O Cerco de Corintho, poema de Lord Byron, traduzido em verso portuguez

Part 2

Chapter 23,900 wordsPublic domain

Sempre assim meditando silencioso, Alp ao longo da praia os passos move, E com brando rocio a noite o ameiga. Coarctados e sem ésto, aquelles mares Em moto igual ondeão sempiternos, E a vaga que possuem mais furiosa Nem um quarto de geira ao sólo invade; E ou se mostre, ou se esconda, ou mude as phases, Não tem sobre elles influencia a lua: Mansos, tumentes, no alto, na enseada, Do dominio lunar se movem francos. O escolho immovel, descobrindo a base, Olha ao largo, e de balde espera as ondas: Póde ver-se a que o cinge espumea linha, Que em baixo lhe traçou a mão dos évos. Um pequeno areal loureja plaino Entre o salgado leito e o chão relvoso. Pela marina margem vagabundo, Eis Alp assoma dos sitiados muros Desviado não mais que quanto alcança Um tiro de clavina. Como é crivel Que alli não fosse visto, ou que evitasse O golpe hostil? Entre os Christãos acaso Remanecem traidores encobertos? Qual torpor lhes vincula as mãos agora? Qual gêlo os corações lhes paralisa? Tal brandura elle estranha; mas é certo Que de nenhum dos lanços lá do muro Escorva reluzio, sibilou bala, Se bem que tão de baixo agora avulte Dos bastiões minaces que flanqueão Essa porta, resguardo da cidade Pela banda do mar; se bem que possa Quasi as palavras distinguir ferrenhas, E os passos numerar da sentinella, Que sôão, indo e vindo compassados, Pela extensão da sotoposta lagem. Nem os cães, de occupados, lhe latírão! E, magros e famélicos rosnando, Os vê sob a muralha dar-se ao bôdo De sangrentos cadaveres e ossadas: Ei-los que estão da pelle despojando Nest'hora um craneo Tartaro, bem como Nós despojamos o recente figo; E alvejantes lhes rangem os colmilhos Sobre a caveira que inda mais alveja, E que dos queixos lhes resvala, quando Embotados os deixa o roer crebro; Mas vão moendo de vagar os ossos, Se um acaso permitte que não achem Sobre aquelle torrão melhor sustento. Seu antigo jejum quebrou-se á larga Nos guerreiros que alli perdendo a vida, Lhes são manjar em refeição nocturna. Pelos turbantes sobre a aréa esparsos, Alp a flor do seu bando reconhece; Bem nota o verde, o carmesim das telas Com que cingião por costume a fronte; E cada pericraneo off'rece a esguia Madeixa longa, e no demais é raso. Os pericraneos jazem na guela Feroz dos cães, ao passo que a madeixa Se lhes enreda em volta das queixadas. Lá se vê mais além, do golfo á orla, Sofrego abutre contender c'um lobo, Que, das montanhas a prear baixando, Era alli solitario, e não ousava, Dos cães espavorido, tomar parte No amplo repasto das humanas carnes; Mas engole a ração que lhe coubera D'um corsel debicado já das aves, Que da enseada no areal jazia.

XVII.

De tão feio espectaculo insoffrivel Arreda os olhos Alp: elle em conflictos O que era estremecer não soube nunca; Porém não é tão arduo, tão penoso Olhar ao que estendido se revolve Do proprio sangue em fumegante lago, E arqueja entregue á insaturavel sêde E ao vasquejar da morte, quanto é vê-lo Depois que pereceo, e é só cadaver. No momento fatal, um certo orgulho Se desenvolve n'alma do soldado, Lhe adoça o fim cruento: se fenece, Espera reviver na voz da Fama, Ficar bemquisto á Honra, que tem sempre Os olhos fitos no que morre affouto! Mas quando em fim s'esvaeceo tudo isto, Bem misero se sente quem percorre Campo alastrado d'insepultos mortos. Ao ver como da terra surde o verme, Deixa o bruto as florestas, a ave desce, E alli affluem, demandando no homem Todos quinhoar prêsa, e achando todos O lucro seu na decadencia d'elle.

