O Carrasco de Victor Hugo José Alves

Chapter 6

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--Cahiu por morto, quando ia a entrar na carroagem... levei-o nos braços para casa... chamou-se o medico; mas já não respirava...

O moço, apertando a mão de D. Maria José, que balbuciava algumas palavras compassivas, sahiu acceleradamente.

Quando entrou no quarto de seu pae, as pessoas que rodeavam o leito, não responderam á interrogação de Raul. O medico apertou-lhe convulsamente a mão e sahiu. Os restantes eram criados, cujos aspeitos exprimiam mais espanto do que dôr.

O filho ajoelhou á beira do leito e beijou a mão do cadaver; depois, encostando a face ao hombro do pae, soluçou palavras inintelligiveis. Do outro lado do leito ajoelhou alguem com os punhos cerrados na fronte e as lagrimas a borbulharem-lhe dos olhos espavoridos no rosto do morto: era o mulato Damião.

Digamos d'este homem que se nos revela sympathicamente em frente d'um filho que chora, e ao lado do velho que lhe expira nos braços.

Damião Ravasco era o seu nome. Gentil corporatura de mestiço. Feiçoens levemente denunciativas da origem indiana de sua mãe. Olhos fulgurantes. Epiderme esmaiada, aquelle esfumado de marfim antigo, que nas raças europêas distingue as bellezas finas, o pallor romantico, a vantagem do espirito sobre a riqueza do sangue.

Damião Ravasco orçava pelos trinta e dous annos. Já sua mãe havia nascido em casa de Antonio Ferreira Baldaque, pae do defunto conde. Ninguem lhe attribuia filiação d'este ou d'aquelle. As escravas eram muitas e fecundas todas. Entretanto, nos traços physionomicos de Damião, realçavam parecenças com o pae de Raul; e, no particular affecto com que o capitalista o estremara desde a primeira infancia, havia o quer que fosse indicativo de virtude não vulgar nos progenitores dos filhos das escravas.

Antonio Ferreira Baldaque deu aso a suspeitarem-no pae do mulato quando o mandou á escóla, trajando-o com decencia incompetente a um servo. Aggravaram-se, porém, as desconfianças, quando, prompto em primeiras lettras, o rapaz seguiu estudos superiores.

Poucos annos antes, havia casado o negociante com a mãe de Raul, a qual, ciosa da consideração que o esposo liberalisava ao filho da escrava, disparou em impertinencias que poderiam resultar a felicidade do mulato, se elle pendesse a engrandecer-se por lettras.

Quiz o prudente esposo restabelecer a paz domestica, enviando Damião a seguir em Portugal a carreira da jurisprudencia ou da medicina na universidade de Coimbra. O rapaz ouviu as ordens do padrinho, e respondeu humilde, mas com firmeza, que não queria ser doutor, nem tinha queda para estudos.

Esta confissão não era vaidade mal rebuçada em modestia. Em Damião Ravasco, ao passo que a esforçada musculatura se alargava com proporçoens agigantadas, parecia que as potencias da alma lhe eram deprimidas pelo pezo da materia. Os condiscipulos não ousavam motejar-lhe a rudêza, desde que elle, em polemicas grammaticaes, abusando dos preceitos mais vulgares da camaradagem litteraria, respondia com sôccos ou marradas aos argumentos dos adversarios: indignidade que ainda não vimos praticada em outra parte, senão no parlamento portuguez.

Os professores haviam já prevenido o protector do mulato, quanto á incapacidade rebelde do estudante; apesar disso, Baldaque desejou illustral-o, até ao momento em que Damião por claros termos se recusou.

Interrogado sobre o modo de vida que melhor quadrava ao seu genio, o rapaz, que então contava dezoito annos, respondeu que o seu gosto era ser boleeiro; e acrescentou que tarde ou cedo o havia de ser, porque ninguem fugia á sua estrella.

Ou porque respeitasse a estrella de cada sujeito, ou receiasse denunciar o que era, ou dar mais fortes suspeitas do que não era, o negociante offerecera alguns contos de reis a Damião Ravasco a fim de que se estabelecesse, consoante sua vontade e vocação.

O mulato rejeitara o dinheiro dizendo entre soluços que não queria deixar o padrinho; e, abraçado ao pequeno Raul, rogava-lhe, debulhado em lagrimas, pedisse ao pae e á mãe que o não mandassem embora.

