O Carrasco de Victor Hugo José Alves

Chapter 8

Chapter 83,903 wordsPublic domain

--É esta velha que aqui vê de cabellos todos brancos aos trinta e cinco annos... disse Ernestina.

E D. Maria, com mais familiar sorriso:

--Eu tenho uma saleta, onde posso receber senhoras minhas amigas e de mais a mais pobres...--E, subiu a escada, correu um reposteiro de chita, e esperou que as oito pessoas entrassem.

Depois, mandou para a loja a criada, e pediu ao brigadeiro Tavares que lhe desse a satisfação de ser util á sua familia.

--Eu não sei que futuro hei de dar a estes quatro meninos...

N'este acto, parou um cabriolet defronte da casa. A luveira chegou á vidraça, e disse serenamente ao brigadeiro:

--É o snr. conde de Baldaque... Eu digo-lhe que suba, e V. S.ª tem excellente occasião de dispensar o meu patrocinio, pedindo directamente o que pretende.

Levantaram-se todos com alvoroto e certa inquietação como de medo. Mil e duzentos contos representados por um homem é coisa capaz de assustar um ministerio, quanto mais uma familia pobre!

O conde ficou maravilhado quando D. Maria José, descendo até ao ultimo degrau da escada, lhe pediu que subisse á salinha.

Era o primeiro convite que recebia.

Entrou, e deu logo de rosto com o velho inclinado, quasi ajoelhado que lhe tomára a mão, e a levára aos labios.

--Eu não conheço...--tartamudeou o conde no maior enleio.

--Sou um brigadeiro do exercito do snr. D. Miguel, sou Christovão de Pina Tavares, a quem V. Ex.ª ha seis mezes dá o pão d'esta numerosa familia que aqui está.

--Mas...--balbuciou o conde, voltando-se para D. Maria José.--V. Ex.ª não me disse que conhecia esta familia...

--Não conhecia--respondeu a luveira--; mas reconheci agora esta senhora que algum tempo me leccionou em francez, no mesmo collegio onde ella foi educada. Alguem disse ao snr. Tavares que V. Ex.ª me honrava com a sua amisade; e este senhor, carecendo d'um empenho para o snr. conde, procurou-me, e agora mesmo começava a expor a sua pretenção. Estava dizendo o snr. brigadeiro que não sabia que destino havia de dar áquelles quatro meninos, seus netos... Queira continuar, snr. Tavares...

O ancião, tomado de sobresalto, acanhou-se na presença do millionario. O pejo e a dignidade empéciam-lhe a eloquencia da palavra, realçando-lhe a do silencio. O conde olhou na face das creanças uma por uma, chamou-as para si, e disse brandamente:--É necessario fazermos homens estes pequerruchos... Então que querem ser? Provavelmente generaes. Quasi todas as creanças querem ser generaes...

--Seduzidos talvez pela fortuna militar do avô...--interrompeu Tavares; e continuou animado pela communicativa lhaneza do millionario.--O que eu muito desejo obter do valimento de V. Ex.ª, mediante a protecção d'esta senhora que bondosamente nos recebeu, é que os meus quatro netos sejam recebidos em algum azilo de infancia desvalida. Eu já requeri ao actual governo, documentando o requerimento com os meus serviços de soldado, desde 1801 até ao anno em que eu devia ter desertado da bandeira jurada, para estar hoje na alta posição onde subiram os meus camaradas desertores. Escravo da obediencia e da disciplina, segui os meus generaes e acabei a minha carreira onde a honra me fez parar. Ora, se a extrema da honra foi ao mesmo tempo para mim o começo da penuria, isso é questão que não vem ao ponto, nem que viesse eu importunaria V. Ex.ª com queixumes e lastimas. Requeri, pois, pedindo a admissão de meus netos no collegio militar. A absurdeza do pedido era pelos modos tamanha que o meu requerimento nem sequer mereceu a consideração de ser indeferido. Fechadas as portas da justiça, bati ás da caridade. É V. Ex.ª, snr. conde, o bom anjo que sahiu a escutar os meus rogos, e...

--Muito bem...--obstou o conde, amargurado pelas lagrimas do velho.--Tenho entendido que V. S.ª deseja que os seus netos sejam recebidos em algum estabelecimento de educação... Ámanhan, á hora da tarde que lhe convier, queira enviar-m'os a minha casa...

