O Carrasco de Victor Hugo José Alves

Chapter 9

Chapter 93,970 wordsPublic domain

É o traslado da querela que deu em 1821 contra Marianna Elisia, mulher solteira, um Manoel Rodrigues, padeiro na Travessa do Secretario da Guerra, queixando-se de ter sido roubado em objectos de ouro e diamantes no valor de 848$000 reis.

Vem depois um attestado do solicitador de causas Antonio Gamarra, passado em 1838, certificando que Marianna Joaquina da Conceição Elisia, concubinaria do padeiro em 1821, era a mesma que, desasete annos depois, se chamava D. Marianna Joaquina Franchiosi Rolem Portugal, e vivia na rua da Emenda, onde tinha carruagem propria.

Accresce outra attestação do prior de S. Nicolau Francisco do Rozario e Mello, datada em 1839. Jura elle _in verbo sacerdotis_ que, no anno de 1827, apparecêra no cartório da egreja de S. Nicolau uma mulher de capote dizendo que pretendia se lhe baptizasse um menino filho de paes incognitos, e que trazia procuração do desembargador Ferraz para ser padrinho; mas, no acto de lançar o competente assento no livro, ella observára que, sendo verdadeiramente padrinho quem tocava no menino, melhor seria não designar elle prior como padrinho o dito desembargador, mas sim o portador da procuração. Attesta mais o padre que, volvido algum tempo, appareceu no mesmo cartorio uma senhora ostentando grande personagem pela tafularia dos vestidos e carruagem de que apeara, e disse chamar-se D. Marianna Joaquina Portugal; mas declara o prior que logo reconheceu ser a mesma que solicitara o baptismo já referido. E declarou a dama que tinha havido um filho do desembargador Ferraz, o qual menino ali fôra baptisado como filho de paes incognitos. Acontecendo, porém, ter proximamente fallecido o desembargador, ella pretendia que no assento baptismal de seu filho se declarasse o nome do pae. O padre recusou-se, sem que a competente auctoridade o auctorisasse. Dias depois, voltou a mesma senhora com uma ordem do vigario geral, o desembargador José Gonçalves Pereira, mandando proceder o prior ás diligencias necessarias para averiguar se o menino Francisco era filho do desembargador Ferraz. Em observancia de tal mandado foi o prior a casa de D. Marianna de Portugal, e ouviu o depoimento de tres mulheres; todavia, no dizer do padre, as testimunhas eram tão discordes nas circumstancias, que nenhum credito lhe mereceram. E acrescenta que tendo elle despedido um preto seu criado, o preto entrou no serviço de D. Marianna de Portugal; e, voltando para casa d'elle prior, declarara que na casa, d'onde sahira, havia um menino comprado para herdar d'um homem rico e fallecido.

Temos agora outra attestação, que vae integralmente copiada:

_José Joaquim do Cabo Pinto, commendador da ordem de S. Bento de Aviz, tenente coronel de cavallaria, governador do Forte da Cruz Quebrada. Attesto que D. Marianna Joaquina Franchiosi Portugal, hoje intitulada Rolem, talvez por se ter naturalisado franceza, tem sido heroina sem egual, como é notorio n'esta cidade, querendo-se intitular fidalga, sendo filha de um moleiro de Azeitão, por nome Euzebio, a quem fugiu com um official de Marinha, vindo assistir para o pé da Fundição; dizem que depois cazou com um sombreireiro, que a deixou e fugiu; tomou uma caza na rua dos Douradores, a que deu o nome de hospedaria, aonde iam os figuroens com as suas amasias, e por isso adquiriu grandes conhecimentos, dos quaes soube tirar partido, sendo seus apaixonados Luiz da Motta Fêo, o Barrão, coronel de milicias, Antonio Sicard, tenente de cavallaria que morreu na Torre de S. Julião, e um Rego, e a final o desembargador Ferraz que lhe poz carruagem, e ella largou então a hospedaria, e veio morar para o Carmo; mas, indo todos os dias á Travessa de Pombal a caza do tal Ferraz, que morreu quasi de repente, apoderou-se de um bahu em que elle tinha os seus papeis; e, por temer que lh'os procurassem em caza, foi morar ao pé do Paço de Bem Formoso, e metteu-se depois a protectora de pretendentes, alcançando muitas coizas pois era protegida do ministro da fazenda D. Diogo Lousan; passou a ser espia de D. Miguel, a quem ia fallar um dia sim outro não, quasi sempre, e por isso contrahiu grande amisade com o Vadre. E, como receasse a chegada do snr. D. Pedro a Lisboa, se naturalisou franceza, pois sei a quem ella mostrou a carta de naturalisação; isto era para jogar com um pau de dous bicos. Finalmente é heroina do seculo, como é notorio. E, como me consta haver uma cauza que a dita propoz ao snr. F... na qual diz que uma menina que tem em caza é filha do tal F... declaro pela presente que ainda que ella fosse sua mãe propria, era impossivel saber se...[4] Mas é constante por ella o dizer ás suas amigas que a menina era sua afilhada, e a tinha tomado por a mãe ser pobre; mas agora no seu proceder se conheceu o fim para que a tomou... etc. Lisboa 5 de julho de 1838._

