O Christão novo Romance Historico do Seculo XVI

Chapter 3

Chapter 33,927 wordsPublic domain

Todos na sala do throno vestiam com o mais apurado gosto e com uma especie de luxo oriental. Eram principalmente as roupagens da rainha adereçadas da mais rica pedraria e do mais esquisito artificio. Cingia-lhe a fronte um bello diadema cravejado de perolas e diamantes. Cravejada tambem de preciosa joalharia decorava-lhe o peito a cruz da ordem de Isabel a Catholica. O manto, finalmente, era guarnecido de renda de ouro e pespontado dos castellos e quinas de que desde o fundador da monarchia fasem uso os mantos regios[10].

El-rei envergava uma custosa vestidura de terciopello e cobria-lhe os hombros alentados uma opa roçagante de lhama de ouro e prata. Por cima da curta cabelleira pousava-lhe na cabeça um chapeu enfeitado com plumas brancas, de aba erguida de um lado e presilha recamada de vistosa pedraria. Emfim as bellas insignias do Tosão de Ouro assoberbavam-lhe o peito e da cinta pendia-lhe um dourado espadim em que relusiam meia duzia das mais preciosas gemmas da colonia do Brasil.

Satisfeitas as varias ceremonias e etiquetas exigidas em semelhantes conjuncturas, procedeo-se depois a um desses opiparos banquetes que entravam na lista dos praseres dos monarchas de Babylonia.

De direito fez as honras da mesa el-rei Dom João III, ficando-lhe á dextra a princesa de Castella Dona Joanna e ao lado esquerdo o poderoso valido Antonio de Athayde. Em frente do velho monarcha sentara-se a rainha Dona Catharina de Austria, cedendo a cadeira de honra a seu filho o principe Dom João e a esquerda ao infante Dom Luiz de Beja.

Por sua grandesa e gerarchia ali estava resplandecendo tudo o que se poderá notar de melhoria nas ordens clericaes e nas raças aristocraticas de Portugal.

Não faltavam ao banquete, além dos principes e mais pessoas da familia real, o bispo de Coimbra, os arcebispos de Braga e Lisboa, o beato jesuita Simão Rodrigues, o illustre Dom João de Lencastre, o chanceler doutor João Monteiro, o desembargador Dom Gonçalo Pinheiro, o nobre Marquez de Villareal, o prudente Duque de Bragança e ainda tres dusias de lusidos personagens que na maior parte representavam a curia de Roma e as côrtes estrangeiras.

Bellos vinhos de Caparica e Seixal, bons licores e as mais esquisitas iguarias serviam-se com profusão. Os vinhos eram de excellente paladar e por isso motivaram algumas alegres modificações no rigoroso codigo das etiquetas.

Foi Dom João III o primeiro personagem que se ergueu com a copa na dextra. Já não era o monarcha de severo e sisudo caracter. Mostrava-se de faces rubicundas, olhos risonhos e maneiras joviaes. Nunca o seu espirito se abrira com tanta expansão e tanta liberdade. Sorrindo com alegria, olhou por um momento em derredor da mesa e proferiu pausadamente as palavras seguintes:

--Sem lisonja o digo, senhores. Sobreluzem no semblante e no espirito da mui alta e excellente esposa de meu presado filho Dom João todas as graças e mais prendas que podem exornar a pessoa de uma princesa. Para goso e ventura de todos os meus vassallos imploro de Deus lhe dilate a preciosa vida por muitos annos. Sempre lhe tributarei n'esta côrte as mais ternas affeições como filha a quem muito amo e todas as homenagens como princesa das mais excelsas virtudes. Por isso é, fidalgos e prelados da minha côrte, que eu com summa alegria do meu coração brindo agora á saude da nobre princesa Dona Joanna!

Todos os prelados e fidalgos levaram aos labios as preciosas amphoras espumantes do saboroso Caparica, ao mesmo tempo que, de pé e em reverente postura, baixaram respeitosamente para Dona Joanna as radiosas cabeças.

De branco vinho do Seixal tornou logo o monarcha a encher a Copa e novamente se dispoz a abrir os diques á sua expansiva loquela.