O conde affagou as faces dos meninos, que lhe beijaram as mãos, sorrindo para elle com a graça do infantil amor que vem do coração das creancinhas aos labios que ainda não sabem agradecer. Depois, ergueu-se; apertou francamente a mão do venerando veterano; cumprimentou-lhe as filhas, que o contemplavam com os olhos anuviados de lagrimas; e despediu-se de D. Maria José, que o fitava com estranho e amoravel olhar.

Ao entardecer do dia seguinte, Christovão Tavares entrou na loja da luveira impando de cançasso e exultação. Contou que o snr. conde o mandára entrar com os meninos para a sala, onde elle estava com um sujeito, a quem dissera:--Aqui estão os seus alumnos.

--Era o director d'um collegio de primeira ordem--ajuntou o velho.--O snr. conde enviou os meus netos a um collegio, minha senhora, com ordem de os proverem de roupas abundantes, de todo o enxoval prescripto aos meninos ricos. Depois, os pequenos e mais eu e o mestre entramos na caleche do snr. conde, e fomos a minha casa despedil-os das tias que choravam de contentamento. O generoso moço disse-me á sahida que fosse todos os mezes ao escriptorio d'um cambista á rua dos Retrozeiros, e que hoje mesmo lhe apresentasse um bilhete que me deu. Eu estava por tal maneira aturdido e embriagado de felicidade, que nem sei se lhe agradeci... Os desgraçados, minha senhora, quando de repente se acham a respirar uma atmosphera que não é a sua, suffocam, ouram, e não se acham em si mesmos, no seu habitual viver de escura cerração!... Fui á rua dos Retrozeiros, apresentei o bilhete, e recebi cem mil reis! Eil-os aqui, snr.ª D. Maria! Cem mil reis para cada mez! E quatro netos no collegio a expensas d'aquelle anjo que a Providencia divina mandou travar a roda da minha desfortuna! Veja isto, minha querida senhora! Se eu me não affizer a esta luz que me alumia o fim da existencia, receio enlouquecer de alegria! Mas tanta felicidade é a V. Ex.ª que a devo...

--A mim, snr. Tavares?! pois que fiz eu?

--Que fez, meu Deus?! Recebeu-me na sua casa; olhou compassivamente para minhas filhas, disse palavras amorosas aos meus netos, e quiz que o snr. conde nos visse atravez do seu coração... Oh! eu creio que este milagre o fez a piedade abraçada ao amor... Quem nos deu o pão abundantissimo, o vestir, a casa com ar e sol, o acordar alegre sem o fantasma da fome diante, o futuro das creanças... quem foi senão a... futura condessa de Baldaque?

Ao proferir as ultimas palavras, o velho pegára convulsante da mão de D. Maria José e collára n'ella os labios tremulos.

A filha de D. Miguel sentira n'esse lance mui deliciosa commoção, um alvorecer de luz em cheio na alma, a revelação subita d'um amor, o primeiro, com as santas alegrias da pureza, e a confiança profunda nas virtudes do homem amado. A revelação, em tom prophetico, feita por aquelle velho de barbas brancas orvalhadas de lagrimas, soou-lhe na alma com religiosa suavidade.

O instante foi solemne. A poesia pode engrinaldar o quadro com as suas flores e a moral regosijar-se, como é justo, de um caso de amor nascido em condiçoens tão honestas.

Eu, de mim, menos attreito que o leitor á idealisação de coisas naturalmente explicaveis, penso que ella já o amava tão devéras e de dentro da consciencia, que, se o conde descorçoado por desdens, se vingasse esquecendo-a, teria levado pela mão da saudade a filha do principe á sepultura; mas ás fragilidades das amorosas mais celebradas, não.

Isto é o que me parece; mas não afirmo que assim houvesse de acontecer. Sei historias de amores tão bem começadas como esta e acabadas nas enfermarias das loucas. Os personagens masculinos d'algumas andam ahi ao flaino ainda com a sua velhice tingida e sadia. Creio que o castigo d'elles é andarem pintados; mas o diabo conhece-os, apezar do fluido. Elles lá irão cair-te nas prezas, ó horrendo Minos!

XIII

DESASTRE DO GATUNO

Vem agora aqui o casar.

