O Carrasco de Victor Hugo José Alves
Chapter 5
--Se eu ainda lhe não disse que a adoro, é porque, na sua presença, todas as minhas resoluções fraqueam. Sou ainda novo; mas conheço o mundo. As almas infelizes envelhecem cedo. Eu não amei nunca; mas sei as palavras com que se pintam as grandes paixoens. Depois de aqui vir repetidas vezes, disposto a dizer-lhe que a amo, e não o fiz, deliberei escrever-lhe. A mesma timidez me acanhava em lhe entregar a carta. Cheguei a ter pejo de mim proprio; porque vi o desassombro com que certos homens, sem lhe faltarem ao respeito, ousavam dizer-lhe palavras que me feriam o coração e o amor proprio, ao mesmo tempo. Restava-me, ao menos, em meio de minhas amarguras uma consolação: e era que, dado que V. Ex.ª me não visse a alma atravéz do silencio, me não julgaria um frivolo namorador, sempre a ponto em dizer palavras banaes. E ainda outra consolação mais me lisongeava: era ver que V. Ex.ª, se me desprezava, ou me não via, não prestava maior attenção ás pessoas que a cortejavam, sabendo eu que o proposito de algumas era tão honesto quanto eu quizera que minhas irmans, se as eu tivesse, o merecessem.
--Eu nunca dei occasião a que me fizessem propostas de natureza nenhuma--interrompeu a luveira.--Digo-lhe isto, snr. Baldaque, para o despersuadir de que tenho a vaidade de haver rejeitado propostas que o mundo chama partidos vantajosos.
--Sei isso...--acudiu Raul, algum tanto abatido da coragem com que ia discorrendo, por inferir da interrupção assomado orgulho.--Sei isso...; e, porque o sabia, contive-me, aconselhado pelo desengano dos outros. Mas, apezar de tudo, talvez me illudisse a vaidade de me suppor mais digno do que elles, porque eu sentia por V. Ex.ª a veneração, que não impediu que os outros se declarassem. É isto a unica distincção que me deve singularisar; pois, sendo natural que todos amem uma senhora bella no semblante, no coração e no espirito, nem sempre succede que a paixão se deixe abafar pelo acatamento. Agora, porém, minha senhora, já não haverá nada que me empeça de lhe revelar em poucas palavras todas as minhas meditaçoens de seis mezes; mas, se V. Ex.ª me está ouvindo constrangida... se me confunde com os homens que a importunaram com phrases mais ou menos similhantes ás minhas, então diga-me que me escuta por mera delicadeza...
--Por mera delicadeza o estou ouvindo--disse serenamente D. Maria José.
--Pois bem...--tartamudeou o moço empallidecendo--calar-me-hei... Mas...--volveu elle, passados instantes em que o rubor succedeu á pallidez.--Mas... V. Ex.ª perguntou-me ha pouco:--que importava que eu fosse rico?--E eu disse-lhe que tinha medo de responder. A snr.ª D. Maria José animou-me a explicar-me; e antes que eu chegasse á justificação, emmudece-me, declarando que me está ouvindo, porque é delicada! Se fosse tão boa de coração quanto é melindrosa, não m'o dizia tão seccamente... antes havia de permittir que eu me desculpasse d'umas palavras innocentes que lhe deram de mim conceito injusto e máo.
--Máo conceito, não, senhor--emendou D. Maria--pareceram-me apenas uma impertinente phrase que só violentada podia entrar na nossa conversação. Eu dizia-lhe que o snr. D. Miguel é infeliz; e V. Ex.ª respondeu-me que era rico. Figurou-se-me que me considerou medianeira nas esmolas que se pedem para elle...
--Errou, minha senhora--retorquiu Raul, fortalecido pela pureza nobilissima das suas tençoens.
--Então, seja generoso em me desculpar, e creia que por interesse, e não por civilidade desejo ouvil-o.
Baldaque, após uma longa pausa, em que denotou no rosto penosa inquietação do animo, disse verdadeiramente conturbado:
--Já não posso...
--Não póde!?--sobreveio a luveira com ares de incrédula.--Então não póde? porquê? Isso faz-me desconfiar que...
--Desconfiar?...