XVIII.

Alli se via derrocado templo: São cinza e longo olvido as mãos que o erguêrão. Inda algumas columnas, e dispersos De marmore e granito mil fragmentos O sólo opprimem, recobertos d'herva. Inexoravel Tempo! e nunca inteiras Deixarás ao porvir obras passadas! Inexoravel Tempo! e has de tu sempre Querer que do passado fique apenas Aquillo que o presente affligir deve; E assim fazer-nos dolorosa a imagem Do que já foi, do que ha de ser um dia! Bem como nós, verão nossos vindouros, Em reliquias d'antigos monumentos, Só pedras que exalçou o homem de barro!

XIX.

Ao pé d'uma columna Alp eis se assenta: Co'a mão comprime a face, e o corpo inclina Como quem se resente acabrunhado D'aterradores pensamentos tetros; A cabeça descahe-lhe sobre o peito Excandescido, palpitante, oppresso; Girão-lhe pela fronte debruçada Os dedos velocissimos, bem como Pelo eburneo teclado os dedos girão De primoroso artista, que em preludios Por ora se entretem, da escôlha incerto. Vergando assim ao pesadume infenso, Crê que ouvio suspirar nocturna brisa. Acaso em lagens concavas murmura Gemido terno de macias auras? Ergue então a cabeça, e o mar observa;-- Repousa o mar, qual cristalino espelho: Contempla esguias hervas;--nada as move: D'onde procederia o som mavioso? Repara nas bandeiras;--quietos pendem No alto do Citherón, quaes os deixára, Inda os hasteados pannos; leve aragem Nem sequer lhe roçou a téz do rosto: Qual do imprevisto murmurinho a causa? Volve-se ao lado esquerdo:--será isto Illusão ou verdade? Ante seus olhos Eis joven dama refulgente assoma!

XX.

Se Alp então visse um inimigo armado Surgir-lhe face a face, não se erguêra Tão abalado de profundo assombro. "Deos de meus pais! que vejo? quem es? como D'hostís fileiras te aproximas tanto?" A mão tremente lhe recusa agora Estampar sobre a fronte essa Cruz mesma Que elle tanto insultou; mas n'este lance Se persignára, se a consciencia sua Lhe não fizesse ver quanto era indigno. Repara, observa a fundo, e reconhece O rosto bello, as engraçadas fórmas: É Francina, essa virgem suspirada Que elle a si pertendia unir consorte! Inda nas faces lhe viceja a rosa, Porém a rubra côr é menos viva. Que é do attractivo d'esses labios meigos? Não mora n'elles o sorrir donoso Que ao rubim dava esmalte. Inda em seus olhos Reside o azul do socegado oceano; Mas se no aspecto bonançoso o imitão, Também o imitão na frieza immovel. Talhe accusão gentil vestes ligeiras; Nada lhe vela o seio luminoso; Soltas d'ebano as tranças, ver não tolhem, Por entre a chuva dos anneis ondeantes, Nivea nudez dos torneados braços. Levanta ao alto a mão antes que falle; E de tal modo branca e transparente Se mostrava essa mão, que poderieis Ver por entre ella rutilar a lua.

XXI.

"O repouso deixei, a fim sómente De vir ao meu amado, e de fazê-lo Feliz commigo, e ser feliz com elle. Por teu respeito entre inimigas turmas Eis movo os passos, e transpuz a salvo Muralhas, portas, sentinellas, tudo. Uma joven donzella, em todo o brio Da nativa pureza, ha quem affirme Que dos proprios leões é respeitada: E o superno Poder que ao innocente Escuda contra o despota dos bosques, Se encarregou tambem de defender-me Do insulto d'infieis confederados; E vim:--se vim de balde, oh! vê que nunca, Nunca mais tornaremos a encontrar-nos! Sei que, abjurando de teus pais a crença, Es réo de crime hediondo; todavia Lança por terra esse turbante, e imprime Sobre a fronte o da Cruz signal divino, E eu de ti folgue na perpetua posse. Eia, o negro labéo expelle d'alma; E pois havemos ámanhã de unir-nos, Não queiras para sempre separar-nos."