A esposa do submisso negociante não condescendera. Os rasteiros instinctos de Damião, preferindo a cocheira á universidade, e a sella ás cartas de bacharel, acerbaram o desamor da dama que afiava cortantes chacotas contra a defunta escrava, assacando-lhe que ella arteiramente capacitara da tal paternidade o seu senhor, usurpando direitos de progenitura a algum obscuro lacaio. Antonio Baldaque, posto que não se desse como pae do mulato claramente, devorava em silencio o insulto, deixando-se invilecer e maneatar pelas centenas de contos que a esposa augmentara aos seus haveres.

Não era elle todavia insensivel ao espinho occulto que lhe pungia na vaidade de pae, quando diligenciava demover o afilhado da vil profissão de boleeiro, incitando-o a sair para Portugal, onde lhe segurava recursos para negociar, se não quizesse outra carreira.

Damião Ravasco, soffreando esforçadamente a sua mania, cuidou que poderia conformar-se, e já parecia vencido das indirectas instancias do padrinho. Mas, um dia, como visse annunciada a venda de carroagem e parelha do ministro francez, concorreu ao leilão, licitou por não poder conter-se, e arrematou o trem, obedecendo á espora do instincto que o não deixou reflectir na desobediencia.

Dado tal passo, Damião foi despedir-se do padrinho que o recebeu de máo rosto, improperando-lhe a baixeza das inclinaçoens. O moço, porém, possuido dos fidalgos espiritos de muitos portuguezes coevos, netos de Gamas, Albuquerques, Castros e outros, respondeu que a sua inclinação, não o deshonrando a elle não podia deshonrar ninguem.

A pessoa de quem Damião Ravasco se despediu com muitas lagrimas era o menino Raul. A creança pagava amorosamente os afagos do mulato, defendendo-o como podia, quando a mãe o tratava com desaffecto, e fugindo d'ella para os carinhos do filho da preta, quando a retrincada senhora o appellidava affrontosamente o _negro_.

Começou o mulato sua vida de alquilador prosperamente, comprando carroagens, e boleando-as elle mesmo. A paixão da almofada e do pingalim não lhe consentia aristocratisar-se na sua esphera de proprietario de nove parelhas normandas e seis aceados trens. Era artista em extremo grau. Entrajava com menos alinho que os seus criados. Todo o seu deliciar-se em luzimento e galhardia de composturas eram os arreios dos cavallos e o brilhante verniz das equipagens.

A propensão do mulato não era das que menos se prestam a irritar as sanhas das indoles brigosas. A parçaria com homens de Cavalhariça, de natural bulhentos, muitas vezes o poz no gume do perigo, e outras tantas lhe deu admiraveis triumphos de pugilato, quando não era a navalha que empurrava os adversarios para o hospital. A policia, inquietada e nem sempre respeitada pelo valentão, quiz prendêl-o em cumprimento d'uma pronuncia por crime de tentativa de morte nas pessoas de dous negros que haviam maltratado na chacara Raul de Baldaque, em occasião que este se comprazia frechando-os com alfinetes desempolgados do arco, sob pretexto de ensaiar-se para Guilherme Tell.

Homisiou-se Damião em Vassouras, recommendado pelo padrinho, a quem cumpria patrocinar o generoso defensor do filho legitimo.

Este caso amolleceu a dura condição da mãe do menino, cujo prazer de assetear negros lhe seria descontado em torcegoens de orelhas, se o filho da escrava não sangrasse a ferro as iras dos offendidos. Quebrou-se, pois, a antipathia da dama, até á condescendencia de permittir que o marido sahisse a publico em abono do afilhado, legalisando as navalhadas como justa defesa.

Damião Ravasco regressou absolvido, mas não emendado, ao Rio de Janeiro. A impunidade alargara-lhe o fôlego das proezas. Cuidar-se-hia que a sua paixão dos quadrupedes ia desandando n'outra menos estranha á super-intendencia do codigo criminal. Quando evitasse o ensejo de provar a mão na cara dos que se lhe arrostavam, vêr-se-hia á sua beira Raul a quem elle obedecia docilmente; mas, como essas occasioens eram menos que os lances em que o provocavam, ou elle se considerava provocado, raro era o dia em que Ravasco não tivesse de explicar á policia a razão por que certos queixosos haviam perdido alguns dentes, ou, com os olhos tapados por contusoens, recorriam á justiça pouco menos cega que elles.