Agora são duas senhoras que véem quebrar a dureza do quadro com as mimosas feminilidades dos seus dizeres. A snr.ª D. Maria Leonor da Cunha Saldanha, solteira, diz em 1838 que conhecera D. Marianna de Portugal em 1831 e 1832, a cuja casa ia; e vendo então uma menina de peito lhe perguntára de quem era. Primeiro, D. Marianna respondera que era filha d'uma mulher que a declarante via por lá; e, passados mezes, dissera que aquella menina era sua filha e do snr. D. Miguel, intitulado rei n'aquelle tempo.

A snr.ª D. Joanna Candida da Silva Monteiro, viuva, diz que conhecera entre 1817 e 1818 D. Marianna Elisia, criada de M.me Chapsal. Sabe que ella depois teve amisade com um padeiro, e depois com Luiz da Motta Fêo, e depois com o desembargador Ferraz; e que uma menina que tem em casa, e conta hoje de seis para sete annos, por nome Maria José, lhe disse ella que era sua afilhada. Declara mais D. Joanna que conhecia a pessoa contra quem depõe por ter sido ella depoente sua costureira, depois que, na ausencia de M.me Chapsal, a sua antiga criada, já n'outra posição, ficára senhora da casa.

Eis muito compendiada a substancia do opusculo que D. Rozenda entregou ao filho.

Victor Hugo empeçonhou a segunda edição do libello com prefacio e notas, para fazer bem sensivel que a filha de Marianna era a logrativa luveira da Rua Nova da Palma, feita por obra e graça dos seus olhos feiticeiros condessa de Baldaque.

O folheto, impresso clandestinamente, espalhou-se pela posta interna. O conde e a esposa receberam exemplares em duplicado. Foi ella quem os recebeu e descintou, á hora em que seu marido não estava em casa. Leu as primeiras paginas, e já pouco percebeu do affrontoso attestado do tenente coronel de cavallaria. O sangue, regorgitando-lhe do coração anciado, estuou-lhe no cerebro. Escurentou-se-lhe a vista, não por lagrimas, mas pela treva da congestão que lhe deu receios da morte. A attribulada senhora ainda chamou a brados a sua amiga Ernestina Tavares, lançou-se-lhe nos braços já esvahida, e balbuciou ainda:

--Que Raul não veja...

Alludia ao folheto que ali estava cahido no pavimento; mas Ernestina, sem attentar no folheto nem ponderar as inintelligiveis palavras, rompeu em altos clamores, mandando todos os criados procurar o conde.

Já elle subia accelerado as escadas, perguntando a Damião Ravasco se o correio da posta interna havia trasido alguns papeis.

--Trouxe dois folhetos;--disse o mulato--um para V. Ex.ª e outro para a senhora condessa.

--Que desgraça!--murmurou o conde.

É que elle, entrando em casa do seu banqueiro, vira sobre a escrivaninha um folheto ainda cintado, e lera nas margens onde não chegava o papel sobrescriptado as palavras _Marianna_ e _Portugal_. Pediu licença para abrir o folheto, leu salteando algumas linhas de cada pagina, e sahiu precipitadamente no intento de impedir que a condessa visse os insultos a sua mãe.

Entrou ao quarto onde Ernestina escutava a agitada respiração da condessa.

--Ella leu o folheto?--perguntou o conde.

--Não sei que folheto V. Ex.ª diz... Eu ouvi-a gritar, corri logo, e achei-a n'este estado. Ainda me disse não sei que palavras que mal percebi...