--Grandes e senhores da minha côrte, principiou elle, não deixarei tambem de faser votos pela existencia e ventura do herdeiro do meu throno. Piamente confio em que Deus lhe inspirará amor pela justiça, respeito ás leis do reino e obediencia ás doutrinas da nossa santa religião. Firmam-se n'elle as esperanças dos leaes portugueses e certamente meu filho se tornará digno por seus talentos e virtudes do amor dos meus vassallos. Escuso de lhe declarar as affeições do meu seio; mas saiba que eu o amo e preso como pai e como amigo. Rogarei sempre aos céus nas minhas orações lhe prospere Deus a preciosa existencia... Que Deus lh'a prospere e viva por muitos annos o glorioso principe Dom João! Meus senhores, perorou erguendo mais a copa e a voz, viva meu filho o principe Dom João!

Um coro dissono e rapido de vivas eccoou pelos recantos do vasto salão do festim. Principes e embaixadores, fidalgos e prelados ouviram com enthusiasmo as ultimas voses de el-rei e todos a um tempo, levando á altura dos beiços as copas cheias d'esse valente liquido que _o peito accende e a cor ao gesto muda_, soltaram o grito fremente de _viva o principe Dom João! Viva o principe Dom João!_

Sentaram-se depois e por um pouco arrefeceram os gastronomicos delirios. Apenas se escutavam o rangido frouxo dos talheres e as brandas passadas dos criados. Foi porém de breve duração esta calmaria. Levantou-se o Conde da Castanheira e, com fallas adamadas e gestos em demasia palacianos, dispoz-se a discursar.

--Pedindo venia a vossas altesas serenissimas--começou o poderoso valido, cortejando com a cabeça o monarcha e Dona Catharina--ouso tambem manifestar a grande satisfação que me desperta o glorioso dia que em tam esplendido banquete se commemora. O feliz consorcio do nosso principe real é para todos os leaes portugueses motivo de felicitações e regosijos. Quem não ha de exultar com as virtudes varonis e prendas naturaes dos augustos noivos? Permitti que vos saude, excelsa princesa! Dae-me a liberdade de brindar á vossa ventura, augusto principe!

Dom Antonio de Athayde bebeo de um trago o vinho do seu calix e a tam palaciano brinde logo corresponderam em coro todos os convivas.

Por seu turno ergueram-se ainda com os calices na mão o inquisidor geral D. Henrique, o velho arcebispo de Braga e tambem Dom João de Lencastre. Entresachados de latim e de textos theologicos se desenvolveram os dous primeiros discursos, mostrando-se assim a erudição e sabedoria dos respeitabilissimos varões que os proferiram. O de Dom João de Lencastre, esse foi declamado na lingua espanhola em frase singela e correntia como sendo de pessoa mais adestrada no jogo das armas que em torneios de palavras.

Como nas marés dos oceanos, dá-se tambem o fluxo e o refluxo nas marés do enthusiasmo. Nem tudo, por esta rasão, era delirio e voseria. O silencio reinava tambem de longe a longe.

Silencio profundo reinava no salão do banquete quando, emfim, de um dos recantos da mesa se levanta um mancebo de tez morena e bronzeada como a dos povos da India.

Era o joven amigo do infante Dom Luiz de Beja.

--Monarcha Dom João, prologou elle com voz clara e rosto sereno, eu venho como o profeta Daniel vaticinar-vos a sorte de Balthasar!

Mal fôra proferida esta ameaça terrivel e já duas duzias dos mais esforçados fidalgos se adiantaram com o punho nos copos dos dourados chifarotes.

O pagem não se intimidou, porém. Deu maior volume á voz e com o seu placido gesto exprimiu-se ainda:

--Não encareço as vossas virtudes nem culpo os vossos vicios, monarcha Dom João; mas sempre vos imputarei a responsabilidade dos tremendos crimes que se commettem na vossa côrte...

--Crimes na minha côrte! bradou o monarcha portuguez ao erguer-se da cadeira como impellido por uma secreta mola.

--Admiro, replicou immediatamente a rainha Dona Catharina, que ainda não vos dissessem que tentaram hontem assassinar vosso irmão o infante D. Luiz.

Á inesperada revelação succedeo um momento de espanto e alvoroço. Quem não presaria em Portugal a vida do infante? Presavam-na deveras assim fidalgos como peões e por isso ninguem havia entre os nobres commensaes que se não sobresaltasse com a nova de que a vida de Dom Luiz de Beja correra imminente risco.

--Fallae agora vós, meu irmão. Por acaso premeditaram alguns sicarios contra a vossa vida?