"E ao tóro nupcial onde acharemos O apetecido espaço? póde havê-lo Entre montões de mortos e expirantes? Os Christãos, seus altares, quanto é d'elles, Ha de o ferro ámanhã unido á chamma Tudo, tudo extinguir: nenhum mais deve, Senão es tu e os teus, ver nova aurora; Que eu assim o jurei. Mas ser-me-ha doce A mais donosos sitios transportar-te, Onde se enlacem mãos, se olvidem mágoas, Onde tu sejas a consorte minha, Quando abatido de Veneza o orgulho Eu já tiver; quando este braço, que ella Quiz sumir na abjecção, deixe açoutados Com viperino látego os infames Que accendeo contra mim o vicio e a inveja."

Ella pousou a mão sobre a mão d'elle: Foi leve o toque, mas varou-lhe prompto As medullas dos ossos, e entranhou-lhe Pelo imo coração gêlo indizivel, Que nem d'estremecer lhe deixou posses; E este frio mortal, de que se arguia, Removê-lo de si em vão tentava. Oh! nunca, nunca de tão caro objecto Partíra movimento que viesse Com tamanho terror gelar-lhe o sangue, Qual n'esta noite o subitaneo toque D'aquelles alvos dedos alongados. Morreo-lhe em pallidez a effervescencia, Ficou-lhe o coração, qual seixo, immovel, Ao ver aquelle rosto, ai! tão mudado Já de si proprio: bello, mas languente-- Sem vestigio nenhum d'incendios d'alma, Que em cada feição d'elle se espelhavão, Como um dia de sol se espelha n'agua. Anhélito nenhum se unia ás vozes Que lhe escapavão dos immotos labios; Do quieto coração nenhum palpite Lhe sublevava o seio; nada havia Que a rigida attenção interrompesse D'aquelles olhos estacados, fixos. Taes são os do somnambulo, que, em meio D'anciados sonhos, deixa o leito e vaga; Taes, na extensão de apainelados razes, Baças figuras de minaz aspecto, Se ao trémulo clarão as contemplamos D'expirante lucerna, desenvolvem Não sei qual mixto de animado e morto, Com que parecem, aterrando a vista, Ora avançar do tenebroso fundo, Ora entranhar-se n'elle, em moto alterno, Que a seu sabor lhes communica o vento.

"Se por amor de mim tu crês que é muito, Por amor só do Ceo embora o faze: Longe arremessa (inda outra vez to digo) Da fronte criminosa esse turbante, E me promette de não ser infesto Aos filhos da insultada patria tua, Ou es perdido, e despedir-te deves, Não já da Terra--esvaeceo-se a Terra-- Mas do Ceo e de mim, que te fui cara. Eia, cede a meus rogos: vê que abertas Inda te esperão da clemencia as portas; E bem que contra ti grave sentença Fosse já proferida, o rigor d'ella Em grande parte expiará teu crime. Pondera a fundo; e provocar não queiras A maldição d'Aquelle que abjuraste. Ao Ceo inda uma vez levanta os olhos, Vê que a ti mesmo para sempre o fechas. Essa nuvem que esconde agora a lua, Lá vai passando, e passará de pressa: Se, quando rebrilhar o disco inteiro Desafrontado do vapor sombrio, Não revolveo a contrição teu peito, Ficão de ti vingados Deos e os homens: Tremendo fim terás, e mais tremenda Te espera a eternidade dos perversos."

