O Christão novo Romance Historico do Seculo XVI

Chapter 2

Chapter 23,905 wordsPublic domain

Eram, como dous astros de amor, cheios de ternura e limpidez os seus olhos castanhos. Não havia mãos de mais fina epiderme nem dedos de mais esmerada estructura. O contorno do nariz não cedia em perfeições aos das estatuas gregas que representam a deusa das graças e dos amores. Os labios, feitos das petalas de uma rosa, possuia-os tam frescos e delicados que pareciam de uma criança.

Quanto não valiam os seus sorrisos e que thesouros de ternura não encerravam as suas fallas!

Era alta do corpo e franzina da cintura, como devem ser, á semelhança das primorosas estatuas de Praxitelles e de Phidias, esse ideal das artes plasticas, os contornos e proporções das rainhas da bellesa. Mais nutrida que magra assim nos braços como no rosto e, para mais se accenderem cubiças, da arca do peito avolumava-se-lhe o contorno dos lacteos pomos de que Tasso e Camões nos fizeram a descripção.

Passava já dos trinta e seis annos de edade e comtudo ninguem lhe calcularia acima de vinte e cinco primaveras: primaveras superabundantes de rosas e frescura, porque uma eterna juventude é algumas veses privilegio das mulheres formosas!

Imprimiu-lhe o infante um doce beijo na mão esquerda e, apontando para o pagem, lhe disse risonhamente:

--Apresento-vos, minha querida Violante, um bom amigo que ainda ha pouco me salvou os dias da vida.

O pagem conservou-se em mudez. Possuido de uma agradavel commoção, ajoelhou aos pés da formosa dama e não pôde elle evitar que dos seus olhos negros se escoasse uma lagrima de praser.

Violante Gomes estreitara-o nos braços de fada e com palavras divinamente repassadas de doçura lhe rumorejou:

--Deus vos recompense o bem que fiseste.

Dispôz-se então a contar-lhe o infante o que se passara.

A narração foi simples e curta. Poupou todas as côres da fantasia e do romantismo. Não se lhe ouviu sequer uma accusação contra os sicarios nem contra a pessoa que lhes commettera a empresa.

O pagem depois tomou a palavra n'estes rapidos termos:

--Dom Luiz é denodado em demasia. Se lhe presaes a vida, minha senhora, deveis aconselhar-lhe que não a exponha tanto. Inimigos poderosos lhe sobejam...

--Talvez que só Deus o possa defender! exclamou Dona Violante.

--Deus, acrescenta o Prior do Crato, Deus e a minha espada e os meus amigos tambem. Que ha traidores no mundo sei-o eu; mas que se guardem, que se guardem bem os traidores!

--Guardam, guardam... Não vêdes como apenas mostram elles o braço e o punhal?

A esta allusão da formosa dama logo vaticinou o pagem:

--Decerto não falta um vilão que a troco de alguns ducados assassine o principe Dom Luiz!

--Mas que empenho haverá n'isso? Dizei-o, que vôl-o supplica Dom Luiz de Beja!

--Quereis que vôl-o diga em voz clara? Alguma coisa devera aprender no meu officio de cortesão e eu vos direi agora o que sei: vosso irmão o senhor Dom João III não vos estima... antes vos odeia!

--Ousaes assim calumniar el-rei! com animo exaltado replicou o infante. Bofé que, se vos não devesse a minha vida, diria agora que... ensandeceste.

--Rogo-vos moderação, acudiu a dama. Falla o que sente e o que sabe este generoso mancebo. Oxalá sejam imaginarios os seus receios; mas não sei que triste presentimento me leva a crêr que algum infortunio nos ameaça...

Sorriu-se o pagem com essa expressão de interna melancolia que não se descreve nunca. Em seguida volveu-se para o infante.

--Perdão... mil veses perdão se vos offendi! lhe disse.

Abraçou-o o infante com o espirito sinceramente commovido. Descobrira no pagem um tal caracter de franquesa e um certo cunho de verdade que desde logo se lhe afigurou ninguem ser digno de maior estima.