--Tentaram na verdade, placidamente respondeo a el-rei o infante Dom Luiz. Hontem por alta noite fui eu acommettido por tres bandidos e de certo dos seus punhaes seria victima innocente se me não acode aquelle generoso pagem.

--Graças dou a Deus, volveu el-rei, por haverdes escapado do perigo. Mas que foi feito dos assassinos? Justiça rigorosa se fará, meu presado irmão.

--Justiça rigorosa vol-a reclamo eu! solemnemente bradou a rainha.

--Justiça! justiça! conclamaram todos os convivas.

Gradualmente foram esmorecendo as vingadoras explosões de enthusiasmo e então o monarcha portuguez, retirando-se bruscamente da mesa, fez terminar esse festival e ruidoso banquete que, para dar em tudo semelhanças do festim de Balthasar, só faltou que mão invisivel escrevesse na parede as mysteriosas palavras _mané_--_thécel_--_pharês_!

[10] Vid. _Hist. polit. e militar de Port._ por L. Coelho, t. I, pag. 249.

V

ORAÇÕES E JEJUNS REDIMEM TODAS AS CULPAS

Da casa do jantar passou a maioria dos convivas para um faustoso salão em cujos moveis sobresaiam riquissimos estofos de cores amarella e carmesim.

Aqui principiaram damas e fidalgos de se entreter com jogos de cartas, girando a rodo sobre as mesas moedas de prata e ouro como se fossem alcacer de Astrea os paços de el-rei Dom João III.

Dom João III, esse vamos vel-o no seu gabinete preoccupadamente sentado em larga poltrona franjada de ouro e prestando a maior attenção ás fallas veneradoras de dous illustres personagens.

Estes personagens vestem com excessiva desigualdade no feitio e na fasenda: traja o mais novo rico veludo roxo e o mais velho humilde roupeta de estamenha.

Será empresa difficil todavia distinguil-os no valimento e no poderio. Ambos representam duas hierarchias eminentes: a nobresa e o clero.

São o padre mestre provincial Simão Rodrigues e o celebre Conde da Castanheira, esse poderoso valido que grangeara famas de que «n'aquelle tempo ninguem se lhe avantajava nas partes de conselho e maduro juiso[11]».

--Juro-vos, estava asseverando o jesuita, que nada se descobrio. As palavras d'esse estonteado badage motivaram-nas os vapores do vinho.

--O mesmo acredito eu, accrescenta o conde. A noite corria escura e a empresa foi commettida a gente de confiança...

--Mas, interrompe el-rei, não me disseram já que o attentado se baldou por artes do diabo ou por manhas de quem quer que fosse?

--Verdade é, responderam ambos ao mesmo tempo.

--Em tal caso facilmente se poderia descobrir tudo...

--Os aggressores, acode o jesuita, acautelaram-se bem. Os chapeus e os capotes deram-lhes panno de sobra para cobrirem as barbas e, quando chegou o diabo, todos debandaram com prudencia.

--Tal accommettimento ha de ser sempre o dessocego do meu espirito! desabafa el-rei.

--O bem do estado assim o reclama, volve por sua vez o conde.

--Dizes, conde, que o bem do estado nos moveu... O bem do estado seria, mas porventura não peccamos nós contra os mandamentos da santa religião? Receio, meu padre, o castigo da Providencia!

--Que póde recear vossa altesa real, o mais fervoroso filho de Deus? replica o poderoso jesuita com extrema brandura.

--O castigo dos meus peccados, o castigo dos meus peccados... Conheço que ordenei um assassinio. Não terei eu, como Caim, manchado as minhas mãos em sangue fratricida? Meu padre, a colera do Senhor cairá sobre a minha cabeça!

--A oração e os jejuns redimem todas as culpas...

Proferia Simão Rodrigues esta mistica sentença quando estalou na sala do jogo um grande alvoroto de voses e passos.

Sobresaltou-se o monarcha Dom João como se novamente lhe retumbasse nos ouvidos o tremendo vaticinio do pagem: _Eu venho, como Daniel, profetisar-vos a sorte de Balthasar._

O Conde da Castanheira dirigio-se com prestesa para a soleira da porta a colher noticia do alvoroto e, dando volta á chave, eis que frente a frente se lhe depara a figura travessa do indio.