Alp ergue a vista ao Ceo, e reconhece O indicado signal; porém o orgulho Entumeceo-lhe o coração, e o rege Com despotico imperio inabalavel; E esta paixão fallaz que o predomina, É torrente caudal que tudo alaga. Elle implorar perdão! elle render-se A impertinencias de mesquinha virgem! Elle, offendido de Veneza ingrata, Poupar-lhe os filhos, que votou á morte! Não:--embora essa nuvem traga um raio, Embora um raio o esmague:--e inda não trôa?

Sem que a minima voz dos labios solte, Elle fitava ancioso aquella nuvem: Attento a vê passar; fugio de todo: Em seu pleno fulgor se mostra a lua. "Qualquer que seja o meu destino (exclama), Não tenho de mudar: agora é tarde. No meio da tormenta póde a canna Dobrar-se e logo erguer-se, os troncos quebrão. Qual Veneza me fez, serei já'gora; Seu implacavel inimigo em tudo, Excepto na affeição que eu te consagro. Tu pois es salva: oh! vem, meus passos segue." Voltando-se, elle a busca; ella sumio-se: Só o antigo pilar lhe avulta ao lado. Sorveo-a a terra, ou s'esvaío nos ares? Nada elle vio--nada escutou só sabe Que alli nenhum vestigio existe d'ella.

XXII.

A noite dissipou-se, e o sol resplende, Qual se um dia de festa esclarecesse. Eis d'entre bruscos véos pomposa surge Arraiada a manhã d'aureos fulgores, E abrasador promette o meio-dia. Trombetas se ouvem, rufos de tambores, Hórridos sons de barbara corneta, Sussurrar de bandeiras fluctuantes, Relinchar de corseis, tropear de turmas, E o retinir das armas, e o alarido: "Ei-los vem! ei-los vem!" Da terra prestes Descravão-se os pendões equi-caudatos, Desnudão-se as espadas lampejantes, E tudo a entrar em fórma apercebido, Só depende da voz, e a voz já sôa: = Tartaros, e Spahís, e Turcomanos, As tendas abatei, ide á vanguarda, Dai d'espora aos corseis, e na planicie Seja cortado o passo aos fugitivos, Quando estes proromperem da cidade: Não escape nem velho nem mancebo, Que offrecer de Christão qualquer indicio. Entretanto que em massa prepotente Vão sustentar os camaradas vossos A ensanguentada brecha, e entrar por ella. = Já o fogoso corsel remorde o freio, E arquea o collo, e, sacudindo a crina, As redeas tinge d'alvejante espuma: Estão em riste as lanças, e flammejão Accesos os murrões, e em continente O assestado canhão vai despejar-se Com estampido horrísono, e as muralhas, Rôtas em frente, esboroar de todo. Na phalange os Janizaros entrárão: Alp os commanda; e a cimitarra nua No erguido braço nu sustenta e brande. Kans e Bachás fixárão-se em seus postos; E ei-lo á frente da hoste se apresenta Em pessoa o Visir.--Tanto que a senha Troar na disparada colubrina, Tudo em Corintho será ruina e morte: Não ficará um sacerdote ás aras, Nem um chefe no centro das familias, Nem fôlgo vivo que as mansões povôe, Nem sequer uma pedra sobre os muros. "Deos e o Profeta seu! _Allah-Hu!_"--Sobe Té ás estrêllas o feroz ulúlo! "Lá tendes, para entrar, aberta a brecha; E escadas não vos faltão: tambem todos N'essas robustas mãos sustentais armas; E como ha de falhar-vos o triunfo? D'entre vós o primeiro que se affoute Á arrancar a vermelha Cruz hasteada, Póde franco pedir quanto apetece Com mais vehemente ardor: supplique e obtenha." Tal se exprimio Coumourgi, o Visir bravo. Foi resposta o brandir d'espadas, lanças, Com mil acclamações de raiva alegre.-- Silencio!--á senha estai attentos!--fogo!

