O Carrasco de Victor Hugo José Alves
Chapter 3
--O capitão da carta? Tens razão; era esse... Pois dizes bem; o que ella quer dizer é isso. Anhelo é amor. Ora espera, mana... Eu tambem agora me estou a recordar de não sei quem que me dizia que eu era os seus anhelos, ou anhelitos... Não sei se era aquelle tenente de marinha que nos deu de almoçar na barcaça dos banhos, se era o Januario da rua dos Fanqueiros...
E, reparando na melancolia da irman, disse adocicando o tom:
--Estás triste, mana! Já sei o que é... Lembrei-te o Peixoto... Se eu soubesse...
--Ai!--suspirou Rozenda pondo a mão no lado esquerdo do peito--Ainda aqui me palpita por esse ingrato! Quando o encontro ainda não sou senhora de mim! Se amei alguem n'este mundo, foi elle! Dizias-me tu, quando o perfido se casou, que o melhor systema era o teu:--amar outro até esquecer aquella pessoa. Bem quiz... mas vou-te agora confessar que nem o deputado Elias me fez esquecer o Peixoto!...
--Não é tanto assim, mana...--emendou Euphemia.--Já depois andaste muito apaixonada pelo conego Antunes, pois não andaste?
--Gostei d'elle--respondeu Rozenda langorosamente requebrada.--Não desgostei... mas amar de paixão foi só uma vez... Ai! o Peixoto! o Peixoto! não sei que feitiços me fez!...
Concentrou-se largo espaço com os olhos vidrados de lagrimas, e exclamou por fim com abrupta cólera:
--Canalhas! O Elias, quando depois foi ministro, pedi-lhe que me arranjasse uma pensão já que o meu defunto Alves perdeu tudo na politica dos Cabraes, e nada me fez o patife! O conego Antunes, quando foi despachado bispo para o ultramar, pedi-lhe que fallasse aos ministros na minha pretenção, e safou-se sem me dar cavaco! Corja de tratantes! que tornem para cá!...
Não pareça caricatura a vaidosa precaução com que a snr.ª Picôa se resguarda ou finge acautelar-se das tentaçoens, escarmentada por varios casos funestos. As decepçoens experimentadas podem ainda aproveitar-lhe, se ella esconjurar os embellécos de um major reformado que protestou induzil-a a trahir certo professor de bellas-artes, cuja ternura, como se viu, não tapa os lacrymaes sempre gottejantes da saudosa Rozenda, quando lhe punge na lembrança a imagem do capitão da carta--aquelle Peixoto que lhe desfibrinou o melhor sangue do coração.
D. Rozenda não pôde ainda atravessar despercebida a corrupção do seculo. Tem quarenta e sete annos remoçados pelas madeixas postiças que lhe inquadram o rosto besuntado de posturas. Piza ainda com a firmeza e garbo de meneios que hoje em dia deshonestam o decoro de quem os usa; mas que, n'aquelle tempo, era o estylo das damas que haviam já florecido em 1834, e não mostravam desesperado empenho em ser citadas como exemplares de castidade. Favorecida pela magrêza que, no lapso de trinta annos, desilludira os enfeitiçados de sua elegancia, desde o seu defunto Alves até ao conego, desde o lyrico amador, que lhe chamava _anhelo_, até ao major reformado que lhe chamava o osso do seu osso, D. Rozenda estofava e boleava os musculos, mantendo a flexibilidade e donaire que muitas damas ainda viçosas perderam logo que os tecidos espessos refegaram e descahiram placidamente.
Lisboa, como todas as capitaes das naçoens que tem civilisação, gaz e ostras, encerra bastas mulheres da tempera de Rozenda, pomos menos prohibidos que sorvados, creaturas observantissimas, em demasia talvez, d'aquelle preceito colonisador com que Moysés justifica Rozenda e as outras philogynias dadas ás contemplaçoens geneticas.
Isto de acabar cedo para o erotismo, o esfriar do sangue, o atrophiar dos nervos, é triste condão das mulheres provincianas.