--Sim, desconfiar que V. Ex.ª, em sua hesitação, me dá a perceber a difficuldade de combinar o respeito, que me tem, com a explicação que me ia dar da sua riqueza. Se assim é, agradeço-lhe mais o silencio que a explicação... Deixemos no escuro o seu segredo e esqueçamos o que houve de mais nas suas revelaçoens. Entretanto, snr. Baldaque, não lhe direi que vou ser com V. Ex.ª mais sincera do que fui com outras pessoas de quem me não aggravo nem me orgulho. Com essas pessoas a minha evasiva foi o silencio, sem desdem nem menos preço. Com V. Ex.ª não será assim. Serei verdadeira, porque vou responder ao que me disse e talvez até ao que formou tenção de me dizer. No dia em que abri esta loja de luvas, estabeleci com a sociedade as unicas relaçoens compativeis com este modo de vida. Não escolhi esta posição, calculando outra melhor. Não pensei puerilmente em prender admiraçoens de espiritos extraordinarios que folgam de matizar os actos vulgares da vida com o ouropel da poesia. Esta loja, com uma pobre mulher que tira d'aqui o seu parco sustento, não é romance, é occupação ajustada ás minhas faculdades e aos meus recursos. Eu poderia optar por encargo mais senhoril e lucrativo; poderia ensinar nos collegios as linguas que estudei, e algumas prendas que vou deixando esquecer como inuteis; poderia; mas o contacto com a sociedade assustava-me; a convivencia de mestra com as discipulas privar-me-hia dos confortos da alma que esperava achar e achei neste viver obscuro: é a soledade, o estar sósinha o maior numero das minhas horas, o desprendimento de cuidados que me forçariam a sahir de mim mesma, se eu quizesse dar boa conta do meu prestimo salariado á educação de meninas. Sei que me desempenharia mal por não poder, com este espirito que tenho egoista de sua tristeza, prestar attenção aos sagrados deveres de quem educa...
--Mas V. Ex.ª...--interrompeu Baldaque.--Perdão!... receio ser indiscreto, fazendo-lhe uma pergunta...
--Queira dizer.
--Se ouso perguntar, é porque muita gente diz que V. Ex.ª herdou...
--Esta casa e nove contos de reis em inscripçoens.
--Nove contos de reis em inscripçoens...--volveu receioso o filho do millionario--não bastam para quem tiver aspiraçoens menos modestas que V. Ex.ª; mas... o rendimento d'elles, creio eu, dispensariam a snr.ª D. Maria José de dirigir este negocio tão pouco lucrativo; e, se me concede dizer mais, bem podéra V. Ex.ª, afastando-se inteiramente da sociedade, gosar as suas horas todas de solidão, poupando-se ás lagrimas que ha pouco vi explicarem o seu sorriso... Peço outra vez perdão, se me excedi nestas observaçoens á sua vida intima.
--As observaçoens são justas--respondeu tranquillamente D. Maria--mas eu não tenho hoje de meu senão esta casa e o valor dos objectos desta loja. A indagação de V. Ex.ª deve satisfazer-se com saber isto, e nada mais. Se mais alguem o sabe, não ha razão para que eu esconda a minha pobreza d'uma pessoa já convencida de que eu desejo ser pobre.
--Ó minha senhora!... nem mais palavra hei de proferir a tal respeito...
--A minha pobreza é voluntaria, reflectida e aprazivel--continuou a filha de D. Miguel. Quem tiver pena de mim, usurpa a sua commiseração a quem a merece e necessita... Ha pouco me disse V. Ex.ª que eu não dei valor ás generosas propostas de cavalheiros abastados que me pretendiam com honrosos intentos. Não dei valor á opulencia que me offereciam; mas ao sentimento que os moveu a favorecer-me sou muito grata. Eu desejava que para cada mulher mal-afortunada sorrisse a ventura dos casamentos ricos. Deve ser muito cubiçada similhante felicidade, porque tenho visto o espanto, e talvez o despeito, no rosto das pessoas cuja riqueza eu me dispensei de apreciar. E a mim, ao mesmo tempo, parecia-me indiscrição e mediania de polidez vir aqui alguem obrigar-me a ser indelicada para evitar exposiçoens de affectos, que só então me faziam pensar na inconveniencia de ser luveira.