XXIII.

Como quando esfaimados ruem lobos De chofre sobre o bufalo soberbo, Sem tremerem da tórva catadura, Do mugir fero, do escavar das plantas, Nem dos minaces cornos assestados; E elle ou lança por terra ou ergue aos ares Os primeiros que accessos o acommettem, Mas que no cego arrôjo a morte encontrão: Assim o Musulmano invade os muros, E no impeto primeiro é repellido. Alli rôtos do bellico granizo, Dispersos como vidro espedaçado, Quantos de bronze acobertados peitos Ora juncando a terra, d'onde nunca Se hão de levantar mais! Estão fileiras Inda alinhadas, quaes na queda o estavão; Jaz dos mais destemidos copia grande: Tal, quando o dia é findo, e o labor cessa, Vemos jazer sobre aplainados campos A herva que o segador deixou ceifada.

XXIV.

Bem como, em viva preamar, se observa D'algosos escarcéos batida rocha, E já minada dos diuturnos éstos, Soltar enormes lascas alvejantes, Que com fragor horrísono se abatem, Assemelhando ao torreão de gêlo Que Alpinos valles despenhado aterra: Assim os de Corintho habitadores, A final quebrantados, exhauridos, Forão na ruina atroz precipitados Pelo acintoso impulso recrescente Das cerradas cohortes Musulmanas. Elles insistem firmes, e, na queda, O furor do Infiel os prostra em massa. Pelejão braço a braço, e planta a planta; E nada, excepto a morte, alli é mudo: Impetos, golpes, empuxões, clamores Ou a pedir quartel, ou de victoria. Reunidos ao troar increbescente Dos bellicos trovões, e ao temeroso Estrondo da batalha encarniçada. Lá vão disseminando susto immenso Por longinquas cidades, d'igual modo Que se estivessem sob o golpe infesto, E já dentro o inimigo as depredasse; Não d'outra sorte que se proprio fôra A excitar sensação ou triste ou leda Aquelle som que anniquilar só sabe, E que, varando dos soturnos montes As entranhas durissimas, se expande Em pavorosos écos desusados: Lá os ouvio Megára e Salamina, E, se não exaggera a voz do vulgo, Té na enseada do Pirêo troárão.

XXV.

Em rijo e solto embate retinindo, Sabres, espadas, desde a ponta aos copos, Gotejão sangue; mas entrados forão Os muros já, e eis principia o saque, E apóz elle a feroz carnificina. Rompe dos edificios depredados Medonha confusão de agudos gritos: Escuta quão velozes na fugida Vão pés escorregando em quente sangue, Que as ruas deixou lúbricas: no em tanto Aqui e além, onde o terreno offreça Contra o fero invasor qualquer vantagem, Onde algum lanço de parede ou muro Lhes proteger as costas, então elles, Aos dez, aos doze, em mal parados grupos, Logo alli fazem alto,--alli renovão Desesperada briga audazes, firmes, Ou co'as armas na mão perecem todos. Eis a pé firme um ancião lá surge;-- De cãs lhe alveja povoada a fronte; Porém vigor pujante lhe robora O veterano pulso: não se altera Seu bisarro denôdo, entre o bulicio Do revôlto brigar; tem por trincheira Semicirculo espêsso d'inimigos, Que hoje uns sobre outros apinhava mortos; Ferve em dura peleja não ferido, E sabe retirar-se não cercado. Sob a loriga refulgente esconde Dos certames d'outr'ora as cicatrizes Innumeraveis; que de toda a especie, E o corpo inteiro lhe crivárão golpes. Em despeito d'aquella ancianidade, É de tão ferreos membros, que difficil Fôra d'igual jaêz achar-se um môço: E os inimigos, que empatados tinha, Pullulavão-lhe alli mais numerosos Que as prateadas cãs da fronte altiva; Mas apoucando-os vai a forte dextra. Muitas mãis Othomanas pranteárão Filhos que, quando pela vez primeira Elle a espada tingio em sangue Turco, Inda não erão nados, e hoje expirão Antes de perfazerem lustros quatro. Bem poderá elle ser o avô de quantos N'este dia immolou ás iras suas: Vingando um filho que perdêra ha muito, Vai dos contrarios seus matando os filhos: E desde quando o desvelado joven, Unica prole varonil que tinha, Morreo a combater no undoso estreito Que d'Asia o chão divide do d'Europa, Logo o pai prometteo sacrificar-lhe Sanguinosa hecatombe d'inimigos, Ceifada ao golpear do ferreo braço. Se o morticinio pacifica as sombras, Nem mesmo de Patroclo aos manes coube Júbilo igual ao que sentir devião Os do joven Minotti. Sepultado Ficou seu corpo nas oppostas praias, E ora privados de sepulcro n'estas Cá ficão mil para milhares d'annos. Qual d'elles escapou que referisse Como os outros morrêrão, e onde jazem? Lousa nenhuma os cobre, não lhes guarda Nenhum tumulo as cinzas: entretanto Vivem e vivirão no immortal plectro.

