O Cerco de Corintho, poema de Lord Byron, traduzido em verso portuguez

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Nota de transcrição:

Foi mantida a grafia usada na edição original de 1839, tendo sido corrigidos apenas pequenos erros tipográficos evidentes.

O CERCO DE CORINTHO,

POEMA

DE

LORD BYRON,

TRADUZIDO EM VERSO PORTUGUEZ,

POR

_H. E. A. C._

PORTO. TYPOGRAPHIA COMMERCIAL PORTUENSE. LARGO DE S. JOÃO NOVO N. 12. 1839.

AO ESTIMAVEL ANONYMO.

_Alma prestante, onde reside e impera O Genio da Amizade, Que a luminosa esfera Deixou, para acudir á humanidade, Sumida em pesadumes e agonias, Em feia escuridade! Alma onde o typo eterno não se encobre, E que, n'estes d'egoismo ferreos dias, O instante de ser util só vigias, Sincera, affavel, nobre! Acceita, em oblação a ti votado, Ancioso de agradar-te, este traslado._

Henrique Ernesto d'Almeida Coutinho.

_O TRADUCTOR,_

Para perpetuar a gloria do sublime poeta que tanto enriqueceo a sua patria e o mundo literario com o preciosissimo cabedal de suas producções, bastaria esta de que emprehendemos e agora publicamos a traducção. Sciencia dos tempos e dos costumes, vasta erudição, profundo conhecimento do homem, variedade e magnificência de quadros, fecunda elevação de pensamentos, lustre e vigor de poesia, sobresahindo por effeito da mais acertada e judiciosa distribuição, eis os titulos com que se engrandece este poema, onde lord Byron não houve mister longo espaço para mostrar-se, immortal.

Não é raro tecerem os traductores sobejo encomio ainda a mediocres originaes, quando com estes despendêrão vigilias e desvelos; mas nem por isso receamos que, elogiando a lord Byron, nos accusem de encarecimento ou de leviandade: as suas obras ahi estão bem patentes, e a sua reputação é já colossal.

Todavia, notando a mui sincera affeição que consagramos a tão estremado engenho, ninguem haja de persuadir-se que o avaliamos como isento de toda a mácula. Por certo que lord Byron era homem, e o fragil da humanidade transparece em algumas das suas producções, e ás vezes procura brilhar em detrimento daquella gentil gravidade que mui bem assenta nas Musas, e sem a qual desmentem ellas a sua origem celeste; mas de semelhante desar campea livre o poema que apresentamos traduzido.--Só de passagem mencionaremos um descomedido orgulho nacional[1], um amor á liberdade, que por vezes degenera em fanatismo: estes sentimentos os bebeo o poeta com o primeiro alimento de sua infância, e, quando concentrados em justo limite, são nobres, e longe estamos de criminá-los.

Não menos que lord Byron admiramos os grandes capitães Gregos e Romanos; tambem nas escolas estudamos e traduzimos Nepote, Tacito, Tito-Livio, &c. Todavia os heróes n'essas historias memorados viverão em tempos mui diversos dos nossos, e diversissima foi a sua educação fisica e moral: por tanto o joven enthusiasta hodierno que ambiciona a todo o custo igualá-los, arrisca-se a cometter mil despropositos, e mesmo a ser victima inutil de suas desattentadas proezas. Para morrer com gloria no desfiladeiro de Thermópylas, cumpre, além de haver sido educado em Esparta, ter á frente um Leonidas. A prudencia de Fabio transtornou os planos de Annibal e salvou Roma, conseguindo aquillo mesmo que fôra denegado ás fastuosas e arrogantes ousadias de Sempronio e de Flaminio. Do sacrificio de Curcio, despenhando-se armado e com seu proprio cavallo no boqueirão aberto por um terremoto em certa praça de Roma, que proveito recolhêrão os concidadãos, a patria, ou a especie humana? Curcio era pois um esquentado enthusiasta, ou antes um orate rematado. É indubitavel que a cega ambição de figurar com heroismo Grego ou Romano, associada ao sofrego ardor não sei de que liberdade turbulenta, insidiosa, desmoralisadora, e de mais pernicioso effeito que qualquer desmascarada tyrannia, tem excandescido bom numero de cabeças e avultou de sobejo na mui abalisada revolução de França, que ainda hoje em sangrentas paginas aterra a humanidade.--Talvez o amor que sempre tributamos á verdade nos levou em demasia longe; mas como quer que seja, não cessaremos de confessar que o sublimado engenho de lord Byron nos penetra de admiração, e deixa, ao menos em nosso alvitre, o homem justificado pelo poeta.