N'este meio tempo, falleceu a esposa do capitalista.

O viuvo apressou a liquidação dos seus grandes bens de fortuna, com o proposito de repatriar-se, e saborear em socego o restante da vida.

Não queria elle trazer para Portugal o mulato, receiando desgostos e sobresaltos, em tempo e terra onde lhe sorriam esperanças de remançosa tranquillidade. Tanto poderam, no emtanto, com elle instancias do filho que não houve recusar-lhe a companhia do amigo.

O conde de Baldaque, em Lisboa, ostentava opulencia ajustada ao titulo. Damião mordomisava a cocheira, com voto deliberativo na escolha das parelhas e carroagens. A paixão recrudecera-lhe a termos de não querer outra posição em casa do padrinho. Pelo que toca ao sestro das valentias, corrigira-se tanto quanto o conde podia ambicionar. Como não tinha inimigos em Lisboa, o mulato, absorvido no deleite de palmear e almofaçar as ancas dos seus cavallos, apenas uma ou outra vez esbofeteava os criados gallegos da cavallariça para exercitar a pujança dos tendoens _in anima vili_.

Raul de Baldaque, nas estouvices de rapaz, se precisava de um amigo que lhe antepozesse a sua vida aos lances arriscados, aventurava-se aos maiores perigos com Damião ao lado. Confidencias amorosas, particularidades que elle escondia dos seus commensaes, dialogos intimos com damas de primeira plana, tudo revelava a Damião Ravasco. O mulato ria das aventuras do amo, e aconselhava-o a ser rasgado e audacioso com as fidalgas quando elle se prezava de o ser com as môças dos visinhos.

Não lhe era portanto mysterioso o amor de Raul á luveira.

E o seu modo de pensar a respeito d'esses amores, que tão mudado lhe traziam o pensativo menino, o saberemos logo.

Dada em resumo a biographia do mulato, personagem de maxima importancia n'esta historia, temos explicado aquellas lagrimas, que o filho da escrava chorava, beijando a mão fria do homem a quem nunca ousára chamar pae, posto que, no silencio da alma, uma voz mysteriosa lhe dissesse que Raul era seu irmão.

X

FRUCTA DO BRAZIL

_Murro_, s. m. pancada com a mão fechada. _Soco._

ROQUETE, Dicc. da Lingua Port.

Aqui desapparece o romantico nome de Raul.

Vamos ter a vulgaridade d'um conde. Queixem-se do ministro que dera o titulo em duas vidas ao primeiro. Todavia, entre luveira e conde o relevo dos amores deve dar margem e contrastes mais palpitantes de actualidade, como já se não diz. Amores de luveira...

Não é isto exactamente. A luveira não o amava. Era para elle em rigor o que lhe disse que era.

Distinguia-o do acume d'onde o via em baixo, bem que no seu levantado orgulho houvesse uns brios de magestoso abatimento. Era irreconciliavel o divorcio de sua fidalga pobreza com opulencias provenientes de homem que intentasse offuscal-a com esta cousa sobremaneira desprezivel chamada dois milhoens, ou--mais execravel ainda--tres milhoens!

O conde honrou a memoria de seu pae, encerrando-se por espaço de quinze dias.

Como a saudade filial lhe estivesse pedindo consolaçoens que ninguem sabia dar-lhe, o moço desafogava em cartas enviadas a D. Maria José, nas quaes se carpia como se devesse achar allivio na condolencia da mulher destinada a duplicar-lhe os perdidos affectos de pae em caricias de esposa.

D. Maria José de Portugal respondia compassivamente ás cartas, adoçando-lhe a dôr com a certeza de que lh'a conhecia, porque tambem ella havia perdido sua mãe, e gemêra na dupla orphandade de mulher e mulher pobre. As suas respostas, se alguma vez pareciam dulcificadas por sensibilidade de amiga, nunca tocavam o sentimentalismo amoroso. E, tanto era o desartificio com que naturalmente se expressava, que ninguem veria nas cartas d'ella o esforço da mulher que se disfarça, ou procura colorir com termos delicados a parcimonia de mais affectivos sentimentos.