XXVI.

Qual clamoroso _Allah!_--um terço avança De tropa Musulmana a mais affouta, E de pulso melhor: vai-lhe na frente, Nervoso, nu té o hombro, e em moto ondeante Brandindo o ferro, e sobranceiro a todos, Do commandante o braço, que expedito Sabe ferir, e perdoar não sabe.-- Outros embora em mais pomposo traje, D'espolio ao inimigo a sêde ateem; Sejão embora muitos os que empunhão D'aureo lavor custosas cimitarras, Que de nenhuma escorre tanto sangue; Ostentem muitos adornada a fronte De turbantes mais altos, mais airosos;-- Alp é só conhecido por aquelle Braço nu, que branqueja levantado. Ei-lo campea onde mais arde a briga! Não se arvorou pendão sobre estas praias Que mais destro as fileiras anteceda; Jámais, durante a Musulmana guerra, Se despregou bandeira que attrahisse De tão longe os Delhís: sempre o distinguem A lampejar como cadente estrêlla! Onde quer que este braço prepotente Uma vez se mostrou, logo os mais bravos Surdem todos alli, ou tarde chegão; Alli quartel o ignavo em vãos clamores Ao vingativo Tartaro supplica; Alli o heróe, no chão deitado e mudo, Nem quer que quando morre um ai lhe escape, E inda com tibio golpe derradeiro Invade o antagonista, que não menos A par de si prostrou; e bem que expire Tão alquebrado das feridas mutuas, Raivando afferra o ensanguentado sólo.

XXVII.

O ancião, persistindo inabalavel, Oppôr consegue momentaneo estôrvo D'Alp á carreira atroz.--"Cede, Minotti: Salva todos os teus, attende á filha." --"Nunca o verás, vil renegado, nunca! Nem tinha eu de annuir inda que fosse Vida eterna essa vida que me off'reces." --"E Francina!--e a futura minha noiva! Queres, assim teimoso resistindo, Ser tambem causador da morte d'ella?" --"Ella está mui a salvo."--"Onde? em que sitios?" --"No Ceo, d'onde banida para sempre Foi tu'alma aleivosa,--e onde Francina Vive longe de ti, vive sem mancha." Alp, a taes vozes, titubante, anciado, Fica não d'outra sorte que se o peito Lhe traspassasse truculento golpe; E de Minotti despontou nos labios Irónico sorriso de vingança.