Á primeira vista mostrava-se repugnante a phisionomia do pagem. Predominava n'elle o sangue das raças selvagens do Oriente. Era negra como aseviche a pupilla dos seus grandes olhos e essa pupilla parecia tarjada de um leve circulo de sangue. O nariz era chato alguma coisa e alguma coisa largo das asas; a côr da pelle bastante acobreada e os beiços grossos sem desar. De idade não contava mais de vinte e dous annos, mas na agilidade dos musculos e na vivesa do espirito poucos ou nenhuns cavalleiros o excediam.

Nascera no paiz dos badages e ali fôra, em companhia de seus velhos paes, convertido ao christianismo pela palavra e pelo exemplo de Antonio Criminal. Quando os badages degolaram este malaventurado jesuita foi tamanho o horror que a pobre criança concebeu pelo seu idolo Trichandur que nunca mais quiz lembrar-se do seu paiz natalicio. O vice-rei Jorge Cabral conhecera-o em Gôa, criara-lhe amisade pelas boas prendas que em todo elle descobrira e embarcou-o para Lisboa no seu regresso em 1550.

O pagem, embebido nos perfumes de um ambiente de delicias, agora não se fartava de contemplar a peregrina formosura de Dona Violante. Nunca nos salões da côrte lhe fascinaram os olhos princesa de fórmas tam correctas, de maneiras tam delicadas e conversação mais suave. O terno e melodioso accento com que fallava insinuava-se meigamente nos corações como se fossem harmonias do ceu. Superabundavam-lhe bellesas assim no corpo como na alma. Talvez porque o acaso lhe denegara a nobresa do nascimento, concedera-lhe Deus todas as mil prendas que no mundo servem de apanagio e de cortejo á graça e á formosura.

Dona Violante fez-lhes servir aos seus dous hospedes, em ricas bandejas de prata, alguns doces e licores. Depois, a rogo do infante, passou com agilidade os seus pequeninos dedos pelas cordas de uma harpa e com ternissimas inflexões começou de cantar o bello soneto em que Luiz de Camões define o amor:

Amor é um fogo que arde sem se vêr; É ferida que doe e não se sente; É um contentamento descontente; É dôr que desatina sem doer.

Logo que terminou levanta-se o gentil prior com todo o carinho a apertar-lhe os braços em volta da cintura e com labios de fogo imprimiu-lhe nas rosas do collo um osculo fremente.

--São estas as unicas venturas da minha alma! revelou elle ao pagem. Não vês como ella é formosa? Algum dia te contarei como nasceram estes amores...

III

RECOMPENSA DO CRIME

Acabara de badalejar a meia noite no campanario da cathedral quando na portaria arqueada do memorando collegio de Santo Antão parou um homem de gigantea corporatura.

Vinha embuçado em um capote de fartos cabeções e equilibrava na cabeça um desses negros chapeus com amplas abas e copa sumida em fórma de funil.

Depois de relancear prescrutadoras e desconfiadas vistas, entrou sorrateiramente no alpendre do edificio e dirigiu-se por uma das portas lateraes para um modesto gabinete situado ao rez do chão.

Aguardava-o ali com impaciencia um magro personagem de vestes sacerdotaes e de phisionomia carcomida pela sarna dos annos.

--Então que boas novas me trazes tu? perguntou elle sentado em pobre tamborete de carvalho e desviando os olhos de um livro escrito na lingua latina.

--Não me parecem tão alegres como desejava, regougou o recemchegado.

--Bem mau é isso. Mas conta depressa o que aconteceu, meu Jacobo.

--Pois saiba... saiba vossa senhoria illustrissima que tudo se frustrou por artes do diabo.

--Jacobo, fallas a serio porventura? com preoccupação interrogou o padre.

--Com verdadeira magoa o digo; mas é verdade.

--O que tambem é verdade é que sois todos uns covardes...

--Tudo menos isso, meu senhor. Era elle que vestia a pelle do diabo! A não ser assim, eu por Deus que soubera responder pelo ferro do meu punhal!

--Sempre usaes do mesmo ripanso. Todos vos credes uns fanfarrões e uns Hercules; mas porfim de contas, se é mister que se mostre valentia ou governe com prudencia, sois deveras mais pecos e villãos do que um asno.