O conde não escondia o seu despeito de Damião Ravasco. Lia-lhe as cartas que escrevia e as respostas recebidas por intermedio d'elle. E o mulato, pouco dado a interpretaçoens de phrases que se afiguravam reconditas á vaidade do conde, sahia-se ás vezes com umas reflexoens alheias do bom senso que irritavam sobre modo a delicadeza do amo.

Por exemplo, uma vez, andando o conde a passeiar no seu quarto, e a dizer em vozes interrompidas por suspiros que a luveira o havia de matar ou endoudecer, Damião, tomando-lhe o passo, fallou do seguinte theor:

--Ora meu amigo, vamos a isto. Estou farto de palavriado. Obras, obras é que se quer. Seja homem, e attenda lá ao que lhe vou dizer. Se o menino quer morrer ou perder o siso, não quero eu. A mulher ha de ser sua tanto me importa a mim que seja filha do rei como do diabo! Luveira é ella, isso vou eu jural-o, porque ainda hontem lhe comprei umas luvas de camurça. Mas, se fosse filha de rei e morasse no palacio real, antes de V. Ex.ª morrer ou endoudecer, havia eu de fazer mais restolho que dez milhoens de diabos para que ella fosse sua. Se eu pudesse, muito que bem; se não pudesse, quem havia de morrer primeiro que o snr. conde era eu.

--Que fazias tu, Damião?--perguntou entre grave e risonho o conde.

--Que fazia?

--Sim...

--Vamos aqui fallar serio. Sente-se o snr. conde, e, se eu disser alguma parvoice, não se enfade, que perde o tempo. Um homem é um homem, parta d'este principio, como dizia o frade que me queria ensinar logica. Um homem não é uma mulher. As mulheres vencem com choradeiras, os homens vencem com obras: percebe o que eu quero dizer na minha? Um homem sem desembaraço... é mulher. Lá que a gente morre, quando não se desengana a puxar por si, não tem duvida nenhuma. Ha muito tempo que eu andaria ás malvas, se me deixasse estar quieto a conversar com a prudencia. A prudencia é boa nas terras onde não ha marotos...

--Mas a que vem tudo isso, Damião? Bem se vê que o frade não conseguiu ensinar-te logica!... Então que queres tu que eu faça?

Damião Ravasco soltou uns froixos de riso sêcco, esfregou as mãos, deu duas palmadas nas pernas, e respondeu:

--Se o menino me dissesse: «Damião, eu quero aquella mulher, custe o que custar»--a mulher seria sua, ou eu me dava em corpo e alma ao maioral do inferno! Diga-me cá, snr. conde: como foi que se arranjou no Rio aquelle negocio da franceza que estava com o chanceller? O menino contou-me que ella não o queria, e o maltratára diante de outros...

--Cala-te, que me estás irritando!--atalhou o conde.--Não admitto comparaçoens entre a franceza e D. Maria!

--Mas o menino dizia da franceza a mesma alicantina que diz d'esta--observou o mulato, maliciando o sorriso com a velhacaria d'um pratico do coração humano.--Eu fui dar com V. Ex.ª, na chacara de Petropolis, triste, pensativo, a fallar só, a dar uns ais que parecia rebentar de paixão d'alma. Perguntei-lhe que tinha. Disse-me que amava a franceza do chanceller, e que dava um tiro na cabeça, se a não pudesse tirar ao francez. Foi assim, ou não foi?

--Não me atormentes!--insistiu o conde, corrido talvez de confrontação que o mulato equiparava entre as duas situaçoens analogas.

--Mas...--tornou Ravasco.

--Já te disse que me não afflijas... Queres dizer-me que fazes á filha d'um principe o que fizeste á franceza?...

--Sim... eu... acho que...

--Achas que D. Maria póde ser levada n'uma sege á traição, e calar-se depois mediante alguns centos de libras como a outra?...

Damião sacudiu os hombros á feição de quem cynicamente presume que a distancia divisoria entre duas mulheres não é tamanha como os poetas a medem. O conde todavia assanhado pelo tregeito do mulato, ergueu-se de impeto, coriscou-lhe um lance de olhos humilhante, e sahiu, murmurando:

--Instinctos de cocheiro... a final!

O insulto confrangeu a alma forte do filho da negra; mas nem leve assomo de colera se denunciou na mudança d'aquelle aspecto. O amor de Damião ao filho de seu padrinho era tolerante e impassivel até á covardia. Beijal-o-ia, depois da injuria, como as mães beijam os filhinhos que as esbofeteam.