Dona Maria sorriu, passou a mão alvissima pela fronte, deteve n'ella a cabeça como quem revoca idéas fugitivas, e proseguiu:
--Snr. Baldaque, cheguei ao fim do que deve saber de mim propria. Escolhi esta posição. Se sahisse d'ella, attrahida por bens de fortuna, a minha alma teria pejo de sua baixa indole. Ha sacrificios que tem glorificaçoens intimas e ineffaveis. São dôres que os pacientes não querem consoladas; são as rozetas dos cilicios que as creaturas delirantes de amor divino apertam mais, quando é maior a angustia. Ha penitencias moraes muito parecidas com as voluntarias macerações das santas. Nem a penitente acceitaria os supremos regalos deste mundo a trôco das suas disciplinas, nem eu trocaria a minha independencia, nesta solitaria e obscura distancia de theatros e bailes, pelo brilho que meus olhos cançados de chorar não supportariam.
--Comprehendi, minha senhora... disse Raul, revelando a magua no tremor da voz.--A palavra coração nem uma só vez appareceu entre as phrases glaciaes com que me repelle. Ha poesia sublime e santa no mysterio que lhe nortêa a existencia; mas, nas suas estrellas, no céo das suas visoens, estrella de amor não brilha nenhuma... Como havia de V. Ex.ª comprehender-me, se eu, articulando em soluços as minhas confissoens, seria como o infeliz que exhora uma divindade de marmore, e não a alma apaixonada que pretende communicar o seu ardor a outra alma?... As minhas confidencias não poderiam ser ouvidas no alto ponto d'um sentimento incomprehensivel em que V. Ex.ª me esconde as suas phantasias. Eu sabia que tinha posto os olhos da face e os da alma na mulher virtuosa; mas tambem cuidava que as excellencias do espirito não matam de esterilidade as flores, do coração. Na sua edade, snr.ª D. Maria José, ha almas devastadas, que, desde o baixo positivismo do descrer, vingaram, por effeito da fé ou da graça divina, desferir nas azas da piedade altos vôos até pousarem no seio de Deus; essas, porém, sei eu que lá mesmo do céo devem chorar sobre as illusoens perdidas da terra. Sei que ha almas assim cahidas e resgatadas; mas sobre as cinzas de minha mãe irei jurar que na pureza do rosto, na serenidade do olhar, na virtuosa altivez de suas palavras, minha senhora, lhe transluz a vida inteira, sem nodoa, sem laivo escuro que ahi deixasse o anjo maldito do desengano. Nenhuma esperança lhe foi mentida, nenhum desejo lhe foi malogrado. V. Ex.ª não desejou nem esperou as felicidades que espera e deseja a mulher na flor dos annos. Se alguma hora sentiu estremecimentos de amor, soffreou-os com a violencia da sua justa vaidade...
--Vaidade!--interrompeu D. Maria--Vaidade!
--A palavra não é esta;--insistiu Raul com firmeza--ha outra mais bem cabida, mais senhoril; mas tambem menos desculpavel em nossos dias de luz, de expansão e de guerra victoriosa aos preconceitos...
--Diga a palavra... Não se constranja...
--Orgulho do seu nascimento--obedeceu elle receioso.
--Louvo-lhe o coragem, snr. Baldaque. Se disfarçasse a idéa, não conseguiria enganar-me. Agradeço-lhe a franqueza. Tenho orgulho, é verdade, tenho muito orgulho de ser filha do principe pobre, do principe desterrado; e, cortejada á beira do throno de meu pae, talvez o não tivesse. Tenho orgulho de me ver abatida, e tenho pezar de não haver compartido das amarguras do grande infeliz. Quando elle soffreu extremas necessidades nos primeiros annos do seu desterro, ainda eu via nas salas e guarda-roupa de minha mãe valiosas reliquias de uma opulencia que não havia sido d'elle, nem do estado, nem da casa do infantado, nem das extorsoens feitas a uma nação arruinada. Se essa opulencia subsistisse áquella hora em que fiquei orfan, eu venderia até o leito de minha mãe para o soccorrer, e ajoelharia á divina Providencia, exhorando-lhe que me deixasse ganhar o pão de cada dia, e permittisse que a miseria se abraçasse com a dignidade, e as lagrimas, se era precizo choral-as, me não sahissem impuras do coração. O meu orgulho já vê, snr. Raul, que principiou assim: principiou como começa a humildade