D. FRAC. M. DE MELLO, Carta de Guia de Casados

Aquelle rapaz abrazado de cara, a refulgurar uns olhos vertiginosos á feição dos ebrios, cercado de gente, que o escuta, á mesa redonda do Hotel Bragança, é Victor Hugo José Alves.

O energumeno vocifera contra certa mulher que o trahiu. Conta que lhe immolou as convicçoens politicas, a juventude e a liberdade. Diz que por amor d'ella apostatára do socialismo, renegára das crenças republicanas, furtára ao edificio do futuro as achêgas do seu talento, e puzera o seu nome illustre debaixo das maldiçoens da posteridade.

Alguns convivas riem de esguêlha, em quanto outros lhe vão solicitamente reparando o destroço que elle faz no kumel, acinte pedido para afogar a hydra que lhe roe as fêveras da alma.

Disse elle mais que essa perfida havia casado no dia anterior com o filho de um negreiro que morrera conde, transmittindo ao herdeiro, com a herança ignominiosa de tres milhoens, o titulo, o pergaminho onde o ministro fizera assignar ao rei a abdicação da sua moralidade. Acrescentou que o segundo conde de Baldaque se deixára embair do ardil de uma luveira, que se dava ares de princeza bastarda, tendo sido sua mãe uma famosa aventureira que não poderia com exactidão apontar o pae aos filhos que tivera. Disse mais... Não disse mais nada, porque n'este comenos estalava-lhe em cada face uma bofetada das que entupem os jorros da mais caudal eloquencia.

O que dera aquellas provas muito equivocas da sua admiração á objurgatoria do poeta era um velho barbaçudo, de espessos bigodes brancos, alto, gravemente vestido, magestoso aspeito de soldado da guerra peninsular. Era o ex-brigadeiro Christovão de Pina Tavares.

Victor Hugo, estupefacto da injuria e talvez atordoado do choque, encarou fremente, mas silencioso, o veterano que elle perfeitamente conhecia.

--Villão!--rugia o velho com os olhos brilhantes da chamma dos vinte annos--Torpissimo gaiato que insultas a senhora que roubaste! Bandido, que comes no Hotel Bragança os tres contos de reis de...

Tavares susteve-se, reprimido pela mão da caridade. O homem, que havia bebido o fel da injustiça, receiou ultrapassar o direito do castigo. Conteve-se, vendo o quebranto do miseravel, e o fundo abysmo a que podia tombal-o com o pé.

Outro militar, general das fileiras da liberdade, antigo camarada de Chistovão Tavares, e seu convidante n'aquelle jantar, tirou-lhe com força pelo braço, e levou-o.

Os galhofeiros ouvintes de Victor sahiram de espaço, sem sequer averiguarem da injustiça do insulto. Elle, porém, restaurado da pancada moral, recolheu-se ao seu quarto, atirou-se contra o estofo d'uma voltaire, fincou os dedos na testa, e resmuneou cabeceando entre as sacudidelas da colera e dos gazes da indigestão:

--Ó minha vingança!... Ó minha vingança!...

Terribilissimo, formidando e medonho pela cara que fez então!

Quando, passados minutos, o criado lhe entrou ao quarto com os castiçaes, Victor Hugo remetteu contra elle, bramindo:

--Que queres?

E cambaleava como se as luzes lhe inflammassem o alcool.

--Que queres?--tornou elle de murros apontados á cara innocente do gallego.

--Trago as luzes, snr. Victor Hugo...--tartamudeou o moço assombrado.

--Vai-te!... Deixa-me!... Negro, negro, quero tudo negro, como a vingança!

O criado sahiu, e disse á criada, que espreitava o poeta:

--Safa-te, que elle está borracho!...

Safemo-nos tambem nós: deixemol-o gizar a traça da vingança; não assistamos áquella alchimia diabolica; que o kumel e o cognac se lhe destillem em peçonha escorrida da fornalha do cerebro ao coração.

Mas quem disse a Christovão Tavares que o seu correligionario consumia em golodices francezas, no famigerado hotel, as inscripçoens da condessa de Baldaque?

Não foi ella.

Acontecera, como era natural, contar a luveira ao conde o destino que dera aos seus apoucados haveres. Esta confidencia--bem se lembra o leitor--denegada n'outra occasião, fêl-a espontaneamente depois que, sem rodeios nem contrafeito pudor, disse ao conde que o amava. Similhante revelação realçou-lhe a virtude no conceito do noivo. Nada mais formoso, mais para se adorar que a pobreza tão de vontade, o despojar-se a magnanima senhora em beneficio d'um pae que lhe não enviára sequer palavra de agradecimento! Esta magua tocara-lhe o coração; mas sem queixar-se.