Não obstante, logo que o espanto e a dôr cederam á reacção da dignidade, o mulato procurou o conde, e disse-lhe dissimulando a commoção:

--O cocheiro vem despedir-se. Vou recolher-me á cavalhariça de V. Ex.ª, e sahirei de lá para outra, quando souber que o snr. conde encontrou feitor que me substitua.

O conde deteve-se momentos a contemplar a serenidade do mulato, que o fitava com os olhos turvos de lagrimas a desmentirem a dureza do semblante.

Qualquer que fosse o agastamento do amador da luveira, a offensa feita á filha dos Braganças podia menos no amor do moço que a inveterada gratidão aos extremos do mulato. Demais d'isso, a opinião publica do Rio de Janeiro, quanto á filiação do filho da escrava, não era estranha ao conde; e mais que tudo, seu defunto pae, louvando o sisudo proceder do afilhado, em Lisboa, havia dito ao filho que a sua maior pena era não ter podido elevar Damião á decente independencia que projectára.

Por tanto, ainda que de si mesmo quizesse esconder as proprias suspeitas, o conde não podia esquivar-se á conjectura de que o mulato era seu irmão; e tal desconfiança, penetrante como um sobresalto de subita evidencia, lhe alvorotou o animo no instante em que as lagrimas de Damião, rebeldes á vontade, pareciam a um tempo queixar-se do ingrato e pedir perdão para o desvario d'um doudo enthusiasta que, em serviço das paixoens frequentes de seu amo, não distinguia entre a concubina d'um chanceller e a filha de um rei.

Estas e outras louvaveis reflexoens ponderavam no espirito do conde, quando, approximando-se de Ravasco, lhe abriu os braços, estreitou-o ao peito, e disse:

--Não finjas que me deixas, Damião, porque tu não deves nem podes deixar-me...

E o mulato, rindo e chorando, tartamudeava palavras convulsas, em quanto o conde proseguia:

--Não se deixa um rapaz de quem se é amigo, desde o berço, e a quem se deu protecção quando elle a precisava menos que hoje. Olha que estou só no mundo, Damião. Não tenho ninguem que me estime, senão tu. Dos affectos que me rodearam na infancia e mocidade, vives tu só. Se me faltares, accuso-te de máo e ingrato, e hei de convencer-me que não ha para ti amisade duradoura senão... a dos trens--concluiu jovialmente o conde, já quando o mulato o levantára nos braços como quem afaga no colo uma creança para desamuál-a com meiguices.

D'ahi a pouco estava outra vez o conde confidenciando a Ravasco o seu fatal amor á mulher que lhe não dava mais estimação ás qualidades pessoaes do que á riqueza e ao titulo. O mulato transiu-se de assombrado quando o millionario lhe affirmou que a luveira pobre o rejeitaria, se lhe elle offerecesse a mão de esposa.

--O menino já lh'o disse?!--interrogou Damião.

--Não. Disse-m'o ella para me poupar ao dissabor da pergunta.

--Snr. conde--volveu o sceptico--olhe que ha mulheres finorias!... Olho vivo, menino!

--Damião!--accudiu desabrido o conde em desforço de D. Maria.--Sinto que o teu espirito não saiba respeitar devidamente a mulher que eu escolheria para minha esposa!

--Respeito, sim, senhor. Isto é um modo de fallar. Mas não creio que haja senhora rica ou pobre que rejeite o snr. conde, que é moço, é bem parecido, sabe o que diz, e tem mais do que pensa. A mulher, que o não quizer, tem outro homem, ou é douda. Eu, no seu logar, tratava de averiguar se essa creatura é o que parece, e regula bem da cabeça.

--Damião!... és incorrigivel!--bradou o conde.

--Palavra de honra, que não sei fallar com o menino! Sabe V. Ex.ª que mais, senhor conde? Ha por ahi duzias de amigos que o intendam e o enganem; eu cá por mim, sou d'esta laia. Digo as cousas toscamente como sei. Se a senhora fidalga é boa, não perde nada com a minha opinião; se não é boa, peor para ella. O que eu quero é que V. Ex.ª não soffra, nem seja enganado. Das duas uma, como dizia o meu mestre de logica: se ella o ama, case com ella; se o não ama, de que lhe serve padecer? Eu cá não queria mulher que me quizesse por compaixão.