A este tempo, Damião Ravasco, esquecido do respeito usado com a ante-camara de seu amo, tinha tambem entrado, e erguido do chão o impresso. O conde, que transportára nos braços a esposa para o quarto inferior, não reparou no mulato que ficara lendo o folheto. Quando, passados dez minutos, voltou para mandar procurar um medico, achou Damião a lêr.

--Quem te chamou aqui?--perguntou com azedume.

--Vim eu, snr. conde--respondeu serenamente o mulato.--Estava aqui a vêr quem é que fez isto... Ha de dar-me licença de levar este folheto... Quem o escreveu, dou-lhe a minha palavra de honra, juro-lhe pela alma de seu pae, que não torna a escrever outro. Diga-me, pela memoria de sua mãe, e pela vida da snr.ª condessa lhe peço que me diga quem escreveu isto?

--Não sei, Damião...--respondeu o conde reconhecido ao zelo e vehemencia dos rogos do mulato--Nós o saberemos... Vae chamar medico... Não te demores.

O medico não tardou; mas Damião Ravasco só entrou noite alta. Dizia-se que um mulato, com o fogo do inferno nos olhos, andára perguntando de typographia em typographia se um folheto que mostrava tinha lá sido impresso. Parava á beira dos grupos e imaginava que poderia descobrir rasto por onde fariscasse o auctor do folheto. Estacára no Chiado em frente do deputado da sova memoranda, a vêr se poderia, com mais ou menos justiça, escorchal-o contra um frade de pedra. Offerecêra dinheiro grande a uns agentes da policia que lhe descobrissem a victima. E nestas diligencias que lhe queimaram o sangue e centuplicaram os demonios do máo genio, andou Ravasco todo o dia e grande parte da noite.

Quando chegou a casa foi muito ás surdas até á porta dos aposentos do conde. Escutou e ouviu passear na ante-camara. Bateu de mansinho. O conde sahiu á saleta.

--Como está a senhora?--perguntou Damião.

--Está com febre.

--Não descobri nada--voltou o mulato.

--Não descobriste o quê? que procuravas tu?

--O auctor do papel.

--Prohibo-te que faças taes indagaçoens. Eu o saberei; mas, se o souber, prohibo-te que me vingues. Se o infame não puder ser castigado por um homem de bem sêl-o-ha por um lacaio; mas não por ti que és... meu irmão...

Damião dobrou os joelhos, e cobriu de lagrimas as mãos do conde.

XV

A PROLE DE D. AFFONSO VI

Para vós verdes como coisa nenhuma é encoberta.

BERN. RIB., Menina e Moça, cap. XII

Aquelle folheto, impresso em 1840, explica tres annos de angustias dilacerantes que levaram Marianna Rolem de Portugal ao extremo desafôgo do suicidio, ao ver-se desvalida das pessoas que se pejavam de conviver com a mulher infamada, e de mais a mais empobrecida.

Mas quem era Marianna Joaquina Franchiosi Rolem de Portugal?

Que havemos de inferir dos attestados reimpressos por conta de Victor Hugo?

É a filha aventureira do moleiro de Azeitão? Fugiu d'alli com um official da armada?

É a criada da franceza Chapsal?

É a infiel contubernal do padeiro Manoel Rodrigues?

É a supposta parturiente do menino Francisco, e a indigitada amante de D. Miguel?

Donde lhe veem aquelles appellidos? Quem a levou a Joaquim Euzebio para que a creasse?

Vamos derivar a resposta de tão justa curiosidade desde 1661.

Onde isto vae!

A historia patria, que o leitor conhece impressa, não lhe refere que D. Affonso VI, á volta dos dezoito annos, viu em Lisboa, nas circumvisinhanças de Queluz, uma rapariga muito formosa, pelo braço de um mancebo de boa figura. Encarregou o valido Henrique Henriques de indagar quem fosse a galante menina. Descobriu-se que era Catharina Arrais, natural de Coimbra, donde fugira com seu primo, Manoel Arrais, estudante, a fim de se casarem em Lisboa, logo que obtivessem dispensa de parentesco e remoção de outros impedimentos canonicos attinentes ás fragilidades da sua céga paixão.

Sabido isto, e a residencia dos profugos amantes, estava sabido tudo. Manoel Arrais foi preso e conduzido a Coimbra. Catharina, na noite d'esse dia, foi assaltada no seu esconderijo por um tal Agostinho Nunes e por Henrique Henriques de Miranda que a levaram ao rei.

