clausura da concha, apertarei nos meus seios de alma o segredo dos meus amores. Quem sabe se lhe causaria despreso em vez de saudade, riso em vez de compaixão?
O badage levantou-se bruscamente da estadella, correu as vistas pelas douradas paredes da sala e dirigiu os passos para o lumiar da porta.
Aquelle palacio escaldava-lhe a cabeça como se o abrasasse a cratera de um volcão.
Resolvera abandonal-o para sempre e já caminhava ao longo do corredor quando um magro personagem de semblante pallido como o de um cadaver e de vestes negras á semelhança de um fantasma o obriga a parar improvisamente.
Em repasto da sua vingança, não se recusara Simão Rodrigues a ensanguentar o seu punhal traiçoeiro. Elle em carne e osso, com o punhal escondido na manga da roupeta, aguardava o pagem na penumbra solitaria do corredor.
O pagem cahiu, com effeito, ao borbulhar do seio um jorro de sangue. Não acodiria braço que o protegesse nem medicina que o salvasse. Crisparam-se-lhe os dedos, arroxearam-se-lhe os beiços, empallideceram-lhe as faces e entregou a Deus o derradeiro alento da sua juvenil existencia depois de articular esta crudelissima ironia:
--É assim... que se vingam... os filhos de... Ignacio de... Loyola!
FIM.
INDICE
Algumas palavras 5 I--Ciumes de um rei 11 II--Os reis não costumam perdoar as offensas recebidas 23 III--Recompensa do crime 35 IV--O festim de Balthasar 53 V--Orações e jejuns redimem todas as culpas 65 VI--A caçada 75 VII--A luta 85 VIII--Os estaus 95 IX--O carcereiro 105 X--Vantagem de dous contra um 115 XI--A taverna 123 XII--Referta de tigres e leões 139 XIII--O leito da dor 145 XIV--Effeitos do veneno 155 XV--O perdão 165 XVI--A vingança 175
PORTO--IMPRENSA PORTUGUEZA