Entretanto, o conde, quando soube quem tinha sido o medianeiro da remessa do dinheiro, suspeitou da fraude, sem todavia insinuar ao animo de D. Maria as suas desconfianças.

Neste tempo, o brigadeiro Tavares era muito da casa do conde, e estimado como amigo com todas as excellencias de leal caracter, ao passo que D. Maria José solicitára a familiaridade das filhas a quem communicava as delicias do seu amor.

Contou o conde a Tavares o lance admiravel da remessa do dinheiro; mas, duvidando que o principe proscripto o recebesse, encarregou o velho de averiguar dos maioraes do partido legitimista, se alguem, auctorisado por D. Maria José de Portugal, remettera tal quantia ao snr. D. Miguel de Bragança. O indagador levava instrucçoens para não citar o nome do medianeiro, talvez com o proposito de lhe não ferir o pundonor, se elle houvesse honradamente cumprido o encargo.

A commissão de soccorros respondeu que nenhuma quantia lhe fôra entregue de ordem de tal dama; posto que muitas vezes, nas reunioens onde concorria Victor Hugo José Alves, se houvesse mencionado tal senhora como filha d'el-rei o snr. D. Miguel--filiação aliás duvidosa para elles membros da commissão de soccorros.

No dia immediato, Christovão Tavares entregava tres contos de reis aos encarregados de remetter para Heubach os donativos, e pedia que se fizesse chegar ao conhecimento de D. Maria José de Portugal qualquer palavra que o snr. D. Miguel escrevesse a tal respeito.

Antes de volvidas tres semanas, a commissão de soccorros enviava, por via do ex-brigadeiro, á luveira da Rua Nova da Palma, uma carta do principe proscripto ao vice-rei, perguntando-lhe se a senhora que tão generosa o visitava no seu desterro era filha de Marianna Franchiosi Rolim de Portugal.

O conde, disfarçando a parte que tinha no jubilo da sua amiga, assistiu ao mavioso espectaculo da ternura com que ella beijava a carta do pae.

Dizia então D. Maria, para aliviar escrupulos de ter sido injusta:

--Olhe, Raul, eu nunca lhe disse isto; mas digo-lh'o agora como quem se alivia de um peccado, confessando-o. Cheguei a desconfiar que Victor Hugo não mandasse o dinheiro. Nunca ousei perguntar-lhe por nada, receiando que elle me adivinhasse a suspeita... Pobre rapaz!...

E o conde sorria, sem lhe entre-mostrar uns longes da verdade.

Tavares, por sua parte, obedecia ás ordens do conde, guardando, com superior esforço e dolorosa violencia, o segredo do roubo. Quando, ainda assim, encontrava o ladrão entre os homens de bem do partido absolutista, o velho descorava, torcia-se, gaguejava monologos, resfolegava fumaradas de colera, e fugia com o segredo, que lhe pezava, como se levasse sobre a alma um enorme remorso--remorso de não avisar os seus correligionarios.

Uma vez pediu com as mãos erguidas ao conde que o deixasse expulsar d'entre os realistas aquelle hediondo larapio. E o conde respondeu:

--Isso é de justiça; mas deixe-me casar e saír de Portugal; depois, quando minha mulher estiver longe, fará o que entender. Não lhe roubemos á feliz menina o prazer de ter sido d'ella o dinheiro que D. Miguel recebeu. Se o snr. Tavares denuncia o furto, o escandalo andará tão fallado por essa Lisboa que D. Maria será das primeiras pessoas que o saibam.

N'este bom proposito, esperava o velho, quando concorreu áquelle jantar, a convite do antigo camarada, que solemnisava n'esse dia, com duas garrafas do Porto, a sua reforma em marechal de campo. A garrafa correspondente ao ex-brigadeiro, a gratidão e a honra cooperaram n'aquelle impeto das duas bofetadas. Mas, graças ao sentimento de commiseração que o reteve, os circumstantes não perceberam senão que Victor Hugo insultava uma senhora a quem havia roubado tres contos de reis.