Quanto á nossa traducção, sobre diligenciarmos que portugueza fosse, pozemos todo o cuidado em exprimir com clareza os pensamentos do poeta, bem como em não deteriorar-lhes a nativa gala, que antes nos parece mais pomposa n'este nosso fertil e sonoro idioma: entretanto não é por nossa conta que deve correr a cabal decisão na materia, mas sim por conta de mais competentes juizes, que, versados nas duas linguas, queirão dar-se ao trabalho de cotejar o original com a versão.

Entre os nossos traductores poetas, alguns houve que gemêrão sob a ferrenha tarefa de traduzir tragedias e longos poemas verso por verso; mas que resultou de tanta diligencia? o substituirem, pela maior parte, a versos fluentes e vigorosos uma enfiada de semsaborias, de durezas, de enigmas, onde a graça e louçania dos originaes degenera em rugosa e desalinhada velhice. Não negamos que isso tenha cabimento e deva adoptar-se quando nenhum inconveniente o estorva; porém o verter affincadamente poemas inteiros verso por verso, é uma curiosidade que em muitos casos empece á nobre franqueza do estilo, á suavidade do metro, e ao effeito geral dos quadros poeticos. Estamos persuadidos de que deve o traductor de um poema ser sempre fiel á quantidade das idéas, não assim á quantidade dos versos: tal foi o nosso systema de traducção no _Cêrco de Corintho_.

Ardua e mui ardua emprêsa é traduzir poetas; bem o sabemos e experimentamos. Se todavia para traduzir lord Byron de nada mais se carecesse que de estar profundamente penetrado das extraordinarias e sublimes bellezas com que este filho da immortalidade abrilhantou suas obras, então nos lisonjeariamos de apresentar a nossos leitores uma copia digna do original, e preciosa para elles.

[1] Este orgulho se deixa ver bem claro no _Childe Harold's Pilgrimage_, cant. I.º est. 16, onde, entre outros motejos com que o poeta pertende aviltar os Portuguezes, tambem lhes exprobra o serem

_A nation swoln with ignorance and pride._ Nação inflada d'ignorancia e orgulho.

Quererá isto dizer que a Inglaterra é um paiz todo cheio de sabios, e onde o orgulho morre de frio, por falta de quem o aquartele?

O CERCO

DE

CORINTHO.

I.

Longo trilho de seculos exhaustos, Rijas tormentas, bellicos furores, Infestárão Corintho: ella entretanto Persiste em pé, e no alteroso alcáçar Nova conquista á Liberdade off'rece. Nem bramir de tufões, nem terremotos O alvejante penhasco lhe abalárão, Esse lageoso assento, que, em despeito Da decadencia sua, inda parece Não sem orgulho contemplar seu cimo; Esse padrão demarcador erguido Entre os dous mares, que d'um lado e d'outro Lhe estão rolando purpurinas ondas, Que sempre a forcejar por se reunirem, O acatão sempre, e vem morrer-lhe ás plantas. Se o sangue n'estes sitios derramado Desde que n'elles o fraterno sangue Timoléon vertêra, ou desde quando Pelo aviltado despota da Persia Abandonados forão, borbulhasse Da terra que o bebeo no morticinio, Este sangrento oceano sepultára Sob os tremendos escarcéos todo o isthmo: Ou se podessem amontoar-se os ossos Dos que alli perecêrão, surgiria Por entre aquelles ceos abrilhantados A colossal pyramide espantosa, Dando rival á Acrópolis, que as nuvens Se vê roçar co'a torreada fronte.

II.