As que viveram cinco annos da mocidade, curvadas sobre o berço dos filhos, estillaram no seio d'elles todo o seu coração, bafejaram-lh'o nos beijos; o namorado brilho dos olhos desluziram-lh'o as lagrimas de uma noite desvelada á cabeceira de creancinha enferma; sorrisos de amor ou desdem perderam a doçura ou o agro,--já a ninguem enlouquecem de jubilo ou desesperação: é um sorrir para filhos e para Deus que lh'os ha-de manter e guiar. Isto é formoso e santo; mas as mães assim envelhecem cedo; as cores do rosto esmaia-lh'as o gear interno; não lhes esmalta a vida uma restea do sol da alma, não as desperta o alvoroço de sonho apaixonado, nem a esperança lhes enxuga nas palpebras cerradas uma lagrima de saudade. Ninguem as vê, ninguem as ama; porque, na voluntaria abdicação da mulher esquecida de si, e toda absorvida nas graças das vidas que estremece, ha uma glacial repulsão que não deixa aquecer em peito de homem desejo impuro. Os filhos, que a rodeam, são uns como que baluartes sagrados. Primeiro amor e ultimo, maternidade, insulação, muitas maguas, raras alegrias, uma primavera com flores abertas, e logo fenecidas; e depois, memorias sacratissimas, e a posteridade que attribue a sua honra á benção da alma digna do céo.
Ó Lisboa, que vantagem levaria a tua civilisação á das provincias, se lá houvesse duas d'estas mulheres, além d'uma que é decerto a esposa do leitor!
VI
O SANTO CORAÇÃO DE FILHA
Tu lanças de ti tres raios: Belleza, innocencia, aurora.
GUILH. BRAGA, Heras e Violetas.
Acudiu pressurosa Rozenda ao chamamento de D. Maria; e, para logo mostrar á conspicua menina que lhe percebera as figuras do estylo, entrou exclamando ridentissima:
--Com o amor não se brinca, minha querida menina. Quando o coração empurra, a cabeça vae para diante. A gente, por mais que faça, não resiste ao que tem de ser. E máo é que nos amem; que nós, frageis por natureza, mais hoje, mais amanhan, amamos quem nos ama, não acha?
D. Maria José, fitando os explendidos olhos na illuminada e tregeitosa cara da snr.ª Picôa, quedou-se pasmada sem perceber nem responder. A mulher anhelada do capitão da carta, attribuindo a pudor o silencio espantadiço da menina, continuou gesticulando como creatura de ralé, que não houvesse sido polida pelo deputado Elias e pelo conego Antunes:
--Não se acanhe, que eu bem sei o que é um coração de donzella. Já por lá passei; e, pudesse eu voltar aos dezoito, que escolheria onde quizesse e me fizesse conta. Eu sempre gostei dos homens sabios; mas, como não amei senão o meu Alves, fiquei sem saber o que é a satisfação de estar uma senhora constantemente a ser adorada de um poeta. O meu defunto não era tolo; mas tambem d'isto de sciencias e escrever nas folhas não sabia nada. E, veja o que são as coisas, o meu Victor Hugo sahiu esperto como a menina vê e o sabe apreciar melhor que eu! Dizia-me a este respeito o deputado Elias, que foi meu hospede--a menina bem se lembra d'aquelle deputado baixo e gordo--pois dizia-me elle, muito admirado do talento de Victor, que o menino havia de vir a ser em Portugal uma coisa grande. E eu por amor disso, não me poupei a despezas: mandei-lhe ensinar tudo quanto ha... Ainda bem que elle achou uma senhora que lhe soube dar a devida estimação!... Ha muitas meninas em Lisboa que namoram asnos--perdoe-me a expressão que não é muito civilisada. O que ellas querem é chelpa, e marido seja lá como fôr. São raras as que sabem apreciar a poesia e os dotes de um rapaz fino. Graças a Deus que o meu Victor Hugo amou quem é digna delle! Cheguei ao que tanto desejava... Vou ter uma filha que me ha de dar netos muito lindos... Se não fosse ser ella quem é, eu não queria ainda ser avó...
D. Rozenda cascalhava umas casquinadas com o mais desgracioso e tolo artificio, quando D. Maria perguntou serenamente:
--Então o snr. Victor vae casar?
--Se vae casar!--acudiu Rozenda estupefacta--Pergunta-me isso a menina?
--Sim, minha senhora... Pois não acaba de me dizer que seu filho encontrou uma menina que o sabe apreciar!?
--Ora essa!--tornou a mãe do poeta, avincando o sobrôlho--ou a senhora está a desfructar-me, ou estou doida varrida! Pois a menina não me escreveu uma carta...