de muita gente desafortunada. Filhas de reis haverá muitas que se julgariam aviltadas pelo trabalho; e eu soccorri-me do trabalho humilde para sustentar o meu orgulho de filha d'um rei. A mulher que se dá a fidalga distincção de igualar-se á plebe, reservando para si a superioridade de agradecer com um sorriso as offensas inevitaveis nas posiçoens humildes, não se lembra que é neta de reis para ter orgulho. Mas esta palavra é aspera, é negativa da virtude, sôa rispidamente aos ouvidos da moral christan. Tambem aos meus. Se a consciencia me não dissesse que ella exprime innocentemente o conceito que de mim fórmo, pediria a V. Ex.ª que antes lhe chamasse energica hombridade, vigor de caracter, condição excentrica e singular, se quizer, mas defeito de coração seria injustiça attribuir-m'o. Orgulho de pobreza, sim; mas sem as irritaçoens do orgulho plebeu; sem a cupidez infernada na alma. Tenho uma ambição, mortificante mas inoffensiva, uma ancia, que, se é peccaminosa, as lagrimas, que ella me faz chorar, de certo me tem lavado a alma das suas impurezas. Esta ambição é um desvario de enfermo que se estorce no ardor da febre; mas é peor ainda;... que as minhas agonias não devem revelar-se, são profundas, abafo-as, escondo-as de todos; porque estou sósinha n'este mundo; e tão desgraçada que não acharia allivio algum em confidencial-as... Expliquei-lhe o meu orgulho--concluiu D. Maria José, sorrindo e bebendo as lagrimas ao mesmo tempo.
E, volvidos alguns segundos, como Raul, embebecido na contemplação d'aquella mulher, em que duas formosuras pareciam deslumbrar-se, não proferisse um monosyllabo, disse ella, amaciando a aspereza da pergunta, com a brandura do tom:
--Chamou-me orgulhosa do meu nascimento, snr. Baldaque. Eu confessei que sou; e, olhe, tenho uma qualidade mais reprehensivel ainda... quer que lh'a diga?
--Outra virtude?
--Outro defeito... Sou soberba.
--Soberba!...
--Sim, disto que vê: d'aquellas luvas, d'aquellas camisas, d'estas farraparias que me rendem as preciosas galas que eu preciso para sustentar a minha soberba.
E terminou por um frouxo de riso indescriptivel, talvez um gemido convulso, um regolfo de lagrimas que se retrahiu ao coração.
N'este lance, entrava uma criadinha com duas latas, de feição de marmitas, nas quaes ia o jantar da luveira, comprado em uma taverna das portas de Santo Antão.
Raul, com olhos turvos e voz tremente, apertou a mão de D. Maria José de Portugal, murmurando estas palavras de modo que a criada as não ouvisse:
--Eu não a mereço... mas hei de amal-a como um escravo, que eu tive, me quer e ama ainda hoje. E assim como o amor do escravo me faz bem á alma, póde ser que o meu amor seja na vida de V. Ex.ª um sentimento suave.
E sahiu.
José Parada, e os convivas de Raul de Baldaque e eu não duvidamos assacar ao amador da luveira os estimaveis defeitos que dão quilate superior a quem faz praça d'elles com a invulneravel petulancia da riqueza. Julguei-o mal á primeira vez que o vi galhardear-se com tregeitos e garridices incompetentes de rapaz sisudo. Além de que, na altania do seu olhar, no sobrecenho arrogante com que mediu as minhas modestas dimensoens, emfim n'aquelle hirto aprumo da sua catadura, eu, illudido pela experiencia de dezenas de exemplares de tolos que me trazem desconfiado, conjecturei que Raul hão tinha dotes que podessem inliçar o affecto da filha de D. Miguel, a não ser a sua pessoa tafulamente vestida, o urco do seu phaeton, e o alardo de uns presumptivos mil e tantos contos.
Este rapaz escolhêra o peor expediente para se fazer acceitar na estima dos seus conhecidos em Lisboa. Deu-lhes jantares cuja magnificencia inculcava proposito de ostentação; e, não contente da vangloria de ser rico, desvanecia-se em exceder nas graças de espirito os seus contubernaes. A reputação de nescio crearam-lhe estes. Havia na calumnia o ignobil intuito de se arranjarem com a consciencia que os arguia de parasitas; e o accôrdo, que elles faziam com a sua dignidade beliscada, era imaginarem-se «disfructadores» do parvena.