Eis lanças vinte mil sobre as espaduas Do nebuloso Citherón fulgurão; E em toda a planta do isthmo, sobre as duas Oppostas praias que o ladeão amplas, Se eleva o pavilhão, brilha o Crescente Nas federadas linhas Musulmanas; E o tisnado Spahí desfila em bandos Á vista dos Bachás amplo-barbados; E os olhos podem ver ao longo e ao largo As cohortes cingidas do turbante, Que o promontorio alastrão, enxameão: Lá se ajoelhão do Arabe os camelos, Do Tartaro os ginetes la volteão; Dando de mão á grei, o Turcomano Prestes unio ao lado a cimitarra. Dos bellicos trovões crebro rebombo Té faz emmudecer, de susto, os mares, Profunda-se a trincheira, e muito longe Silvando vôa no pelouro a morte; Sob o peso da bomba assoladora, Soltão-se em pulverento remoinho Os da muralha esboroados lanços; E, do recinto d'ella, eis o inimigo Ás do Infiel intimações responde Com manejo expedito, e fogos destros. Que vão cruzando os empoeirados plainos, E os ares que anuvia o fumo em rôlos.

III.

Das muralhas porém o mais visinho Entre os que punhão peito e mãos á empresa De as converter em ruina, o mais profundo Que nenhum dos da prole Musulmana Nas da guerra artes tétricas, e altivo Qual nunca o foi assignalado chefe Colhendo louros em sangrentas lides; O que voando audaz de posto a posto, D'um feito a maior feito, se avantaja Em destro esporear corsel fumante, Em surdir mais veloz onde arde o p'rigo, Cada vez que ha sortidas ou assaltos; E quando a bateria, em mãos valentes, Resiste inexpugnavel, então mesmo Com exultante aspecto desmontando A dar alento, na refrega, aos tibios; O mais abalisado e o mais recente Da hoste que lucrou n'estas paragens Ao sultão de Stamboul renome egregio; O guia incomparavel em campanhas, Ou solerte assestando o ferreo tubo, Ou manejando a temerosa lança, Ou tufão que rebenta onde ha conflictos,-- É Alp, o Veneziano renegado!

IV.

O renegado de Veneza!--ah! elle De vetusta linhagem primorosa Teve o seu nascimento: todavia, Desterrado a final do patrio ninho, Contra os concidadãos tomou as armas, Em que por elles adestrado fôra; E orna-lhe a fronte rasa hoje o turbante. Depois d'eventuaes destinos varios, Sob a lei que Veneza lhe dictára Se acolheo, como a Grecia, então Corintho; E ei-lo que ante seus muros se apresenta, Inimigo entre os feros inimigos Da Grecia e de Veneza, e trasbordando De resentido ardor, qual excandesce Ao joven convertido a alma orgulhosa, Onde duestos mil accumulados Estão sempre em tumulto, e eternos vivem. Nem por isso com elle quiz Veneza Desempenhar o civico appellido Em que firmava o seu brazão = A LIVRE; = E de São Marcos no palacio excelso, Delatores incognitos lançárão Na _Boca do Leão_, durante a noite. Denuncia atroz de requintados crimes, Que o cobrião de macula indelével: Salvou seus dias pressurosa fuga. Desde esse lance despendia a vida No meio dos combates, demostrando Bem claro á patria o que perdeo no alumno Que contra a Cruz, já supplantada, erguia O soberbo Crescente, e, guerreando, Só vingar-se ou morrer buscava ancioso.

V.

Coumourgi--aquelle que impôz termo aos feitos, O ultimo perecendo, e o mais pujante, Lá nos de Carlowitz sangrentos plainos, Sem magoa de morrer, porém, raivoso, Dos Christãos maldizendo inclitos louros, E d'Eugenio adornando o grão triunfo; Coumourgi--e por ventura a gloria d'este Conquistador da Grecia derradeiro Poderá perecer, senão surgindo Braço Christão que restitua á Grecia Sequer os fóros que gozou outr'ora Por Veneza outorgados? Elle vinha, Já depois de volvidos lustros vinte, Reintegrar a Othomana prepotencia; E, os veteranos seus pospondo agora, Para mandar do exercito a vanguarda Alp escolheo, que a confidencia summa, Arrazando cidades, lhe pagava, E mostrando em façanhas destructoras O seu zeloso affêrro á nova crença.

VI.