--Deve saber vossa senhoria illustrissima que a culpa não foi nossa. Juro que não foi. Esperamol-o a sangue frio e logo, peito a peito como varões honrados, procuramos mandal-o de presente ás megeras do Averno quando os punhaes, em vez de toparem carne de christão, encontram o aço de uma saia de malha... Mas, ainda assim, tudo se remediava á maravilha: como os punhaes eram curtos, puchamos das durindanas em guisa de valentes campeões e em poucos minutos dariamos com meia duzia de cutiladas remate á nossa obra se de improviso se não intromette o demonio em favor d'elle. Um dos nossos cae por terra e os outros... os outros...

--Escusas de confessar que fugiram... provavelmente com temor de lhes acaecer a mesma sorte.

--Não foi o temor, meu padre. Tem vossa senhoria em mim um rude servo que nunca do sitio do perigo arredou pé com medo nem covardia!

--Conheço-te bem, meu Jacobo. Faço justiça á tua valentia e espero que me toleres algum arrebatamento. O pobre velho não sabe o que diz, não sabe o que diz muitas veses... Mas dize-me ainda: que fiseste do companheiro que morreu?

--Á falta de outras virtudes, nunca me arrependi de ser prudente. A estas horas, meu padre, está elle a servir de repasto aos peixes do Tejo.

--És assisado, és assisado na verdade. Toma em paga dos teus serviços e retira-te por hoje.

Atirou-lhe o padre com um punhado de moedas de ouro e o gigante, mirando-as com olhos de cubiça, lançou com prestesa mão d'esse precioso metal que na frase de Tolentino é o _tiranno do mundo_.

--Sempre a vossa senhoria conheci generosidade, retorquiu elle correndo a mão esquerda pela desgrenhada cabelladura. Mas d'esta vez, meu padre, bem sabe que tenho de repartir... Cincoenta escudos[6] é pouco.

--Nem um morabitino merecias ganhar, meu velhaco.

Jacobo afastou-se sem novas replicas e a meia voz foi tratando de combinar a melhor maneira de embair a boa fé do seu companheiro.

--Sempre lhe direi que não recebi mais de trinta escudos, rosnou elle pelo caminho.

Em seguida poz-se a cantarolar aquella sabida canção[7]:

Como no se desespera quien se vê como me veo tan lexos de dó desseo, tan cerca dó no quisiera?

Entretanto o ecclesiastico de Santo Antão esfregava as engelhadas mãos como prova de quem se não julga de todo descontente.

--Do mal o menos, murmurou levantando-se do tamborete. Escapou-nos por hoje, mas nada se descobriu... E que tudo se divulgasse e descobrisse? És muito anão, Dom Luiz de Beja, para ergueres o braço contra a pessoa que te mandou assassinar!

O ecclesiastico fechou o livro e deixou-se cair novamente no meio da sola do tamborete.

--Meu Deus, meu Deus! exclama então com gesto de arrependimento. As tuas doutrinas só respiram humildade e amor; queres que amemos o nosso proximo como nos amamos a nós mesmos; aconselhas o perdão das offensas e o abandono das riquesas do mundo... Mas como renegamos a tua lei e os teus conselhos, Deus meu! Entra uma vez nos seios do homem o veneno das ambições terrestres e esquecem-se bem depressa os deveres da virtude e a salvação das nossas almas. Tudo se esquece e... lá vamos nós, vermes orgulhosos, pelo menos subvertendo nas voragens do crime a tranquillidade do espirito e a saude do corpo!

Abrio mansamente o livro, entregou-se por alguns momentos á leitura d'aquelle salutar capitulo que traz por epigraphe _De consideratione humanæ miseriæ_ e que principia por estas palavras de humildade: _Miser es, ubicunque fueris et quocumque te verteris, nisi ad Deum te convertas._

Seguidamente prostou-se o padre de joelhos e com modos de extrema beatitude fixou os olhos nas taboas do pavimento.

--Eu sei, declamou ainda, que só trabalho para o progresso da religião catholica e em beneficio da santa madre igreja. Mas o meu coração está cheio de magoa, meu Deus. São grandes os meus erros, são enormes os meus peccados!

Decorreram dous minutos de tranquilla meditação e tudo ali, como se fosse o recinto de um cemiterio, permanecia completamente calado. Nem o cicio dos insectos nem as oscillações da pendula dos relogios interrompiam o silencio sepulchral do gabinete.