--Sim, escrevi, pedindo-lhe o favor de aqui chegar...
--Para me contar os seus anhelos...
--É verdade, para lhe contar que sou feliz com a certeza de que posso ser util a meu pae, que recebe esmolas dos portuguezes... envergonhados de estar um principe portuguez mendigando o pão estrangeiro...
--Ah!--atalhou Rozenda, prolongando a exclamação á medida do seu azedume mal disfarçado--Então, pelos modos, a menina quer dar o seu dinheiro ao snr. D. Miguel?!
--Com a melhor vontade e o mais inteiro contentamento. Nunca me senti feliz como hoje. Imagino que cada pessoa deve receber dos thesouros do céo egual porção de bens da alma, de alegrias puras. A uns sorri a fortuna em gosos de cada dia; a outros, em meio de muitos annos lutuosos que passaram e de outros escurissimos que hão de vir, abre-se-lhes o céo em subitas torrentes de felicidade, que trazem comsigo em uma hora todos os jubilos de longa vida satisfeita.
D. Rozenda abria a bocca a vêr se percebia, emquanto D. Maria de Portugal continuava:
--Foi Deus comigo liberal e justiceiro, dando-me esta occasião de poder mandar a um rei sem throno, e a um principe portuguez sem tecto que o cubra nos paços dos reis seus avós, recursos que devem ser valiosos para o indigente que os pede; e confio que elle os receba sem pejo porque lh'os manda uma filha.
--Então a menina--repisou D. Rozenda em tom reprehensivo--quer dar o que tem e ficar pobre!?... Estou passada! Que tenciona fazer depois, não me dirá? Sim... pergunta a minha curiosidade, depois que der as suas inscripçoens e a sua casa, para onde vae?
--Eu ainda lhe não expliquei todo o meu pensamento...
--A snr.ª D. Maria José tem o coração de uma pomba;--proseguiu a snr.ª Picôa, desdenhando a interrupção explicativa--mas ha de dar-me licença que eu lhe diga que não tem juizo para regular a sua vida... Coração toda a gente o tem; mas cabeça... isso é raro.
--Eu lhe respondo, snr.ª D. Rozenda--insistiu reportadamente a filha do snr. D. Miguel, soffreando a redea aos instinctos soberbos que por natureza e raça lhe deviam beliscar o pundonor.--A minha tenção não é mandar a meu pae tudo quanto possuo. Elle mesmo receberia com desprazer, se o não recusasse, o beneficio de uma mulher que depois da sua imprudente liberalidade, se expozesse aos aviltamentos que marêam a pobreza, e a não deixam mostrar-se á luz a que as senhoras opulentas costumam alumiar as suas virtudes. Repito, minha senhora, não dou ao snr. D Miguel tudo que possuo; mas decerto lhe darei tudo que me sobra. Eu vivo com pouco. A minha amiga sabe que os meus alimentos e vestidos não requerem grandes despezas; mas, ainda que eu estivesse habituada ás pomposas superfluidades da dispensa e da guarda-roupa, corrigiria as loucas demasias, logo que soubesse que meu pae pedia aos homens de quem foi rei os sobejos da minha mesa e do meu toucador.
--Mas...--interrompeu D. Rozenda com ar de quem entendêra.
--Deixe-me dizer o resto, e depois ouvil-a-hei com prazer, minha senhora. Tenho esta casa e nove contos de reis em inscripçoens. A casa não a dou por ora, mas dal-a-hei tambem, se meu pae carecer do valor d'ella, e irei servir, se com o meu abatimento e baixesa puder obstar a que o aviltem. O producto das inscripçoens quero enviar-lh'o, excepto a quantia precisa para eu abrir n'esta casa um estabelecimento de luvas.
--Luveira!--bradou D. Rozenda persignando-se e exprimindo pausadamente as palavras da cartilha--Luveira! a filha do snr. D. Miguel! Ó céos, que escuto! Que dirá sua mãe no outro mundo se a vir a fazer luvas!
--Minha mãe, se me vê do outro mundo, ha-de abençoar-me--respondeu placidamente D. Maria José.--Não ha trabalho deshonroso, nem ociosidade honrada, snr.ª D. Rozenda!... Que dirá minha mãe no outro mundo, disse a senhora! Pois eu não sei a vida de minha infeliz mãe nos seus ultimos annos! Não a conheci apparentemente rica? Não vi sahirem da cocheira a carruagem e os cavallos penhorados? Esqueci eu já que minha mãe teve um hotel, e que nem ahi, em tão obscura e humilde paragem, a desfortuna deixou de a perseguir? Que mais brasoens tem a hospedaria que a loja de luvas?