O badage, sem comprimentos nem venia, collocou-se em poucos passos defronte do monarcha.

--Não se enfade vossa altesa serenissima, lhe disse respeitosamente. É natural o ruge-ruge que vos chega aos ouvidos, senhor. Não provém de rebellia nem de incendio. Toda a côrte se alvorota e desconsola porque o principe Dom João adoeceu repentinamente ao levantar-se da mesa.

--Asseveras que está doente meu filho, o meu querido filho Dom João? inquire el-rei ao mesmo tempo que se levanta da poltrona com visivel preoccupação.

--E doença de morte o accommetteu, prosegue o badage. Mas nada receie vossa altesa serenissima, que _a oração e os jejuns redimem todas as culpas_.

--Pardés, assim ousaes chalrar com tal desassombro! prorompe o valeroso conde carregando o sobrolho.

--Fallo a verdade sem rebuço e mais direi ainda se el-rei me permitte a ousia de fallar.

--Sei que és ave de mau agouro; mas conta-nos tudo, conta-nos tudo! volve o monarcha em profundo estado de abatimento moral.

--Pois sempre vos direi, meu rei e senhor, que propinaram veneno a vosso filho o principe Dom João!

Cahio o monarcha na poltrona como se padecera os effeitos fulminadores de um raio.

Assim alguns momentos se demorou em uma especie de glacial insensibilidade sem que o jesuita e o conde se atrevessem a interromper o silencio. Por fim ergueu-se tremulamente o monarcha e, não descobrindo já o destemido badage, perguntou com voz desfallecida:

--Que é feito do pagem?

Olharam os dous validos para todos os recantos do gabinete, mas já não avistaram ninguem.

Não quiz el-rei que d'elle fossem em procura e, dirigindo-se para os seus validos, lhes exprobra com friesa:

--Ahi tendes a vossa obra... Ahi tendes o castigo da Providencia! Quiz Deus punir-me com a morte de meu filho, esse innocente filho que sobre todas as coisas eu queria e presava. Mas ai de vós, senhores, ai de vós e de mim se elle morre!

Os dous validos não aventuraram palavras de defesa ou de conforto com que salvassem semelhante conjunctura e el-rei, deixando-os impassiveis no meio do gabinete, saío pela porta a informar-se das clamorosas scenas que occorriam.

--Trocaram-se os papeis provavelmente, resmoneou o Conde da Castanheira logo que se viu a sós com o jesuita.

--Por certo, concluiu o antigo companheiro de Francisco Xavier em voz mais baixa ainda. Vou crendo que o veneno, em vez de o tragar o infante Dom Luiz, tocou desastradamente ao principe real. Feliz noivado, feliz noivado!

Por fortuna a causa efficiente do bulicio parecia limitar-se a um leve achaque estomacal de que o principe se queixara. Explicara o joven principe que uma vertigem lhe estonteara a cabeça e algumas nauseas lhe trouxeram incommodos ao estomago, mas que já se sentia completamente alliviado e fóra de perigo.

De feito o sabio medico Francisco Lopes, tateando-lhe o pulso com o maior cuidado, depressa declarou que a doença apresentava apenas o caracter de uns passageiros effeitos gastricos motivados naturalmente pelos molhos indigestos das iguarias.

Foi o principe recolhido á cama com todos os conchegos e, como asseverava o discipulo de Hypocrates que os symptomas do accidente não offereciam gravidade, os bellos e illuminados salões do paço continuaram até deshoras a servir de entretenimento aos nobres fidalgos e aos venerandos prelados.

No gabinete reentrou el-rei de espirito mais socegado e rosto mais ledo. Uma certa dose de satisfação parecia resumbrar dos seus olhos asues e a pallidez que pouco antes lhe amarellecera as faces fôra substituida por tintas rubicundas.

--Receei peor coisa, rumorejou elle esfregando as mãos.

Atraz de el-rei saira logo o Conde da Castanheira e foi por isso o jesuita a unica pessoa que se deixou ficar no gabinete.

Abrira sobre a mesa regia o seu predilecto livro _De imitatione Christi_ e, pelos signaes de concentração que lhe transpareciam no gesto, inculcava aproveitar-se do momento para erguer a Deus alguma fervorosa prece.

Não obstante disse pausadamente ao levantar-se da poltrona:

--Estava rogando aos céus que afugentasse desditas dos paços de vossa altesa...