--Deus de misericordia! por fim proferio o padre batendo por duas veses com os punhos na arca do peito. Meu Jesus de misericordia, guiae-me como bom christão pelo caminho da virtude e fasei com que me não desampare nunca a vossa infinita graça. Eis aqui um grande peccador que, fingindo observar todas as virtudes da religião, encoberta as chagas dos maiores vicios! Eil-o aqui, humildemente offerecendo a cabeça ao gladio da vossa punição!... Mas tende vós piedade de mim; tende piedade de mim, senhor!

Seguidamente lançou mão de um latego de rijos loros e dispôz-se, a exemplo dos mirificos varões de que nos fallam os livros de theologia, a flagellar rudemente as espaduas, os peitos e os rins.

Não desprendia da garganta um unico murmurio de dôr e todavia cada vez com mais força se redobravam os açoutes.

Sempre sereno do rosto e humilde da postura como as figuras de alguns macillentos retabulos da escola flamenga, disciplinava-se cruelmente á maneira do mais exemplar e do mais devoto dos filhos do christianismo. Se deixava de orar é porque as correas lhe açoutavam as carnes do corpo e, se parava com o castigo do latego, é porque em misticas leituras pregava os olhos nas paginas do livro.

Esse livro abrangia mediana fórma e fôra publicado em 1492. Todo cheio de doutrinas religiosas, rescendia das suas bellas paginas os santos olores das folhas do evangelho. Era verdadeiro balsamo para o espirito de um christão e ainda hoje tanto consola o christão como o philosopho. «Admiravel apesar da negligencia do estilo, commove muito mais do que as argutas reflexões de Seneca e as frias consolações de Boeccio. Foi traduzido em todas as linguas e lê-se em toda a parte com infinito gosto. Conta-se até que um poderoso bey de Marrocos o guardava na sua bibliotheca e de quando em quando o lia com inexcedivel prazer[8].» Leitura sempre cheia de uncção e piedade, mereceo do sabio Fontenelle o conceito de «o mais bello livro sahido das mãos dos homens». Modestamente se intitula _De imitatione Christi_.

O padre todos os dias e todas as noites o folheava com beatifica e inalteravel devoção. Todos os dias passava algumas horas lendo-o umas veses silenciosamente e outras em voz alta.

Que mistico e santo apostolo não devia de ser este padre! Quem posesse o ouvido ao ralo da porta da sua pobre cella, ouvil-o-hia pedir com profundo arrependimento aos ceus misericordia para os seus peccados e salvação para a sua alma. Para castigo dos affectos humanos, não se poupava jejuns nem penitencias. Na boca dos irmãos da sua ordem jámais no orbe catholico brilhara jesuita de maiores virtudes. Quando em reverente postura de resa e devoção se collocava defronte do seu crucifixo, logo se poderia tomar por qualquer anachoreta da Nitria. Ninguem á primeira vista o julgara desmerecedor de participar dos mais subidos panegyricos das lendas hagiolicas.

Chegou de Roma em Companhia de Francisco Xavier no anno de 1540. Elle e Francisco Xavier foram do numero dos jesuitas que o embaixador Pedro Mascarenhas solicitara de Paulo III para se dedicarem no imperio das Indias á conversão dos idolatras e ao esplendor da fé catholica. O piedoso navarro decidio-se com Misser Paulo e Francisco de Mansilhas a ir, por suas doutrinas e virtudes, ganhar entre o gentio o glorioso titulo de _Apostolo das Indias_; mas o seu companheiro preferio que el-rei Dom João o galardoasse com a menos obscura e penosa commissão de director do collegio de Coimbra.