"Oh Deos! quando expirou?"--"Inda esta noite; Mas do espirito seu não choro a ausencia, Antes fólgo de ver que cá não deixo D'esta minha linhagem nobre e pura Ninguem que haja de ser misero escravo De Mafamede ou teu. Anda, acommette!" Baldado desafio! Alp é já morto. Ao tempo que Minotti lhe vertia N'aquellas expressões criminadoras Todo o fel da vingança, e que mais cruas Que a propria ponta de buído alfange Ellas varavão Alp, eis vôa o golpe D'um templo não distante, defendido Com incriveis primores de firmeza Por esse dos Christãos ultimo resto, Que tão minguado e d'esperança exhausto, Inda de lá fazia esforços grandes Para o combate restaurar fallido: E antes de descobrir d'onde assestada Lhe foi a lethal bala sibilante, Alp o cerebro tem varado d'ella, E voltea, e vacilla, e cahe por terra: Lampejou-lhe ante os olhos clarão debil, Quando vergou para não mais erguer-se, Ficando apenas palpitante tronco, Que ei-lo envolvido jaz na noite eterna. N'elle indicio não ha que vida inculque, Salvo o tremor dos membros onde o tiro Deixou menor estrago. A ponto acodem, E de costas o estendem: rosto e peito Lhe estão manchados de poeira e sangue, E jorra-lhe da boca o vital fluido, Que as cavernosas veias desampara; Mas não lateja o pulso, não se escuta Nos labios murmurar-lhe o arranco extremo; Nem sequer um suspiro, uma palavra, Um penoso arquejar, lhe assignalárão O transito fatal da vida á morte. Antes que o pensamento levantasse Em súpplica contrita, réo nefando, Se apresenta aos umbraes da eternidade, Sem que ao perdão celeste aspirar possa, E na vida e na morte--Renegado.

XXVIII.

Então d'um lado e d'outro aos ares sobe Espantoso alarido retumbante: Aqui, de regozijo; além, de raiva. Eis de novo travadas em conflicto Espadas de Christãos e Turcas lanças Embatem com furor, mutuão golpes, Estendendo no pó guerreiros muitos. Ousa, de rua em rua e passo a passo, Minotti disputar aos inimigos Qualquer porção restante do terreno Que ao seu bravo commando fôra entregue: Ao lado, a reforçar-lhe audacia e pulso, As sobras tem da guarnição briosa. Resistencia tenaz off'rece o templo, D'onde predestinada veio a bala Que em grande parte despicou Corintho, Morto Alp, o mais feroz de seus contrarios Para alli recuando sem desvio, Deixando diante ensanguentado rasto, E os inimigos encarando sempre, E nunca sem matar vibrando um golpe, O chefe e o seu cortejo, em retirada, Conseguem reunir-se aos que occupavão A sacra estancia: no recinto d'ella Inda lhes cabe respirar um pouco, Das maciças paredes escudados.

XXIX.

Remanso bem mesquinho! Os Musulmanos, De pujante refôrço abastecidos, Borbotando furores e ufania, Tão cerrados, tão férvidos avanção, Que o número lhes tolhe a retirada: Dest'arte se atravancão no caminho Que vai ao templo, onde os Christãos não sabem O que é render-se; e os batalhões infestos Tanto apinhão-se á frente, que, inda quando Lavrasse o susto alli, nenhum podéra Por entre as fortes massas escoar-se: Ou vencer ou morrer lhes era fôrça. Morrem; mas sobre os corpos palpitantes Lhes surgem de repente os vingadores. Que, frescos e raivosos pullulando, As filas, sempre rôtas, enchem sempre; E os Christãos affadigão, extenuão, Violentas amiudando as investidas: E ei-los agora os Infieis assomão Junto ao sacro portal. Por longo espaço A ferrea contextura inda resiste, Inda de cada fresta vôão tiros, Todos bem assestados, mortaes todos; E de cada janella se desatão Em chuveiro as sulfureas alcanzias. Mas já fraqueão as nutantes portas-- Vérgão rangendo os quicios, cede o ferro,-- Lá pendem--lá se abatem já cahírão: Não mais resistirá, morreo Corintho!

XXX.