Póde ser que o filho do conde de Baldaque, alguma vez ou todas as vezes que presidiu ás suas ceias irritantes e escandecentes no Matta, quer inflammado pelo ardor natural da sua compleição, quer exagitado pela perfidia dos licores, se demasiasse em basofias de galan, relatando com indiscreta jactancia proezas fameaes, mais ou menos phantasmagoricas. Os seus commensaes, mordidos no orgulho nacional, de mate forçoso deviam trocar-se aquelle geito de olhar de soslaio com que o despeito convencionalmente se dá a mascara de disfructe. Não sei até que ponto o sensato idolatra da luveira havia direito á fatuidade de afortunado em jerarchias somenos da filha de um Bragança, mas tanto ou quanto aparentadas com a sua real amada. Como quer que fosse, os seus amigos apregoavam-no petisco infinitamente brazileiro; e as suas amigas, com aquelle fino faro de que são prendadas as damas menos candidas, por tal arte o haviam conceituado que todas as aventuras contadas, em estylo de _roué_, vinham a ser o mais desgraçadamente exactas que é possivel;--desgraçadamente, digo, porque eu desejo que no seio das familias, que respeito, não sejam sómente conhecidas as tres virtudes theologaes.
Se as entranhas d'aquelle rapaz de vinte e seis annos estavam canceradas; se as suas victimas lhe resvalavam do seio de gêlo á sepultura levadas em lagrimas torrenciaes, não sei, nem o diria quando o soubesse; que este livro não é obituario. Contra quem me levanto, é contra mim proprio, porque, á primeira intuição, o aquilatei no vulgar dos rapazes ricos, libertinos, e cansados.
Não fundamento esta retratação e protesto unicamente na sensibilidade, polidez, e atilado accento de suas palavras á luveira, por tanta maneira louvaveis que, sendo apaixonadas, não desatremam da prudencia, e podem ser dadas como exemplar de colloquios do paço dos nossos reis e senhores.
O meu protesto cimenta em bases que não podem dar de si. É o estylo. Quem falla d'aquelle feitio a linguagem portugueza,--quem ama com todas as partes da oração em concordancia irreprehensivel, poderá, por inveja ou injustiça grave, não ser mencionado nos _Logares selectos_; mas tolo é que não pode ser.
Ora agora, se amar luveiras regiamente phantasticas, com tamanho siso e tão desusada reverencia, é hoje em dia argumento contra a sanidade intellectual de um homem que representa mais de dois milhoens, isso é outra questão que ha de ventilar-se opportunamente.
IX
DAMIÃO RAVASCO
A pelle é feia; mas o sangue que gira dentro é estimavel.
EURIPEDES, O Cyclope, acto IV.
A gravidade fria e desanimadora de D. Maria José de Portugal não vingou despersuadir o filho do conde. As visitas continuaram com a mesma quotidiana assiduidade, bem que menos demoradas. Raul Baldaque, ao reverso do que era natural, em vez de ganhar alento e desembaraço, depois que tão resolutamente se manifestára, tornou áquella timidez de collegial, vencida no impeto da paixão.
Ás vezes, o abatido moço sahia confuso e como corrido de sua tibieza, pedindo aos proprios brios que o salvassem de tão ridicula, senão indecorosa pusillanimidade. Desconfiado, porém, da inefficacia do seu pundonor em assumpto de per si rebelde a razoens de orgulho, formava a só comsigo venerandos juramentos de sacrificar a chimera da luveira á realidade do seu alegre viver de rapaz. N'estes protestos fazia elle entrar a sacratissima memoria de sua mãe; imagem que raramente lhe passava diante dos olhos do espirito sem lhe deixar no coração bons sentimentos e um suavissimo ideal da felicidade humana estreme de dissabores, tedios e remorsos.
Mas a querida imagem, invocada a solemnisar o juramento, não lhe antepunha mulher que offuscasse a filha do infante. A deparar-lh'a, dar-se-hia o unico milagre possivel n'estas conjuncturas, milagre aliás frequente, quando as mulheres queridas não tem comsigo a predestinação da luveira, e o iman tresdobradamente portentoso da formosura, do talento e do espirito, sem fazer menção do mais feiticeiro filtro que ha ahi n'isto de magia amorosa, que vem a ser a esquivança da que é adorada, um não-querer de exempta, uma delicada repellencia que a um tempo vos alanceia coração e amor-proprio.