No dia seguinte, contava-se o caso no Chiado. Uns diziam que Victor havia sido amante da luveira casada agora com o conde, e lhe gatunára a herança que ella tivera d'um agiota. Esta era a opinião dos sugeitos contusos por Damião Ravasco. Outros, rejeitando a tradição mais corrente, asseveravam que a roubada tinha sido uma marqueza velha, e que o official realista, que bofeteara o litterato, era amante da marqueza desde 1801--ou 1789, acrescentava o meu amigo José Parada para quem todos os infortunios eram cornucopias de chalaça.

O conde, recolhido á dôce intimidade do noivado por muitos dias, ignorou o successo; e, quando saíu, não houve indiscreto que lh'o referisse.

No emtanto, Victor Hugo dava que scismar aos seus partidarios, não comparecendo nas reunioens onde innocentemente conspiravam os letrados da causa; nem sequer nos saráos somnolentos, onde a idéa velha passava as noites cabeceando acalentada nos braços do snr. padre Beirão e d'outros.

Naturalmente se explica o desvio do cavalleiro da Ala pelo justo receio de ser interrogado ácêrca dos tres contos de reis, sabido já o roubo pelo ex-brigadeiro, que tinha accesso ás casas principaes, e reputação de homem honesto.

E mais depressa ainda se esclarece a conversão d'este desgarrado bode ao seu rebanho antigo,--á seita dos carbonarios, reorganisada em 1848, com elementos combustiveis de tanta força, que todos se vaporaram, deixando as fezes ahi por essas secretarias do Terreiro do Paço, encrustadas nas pastas dos ministros que foram, que são, e hão de ser. Diziam os seus confederados na loja: que Victor Hugo, restituido á bandeira que desertára por amor d'uma ingrata Dalila, nunca fôra tão Samsão na força do verbo, tão Hugo na energia das figuras, tão republicano na medula dos seus ossos. O seu auditorio destampava em gargalhadas quando o Fuas Roupinho da esquadra naufragada, zombando do seu proprio appellido de guerra, chacoteava da ordem de S. Miguel, que elle denominava a cavallaria desferrada do archanjo.

É justo que não se esqueça, na correnteza d'estes casos, a familia d'esta pessoa.

D. Rozenda Picôa, assim que viu annunciado o casamento de D. Maria José de Portugal, deliberou visital-a e manter boas relaçoens com a sua hospeda, visto que a fortuna caprichosa a collocara na posse pouco vulgar de uma corôa de condessa com tres milhoens.

Annunciou-se ao guarda-portão do palacio. Tangeu-se uma campainha. Desceu um escudeiro que recebeu o nome da visita. E com demora de alguns minutos, voltou o escudeiro dizendo que a snr.ª condessa não recebia.

--Então porque?!--perguntou D. Rozenda abespinhada.

--Porque não quer... É boa a pergunta!--respondeu o escudeiro com altivez.

--Não quer?!--redarguiu a mãe de Victor.

--Então a snr.ª luveira já não conhece as amigas velhas?... Não?... Ella me conhecerá!...

E saíu enfurecida em busca do filho, deliberada a conciliar-se com elle para collaborarem na vingança.

Em abono do benigno coração da condessa cumpre saber-se que ella receberia com alegre sombra a visita de D. Rozenda, se o conde, ao ouvir proferir o nome da mãe de Victor Hugo, não pedisse brandamente á esposa que se abstivesse de receber tal senhora.

Perguntou ella que razão havia para não a receber. O conde respondeu:

--Deve ser muito forte a causa que me faz contrariar-te pela primeira vez, minha filha. Tu a saberás. Por em quanto, basta que eu te diga que esta mulher é mãe de um homem que os meus lacaios recusariam acceitar nas suas assemblêas de taverna. Sabes de mais que eu não defendo minha casa aos pobres; as tuas amigas e os meus amigos são todos pobres. Se essa senhora está necessitada, soccorre-a; mas não a recebas, porque é mãe de um homem que está hoje escarnecendo os amigos de teu pae.

A condessa ficou sabendo que Victor Hugo renegara da sua quarta ou quinta religião politica, e mais nada. Observava ella porém:

--O que a mim me admira, Raul, é ter elle entregado os tres contos de reis! É uma honra que não se entende bem a d'este homem!...

XIV

A VINGANÇA

_Sunt quædam quoe honestè non possum dicere._ Ha ahi coisas que eu não posso honestamente referir.