--Obrigado, meu padre. Jamais olvidarei o interesse que tomaes por minha pessoa. Mas d'esta vez não succedeo perigo. Do sobresalto que soffremos foi culpado sómente aquelle estonteado badage.

--A não fallecerem justiças n'este reino, cumpre que seja punido para lição de rebeldes e escarmento de atrevidos. De que pensar é vossa altesa?

--Elle não tardará no tronco, meu padre. Mas agora outra coisa pretendo saber em puridade: poderei eu remir ainda com obras e orações as minhas culpas?

--Está isento de culpas o coração de vossa altesa...

--Sei que sou um grande peccador!

--A alma de vossa altesa está limpa de mancha. É grande o amor que professaes pela fé catholica. Não esquece Deus os beneficios que tendes prestado pela igreja de Jesus Christo...

--Consolam-me essas palavras, meu padre. Em recompensa de tantas consolações haveis de lembrar-me o que vou prometter-vos: se não fôr de morte o mal de meu filho, contai para as festas do milagroso Santo Antão com uma custodia de ouro massiço e pedras preciosas...

--A graça de Deus seja comvosco...

--Prometto mais quinhentos crusados para compra de alfaias e paramentos do culto...

--Não deixarei jamais de rogar aos céus pelo bem do estado e pelas prosperidades de vossa altesa serenissima...

--Lançai-me agora a vossa benção, meu padre.

--Real senhor, eu vos abençôo em nome do Padre e do Filho e do Espirito Santo!

Ajoelhou el-rei para receber a benção do jesuita e em tam humilde postura de santidade poder-se-hia conhecer que nunca um piedoso monarcha illustrara mais com suas devoções os fastos da monarchia portuguesa.

[11] Frei Luiz de Sousa. _Annaes._ Parte II, livro II, cap. II.

VI

A CAÇADA

Alguns dias depois do casamento convidou el-rei toda a côrte para assistir a uma caçada.

Ajaesaram-se logo os mais vistosos palafrens e os mais rapidos ginetes. Desenas de creados afadigavam-se nos preparos dos nobres paços de Almeirim e tudo ali se dispoz com o luxo de uma casa de fadas.

Chegou a côrte aos paços de Almeirim por uma tarde enxuta e serena, posto que bastante fria e nublosa a modo das tardes inglesas.

Era a vespera da campanha venatoria.

Na immediata madrugada foi servido um almoço leve e em seguida ao almoço montaram a cavallo damas e fidalgos.

O monteiro-mór, a toque de uma ostentosa busina, repenicou o signal da partida e então el-rei, cavalgando ao lado da princesa Dona Joanna e precedido por uma centena de ricos fidalgos, adiantou-se com a rapidez de uma frecha em direcção dos matagaes.

Abundavam as opulentas coutadas de Almeirim em caça grossa e miuda de toda a especie. Veados e corças, lebres e coelhos e cabras monteses costumavam fugir e saltar aqui e além por entre as urzes e os giestaes, por debaixo dos ramos dos sobros e das pernadas dos choupos. Porem a raça canina via-se decerto em penosa maré de infelicidade. Latiam, uivavam e remordiam-se os lebreus e os podengos sem conseguirem alcançar uma lebre ou abocar um coelho.

Debalde se esperava nas clareiras a passagem de alguma peça grauda quando alguns dos mais affoutos caçadores resolveram entrenhar-se no cerrado da floresta. Ahi, sim, deixavam de ficar ociosas as balas e a polvora das clavinas. Os tiros rapidamente se succederam aos tiros.

Entretanto a maioria dos caçadores ainda esperava nas clareiras. Em posição de pontaria por veses ergueram elles ao hombro o cano polido e relusente das espingardas, os latidos dos cães ouviram-se por veses a curta distancia e os cavallos, ao cheiro aspero da polvora, escarvavam impacientemente com as unhas ferreas na grama do solo; mas ainda não passara ao alcance das balas uma só lebre ou um só veado.

Resolveram-se por isso desmontar e, aproveitando o exemplo dos primeiros caçadores, lá se entrenharam egualmente por entre os verdes arbustos e os robles gigantescos.

A rainha, a princesa Joanna, o cardeal Henrique e o badage foram as unicas pessoas que permaneceram no mesmo sitio. Mas tambem depressa lhes falleceu a paciencia de esperarem assim na sella dos cavallos. Apearam-se pouco a pouco e a passos vagarosos foram passeando ao longo de um renque de choupos.