A muralha enfraquece: de continuo As Turcas baterias lhe varejão O parapeito e ameias; restrugindo, Sahe de cada canhão a voz do raio: Aqui flammeja, ao rebentar da bomba, Crepitante zimborio; além baquea Este, est'outro edificio derrocado, Sob o espesso granizo d'estilhaços, Que em lufadas volcanicas recresce: Vai resfolgando em rúbidas columnas Voraz incendio, que tão alto sobe, Como sobe o fragor da ruina ingente, Ou solta-se em terrestres meteoros Que vão no ceo esvaecer-se infindos: Mais nebuloso, mais impervio o dia Se torna á luz do sol, co'a mole opaca Do fumo alçado em tortuosos rôlos, Que d'enxofrado horror a esfera enlutão.

VII.

Nem sómente ardor cego de vingança, Que a longa dilação fez mais ferino, Esporeára esse Alp apostatado Á adestrar os guerreiros Mahométas N'arte de abrir a promettida brecha. D'aquelles muros no recinto havia Uma donzella, cuja mão formosa Elle obter pertendia apesar mesmo Do inexoravel pai, que, furibundo, Aos rogos lha negou, quando Alp outr'ora, Chamando-se Lanciotto, o bafejavão Tempos melhores, mais propicios fados; E sem nota e sem crime de perfidia, Aos palacios, ás góndolas levando Alegria vivaz, se assignalava Nos Carnavaes, ou resoar fazendo Sobre aguas do Adria esses descantes meigos Que alvoroçadas de prazer escutão Á meia-noite as Italas donzellas.

VIII.

Que do seu coração já possessora Não fosse a virgem, suspeitavão muitos; No em tanto d'infinitos requestada, E a nenhum acolhendo, persistia De todo o laço conjugal isenta A juvenil Francina: e desde o instante Em que das Adriaticas paragens Se retirou Lanciotto a pagãos climas, O sorriso expirou nos labios d'ella; Meditabunda e pallida tornou-se; Confissões amiudava, e já não era Tão vista em mascaradas e assembleas; Ou, se lá ia, os olhos seus descidos Avassalavão, n'um volver furtivo, Mil corações de balde suspirosos: Nenhum objecto contemplava attenta; Não punha em atavios tanto apuro, Nem já tão terno desprendia o canto; Seus passos, bem que leves, o erão menos Que os dos parceiros seus, a quem na dança Colhia absortos o raiar d'aurora.

IX.

D'um sólo aos Musulmanos arrancado, Quando a soberba lhes calcou Sobieski Ante os muros de Buda, ás margens do Istro; D'um sólo que depois Veneza altiva Empolgou com violencia desde Patras Té a Euboica enseada, o regimento, Por ordem sup'rior, tomou Minotti; E de Corintho na torreada estancia Já elle era do Doge o delegado, Quando os olhos da Paz fagueiros, pios, Depois da larga ausencia, confortavão C'um sorriso dos seus a Grecia sua, Inda não rôto esse armisticio trêdo Que ao jugo anti-Christão a subtrahia. Entrou Minotti alli co'a filha amavel; E desde o tempo em que a formosa Helena, Deixando o esposo e a patria, fez ver quantos D'um illicito amor desastres brotão, Nunca estas praias adornou belleza Digna de comparar-se á da estrangeira.

X.

Em crebros boqueirões abre-se o muro; E sobre as ruinas da alluida mole Vai, á primeira luz, desenvolver-se Assalto mais que todos formidando. Tropas enfileirarão-se; escolhidos Forão para formar toda a vanguarda Tartaros e Othomanos; e vós outros, Flor dos guerreiros, a quem foi sem causa Imposto o sobrenome de _perdidos_, E para quem a morte e riso, é jôgo; Vós, que co'alfange em punho abris caminho, Ou de vossos cadaveres juncando A que o braço rompeo vereda honrosa, Sois marmoreo degráo, por onde affoutos Os socios trepão,--morrereis mais tarde!

XI.