--Faz differença...--explicou D. Rozenda em desaffronta do seu hotel na travessa do Estevão Galhardo--faz muita differença, muitissima! A dona d'um hotel está nas suas salas, no seu escriptorio, tem criados que servem, e dispensam de tratar cara a cara com os hospedes, percebe? A menina bem sabe que eu nunca admitti á minha mesa, senão o deputado Elias, que depois foi ministro, e o conego Antunes, que depois foi bispo. Eram dois cavalheiros que me tratavam com o maior respeito, e nunca me disseram a menor desattenção n'um tempo em que eu não deixava de ser galantinha. Ora, agora, uma luveira é outra coisa. Tem de estar ao balcão á espera de quem vem. Entra um, entra outro, chalaça d'aqui, chalaça d'acolá, faz lá idéa?! E, quando se tem a cara da menina, imagina lá os atrevimentos que lhe hão de dizer os rapazes, ainda que saibam que a menina é filha de quem é? Hoje em dia, não se respeita senão o dinheiro... Luveira! a snr.ª D. Maria José de Portugal luveira! Sabe que mais? A menina leu tanto que tresleu! Essa sua idéa faz-me lembrar o theatro onde apparecem passagens que não acontecem n'este mundo. Se leu em novellas algum caso d'esses, mande as novellas e mais quem as fez ao diabo, que não fica rico com o presente. Os romances são patranhas que perturbam as cabeças do sexo sem pratica do mundo, como bem dizia o conego Antunes. Emfim, minha senhora, o dinheiro é seu, póde atiral-o á rua, se quizer; mas eu, para desaggravar a minha consciencia de escrupulos, declaro-lhe que faz grande asneira, e perdôe a expressão, que não é muito civilisada.
E como D. Maria permanecesse largo tempo silenciosa, folheando distrahidamente um livro, D. Rozenda colligiu que a mudez era perplexidade, e talvez uma saudavel reconsideração, devida ao acêrto de suas razoens. Vaidosa pois do triumpho, ganhou fôlego e proseguiu:
--Quer a menina fazer bem a seu pae? Dê tempo ao tempo. Arranje-se primeiro. Case com quem saiba augmentar a sua fortuna, e depois reparta do que lhe sobejar; mas de feitio que os seus filhos não fiquem a pedir, por causa de serem netos d'uma pessoa real. Pois não é assim? Se a senhora D. Maria der o que tem, e se puzer a vender luvas, cuida que acha pessoa de teres que a queira para esposa, apesar de ser muito linda? Não ha de faltar quem a queira; mas a felicidade, que lhe ha de vir d'esses pretendentes, Deus m'a desvie da porta pela sua divina misericordia...
--Está bom!--cortou D. Maria José, com enfado e sobranceria.
--Não se zangue, minha senhora... O que eu lhe digo é o que sua mãezinha lhe diria...
--Não offenda a memoria de minha mãe, que foi uma desgraçada digna de respeito.
A viuva do mercador de couros sorriu então com um tão brutal esgar de bocca e olhos que fez transluzir no semblante de D. Maria a raiva de ver-se affrontada por aquelle tregeitar de beiços que lhe pareceram estar escarnecendo a memoria de sua mãe.
--De que se ri a senhora?--perguntou desabridamente.
--De que me rio? Pois a gente não ha de rir-se, quando ouve dispauterios? Em que offendi a memoria de sua mãe? Essa é boa! Então dizer eu á filha do snr. D. Miguel e da snr.ª D. Marianna Rolim de Portugal que não se faça luveira, é offender a memoria de sua mãe! Ora, minha senhora, não nos entendemos! A menina é sabia, lê livros e casos romanticos; e eu cá, a respeito de livros, basta-me a experiencia que não é máo livro, e o mundo que não tem pouco que ler... Emfim, minha menina, estou ás ordens de V. Ex.ª, e hei de amal-a sempre como filha, tanto me faz que seja luveira como rainha. Prometti a sua mãe, quando a fui encontrar nas agonias da morte, que, emquanto eu fosse viva, a menina, não passaria precisoens. E, se as não passou porque teve quem lhe désse uma mezada, tambem as não passaria, se nada tivesse de seu. Deus permitta que não; mas, se alguma, vez a snr.ª D. Maria José chegar á pobreza, ha de achar-me tão sincera amiga como fui e sou.