--O tempo corre bem, disse a rainha dando principio á conversação. Temos um ceu claro e magnifico; mas parece-me que não produz resultado a caçada.

--Também me parece, accrescenta a princesa Dona Joanna.

--Juro pelos Vedas que ainda hoje teremos fartura de caça, replicou o pagem.

--Fallaste nos Vedas; mas que entendes tu por isso? inquiriu o sabio cardeal cioso de desenvolver a sua vasta erudição.

--Eu vol-o digo se vos apraz, senhor.

--De bom grado escutarei. Dize lá: que são os Vedas?

--Os Vedas formam uma grossa collecção de slokes ou estrofes escrita em sanscrito sob a designação de Rig-Veda, Yadjur-Veda, Sama-Veda e Atharvana. A todos os indios e povos do mundo, menos aos brahmanes, foi por Vichnu, o verbo de Brahma, prohibida a leitura d'elles. Mais ninguem sabe o que dizem e contém esses livros santos. Os brahmanes guardam-nos tão cuidadosamente nos seus pagodes como os usurarios podem guardar um cofre de ouro. Conta-se que o poderoso Akbar, imperador mahometano, quiz um dia conhecer as differentes religiões dos paizes que lhe eram tributarios e, como os brahmanes tenazmente se recusavam a revelar-lhe os mysterios da sua crença, usou então de um subtil estratagema. Lembrou-se o imperador mahometano de enviar á santa cidade de Benares um indiosito chamado Fietzi e, fasendo-o passar por filho de um brahmane, foi o indio adoptado e instruido na linguagem e nos ritos sagrados. De tal modo seria satisfeita a curiosidade de Akbar, mas aconteceu que Fietzi se apaixonou por uma formosa filha do seu preceptor e, arrependido da fraude, foi lançar-se em lagrimas aos pés d'elle e tudo ingenuamente lhe confessou. Imagina vossa altesa qual seria o procedimento do brahmane? Arrancou immediatamente do punhal para matar o sacrilego! Por fortuna o brahmane cedeu aos rogos da filha, dando-a por fim em casamento ao indio com a solemne condição de nunca em sua vida trahir os Vedas[12].

Ainda o pagem se dispunha a proseguir na anecdota de Fietzi quando o toque arrebatado e successivo das businas lhe fez dirigir a attenção para outro ponto.

--Caça, temos caça? exclama com alegria Catharina de Austria.

Inesperadamente por baixo das ramagens do arvoredo mais proximo appareceu e adiantou-se o corpo ameaçador de um lobo.

Mostrava-se nas proporções de um molosso reforçado das patas, com os olhos horrorosamente injectados de sangue, com a cabeça de uma grossura enorme e infundindo pela arrogancia do olhar todo o pavor que podem incutir no espirito de um homem os animaes carnivoros.

Era bem curta a distancia entre elle e os desapercebidos personagens. Alguns passos mais e logo as garras da fera encontrariam para repasto o corpo delicado e fragil da rainha. Mas o molosso, por uma impressão de medo ou qualquer motivo de surpresa, sosteve-se ali.

Com as patas vigorosas escarvando o tojo e os urzes, por momentos estacou como se o prendesse pela cerviz um cadeado de ferro.

Esta demora de segundos foi, todavia, bastante longa para acodir o badage. O corajoso rapaz depressa se postou fronteiro ao lobo.

Ia agora travar-se uma luta hortenda. Iam certamente repetir-se as barbaras scenas do circo romano: o combate do homem contra a fera.

De feito o molosso arremessou-se ao badage. Erguer as patas e aventurar um salto enorme, tudo foi obra executada com a rapidez de uma frecha. Mas o badage, que se affisera ás caçadas dos tigres e dos javalis nas florestas gentilicas da India, esperou-o com a firmesa de um athleta. Quando o lobo se arremessou ao pescoço do indio na intenção de lhe verter o sangue e lhe despedaçar as carnes com o vigor das garras, o indio de repente cravou-lhe na garganta a lamina de uma comprida faca de mato.

A jorros espirrou o sangue da garganta da fera. Mas a fera não se estorceu nem baqueou. Abrindo com maior furia as patas dianteiras, apertou os hombros do indio e pretendeu esmagal-o com um amplexo terrivel.