É meia-noite: a fria lua ostenta O disco inteiro, e amplo fulgor diffunde A contrastar co'a sombra das montanhas; Traja d'azul o mar, d'azul se veste O firmamento, este suspenso oceano, Todo cravado d'ilhas que refulgem Lá tão remotas, com ardor tão vivo: E quem, quem póde attento contemplá-las, E repascer depois os olhos tristes No valle dos mortaes, sem que apeteça Voar e unir-se para sempre a ellas? Dormem as ondas, n'uma praia e n'outra, Placidas e ceruleas como os ares; Só de leve as areas roça a espuma, Com murmurinho igual ao d'um regato. Os ventos se recostão sobre as ondas; E das hastes ao longo quietas pendem, Em pregas conchegando-se, as bandeiras, Que remata arci-fúlgido Crescente. Nada interrompe esta mudez profunda, Senão além a voz da sentinella Reproduzindo a senha, ou lá mais longe Relincho de corseis agudo e crebro, Ou écos que respondem dos outeiros, Ou da hoste bravia o rumor vasto, Que semelhante ao de agitadas folhas Alongando-se vai de praia a praia, Ou preces usuaes que á meia-noite Levanta o Muezzin, rasgando os ares Co'a lamentosa garganteada lôa, Qual 'spirito que vaga na planicie: Melódicos accentos, mas prantivos, Quaes os produz o vento, que, passando, Encontra as cordas de sonoras harpas, E extrahe descompassadas harmonias, Que não conhece o menestrel mundano. Este som se affigura aos sitiados Grito agoureiro da infallivel queda; Elle fere no ouvido aos sitiadores Como indicio aziago e pavoroso, Repentina toada indefinivel, Que os corações lhes paralisa agora, E logo os faz pulsar mui apressados, Co'a vergonha de haver surdido n'elles Tão desusada sensação furtiva: Dest'arte o sino apregoador da morte Nos sobresalta de repente ouvido, Inda que seja em funeral d'estranhos.

XII.

Calou-se o som, a rogativa é finda; As sentinellas em seus postos velão; Foi a nocturna ronda percorrida, E em tudo as ordens satisfeitas todas. Tem Alp o seu tentorio sobre a praia, E em ancias vai curtir inda esta noite; Mas bem póde a manhã suavisá-las, Na fruição das vantagens tão copiosas Com que o amor e a vingança hão de reunidos Demora indemnisar tão prolongada. Horas poucas lhe restão, e carece De repousar, por que expedito esteja Ás proezas da crástina matança: Mas baralhados, quaes estuantes vagas, Os pensamentos lhe reluctão n'alma. Sem repouso e só elle em todo o campo; Nem sente o coração entumecer-lhe Fanatica vangloria blasonante De ver pelo Crescente a Cruz calcada, Ou de vender seus dias mui baratos, Seguro de gozar no paraiso O sempiterno amor das Houris bellas; Nem se sente abrazar d'aquelle austero Patriotico ardor que de bom grado Supporta árduas fadigas, verte o sangue. Quando peleja sobre o chão nativo, Elle não era mais--que um renegado. Ora verdugo da trahida patria; Elle não era mais que um peito forte, Um braço acreditado entre o seu bando. Seguião-no, por que era valeroso, E já lhes grangeára espolio grande; Davão-lhe acatamento, por ver quanto Elle sabia captivar do vulgo As vontades, e arteiro dispôr d'ellas: Mas nem por isso lhe entejavão menos O Christão nascimento: inveja influe-lhes A propria fama atreiçoadora que elle Ganhára sob um nome Musulmano: De qualquer modo, esse esforçado chefe Vil Nazareno foi na juventude. Não lhes era sabido té que ponto É capaz de curvar-se o orgulho, quando Murcho e aviltado o pundonor baquea; Não lhes era sabido quão violenta Chamma voraz em corações se accende Que de meigos tornarão-se bravios; Ignoravão qual zêlo de vinganças Refalsado e fatal se gera e cresce D'um convertido n'alma. Elle os regia: Póde um homem reger outros peores, E de ser o primeiro gloriar-se. Taes os leões sobre o jakal dominão: Destro o jakal espia e abate a prêsa; Mas, no apertão da rugidora turba, Da-se por pago, se devora os restos.

XIII.