CICERO, Seg. Philipica.

Tenho á vista o folheto que Rozenda Picôa entregou ao filho, feito o pacto de vingança.

Em 1840, desoito annos antes dos successos até aqui referidos, publicou-se em Lisboa, na _Typographia portuense_, estabelecida na rua da Palmeira n.º 36, um opusculo de 23 paginas em 8.º, intitulado: _A villan fidalga. Ou aventuras e transformaçoens da filha d'um moleiro conhecida em Lisboa pela alcunha de D. Marianna Joaquina Franchiosi Rolem Portugal, moradora actualmente na Travessa nova de S. Domingos n.º 4, segundo andar_, etc.

O signatario do opusculo, Luiz Caetano da Rocha, principia por uma _Breve exposição_ na qual relata que Marianna Joaquina o arguira de falsificador de um titulo de divida, em que a assignatura da querelante era imitada. O ministerio publico tambem querelara. Luiz Caetano, depois de oitenta dias de cadeia, foi ao tribunal para assistir á ratificação da pronuncia.

O advogado da accusação era Abel Maria Jordão, que morreu visconde de Paiva Manço; o da defeza era Antonio José Dique da Fonseca. Arcaram os dois athletas forenses com toda a pujança da sua notoria habilidade. Diziam os espectadores que o melhor causidico de D. Marianna era a sua formosura, bem que ella orçasse então pelos trinta e nove annos. O certo é que a parcialidade do juiz e delegado eram por tanta maneira insidiosas que o patrono do réo foi chamado á ordem, quando contava aos jurados a vida escandalosa da auctora. Quer, porém, o jury se deixasse vencer do soborno ou convencer da justiça, é certo que não ratificou a pronuncia e affirmou que era dolosa a querela.

Vem depois o réo absolto á imprensa com os documentos que o seu advogado não logrou ler no tribunal.

Examinemol-os succintamente, bem longe de os acceitarmos com a importancia que o foliculario lhes dava quando escrevia: _talvez que ainda uma penna habil se sirva d'estes documentos para compor uma novella... a qual mostrará que no mundo muitas vezes o plebeu se atavia com as galas da nobreza, o vicio se encobre com a capa da virtude, e nem tudo é o que parece_.[3]

O primeiro documento é um attestado onde se diz que Marianna Joaquina, filha de Eusebio Joaquim e d'outra Marianna Joaquina fugira de Azeitão em 1814 com João Lopes Giraldes.

Do segundo documento convem trasladar o seguinte, que é já copiado da nota do tabellião de Lisboa Thomaz Isidoro da Silva Freire (Livro 214, folhas 103):

_Saibam quantos este instrumento de declaração virem que no anno do nascimento de nosso Senhor Jesus Christo, de mil oito centos e trinta e um, aos vinte e nove dias do mez de novembro, n'esta cidade de Lisboa, na rua da Magdalena n.º 70 e casas de morada de D. Marianna Joaquina Franchiosi Rolem, aonde eu tabellião vim, estando ahi presente Eusebio Joaquim da Silva, morador em Villa Fresca de Azeitão, e por elle foi dito na minha presença e das testimunhas ao diante nomeadas: que, no anno de mil oito centos e quatro, lhe foi entregue e a sua mulher Marianna Joaquina da Conceição, uma menina para crear, a qual viveu em sua companhia, e da dita sua mulher na Villa d'Azeitão, reputada como sua filha até á edade de treze annos para quatorze em que se casou, e que agora pela prezente escriptura declara que a referida menina é a dita D. Marianna Joaquina Franchiosi Rolem, e que não é sua filha, nem com ella tem parentesco algum, e que esta declaração promette, e se obriga haver em todo o tempo por firme e valiosa. Estando tambem presente a dita D. Marianna Joaquina Franchiosi Rolem por ella foi dito acceita esta declaração na forma d'ella._

O terceiro documento é um auto lavrado em 1838, na villa de Azeitão, onde appareceu um José Antonio Atalaya, com procuração de pessoa que o documento omitte, citando Eusebio Joaquim da Silva para jurar em sua alma se D. Marianna Joaquina de Portugal residente em Lisboa, é sua filha, e se ali possue uma quinta. Eusebio declara ser verdade o allegado na petição.

Segue um documento denominado _Querela_.