Dois annos depois, Catharina Arrais era freira em Santa Anna, e Manoel Arrais era fallecido de dôr.

Antes, porém, de ser dada como esposa a Jesus Christo, houvera Catharina uma filha de Affonso VI, a qual se chamou D. Luiza de Portugal.

Esta D. Luiza, quando prefez seis annos, foi transferida a casa do famoso estadista conde de Castello Melhor, onde recebia tratamento de alteza.

Aqui se deteve com honras de infanta até ao anno de 1667, em que o pae já estava preso á ordem do principe seu irmão. Mas um dia o corregedor da côrte entrou á força no palacio do marquez, apoderou-se de D. Luiza de Portugal, e levou-a para o mosteiro de Santa Anna.

Soror Catharina recebeu sua filha, pensionada pelo infante, com a declaração de que sua alteza não a reconhecia como sobrinha; mas a protegia como desgraçada victima da libertinagem de seu augusto irmão.

Vejamos agora o que se fez para destruir as conjecturas de ser filha de D. Affonso VI aquella menina. A historia impressa não o diz. Ha manuscriptos que nos elucidam; e um, que possuo com a maior estimação e de nenhum modo suspeito, vae referir-nos a villissima traça que teceram os partidarios da rainha e do infante para desfazerem a embaraçosa hypothese da fecundidade do filho de D. João IV.

O manuscripto intitula-se: _Vida de el-rei D. Affonso VI, escripta no anno de 1684_.[5]

Dava que pensar e receiar a crença publica de existir a filha do rei. O processo do divorcio, fundamentado em rasoens de torpissima deshonestidade, tropeçava n'aquella menina. O procurador da rainha, duque do Cadaval, refere o expediente que lhe desatravancou o passo. Sobeja malvadez onde a imaginação coxêa no enredo. O homem escreveu isto para a posteridade, e talvez vaidoso de engenhar o capitulo d'uma novela ao sabor do tempo. Conta elle: «Offerecia-se ao duque uma grande duvida do bom successo da causa (_o divorcio_); porque dizia que era impossivel, tendo el-rei uma filha em casa do conde de Castello Melhor, chamada D. Luiza e com tratamento de alteza. Achando-se este negocio com esta grande duvida, Deus, que é a mesma verdade, foi servido de buscar os meios de se descobrir e averiguar com toda a certeza.

Recolheu-se um dia ao jantar para casa; achou na mão de um criado seu, um escripto que ali tinha deixado um moço. Dizia elle: _Se V. Ex.ª quer saber um negocio muito importante para a cauza da rainha com que V. Ex.ª corre, ache-se á noite no seu coche, só, ás escadas do Loreto, de sorte que espere n'aquelle logar o sino da meia noute._ E não se assignava o escriptor. Logo foi o duque á Esperança,[6] e, mostrando o escripto á rainha, lhe disse ella que de maneira nenhuma queria que fosse, por que aquillo podia ser de grande perigo. Respondeu-lhe o duque que havia de ir, e que deixasse sua magestade á conta d'elle a segurança.

«Reedificava-se a egreja do Loreto do incendio que havia padecido. Tinha no adro um grande telheiro a cujo abrigo trabalhavam os officiaes da obra. Mandou o duque metter n'elle o capitão de cavallos Manoel Travassos e o de couraças Manoel Caldeira, ambos de grande valor. Acompanhavam aos capitães quatro creados do duque, todos valorosos e bem armados com ordem de que, se vissem mais de que uma pessoa, sahissem do logar onde estavam. Foi o duque áquelle logar assignalado esperar a meia noite. Eis que chega ao estribo do coche uma mulher embuçada; e, perguntando ao duque se a conhecia, o duque lhe respondeu que não; e ella lhe tornou que era D. Anna Saraiva, que havia muitos annos o duque a vira e lhe fallara muitas vezes; e disse-lhe o duque que entrasse no coche, e que fossem até á Cotovia, que era parte mais solitaria.