A menina, commovida e repêza da altivez, com que interrogára a amiga de sua mãe e sua gasalhosa hospedeira em annos perigosos, abraçou-a, pediu-lhe desculpa, e ao mesmo tempo protestou, soluçando, que não deixaria de soccorrer seu desvalido pae.
--Faz bem, faz bem, menina!--obtemperou Rozenda sensibilisada e, ao mesmo tempo, previdente.--Se seu pae voltasse ao throno...
--Nunca mais!--murmurou D. Maria com os braços pendidos e os dedos entrelaçados--nunca mais!
--Por que não?!--replicou a mãe do vidente, que assoprava á pira do fogo sacro no escriptorio da _Nação_.--Tenha esperanças, menina! Meu filho diz que o snr. seu pae ha de vir, e ha de ser elle mesmo, o meu Victor, quem o ha de pôr no throno!
--O snr. Victor é poeta...--volveu D. Maria, sorrindo melancolicamente.--Cuida que as phrases inspiradas pela justiça fulminam as iniquidades dos homens. Engana-o a miragem do genio, que se julga omnipotente. Os raios do talento não são como os do céo que vão direitos aos durissimos brilhantes e os pulverisam. A sociedade sabe e a experiencia mostra que os coriscos, arremessados contra os poderosos, apagam-se quando o resplendor do ouro os deslumbra...
--Sempre é muito esperta!--interrompeu D. Rozenda ingenuamente admirada--A gente esquece-se a ouvil-a, minha senhora! Quantas vezes o deputado Elias me disse que a menina havia de ser uma grande capacidade! O meu Victor Hugo diz tambem que a snr.ª D. Maria José, se quizer, póde idear novellas. Porque não dá a menina alguma coisa á luz? Escreva um romance de amores...
--De amores!...--obstou, sorrindo, D. Maria--como hei de eu escrever do que não entendo?
--Não entende!?... Boa vae ella! O amor não tem nada que entender. Quem ensinou os passarinhos a amar? não me dirá? A natureza tanto ensina os animaes como a gente. A menina, se não sabe, é porque não quer.
--Não posso, nem penso em tal. O amor só entra em coraçoens abertos ao contentamento. Alma em trevas não attrahe raios de luz tão intensos. O amor é como o sol que decerto não brilhará neste recinto, se eu conservar as janellas fechadas d'uma noite a outra noite.
--Ora deixe lá...--redarguiu em excellente prosa a quinhoeira do lyrismo do deputado Elias.--A snr.ª D. Maria José ha de pagar o tributo como as outras: se não fôr Sancho, será Martinho. O que a menina faz é o que eu tenho feito desde que enviuvei: não quer amar; isso lá percebo eu. Bem importunada tenho eu sido por pretendentes ás segundas nupcias, tantos como a praga dos gafanhotos do Egypto! Resisti e hei de resistir, porque jurei eterna fidelidade até á morte ao meu defunto Alves, apesar de elle me deixar pobre, sacrificando-me á politica cabralista. Lá se elle fosse esperto como o filho, ainda valia a pena deixar o negocio pela politica; mas, Deus o tenha á sua vista, aquelle perdeu-se por ser um toleirão! O meu Victor Hugo sahiu ao avô cá pelo meu lado, que dizem que era muito sabio meu pae de Povolide. Todos me dizem que o rapaz ainda pode ser ministro. Eu não engulo carapêtas; mas, quando me lembro que o meu hospede Elias chegou a ministro, sendo elle bom homem, mas muito tapadinho, diga-se a verdade, não me admira nada que meu filho, cedo ou tarde, venha a subir ao governo. Se o snr. D. Miguel viesse, a menina pedia-lhe que désse uma pasta ao meu filho, não pedia?
--As mulheres, minha senhora, quer sejam princezas, quer sejam luveiras, não devem intrometter-se nos negocios do estado. Se meu pae tornasse a Portugal, dir-lhe-hia eu que o snr. Victor soffreu vinte dias de carcere por amor d'elle.