Apezar da nimia tolerancia com que o escutava, o conde pretextou qualquer motivo para cortar a conversação.

N'esse mesmo dia, Damião Ravasco foi á loja da luveira, com o disfarce de quem passava, e perguntou a D. Maria José se queria alguma cousa para o snr. conde.

--Elle está bom?--perguntou ella.

--Não, minha senhora.

--Não! que tem? está doente?

--Da alma.

--Saudades do pae?

--Tudo se ajunta. Saudades... e paixão....

--Paixão? sim... paixão pelo pae...

--Paixão por V. Ex.ª

D. Maria córou. Não era bem o pejo de tal revelação feita por pessoa de esphera infima. Era febre de mais fidalga enfermidade: era o decoro de princeza, fibra estremecida por nevralgia de orgulho, mas fibra que não é commum de todas as senhoras fibrinosas. É um filamento adelgaçado pelo esmeril do tempo atravéz das raças; cousa que vem das castellans do cyclo feudal; que estremeceu nas mulheres dos baroens da meia edade; que não tem vibração nenhuma nas baronezas d'esta edade recentissima. E vai depois o mulato, como eu vinho contando, foi embargado no seu plano de requerer a mão da luveira para o conde.

É que dous sujeitos, vestidos ao bizarro, e bem talhados de suas pessoas, entraram á loja, e com ademanes farçolas, pediram collarinhos de bretanha.

Expoz no balcão a luveira as bocêtas dos colleirinhos.

Os freguezes, a par e passo que os iam examinando mui devagar, galanteavam a silenciosa senhora com uns dizeres desta casta:

--Mal empregados olhos em almofadas de costura! Quem os tem tão matadores melhor uso lhes daria, se se dignasse olhar para outros que a amam...

Eram negros côr da noite Uns olhos negros que eu vi...

O sujeito que assim fallava, dava ares de deputado do norte, papa-fina, calaceiro de damas sertanejas, gallo de aldêa vezado a cacarejar finezas; mas bem creado e de fama na sua comarca, e talvez mais adiante, como pessoa perigosa para senhoras frageis ao dom da palavra.

O outro, que vislumbrava esperteza e garbo de lisboeta, sorrindo desdenhoso á linguagem do amigo um tanto rançosa das galanices do Clarimundo, fallou d'esta arte:

--Esta menina, aqui onde a vês, tem, segundo consta, sangue real nas veias. Se eu fosse principe, fazia-lhe os meus cumprimentos, e pedia-lhe um osculo.

--E eu dois--ajuntou o deputado dos Arcos ou de Melgaço--(de Melgaço é que era, se bem me lembro); mas, prescindindo dos osculos--continuou mais requebrado--limito as minhas ambiçoens a pedir-lhe que me tome medida do pescoço afim de saber-se quaes colleirinhos hei de comprar. Vou sentir o avelludado das suas alabastrinas mãos, mãos de princeza...

D. Maria José, durante as pungentes facecias dos mal-fadados, não erguêra do balcão os olhos carregados de lagrimas. _Mal-fadados_ lhes chamei; porque Damião Ravasco, em quanto elles fallavam, trincava e cuspia a pedaços um charuto, ao mesmo tempo que, fervendo em ira, e agitando machinalmente os braços, parecia dar-lhes alôr para uma pega mortal.

E os dois faceiras decerto não attentaram nos olhos assanhados do mulato, nem dariam significação funesta áquelles tregeitos, se os vissem.

O deputado, entretanto, como a luveira não respondesse ao pedido, aliás honesto, de lhe medir o pescoço, insistiu abemolando a rogativa com um sorriso de ironica meiguice:

--Então o meu anjo não se humanisa até á humanidade de me tomar a medida do pescoço?

--Meço-lh'o eu--disse Ravasco, abarbando-se com o sujeito.

E, proferido o serviçal offerecimento, recurvou-lhe os dedos da mão direita na garganta, sacudiu-o de encontro á hombreira da porta, e d'ahi, tangido pelo impulso de uma valente pescoçada com um sonoro ponta-pé, tombou-o á rua. Consummado o feito, voltou-se para o outro, que se quedava immovel, fulminado, empedrenido talvez por sua justa indignação, e disse-lhe:

--Vossê tambem ha de ter o beijo que pediu.