Era Simão Rodrigues,--o ladino padre mestre provincial que na sua qualidade de poderoso valido de el-rei julgava prestar mais acrisolados serviços á causa de Deus e ás venturas da patria. É certo que ao benemerito Francisco Xavier deveram as Indias uma das mais heroicas e soberbas paginas da sua epopêa. Eis o que a tal respeito apregoam as trombetas da fama[9]:

«Uma noite, referem as chronicas, os soldados do rei de Achem entraram na praça de Malaca, deram sobre as embarcações ancoradas no porto, queimaram parte d'ellas e ao romper da madrugada retiraram-se em triunfo como se tivessem alcançado uma grande victoria. Encontrando um barco de sete pescadores malaquinos, cortaram-lhes as orelhas e o nariz e com o seu sangue escreveram uma carta prenhe de injurias ao governador Simão de Mello. Accendeu em colera tam cruel insulto os habitantes de Malaca e Francisco Xavier, movido de compaixão á vista dos pescadores mutilados de modo tam barbaro, foi o primeiro a diser que logo convinha vingar a injuria feita á nação portuguesa.

«--Não se deve, accrescentava elle, supportar semelhante violencia. Cumpre embarcar, acodir em seu alcance e tirar todo o desejo de vos insultarem segunda vez. Ainda digo mais: que sois obrigados a isso se não quereis perder o nome e a reputação.

«--Nós assim o entendemos, respondeu o governador, mas faltam-nos as forças. As vossas embarcações estão podres e incapases de servir. Para espalmar as que temos seria necessario mais tempo do que para fabricar outras de novo. De mais d'isso os inimigos são muitos e os nossos alliados não podem soccorrer-nos com tanta promptidão.

«--E não ha outras senão essas difficuldades para superar, senhor governador? lhe replicou Francisco Xavier. Pois bem está: eu tomo a cargo o diligenciar que se concertem as embarcações.

«Voltando-se depois para os officiaes e soldados, lhes disse em voz grave:

«--Deus está pela vossa parte, amigos e irmãos, cavalleiros e soldados de Jesus Christo. Em seu nome vos advirto que arredeis do espirito qualquer temor e medo. Elle vos chama a uma guerra santa. Ou fiqueis vencedores ou vencidos, a palma sempre será vossa!

«Marcha seguidamente para o porto, onde apenas achou sete fustas e um catur á mingoa de tudo o que era necessario para se meterem ao mar. Além disso os armazens reaes estavam completamente vasios. Não havia breu nem resina nem estopa para calafetar as embarcações. Faltavam armas, polvora e outras munições para poderem combater. Recorreu então a sete pessoas abastadas e moveo-as a faser as despesas demandadas pela expedição. Dentro em cinco dias poseram-se as fustas em estado de ir a corso.

«Eram os portugueses ao todo 140 homens e embarcar tambem com elles desejava Francisco Xavier; mas não o consentiram o governador e os habitantes de Malaca.

«O almirante portuguez encontrou no rio Parlés a frota achenina e então, saltando a um esquife, com a espada em punho visita as suas embarcações e proclama aos seus soldados:

«--Filhos de Jesus Christo, lembrai-vos das promessas de Francisco Xavier. Das vossas mãos depende a victoria. Os acheninos não nos podem fugir e agora colherão o castigo devido á sua barbaridade.

«--Todos pelejaremos, responderam os soldados, em defensa da lei de Jesus Christo para se desaggravar a nossa patria e manter-se a nossa gloria. Havemos de vencer. Descançae vós na nossa valentia e no despreso que temos pela morte.»

«O almirante voltou para a sua embarcação e logo se avistou o inimigo que, soltando estridentes gritos, fasia retinir todo o rio. Achava-se disposto em dez linhas e cada linha constava de seis embarcações com excepção da primeira, que era de quatro.

«Deram os inimigos uma descarga com toda a artilharia, mas sem causarem damno algum aos portugueses. Seguidamente os almirantes arremeçaram-se um sobre o outro e ambos disputaram largo tempo a victoria até que a do almirante inimigo foi metida a pique. As outras mais proximas, atravessando para salvarem a gente que nadava, voltaram os flancos para as forças portuguesas. De maneira que essas mesmas embarcações serviam de estorvar as que vinham atraz, porque as da seguinte linha vinham de encontro ás da primeira, as da terceira contra as da segunda e assim de tal modo que se dizia combatiam umas contra as outras. Então os portugueses despediram tres descargas successivas que meteram a pique nove embarcações grandes. Abordando depois ás embarcações acheninas, saltaram dentro e degollaram dous mil soldados. Vendo o resto dos acheninos a sorte dos companheiros, precipitaram-se no rio em procura de salvamento; mas afogaram-se todos.