--E o mais que elle soffrerá ainda...--ampliou D. Rozenda.--Acho-o tão incanzinado no partido realista, que, qualquer hora, estoura trovoada peior, que a outra. Os fidalgos trazem-no nas palminhas, e eu vejo-me atrapalhada para o vestir com mais luxo, porque elle vae a todas as casas principaes, e não me falla senão na senhora marqueza d'Abrantes, na senhora condessa de Pombeiro, de Redondo, da Figueira, Barbacenas, Pancas, etc. E bem vê a menina que quem gira nesta roda fina não se ha de ir vestir ao Nunes Algibebe por dez ou doze pintos. Deus sabe com que linhas cada qual se coze...
--Peço-lhe, minha amiga, que disponha do que é meu--disse a menina apertando-lhe a mão.
--Muito agradecida, minha senhora; por emquanto, cá me irei remindo, como puder. O que eu queria da minha menina para o meu apaixonado Victor, sabe o que era?--isto.
E, apontando-lhe ao coração, trejeitava com os olhos mui derramados e um pender de cabeça languescida--coisas e modos que muitas vezes deviam ter eschammejado vesuvios no deputado Elias e no conego Antunes.
--Tem de mim o snr. Victor--disse solemnemente D. Maria--o mais que posso offerecer a um irmão.--E logo, norteando a palestra n'outro rumo:--Ainda me falta pedir-lhe um favor, minha amiga. Queria eu que seu filho soubesse a maneira de eu remetter a meu pae tres contos de reis, que é o que posso liquidar das inscripçoens, tirando para mim o necessario para manter a minha lojinha de luvas.
--Ella cá torna com a mania! Então não muda de idéa?
--Não.
O tom imperioso e sêcco da resposta fechou o debate.
D. Rozenda sahiu, promettendo communicar-lhe o que seu filho lhe informasse quanto ao modo de remetter o dinheiro.
No dia seguinte, D. Maria, recebidas as informaçoens, entregou a D. Rozenda os seus papeis legalisados para a venda.
VII
OS TRES CONTOS DE REIS
Por entre o labio torpe e podres dentes, D'aquelle abysmo esqualido, que póde Sahir que não tresande!?
GOETH., Fausto Segundo--côro.
E n'aquelle tempo reinava em Portugal D. Pedro V--cidadão portuguez, que morreu honrado e sinceramente carpido.
Aquelle rei era triste, porque o sol ardente do espirito, o ardor da sciencia lhe crestaram o viço da juventude.
O conde da Carreira e outros pedagogos, que trajavam ainda calção e rabicho na alma, intouriram o animo do principe com iguarias indigestas, introvertendo-lhe para o viver intimo, em florescencias sem aroma, os gomos da mocidade que nunca desabrocharam perfumes de contentamento.
E, porque era triste, era bom, compadecido, esquivo a vanglorias, como quem sabia, que, nas naçoens livres e pobres, nenhumas ostentaçoens sobredouram o manto real senão as da reportada parcimonia e abstenção de soberanias extemporaneas.
Um regimen de governação, que facultasse ao rei amplas prerogativas, demonstraria que o primogenito da snr.ª D. Maria II era especulativo de mais para deliberar n'esta rasa missão de governar homens. O polyglotto snr. Viale inoculara-lhe empólas academicas, uns arrôbos já bastantemente serodios em glossas de mysterios dantescos, pelos quaes o principe, absorto entre o enigma da meia-edade e o enigma peior dos mestres, revelou predilecção impertinente.
Que farte sabia o previsto alumno dos pingues sabios que lhe não montaria ganancia alguma o estudo da sciencia de governar este manso povo, que lhe havia apedrejado o avô e rossado a injuria desbragada pela sombra da mãe impolluta. Nas angustias da snr.ª D. Maria da Gloria se lhe revelou a condição acerba de quem ha de ver homens e factos atravéz do prisma dos validos. Desde o padre Marcos até ao senhor do castello de Gualdim Paes, encadearam-se successos que mostraram ao meditativo principe o indeclinavel calix em que sua mãe lhe legara--para saudades e exemplo--o travo de suas lagrimas.
Por isso aquelle moço não provára as alegrias e regalos de sua edade e jerarchia.
Ao saír do sereno ambiente do gabinete de estudo para as borrascas da vida pratica, retrahia-se aos braços da chimera luzentissima que esvoaçava ás regioens sombrias da _Divina Comedia_--semsaboria immortal!--ou se librava nas nevoas de Macpherson,--immortal semsaboria!