«Disse-lhe D. Anna Saraiva que lhe queria mostrar como uma menina, que estava em caza do conde de Castello Melhor não era filha d'el-rei, posto que tractada por tal. Perguntando-lhe o duque como o sabia, lhe contou toda a historia, e disse que, morando Agostinho Nunes nas cazas do armeiro-mor, a convidou para ir ver botar uma náo ao mar; e que alli vira uma moça bem parecida, descorada e com o cabello cortado; e que, perguntando-lhe algumas cousas a fim de saber quem era, e que vida era a sua, lhe respondeu que as más cores do seu rosto eram effeito da sua dor, e os cabellos lhe haviam sido cortados pela mão d'el-rei. Foi D. Anna, que era destra, inquirindo a môça, até que esta lhe manifestou sua desgraça, e disse que se chamava Chatharina Arrais; e, galanteando-a Manoel Arrais seu primo em Coimbra, viera para Lisboa com animo de casar com elle; e que, morando em umas cazas com o dito seu primo, a foram furtar uma noite Agostinho Nunes e Henrique Henriques, e a levaram ao paço, e pernoitou na camara de el-rei: que seu primo morrera de magua em Coimbra, e ella fôra para casa de Agostinho Nunes, onde se achava, e fôra obrigada a dizer, quando desse á luz, que a creança era filha d'el-rei; e sobre isso lhe fizeram grandes tyrannias até chegar el-rei a cortar-lhe os cabellos. Disse mais D. Anna Saraiva que D. Catharina Arrais estava freira em Santa Anna, e que ella lhe fallara, e estava resolvida a vingar-se, declarando a verdade. Chamou o duque a Agostinho Nunes e em presença de Duarte Ribeiro foi inquirido e disse a verdade. Resolveu-se o duque a ordenar a Aurelio de Miranda, tabellião de notas, fosse ao campo de Santa Anna, perto da egreja, e alli esperasse recado d'elle duque; o qual deixando Augusto Nunes no seu coche, mandou dizer á prelada que quizesse fallar-lhe; e, vindo a prelada, lhe disse que tinha que fallar com Catharina Arrais, e sua mercê lh'a mandasse á grade. Assim fez. Appareceu; e, dizendo-lhe o duque que não vinha tirar-lhe a sua tença, antes conservar-lh'a; que elle sabia a verdade do que tinha passado; que convinha muito que o depuzesse em juizo, e que elle pediria licença á rainha para tal deposição. Veio Aurelio de Miranda. Disse D. Catharina o que havia succedido, e assignou. Averiguada esta materia, foi D. Luiza tirada pelo corregedor da côrte de casa do conde de Castello Melhor, e o infante lhe deu uma tença. Tirado este impedimento, se processou a causa de divorcio até final conclusão, etc.»

Até aqui a fantasia do historiador, atando alguns lanços verosimeis com outros de todo o ponto irracionaes. Que precisão tinha D. Anna Tavares de revelar o mysterio, a deshoras, nas escadas do Loreto? De quem se temia ella, se tinha por si a rainha, o infante, o duque, Agostinho Nunes e todos quantos haviam sido alcayotes do rei preso? Quem teve a sandia credulidade de acceitar que D. Catharina, á primeira vez que via D. Anna, lhe contasse as miudezas vilipendiosas de sua vida? E o caso de el-rei lhe cortar de mão propria as tranças, por que ella se recusava de o acceitar como pae da creança que havia de nascer? Claro é que os personagens d'aquelle tenebroso drama de cruezas e devassidoens eram melhores algozes que romancistas.

Todavia é certo que soror Catharina recebeu sua filha, e, segundo a vontade de quem lh'a pensionára, quiz que ella fosse religiosa. Estava, porém, um amor infantil começado em casa do grande ministro de Affonso VI com D. Pedro de Mello e Alencastre, fidalgo de primeira plana, aparentado com os Castello-melhor. O moço, com quanto nobilissimo, olhava timidamente para a filha do rei; mas, depois que a prepotencia rebaixara a jerarchia de D. Luiza, complanou-se o terreno em que elle mais affoitamente podia requestal-a.

Estreitaram-se as relaçoens amorosas--tanto quanto os degenerados mosteiros do tempo as facilitavam--mantidas, ainda assim, no mais alto ponto da honestidade. D. Pedro de Mello e Alencastre casou com D. Luiza de Portugal, e viveram em uma quinta do Riba-Tejo, em um quasi desterro imposto pelo contrariado infante.