«Nunca se proclamou victoria mais completa nem que menos custasse!

«Lavrava todavia a consternação em Malaca. Não chegara ainda noticia da frota desde que sahira do porto. Debalde Francisco Xavier se esmerava em socegar os habitantes e podia tanto com elles o medo, que em pouco tempo se persuadiram de ser perdida. Até alguns sarracenos tiveram a ousadia de divulgar como noticia certa que os acheninos a desbarataram completamente. A desconsolação por isso era geral na cidade e todos tornavam a Francisco Xavier a culpa de se perder a frota. O piedoso varão assegurava o contrario; mas ninguem se reconhecia no estado de crer o que elle assegurava. Accusaram-no geralmente de ser a causa de se perderem tantos homens valentes, zombando das preces que por elles fasia a Deus e disendo irrisoriamente que só lhes serviam de suffragio para suas almas.

«Por fim o virtuoso varão declarou ao povo com um profundo convencimento:

«--Deus é victorioso. Nossos soldados triunfam. Estou vendo os de Achem banhados no proprio sangue. O nosso exercito em marcha triunfante deve entrar sexta feira pelo porto de Malaca.

«Chega entretanto Manoel Godinho e confirma tudo quanto fôra annunciado. Torna-se em viva alegria a entranhavel tristesa em que todos estavam. Os ares retiniram com voses festivaes. Divisa-se o praser em todos os rostos. Emfim entra o almirante na sexta feira pelo porto, bem cheio de gloria e carregado com os despojos opimos da batalha!»

[6] Moeda de ouro mandada cunhar por Dom Duarte e depois refundida por Dom Manoel. Valia 1$600 reis.

[7] Obr. de Sá de Miranda.

[8] _Nov. diction. hist._ par une société de gens-de-lettres, art. Kempis.

[9] La Clede. _Hist. ger. de Port._

IV

O FESTIM DE BALTHASAR

Era Francisco Xavier um dos raros exemplos com que os jesuitas poderiam alardear a santidade da sua universal associação; mas quem é que em Lisboa se importava das virtudes do apostolo das Indias?

Por outras differentes rasões se recreava Lisboa com folganças e festejos.

Desde o alvorecer da madrugada salvava com festival estrondo a artilharia do velho castello.

Por todos os angulos do Rocio e do Terreiro do Paço resoavam alegres musicas de atabales e clarins.

Grande parte das ruas e casarias se decoraram vistosamente com galhardetes multicores, bambolins de murta e festões de louro e rosas.

Estavam preparados com sedas e damascos os toldos e os enfeites dos escaleres reaes.

No tope dos mastareus das galeras e bergantins do Tejo viam-se tremular flammulas e estandartes de todas as nações.

É que a côrte portuguesa regalava-se com um dos mais esplendidos dias de gala.

Ao bispo de Coimbra, Dom João Soares, bem como ao duque de Aveiro, Dom João de Lencastre, fôra commettido o honroso cargo de irem buscar a Castella a princesa Dona Joanna e n'esse dia chegava esta guapa noiva á cidade de Lisboa com o mais soberbo acompanhamento de gentis-homens e equipagens que raras veses se vira em terras de Portugal.

Nada pouparam o faustoso Dom João de Lencastre nem o opulento Dom João Soares para se mostrarem com a magnificencia que competia ao seu estado e á sua posição.

Luxo e estrondo por toda a parte. Os mais ricos veludos serviam de fasenda aos elegantes capirotes dos pagens. Eram sedas recamadas de bordaduras de ouro os vestuarios dos condes e dos gentis-homens. Custosos brocados de prata reluziam nos xaireis de centenares de ginetes e no aço polido das armaduras dos arautos e reis de armas reflectia-se o sol com raios coruscantes.

Nunca o povo de Lisboa se recordava de presencear festejos de tanta vista e de tamanho esplendor. Era grande a alegria d'elle por isso. Ao som de confusas charamelas soltava enthusiasticos vivas, e assim em infernal confusão de vivas e descantes cada vez mais accendia os seus enthusiasmos!

Ia-se acoutando o astro do dia nos abysmos do oceano, á mesma hora em que nos reaes paços da Ribeira começou a solemne recepção da princesa castelhana e do seu apparatoso cortejo.