As conversaçoens de Raul e D. Maria versavam, ás vezes, sobre occorrencias politicas d'onde derivou a guerra civil funesta ao rei absoluto. D. Maria José, sem ousar arguir as imprudencias do pae, lamentava que os seus conselheiros não fossem mais esclarecidos do que elle, cuja educação apoucada o obcecara em meio das alvorejantes idéas do seu seculo. Discorrendo varonilmente ácerca da historia das luctas entre a democracia e o privilegio, concatenou os successos que precederam a revolução de 1820, e justificou as resultas de que seu pae devia ser a victima, em castigo de prestar-se a representante passivo dos ambiciosos estupidos que lhe aconselharam a transgressão do juramento feito.
Baldaque saboreava-se não do tom preleccionador da dama, que não o tinha; mas da feminil suavidade com que ella simplificava, em breves e claros termos, passagens da historia patria, na maior parte ignoradas do brazileiro.
O leitor, que esvoaça em regioens diaphanas onde se não condensam vapores crassos de historia, dispensaria que a inspiradora das suas lyricas lhe referisse chronologicamente os annaes de D. João VI no estylo flatulento de mestra regia bem saturada da philosophia do historiographo snr. Moreira de Sá, ou qualquer Niebuhr da sua estôfa. Quero até persuadir-me que o leitor anemico, e avêsso a iguarias condimentosas, rejeitaria mesmamente a senhora de espiritos assás metricos que lhe leccionasse os fastos lusitanos em estancias do snr. conselheiro Viale, poeta voluptuoso como gondola veneziana, vista da Ponte dos Suspiros, a balouçar-se cheia de... repôlhos.
Dou-lhe razão.
O amor seria divindade indigna das lagrimas que se lhe choram nas aras, se algum peito succubo d'elle podesse acceitar liçoens de historia como flechas do seu carcaz.
A ignorancia, mais ou menos absoluta, é uma das clausulas que nos impõe á nossa servidão o filho da deusa viciosa, cuja illustração não poderia medir-se com a da senhora Dona Canuto, Venus Urania, se é forçoso mitifical-a--ou outra capacidade menos provada.
No adro dos templos do frécheiro não demandemos philosophos eructando azias hegelianas, nem jurisperitos polvilhando a ambula dos perfumes com o vinagrinho que lhes espirita o cerebro resentido da cegueira da justiça. O que lá se nos depara, em redor dos pagodes do deus cego, é gentio a rir e a chorar, que ora se postra supplicante, ora se espoja em desbragada alegria.
Amor spasmodico, amor macabro, amor epileptico. Ha d'estas tres castas d'amor na zona luminosa da mulher peregrina. O spasmodico é o comtemplativo; o macabro é o que salta e se estorce nas vascas voluptuosas do deleite; o epileptico é o que escabuja debaixo da garra da perfidia. Ha uma quarta especie d'amor, do qual ninguem faz livros porque é a mais analphabeta: é o amor de mercearia, o amor sebaceo e rubido como o burril antigo o immortalisou nas cascatas, e no coração de nossas avós. Encontra-se esta reliquia dos tempos honestos no terceiro andar das familias cujos chefes labutam nas suas tendas. Está sentado na travesseirinha do leito nupcial, brincando com os folhos e borlas azues da almofada. Resfolega, por bochechas de cravelina, frouxos de riso á esposa, quando ella, depois da ceia, desaperta os nastros da ceroula conjugal, emquanto elle encarapuça o marido no barrete de dormir. Não temos que entender com algum d'esses amores n'esta chronica, exceptuado o primeiro, o spasmodico. Nem Stendhal creou adjectivo tanto ao ponto. Deixemo-nos de crystallisaçoens. Spasmos, macabrismos e epilepsias--é o que ha. Mais nada.
Raul de Baldaque estava, pois, escutando as narrativas da luveira em arroubos que sobreexcedem os de um alumno de boa fé absorto a escutar o snr. João Felix Pereira, quando arenga ácerca de Herodoto.
Em uma d'essas tardes de innocentissimo prazer, entrou na loja de D. Maria José um mulato offegante, com os olhos vidrados de lagrimas, e exclamou em soffocativas intermitentes, dirigindo-se a Raul:
--Menino, venha depressa a casa... venha depressa... que o snr. conde...
--Que é, Damião?!--interrompeu Raul--que tem meu pae?...