Houveram varios filhos todos varoens, e um d'estes, D. Prior de Guimaraens, de amores com uma dama da côrte e de stirpe muito selecta, reconheceu sua filha D. Maria de Portugal, que casou com Marco Franchiosi, filho de um conde milanez, que militara em Portugal, no fim do reinado de D. Pedro II. Seguiu-se, neta de D. Luiza, D. Maria Izabel Franchiosi de Mello e Portugal e Alencastre, dama da côrte da rainha D. Marianna de Austria, acolhida pela soberana por dó da extrema pobreza em que a deixára o pae, homem de vida estragada.

N'este tempo, appareceu em Lisboa um provinciano riquissimo, de Pinhel, chamado Salvador da Costa Fagundes, a quem D. João V fez capitão de cavallos, deu habito de Christo, foro de fidalgo, e nomeou sargento mór da sua terra.[7]

Este Salvador Fagundes, movido pela formosura e prosapia da açafata da rainha, casou com D. Maria Izabel, segunda neta de D. Luiza de Portugal.

Tiveram quatro filhos: um que succedeu na casa, dois que professaram em Santa Cruz de Coimbra, e uma senhora que se chamou D. Maria Escolastica Pulcheria Fagundes de Alencastre Portugal.

Esta menina, que vivia na côrte em casa de parentes, amou um official francez chamado Hilario Lescoeure Rolem, (_Rolin?_) com o qual fugiu para Azeitão e mais uma filhinha nascida em Lisboa. Por Azeitão viveram anno e meio clandestinamente em uma quinta que o francez ali comprara. Descoberto e perseguido pela justiça, o official foi assassinado em acto de resistencia, e D. Maria reconduzida aos seus parentes, depois de ter deixado entregue a Joaquim Eusebio, moleiro em Azeitão, a filha, que se chamou Marianna Joaquina.

D. Maria, em 1808, forçada pelo irmão, casou para o alto Minho com o representante de uma casa antiquissima, cujos appellidos omitto em respeito a seus netos.

E, como em 1816 ficasse viuva, foi a Lisboa, e encarregou um seu afilhado, official de marinha, de procurar Marianna em Azeitão, e convencêl-a a seguil-o para Lisboa, se tivesse a fortuna de a encontrar.

O official encontrou a filha de sua madrinha moirejando no cazebre do moleiro. Facil lhe foi movêl-a a acompanhal-o.

Orçava então pelos treze annos D. Marianna Elisa. Era linda quanto Deus podia fazel-a. A mãe nobilitou-lhe o nascimento com as suas lagrimas, e entregou-a aos disvellos de uma franceza illustrada que se chamava madame Chapsal.

A mãe demorou-se com a filha alguns mezes, fez-lhe doação da quinta de Azeitão revindicada de illegitimos possuidores, estabeleceu-lhe abundantes recursos, e voltou para a provincia, onde tinha filhos na primeira infancia.

Não sei se esta senhora voltou a Lisboa desde aquelle anno até ao de 1819 em que faleceu, depois de haver rogado a um provedor Ferraz, então seu hospede em Ponte do Lima, que entregasse a Marianna o seu cofre de joias, não podendo legalisar-lhe outra herança.

Este Ferraz, quando entregou as joias, rendeu-se por tal feitio á belleza da orfan, que não houve mais desenliçar-se d'aquella fascinação. Por desventura, o provedor era rivalisado por um gentil cadete de cavallaria, de nome Antonio Sicard.

Travou-se entre os dois emulos batalha de odios abafados, que mais tarde levaram Sicard, já alferes de cavallaria, por denuncia aleivosa de Ferraz, á Torre de S. Julião, onde morreu.

Presume-se, todavia, que D. Marianna decidira o pleito a favor do cadête, por maneira tão decisiva e inappellavel que se estadiava em publico, de braço dado com o esbelto môço.

Tambem conjuraram bastantes tradiçoens a confirmar que o desembargador Ferraz, homem teimoso e rico, lográra tal qual dominio no coração de D. Marianna, á custa de liberalidades, entre as quaes realçavam o palacete e a carruagem.

Que D. Marianna de Portugal quiz mais tarde legitimar um filho para succeder na herança do magistrado é de todo o ponto inquestionavel, segundo jura o prior de S. Nicolau; mas essa creança não desdoira os creditos da quinta neta de Affonso VI. Era um filho artificial.

A opinião publica desdoira as mães dos filhos naturaes; dos artificiaes, não. Ultraja-se a natureza e respeita-se a arte.