A cabeça lhe ferve, e apressuradas As arterias palpitão-lhe convulsas; D'um lado e d'outro volta-se, baldando Modos de repousar; e se dormita, O som mais leve, o mais pequeno abalo Prestes o acordão angustiado em dôbro. A fronte excandescida lhe molesta Hoje o turbante, e, nem que plumbea fosse, A loriga lhe pesa sobre o peito, Se bem que tanta vez, e a somno solto, Sob esse mesmo pêso repousasse, Tendo apenas por leito um chão saibroso, E por docel o firmamento apenas, Leito e docel quaes ao guerreiro a noite Agora os deparou. Elle nem póde No seu tentorio adormecer, nem quieto Esperar que desponte a luz diurna, E eis vaga ao longo da arenosa praia, Alastrada de tantos que repousão. Quem os acalentou? e por que causa Ha de elle só velar, despossuido D'um bem que logrão rasos subalternos, A quem cabe arrostar maiores p'rigos, E lidas superar mais affanosas? Mas ah! que um sonho animador lhes pinta Os lucros todos do futuro espolio; E em quanto mil e mil passão dormindo Esta que a noite extrema é talvez d'elles, Alp, em vigilia atroz, vaguea anciado, E lhe é alvo d'invejas quanto encontra.

XIV.

Vai na aprazivel fresquidão da noite Achando refrigerio ás ancias d'alma. Relentoso ora o ceo, bem que tranquillo, As affogueadas faces lhe aspergia Com brando orvalho. Apóz lhe fica o campo; De fronte lhe serpea, derramado Em crebros surgidouros e enseadas, O golfo de Lepanto; está-lhe á vista A de Delphos montanha sempiterna, Onde os gêlos accrescem, brilhão, durão, De mil estios affrontando a ardencia, Campeando no golfo, e serro, e clima, Sem que os dissolva, como a nós, o Tempo. Desapparecem o tyranno e o servo, Improprios a aguantar fulgente raio; Mas este véo deslumbrador e fragil, De que vês envolvido o monte excelso, Quando torres baqueão, jazem troncos, Lá brilha sempre no empinado alcáçar; Pileo na fórma, nuvem no elevado, Na côr e na amplidão lançol funereo, Erguido a designar que a Liberdade Se ausentou da mimosa estancia sua, E hoje languida jaz no mesmo sólo, Onde foi largos tempos escutado Seu profetico ardor em aureos versos. Oh! que de quando em quando inda lá sôão Os passos seus sobre arescentes campos, Sobre tantos altares demolidos; E ella, um a um mostrando aquelles restos Abonadores da passada gloria, Alentar busca os animos prostrados: Porém de balde bradará, em quanto Não despontar n'um coração preclaro Destimidez possante, toda accesa Ao clarão d'esses dias que luzírão Sobre a fuga do Persa, e que risonhos O intérito arrostárão do Espartano.

XV.

Inda que fugitivo e criminoso, Alp admirava as inclitas virtudes D'esses tempos heroicos; e esta noite, Em quanto vagueava, e na memoria O presente e o passado revolvia, Apreciando as mortes gloriosas Dos que em defensa da genuina causa Seu sangue alli vertêrão, mui bem sente A que ponto é fallaz, mesquinha, obscura Quanta fama lucrou d'um bando á frente, E, nefario traidor, brandindo a espada Entre as turmas cingidas do turbante, Que raivoso guiára a injusto assedio. Onde era em cada prospero successo Não menos computado um sacrilegio. Taes não lhe mostra a fantasia os chefes, Por quem aquelle pó que o circumdava Fôra illustrado, e que as phalanges suas Perfilavão no plaino, não de balde Então de baluartes guarnecido. Estes morrêrão escudando a patria, E eternos vivem no fulgor da gloria: Suspirar-lhes alli os nomes gratos Inda parece a brisa; alli seus feitos Sôão no murmurinho das correntes; Povôa seu renome aquelles campos; O pilar taciturno, ermo, alvacento, Demanda aos sacros vultos alliar-se; Os espiritos seus em tôrno girão Dos fuscos serros; a memoria sua Toda se espelha no cristal das fontes; O arroio humilde, o caudaloso rio Perennes fluem co'a perenne fama Dos estremados campeões sublimes. Por mais que a opprima um jugo, é esta sempre A patria d'elles, e a mansão da gloria! A Grecia!--ha de levar sempre este nome Um som despertador ao Mundo inteiro. Varão que aspira a perpetrar façanhas, Lá põem na Grecia o fito, e abjura as normas Que sómente os tyrannos sanccionárão; Para lá olha, e se arremessa aonde Conquiste a Liberdade, ou deixe a vida.

XVI.